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Prevenção do cancer de ovário

Published on: Mar 4, 2016
Source: www.slideshare.net


Transcripts - Prevenção do cancer de ovário

  • 1. 38 dezembro 2011/janeiro-fevereiro 2012 Onco& O CÂNCER DE OVÁRIO É O MAIS LETAL DE TODAS AS NEOPLASIAS MALIGNAS GINECOLÓGICAS. ME- NOS DE UM TERÇO DAS MULHERES ACOMETIDAS sobrevive cinco anos após o diagnóstico. A pre- venção do câncer de ovário constitui um dos grandes desafios da medicina, e por muito tempo todas as tentativas foram no sentido de identificar a lesão precoce nos ovários e extirpá-la. Entretanto, essas estratégias, na sua quase totalidade, resul- taram em grandes fracassos. No estudo denominado “Prostate, Lung, Co- lorectal and Ovarian (PLCO) Cancer Screening Trial”, uma população de 78.216 mulheres foi ras- treada para câncer de ovário. No grupo de estudo, 39.105 mulheres fizeram dosagem do CA 125, anual, por seis anos, e ultrassonografia transvaginal anual por quatro anos. No grupo controle, 39.111 mulheres fizeram exames rotineiros usuais. O seguimento máximo foi de 13 anos. A Tabela 1 demonstra a incidência de câncer de ovário e de morte nos dois grupos. É interessante notar que, além de não ter im- pacto na redução da mortalidade por câncer de ovário, no grupo de rastreamento houve 3.285 falso-positivos, que por sua vez resultaram em 1.080 cirurgias desnecessárias e 163 complicações1. Para prevenir um tipo de câncer é necessário saber como ele se origina, quais os fatores de risco, quais as lesões precursoras e como ele se desen- volve a partir dessas lesões. Em todos os demais tipos de câncer gine- cológico, os fatores de risco, as lesões precursoras e até mesmos alguns agentes etiológicos são bem conhecidos. Nos ovários, entretanto, até muito recentemente o único fator de risco conhecido era a quantidade de ovulação. Quanto maior o número de ovulações apresentava a mulher, maior era o risco de câncer de ovário (teoria de Fathalla)2. Isso motivou a única medida preventiva do câncer de ovário até pouco tempo atrás: a diminuição no número de ovulações, com o uso de anovulatórios, ou seja, as pílulas anticoncepcionais. De fato, o uso de anovulatórios orais por mais de cinco anos é capaz de reduzir o risco de câncer de ovário em até 50%3. ginecologia Prevenção do câncer de ovário Jesus Paula Carvalho * Professor livre-docente de ginecolo- gia da Faculdade de Medicina da Uni- versidade de São Paulo; coordenador do Serviço de Ginecologia Oncológica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) Contato: carvalhojp@uol.com.br Divulgação No de mulheres Casos de câncer Mortes Falso- positivos Cirurgias Complicações Mortes por outras causas 39.111 176 (4,7/10.000) 100 2.914 39.105 212 (5,7/10.000) 118 3.285 1.080 163 (15%) 2.924 Controle Estudo Tabela 1: Desfecho de uma população submetida a um programa de rastreamento para câncer de ovário, comparada com uma população controle Conclusões: O rastreamento não diminuiu a mortalidade por câncer de ovário. Exames falso-positivos resultaram em complicações
  • 2. Onco& dezembro 2011/janeiro-fevereiro 2012 39 Além do uso de anovulatórios orais, outra medida preventiva re- comendada era a salpingo-ooforectomia profilática nas pacientes com reconhecido risco familiar para câncer de ovário. São consideradas pacientes de risco para câncer de ovário as mu- lheres portadoras de mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, cuja chance de desenvolver câncer de ovário ao longo da vida pode chegar a mais de 50%. Por esse motivo, a recomendação é que sejam retirados os ovários e as tubas uterinas quando elas tiverem idades entre 35 e 40 anos4. Evidentemente, as consequências hormonais e reprodutivas dessa conduta não são desprezíveis. A partir dos anos 2000 alguns fatos relevantes mostraram que as estratégias de prevenção e diagnóstico precoce do câncer do ovário pareciam estar equivocadas5-8. Estudando peças operatórias de pacientes submetidas a salpingo- ooforectomias profiláticas, diferentes autores observaram o mesmo fenômeno: a lesão precursora do carcinoma invasivo do ovário não se encontrava no ovário, mas sim nas tubas uterinas, mais exatamente na porção terminal das fímbrias9. Esse fato motivou o início de estudos sistemáticos das fímbrias, e os achados reforçaram ainda mais essas primeiras impressões. O câncer mais frequente no ovário é o carcinoma seroso, com apro- ximadamente 80% dos casos. O carcinoma seroso inicia-se na porção terminal das fímbrias, onde pode ser encontrado com frequência na sua forma pré-invasiva ou intraepitelial (neoplasia intraepitelial tubárica). As tubas uterinas têm um tropismo pela ferida ovulatória no ovário. No momento da ovulação, as tubas uterinas movimentam-se e colocam suas fímbrias em íntimo contato com a ferida ovulatória, com a finalidade de fazer a captação do óvulo. Nesse momento, células neo- plásicas, ou com grande potencial neoplásico, presentes nas extre- midades das fímbrias são implantadas no ovário e a neoplasia maligna que ali se origina se desenvolve de forma rápida, fazendo pensar que o ovário é o sítio primário10,11. Isso explica por que a ovulação constante é fator de risco para câncer de ovário. Existem fortes evidências de que os únicos tumores realmente originados nos ovários sejam os tumores das células ger- minativas. Os tumores epiteliais (carcinomas) na sua grande maioria são tumores originados em outros sítios e implantados precocemente nos ovários. Esse fato constitui uma mudança radical de paradigma e deve provocar uma revisão de todas as estratégias de prevenção e di- agnóstico precoce do que convencionamos chamar de câncer de ovário, quando o mais correto seria chamá-lo de “câncer no ovário”. Todos esses estudos e achados são ainda muito recentes e as con- sequências naturais desses fatos novos são muitas: a) a ooforectomia profilática deixa de fazer sentido e deve ser subs- tituída pela salpingectomia profilática, com consequências muito menos danosas para o bem-estar da mulher; b) os programas de rastreamento e diagnóstico precoce focados nos ovários estarão sempre fadados ao insucesso, pois quando a doença chega ao ovário ela já é uma doença secundária; c) são necessárias novas estratégias no sentido de estudar as lesões precursoras nas tubas uterinas; d) devem ser identificados os fatores de risco para a transformação neoplásica das fímbrias uterinas. Tudo isso está apenas começando. O que se pode concluir, entre- tanto, é que os conceitos referentes à carcinogênese ovariana estão pas- sando por uma mudança radical de paradigmas. Referências bibliográficas 1. 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