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National geographic port n. 175 out 2015 homo naledi
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National geographic port n. 175 out 2015 homo naledi

National geographic port n. 175 out 2015 homo naledi
Published on: Mar 3, 2016
Published in: Education      
Source: www.slideshare.net


Transcripts - National geographic port n. 175 out 2015 homo naledi

  • 1. NAT| ONALGEOGRAPH| C.PT I OUTUBRO 2015 - . ' . » / ' ' - 9 ‘I r 0’ " - ‘ .4 . _I I‘ ‘I ‘ 4 . . * ' . , _u. '_» _ ‘ . ~' '4 - V. 2 , _ V . _ _. ‘ , _ , ‘V 3 ‘ . .. . ‘ . .'- u 3 , _ ' . - _ ‘ -- , ‘. . s ' ~ . . , _ ‘ ‘. _ . . , x Um novo antepassado revoluciona a nossa érvore evolutiva i A LUTA CONTRA 0 EBOLA MES AYNAK, LEGADO BUDISTA D0 AFEGANISTAO CORAIQAO SELVAGEM DA SUECIA UM ENIGMA NA IGREJA DOS CLEBIGOS I W
  • 2. A descoberta defésseis a grandeprofundidade numa gruta sul-afi'icana acrescentou um ramo desconcertante (‘1 drvore genealégica dafamilia humana. Reconstituido em argila e moldado em silicone pelo artista John Gurche. 0 Home naledi é o mais recente aditamento feito ao nosso género. MARK THIESSEN
  • 3. A Iuz solar desce sobre a entrada da gruta de Rising Star, perto de Joanesburgo. Numa galeria isolada, foram de'scobertas s -A _ "'. ' -_ _ "; centenas de ossos fossilizados. Segundo a antropéloga Marina Ellioff, - ’ . ' VJ . sentada na imagem. “limitémo-nos Iiteralmente a arranhar a Superfidie”. :- s 4. I‘ , ‘ti - 2 . ’ -a_ 1 ’ . .‘ "_~ -- 3 , I V ‘s r v
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  • 5. Um grupo de H. naledi Ianga o cadaver de um dos seus para dentro da Rising Star, nesta representacéo artistica. Embora um comportamento téo avancado seja desco- nhecido noutros hominideos primitivos, “parece nao haver explicacéo alternativa para o motivo da presenca dos fosseis ali", afirrna o responsavel cientifico Lee Berger. ARTE: JON FOSTER. FONTE: LEE BE%ER. UNIVERSIDAE DE WITWATEHSHAND IWITS). AFHICA DO SUL 5‘,
  • 6. ,u ' 4"<. I’ ‘t - c ' V I s’ , Q 1 iv. . A. _ ~ . r _ s -45’ - / ‘ I ,7 ‘. ‘-1.000 . »I' , . 1
  • 7. TEXTO DE JAMIE SHREEVE - FOTOGRAFIAS DE ROBERT CLARK 0 dia 13 de Setembro de 2013, Steven Tucker e Rick Hunter, espeleologos amadores, acederam a um sistema de grutas dolomiticas denominado Rising Star, a cerca de cinquenta quilometros de Joanesburgo. Desde a década de 1960 que o sistema e’ popular entre os espeleologos, e os canais e grutas ja foram cartogra- fados. No entanto, Steven e Rick tinham esperanca de descobrir uma nova sala. Durante a primeira metade do século XX, esta regiao proporcionou tantos fésseis dos nossos mais antigos antepassados que mais tarde foi bap- tizada como “Berco da Humanidade”. Embora a idade de ouro da caca aos fosseis ha muito tenha acabado, os espeleologos sabiam que um cientis- ta da Universidade de Witwatersrand, em Ioanes- burgo, andava a procura de vestigios osseos. Nas profundezas da gruta, Steven e Rick per- correram de gatas um estrangulamento baptizado como “O Rastejo do Super—I-Iomem” porque a maior parte das pessoas so consegue passar encos- tando firmemente um dos bracos contra 0 corpo e estendendo o outro acima da cabeca, Como o super—her(')i em pleno voo. Depois de atravessarem uma grande camara, escalaram uma parede rochosa. Uma vez no topo, depararam com uma cavidade pequena e bonita decorada com estalac- tites. Rick pegou na camara de video e, para fugir do enquadramento, Steven entrou no interior de uma fenda no solo da gruta. O pé tocou numa protuberéncia rochosa, logo seguida de outra abai- xo. Mais ii frente, estava apenas espaco vazio. Deixando-se cair, Steven deu consigo num estreito poco vertical, com largura maxima de 25 centimetros. Chamou Rick Os dois homens pos- suem estruturas fisicas muito magras — peles, ossos e musculos ageis. Bastaria um tronco um pouco mais volumoso e nenhum deles caberia no poco: se assim fosse, aquela que é provavel- mente a mais fantéstica descoberta de fosseis humanos dos ultimos 50 anos nao teria ocorrido. 8 NATIONAL GEOGRAPHIC 0 OUTUBRO 2015 paleoantropologo Lee Berger, 0 investi- gador que pedira aos espeleélogos para nao perderem de vista eventuais fosseis, é um norte—americano de grande estrutura éssea, com uma testa alta, rosto corado e malares que se expandern amplamerite para fora quando sor- ri, o que acontece com frequéncia. O seu opti- mismo inabalével tem-se revelado fundamental na sua vida profissional. No inicio da década de 1990, quando Lee foi contratado pela Universi- dade de Witwatersrand (“Wits”) e comecou a procurar fésseis, o centro da investigacao em evolucao humana deslocara-se para o vale do Grande Rifte, na Africa Oriental. A maioria dos investigadores olhava para a Africa do Sul como urn interessante capitulo mar- ginal da historia da evolucao humana, mas nio corno o cenario principal. Lee empenhou-se em provar que nao tinham razao. Durante quase vin- te anos, porém, os achados relativamente insig- nificantes que produziu pareceram sublinhar o pouco que :1 Africa do Sul tinha para oferecer. O objectivo de Lee era encontrar fosseis que pudessem esclarecer 0 principal mistério ainda nao resolvido da evolucao humana: a origem do nosso género, Homo, no intervalo cronolégico de ha trés a dois milhées de anos. No extremo mais antigo desse intervalo, encontram-se os australopitecineos semelhantes a simios, cujo expoente maximo, 0 Australopithecus afarensis, é representado pela famosa Lucy, um fossil des- coberto na Etiépia em 1974.
  • 8. Embora primitivos em alguns aspectos, o rosto, o cranio e os dentes apresentam caracteristicas’suficientemente modernas para justificar a inclusao do H. naledi no género Homo. John Gurche precisou de setecentas horas para reconstituir a cabeqa a partir de digitalizaooes dos ossos, utilizando péio de urso para modelar os cabelos. IAAHKTHESSBI
  • 9. AFRICA ETIOPIA Gar anta QUENIA de 0 duvai ——fl TANZANIA Gruta Rising Star’ Malapa Joanesburgo ‘. AF. RicA DO SUL 1. -3 8. U ii ht) ‘ II in iil Seccao lransvetsal da gruta na aclualidade No extremo mais recente, encontramos o Homo erectus, uma espécie capaz de fabricar fer- rarnentas e de fazer fogo, com um cérebro grande e proporcoes corporais parecidas com as nossas. Nesse intervalo obscuro de um milhao de anos, um animal bipede transformou-se num ser huma- no emergente, uma criatura adaptada ao seu ambiente e capaz de aplicar o seu cérebro ao domi- nio do mesmo. Como aconteceu essa revolucao? O registo fossil desanima pela ambiguidade. Ligeiramente mais antiga do que o H. erectus, existe uma espécie denominada Homo habilis, ou “homem hébil” — assim denominada por Lou- is Leakey e colegas, em 1964, em funcao dos utensilios liticos que tinham encontrado na gar- ganta de Olduvai, na Tanzania. Na década de 1970, equipas chefiadas por Richard, filho de Louis, descobriram mais espécimes de H. habilis no Quénia e, desde entao, esta espécie tem cons- tituido a fragil base sobre a qual assenta a arvore genealogica da familia humana, mantendo-a enraizada na regiao oriental de Africa. Para 0 periodo anterior ao H. habilis, a historia da humanidade permanece obscura, representada por escassos fragmentos de fosseis do Homo. Os ramos sao demasiado rudimentares para per- mitir a atribuicao de um nome a potencial espé- 1O NATIONAL GEOGRAPHIC 0 OUTUBRO 2015 Rastejo do Super-Homem (menos de 25cm de altura) Na profundezas da zona escura Os fosseis foram encontrados numa camara denominada Dina- Iedi, acessivel apenas através de um pogo estreito, quase a cem metros da entrada. A maneira como la foram parar permanece um mistério. A resposta mais plausivel sugere que os corpos foram Iancados para o interior a partir de um ponto alto. resou no FOSSIL Centenas de ossos foram recuperados, a maioria dos quais obtidos numa pequena area de um metro quadrado. Mais fosseis aguardam certa- mente a sua descoberta. Posicéo do fossil cie. Segundo um cientista, caberiam facilmente dentro numa caixa de sapatos e. . . ainda sobraria espaco para os sapatos. Ha muito que Lee Berger argumenta que o H. habilis seria demasiado primitivo para mere- cer a posicao privilegiada que lhe foi atribuida na origem do nosso género. Outros cientistas admitem que ele deveria ser reclassificado como Australopithecus, mas Lee tem permanecido qua- se isolado na sua defesa da Africa do Sul como berco do Homo mais antigo. Durante muitos anos, a exuberancia excessiva com que promovia os seus achados relativamente insignificantes afastou alguns dos seus colegas de profissao. Lee tinha ambicao e personalidade para tornar-se uma figura famosa no seu dominio, semelhante a Richard Leakey ou Donald Iohanson, o autor da descoberta do fossil de Lucy. Lee é um incan- savel angariador de fundos e um mestre a atrair a atencao do piiblico. Mas faltavam-lhe os ossos. Em 2008, porém, 0 investigador produziu um achado verdadeiramente importante. No decur— so de escavacoes realizadas num lugar mais tar- de denominado Malapa, a 16 quilometros do sistema Rising Star, ele e o seu filho Matthew, entao com 9 anos, descobriram alguns fosseis de hominideos emergindo de pedacos de dolomite. JASON "EAT. MAPAS DA NGM. FONTE. LEE BERGER. WITS
  • 10. Durante o ano seguinte, a sua equipa escavou laboriosamente da rocha dois esqueletos quase completos. Datados aproximadamente de ha dois milhoes de anos, foram os primeiros achados de relevo feitos na Africa do Sul nas ultimas décadas — pelo menos, entre aqueles que mereceram publicacao, pois existe o fossil de um esqueleto ainda mais completo, descoberto anteriormente, mas ainda nao descrito. Eram seguramente indi- viduos muito primitivos, mas os vestigios osseos apresentavam também caracteristicas estranha- mente modernas. Lee sugeriu que os esqueletos pertenciam a uma nova espécie de australopitecineos e deno- minou—a Australopithecus sediba. Ao fazé-lo, anunciou que eles seriam “a pedra de Roseta” para a compreensao das origens do Homo. Embo- ra vérios especialistas da paleoantropologia o felicitassem pelo achado “assombroso”, a maioria desvalorizou a interpretacao. O A. sediba era demasiado recente, demasiado estranho e pro- veniente de um local “errado” para ser antepas- sado do Homo: nao era um dos nossos. De certa forma, Lee também nao o era. Desde entao, inves- tigadores relevantes tem publicado artigos sobre o Homo primitivo que nem sequer o referem, nem ao seu achado. Lee ignorou a rejeicao e retomou 0 trabalho: haveria seguramente mais fosseis de Malapa para estudar, ainda encapsulados em blocos de calcario no seu laboratorio. Certa noite, Pedro Boshoff, espeleologo e geologo contratado por Lee para procurar fosseis, bateu-lhe a porta. Com ele, vinha também Steven Tucker. Lee ana- lisou as fotografias que lhe mostraram, captadas no sistema Rising Star, e compreendeu que Malapa seria em breve relegada para uma posi- cao secundaria na hierarquia dos sitios arqueo— logicos mais relevantes. Iv epois de se contorcerem ao longo de 12 l metros, descendo pelo poco estreito . encontrado na gruta de Rising Star, Ste- ven e Rick encontraram uma pequena sala, com uma cascata de escorrimentos calcérios num canto. Uma passagem conduziu—os a uma cavi- dade maior, com cerca de nove metros de com- primento por cerca de um metro de largura, com as paredes e o tecto formados por um emaranha- do de formacoes retorcidas de calcite e escorri- mentos calczirios protuberantes em forma de dedo. Sobre o solo, algo atraiu a atencao dos dois “Ao olhar la para baixo, nfio tive a certeza de que tudo iria correr bem. Foi como espreitar para a boca de um tubarao: viam—se dedos, linguas e dentes de rocha. ” — Marina Elliott, antropologa homens: havia ossos por todo o lado. A principio, os espeleologos pensaram que fossem contem- poraneos. Nao eram pesados como pedra, ao contrario da maioria dos fosseis, nem se encon- travam amalgamados na rocha: estavam espa- lhados mesmo sobre a superficie, como se alguém os tivesse lancado sobre ela. Repararam num pedaco de maxilar inferior, com dentes intactos: pareciam humanos. Lee intuiu, com base nas fotografias, que os ossos nao pertenciam a um ser humano moder- no. Algumas caracteristicas, em especial o maxi- lar e os dentes, eram demasiado primitivas. As fotografias mostravam mais locais passiveis de escavacao e Lee conseguiu mesmo distinguir os contornos de um cranio parcialmente enterrado. Era provével que os restos mortais representas- sem boa parte de um esqueleto completo. Ficou estupefacto. No registo fossil dos hominideos primitivos, 0 numero de esqueletos quase com- pletos, incluindo os dois por si recuperados em Malapa, contava-se pelos dedos de uma so mao. Agora, encontrara este. Mas o que era este? Que idade tinha? E como entrara naquela gruta? Mais importante: como tira-lo de la, e depres- sa, antes que outros amadores encontrassem o caminho ate aquela galeria. Parecia evidente, a avaliar pela disposicao dos ossos, que alguém ali estivera mais cedo, talvez varias décadas antes. Steven e Rick nao tinham conhecimentos para escavar fosseis e Lee nzio conhecia nenhum cien- tista (a comecar por si) com a envergadura fisica exigida para se esgueirar por aquele poco. Por isso, tomou uma decisao inesperada: colocou um anuncio no Facebook, solicitando o servico de uma pessoa magra, com credenciais cientificas, experiéncia como espeleologo e “disponibilidade para trabalhar em espacos confinados”. Semana e meia depois, ja tinha quase sessenta candida- turas. Escolheu as seis mais qualificadas, todas elas jovens mulheres. Berger chamou—lhes as suas “astronautas subterraneas”. MISTERIO ANCESTRAL ll
  • 11. Marina Elliott (a esquerda) explora uma camara secundaria na companhia do paleontologo Ashley Kruger. Marina era uma das seis cientistas da expedigao com as capacidades e a compleigao fisica certas para atingir a camara de Dinaledi. Lee Berger, a superficie, acompanha os progressos olhando o ecra. ELLDT ROSS
  • 12. . 0 II N K. 1 . . 1 st . .. . . I. l.l ‘l I ‘I y 4 i, .. .. .l 1 . «nag . . . s . q . ‘ s a / i. I SI . -.. .l s ¢II‘. . . . , . . a 4 . It I . . . xo. .. s. ... . . ~.
  • 13. Havia ossos por todo o lado, espalhados sobre a superficie. Os espeleologos repararam num pedago de maxilar inferior, com dentes intactos. Com financiamento da National Geographic Society, pois Lee também é explorador residente da National Geographic, reuniu cerca de seis deze— nas de cientistas e montou um centro de coman- do a superficie, uma tenda cientifica e um pequeno acampamento. Espeleologos locais aju- daram a descer trés quilometros de cabos de comunicacao e electricidade ate a camara dos fosseis. Tudo o que ali acontecesse poderia agora ser visto através de camaras de filmar por Lee e pelos membros da sua equipa no centro de coman- do. Marina Elliott, entao aluna da Universidade Simon Fraser, na provincia da Colombia Britani- ca, foi a primeira cientista a descer pelo pogo. “A0 olhar la para baixo, nao tive a certeza de que tudo iria correr bem”, recordou Marina. “Foi como espreitar para dentro da boca de um tuba- rao: viam-se dedos, linguas e dentes de rocha. ” Marina e duas colegas, Becca Peixotto e Han- nah Morris, desceram centimetro a centimetro ate a “zona de aterragem” no fundo, agachando- -se em seguida para entrar na galeria dos fosseis. Trabalhando em turnos de duas horas com outra equipa de trés mulheres, cartografaram e emba- laram os mais de quatrocentos fosseis espalhados a superficie, comecando de seguida a remover o solo em redor do cranio parcialmente enterrado. Havia outros ossos debaixo do cranio e a volta dele, densamente aconchegados. Nos dias seguin- tes, enquanto as mulheres sondavam uma area de um metro quadrado em torno do cranio, os outros cientistas arnontoararn-se a volta do recep- tor de video do centro de comando instalado la em cima, num estado de entusiasmo quase cons- tante. De tempos a tempos, Lee saia e dirigia—se :1 tenda cientifica para observar, intrigado, os ossos que se acumulavam. Logo de seguida, um urro colectivo de assombro, proveniente do cen- tro de comando, trazia-o de Volta para assistir a nova descoberta. Foram momentos de gloria. I Bolsa NGS A sua assinatura da revista ajudou a financiar este projecto. 14 NATIONAL GEOGRAPHIC 0 OUTUBRO 2015 Os ossos encontravam—se soberbamente pre- servados e, perante a duplicacao de estruturas osseas, em breve tornou—se claro que nao havia na gruta um esqueleto mas dois, em seguida trés, depois cinco. .. e, por fim, tantos que era dificil manter uma contagem exacta. A equipa de esca- vacao retirou cerca de 1.200 ossos, mais do que qualquer outro sitio arqueologico de antepassados humanos em Africa e ainda nao esgotara 0 mate- rial no metro quadrado em redor do cranio. Foram precisos varios dias adicionais de escavacoes, em Marco de 2014, até que nada mais se encontrasse nos sedimentos, 15 centimetros mais abaixo. Ao todo, foram descobertos 1.700 vestigios osseos, representativos de pelo menos 15 indivi- duos. Cranios. Maxilares. Costelas. Dezenas de dentes. Um pé quase inteiro. Uma mao, pratica— mente com todos os ossos intactos, preservando a sua disposicao em Vida Ossos minusculos do ouVi— do interno. Adultos idosos. Iovens. Bebés, identifi- cados pelas suas vértebras minfisculas. Fragmentos dos esqueletos pareciam assombrosamente moder- nos. Outros, porém, eram também assombrosa- mente primitivos: em alguns casos, quase mais simiescos do que os dos Australopithecus. “Descobrimos uma criatura realmente admi- ravel”, anunciou Lee. 0 seu sorriso alargava—se quase até as orelhas. or tradicao, em paleoantropologia, os espécimes recém-descobertos costumam ser guardados sob sigilo até serem cuida- dosamente estudados e os resultados publicados, sendo concedido acesso pleno apenas aos cola- boradores mais proximos do descobridor. Seguindo este protocolo, a resposta ao mistério fulcral do achado de Rising Star — O que é isto? — poderia demorar anos, talvez mesmo décadas. Lee queria o trabalho publicado até ao final do ano. Segundo ele, toda a comunidade cientifica deveria ter acesso a informacoes importantes o mais depressa possivel. E talvez ele gostasse da ideia de anunciar a sua descoberta, potencial- mente um novo candidato ao Homo mais antigo, em 2014 - precisamente 50 anos depois de Louis Leakey publicar o seu achado do primeiro membro do nosso género, o Homo habilis. A 1'1nica forma de obter uma analise rapida seria aumentando o escrutinio cientifico sobre o achado. Além dos cerca de vinte cientistas senio- res que o tinham ajudado a avaliar os esqueletos de Malapa, Lee convidou mais de trinta jovens
  • 14. ‘(K r ' . C‘ i 'l *, *; “iSvI' " U . - ~-: l'! II .44 I N. '( _ 1 5 L) ' 1 L K-v; " ~u. .' Lee, Marina e Ashley (em primeiro plano, da esquerda para a direita) observam as primeiras imagens provenientes da cémara dos fosseis. Steve Tucker (a direita) foi co-descobridor do local. K. Lindsay Hunter e Alia Gurtov (a esquerda) participaram na escavagao. cientistas de cerca de 15 paises a deslocarem-se a Ioanesburgo para uma sessao-relampago de seis semanas de duracao. Para algims cientistas mais consagrados (e que nao participaram), a ideia de colocar jovens na linha da frente so para apressar a publicacio de artigos parecia uma loucura. Para os jovens em questao, porém, tratou-se de “uma paleofantasia tornada realidade”, nas palavras de Lucas Delezene, docente recém-nomeado da Uni- versidade de Arkansas. “Na licenciatura, sonha-se com uma pilha de fosseis que nunca ninguém viu e com uma interpretacao prodigiosa. ” A sessao de estudos decorreu num laboratorio recém-construido em Wits, uma sala sem janelas onde se viam fosseis e moldes. As equipas foram divididas por sectores do corpo. Os peritos cra- nianos acocoraram-se a um canto, em torno de uma grande mesa quadrada coberta de fragmen- tos de cranios e maxilares e com moldes de outros fosseis de cranios bem conhecidos. Havia mesas mais pequenas reservadas a maos, pés, ossos com- pridos e assim sucessivamente. O at era fresco, o ambiente abafado. Iovens cientistas trabalhavam com os ossos e com as suas ferramentas. Lee e os seus assessores mais chegados circulavam no meio deles, conferenciando em voz baixa. A pilha de fosseis de Lucas Delezene era com- posta por 190 dentes, elementos fundamentais em qualquer exame, uma vez que, frequentemen- te, bastam os dentes para identificar uma espécie. Mas estes dentes nao se assemelhavam a nada do que os cientistas do “sector dentario” alguma vez tinham visto. Algumas caracteristicas eram assombrosamente semelhantes as humanas, como as pequenas coroas dos molares com cin- co cuspides iguais as nossas. Em contrapartida, as raizes dos pré-molares eram estranhamente primitivas. “Nao sabemos ao certo como inter- preta—las", afirmou Lucas. O mesmo padrao surgiu noutras mesas. Uma mao totalmente moderna apresentava dedos esquisitamente encurvados, proprios de uma criatura capaz de trepar as arvores. Os ombros também eram simiescos e os iliacos, arnplamen- te abertos, eram tao primitivos como os de Lucy, embora a regiao inferior dessa mesma bacia se assemelhasse a de um homem moderno. Os ossos dos membros anteriores comecavam com a forma de um Australopithecus mas ganha— vam modernidade a medida que desciam na direccao do solo. Os pés eram praticamente iguais aos nossos. MISTERIO ANCESTRAL 15
  • 15. 4? I / , ' 1 A ‘hi £3‘: . / ~ I " J r- ' ‘, -‘ , 1 ( ' , . I ’ ‘. .- ‘ 4 . ' ‘~ nevi 1‘ *V"'- xi‘ . ‘ ‘w r, lq ‘Li: . 5,. I .4 r. A 1 ( ’ . DT'«‘n-, I‘ l ' 5!: b V if r‘. 'l . 1 , =’ 1‘ I ‘A . } . 3-. .,, i _ : . ;r -. ._ ' . .. A‘ i “ . . , ..- A caixa deste cranio masculino composito de H. naledi, apresentada com a dimensao real, mede escassos 560 centimetres cobicos, menos de metade do volume do cranio humano moderno representado atras de si. As caixas cranianas femininas eram ainda mais pequenas. ARTE: STEYAN FIGHT EL. FONTES: LEE BERGER E PETER SCMMID, WITS: JOHN HAWKS. LNNERSIDADE DE WISCONSIN-MADISON
  • 16. «Cérebros miniisculos anexos a estes corpos que nao eram minfisculos. Esquisitos a valer. » — Fred Grins’. paleoanlropologo «Descobrimos uma criatu- ra realmente admiravel. » —Lee Berger. paleoantropologo “Quase se poderia tracar uma linha através das ancas, separando 0 sector primitivo do moder- no”, resumiu o paleontologo Steve Churchill, da Universidade de Duke. “Se tivéssemos encontra- do o pé isolado, pensariamos que algum corres- ponderia a um bosquimano morto. ” Na zona da cabeca, também havia novidade. Quatro cranios parciais foram encontrados — dois provavelmente masculinos, dois femininos. Em termos de morfologia geral, pareciam suficien- temente avancados para serem classificados como Homo, mas as caixas cranianas eram m Lisculas: tinham escassos 560 centimetros cubicos para individuos do sexo masculino e 465 no sexo feminino, muito menos do que a media de 900 centimetros cubicos do H. erectus e mui- to menos de metade do tamanho das nossas. Um cérebro de grande dimensao e' quase a condicao sine qua non da identidade humana, marca inconfundivel de um género que evoluiu para sobreviver £1 custa da sua esperteza. Por defmicao, aqueles nao eram seres humanos. “Eram esquisitos a valerl”, exclamou mais tarde 0 paleoantropologo Fred Grine, da Universidade Estadual de Nova Iorque. “Cérebros minusculos anexos a estes corpos que nao eram minusculos. ” Os machos mediam cerca de 1,50 metros e pesa- vam 45 quilogramas, enquanto as fémeas eram mais baixas e leves. “A mensagem parece ser a de um animal mesmo a beira da transicao do Aus- tralopithecus para o Homo”, resumiu Lee. Em alguns aspectos, 0 novo hominideo encon- trado tinha mais parecencas com os seres huma- nos modernos do que 0 proprio Homo erectus. Para Lee Berger, ele pertencia ao género humano, mas em nada se assemelhava aos outros membros. N510 havia alternativa senfio atribuir um nome £1 nova espécie. A equipa cham0u—lhe Homo naledi, numa vénia £1 gruta onde 0s ossos foram descobertos: em sotho, o idioma local, naledi sig- nifica “estrela”. (Continua na pg. 25) MISTERIO ANCESTRAL 17
  • 17. A soma das part Urn n. -.qunInto corrlpo 0 rnvnln .1 con. -.mu¢. ‘Io glob. -ul do corpo do H. 11:11:. -(ii. 0: cu unbcmz. mu: er lrnnxzn tum-n luml)v; xr or: y anlepassaaos Iongmquos‘ enquanto 3 ueglao mlenov do corpo apresenln mans adaplacoes de czmz rnodarno. O craruo 9 as dc! ‘-! r,! .': mostram uma mlslura dn carnctnristicas ( ~‘t I M! M ‘ I‘ W 1.5- AYRIBUTOSDEAUSIRALOPITNECUS , rji , < . 7 A I ‘ ‘ ‘ x w w - Ombror. prlmlllvofi on. n. s;= a« -. u.wc= cn: .-. / ‘ 0: ombm: dc1HDr‘no . - I um cramo ca toumavo V rwsd: nncontvam—z. n ‘ ut‘4v>. ~v| c:uIlvr_~vI| e . wum, —uuo. puaiuuuvlqdos u-. ~ , ‘ » 1 nvnfkwn ,1 c um nranlnna 14-mm _ urnn vormn adnqtnada ‘ ' ' " ' Ivvenu: de vnrshade do kunanho puns ll: -par ' dc urn hurnarla mod-. -mu, . e pendur'. Ir~: I:. '- ‘ ~ . . I - , Lucy ‘W M 1 1 "': ~:: :-* ‘ ' . , 5 ~ jvrrr. -w. :v. ‘,, .‘| = . - ~- ' ' y‘V4 ‘. t‘ , '. A n . -.r r. nem nhnr ‘ 3 - ‘ 05 0*-sus .14 num do -1 ‘T V , . ‘ H nnmm nhvnrrl Sr: ‘ ~ ‘ ‘ anxpmmama para fora _, ‘ "' R ' c = :'m man: curtcz da 7 1 1 ' ' ? vmnvsa para «ma do qua . ,_ 1 " - I Us dun Hunmnus V ' ‘ modcvnnn. ‘ V J ~ ~ ' . It _ . ‘ 4 A: palma: cm: ‘ , ‘ ‘ . ,4 m. -mr. pm. -.ns. ‘ _ -~ -T ~ . I 0: pol»: as . ‘ ! ano modern. -m I J ‘ ‘ . , 3 I Anr1u: .1n<1o n . , ' uhllzzzgzinn dc ‘ J _" Valrnrnenluva ‘ ' 3 n u ' u » I V-5 . - ‘ v - . n ' ' . 4 I I ‘ , ‘ s I ‘ « I . ‘ . Dt-do-1. I. uvIpIIdos -. - ‘ , - 09 o<9o< (1a< pamac. sac nrxcurvndn mm para _ compndu: e esgunos. vmpm nag awora, As in<sar(. (¢< nu<«(. ulmas talvez 1055:"! urn . ‘ ‘ ' 5&0 pv0prL1:1 dc: vvmvclna bvpeda amhmo Iiavnannsrainia ‘ ‘ , ‘ rlnr. nomnnr. mm-numa. -. u». « Lun : .uIle| :;1‘1$‘. do , ,4 ‘ mm: .'. Irv1Ir: r.r. o I I . I’ . 7 1 L 3 f , ‘ ‘ . I . . , _ ‘ _. « ‘ Com exm-. -pqao dc): dado: |Ige| ra— nwnm ancurvnrios. oa pa». no H I ‘ rluledr 3510 quase vvwdnlevelmufiveru ! , I dnr. no. -.50.-. , corn .1u—. n.-. plnnmm. -. v 1 uue upullhslll para uma Dfl‘$5dl111 0 ehcuenle ern Iongas dl-. 'li: nL: I:: , , A ‘ _ . -.. .u. ..m . y.. ... ..L. ... . ‘ ‘ ‘ - m . .m. rnvl rnur-Anyién . .~. ».. w.m A)0lN<.4HNllQ , . .. «mum-. « ym. .. . .
  • 18. n. ..‘ ‘"1 v as-at unmn V Homo L-Ieclus 1.5 million: an anoa. as load: Adolescent: on sun masculma. Almrar 1.52m 1 Pasc. 50-S2ku . » ' F . ( 9 Homlnldao an Fllolnq Sn! H0700 lifllfidl 0.11:4-, .ao dnsconhncma ~ -— ~ — Adunudosexolnascullno ‘ Allura 1_47m| Pa3o 4&50kg ' -. . '. "- "~. - x -’ , ,. . r , ‘ . ._ ‘JV’ )2 . A E A _ . . __. .- ' -'- — . ~ 0 ‘ 4 I . K 1 ‘ I I . _ — I l ‘ , u . u , ‘ ; ‘ ‘ ‘ ! 1 ; * 1 ‘x i 3 ‘ ‘ ’ >9. " a 1‘, 1 ‘ I, ’ H’, . I , 1 J ‘ I y ‘ . 3 r ‘ y I I . ‘ .
  • 19. Montada a partir de digitalizacées 30 de fésseis individuais, a reconstituicéo da méo do H. naledi apresenta dedos encurvados, uma pista indicativa de que a espécie preservara a capacidade para trepar a arvores e a rochas. 0 polegar. 0 pulse e os ossos da palma da méo tém uma aparéncia admiravelmente moderna. ARTE STEFAN FICHTEL FONTES: LEE BERGER E PETER SCHMID. WITS: JOIN HAWKS. IJNIVERSUDADE DE WISOONSIN-MADISON
  • 20. Antes disso, em Novembro, enquanto faziam o seu impressionante achado, Marina Elliott e as suas colegas foram igualmente surpreendidas com o que nao encontravam. “Estavamos no ter- ceiro ou quarto dia e ainda nao tinharnos desco- berto quaisquer sinais de fauna”, disse ela. No primeiro dia, encontramos um punhado de ossos de pequenas aves a superficie, mas, de resto, nada mais havia a nao ser ossos de hominideo. Isso gerou um mistério tao intrigante como 0 da identidade do H. naledi: como tinham os restos mortais ido parar aquela camara absurdamente isolada? Evidentemente, os individuos nao viviam na caverna: nao existiam utensilios liticos, nem vestigios de refeicoes para sugerir tal ocupacao. E plausivel que um grupo de H. naledi pudesse ter deambulado até chegar a gruta, em certa época, ficando preso no interior, mas a distribuicao dos ossos parecia indicar que estes tinham sido depo- sitados ao longo de talvez varios séculos. Se fossem carnivoros a arrastar as suas presas até a gruta, teriam deixado marcas de dentes nos ossos e nao existiam nenhumas. E o que levaria um predador a uma dieta tao fastidiosa, exclusivamente a base de hominideos? E, por fim, se os ossos fossem lancados para 0 interior da gruta por aguas cor- rentes, estas teriam trazido consigo pedras e outro cascalho também. Mas nao havia cascalho, apenas sedimentos finos desagregados das paredes da gruta ou infiltrados através de minusculas fendas. “Depois de eliminarmos o impossivel”, recordou um dia Sherlock Holmes ao seu amigo Watson, “tudo aquilo que resta, por improvavel que seja, deve ser correcto”. Uma vez esgotadas todas as outras explicacoes, Lee e a sua equipa foram confrontados com a con- clusao improvavel de que aqueles corpos de H. naledi foram propositadamente colocados naquele sitio por outros H. naledi. Até aquele momento, so 0 Homo sapiens, e possivelmente alguns seres humanos arcaicos como os homens de Neandertal, sao conhecidos por terem tratado os seus mortos de maneira tao ritualizada. Talvez nesses tempos recuados a passagem fosse suficien- temente ampla e talvez os hominideos atirassem simplesmente o seu fardo para o fundo do pogo, sem sequer descerem por ele. Com 0 passar das eras, a crescente pilha de ossos poderia ter rebo- lado lentamente para a camara adjacente. O sepultamento propositado dos corpos teria exigido que os hominideos descobrissem 0 carni- nho até ao topo do poco, no meio da escuridao 0 sepultamento dos mortos encerra tun capitulo e exprime respeito. Estes sentimentos sfio uma marca humana inconfundivel. Mas o H. naledi nfio era humano. total, e o caminho de regresso, o que certamente tornaria necesséria a iluminacao por tochas ou fogueiras acesas com intervalos. A ideia de que uma criatura com um cérebro tao pequeno pudes- se demonstrar um comportamento desta comple- xidade parece tao improvavel que outros investigadores se recusaram simplesmente a dar- -lhe crédito. Em determinada época mais antiga, deveria ter existido uma entrada para a gruta que proporcionava acesso mais directo a camara dos fosseis, permitindo que os ossos para ali fossem arrastados pela agua. “Tem de haver outra entrada’: afirmou Richard Leakey depois de visitar o sitio arqueologico. “S6 que Lee ainda nao a descobriu. ” A égua teria inevitavelmente arrastado casca- lho, matéria vegetal e outros detritos para o inte- rior da camara dos fosseis, juntamente com os ossos, e a verdade é que nao ha la nada disso, “Nao existe aqui muita subjectividade”, afirmou o geo- logo Eric Roberts, da Universidade Iames Cook, na Australia. “Os sedimentos nao mentem. ” O sepultamento dos mortos permite aos vivos encerrar um capitulo e prosseguir as suas vidas, exprime respeito pelos mortos ou assegura a sua transicao para outra Vida. Estes sentimentos sao uma marca humana inconfundivel. Mas o H. naledi, como Lee sublinha, mio era humano, 0 que torna o seu comportamento mais intrigante. “E um animal que parece ter possuido a capa- cidade cognitiva para reconhecer a sua separaqao relativamente a natureza”, afirmou. s mistérios em torno da identidade do | :_ _| H. naledi e da maneira como os seus ) ossos foram parar ao interior da gruta, estao inextricavelmente ligados a questao da idade dos ossos. De momento, ninguém conhe- ce essa informacao. Na Africa Oriental, os fosseis podem ser datados com exactidao quando sao descobertos por cima, ou por baixo, de carnadas de cinza vulcanica, cuja idade pode ser determi- nada a partir da queda regular e previsivel dos elementos radioactivos presentes nas cinzas. MISTERIO ANCESTRAL 25
  • 21. :'[om£ovfll£n1ou: i£fle‘ ilonroua. -Eur: -4 Este trio de espécies de Homo aparece pela primeira vez no registo fossil ha cerca de dois milhoes de anos, contrariando a ideia de progresséo linear no sentido da identidade humana. Esta mensagem é sublinhada pela singular mistura de atributos primitivos e avanoados do Homo naledi. AS IMAGENS N50 ESYAO A ESCALA Porém, os ossos encontrados na camara do sis- tema Rising Star jaziam simplesmente sobre o solo da gruta ou enterrados sob sedimentos mis- tos pouco profundos. A data em que foram parar ‘a gruta é um problema ainda mais dificil de resolver do que a adivinhacao da maneira como isso aconteceu. A maior parte dos cientistas participantes na sessao de estudos mostrou—se preocupada quan- to a forma como a sua analise seria recebida, sem datacoes de referéncia e, na verdade, o arti- go cientifico com a descricao dos achados foi mais tarde rejeitado por uma revista de renome, em grande medida devido a inexisténcia de data- eao. Mas isso néo incomodou Lee Berger. Se vier a provar-se que o H. naledi era tao antigo como a sua morfologia indicava, ele teria muito pos- sivelmente descoberto as raizes da arvore genea- logica do Homo. Mas se acontecesse provar-se que a nova espécie era muito mais recente, as repercussoes seriam igualmente profundas. Poderia significar que, ao mesmo tempo que o nosso proprio género evoluia, um Homo sepa- rado, de cérebro pequeno e aspecto mais primi- tivo, caminhava livremente, até um tempo muito recente que ninguém ainda ousara ima- ginar. Ha cem mil anos? I-Ia cinquenta mil? Ha dez mil? No momento em que a entusiasmante sessao de estudo se aproximava do fim com essa questao fundamental por resolver, Lee mostra- va—se optimista como sempre. “Independente— mente da idade, 0 achado vai ter enorme impacte”, afirmou. 26 NATIONAL GEOGRAPHIC 0 OUTUBRO 2015 lgumas semanas mais tarde, em Agosto ' ‘I do ano passado, Lee deslocou-se a regiio -- J - oriental de Africa. Para assinalar o 50.° aniversario da descricao do H. habilis por Louis Leakey, Richard Leakey convidara os pensadores mais destacados no dominio da evolucio do homem primitivo para um simposio a decorrer no Instituto da Bacia de Turkana, o centro de investigacao fundado por ele e pela Universida- de Estadual de Nova Iorque, perto da margem ocidental do lago Turkana, no Quénia. O objectivo da reuniao consistia em fazer ten- tativas de chegar a algum consenso sobre o intri- gante registo do Homo primitivo, sem poses nem rancores, dois vicios endémicos na paleoantro- pologia. Alguns dos maiores criticos de Lee Ber- ger estariam presentes, incluindo alguns dos que tinham feito arbitragens demolidoras da sua interpretacao dos fosseis do A. sediba. Houve até quem ameacasse nao comparecer se ele estivesse presente. No entanto, dada a descoberta de Rising Star, Richard Leakey dificilmente podia deixar de convidé-lo. “Actualmente, ninguém na Terra esta a descobrir fosseis como 0 Lee’: explicou. Durante quatro dias, os cientistas debrucaram— -se, juntos, numa espacosa sala de laboratorio, sobre reproducoes de todas as provas importan- tes do Homo primitivo distribuidas sobre mesas. Noutro dia de manha, Meave Leakey, também ela exploradora-residente da National Geogra- phic, abriu um cofre e mostrou espécimes recém— -descobertos na margem oriental do Iago, incluindo um pé quase inteiro. RECONSTITUICOES: JOHN GURCHE
  • 22. Acrua/ Ida do Um lugar no tempo Os sedimentos mistos de solo presentes na gruta onde o H. naledi foi encontrado diflcultam a datagéo dos ossos. Métodos de tecnologia avaneada poderiam fornecer uma dataoao. Nesta reportagem, ponderamos trés possibilidades. Qualquer uma pode alterar as teorias actuais sobre a evolugao humana. Ha um mrlhéo de anos Australopithecus As espécies lT1alS antigas estavam adaptadas para trepar e para o blpOdlSll1OI as espécics mais tardlas segmam regimes alirnentares especiallzados, corn- postos por alimentos mos e fnbrosos. A, borsel A. robustus A. sediba ' ‘ Ha do/ s IIIWIOES de anos A. africanus " A. garhr A. aemiopfcus Ha (res mrlhoes de anos A. afarens/ s Ha’ quatro ml/ hoes de anos AustraIoPl? h6CUS anamensls Kenyanmropus plaryops H. ri.7.i‘-‘vi’. PRlMO RECENTE Se 0 H. naledi tiver menos de trés milhoes de anos, os nossos antepassados partilharam territo- rio com uma espécie de cérebm diminuto até mais recentemente do que se pensava. Homo A extremidade inferior das pernas era mais longa e adaptada para carninhar e correr. Os dentes mais pequenos e cerebros rnaiores no H. erectus talvez revelem que estes seriam cacadores e comiam mais came. HOMO PRIMITIVO A configuragéo anatomica do H. naledi. na transicao entre os australopitecineos e o Homo, é mais compativel com uma cronologia de 2.5 a 2 milhoes de anos. LUC Y AFASTADA Embora seja uma hipotese improvavel. se 0 H. naledi for extremamente antigo, isso podera questionar a nocéo de que a espécie de Lucy. o A. afarensis. pertencia a nossa Iinhagem evolutiva directa. JASON TREAT FONTES: LEE BERGER. WITSI JOHN HAWKS. UNIVEFISIDADE DE WISCONSIN-MADISON
  • 23. «O Homo naledi sugere que podemos pensar que o registo esta suficiente- mente completo para construirmos historias. Mas néio esta. » — Fred Grine Quando chegou a sua vez de falar, Bill Kimbel, investigador do Instituto de Origens Humanas, descreveu um novo maxilar de Homo provenien- te da Etiopia datado de ha 2,8 milhoes de anos, o mais antigo membro do nosso género até hoje achado. A arqueologa Sonia Harmand, especia- lista da Universidade Stony Brook, lancou uma bomba ainda maior: a descoberta de dezenas de utensilios liticos toscos perto do lago Turkana, datados de ha 3,3 milhoes de anos. Se os uten- silios liticos surgiram pela primeira vez meio milhao de anos antes do aparecimento do nosso género, seria dificil, a partir de entao, argumen- tar que a caracteristica definidora do Homo era o seu engenho tecnologico. Entretanto, Lee mantinha—se invulgarmente silencioso, pouco acrescentando ao debate. Entrou—se por fim no topico da comparacao entre 0 A. sediba e o H. habilis. Chegara a sua hora. “Talvez seja mais interessante para discussao o achado que a nossa equipa produziu em Rising Star”, propos entao. Nos 20 minutos que se segui- ram, expos tudo aquilo que acontecera nos ulti- mos meses: a descoberta fortuita na gruta, o exame intensivo em Iunho e os aspectos mais importantes dos seus achados. Enquanto falava, duas ou trés reproducoes dos cranios de Rising Star passaram de mao em mao. Chegaram entao as perguntas. Realizou um exame craniodental? Sim. O cranio e 05 dentes do H. naledi integram-no no grupo do Homo erectus, dos Neandertais e dos seres humanos modernos. Mais proximo do H. erectus do que do H. habilis? Sim. Existem algumas marcas de dentes nos ossos, feitas por carnivoros? Nao, estes sao os mortos mais saudaveis que alguma vez vi. Ia fez progressos em matéria de datacao? Ainda nao. Vamos apurar uma data, mais tarde ou mais cedo. Nao se preocupem. Quando as perguntas terminaram, os especia- listas ali reunidos fizeram algo que ninguém esperava, muito menos Lee. Aplaudiram. 28 NATIONAL GEOGRAPHIC 0 OUTUBRO 20:5 S novos achados importantes no dominio ll da evolucao humana costumam ser rei- “ ) vindicados como marcos que alteram todo o entendimento prévio da nossa genealogia. Tendo talvez aprendido com os erros do passado, Lee nao fez tais reivindicacoes em relacao ao Homo naledi — pelo menos por agora, enquanto existem incertezas quanto a sua cronologia. Ele nao reivindica a descoberta do Homo mais anti- go, nem pretende que os “seus” fosseis devolvam 0 titulo de “Berco da Humanidade” a Africa do Sul, retirando-0 a Africa Oriental. No entanto, os fosseis sugerem que nas duas regioes, e em todos os lugares situados entre ambas, talvez existam pistas para uma historia mais complexa do que a metafora “familia humana” poderia sugerir. “Aquilo que o H. naledi me diz e 0 seguinte: podemos pensar que o registo esta suficiente- mente completo para construirmos historias. Mas nao esta”, resumiu Fred Grine. Talvez espé- cies mais antigas do Homo surgissem na Africa do Sul, deslocando—se de seguida para a Africa Oriental. “Ou talvez fosse ao contrario. ” De acordo com Lee Berger, a melhor metafora para a evolucao humana, em vez de uma érvore que nasce de uma raiz unica, e’ a de um rio com bracos. Um rio que se divide em canais para vol- tar a fundir—se mais a jusante. De maneira seme- lhante, os diversos tipos de hominideos que habitaram as paisagens de Africa devem, em algum momento, ter divergido a partir de um antepassado comum. Depois, em época mais tar- dia, podem ter voltado a integrar—se, de tal modo que, na foz do rio, onde agora estamos, podemos transportar em nos um bocadinho da Africa Oriental, um bocadinho da Africa do Sul e mui- ta historia sobre a qual nao temos conhecimento. Porque uma coisa é certa: se soubemos da exis- téncia de uma forma completamente nova de hominideo so porque dois espeleologos eram suficientemente magros para penetrar numa fen- da de uma gruta sul-africana ja bem explorada, entao a verdade é que nao fazemos ideia do que mais podera haver por descobrir. El MAIS ONLENI: natlonalgecgraplwiopt VlDEO '; '4 . Mulheres das cavernas '_ Q I Entre sessenta candidates. seis . mulheres intrépidas foram escolhidas ' I, _ *1 para explorar Dinaledi. um emprego que da um significado novo a ideia de . “trabalhar em espacos coniinados”. ”AFlF| Fl'H BIRD
  • 24. .4 L c "A . .-, . ‘ -1- - '. I- . “A . » ‘x . ‘ 1 X‘ I a ‘i . -~ '= .. 2 3 r 271-‘, S‘ vs ‘ . ‘ I I g . [3 . . . x ,3 "I I . J? ! - «.7 / .4 . all , /‘1. .1 M 31 z_ , ._' . fa) ‘ ‘ 1" . 4 . ' r ‘ l is’ I‘ rl . h ‘-3 , 'I ' J / . , / 0 pé do Homo naledi é assombrosamente moderno. Apenas alguns tragos, como os ossos dos dedos do pé Iigelramente mais encurvados, preservam a estrutura primitiva. "No essencial, trata-se do pé dos seres humanos modemos, mas com diferenqas subtis", afirma o paleontélogo Will Harcourt-Smith. ARTE: STEFAN FICHTEL. FONTES: LEE BERGER E PETER SG'| M|D. WITS: JOHN HAWKS. UNIVERSIDADE DE WISOONSN-MADISON