POLÍTICAS PÚBLICAS DE ESPORTES PARA JUVENTUDE NABAIXADA FLUMINENSE/RJ: UMA DISCUSSÃO INTRODUTÓRIA MARTINS, Carlos He...
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3ganha novos vultos, assumindo ares grandiosos e parecendo rumar para a supremacia danação em diversos setores. Além disso...
4como celeiros de futuros craques. Isso acaba por interferir nos programas e determinaros conteúdos das aulas de educação ...
5uma possibilidade de evitar o envolvimento juvenil com as drogas e a violência. Temosentão o recrudescimento de antigos a...
6 As diferentes análises históricas da juventude têm permitido entendimentosfracionados a partir da área de interess...
7a inviabilidade de concretização desse lugar, traz como conseqüência a impossibilidadede construção do mundo a partir dos...
8 “a situação dessas parcelas de jovens se vê ainda agravada pelo encolhimento do Esta...
9 Apesar de não termos registro de políticas nacionais direcionadas aos jovensparece haver algumas propostas no que ...
10programa ainda encontra-se em fase de implementação e a prefeitura não recebeurecursos desde aquele ano. Em sua ma...
11parcerias: tutela do município sobre a sociedade civil? Controle de entes corporativos(ongs ou empresas) sobre a concepç...
12papéis apontada nos questionários, aguardando uma pesquisa empírica. Ao participar detodas as etapas de todos os projeto...
13acaba tendo importância pelo fato de selecionar os atletas e as equipes dos municípiospara atuar em competições estaduai...
14seja, aquele que entra pelos portões da escola trazendo os códigos do esporte de altorendimento como a busca de vitória ...
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Políticas públicas de esportes para juventude na baixada fluminense rj, uma discussão introdutória

Published on: Mar 4, 2016
Source: www.slideshare.net


Transcripts - Políticas públicas de esportes para juventude na baixada fluminense rj, uma discussão introdutória

  • 1. POLÍTICAS PÚBLICAS DE ESPORTES PARA JUVENTUDE NABAIXADA FLUMINENSE/RJ: UMA DISCUSSÃO INTRODUTÓRIA MARTINS, Carlos Henrique dos Santos – UFF MELO, Marcelo Paula de – UFF GT: Movimentos Sociais e Educação / n.03 Agência Financiadora: FAPERJ/PAPESP UM COMEÇO Poucos fenômenos sociais têm a mesma inserção que tem o esporte.Dificilmente ficamos indiferentes às alterações que os diversos eventos esportivosprovocam em nosso cotidiano. Apesar dessa grande inserção social, notamos que oesporte ainda não goza da legitimação social que outros direitos têm no âmbito dasadministrações públicas, ou então, em um quadro de escassez generalizada de acesso adireitos, o mesmo fica relegado a um segundo plano. No que tange à juventude, podemos dizer que os esportes configuram-seem uma das principais manifestações sócio-culturais de elaboração de identidadesjuvenis. É comum observarmos a presença de grupos esportivos compostos por jovens,sejam aqueles formados nos bairros, nas escolas, nas políticas públicas ou mesmo emações sociais esportivas. Tendo o esporte grande relevância, sobretudo como lazer, para esse grupo sociale também para outros, não é de estranhar o destaque e a visibilidade que vem ganhandoa necessidade de políticas públicas nessa área. Considerando aprivatização/mercantilização das práticas esportivas, corroboradas com a pequenaquantidade de espaços públicos próprios às práticas esportivas, o acesso/permanênciatorna-se restrito a poucos, que podem pagar a mensalidade de um clube, alugar umaquadra ou matricular-se em uma “escolinha”. Diante disso, optamos por um recorte que nos permita compreender como seapresentam as políticas públicas de esporte para a juventude na Baixada Fluminense. Apartir da análise de alguns questionários aplicados aos coordenadores de programas deesportes para os jovens objetiva-se discutir como se apresentam essas mesmas políticas
  • 2. 2no contexto regional, bem como as dificuldades impostas pelo atual momento históricono que tange o acesso universal aos diversos direitos sociais, não apenas para ajuventude, mas também para outros grupos sociais. Nesse ponto, tal debate não pode se dar descolado dos atuais limites ecaracterísticas das políticas públicas sob a égide do capitalismo neoliberal, como suaface perversa de focalização restritiva, não como forma de atender às especificidades deum grupo social, mas como apanágio para restringir o acesso dos diversos grupos aosdireitos sociais. Por isso, chamamos a atenção para o imperioso e atento debate acercadas políticas de juventude que não deve se confundir com o elogio de políticasfocalistas destituídas de escopo universalizante. POLÍTICAS PÚBLICAS E ESPORTE Debater a trajetória das políticas públicas de esportes no Brasil é uma tarefadesafiadora para todos aqueles que os consideram, além de um direito, um fenômenosocial muito importante em nosso país. Por isso, a compreensão dessa trajetória noselucidará questões relevantes para a nossa pesquisa. Esse debate pode indicar caminhosda relação, primeiro entre o Estado e o esporte e, posteriormente, com algunsorganismos da sociedade civil, no que tange a formulações/implementação de políticaspúblicas. Nessa linha, podemos apontar as intervenções do governo Vargas, sobretudo apartir do Estado Novo de 1937, como os primórdios da relação mais sistemática entre oEstado e esporte. Naquele momento, tais ingerências se deram objetivando um maiorcontrole sobre os clubes e as federações. Assim como nos sindicatos, essasinterferências objetivavam colocar as entidades esportivas sob o controle do Estado.Sabemos, também, que a ditadura do Estado Novo pautada, inicialmente, nos moldesnazi-fascistas, tinha como tendência a arregimentação dos organismos da sociedadecivil, mesmo que embrionários, como maneira de legitimar este regime. A partir da ditadura militar em 1964 as políticas de esporte ganham outraconotação, embora algumas características anteriores ainda permaneçam. Nesse caso, atentativa de transformar as vitórias esportivas, sobretudo da Seleção de Futebol em1970, em sinônimos emblemáticos de conquistas nacionais no âmbito internacional
  • 3. 3ganha novos vultos, assumindo ares grandiosos e parecendo rumar para a supremacia danação em diversos setores. Além disso, no que tange ainda ao futebol, podemosobservar como os ditadores militares buscaram se aproximar, objetivando aproveitar-seda relevância social desse esporte. O mito do país grande, onde “ninguém segura estepaís”, com todos “prá frente Brasil”, saudando a seleção, ajudavam a forjar a imagem depaís que dava certo, de grande crescimento econômico. Com isso, além de motivos de cunho progandísticos, o esporte foi tematizadopela primeira vez como direito social, ainda que fundamentado em argumentoscompensatórios e de controle social. Contudo, consideramos apressado atribuir todo o“sucesso” da ditadura ao papel desempenhado pelos esportes no sentido de desviar aatenção da população dos problemas como tortura e terrorismo de Estado. Sendo oesporte um importante aparelho privado de hegemonia, em seu interior também podemse dar práticas não alinhadas; e mais ainda, o apreço à prática esportiva não significadireta e linearmente que os praticantes sejam alienados ou coniventes com práticas antidemocráticas. Apesar disso, o papel pensado para o esporte na tentativa de obtenção deconsenso não pode ser ignorado. A ampliação do acesso ao esporte é reconhecida pelos militares como direitosocial. Claro que tal reconhecimento se concretiza a partir das possibilidades“pedagógicas” dos esportes, bem como da sua creditada possibilidade de ocupar otempo dos jovens com uma diversão “sadia”. Desse modo, ocorre um grande incentivoàs Associações Atléticas nas Universidades, em detrimento dos Diretórios Acadêmicos,numa nova tentativa de americanização do modelo esportivo, tendo as universidadestambém como celeiros de atletas, além do esvaziamento dos possíveis espaços dediscussão política presentes nos meios acadêmicos. A universidade torna-se parte daproposta governamental orientada segundo o modelo de pirâmide esportiva, ou seja,através da necessidade de oferecimento de oportunidade esportiva às massas para quedaí surjam os grandes talentos esportivos de alto nível.Temos, portanto, uma grandeesportivização da Educação Física. Por conta disso, é pensado o paradigma de intervenção do campo dos esportes.E esse oferecimento às massas também incluía o sistema escolar, básico e universitário,voltado para a juventude. Ocorre então a retomada, desta vez com força, dos JogosEstudantis Brasileiros (JEB´s) e os Jogos Universitários Brasileiros (JUB´s), concebidos
  • 4. 4como celeiros de futuros craques. Isso acaba por interferir nos programas e determinaros conteúdos das aulas de educação física em todas as escolas do país. Assim, ganhaforça o conceito de educação física desportivista em detrimento de práticas humanistasou críticas que serão orientadas por discussões acadêmicas somente a partir dos anosoitenta com o fim da ditadura. Nos idos dos anos 1980, os sopros da democratização do país também começama rondar o mundo dos esportes. Mas estes não escaparam ilesos da chamada transiçãoconservadora. Ao mesmo tempo em que se criticava sua função social, os setores doesporte de alto rendimento se articulavam para poder receber repasses de verbas oficiaisvias suas federações e confederações. Apesar disso, no texto final Constituição de 1988,tanto o lazer como os esportes são considerados direitos sociais juntamente com outrostradicionais como saúde, educação, habitação e transporte. No campo das esquerdas começa-se a discutir possibilidades de concretizar odireito social ao esporte a partir de referenciais diferentes das práticas políticastradicionais. A partir da vitória nos pleitos eleitorais, primeiramente em algunsmunicípios, e depois em alguns estados, tem-se o desafio de implementar programasque marquem a diferença. Segundo Vaz (1997), o curto intervalo de tempo entre oinício dos debates críticos na/da Educação Física e esportes, e o alcance de posiçõespolíticas em executivos municipais tornaram a missão mais difícil1. Não é novidade que os debates políticos sobre o esporte nunca gozaram degrande legitimidade no campo das esquerdas, sendo comuns visões limitadas eapressadas que consideram o esporte como prática alienante ou de menor relevância.Enquanto isso, as práticas clientelistas como troca de medalhas, jogos de camisas, bolaspor votos sejam em eleições gerais ou de órgãos esportivos continuaram dando degoleada. Com isso, não devemos esquecer que práticas conservadoras de abordar oesporte como direito social também ainda se fazem presentes. O esporte continua sendoconsiderado um importante meio de disciplinamento e controle da juventude, bem como1 Não por acaso, Vaz (1997, p. 52), à época compondo a equipe da Fundação Municipal de Esportes deFlorianópolis/SC, nos faz uma difícil pergunta que tem buscado ser respondida. Segundo o autor “... noâmbito das práticas corporais, como implementar políticas públicas com sentidos, significados edirecionamentos radicalmente articulados a um projeto democrático de sociedade?”.
  • 5. 5uma possibilidade de evitar o envolvimento juvenil com as drogas e a violência. Temosentão o recrudescimento de antigos argumentos funcionalistas para legitimar as políticasesportivas. Nesse caso, as políticas públicas de esporte “precisam” de outras justificativasque não apenas a democratização do acesso e permanência. Não é difícil ouvirassertivas de que o jovem que pratica esporte não se envolve com drogas; ouargumentos mais conservadores no que tange ao tempo livre, como sendo este a raiz detodos os males e problemas da juventude; “não tem tempo de pensar besteira”; “não ficafazendo o que não deve na rua”; “mente vazia oficina do diabo” (Melo, 2003). Por trás de argumentações como essas estão presentes componentes que hámuito marcam algumas iniciativas que atendem os jovens pobres. Percebemosclaramente a posição de que o jovem se envolveria com o crime por não ter outrascoisas a fazer, indicando uma suposta linearidade entre falta de opções de lazer com oingresso no mundo do crime. Assim, o esporte seria o “antídoto” perfeito para coibir taispráticas (Melo, 2003). Outra tendência ainda presente nas políticas públicas de esporte é a que segueconsiderando os programas como celeiros de novos talentos, revivendo a antiga enefasta concepção da pirâmide desportiva dos tempos da ditadura. Ou seja, com ademocratização da prática esportiva novos talentos surgirão e com isso o país poderáobter melhores resultados esportivos, além de promover a ascensão social desses jovens.Essa premissa parece ganhar força com o programa Esporte na Escola proposto pordiversos governos com o intuito de transformar o país em potência olímpica. Essa tendência de profissionalização esportiva dos jovens geralmente aborda aquestão dos problemas da juventude e suas soluções a partir de iniciativas individuais,ou seja, um (a) jovem se destacará como atleta de alto nível e com isso servirá deexemplo para outros. Temos uma individualização da questão, cabendo aos jovens,através de seus esforços e talentos, galgarem o seu espaço, uma vez que todos têmcondição de alcançar o sucesso esportivo, bastando dedicação, e aqueles que nãolograrem sucesso terá sido porque não se dedicaram o suficiente. CONCEPÇÕES A RESPEITO DA JUVENTUDE
  • 6. 6 As diferentes análises históricas da juventude têm permitido entendimentosfracionados a partir da área de interesse pelo tema. Se levássemos em consideraçãoapenas essa afirmação, já poderíamos pensar na pluralidade de ser jovem na história enas sociedades. Porém, esses estudos não contemplam a complexidade de categorizaçãoda juventude na sua diversidade mas na sua parcialidade. Ela não é vista a partir dasmúltiplas identidades que constituem os vários sujeitos que a compõe. Geralmente o jovem é quase sempre colocado como membro de uma faseproblemática de amadurecimento pela qual todos terão que passar de forma inexorável.A superação desse lugar comum nos movimenta para entender o jovem a partir demecanismos que possibilitem as suas diversas formas de expressão e que permitam aconstrução de suas identidades, além de buscar a compreensão de suas necessidades eanseios a partir de sua voz e do seu olhar, de sua presença no mundo. Carrano (2003, p. 131), lembra que “a juventude, categoria sociológica, éfreqüentemente associada à possibilidade de inovação e construção de um futurorenovado”, onde os problemas pelos quais estaríamos passando seriam equacionadospelos jovens-futuros-adultos. Pensamos o jovem como a possibilidade de um futuromelhor, mas não constituímos as oportunidades de a juventude se reconhecer como talpotencialidade concreta de mudança. Classificar o jovem como um problema social de difícil solução, comoirresponsável, inconseqüente, irreverente e desinteressado parece funcionar como umaestratégia de descomprometimento freqüentemente utilizada pelos adultos, responsáveisque são pela criação de mecanismos que possibilitem ao jovem participar ativamentedos diversos âmbitos sociais. Essa classificação parece, ainda, ser resultado do jogo deinteresses do poder público e das elites em não assumir para si a responsabilidade daefetivação de uma sociedade desigual em que não há espaço para a inserção do jovem.A concepção de uma sociedade que vá de encontro à propostas neoliberais, em quesejam definidas políticas de inclusão e participação de todos os segmentos sociaisparece ser uma proposta que contempla também a juventude. Os problemas sociais advindos, em grande parte, pela dificuldade de entrada dosjovens no mundo do trabalho (reforçada pela crise do desemprego) não possibilitam aosmesmos a construção de um espaço social próprio. A negação desse espaço, ou melhor,
  • 7. 7a inviabilidade de concretização desse lugar, traz como conseqüência a impossibilidadede construção do mundo a partir dos valores que a juventude considera como sendoseus. Se o mundo que ora se apresenta está estruturado segundo os valores e a lógica“do mundo dos adultos”, onde os jovens não se efetivam como membros, ele parececontribuir para o conflito geracional, ao qual estes respondem com atitudes e ações quesão classificadas como próprias da marginalidade e delinqüência juvenis. As marcas conceituais carregadas pela construção sociológica da juventudepodem ser reforçadas de acordo com o lugar de onde se fala. Para o próprio indivíduo,determinadas características podem ser próprias dos jovens em função da freqüênciacom que são observadas nesses grupos independente das relações que possamcaracterizá-los em diferentes sociedades. Outra possibilidade é observar determinadaspeculiaridades transformadas em “problemas” específicos da juventude, para os quaisseriam necessárias algumas medidas a fim de solucioná-los. Assim, é possívelobservarmos como os pais e as autoridades tendem a agir, com freqüência, de formaautoritária e repressora, para proteger os jovens. Essas “boas intenções”, muitas vezes,não só não resolvem os problemas como tendem a acirrá-los. Além disso, determinadasatitudes parecem reforçar os distanciamentos intergeracionais justificando a maneira deos jovens olharem os poderes constituídos com certa desconfiança e descrédito, assimcomo, possibilitam o surgimento de novos problemas e conflitos que teriam suas raízesno fato de os jovens quase nunca serem consultados a respeito das soluções para ossupostos problemas que eles quase nunca reconhecem como sendo seus. POLÍTICAS (NEM SEMPRE) PÚBLICAS E JUVENTUDE As diferentes inserções sociais dos vários grupos juvenis levam-nos a refletir arespeito de múltiplas possibilidades de entender o jovem no contexto da sociedadecapitalista, de ordem neoliberal, onde o individualismo e a acentuação da exclusãosocial parecem ser algumas de suas marcas. Os jovens ou grupo de jovens estãoinseridos em realidades não homogêneas, ou seja, onde questões comoinclusão/exclusão, poder aquisitivo, inserção cultural e social como sujeito dedireitos/não direitos, condições de saúde, moradia, trabalho, escolarização, segurança,gênero, irão influenciar sobremaneira na construção de sujeitos plurais. Segundo Carrano e Dayrell,
  • 8. 8 “a situação dessas parcelas de jovens se vê ainda agravada pelo encolhimento do Estado na esfera pública, que não oferece soluções por meio de políticas que contemplem a juventude, o que gera uma privatização e despolitização das condições de vida” (2002, pág. 6). Vista como um problema, a juventude torna-se alvo de políticas públicascompensatórias ou assistencialistas que, no fundo, procuram reforçar o controle ouatenuar as dificuldades pelas quais passa a sociedade, mas que nesse grupo pareceganhar maior visibilidade. Muito freqüentemente, o jovem está relacionado às questõesde delinqüência e violência e que representam ameaças aos segmentos sociais, à ordempública. Assim, são justificadas as ações governamentais que amenizem ou ocultem osreais problemas por que passam os jovens. No bojo da concepção de sociedade neoliberal, a execução das políticas públicassociais é majoritariamente executada através das ditas parcerias com organismos nasociedade civil. Estes, integrantes do chamado “terceiro setor”, inserem-se no contextode precarização e focalização dessas políticas em detrimento de uma concepção deatendimento ampliado, configurando os direitos sociais. Se no âmbito das políticas dejuventude alguns organismos na sociedade civil, sobretudo, algumas Ongs, são osmaiores responsáveis pela visibilidade que esse tema obteve, não podemos negar aconfluência perversa entre a atuação desses organismos implementando ações - algumasvezes nem concebidas por elas mesmas - e a concepção neoliberal de Estado, sobretudo,em sua versão de terceira via. Com isso, contrapomos a idéia de retirada do Estado em nome do mercado e/ousociedade civil. Mesmo no campo da esquerda as denúncias, em geral, vão por essecaminho. A partir da emergência de novas instituições na formulação de políticas - asOngs, Fundações, Instituições Filantrópicas -, temos nos questionado se em grande parteo que tem ocorrido não seria uma orientação política, que delega a execução de suasações a esses novos organismos. Podemos dizer que as linhas mestras, a direçãopolítica, continuam no âmbito do aparelho estatal (seja o federal, o estadual ou omunicipal), mas a sua execução, acompanhada de um perverso processo de precarizaçãoe focalização, é que tem sido deslocada para essas instituições.
  • 9. 9 Apesar de não termos registro de políticas nacionais direcionadas aos jovensparece haver algumas propostas no que diz respeito às práticas esportivas para ajuventude e que estão presentes nos estados e municípios, como é o caso, por exemplodo programa Esporte Solidário. São essas propostas que investigamos a seguir, a partirdos questionários respondidos pelos coordenadores de esportes dos municípiosselecionados da pesquisa. ANÁLISE DOS PROGRAMAS Dentre os municípios que compõem a baixada fluminense foram selecionados oscinco que, de acordo com o censo-2000 realizado pelo IBGE, possuem a maiorconcentração de habitantes na região. Nestes, foram encontrados nove projetosdestinados aos jovens e relacionados à prática desportiva. Os projetos estão dispostos de forma fragmentada, pois não foi possívelidentificar uma proposta que seja oriunda de políticas esportivas em níveis estadual e/oufederal. Assim, observa-se que os projetos são, em sua maioria, resultados de iniciativaspessoais dos gestores municipais apesar de muitos deles contarem com alguma forma deapoio daquelas esferas governamentais. Ressalte-se que o município de Duque deCaxias, por exemplo, não dispõe de qualquer projeto esportivo que contemple,especificamente, a sua população jovem que corresponde a aproximadamente vinte porcento da população do município. Esse dado parece confirmar o fato de que não existempolíticas públicas de esporte para essa região que sejam implementadas pelos diversosníveis do poder executivo cujo foco seja a juventude. Contudo podemos encontrarprojetos universalizados onde os jovens estejam inseridos como parte que são dasociedade. O que se pode dizer é que os projetos são localizados e não necessariamentefragmentados por não ter indução/apoio estadual ou federal. O personalismo é um dostraços possíveis das práticas de políticas concebidas no âmbito municipal. Apesar disso, podemos encontrar o programa Esporte Solidário, um projetoconcebido durante o governo de Fernando Henrique Cardoso mas que é mantido pelogoverno municipal. Chama a atenção o fato de que, apesar de o programa existir dede1997, o coordenador do mesmo, no município de Nilópolis, por exemplo, desconhecer omontante a ser aplicado na implantação/execução do projeto. Passados sete anos, o
  • 10. 10programa ainda encontra-se em fase de implementação e a prefeitura não recebeurecursos desde aquele ano. Em sua maioria, os projetos contam apenas com recursos financeiros doexecutivo municipal e seus coordenadores desconhecem o montante que dispõem para aefetivação dos mesmos. A participação do governo estadual efetiva-se através de diversas contribuiçõescomo a distribuição de merenda e a cessão ou o aluguel de instalações esportivas.Observa-se, ainda, algumas formas de assessoria técnica representada por cursos decapacitação. O mesmo acontece com relação à participação do governo federal. Vale destacar que existe, na maioria dos projetos em fase de implementação,uma enorme predisposição e preocupação com formas variadas de parcerias com outrossetores da iniciativa privada no sentido de alocar recursos necessários ao cumprimentodas etapas dos projetos para as quais não existem formas de controle eacompanhamento. Embora concebidos por órgãos municipais, muitos desses projetos não dispõemde orçamento próprio ou os seus coordenadores afirmam desconhecer os valoresdisponíveis para a sua execução. A exceção fica por conta do município de São João deMeriti onde o entrevistado soube quantificar os valores disponibilizados para cadaprojeto mesmo não sendo o coordenador dos mesmos. Desse modo, parece importante, como um dos resultados da pesquisa, adiscussão não só do conceito de parceria como também do nível de compreensão que osimplementadores têm a respeito desse mesmo conceito que parece ganhar força na atualagenda pública. Devemos ter cuidado para não atribuir os traços de neoliberalismo doatual governo federal a reflexos dos governos anteriores. Existe, sim, uma assumidacondução da agenda econômica neoliberal ainda que isso não se identifique comprivatizações, mas com novas mediações no relacionamento entre o público e o privado.Mais do que enxergar os traços de continuísmo ou de “autoria neoliberal” do governoLula, nos interessaria perceber como as políticas municipais se conduzem neste quadrode minimização do estado e transferência de responsabilidades públicas na realização dedireitos para entes privados. Enfim, interessa saber o que realmente temos nessas
  • 11. 11parcerias: tutela do município sobre a sociedade civil? Controle de entes corporativos(ongs ou empresas) sobre a concepção e condução de políticas? Parcerias interessantesno respeito a autonomias relativas de governo e sociedade civil? Para exemplificar, tomamos como exemplo a forte presença do Serviço Socialdo Comércio – SESC − não só na concepção como também na implementação egerência dos projetos de esportes para jovens existentes no município de Nova Iguaçu. Dos quatro projetos existentes, três estão em fase de implementação e um emfase de concepção. Embora não exista um órgão diretamente relacionado às políticaspara a juventude, foi criada recentemente a Secretaria Municipal de Esporte e Lazercom a finalidade de construir as diretrizes gerais de esportes e lazer para toda apopulação. Nesse contexto, a juventude é incorporada às demais faixas etárias através de umprojeto mais abrangente. Nos outros projetos há pouca ou nenhuma clareza daespecificidade, ou seja, do direcionamento de suas atividades para determinado gruposocial. Assim como as esferas federal e estadual, este município, ao conceber essesprojetos, o faz a partir de uma lógica que privilegia a criação de parcerias com ainiciativa privada. Tal postura parece repetir o crescente descaso, o descompromisso dopapel do Estado no processo de implementação de políticas que atendam àsnecessidades fundamentais da sociedade. Assim, o SESC, no município em questão, aparece como parceiro ao lado dealguns órgãos públicos como, por exemplo, as diversas secretarias municipaisenvolvidas. Observa-se que, para os entrevistados, o SESC não é um organismo nasociedade civil. Parece haver uma relação tão íntima entre a prefeitura e aquele clube delazer que acaba por deixar dúvidas acerca de qual papel do SESC. A análise dasrespostas sugere uma certa confusão por parte dos gestores/coordenadores ao identificara origem daquela instituição. Será que esse organismo também direciona as políticas de esporte para ajuventude em Nova Iguaçu? Será que esse órgão, além de ceder sua estrutura logística,também influi na linha política das decisões? Ficam as perguntas frente à dubiedade de
  • 12. 12papéis apontada nos questionários, aguardando uma pesquisa empírica. Ao participar detodas as etapas de todos os projetos relacionados ao esporte e lazer existentes nomunicípio o SESC parece substituir a SMEL. Além de financiar os projetos, o clubecede as suas instalações para as práticas esportivas ligadas aos mesmos. A atuação da prefeitura parece evidenciar, não só a “tendência de se transferirdotações orçamentárias e responsabilidades executivas para o denominado terceirosetor”, como também, “o grande defeito da falta de focalização” das políticas públicasde juventude uma vez que são “formuladas sem a definição da clientela prioritária”(Carrano, Dayrell: 2002, pág. 9). Preliminarmente, concluímos que isso parece se repetir em todos os municípiosda região metropolitana do Rio de Janeiro, pois, à exceção de Niterói2, não foramencontrados gestores de programas específicos de juventude. Do mesmo modo, nãoexistem programas esportivos direcionados especificamente para os jovens nosmunicípios pesquisados. Os projetos investigados são direcionados ou para a populaçãoem geral ou para os alunos das redes pública e privada de ensino. Com isso, os mesmosincorporam os jovens, mas não estão focados para esse segmento da sociedade. Outro ponto fundamental nesse debate é avaliarmos as concepções de esporteque fundam os programas analisados. Longe de ser uma questão de menor relevância,indica a concepção pedagógica, e conseqüentemente, o projeto de sociedade que cadaprograma contempla. Nessa linha, analisando os objetivos descritos nos programas, osresultados e os mecanismos de avaliação desses resultados, podemos traçar comentáriosdas concepções de esportes que fundamentam os referidos programas na visão de seusgestores. Em alguns programas, o esporte praticado não só na escola, mas também aquelevoltado para o lazer, continua direcionado para a descoberta de talentos para o esportede alto rendimento, corroborando, assim com a concepção de pirâmide esportiva onde, apartir do oferecimento de múltiplas oportunidades de práticas à massa, selecionam-se osmelhores. Mesmo incorporando no seu discurso a relação entre esporte e cidadania, ou achamada “educação integral”, para os representantes do poder executivo, o esporte2 Apesar deste município não ser objeto de análise da pesquisa que serviu de referência para este texto,pudemos obter esse dado em uma pesquisa mais ampla na qual Niterói está incluído.
  • 13. 13acaba tendo importância pelo fato de selecionar os atletas e as equipes dos municípiospara atuar em competições estaduais. Isso fica claro, por exemplo, nos “programas deesporte para a juventude” de Belford Roxo e São João de Meriti. Por outro lado, também se desenvolvem iniciativas que buscam superar talperspectiva. Ainda que com argumentos pouco elaborados, o responsável pelo setor deesportes de Nova Iguaçu afirma que os programas têm a pretensão de abordar o esportenão só em sua dimensão competitiva - característica do esporte de alto rendimento - mastambém através da socialização, de oportunizar o contato dos estudantes de diversaspartes da cidade. Desse modo, argumenta ser importante a recuperação de praças etransformá-las em espaços públicos de esporte e lazer como pretende o programa devoleibol por ele implementado. Continuando nessa linha, notamos que alguns programas acabam adotando oscódigos do esporte de alto rendimento como forma de legitimarem-se. Quandoperguntado acerca dos resultados de um programa em Belford Roxo, o gestor respondeuque o mesmo já teria formado campeões no atletismo, basquete e outras modalidades. A“avaliação” do programa é realizada através do rendimento esportivo dos alunos, ouseja, o “sucesso” do programa tem por base analítica, unicamente, o resultado esportivoobtido pelos atletas. Mas isso não é exclusivo desse município. Na mesma linha daexperiência anterior, em São João de Meriti, os mecanismos de avaliação utilizadosimportam na seleção dos melhores para compor as equipes municipais e estudantis. Por outro lado, no programa de Nilópolis o resultado alcançado foi o retorno dejovens à escola, uma vez que para participar do mesmo é necessário que o interessadoesteja matriculado na rede pública ou privada de ensino. Essa estratégia aponta paraoutros códigos que podem afirmar a relevância do programa, apesar de não havermecanismos de avaliação, ou seja, não existe um controle sistemático que permitaacompanhar não só o grau de abrangência como também, quantificar os resultadosobtidos pelo programa. No que tange aos Jogos Estudantis a clareza da concepção de esporte é cadamais necessária na implementação desses programas, visto que se lidará com outrainstitucionalidade, que é a escola, com seus códigos e significados próprios. Mas apesardisso, em alguns casos, ainda ocorre uma “invasão” do chamado esporte na escola, ou
  • 14. 14seja, aquele que entra pelos portões da escola trazendo os códigos do esporte de altorendimento como a busca de vitória como critério único de sucesso, valorização doproduto final em detrimento do processo, sem com isso, ser problematizado. Enquantoisso, o “esporte da escola”, aquele pensado a partir da especificidade dessa instituição edaqueles que a compõem, ou seja, os professores, funcionários, alunos e os pais, pareceainda negligenciado. Na medida em que os sentidos do esporte de alto rendimento sãoproblematizados, criticados, vivenciados e reinventados, sem deixar de praticar-seesporte, é possível recolocar sua a dimensão a serviço de um outro projeto de sociedade. ALGUMAS REFLEXÕES (POR AGORA) FINAIS A análise das concepções de esporte se mostra importantíssima nas políticaspúblicas para a juventude por guardarem em si as concepções educativas que sepretendem nesses programas. Por isso, o rechace ao esporte de alto rendimento não éapenas uma questão moral. Trata-se de debater qual o projeto de sociedade que estemodelo de esporte contempla. Estamos falando de organizações articuladas aos projetosde mercadorização, espetacularização das práticas corporais, além de perspectivar umaparticipação diminuta para grandes parcelas da população. Assim, basear-se em seus códigos, sentidos e significados indica uma posiçãopolítica de conceber o esporte através de sua face mais articulada com o projeto deconservação e reprodução das relações sociais vigentes, e não de problematização,vivência crítica, criativa e lúdica dos esportes, como forma de lazer. Tal indicação nãoimplica em uma posição maniqueísta, em que nas práticas esportivas “lúdicas”estivessem todas as virtudes, e as de “rendimento” seriam a “caixa de pandora” dosesportes, estando ali todos os pecados. Com lembra Bracht (2000), “... há nesta posição uma idealização do lúdico como espaço, dimensão do humano a priori a ser preservado da colonização da razão (científica).[...] O comportamento lúdico não existe na sua forma pura, ele está presente em uma série de práticas humanas [...]” (p.17). O caminho para a difusão de práticas esportivas baseadas em sentidos esignificados diferentes do esporte de alto rendimento, ou seja, não excludentes, menos
  • 15. 15individualistas e pautados em princípios de alegria, de festa e não de batalha de guerra,não é tarefa fácil, nem menos importante. Não é incomum encontrarmos grupos que se reúnem em torno de interessesesportivos que não sejam marcados pelos códigos da instituição esportiva, ou seja, nãosão apenas reprodutores do chamado esporte de rendimento. O esporte não é umamanifestação homogênea, apenas legitimadora do capitalismo, sendo a generalizaçãopouco recomendável. Tanto a escola, como as práticas esportivas nos momentos delazer não se configuram a priori como campos de “dominação” do esporte de altorendimento. Políticas públicas que pretendam incluir os jovens devem ser construídas a partirde um outro olhar que não mais veja o jovem como problema, como ameaça àconvivência e ao equilíbrio social. Ao identificar as dificuldades pelas quais a juventudeestá passando e que afetam diretamente a elaboração de sua identidade, o poder públicodeverá promover as condições necessárias para as ações práticas que envolvam osjovens e que funcionem como exercício de experimentação de estar na sociedade e navida. O processo de construção de políticas focadas na juventude deve passar peloentendimento de que o jovem não seja apenas destinatário, mas participante dessemesmo processo. Nesse ponto, as políticas públicas de esporte para juventude podem ser umimportante espelho para conhecermos como alguns executivos municipais estãoabordando a questão. Assim, no âmbito da Baixada Fluminense, ainda encontramosações de pequena abrangência quantitativa frente ao universo juvenil dessa região. Paraque se pudesse dizer que há um grande atendimento a esse segmento seria preciso umincremento no número de programas. Por outro lado, não podemos fechar os olhos aoslimites que muitos dos atuais programas apresentam, pautando-se em concepções deesporte e juventude que implicam em visões restritas, malgrado as exceções apontadasno texto. Assim, ao lado da ampliação quantitativa também indicamos a necessidade deenfrentar a questão das políticas de juventude a partir de outros parâmetros, sob pena decontinuarmos com argumentos funcionalistas e conservadores para legitimar aexistência de programas. Claro que não afirmamos isso de maneira idealista. Isso se
  • 16. 16dará na luta política cotidiana, a partir da construção de um projeto de sociedade,democrático, que contemple não só as políticas de juventude, mas também aquelasvoltadas para outros grupos sociais. Tarefas que se fazem urgentes e cada vez maisnecessárias frente ao quadro de barbárie social que ora se apresenta agudizado pelocapitalismo neoliberal. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASBRACHT, Valter, (2000). Esporte na escola e esporte de rendimento. Porto Alegre:Revista movimento. ESEF/UFRS. Ano VI, nº 12, p. 14-24.CARRANO, P. C. R. (2003). Juventudes e Cidades Educadoras Petrópolis, RJ: Vozes._______________, (2002). Os Jovens e a Cidade: Identidades e Práticas Culturais emAngra de Tantos Reis e Rainhas. Rio de Janeiro: Relume Dumara.CARRANO, P. C. R. e DAYRELL, J., (2002). Jovens no Brasil: Difíceis Travessias deFim de Século e Promessas de um Outro Mundo. Mimeo.IBGE. Censo demográfico de 2000. www.ibge.gov.brIETS. Estudo sobre a Região Metropolitana do Rio de Janeiro. www.iets.org.brLINHALES, Meyli, A, (1996). A trajetória política do esporte no Brasil: interessesenvolvidos e setores excluídos. Belo Horizonte: FAFICH, Dissertação de Mestrado.MELO, Marcelo P., (2003). Para além do salvacionismo ou considerações sobrepolíticas de esporte em favelas. Trabalho apresentado no XIII Congresso Brasileiro deCiências do Esporte, Caxambu. Anais do CBCE.SPOSITO, M., (1999). Algumas Hipóteses Sobre as Relações Entre movimentosSociais, Juventude e Educação. Trabalho apresentado na XXII Reunião Anual daANPEd, setembro. Mimeo.VAZ, Alexandre F., (1997). Práticas corporais e a democracia popular. São Paulo.Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Vol. 18, n. º 3, maio, p. 51-57.
  • 17. 17

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