POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO (do pensamento único à consciência universal) ...
levando à resistência parcelas crescentes da humanidade a partir de seus distintos“lugares”. O velho otimismo do grande ge...
Sumário Prefácio 06 GeralI. Introdução Geral 08 1. O mundo como fábula, como perversidade e como poss...
IV. O Território do Dinheiro e da Fragmentação 38 Introdução 38 13. O espaço geográfico: compartimento e ...
VI. A Transição em Marcha 68 Introdução 68 26. Cultura popular, período popular ...
Prefácio Este livro quer ser uma reflexão independente sobre o nosso tempo, um pensamentosobre os seus fundam...
efetivas. Aliás, as transformações que a história ultimamente vem mostrando permitem entrever aemergência de situações mai...
I - INTRODUÇÃO GERAL1. O mundo como fábula, como perversidade e como possibilidade Vivemos num mundo confuso e...
seu fortalecimento para atender aos reclamos da finança e de outros grandes interessesinternacionais, em detrimento dos cu...
Junte-se a esses fatos a emergência de uma cultura popular que se serve dos meios técnicos antesexclusivos da cultura de m...
II - A PRODUÇÃO DA GLOBALIZAÇÃOIntrodução A globalização é, de certa foma, o ápice do processo de internacional...
histórico. Ao surgir uma nova família de técnicas, as outras não desaparecem. Continuamexistindo, mas o novo c...
eficácia.3. A convergência dos momentos A unicidade do tempo não é apenas o resultado de que, nos mais diversos...
escala mundial, atuando como um motor único de tais ações? Havia, com o imperialismo, diversos motores, cada qu...
5. A cognoscibilidade do planeta O período histórico atual vai permitir o que nenhum outro período ofereceu ao ...
superposição entre período e crise, revelando características de ambas essas situações. Como período e como cr...
No período histórico atual, o estrutural (dito dinâmico) é, também, crítico. Isso se deve,entre outras razões, ao fato de ...
III - UMA GLOBALIZAÇÃO PERVERSAIntrodução Os últimos anos do século XX testemunharam grandes mudanças em toda a...
periferia do sistema capitalista acaba se tornando ainda mais periférica, seja porque não dispõetotalmente dos novos meios...
da interação entre pessoas, mas do que é veiculado pela mídia, uma interpretação interessada, senãointeresseira, dos fatos...
A violência do dinheiro A internacionalização do capital financeiro amplia-se, recentemente, por várias razões...
conseguinte, uma banalidade, mas seus fundamentos e seu alcance escapam à percepção imediata,daí seu mistério. Tais caract...
lugar da lógica das finalidades, e convoca os pragmatismos a que se tornem triunfantes. Para tudo isso, também ...
isso, o entendimento do que é o mundo passa pelo consumo e pela competitividade, ambos fundadosno mesmo sistema da ideolog...
alicerçada na tirania do dinheiro e da informação produzindo em toda parte situações nas quais tudo,isto é, coisas, homens...
sedução pelos números, um uso mágico das estatísticas. É também a partir desse quadro que se pode interpret...
O dinheiro em estado puro Com a globalização impõe-se uma nova noção de riqueza, de prosperidade e deequilí...
necessidade. Não há outro telos, outra finalidade que o próprio uso da força, já que ela éindispensável para competir e fa...
removido, por isso sendo considerado uma coisa. Decorrem daí a celebração dos egoísmos, oalastramento dos narcisismos, a b...
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
Por Uma Outra Globalização - Milton Santos
of 84

Por Uma Outra Globalização - Milton Santos

Published on: Mar 4, 2016
Source: www.slideshare.net


Transcripts - Por Uma Outra Globalização - Milton Santos

  • 1. POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO (do pensamento único à consciência universal) Milton Santos Neste livro, Milton Santos propõe uma interpretação multidisciplinar do mundo contemporâneo, em que realça o papel atual da ideologia na produção da história e mostra os limites do seu discurso frente à realidade vivida pela maioria das nações. A tirania da informação e a do dinheiro sãoapresentadas como os pilares de uma situação em que o progresso técnico éaproveitado por um pequeno número de atores globais em seu benefício exclusivo.O resultado é o aprofundamento da competitividade, a produção de novostotalitarismos, a confusão dos espíritos e o empobrecimento crescente das massas,enquanto os Estados se tornam incapazes de regular a vida coletiva. É uma situaçãoinsustentável. O autor enxerga nas reações agora perceptíveis na Ásia, mas também naÁfrica e na América Latina e nos movimentos populares protagonizados pelascamadas mais pobres da população, a semente de uma evolução positiva, quedeverá conduzir ao estabelecimento de uma outra globalização. A tônica desta horaé a mensagem de esperança na construção de um novo universalismo, bom paratodos os povos e pessoas. Este novo livro de Milton Santos trata da globalização como fábula, comoperversidade e como possibilidade aberta ao futuro de uma nova civilizaçãoplanetária. Os atores mais poderosos desta nova etapa da globalização reservam-seos melhores pedaços do Território Global e deixam restos para os outros. Mas agrande perversidade na produção da globalização atual não reside apenas napolarização da riqueza e da pobreza, na segmentação dos mercados e daspopulações submetidas, nem mesmo na destruição da Natureza. A novidadeaterradora reside na tentativa empírica e simbólica de construção de um únicoespaço unipolar de dominação. A tirania do Dinheiro e da Informação, produzida pelaconcentração do capital e do poder, tem hoje uma unidade técnica e umaconvergência de normas sem precedentes na história do capitalismo. O seu caráter globalmente destrutivo acaba porém sendo contraditório, 1
  • 2. levando à resistência parcelas crescentes da humanidade a partir de seus distintos“lugares”. O velho otimismo do grande geógrafo brasileiro reaparece em relação àscidades, como espaço de liberdade para a cultura popular em oposição à culturamidiática de massas, como espaço de solidariedade na luta dos “de baixo” contra aescassez produzida pelos “de cima”. A visão de uma nova horizontalidade na lutados oprimidos contra a verticalidade dos opressores é comovedora e estimulante, jáque conduz a uma nova utopia. Produz-se assim, diz ele, uma nova centralidade do social que constitui abase para uma nova política. Não podendo a esmagadora maioria “consumir oOcidente globalizado” em suas formas puras (financeira, econômica e cultural),aumentará a resistência à dominação ultraliberal e consumista propagandeada pelasgrandes organizações dos meios de comunicação de massas. A alienação tende aser substituída por uma nova consciência, uma nova filosofia moral, que não será ados valores mercantis, mas sim a da solidariedade e da cidadania. A unificação da técnica e das normas instrumentais poderá servir então,dialeticamente, de trampolim para uma nova humanidade, para novos valoressimbólicos que em sua interfecundação e espalhamento abra caminhos a uma novacivilização planetária. A História Universal seria então a da nossa humanidadecomum e não mais a dos dominadores. Maria da Conceição Tavares___________________________________________________________________ Milton Santos é geógrafo, professor emérito da Universidade de SãoPaulo, ganhador do Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud em 1994 e autorde mais de 30 livros e 400 artigos científicos, publicados em diversos idiomas. 2
  • 3. Sumário Prefácio 06 GeralI. Introdução Geral 08 1. O mundo como fábula, como perversidade e como possibilidade 08 O mundo tal como nos fazem crer: a globalização como fábula 08 O mundo como é: a globalização como perversidade 09 O mundo como pode ser: uma outra globalização 09II. A Produção da Globalização 11 Introdução 11 2. A unidade técnica 11 3. A convergência dos momentos 13 4. O motor único 13 5. A cognoscibilidade do planeta 15 6. Um período que e uma crise 15III. Uma Globalização Perversa 18 Introdução 18 7. A tirania da informação e do dinheiro e o atual sistema ideológico 18 A violência da informação 18 Fábulas 19 A violência do dinheiro 21 As percepções fragmentadas e o discurso único do “mundo” 21 8. Competitividade, consumo, confusão dos espíritos, globalitarismo 22 A competitividade, a ausência de compaixão 22 O consumo e o seu despotismo 23 A informação totalitária e a confusão dos espíritos 24 Do imperialismo ao mundo de hoje 24 Globalitarismo e totalitarismos 25 9. A violência estrutural e a perversidade sistêmica 26 O dinheiro em estado puro 27 A competitividade em estado puro 27 A potência em estado puro 27 A perversidade sistêmica 28 10. Da política dos Estados à política das empresas 29 Sistemas técnicos, sistemas filosóficos 30 Tecnociência, globalização e história sem sentido 31 As empresas globais e a morte da política 32 11. Em meio século, três definições da pobreza 33 A pobreza “incluída” 33 A marginalidade 34 A pobreza estrutural globalizada 34 O papel dos intelectuais 35 12. O que fazer com a soberania 36 3
  • 4. IV. O Território do Dinheiro e da Fragmentação 38 Introdução 38 13. O espaço geográfico: compartimento e fragmentação 38 A compartimentação: passado e presente 39 Rapidez, fluidez, fragmentação 40 Competitividade versus solidariedade 41 14. A agricultura científica globalizada e a alienação do território 42 A demanda externa de racionalidade 42 A cidade do campo 43 15. Compartimentação e fragmentação do espaço: o caso do Brasil 44 O papel das lógicas exógenas 44 As dialéticas endógenas 45 16. O território do dinheiro 46 Definições 46 O dinheiro e o território: situações históricas 46 Metamorfoses das duas categorias ao longo do tempo 47 O dinheiro da globalização 47 Situações regionais 48 Efeitos do dinheiro global 49 Epílogo 50 17. Verticalidades e horizontalidades 50 As verticalidades 50 As horizontalidades 52 A busca de um sentido 53 18. A esquizofrenia do espaço 54 Ser cidadão num lugar 54 O cotidiano e o território 54 Uma pedagogia da existência 55V. Limites à Globalização Perversa 57 Introdução 57 19. A variável ascendente 57 20. Os limites da racionalidade dominante 58 21. O imaginário da velocidade 59 Velocidade: técnica e poder 59 Do relógio despótico às temporalidades divergentes 60 22. Just-in-time versus o cotidiano 61 23. Um emaranhado de técnicas: o reino do artifício e da escassez 61 Do artifício à escassez 62 Da escassez ao entendimento 63 24. Papel dos pobres na produção do presente e do futuro 63 25. A metamorfose das classes médias 65 A idade de ouro 65 A escassez chega às classes médias 66 Um dado novo na política 67 4
  • 5. VI. A Transição em Marcha 68 Introdução 68 26. Cultura popular, período popular 68 Cultura de massas, cultura popular 69 As condições empíricas da mutação 70 A precedência do homem e o período popular 70 27. A centralidade da periferia 71 Limites à cooperação 72 O desafio ao Sul 72 28. A nação ativa, a nação passiva 74 Ocaso do projeto nacional? 74 Alienação da nação ativa 74 Conscientização e riqueza da nação passiva 75 29. A globalização atual não é irreversível 76 A dissolução das ideologias 76 A pertinência da utopia 77 Outros usos possíveis para as técnicas atuais 79 Geografia e aceleração da história 79 Um novo mundo possível 80 30. A história apenas começa 82 A humanidade como um bloco revolucionário 82 A nova consciência de ser mundo 83 A grande mutação contemporânea 83 5
  • 6. Prefácio Este livro quer ser uma reflexão independente sobre o nosso tempo, um pensamentosobre os seus fundamentos materiais e políticos, uma vontade de explicar os problemas e dores domundo atual. Mas, apesar das dificuldades da era presente, quer também ser uma mensagemportadora de razões objetivas para prosseguir vivendo e lutando. O trabalho intelectual no qual ele assenta é fruto de nossa dedicação ao entendimentodo que hoje é o espaço geográfico, mas é também tributário de outras realidades e disciplinasacadêmicas. Diferentemente de outros livros nossos, o leitor não encontrará aqui listagens copiosasde citações. Tais livros enfocavam questões da sociedade, verdadeiras teses, isto é, demonstraçõessustentadas e ambiciosas, dirigidas sobretudo à seara acadêmica, levando, por isso, o autor a fazer,ao pequeno mundo dos colegas, a concessão das bibliografias copiosas. Todo mundo sabe que estase tornou quase uma obrigação de scholarship, já que a academia gosta muito de citações, quantasvezes ociosas e até mesmo ridículas. Sem dúvida, este livro também se dirige a estudiosos, massobretudo deseja alcançar o vasto mundo, o que dispensa a obrigação cerimonial das referências.Não quer isso dizer que o autor imagine haver sozinho redescoberto a roda; sua experiência emdiferentes momentos do século e em diversos países e continentes é também a experiência dosoutros a quem leu ou escutou. Mas a originalidade é a interpretação ou a ênfase própria, a formaindividual de combinar o que existe e o que é vislumbrado: a própria definição do que constitui umaidéia. Este livro resulta de um longo trabalho, árduo e agradável. A maioria grande dos seuscapítulos é inédita em sua forma atual. E é também, de algum modo, uma reescritura de aulas,conferências, artigos de jornais e revistas, entrevistas à mídia, cada qual oferecendo um nível dediscurso e a respectiva dificuldade. Somos muitíssimo gratos a todos os que colaboraram para essediálogo e até mesmo àqueles que desconheciam estar participando de uma troca. Dentre osprimeiros, quero destacar os atuais companheiros do projeto acadêmico ambicioso que, desde 1983,venho conduzindo no Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo: minha incansávelcolaboradora, doutora María Laura Silveira, que leu o conjunto do manuscrito, e a professora doutoraMaria Ângela Faggin Pereira Leite, assim como as doutorandas Adriana Bernardes, Cilene Gomes eMônica Arroyo e os mestrandos Eliza Almeida, Fábio Contel, Flávia Grimm, Lídia Antongiovanni,Marcos Xavier, Paula Borin e Soraia Ramos. Ao Departamento de Geografia da Faculdade deFilosofia, Letras e Ciências Humanas que me acolhe e estimula e particularmente ao Laboratório deGeografia Política e Planejamento Territorial e Ambiental (Lapoban), coordenado por meu velhoamigo Armen Mamigonian, vão, também, meus agradecimentos. Estes também incluem os colegasMaria Adélia A. de Souza, Rosa Ester Rossini e Ana Clara Torres Ribeiro, com quem colaboro hácerca de 20 anos. Aos colaboradores gratuitos, encontrados em inúmeras viagens pelo país ouparticipantes de conferências, debates e congressos, sou também devedor pelas suas intervenções esugestões. Sou grato à Folha de S. Paulo e ao Correio Braziliense pela autorização para republicaçãode artigos meus na sua forma original ou modificada. Ainda no capítulo dos agradecimentos, umapalavra especial vai à geógrafa Flávia Grimm, que teve a paciência de acolher os cansativos ditadosde manuscrito de que resulta este livro. A assistência da geógrafa Paula Borin outra vez mostrou-sevaliosa. Sou, também, muito sensível ao apoio recebido do Conselho Nacional de DesenvolvimentoCientífico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo(FAPESP). Essas agências não contribuíram diretamente para este trabalho, mas a produçãointelectual é sempre unitária, uma oba ou pesquisa sendo sempre um subproduto das demais.Também, como sempre, o estímulo recebido de minha mulher, Marie Hélène, foi muito precioso. Ao contrário de um autor francês Joël de Rosnay, que, no prefácio ao seu livro LeMacroscope, sugeriu aos seus leitores começar a leitura por onde quiserem, devo fazer uma outraadvertência. Se alguém ler inicialmente ou separadamente os primeiros capítulos, pode considerar oautor pessimista; e quem preferir os últimos, poderá imaginá-lo um otimista. Na realidade, o quebuscamos foi, de um lado, tratar da realidade tal como ela é, ainda que se mostre pungente; e, deoutro lado, sugerir a realidade tal como ela pode vir a ser, ainda que para os céticos nosso vaticínioatual apareça risonho. A ênfase central do livro vem da convicção do papel da ideologia na produção,disseminação, reprodução e manutenção da globalização atual. Esse papel é também, uma novidadedo nosso tempo. Daí a necessidade de analisar seus princípios fundamentais, apontando suas linhasde fraqueza e de força. Nossa insistência sobre o papel da ideologia deriva da nossa convicção deque, diante dos mesmos materiais atualmente existentes, tanto é possível continuar a fazer do planetaum inferno, conforme no Brasil estamos assistindo, como também é viável realizar o seu contrário. Daía relevância da política, isto é, da arte de pensar mudanças e de criar as condições para torná-las 6
  • 7. efetivas. Aliás, as transformações que a história ultimamente vem mostrando permitem entrever aemergência de situações mais promissoras. Podem objetar-nos que a nossa crença na mudança dohomem é injustificada. E se o que estiver mudando for o mundo? Estamos convencidos de que a mudança histórica em perspectiva provirá de ummovimento de baixo para cima, tendo como atores principais os países subdesenvolvidos e não ospaíses ricos; os deserdados e os pobres e não os opulentos e outras classes obesas; o indivíduoliberado participe das novas massas e não o homem acorrentado; o pensamento livre e não odiscurso único. Como acreditamos na força das idéias – para o bem e para o mal – nesta fase da história,em filigrana aparecerá como constante o papel intelectual no mundo de hoje, isto é, o papel dopensamento livre. Por isso, nos primeiros projetos de redação havia o intuito de dedicar um capítuloexclusivo à atividade intelectual genuína. Todavia achei melhor discutir esse papel em diferentesmomentos da redação, sempre que a ocasião se levantava. O livro é formado de seis partes, das quais a primeira é a introdução. A segunda incluicinco capítulos e busca mostrar como se deu o processo de produção da globalização. Este tema jáhavia sido tratado de alguma forma em outras publicações e livros meus. A terceira parte, formada porseis capítulos, busca explicar por que a globalização atual é perversa, fundada na tirania dainformação e do dinheiro, na competitividade, na confusão dos espíritos e na violência estrutural,acarretando o desfalecimento da política feita pelo Estado e a imposição de uma política comandadapelas empresas. A quarta parte mostra as relações mantidas entre a economia contemporânea,sobretudo as finanças, e o território. Esta parte é constituída de seis capítulos, dos quais o últimopoderia também se incluir na parte seguinte, pois, por meio da noção de esquizofrenia do território,mostramos como o espaço geográfico constitui um dos limites a essa globalização perversa. É essaidéia de limite à história atual que se impõe na quinta parte, em que são mostrados ao mesmo tempoos descaminhos da racionalidade dominante, a emergência de novas variáveis centrais e o papel dospobres na produção do presente e do futuro. A sexta parte, uma espécie de conclusão, é dedicada aoque imaginamos ser, nesta passagem de século, a transição em marcha. Aqui, os temas versadosrealçam as manifestações pouco estudadas do país de baixo, desde a cultura até a política, raciocínioque se aplica também à própria periferia do sistema capitalista mundial, cuja centralidadeapresentamos como um novo fator dinâmico da história. É, exatamente, porque esses atores, eficazesmas ainda pouco estudados, são largamente presentes, que acreditamos não ser a globalização atualirreversível e estamos convencidos de que a história universal apenas começa. 7
  • 8. I - INTRODUÇÃO GERAL1. O mundo como fábula, como perversidade e como possibilidade Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido. Haveria nisto um paradoxopedindo uma explicação? De um lado, é abusivamente mencionado o extraordinário progresso dasciências e das técnicas, das quais um dos frutos são os novos materiais artificiais que autorizam aprecisão e a intencionalidade. De outro lado, há, também, referência obrigatória à aceleraçãocontemporânea e todas as vertigens que cria, a começar pela própria velocidade. Todos esses,porém, são dados de um mundo físico fabricado pelo homem, cuja utilização, aliás, permite que omundo se torne esse mundo confuso e confusamente percebido. Explicações mecanicistas são,todavia, insuficientes. É a maneira como, sobre essa base material, se produz a história humana queé a verdadeira responsável pela criação da torre de babel em que vive a nossa era globalizada.Quando tudo permite imaginar que se tornou possível a criação de um mundo veraz, o que é impostoaos espíritos é um mundo de fabulações, que se aproveita do alargamento de todos os contextos (M.Santos, A natureza do espaço, 1996) para consagrar um discurso único. Seus fundamentos são ainformação e o seu império, que encontram alicerce na produção de imagens e do imaginário, e sepõem ao serviço do império do dinheiro, fundado este na economização e na monetarização da vidasocial e da vida pessoal. De fato, se desejamos escapar à crença de que esse mundo assim apresentado éverdadeiro, e não queremos admitir a permanência de sua percepção enganosa, devemos considerara existência de pelo menos três mundos num só. O primeiro seria o mundo tal como nos fazem vê-lo:a globalização como fábula; o segundo seria o mundo tal como ele é: a globalização comoperversidade; e o terceiro o mundo como ele pode ser: uma outra globalização. O mundo tal como nos fazem crer: a globalização como fábula Este mundo globalizado, visto como fábula, erige como verdade um certo número defantasias, cuja repetição, entretanto, acaba por se tornar uma base aparentemente sólida de suainterpretação (Maria da Conceição Tavares, Destruição não criadora, 1999). A máquina ideológica que sustenta as ações preponderantes da atualidade é feita depeças que se alimentam mutuamente e põem em movimento os elementos essenciais à continuidadedo sistema. Damos aqui alguns exemplos. Fala-se, por exemplo, em aldeia global para fazer crer quea difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas. A partir desse mito e doencurtamento das distâncias – para aqueles que realmente podem viajar – também se difunde a noçãode tempo e espaço contraídos. É como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance damão. Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planetaquando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas. Há uma busca de uniformidade, aoserviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido, tornando mais distante o sonhode uma cidadania verdadeiramente universal. Enquanto isso, o culto ao consumo é estimulado. Fala-se, igualmente, com insistência, na morte do Estado, mas o que estamos vendo é 8
  • 9. seu fortalecimento para atender aos reclamos da finança e de outros grandes interessesinternacionais, em detrimento dos cuidados com as populações cuja vida se torna mais difícil. Esses poucos exemplos, recolhidos numa lista interminável, permitem indagar-se, nolugar do fima da ideologia proclamado pelos que sustentam a bondade dos presentes processos deglobalização, não estaríamos, de fato, diante da presença de uma ideologização maciça, segundo aqual a realização do mundo atual exige como condição essencial o exercício de fabulações. O mundo como é: a globalização como perversidade De fato, para a grande maior parte da humanidade a globalização está se impondo comouma fábrica de perversidades. O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e asclasses médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e o desabrigose generalizam em todos os continentes. Novas enfermidades como a SIDA se instalam e velhasdoenças, supostamente extirpadas, fazem seu retorno triunfal. A mortalidade infantil permanece, adespeito dos progressos médicos e da informação. A educação de qualidade é cada vez maisinacessível. Alastram-se e aprofundam-se males espirituais e morais, como os egoísmos, os cinismos,a corrupção. A perversidade sistêmica que está na raiz dessa evolução negativa da humanidade temrelação com a adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que atualmente caracterizamas ações hegemônicas. Todas essas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao presenteprocesso de globalização. O mundo como pode ser: uma outra globalização Todavia, podemos pensar na construção de um outro mundo, mediante umaglobalização mais humana. As bases materiais do período atual são, entre outras, a unicidade datécnica, a convergência dos momentos e o conhecimento do planeta. É nessas bases técnicas que ogrande capital se apóia para construir a globalização perversa de que falamos acima. Mas, essasmesmas bases técnicas poderão servir a outros objetivos, se forem postas ao serviço de outrosfundamentos sociais e políticos. Parece que as condições históricas do fim do século XX apontavampara esta última possibilidade. Tais novas condições tanto se dão no plano empírico quanto no planoteórico. Considerando o que atualmente se verifica no plano empírico, podemos, em primeirolugar, reconhecer um certo número de fatos novos indicativos da emergência de uma nova história. Oprimeiro desses fenômenos é a enorme mistura de povos, raças, culturas, gostos, em todos oscontinentes. A isso se acrescente, graças aos progressos da informação, a “mistura” de filosofias, emdetrimento do racionalismo europeu. Um outro dado de nossa era, indicativo da possibilidade demudanças, é a produção de uma população aglomerada em áreas cada vez menores, o que permiteainda maior dinamismo àquela mistura entre pessoas e filosofias. As massas de que falava Ortega yGasset na primeira metade do século (La rebelión de las masas, 1937), ganham uma nova qualidadeem virtude da sua aglomeração exponencial e de sua diversificação. Trata-se da existência de umaverdadeira sociodiversidade, historicamente muito mais significativa que a própria biodiversidade. 9
  • 10. Junte-se a esses fatos a emergência de uma cultura popular que se serve dos meios técnicos antesexclusivos da cultura de massas, permitindo-lhe exercer sobre esta última uma verdadeira revancheou vingança. É sobre tais alicerces que se edifica o discurso da escassez, afinal descoberta pelasmassas. A população aglomerada em poucos pontos da superfície da Terra constitui uma das basesde reconstrução e de sobrevivência das relações locais, abrindo a possibilidade de utilização, aoserviço dos homens, do sistema técnico atual. No plano teórico, o que verificamos é a possibilidade de produção de um novo discurso,de uma nova metanarrativa, um novo grande relato. Esse novo discurso ganha relevância pelo fato deque, pela primeira vez na história do homem, se pode constatar a existência de uma universalidadeempírica. A universalidade deixa de ser apenas uma elaboração abstrata na mente dos filósofos pararesultar da experiência ordinária de cada homem. De tal modo, em um mundo datado como o nosso,a explicação do acontecer pode ser feita a partir de categorias de uma história concreta. É isso,também, que permite conhecer as possibilidades existentes e escrever uma nova história. 10
  • 11. II - A PRODUÇÃO DA GLOBALIZAÇÃOIntrodução A globalização é, de certa foma, o ápice do processo de internacionalização do mundocapitalista. Para entendê-la, como, de resto, a qualquer fase da história, há dois elementosfundamentais a levar em conta: o estado das técnicas e o estado da política. Há uma tendência a separar uma coisa da outra. Daí muitas interpretações da história apartir das técnicas. E, por outro lado, interpretações da história a partir da política. Na realidade,nunca houve na história humana separação entre as duas coisas. As técnicas são oferecidas comoum sistema e realizadas combinadamente através do trabalho e das formas de escolha dosmomentos e dos lugares de seu uso. É isso que fez a história. No fim do século XX e graças aos avanços da ciência, produziu-se um sistema detécnicas presidido pelas técnicas da informação, que passaram a exercer um papel de elo entre asdemais, unindo-as e assegurando ao novo sistema técnico uma presença planetária. Só que a globalização não é apenas a existência desse novo sistema de técnicas. Ela étambém o resultado das ações que asseguram a emergência de um mercado dito global, responsávelpelo essencial dos processos políticos atualmente eficazes. Os fatores que contribuem para explicar aarquitetura da globalização atual são: a unicidade da técnica, a convergência dos momentos, acognoscibilidade do planeta e a existência de um motor único na história, representado pela mais-valia globalizada. Um mercado global utilizando esse sistema de técnicas avançadas resulta nessaglobalização perversa. Isso poderia ser diferente se seu uso político fosse outro. Esse é o debatecentral, o único que nos permite ter a esperança de utilizar o sistema técnico contemporâneo a partirde outras formas de ação. Pretendemos, aqui, enfrentar essa discussão, analisando rapidamentealguns dos seus aspectos constitucionais mais relevantes.2. A unidade técnica O desenvolvimento da história vai de par com o desenvolvimento das técnicas. Kant diziaque a história é um progresso sem fim; acrescentemos que é também um progresso sem fim dastécnicas. A cada evolução técnica, uma nova etapa histórica se torna possível. As técnicas se dão como famílias. Nunca, na história do homem, aparece uma técnicaisolada; o que se instala são grupos de técnicas, verdadeiros sistemas. Um exemplo banal pode serdado com a foice, a enxada, o ancinho, que constituem, num dado momento, uma família de técnicas. Essas famílias de técnicas transportam uma história, cada sistema técnico representauma época. Em nossa época, o que é representativo do sistema de técnicas atual é a chegada datécnica da informação, por meio da cibernética, da informática, da eletrônica. Ela vai permitir duasgrandes coisas: a primeira é que as diversas técnicas existentes passam a se comunicar entre elas.A técnica da informação assegura esse comércio, que antes não era possível. Por outro lado, ela temum papel determinante sobre o uso do tempo, permitindo, em todos os lugares, a convergência dosmomentos, assegurando a simultaneidade das ações e, por conseguinte, acelerando o processo 11
  • 12. histórico. Ao surgir uma nova família de técnicas, as outras não desaparecem. Continuamexistindo, mas o novo conjunto de instrumentos passa a ser usado pelos novos atores hegemônicos,enquanto os não hegemônicos continuam utilizando conjuntos menos atuais e menos poderosos.Quando um determinado ator não tem as condições para mobilizar as técnicas consideradas maisavançadas, torna-se, por isso mesmo, um ator de menor importância no período atual. Na história da humanidade é a primeira vez que tal conjunto de técnicas envolve oplaneta como um todo e faz sentir, instantaneamente, sua presença. Isso, aliás, contamina a forma deexistência das outras técnicas, mais atrasadas. As técnicas características do nosso tempo,presentes que sejam em um só ponto do território, têm uma influência marcante sobre o resto do país,o que é bem diferente das situações anteriores. Por exemplo, a estrada de ferro instalada em regiõesselecionadas, escolhidas estrategicamente, alcançava uma parte do país, mas não tinha umainfluência direta determinante sobre o resto do território. Agora não. A técnica da informação alcançaa totalidade de cada país, direta ou indiretamente. Cada lugar tem acesso ao acontecer dos outros. Oprincípio de seletividade se dá também como princípio de hierarquia, porque todos os outros lugaressão avaliados e devem se referir àqueles dotados das técnicas hegemônicas. Esse é um fenômenonovo na história das técnicas e na história dos territórios. Antes havia técnica hegemônicas e nãohegemônicas; hoje, as técnicas não hegemônicas são hegemonizadas. Na verdade, porém, a técnicanão pode ser vista como um dado absoluto, mas como técnica já relativizada, isto é, tal como usadapelo homem. As técnicas apenas se realizam, tornando-se história, com a intermediação da política,isto é, da política das empresas e da política dos Estados, conjunta ou separadamente. Por outro lado, o sistema técnico dominante no mundo de hoje tem uma outracaracterística, isto é, a de ser invasor. Ele não se contenta em ficar ali onde primeiro se instala ebusca espalhar-se, na produção e no território. Pode não o conseguir, mas é essa sua vocação, que étambém fundamento da ação dos atores hegemônicos, como, por exemplo, as empresas globais.Estas funcionam a partir de uma fragmentação, já que um pedaço da produção pode ser feita naTunísia, outro na Malásia, outro ainda no Paraguai, mas isto apenas é possível porque a técnicahegemônica de que falamos é presente ou passível de presença em toda a parte. Tudo se junta earticula depois mediante a “inteligência” da firma. Senão não poderia haver empresa transnacional.Há, pois, uma relação estreita entre esse aspecto da economia da globalização e a natureza dofenômeno técnico correspondente a este período histórico. Se a produção se fragmenta tecnicamente,há, do outro lado, uma unidade política de comando. Essa unidade política do comando funciona nointerior das firmas, mas não há propriamente uma unidade de comando do mercado global. Cadaempresa comanda as respectivas operações dentro da sua respectiva topologia, isto é, do conjuntode lugares da sua ação, enquanto a ação dos Estados e das instituições supranacionais não bastapara impor uma ordem global. Levando ao extremo esse raciocínio, poder-se-ia dizer que o mercadoglobal não existe como tal. Há uma relação de causa e efeito entre o progresso técnico atual e as demais condiçõesde implantação do atual período histórico. É a partir da unicidade das técnicas, da qual o computadoré uma peça central, que surge a possibilidade de existir uma finança universal, principal responsávelpela imposição a todo o globo de uma mais-valia mundial. Sem ela, seria também impossível a atualunicidade do tempo, o acontecer local sendo percebido como um elo do acontecer mundial. Por outrolado, sem a mais-valia globalizada e sem essa unicidade do tempo, a unicidade da técnica não teria 12
  • 13. eficácia.3. A convergência dos momentos A unicidade do tempo não é apenas o resultado de que, nos mais diversos lugares, ahora do relógio é a mesma. Não é somente isso. Se a hora é a mesma, convergem, também, osmomentos vividos. Há uma confluência dos momentos como resposta àquilo que, do ponto de vistada física, chama-se de tempo real e, do ponto de vista histórico, será chamado de interdependência esolidariedade do acontecer. Tomada como fenômeno físico, a percepção do tempo real não só querdizer que a hora dos relógios é a mesma, mas que podemos usar esses relógios múltiplos de maneirauniforme. Resultado do progresso científico e técnico, cuja busca se acelerou com a Segunda Guerra,a operação planetária das grandes empresas globais vai revolucionar o mundo das finanças,permitindo ao respectivo mercado que funcione em diversos lugares durante o dia inteiro. O temporeal também autoriza usar o mesmo momento a partir de múltiplos lugares; e todos os lugares a partirde um só deles. E, em ambos os casos, de forma concatenada e eficaz. Com essa grande mudança na história, tornamo-nos capazes, seja onde for, de terconhecimento do que é o acontecer do outro. Nunca houve antes essa possibilidade oferecida pelatécnica à nossa geração de ter em mãos o conhecimento instantâneo do acontecer do outro. Essa é agrande novidade, o que estamos chamando de unicidade do tempo ou convergência dos momentos.A aceleração da história, que o fim do século XX testemunha, vem em grande parte disto. Mas ainformação instantânea e globalizada por enquanto não é generalizada e veraz porque atualmenteintermediada pelas grandes empresas de informação. E quem são os atores do tempo real? Somos todos nós? Esta pergunta é um imperativopara que possamos melhor compreender nossa época. A ideologia de um mundo só e da aldeiaglobal considera o tempo real como um patrimônio coletivo da humanidade. Mas ainda estamos longedesse ideal, todavia alcançável. A história é comandada pelos grandes atores desse tempo real, que são, ao mesmotempo, os donos da velocidade e os autores do discurso ideológico. Os homens não são igualmenteatores desse tempo real. Fisicamente, isto é, potencialmente, ele existe para todos. Masefetivamente, isto é, socialmente, ele é excelente e assegura exclusividades, ou, pelo menos,privilégios de uso. Como ele é utilizado por um número reduzido de atores, devemos distinguir entre anoção de fluidez efetiva. Se a técnica cria aparentemente para todos a possibilidade da fluidez, quem,todavia, é fluido realmente? Que empresas são realmente fluidas? Que pessoas? Quem, de fato,utiliza em seu favor esse tempo real? A quem, realmente, cabe a mais-valia criada a partir dessa novapossibilidade de utilização do tempo? Quem pode e quem não pode? Essa discussão leva-nos a umaoutra, na fase atual do capitalismo, ao tomarmos em conta a emergência de um novo fatordeterminante da história, representado pelo que aqui estamos denominando de motor único.4. O motor único Este período dispõe de um sistema unificado de técnicas, instalado sobre um planetainformado e permitindo ações igualmente globais. Até que ponto podemos falar de uma mais-valia à 13
  • 14. escala mundial, atuando como um motor único de tais ações? Havia, com o imperialismo, diversos motores, cada qual com sua força e alcancepróprios: o motor francês, o motor inglês, o motor alemão, o motor português, o belga, o espanholetc., que eram todos motores do capitalismo, mas empurravam as máquinas e os homens segundoritmos diferentes, modalidades diferentes, combinações diferentes. Hoje haveria um motor único queé, exatamente, a mencionada mais-valia universal. Esta tornou-se possível porque a partir de agora a produção se dá à escala mundial, porintermédio de empresas mundiais, que competem entre si segundo uma concorrência extremamenteferoz, como jamais existiu. As que resistem e sobrevivem são aquelas que obtêm a mais-valia maior,permitindo-se, assim, continuar a proceder e a competir. Esse motor único se tornou possível porque nos encontramos em um novo patamar dainternacionalização, com uma verdadeira mundialização do produto, do dinheiro, do crédito, da dívida,do consumo, da informação. Esse conjunto de mundializações, uma sustentando e arrastando aoutra, impondo-se mutuamente, é também um fato novo. Um elemento da internacionalização atrai outro, impõe outro, contém e é contido pelooutro. Esse sistema de forças pode levar a pensar que o mundo se encaminha para algo como umahomogeneização, uma vocação a um padrão único, o que seria devido, de um lado, à mundializaçãoda técnica, de outro, à mundialização da mais-valia. Tudo isso é realidade, mas também e sobretudo tendência, porque em nenhum lugar, emnenhum país, houve completa internacionalização. O que há em toda parte é uma vocação às maisdiversas combinações de vetores e formas de mundialização. Pretendemos que a história, agora, seja movida por esse motor único. Cabe, assim,indagar qual seria a sua natureza. Será ele abstrato? Que é essa mais-valia considerada ao nívelglobal? Ela é fugidia e nos escapa, mas não é abstrata. Ela existe e se impõe como coisa real,embora não seja propriamente mensurável, já que está sempre evoluindo, isto é, mudando. Ela é“mundial” porque entretida pelas empresas globais que se valem dos progressos científicos e técnicosdisponíveis no mundo e pedem, todos os dias, mais progresso científico e técnico. A atual competitividade entre as empresas é uma forma de exercício dessa mais-valiauniversal, que se torna fugidia exatamente porque deixamos o mundo da competição e entramos nomundo da competitividade. O exercício da competitividade torna exponencial a briga entre asempresas e as conduz a alimentar uma demanda diuturna de mais ciência, de mais tecnologia, demelhor organização, para manter-se à frente da corrida. Quando, na universidade, somos solicitados todos os dias a trabalhar para melhorar aprodutividade como se fosse algo abstrato e individual, estamos impelidos a oferecer às grandesempresas possibilidades ainda maiores de aumentar sua mais-valia. Novos laboratórios sãochamados a encontrar as novas técnicas, os novos materiais, as novas soluções organizacionais epolíticas que permitam às empresas fazer crescer a sua produtividade e o seu lucro. A cada avançode uma empresa, outra do mesmo ramo solicita inovações que lhe permitam passar à frente da queantes era a campeã. Por isso, tal mais-valia está sempre correndo, quer dizer, fugindo para a frente.Um corte no tempo é idealmente possível, mas está longe de expressar a realidade atual cruelmenteinstável. Por isso não se pode, desse modo, medi-la, mas ela existe. Se ela pode parecer abstrata, amais-valia agora universal na verdade se impõe como um dado empírico, objetivo, quando utilizada noprocesso da produção e como resultado da competitividade. 14
  • 15. 5. A cognoscibilidade do planeta O período histórico atual vai permitir o que nenhum outro período ofereceu ao homem,isto é, a possibilidade de conhecer o planeta extensiva e aprofundadamente. Isto nunca existiu antes,e deve-se, exatamente, aos progressos da ciência e da técnica (melhor ainda, aos progressos datécnica devidos aos progressos da ciência). Esse período técnico-científico da história permite ao homem não apenas utilizar o queencontra na natureza: novos materiais são criados nos laboratórios como um produto da inteligênciado homem, e precedem a produção dos objetos. Até a nossa geração, utilizávamos os materiais queestavam à nossa disposição. Mas a partir de agora podemos conceber os objetos que desejamosutilizar e então produzimos a matéria-prima indispensável à sua fabricação. Sem isso não teria sidopossível fazer os satélites que fotografam o planeta a intervalos regulares, permitindo uma visão maiscompleta e detalhada da Terra. Por meio dos satélites, passamos a conhecer todos os lugares e aobservar outros astros. O funcionamento do sistema solar torna-se mais perceptível, enquanto a Terraé vista em detalhe; pelo fato de que os satélites repetem suas órbitas, podemos captar momentossucessivos, isto é, não mais apenas retratos momentâneos e fotografias isoladas do planeta. Isso nãoquer dizer que tenhamos, assim, os processos históricos que movem o mundo, mas ficamos maisperto de identificar momentos dessa evolução. Os objetos retratados nos dão geometrias, nãopropriamente geografias, porque nos chegam como objetos em si, sem a sociedade vivendo dentrodeles. O sentido que têm as coisas, isto é, seu verdadeiro valor, é o fundamento da corretainterpretação de tudo o que existe. Sem isso, corremos o risco de não ultrapassar uma interpretaçãocoisicista de algo que é muito mais que uma simples coisa, como os objetos da história. Estes estãosempre mudando de significado, com o movimento das sociedades e por intermédio das açõeshumanas sempre renovadas. Com a globalização e por meio da empiricização da universalidade que ela possibilitou,estamos mais perto de construir uma filosofia das técnicas e das ações correlatas, que seja tambémuma forma de conhecimento concreto do mundo tomado como um todo e das particularidades doslugares, que incluem condições físicas, naturais ou artificiais e condições políticas. As empresas, nabusca da mais-valia desejada, valorizam diferentemente as localizações. Não é qualquer lugar queinteressa a tal ou qual firma. A cognoscibilidade do planeta constitui um dado essencial à operaçãodas empresas e à produção do sistema histórico atual.6. Um período que é uma outra crise A história do capitalismo pode ser dividida em períodos, pedaços de tempo marcados porcerta coerência entre as suas variáveis significativas, que evoluem diferentemente, mas dentro de umsistema. Um período sucede ao outro, mas não podemos esquecer que os períodos são, também,antecedidos e sucedidos por crises, isto é, momentos em que a ordem estabelecida entre asvariáveis, mediante uma organização, é comprometida. Torna-se impossível harmonizá-las quandouma dessas variáveis ganha expressão maior e introduz um princípio de desordem. Essa foi a evolução comum a toda a história do capitalismo, até recentemente. O períodoatual escapa a essa característica porque ele é, ao mesmo tempo, um período e uma crise, isto é, a 15
  • 16. superposição entre período e crise, revelando características de ambas essas situações. Como período e como crise, a época atual mostra-se, aliás, como coisa nova. Comoperíodo, as suas variáveis características instalam-se em toda parte e a tudo influenciam, direta ouindiretamente. Daí a denominação de globalização. Como crise, as mesmas variáveis construtoras dosistema estão continuamente chocando-se e exigindo novas definições e novos arranjos. Trata-se,porém, de uma crise persistente dentro de um período com características duradouras, mesmo senovos contornos aparecem. Este período e esta crise são diferentes daqueles do passado, porque os dados motorese os respectivos suportes, que constituem fatores de mudança, não se instalam gradativamente comoantes, nem tampouco são o privilégio de alguns continentes e países, como outrora. Tais fatores dão-se concomitantemente e se realizam com muita força em toda a parte. Defrontamo-nos, agora, como uma subdivisão extrema do tempo empírico, cujadocumentação tornou-se possível por meio das técnicas contemporâneas. O computador é oinstrumento de medida e, ao mesmo tempo, o controlador do uso do tempo. Essa multiplicação dotempo é, na verdade, potencial, porque, de fato, cada ator – pessoa, empresa, instituição, lugar – utilizadiferentemente tais possibilidades e realiza diferentemente a velocidade do mundo. Por outro lado, egraças sobretudo aos progressos das técnicas da informática, os fatores hegemônicos de mudançacontagiam os demais, ainda que a presteza e o alcance desse contágio sejam diferentes segundo asempresas, os grupos sociais, as pessoas, os lugares. Por intermédio do dinheiro, o contágio daslógicas redutoras, típicas do processo de globalização, leva a toda parte um nexo contábil, queavassala tudo. Os fatores de mudança acima enumerados são, pela mão dos atores hegemônicos,incontroláveis, cegos, egoisticamente contraditórios. O processo da crise é permanente, o que temos são crises sucessivas. Na verdade,trata-se de uma crise global, cuja evidência tanto se faz por meio de fenômenos globais como demanifestações particulares, neste ou naque país, neste ou naquele momento, mas para produzir onovo estágio de crise. Nada é duradouro. Então, neste período histórico, a crise é estrutural. Por isso, quando se buscam soluçõesnão estruturais, o resultado é a geração de mais crise. O que é considerado solução parte doexclusivo interesse dos atores hegemônicos, tendendo a participar de sua própria natureza e de suaspróprias características. Tirania do dinheiro e tirania da informação são os pilares da produção da história atual docapitalismo globalizado. Sem o controle dos espíritos seria impossível a regulação pelas finanças. Daío papel avassalador do sistema financeiro e a permissividade do comportamento dos atoreshegemônicos, que agem sem contrapartida, levando ao aprofundamento da situação, isto é, da crise. A associação entre a tirania do dinheiro e a tirania da informação conduz, desse modo, àaceleração dos processos hegemônicos, legitimados pelo “pensamento único”, enquanto os demaisprocessos acabam por ser deglutidos ou se adaptam passiva ou ativamente, tornando-sehegemonizados. Em outras palavras, os processos não hegemônicos tendem seja a desaparecerfisicamente, seja a permanecer, mas de forma subordinada, exceto em algumas áreas da vida sociale em certas frações do território onde podem manter-se relativamente autônomos, isto é, capazes deuma reprodução própria. Mas tal situação é sempre precária, seja porque os resultados localmenteobtidos são menores, seja porque os respectivos agentes são permanentemente ameaçados pelaconcorrência das atividades mais poderosas. 16
  • 17. No período histórico atual, o estrutural (dito dinâmico) é, também, crítico. Isso se deve,entre outras razões, ao fato de que a era presente se caracteriza pelo uso extremado de técnicas e denormas. O uso extremado das técnicas e a proeminência do pensamento técnico conduzem ànecessidade obsessiva de normas. Essa pletora normativa é indispensável à eficácia da ação. Como,porém, as atividades hegemônicas tendem a uma centralização, consecutiva à concentração daeconomia, aumenta a inflexibilidade dos comportamentos, acarretando um mal-estar no corpo social. A isso se acrescente o fato de que, graças ao casamento entre as técnicas normativas ea normalização técnica e política da ação correspondente, a própria política acaba por instalar-se emtodos os interstícios do corpo social, seja como necessidade para o exercício das ações dominantes,seja como reação a essas mesmas ações. Mas não é propriamente de política que se trata, mas desimples acúmulo de normatizações particularistas, conduzidas por atores privados que ignoram ointeresse social ou que o tratam de modo residual. É uma outra razão pela qual a situação normal éde crise, ainda que os famosos equilíbrios macroeconômicos se instalem. O mesmo sistema ideológico que justifica o processo de globalização, ajudando aconsiderá-lo o único caminho histórico, acaba, também, por impor uma certa visão da crise eaceitação dos remédios sugeridos. Em virtude disso, todos os países, lugares e pessoas passam a secomportar, isto é, a organizar sua ação, como se tal “crise” fosse a mesma para todos e como se areceita para afastá-la devesse ser geralmente a mesma. Na verdade, porém, a única crise que osresponsáveis desejam afastar é a crise financeira e não qualquer outra. Aí está, na verdade, umacausa para mais aprofundamento da crise real – econômica, social, política, moral – que caracteriza onosso tempo. 17
  • 18. III - UMA GLOBALIZAÇÃO PERVERSAIntrodução Os últimos anos do século XX testemunharam grandes mudanças em toda a face daTerra. O mundo torna-se unificado – em virtude das novas condições técnicas, bases sólidas para umaação humana mundializada. Esta, entretanto, impões-se à maior parte da humanidade como umaglobalização perversa. Consideramos, em primeiro lugar, a emergência de uma dupla tirania, a do dinheiro e ada informação, intimamente relacionadas. Ambas, juntas, fornecem as bases do sistema ideológicoque legitima as ações mais características da época e, ao mesmo tempo, buscam conformar segundoum novo ethos as relações sociais e interpessoais, influenciando o caráter das pessoas. Acompetitividade, sugerida pela produção e pelo consumo, é a fonte de novos totalitarismos, maisfacilmente aceitos graças à confusão dos espíritos que se instala. Tem as mesmas origens aprodução, na base mesma da vida social, de uma violência estrutural, facilmente visível nas formas deagir dos Estados, das empresas e dos indivíduos. A perversidade sistêmica é um dos seus corolários. Dentro desse quadro, as pessoas sentem-se desamparadas, o que também constituiuma incitação a que adotem, em seus comportamentos ordinários, práticas que alguns decênios atráseram moralmente condenadas. Há um verdadeiro retrocesso quanto à noção de bem público e desolidariedade, do qual é emblemático o encolhimento das funções sociais e políticas do Estado com aampliação da pobreza e os crescentes agravos à soberania, enquanto se amplia o papel político dasempresas na regulação da vida social. informação7. A tirania da informação e do dinheiro e o atual sistema ideológico Entre os fatores constitutivos da globalização, em seu caráter perverso atual, encontram-se a forma como a informação é oferecida à humanidade e a emergência do dinheiro em estado purocomo motor da vida econômica e social. São duas violências centrais, alicerces do sistema ideológicoque justifica as ações hegemônicas e leva ao império das fabulações, a percepções fragmentadas eao discurso único do mundo, base dos novos totalitarismos – isto é, dos globalitarismos – a queestamos assistindo. A violência da informação Um dos traços marcantes do atual período histórico é, pois, o papel verdadeiramentedespótico da informação. Conforme já vimos, as novas condições técnicas deveriam permitir aampliação do conhecimento do planeta, dos objetos que o formam, das sociedades que o habitam edos homens em sua realidade intrínseca. Todavia, nas condições atuais, as técnicas da informaçãosão principalmente utilizadas por um punhado de atores em função de seus objetivos particulares.Essas técnicas da informação (por enquanto) são apropriadas por alguns Estados e por algumasempresas, aprofundando assim os processos de criação de desigualdades. É desse modo que a 18
  • 19. periferia do sistema capitalista acaba se tornando ainda mais periférica, seja porque não dispõetotalmente dos novos meios de produção, seja porque lhe escapa a possibilidade de controle. O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipuladaque, em lugar de esclarecer, confunde. Isso tanto é mais grave porque, nas condições atuais da vidaeconômica e social, a informação constitui um dado essencial e imprescindível. Mas na medida emque o que chega às pessoas, como também às empresas e instituições hegemonizadas, é, já, oresultado de uma manipulação, tal informação se apresenta como ideologia. O fato de que, no mundode hoje, o discurso antecede quase obrigatoriamente uma parte substancial das ações humanas –sejam elas a técnica, a produção, o consumo, o poder – explica o porquê da presença generalizada doideológico em todos esses pontos. Não é de estranhar, pois, que realidade e ideologia se confundamna apreciação do homem comum, sobretudo porque a ideologia se insere nos objetos e apresenta-secomo coisa. Estamos diante de um novo “encantamento do mundo”, no qual do discurso e a retóricasão o princípio e o fim. Esse imperativo e essa onipresença da informação são insidiosos, já que ainformação atual tem dois rostos, um pelo qual ela busca instruir, e um outro, pelo qual ela buscaconvencer. Este é o trabalho da publicidade. Se a informação tem, hoje, essas duas caras, a cara doconvencer se torna muito mais presente, na medida em que a publicidade se transformou em algoque antecipa a produção. Brigando pela sobrevivência e hegemonia, em função da competitividade,as empresas não podem existir sem publicidade, que se tornou o nervo do comércio. Há uma relação carnal entre o mundo da produção da notícia e o mundo da produçãodas coisas e das normas. A publicidade tem, hoje, uma penetração muito grande em todas asatividades. Antes, havia uma incompatibilidade ética entre anunciar e exercer certas atividades, comona profissão médica, ou na educação. Hoje, propaga-se tudo, e a própria política é, em grande parte,subordinada às suas regra. As mídias nacionais se globalizam, não apenas pela chatice e mesmice das fotografias edos títulos, mas pelos protagonistas mais presentes. Falsificam-se os eventos, já que não épropriamente o fato o que a mídia nos dá, mas uma interpretação, isto é, a notícia. Pierre Nora, em umbonito texto, cujo título é “O retorno de fato” (in História: Novos problemas, 1974), lembra que, naaldeia, o testemunho das pessoas que veiculam o que aconteceu pode ser cotejado com otestemunho do vizinho. Numa sociedade complexa como a nossa, somente vamos saber o que houvena rua ao lado dois dias depois, mediante uma interpretação marcada pelos humores, visões,preconceitos e interesses das agências. O evento já é entregue maquiado ao leitor, ao ouvinte, aotelespectador, e é também por isso que se produzem no mundo de hoje, simultaneamente, fábulas emitos. Fábulas Uma dessas fabulações é a tão repetida idéia de aldeia global (Octávio Ianni, Teorias daglobalização, 1996). O fato de que a comunicação se tornou possível à escala do planeta, deixandosaber instantaneamente o que se passa em qualquer lugar, permitiu que fosse cunhada essaexpressão, quando, na verdade, ao contrário do que se dá nas verdadeiras aldeias, é freqüentementemais fácil comunicar com quem está longe do que com o vizinho. Quando essa comunicação se faz,na realidade, ela se dá com a intermediação de objetos. A informação sobre o que acontece não vem 19
  • 20. da interação entre pessoas, mas do que é veiculado pela mídia, uma interpretação interessada, senãointeresseira, dos fatos. Um outro mito é o do espaço e do tempo contraídos, graças, outra vez, aos prodígios davelocidade. Só que a velocidade apenas está ao alcance de um número limitado de pessoas, de talforma que, segundo as possibilidades de cada um, as distâncias têm significações e efeitos diversose o uso do mesmo relógio não permite igual economia do tempo. Aldeia global tanto quanto espaço-tempo contraído permitiriam imaginar a realização dosonho de um mundo só, já que, pelas mãos do mercado global, coisas, relações, dinheiros, gostoslargamente se difundem por sobre continentes, raças, línguas, religiões, como se as particularidadestecidas ao longo de séculos houvessem sido todas esgarçadas. Tudo seria conduzido e, ao mesmotempo, homogeneizado pelo mercado global regulador. Será, todavia, esse mercado regulador? Seráele global? O fato é que apenas três praças, Nova Iorque, Londres e Tóquio, concentram mais demetade de todas as transações e ações; as empresas transnacionais são responsáveis pela maiorparte do comércio dito mundial; os 47 países menos avançados representam juntos apenas 0,3% docomércio mundial, em lugar dos 2,3% em 1960 (Y. Berthelot, “Globalisation et régionalisation: unemise en perspective”, in Lintegration régionale dans le monde, GEMDEV, 1994), enquanto 40% docomércio dos Estados Unidos ocorrem no interior das empresas (N. Chomsky, Folha de São Paulo,25 de abril de 1993). Fala-se, também, de uma humanidade desterritorializada, uma de suas característicassendo o desfalecimento das fronteiras como imperativo da globalização, e a essa idéia dever-se-iauma outra: a da existência, já agora, de uma cidadania universal. De fato, as fronteiras mudaram designificação, mas nunca estiveram tão vivas, na medida em que o próprio exercício das atividadesglobalizadas não prescinde de uma ação governamental capaz de torná-las efetivas dentro doterritório. A humanidade desterritorializada é apenas um mito. Por outro lado, o exercício dacidadania, mesmo se avança a noção de moralidade internacional, é, ainda, um fato que depende dapresença e da ação dos Estados nacionais. Em mundo como fábula é alimentado por outros ingredientes, entre os quais a politizaçãodas estatísticas, a começar pela forma pela qual é feita a comparação da riqueza entre as nações. Nofundo, nas condições atuais, o chamado Produto Nacional Bruto é apenas um nome fantasia do quepoderíamos chamar de produto global, já que as quantidades que entram nessa contabilidade sãoaquelas que se referem às operações que caracterizam a própria globalização. Afirma-se, também, que a “morte do Estado” melhoraria a vida dos homens e a saúdedas empresas, na medida em que permitiria a ampliação da liberdade de produzir, de consumir e deviver. Tal neoliberalismo seria o fundamento da democracia. Observando o funcionamento concretoda sociedade econômica e da sociedade civil, não é difícil constatar que são cada vez em menornúmero as empresas que se beneficiam desse desmaio do Estado, enquanto a desigualdade entre osindivíduos aumenta. Sem essas fábulas e mitos, este período histórico não existiria como é: Também nãoseria possível a violência do dinheiro. Este só se torna violento e tirânico porque é servido pelaviolência da informação. Esta se prevalece do fato de que, no fim do século XX, a linguagem ganhaautonomia, constituindo sua própria lei. Isso facilita a entronização de um subsistema ideológico, semo qual a globalização, em sua forma atual, não se explicaria. 20
  • 21. A violência do dinheiro A internacionalização do capital financeiro amplia-se, recentemente, por várias razões.Na fase histórica atual, as megafirmas devem, obrigatoriamente, preocupar-se com o uso financeirodo dinheiro que obtêm. As grandes empresas são, quase que compulsoriamente, ladeadas porgrandes empresas financeiras. Essas empresas financeiras das multinacionais utilizam em grande parte a poupança dospaíses em que se encontram. Quando uma firma de qualquer outro país se instala num país C ou D,as poupanças internas passam a participar da lógica financeira e do trabalho financeiro dessamultinacional. Quando expatriado, esse dinheiro pode regressar ao país de origem na forma decrédito e de dívida, quer dizer, por intermédio das grandes empresas globais. O que seria poupançainterna transforma-se em poupança externa, pela qual os países recipiendários devem pagar jurosextorsivos. O que sai do país como royalties, inteligência comprada, pagamento de serviços ouremessa de lucros volta como crédito e dívida. Essa é a lógica atual da internacionalização do créditoe da dívida. A aceitação de um modelo econômico em que o pagamento da dívida é prioritário implicaa aceitação da lógica desse dinheiro. Nas condições atuais de economia internacional, o financeiro ganha uma espécie deautonomia. Por isso, a relação entre a finança e a produção, entre o que agora se chama economiareal e o mundo da finança, dá lugar àquilo que Marx chamava de loucura especulativa, fundada nopapel do dinheiro em estado puro. Este se torna o centro do mundo. É o dinheiro como,simplesmente, dinheiro, recriando seu fetichismo pela ideologia. O sistema financeiro descobrefórmulas imaginosas, inventa sempre novos instrumentos, multiplica o que chama de derivativos, quesão formas sempre renovadas de oferta dessa mercadoria aos especuladores. O resultado é que aescalação exponencial assim redefinida vai se tornar algo indispensável, intrínseco, ao sistema,graças aos processos técnicos da nossa época. É o tempo real que vai permitir a rapidez dasoperações e a volatilidade dos assets. E a finança move a economia e a deforma, levando seustentáculos a todos os aspectos da vida. Por isso, é lícito falar de tirania do dinheiro. Se o dinheiro em estado puro se tornou despótico, isso também se deve ao fato de quetudo se torna valor de troca. A monetarização da vida cotidiana ganhou, no mundo inteiro, um enormeterreno nos últimos 25 anos. Essa presença do dinheiro em toda parte acaba por constituir um dadoameaçador da nossa existência cotidiana. fragmentadas As percepções fragmentadas e o discurso único do “mundo” É a partir dessa generalização e dessa coisificação da ideologia que, de um lado, semultiplicam as percepções fragmentadas e, de outro, pode estabelecer-se um discurso único do“mundo”, com implicações na produção econômica e nas visões da história contemporânea, nacultura de massa e no mercado global. As bases materiais históricas dessa mitificação estão na realidade da técnica atual. Atécnica apresenta-se ao homem comum como um mistério e uma banalidade. De fato, a técnica émais aceita do que compreendida. Como tudo parece dela depender, ela se apresenta como umanecessidade universal, uma presença indiscutível, dotada de uma força quase divina à qual oshomens acabam se rendendo sem buscar entendê-la. É um fato comum no cotidiano de todos, por 21
  • 22. conseguinte, uma banalidade, mas seus fundamentos e seu alcance escapam à percepção imediata,daí seu mistério. Tais características alimentam seu imaginário, alicerçado nas suas relações com aciência, na sua exigência de racionalidade, no absolutismo com que, ao serviço do mercado,conforma os comportamento; tudo isso fazendo crer na sua inevitabilidade. Quando o sistema político formado pelos governos e pelas empresas utiliza os sistemastécnicos contemporâneos e seu imaginário para produzir a atual globalização, aponta-nos paraformas de relações econômicas implacáveis, que não aceitam discussão e exigem obediênciaimediata, sem a qual os atores são expulsos da cena ou permanecem escravos de uma lógicaindispensável ao funcionamento do sistema como um todo. É uma forma de totalitarismo muito forte e insidiosa, porque se baseia em noções queparecem centrais à própria idéia da democracia – liberdade de opinião, de imprensa, tolerância -,utilizadas exatamente para suprimir a possibilidade de conhecimento do que é o mundo, e do que sãoos países e os lugares.8. Competitividade, consumo, confusão dos espíritos, globaritarismo Neste mundo globalizado, a competitividade, o consumo, a confusão dos espíritosconstituem baluartes do presente estado de coisas. A competitividade comanda nossas formas deação. O consumo comanda nossas formas de inação. E a confusão dos espíritos impede o nossoentendimento do mundo, do país, do lugar, da sociedade e de cada um de nós mesmos. A competitividade, a ausência de compaixão Nos últimos cinco séculos de desenvolvimento e expansão geográfica do capitalismo, aconcorrência se estabelece como regra. Agora, a competitividade toma o lugar da competição. Aconcorrência atual não é mais a velha concorrência, sobretudo porque chega eliminando toda formade compaixão. A competitividade tem a guerra como norma. Há, a todo custo, que vencer o outro,esmagando-o, para tomar seu lugar. Os últimos anos do século XX foram emblemáticos, porque nelesse realizaram grandes concentrações, grandes fusões, tanto na órbita da produção como na dasfinanças e da informação. Esse movimento marca um ápice do sistema capitalista, mas é tambémindicador do seu paroxismo, já que a identidade dos atores, até então mais ou menos visível, agorafinalmente aparece aos olhos de todos. Essa guerra como norma justifica toda forma de apelo à força, a que assistimos emdiversos países, um apelo não dissimulado, utilizado para dirimir os conflitos e conseqüência dessaética da competitividade que caracteriza nosso tempo. Ora, é isso também que justifica osindividualismos arrebatadores e possessivos: individualismos na vida econômica (a maneira como asempresas batalham umas com as outras); individualismos na ordem da política (a maneira como ospartidos freqüentemente abandonam a idéia de política para se tornarem simplesmente eleitoreiros);individualismos na ordem do território (as cidades brigando umas com as outras, as regiõesreclamando soluções particularistas). Também na ordem social e individual são individualismosarrebatadores e possessivos, que acabam por constituir o outro como coisa. Comportamentos quejustificam todo desrespeito às pessoas são, afinal, uma das bases da sociabilidade atual. Aliás, amaneira como as classes médias, no Brasil, se constituíram entroniza a lógica dos instrumentos, em 22
  • 23. lugar da lógica das finalidades, e convoca os pragmatismos a que se tornem triunfantes. Para tudo isso, também contribuiu a perda de influência da filosofia na formulação dasciências sociais, cuja interdisciplinaridade acaba por buscar inspiração na economia. Daí oempobrecimento das ciências humanas e a conseqüente dificuldade para interpretar o que vai pelomundo, já que a ciência econômica se torna, cada vez mais, uma disciplina da administração dascoisas ao serviço de um sistema ideológico. É assim que se implantam novas concepções sobre ovalor a atribuir a cada objeto, a cada indivíduo, a cada relação, a cada lugar, legitimando novasmodalidades e novas regras da produção e do consumo. E novas formas financeiras e dacontabilidade nacional. Esta, aliás, se reduz a ser, apenas, um nome fantasia de uma supostacontabilidade global, algo que inexiste de fato, mas é tomado como parâmetro. Está é uma das basesdo subsistema ideológico que comanda outros subsistemas da vida social, formando uma constelaçãoque tanto orienta e dirige a produção da economia como também a produção da vida. Essa nova leido valor – que é uma lei ideológica do valor – é uma filha dileta da competitividade e acaba por serresponsável também pelo abandono da noção e do fato da solidariedade. Daí as fragmentaçõesresultantes. Daí a ampliação do desemprego. Daí o abandono da educação. Daí o desapreço à saúdecomo um bem individual e social inalienável. Daí todas as novas formas perversas de sociabilidadeque já existem ou se estão preparando neste país, para fazer dele – ainda mais – uma paísfragmentado, cujas diversas parcelas, de modo a assegurar sua sobrevivência imediata, serãojogadas umas contra as outras e convidadas a uma batalha sem quartel. O consumo e o seu despotismo Também o consumo muda de figura ao longo do tempo. Falava-se, antes, de autonomiada produção, para significar que uma empresa, ao assegurar uma produção, buscava tambémmanipular a opinião pela via da publicidade. Nesse caso, o fato gerador do consumo seria a produção.Mas, atualmente, as empresas hegemônicas produzem o consumidor antes mesmo de produzir osprodutos. Um dado essencial do entendimento do consumo é que a produção do consumidor, hoje,precede à produção dos bens e dos serviços. Então, na cadeia casual, a chamada autonomia daprodução cede lugar ao despotismo do consumo. Daí, o império da informação e da publicidade. Talremédio teria 1% de medicina e 99% de publicidade, mas todas as coisas no comércio acabam por teressa composição:publicidade + materialidade; publicidade + serviços, e esse é o caso de tantasmercadorias cuja circulação é fundada numa propaganda insistente e freqüentemente enganosa. Hátoda essa maneira de organizar o consumo para permitir, em seguida, a organização da produção. Tais operações podem tornar-se simultâneas diante do tempo do relógio, mas, do pontode vista da lógica, é a produção da informação e da publicidade que precede. Desse modo, vivemoscercados, por todos os lados, por esse sistema ideológico tecido ao redor do consumo e dainformação ideologizados. Esse consumo ideologizado e essa informação ideologizada acabam porser o motor de ações públicas e privadas. Esse par é, ao mesmo tempo, fortíssimo e fragilíssimo. Deum lado é muito forte, pela sua eficácia atual sobre a produção e o consumo. Mas, de outro lado, ele émuito fraco, muito débil, desde que encontremos a maneira de defini-lo como um dado de um sistemamais amplo. O consumo é o grande emoliente, produtor ou encorajador de imobilismos. Ele é,também, um veículo de narcisismos, por meio dos seus estímulos estéticos, morais, sociais; eaparece como o grande fundamentalismo do nosso tempo, porque alcança e envolve toda gente. Por 23
  • 24. isso, o entendimento do que é o mundo passa pelo consumo e pela competitividade, ambos fundadosno mesmo sistema da ideologia. Consumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa,à redução da personalidade e da visão do mundo, convidando, também, a esquecer a oposiçãofundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão. É certo que no Brasil tal oposição émenos sentida, porque em nosso país jamais houve a figura do cidadão. As classes chamadassuperiores, incluindo as classes médias, jamais quiseram ser cidadãs; os pobres jamais puderam sercidadãos. As classes médias foram condicionadas a apenas querer privilégios e não direitos. E isso éum dado essencial do entendimento do Brasil: de como os partidos se organizam e funcionam; decomo a política se dá, de como a sociedade se move. E aí também as camadas intelectuais têmresponsabilidade, porque trasladaram, sem maior imaginação e originalidade, à condição da classemédia européia, lutando pela ampliação dos direitos políticos, econômicos e sociais, para o casobrasileiro e atribuindo, assim, por equívoco, à classe média brasileira um papel de modernização e deprogresso que, pela sua própria constituição, ela não poderia ter. totalitária A informação totalitária e a confusão dos espíritos Tudo isso se deve, em grande parte, ao fato de que o fim do século XX erigiu como umdado central do seu funcionamento o despotismo da informação, relacionando, em certa medida, como próprio nível alcançado pelo desenvolvimento da técnica atual, tão necessitada de um discurso.Como as atividades hegemônicas são, hoje, todas elas, fundadas nessa técnica, o discurso aparececomo algo capital na produção da existência de todos. Essa imprescindibilidade de um discurso queantecede a tudo – a começar pela própria técnica, a produção, o consumo e o poder – abre a porta àideologia. Antes, era corrente discutir-se a respeito da oposição entre o que era real e o que nãoera; entre o erro e o acerto; o erro e a verdade; a essência e a aparência. Hoje, essa discussão talveznão tenha sequer cabimento, porque a ideologia se torna real e está presente como realidade,sobretudo por meio dos objetos. Os objetos são coisas, são reais. Eles se apresentam diante de nósnão apenas como um discurso, mas como um discurso ideológico, que nos convoca, malgrado nós, auma forma de comportamento. E esse império dos objetos tem um papel relevante na produção dessenovo homem apequenado que estamos todos ameaçados de ser. Até a Segunda Guerra Mundial,tínhamos em torno de nós alguns objetos, os quais comandávamos. Hoje, meio século depois, o quehá em torno é uma multidão de objetos, todos ou quase todos querendo nos comandar. Uma dasgrandes diferenças entre o mundo de há cinqüenta anos e o mundo de agora é esse papel decomando atribuído aos objetos. E são objetos carregando uma ideologia que lhes é entregue peloshomens do marketing e do design ao serviço do mercado. Do imperialismo ao mundo de hoje O capitalismo concorrencial buscou a unificação do planeta, mas apenas obteve umaunificação relativa, aprofundada sob o capitalismo monopolista graças aos progressos técnicosalcançados nos últimos dois séculos e possibilitando uma transição para a situação atual deneoliberalismo. Agora se pode, de alguma forma, falar numa vontade de unificação absoluta 24
  • 25. alicerçada na tirania do dinheiro e da informação produzindo em toda parte situações nas quais tudo,isto é, coisas, homens, idéias, comportamentos, relações, lugares, é atingido. Em cada um desses momentos, são diferentes as relações entre o indivíduo e asociedade, entre o mercado e a solidariedade. Até recentemente, havia a busca de um relativo reforçomútuo das idéias e da realidade de autonomia individual (com a vontade de produção de indivíduosfortes e de cidadãos) e da idéia e da realidade de uma sociedade solidária (com o Estadocrescentemente empenhado em exercer uma regulação redistributiva). As situações eram diferentessegundo os continentes e países e, se o quadro acima referido não constituía uma realidadecompleta, essa era uma aspiração generalizada. Ao longo da história passada do capitalismo, paralelamente à evolução das técnicas,idéias morais e filosóficas se difundem, assim como a sua realização política e jurídica, de modo queos costumes, as leis, os regulamentos, as instituições jurídicas e estatais buscavam realizar, aomesmo tempo, mais controle social e, também, mais controle sobre as ações individuais, limitando aação daqueles vetores que, deixados sozinhos, levariam à eclosão de egoísmos, ao exercício da forçabruta e a desníveis sociais cada vez mais agudos. Na fase atual de globalização, o uso das técnicas conhece uma importante mudançaqualitativa e quantitativa. Passamos de um uso “imperialista”, que era, também, um uso desigual ecombinado, segundo os continentes e lugares, a uma presença obrigatória em todos os países dossistemas técnicos hegemônicos, graças ao papel unificador das técnicas de informação. O uso imperialista das técnicas permitia, pela via da política, uma certa convivência deníveis diferentes de formas técnicas e de formas organizacionais nos diversos impérios. Tal situaçãopermanece praticamente por um século, sem que as diferenças de poder entre os impérios fossecausa de conflitos duráveis entre eles e dentro deles. O próprio imperialismo era “diferencial”, talcaracterística sendo conseqüência da subordinação do mercado à política, seja a políticainternacional, seja a política interior a cada país ou a cada conjunto imperial. Com a globalização, astécnicas se tornam mais eficazes, sua presença se confunde com o ecúmeno, seu encadeamentopraticamente espontâneo se reforça e, ao mesmo tempo, o seu uso escapa, sob muitos aspectos, aodomínio da política e se torna subordinado ao mercado. Globalitarismos Globalitarismos e totalitarismos Como as técnicas hegemônicas atuais são, todas elas, filhas da ciência, e como suautilização se dá ao serviço do mercado, esse amálgama produz um ideário da técnica e do mercadoque é santificado pela ciência, considerada, ela própria, infalível. Essa, aliás, é uma das fontes dopoder do pensamento único. Tudo o que é feito pela mão dos vetores fundamentais da globalizaçãoparte de idéias científicas, indispensáveis a produção, aliás acelerada, de novas realidades, de talmodo que as ações assim criadas se impõem como soluções únicas. Nas condições atuais, a ideologia é reforçada de uma forma que seria impossível aindahá um quarto de século, já que, primeiro as idéias e, sobretudo, as ideologias se transformam emsituações, enquanto as situações se tornam entre si mesmas “idéias”, “idéias do que fazer”,“ideologia”, e impregnam, de volta, a ciência cada vez mais redutora e reduzida, mais distante dabusca da “verdade”. Desse conjunto de variáveis decorrem, também, outras condições da vidacontemporânea, fundadas na matematização da existência, carregando consigo uma crescente 25
  • 26. sedução pelos números, um uso mágico das estatísticas. É também a partir desse quadro que se pode interpretar a serialização de que falava J.-P. Satre em Questions de méthode, Critique de la Raison dialectique, 1960. Em tais condições,instalam-se a competitividade, o salve-se-quem-puder, a volta ao canibalismo, a supressão dasolidariedade, acumulando dificuldades para um convívio social saudável e para o exercício dademocracia. Enquanto esta é reduzida a uma democracia de mercado e amesquinhada comoeleitoralismo, isto é, consumo de eleições, as “pesquisas” perfilam-se como um aferidor quantitativoda opinião, da qual acaba por ser uma das formadoras, levando tudo isso ao empobrecimento dodebate de idéias e a própria morte da política. Na esfera da sociabilidade, levantam-se utilitarismoscomo regra de vida mediante a exacerbação do consumo, dos narcisismos, do imediatismo, doegoísmo, do abandono da solidariedade, com a implantação, galopante, de uma ética pragmáticaindividualista. É dessa forma que a sociedade e os indivíduos aceitam dar adeus à generosidade, àsolidariedade e a emoção com a entronização do reino do cálculo (a partir do cálculo econômico) e dacompetitividade. São, todas essas, condições para a difusão de um pensamento e de uma práticatotalitárias. Esses totalitarismos se dão na esfera do trabalho como, por exemplo, num mundo agrícolamodernizado onde os atores subalternizados convivem, como num exército, submetidos a umadisciplina militar. O totalitarismo não é, porém, limitado à esfera do trabalho, escorrendo para a esferapolítica e das relações interpessoais e invadindo o próprio mundo da pesquisa e do ensinouniversitários, mediante um cerco às idéias cada vez menos dissimulado. Cabe-nos, mesmo, indagardiante dessas novas realidades sobre a pertinência da presente utilização de concepções jáultrapassadas de democracia, opinião pública, cidadania, conceitos que necessitam urgente revisão,sobretudo nos lugares onde essas categorias nunca foram claramente definidas nem totalmenteexercitadas. Nossa grande tarefa, hoje, é a elaboração de um novo discurso, capaz de desmitificar acompetitividade e o consumo e de atenuar, senão desmanchar, a confusão dos espíritos.9. A violência estrutural e a perversidade sistêmica Fala-se, hoje, muito em violência e é geralmente admitido que é quase um estado, umasituação característica do nosso tempo. Todavia, dentre as violências de que se fala, a maior parte ésobretudo formada de violências funcionais derivadas, enquanto a atenção é menos voltada para oque preferimos chamar de violência estrutural, que está na base da produção das outras e constitui aviolência central original. Por isso, acabamos por apenas condenar as violências periféricasparticulares. Ao nosso ver, a violência estrutural resulta da presença e das manifestações conjuntas,nessa era da globalização, do dinheiro em estado puro, da competitividade em estado puro e dapotência em estado puro, cuja associação conduz à emergência de novos totalitarismos e permitepensar que vivemos numa época de globalitarismo muito mais que de globalização. Paralelamente,evoluímos de situações em que a perversidade se manifestava de forma isolada para uma situação naqual se instala um sistema da perversidade, que, ao mesmo tempo, é resultado e causa dalegitimação do dinheiro em estado puro, da competitividade em estado puro e da potência em estadopuro, consagrando, afinal, o fim da ética e o fim da política. 26
  • 27. O dinheiro em estado puro Com a globalização impõe-se uma nova noção de riqueza, de prosperidade e deequilíbrio macroeconômico, conceitos fundados no dinheiro em estado puro e aos quais todas aseconomias nacionais são chamadas a se adaptar. A noção e a realidade da dívida internacionaltambém derivam dessa mesma ideologia. O consumo, tornado um denominador comum para todosos indivíduos, atribui um papel central ao dinheiro nas suas diferentes manifestações; juntos, odinheiro e o consumo aparecem como reguladores da vida individual. O novo dinheiro torna-seonipresente. Fundado numa ideologia, esse dinheiro sem medida se torna a medida geral, reforçandoa vocação para considerar a acumulação como uma meta em si mesma. Na realidade, o resultadodessa busca tanto pode levar à acumulação (para alguns) como o endividamento (para a maioria).Nessas condições, firma-se um círculo vicioso dentro do qual o medo e o desamparo se criammutuamente e a busca desenfreada do dinheiro tanto é uma causa como uma conseqüência dodesamparo e do medo. O resultado objetivo é a necessidade, real ou imaginada, de buscar mais dinheiro, e,como este, em seu estado puro, é indispensável à existência das pessoas, das empresas e dasnações, as formas pelas quais ele é obtido, sejam quais forem, já se encontram antecipadamentejustificadas. A competitividade em estado puro A necessidade de capitalização conduz a adotar como regra a necessidade de competirem todos os planos. Diz-se que as nações necessitam competir entre elas –o que, todavia, éduvidoso- e as empresas certamente competem por um quinhão sempre maior no mercado. Mas aestabilidade de uma empresa pode depender de uma pequena ação desse mercado. A sobrevivênciaestá sempre por um fio. Num mundo globalizado, regiões e cidades são chamadas a competir e,diante das regras atuais da produção e dos imperativos atuais do consumo, a competitividade setorna também uma regra da convivência entre as pessoas. A necessidade de competir é, aliás,legitimada por uma ideologia largamente aceita e difundida, na medida em que a desobediência àssuas regras implica perder posições e, até mesmo, desaparecer do cenário econômico. Criam-se,deste modo, novos “valores” em todos os planos, uma nova “ética” pervasiva e operacional face aosmecanismos da globalização. Concorrer e competir não são a mesma coisa. A concorrência pode até ser saudávelsempre que a batalha entre agentes, para melhor empreender uma tarefa e obter melhores resultadosfinais, exige o respeito a certas regras de convivência preestabelecidas ou não. Já a competitividadese funda na invenção de novas armas de luta, num exercício em que a única regra é a conquista damelhor posição. A competitividade é uma espécie de guerra em que tudo vale e, desse modo, suaprática provoca um afrouxamento dos valores morais e um convite ao exercício da violência. A potência em estado puro Para exercer a competitividade em estado puro e obter o dinheiro em estado puro, opoder (a potência) deve ser também exercido em estado puro. O uso da força acaba se tornando uma 27
  • 28. necessidade. Não há outro telos, outra finalidade que o próprio uso da força, já que ela éindispensável para competir e fazer mais dinheiro; isso vem acompanhado pela desnecessidade deresponsabilidade perante o outro, a coletividade próxima e a humanidade em geral. Por exemplo, a idéia de que o desemprego é o resultado de um jogo simplório entreformas técnicas e decisões microeconômicas das empresas é uma simplificação, originada dessaconfusão, como se a nação não devesse solidariedade a cada um dos seus membros. O abandonoda idéia de solidariedade está por trás desse entendimento da economia e conduz ao desamparo emque vivemos hoje. Jamais houve na história um período em que o medo fosse tão generalizado ealcançasse todas as áreas da nossa vida: medo do desemprego, medo da fome, medo da violência,medo do outro. Tal medo se espalha e se aprofunda a partir de uma violência difusa, mas estrutural,típica do nosso tempo, cujo entendimento é indispensável para compreender, de maneira maisadequada, questões como a dívida social e a violência funcional, hoje tão presentes no cotidiano detodos. A perversidade sistêmica Seja qual for o ângulo pelo qual se examinem as situações características do períodoatual, a realidade pode ser vista como uma fábrica de perversidade. A fome deixa de ser um fatoisolado ou ocasional e passa a ser um dado generalizado e permanente. Ela atinge 800 milhões depessoas espalhadas por todos os continentes, sem exceção. Quando os progressos da medicina e dainformação deviam autorizar uma redução substancial dos problemas de saúde, sabemos que 14milhões de pessoas morrem todos os dias, antes do quinto ano de vida. Dois bilhões de pessoas sobrevivem sem água potável. Nunca na história houve um tãogrande número de deslocados e refugiados. O fenômeno dos sem-teto, curiosidade na primeirametade do século XX, hoje é um fato banal, presente em todas as grandes cidades do mundo. Odesemprego é algo tornado comum. Ao mesmo tempo, ficou mais difícil do que antes atribuireducação de qualidade e, mesmo, acabar com o analfabetismo. A pobreza também aumenta. No fimdo século XX havia mais 600 milhões de pobres do que em 1960; e 1,4 bilhão de pessoas ganhammenos de um dólar por dia. Tais números podem ser, na verdade, ampliados porque, ainda aqui, osmétodos quantitativos da estatística enganam: ser pobre não é apenas ganhar menos do que umasoma arbitrariamente fixada; ser pobre é participar de uma situação estrutural, com uma posiçãorelativa inferior dentro da sociedade como um todo. E essa condição se amplia para um número cadavez maior de pessoas. O fato, porém, é que a pobreza tanto quanto o desemprego agora sãoconsiderados como algo “natural”, inerente ao seu próprio processo. Junto ao desemprego e àpobreza absoluta, registre-se o empobrecimento relativo de camadas cada vez maiores graças àdeterioração do valor do trabalho. No México, a parte de trabalho na renda nacional cai de 36% nadécada de 1970 para 23% em 1992. Vivemos num mundo de exclusões, agravadas pela desproteçãosocial, apanágio do modelo neoliberal, que é também, criador de insegurança. Na verdade, a perversidade deixa de se manisfestar por fatos isolados, atribuídos adistorções da personalidade, para se estabelecer como um sistema. Ao nosso ver, a causa essencialda perversidade sistêmica é a instituição, por lei geral da vida social, da competitividade como regraabsoluta, uma competitividade que escorre sobre todo o edifício social. O outro, seja ele empresa,instituição ou indivíduo, aparece como um obstáculo à realização dos fins de cada um e deve ser 28
  • 29. removido, por isso sendo considerado uma coisa. Decorrem daí a celebração dos egoísmos, oalastramento dos narcisismos, a banalização da guerra de todos contra todos, com a utilização dequalquer que seja o meio para obter o fim colimado, isto é, competir e, se possível, vencer. Daí adifusão, também generalizada, de outro subproduto da competitividade, isto é, a corrupção. Esse sistema da perversidade inclui a morte da Política (com um P maiúsculo), já que acondução do processo político passa a ser atributo das grandes empresas. Junte-se a isso o processode conformação da opinião pelas mídias, um dado importante no movimento de alienação trazido coma substituição do debate civilizatório pelo discurso único do mercado. Daí o ensinamento e oaprendizado de comportamentos dos quais estão ausentes objetivos finalísticos e éticos. Assim elaborado, o sistema da perversidade legitima a preeminência de uma açãohegemônica mas sem responsabilidade, e a instalação sem contrapartida de uma ordem entrópica,com a produção “natural” da desordem. Para tudo isso, também contribui o estabelecimento do império do consumo, dentro doqual se instalam consumidores mais que perfeitos (M. Santos, O espaço do cidadão, 1988), levados ànegligência em relação à cidadania e seu corolário, isto é, o menosprezo quanto à liberdade, cujoculto é substituído pela preocupação com a incolumidade. Esta reacende egoísmos e é um dosfermentos da quebra da solidariedade entre pessoas, classes e regiões. Incluam-se também, nessalista dos processos característicos da instalação do sistema da perversidade, a ampliação dasdesigualdades de todo gênero: interpessoais, de classes, regionais, internacionais. Às antigasdesigualdades, somam-se novas. Os papéis dominantes, legitimados pela ideologia e pela prática da competitividade, sãoa mentira, com o nome de segredo da marca; o engodo, com o nome de marketing; a dissimulação eo cinismo, com os nomes de tática e estratégia. É uma situação na qual se produz a glorificação daesperteza, negando a sinceridade, e a glorificação da avareza, negando a generosidade. Dessemodo, o caminho fica aberto ao abandono das solidariedades e ao fim da ética, mas, também, dapolítica. Para o triunfo das novas virtudes pragmáticas, o ideal de democracia plena é substituído pelaconstrução de uma democracia de mercado, na qual a distribuição do poder é tributária da realizaçãodos fins últimos do próprio sistema globalitário. Estas são as razões pelas quais a vida normal detodos os dias está sujeita a uma violência estrutural que, aliás, é a mãe de todas as outras violências.10. Da política dos Estados à política das empresas Façamos um regresso, muito breve, ao começo da história humana, quando o homemem sociedade, relacionando-se diretamente com a natureza, constrói a história. Nesse começo dostempos, os laços entre território, política, economia, cultura e linguagem eram transparentes. Nassociedades que os antropólogos europeus e norte-americanos orgulhosamente chamaram deprimitivas, a relação entre setores da vida social também se dava diretamente. Não haviapraticamente intermediações. Poder-se-ia considerar que existia uma territorialidade genuína. A economia e a culturadependiam do território, a linguagem era uma emanação do uso do território pela economia e pelacultura, e a política também estava com ele intimamente relacionada. Havia, por conseguinte, uma territorialidade absoluta, no sentido que, em todas asmanifestações essenciais de sua existência, os moradores pertenciam àquilo que lhes pertencia, isto 29

Related Documents