a
a
a
a
a
Para Charlotte —
por isso a gente se juntou
D. H. + M. K.
a
Caro Ed,
Daqui a um segundo você vai ouvir o tump. Na porta da
frente, aquela que ninguém usa. Quando ela tocar no chão,...
a
a
O TUMP É DA CAIXA, ED. É isso que eu estou deixando
para você. Achei no porão, fui lá e peguei a caixa quando todas as
n...
a
entenda desta vez, porque mesmo agora ainda quero que você
veja. Eu não te amo mais, claro que não, mas ainda tem alguma...
a
a
ESCREVI A FRASE QUE EU MAIS GOSTO na tampa da
caixa, é do Hawk Davies, que é uma lenda, e estou escrevendo
esta carta em...
a
— Finalmente.
— Pois é. A minha parte do acordo, né?
— É, quando você estivesse pronta. Então, está pronta?
Mais um susp...
a
colégio para ajudar com o pesto de dente-de-leão verde que
fizemos com gorgonzola em vez de parmesão para ficar mais
ama...
a
a
a
a
a
ESTAS SÃO AS TAMPINHAS das garrafas de cerveja preta
Scarpia’s que você e eu tomamos no quintal do Al naquela noite.
Eu ...
a
Ele sorriu para a caixinha. Era uma gravata, verde-escura com
uma linha costurada de diamantes estilizados. Estava na mi...
a
— E para que as pessoas se divirtam. Só isso. É só um
aniversário.
— É o Dezesseis do Desgosto! Você está dizendo que se...
a
alguém para o Al. O problema é que as meninas eram todas
erradas, de glitter na bochecha ou agitadas demais, ou não sabi...
a
de já haver alguém na cama do Al, peguei o casaco de lã e então
fui para fora tomar um ar e talvez te ver no quintal. E ...
a
na festa dos outros quando perde. Ela me disse que ia ser difícil
namorar o irmão dela, o astro do basquete.
— Você vai ...
a
O basquete ainda é incompreensível para mim, esse negócio de
bater bola, gritar, correr de uniforme, e embora não tenha ...
a
— Quando? — falei.
— Antes. Não diz quando. Era ele. Quem convidou?
Que piração ele aqui.
— Eu sei — falei. — Né? Ningué...
a
— Talvez seja obcecado por DDDs.
— Lauren...
— Ele te convidou para sair. O Ed Slaterton.
— Ele não vai ligar — falei. —...
a
— Ele vai mesmo te ligar?
— Não sei.
— Mas você... quer?
— Não sei.
— Não sabe?
— Ele não vai me ligar. É o Ed Slaterton...
a
a
ESTE É O INGRESSO DO PRIMEIRO FILME que a gente
assistiu, que diz: Greta em fuga, Matinê, 5 de outubro, uma data
que vai...
a
— Ninguém. Muito solitário. Prefiro aqui.
Ficamos ali parados e eu abri a porta.
— Então você nunca veio aqui?
— Uma vez...
a
seu braço como uma emoção à minha volta, nós sentados no
escuro e as luzes se apagando.
Greta em fuga começa, brilhante,...
a
faz Jantar à meia-noite de óculos e resfriado, põe a Lottie no trem
e ela joga o casaco de peles no rosto tagarela dele ...
a
— Hã — você disse, deu de ombros, olhou para mim, deu de
ombros de novo e fez uma gangorra de mais ou menos com a mão,
e...
a
luz normal daquela tarde modorrenta. Era o sonho de uma cortina
se abrindo, e eu peguei a sua mão para poder conduzi-lo ...
a
DEVOLVER ISTO ME PARTE O CORAÇÃO, mas você já
está de coração partido, então acho que ficamos quites. Bom,
nunca mais vo...
a
— É mesmo?
— É.
— Tem certeza?
— Não — falei. — Claro que não tenho certeza. Mas pode
ser.
Demos a volta e você apertou ...
a
num abraço amarrotador. Mas você me puxou pelo rosto, a sua
mão tão quente em mim, e vi o que você queria me mostrar.
“C...
a
— Mesmo que não seja — sussurrei no seu pescoço quando
acabou, a cliente da lavanderia nos lançou um arrãm, com o
vestid...
a
e o Will Ringer grunhindo e batendo o pé antes, é claro, ela
acorda os cachorros e mush!-mush!-mush!,e a Greta escolhe o...
a
a
SE VOCÊ ABRIR, VAI VER QUE ESTÁ VAZIA, e vai parar
um instante para se perguntar se estava vazia quando me deu —
eu cons...
a
gente não vê. “Alec Matto revisando copiões de Aonde foi
Julia? (1947) em sala de projeção particular.” A Joan teve que ...
a
— Bom, vamos atrás dela.
— Lá?
— Que foi? É um restaurante.
— Parece caro.
— Não vamos pedir muita coisa.
— Min, a gente...
a
— Que foi?
— Não fica me zoando por causa da matemática.
— Não estou te zoando. Estou só lembrando. Você ganhou o
prêmio...
a
Mas, assim que a gente entrou, a gente percebeu que tinha
que sair. Não foi por causa do veludo nas paredes. Não foi por...
a
mais um presente, mais um segredo, mais uma hora de se curvar
para me beijar.
— Não sei por que estou fazendo isso — voc...
a
a
ATRAVESSANDO A RUA do Sonho de Maiakóvski,
voltando como uma bola de pingue-pongue, nos escondemos no
Bazar A-Post olhan...
a
— Eu não sou das artes. A Jean Sabinger é das artes. A
ColleenPale é das artes.
— Elas são estranhas — você disse. — Per...
a
— Como são as outras garotas? — perguntei. — Quando elas
ficam bravas?
Você suspirou e passou a mão no cabelo como se fo...
a
— E aí você gosta — você disse. — Geralmente. Quando
você prova, aí você não quer... não quer mais as outras meninas.
— ...
a
— Se você ficasse comigo depois do jogo, estaria mais para
namorada.
— Namorada — falei. Era como provar sapatos.
— É o ...
a
— Aposto que isso é outra coisa que você nunca faz.
Você deu uma gargalhada.
— Não, para mim é normal passar os fins de ...
a
— O.k., o.k. — você ficou mexendo num cesto de cobras de
borracha, parecer ocupado, parecer ocupado. — É melhor eu
compr...
a
— É de papelão. As fotos não iam sair direito.
— Que nem, como é que se diz, em francês? Para esses filmes
estranhinhos?...
a
arroganciazinha, de ser cocapitão, que tudo podia ser o que eu
disser que é, como você disse. Namorada, quem sabe. — Cob...
a
a
— ESTÁ ABRINDO!
— Onde?
— Não, a porta!
— O quê?
— Do outro lado da rua! É ela! Ela está indo embora!
— O.k., deixa eu a...
a
— Abre a coisa.
— Como?
— Me devolve.
— Ah, assim. Agora. Pronto. E agora? Espera aí. Ah, sim.
— Sim?
— Acho que sim. Fe...
a
telefones com as sacolas de compras nos colos das crianças nos
carrinhos. A gente se escondeu atrás de caixas de correio...
a
tinha me permitido sorrir tanto quanto eu queria a tarde inteira, a
noite inteira, cada segundo de cada minuto com você,...
a
a
AÍ ESTÁ. Levei todo tempo do mundo para deixar do jeito
que era, as suas incríveis habilidades em matemática contribuind...
a
tudo fosse parte do mesmo jogo, o meu Almoço Tarde no canto
estranho do gramado, cercada pelas patricinhas e pelos hippi...
a
a
QUANDO OLHO PARA ISSO aqui rasgado ao meio, penso
no absurdo do que você fez e no absurdo de eu não ter dado bola.
Não p...
a
— Eu avisei — a Jordan disse para ele.
— Eu esqueci completamente, e preciso achar a
NancieBlumineck e implorar para que...
a
— É verdade, o choro — a Lauren disse. — Tive que limpar o
nariz dela eu mesma.
— Não é verdade — falei.
— Bom, é verdad...
a
— Tudo bem, tudo bem, eu vou colar os cartazes.
— Eu sabia — o Al disse, me entregando a fita. — Não
duvidei nem por um ...
a
— Não sei o que vai acontecer.
— Então você não vai virar uma daquelas marias-cestinhas
das arquibancadas? “Lindo lance,...
a
Depois de um segundo eu ri, Ed, e tentei usar aquele esquema
multitarefa de olhar ao mesmo tempo para o Al com uma cara ...
a
Era o assoalho ruim cheio de rangidos e pegadas, e os armários
batendo. Era escrever o meu nome no lado direito superior...
a
perdeu o carro, o boato de que a Angela estava grávida mas depois
o contraboato de que não, era só gripe, todo mundo vom...
a
fones de ouvido e despejar rum no refrigerante e bala de menta
para esconder o hálito, aquele menino doentinho dos óculo...
a
desligar naquela hora, como um ladrão na noite em Como um
ladrão na noite.
— Espera — ela disse; aí passaram uns segundo...
a
— Como... o que é mesmo que você faz depois do colégio?
— Vou no café.
— Ah.
— Com o Al. Sabe, só para bater papo. A Lau...
a
vermelha de segurar o telefone tão perto, pertinho, para não
perder uma palavra do que quer que fosse, porque quem ia se...
a
a
É DISTO QUE EU ESTOU FALANDO, ED: da verdade.
Olha esta moeda. De onde ela veio? Que primeiro-ministro, que
rei é esse? ...
a
— Min, verdadeiro ou falso, o parmesão foi inventado em
1987?
Tirei o dedo da boca e dei uma pancada na Jordan.
— Você v...
a
É verdade que você estava particularmente e umidamente
atlético. Eu me levantei e te beijei, me sentindo naquela cena
de...
a
— Essa Joanna Farmington é minha amiga? — a Lauren
perguntou.
Você fez que não e deu um sinal para o garçom.
— Jukebox —...
a
Tommy Fox, eu nunca te contei, para nós é uma piada, e nem é
uma piada boa, porque Tommy Fox vira piada fácil. Você sorr...
a
OLHE BEM DE PERTO e você vai notar uns dois fios que
saíram junto quando você arrancou o elástico do meu cabelo.
Quem fa...
a
ruim só de dormir um minuto, como sempre. O sol entrava pelas
janelas sujas do ônibus. Você disse que gostava de me ver ...
a
— Você não devia pedir desculpas por gostar da música.
Hawk Davies, “The feeling”.
— O quê?
— “You either have the feeli...
a
— Ei! — ela se empertigou, irônica, os olhos arregalados e a
faca erguida como um mastro. — Vamos assistir garotos
trein...
a
— A minha mãe ficou doente — ela disse, apontando com o
queixo na direção do quarto mais distante, e isso é uma coisa qu...
a
— Gostei de você — ela disse. — Se quiser, pode pegar
emprestado o meu livro de cinema. E me diz se o Ed te tratar mal
q...
Por isso agente acabou daniel handler
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Por isso agente acabou daniel handler

Por isso agente acabou
Published on: Mar 4, 2016
Published in: Entertainment & Humor      
Source: www.slideshare.net


Transcripts - Por isso agente acabou daniel handler

  • 1. a a
  • 2. a
  • 3. a
  • 4. a Para Charlotte — por isso a gente se juntou D. H. + M. K.
  • 5. a Caro Ed, Daqui a um segundo você vai ouvir o tump. Na porta da frente, aquela que ninguém usa. Quando ela tocar no chão, vai balançar as dobradiças, porque é pesada e importante, e vai ter esse outro barulho junto com o tump, e a Joan vai tirar os olhos de seja lá o que for que ela estiver cozinhando. Ela vai olhar para a panela de novo, preocupada, porque, se for até a porta para ver o que é, vai cozinhar demais. Eu a vejo franzindo a testa no reflexo do molho borbulhante ou sei lá o quê. Mas ela vai ver, ela vai. Você não vai, Ed. Não veria. Você deve estar no andar de cima, suado, sozinho. Você devia estar tomando banho, mas está de coração partido na cama, eu espero, por isso é a sua irmã, a Joan, que vai abrir a porta mesmo que otump seja para você. Você nem vai saber o que é nem ouvir o que está sendo jogado na sua porta. Você não vai nem entender por que aconteceu. O dia está lindo, ensolarado e tudo mais. É daqueles dias em que você acha que tudo vai dar certo etc. Não era o dia para isso, nem para nós, que saímos de 5 de outubro a 12 de novembro. Mas já é dezembro e o céu está claro, assim como tudo agora está claro para mim. Estou contando por que a gente acabou, Ed. Estou escrevendo, nesta carta, toda a verdade sobre o que aconteceu. E a verdade é que, porra, eu te amei demais.
  • 6. a
  • 7. a O TUMP É DA CAIXA, ED. É isso que eu estou deixando para você. Achei no porão, fui lá e peguei a caixa quando todas as nossas coisas começaram a ficar demais para a gaveta do meu criado-mudo. E também achei que a minha mãe fosse descobrir umas coisas, porque ela adora bisbilhotar no que não deve. Então foi tudo para a caixa e a caixa foi para o closet, deixei em cima daqueles sapatos que eu nunca uso. Todo suvenir de amor que a gente tinha, os prêmios e os destroços dessa relação, que nem confete na sarjeta depois que o desfile passa, o tudo e o não sei que mais chutado para o meio-fio. Estou largando essa caixa toda de volta na sua vida, Ed, cada pertence do meu eu com você. Vou largar essa caixa na sua varanda, Ed, mas é você, Ed, quem está sendo largado. O tump, eu admito, vai me fazer sorrir. Uma coisa bem rara, ultimamente. Tenho ficado que nem a AimeéRondelé em O céu também chora, um filme, um filme francês, você não assistiu. Ela é assassina e estilista, e só sorri duas vezes no filme inteiro. A primeira é quando o chefão que matou o pai dela é jogado de um prédio, e não é nessa vez que estou pensando. É aquela do final, quando a Aimeé finalmente consegue o envelope com as fotos e o queima sem abrir naquele cinzeiro esplendoroso e fica com aquele vestido verde sensacional assistindo os tordos rodearem o pináculo da igreja. Eu entendo. O mundo entrou nos eixos de novo, o sorriso é por isso. Eu te amava e aqui vão as suas coisas, para longe da minha vida onde você deve ficar, o sorriso é por isso. Sei que você não vê, Ed, mas se eu contar a trama toda talvez você
  • 8. a entenda desta vez, porque mesmo agora ainda quero que você veja. Eu não te amo mais, claro que não, mas ainda tem alguma coisa que posso te mostrar. Você sabe que eu quero ser diretora, mas você nunca viu de verdade os filmes da minha cabeça e foi por isso, Ed, que a gente acabou.
  • 9. a
  • 10. a ESCREVI A FRASE QUE EU MAIS GOSTO na tampa da caixa, é do Hawk Davies, que é uma lenda, e estou escrevendo esta carta em cima da tampa da caixa, usando-a de mesa, para poder sentir o Hawk Davies fluindo em cada palavra que escrevo para você. O caminhão da loja do pai do Al às vezes balança, então as palavras podem ficar tremidas, mas azar o seu que vai ter que ler cada uma delas. Liguei para o Al hoje de manhã e, logo que eu disse “Adivinha?”, ele respondeu: “Você vai pedir para fazer uma entrega com o caminhão do meu pai”. — Você é um bom adivinho — falei. — Quase isso. — Quase? — O.k., está bem, é isso. — Certo, me dá um segundo para eu achar as chaves e já te pego. — Deve estar na sua jaqueta, depois de ontem. — Você também é uma boa adivinha. — Não quer saber qual é a entrega? — Você me diz quando eu chegar. — Eu quero dizer agora. — Não interessa, Min — ele disse. — Me chame de La Desperada — falei. — Hein? — Vou devolver as coisas do Ed — falei depois de respirar fundo, e aí ouvi o Al respirar fundo também.
  • 11. a — Finalmente. — Pois é. A minha parte do acordo, né? — É, quando você estivesse pronta. Então, está pronta? Mais um suspiro, mais um bem profundo, mas tremido. — Sim. — Você está triste? — Não. — Min. — Tudo bem, estou. — O.k., peguei as chaves. Cinco minutos. — O.k. — O.k.? — É que eu estou olhando para a frase na caixa. Hawk Davies, sabe? “You either have the feeling or you don’t” — Cinco minutos, Min. — Al, desculpa. Eu nem devia... — Min, não tem problema. — Mas não precisa. É que a caixa é tão pesada que eu não sei... — Não tem problema, Min. E claro que eu preciso. — Por quê? Ele suspirou no telefone e eu continuei olhando para a caixa. Vou sentir falta da frase quando abrir o closet, mas não, Ed, não sinto saudade de você. — Porque, Min — disse o Al —, as chaves estavam na minha jaqueta, como você falou. O Al é uma pessoa boa, muito boa, Ed. Foi na festa do Al que você e eu nos conhecemos, não que ele tivesse te convidado, porque ele não tinha opinião formada sobre você na época, então não convidou nem você nem ninguém da sua turminha de atletas toscos para a festa de Dezesseis do Desgosto dele. Saí mais cedo do
  • 12. a colégio para ajudar com o pesto de dente-de-leão verde que fizemos com gorgonzola em vez de parmesão para ficar mais amargo e que servimos por cima do nhoque cor de nanquim da loja do pai dele misturado com vinagrete de laranja sanguínea da salada de frutas e cozinhamos aquele bolo de chocolate preto oitenta e nove por cento de cacau no formato de um grande coração negro tão amargo que não conseguimos comer, mas você simplesmente apareceu sem ser convidado com o Trevor e o Christian e os outros e ficou escondido num canto e não tocou em nada além de, tipo, nove garrafas de cerveja preta Scarpia’s. Eu fui uma boa convidada, Ed, e você não disse nem “amargo aniversário” nem deu um presente para o seu anfitrião, e foi por isso que a gente acabou.
  • 13. a a
  • 14. a a
  • 15. a ESTAS SÃO AS TAMPINHAS das garrafas de cerveja preta Scarpia’s que você e eu tomamos no quintal do Al naquela noite. Eu ainda vejo as estrelas brilhando e formigando e a gente esbaforindo fumaça do frio, você de jaqueta do time e eu com o casaco de lã que sempre pego emprestado na casa do Al. Já estava me esperando, lavado e dobrado, quando subi com o Al para dar o presente dele antes de os convidados chegarem. — Eu falei que não queria presente — disse o Al. — Eu te falei que a festa já era suficiente, não era compulsório trazer... — Não é compulsório — eu disse, porque tinha o mesmo jogo de vocabulário que o Al quando a gente era calouro. — Eu achei uma coisa. Que é perfeita. Abre. Ele tirou a sacola de mim, nervoso. — Vamos lá, feliz aniversário. — O que é? — Tudo que o seu coração deseja. Espero. Abre. Você vai me deixar louca. Rasga, arranca, rasga, e ele meio que deu um suspiro. Foi recompensador. — Onde você achou? — Não é, tipo, não é igualzinha àquela que o cara usa na cena da festa do Una settimanastraordinaria?
  • 16. a Ele sorriu para a caixinha. Era uma gravata, verde-escura com uma linha costurada de diamantes estilizados. Estava na minha gaveta das meias fazia meses, esperando. — Tire — falei. — Use hoje. Não é igualzinha? — Quando ele sai do Porcini XL10 — ele disse, mas estava olhando para mim. — A cena que você mais gosta de todos os filmes do mundo. Espero que você tenha amado. — Eu amei, Min. Amei mesmo. Onde você achou? — Dei uma passadinha na Itália e seduzi o Carlo Ronzi, e aí quando ele caiu no sono fui no figurino dele e... — Min. — Liquidação. Deixa que eu ponho em você. — Eu sei pôr uma gravata, Min. — Não no seu aniversário. — Dei um jeito no colarinho dele. — Elas vão te comer com os olhos. — Quem? — As meninas. As mulheres. Na festa. — Min, vai ser o mesmo pessoal que sempre vem. — Não tenha certeza disso. — Min. — Você não está pronto? Quer dizer, eu estou. Já superei o Joe. Foi só um pega de verão, chega. E você? Los Angeles já faz quase um milhão de anos... — Foi no ano passado. Este ano, na verdade, mas no semestre passado. — É, e começou o último ano, a primeira coisa que vamos fazer. Está preparado? Para a festa, para o romance, para Una settimanastraordinaria? Você não está, tipo, sedento por... — Estou sedento por pesto. — Al.
  • 17. a — E para que as pessoas se divirtam. Só isso. É só um aniversário. — É o Dezesseis do Desgosto! Você está dizendo que se a menina parar na frente do Porcini-sei-lá-o-quê... — Tudo bem, para o carro eu estou pronto. — Quando você tiver vinte e um — falei —, eu te compro o carro. Hoje é a gravata e algo mais... Ele suspirou, bem baixinho, para mim. — Nem tenta, Min. — Eu encontro o que o seu coração mais deseja. Olha só, já fiz uma vez. — Estou falando da gravata. Parece que você está fazendo tranças numa passadeira. Solta. — Tudo bem, tudo bem. — Mas obrigado. Arrumei o cabelo dele. — Feliz aniversário — falei. — O casaco de lã está ali quando você ficar com frio. — Sim, porque eu vou estar jogada num canto sabe-se lá onde e você estará num mundo de paixão e aventura. — E de pesto, Min. Não esquece do pesto. Lá embaixo, a Jordan tinha colocado o mix da amargura, no qual havíamos trabalhado arduamente, e a Lauren estava andando com um palito de fósforo comprido acendendo velas. Silêncio no set, era isso que parecia, os dez minutos em que tudo crepita e nada acontece. E então, com um vuush da porta de tela dos pais dele, um carregamento inteiro de Monica e o irmão dela e aquele cara que joga tênis entraram com vinho que tinham surrupiado da openhouse da mãe dela — ainda embrulhado em papel de presente feinho — e aumentaram a música e a noite começou. Fiquei quieta na minha procura, mas continuava em busca de
  • 18. a alguém para o Al. O problema é que as meninas eram todas erradas, de glitter na bochecha ou agitadas demais, ou não sabiam nada de cinema ou já tinham namorado. E aí já era tarde, o gelo tinha virado água na tigelona de vidro, como as calotas polares. O Al ficava dizendo que era hora do bolo e, como uma música que esquecemos que estava no mix, você entrou na casa e na minha vida. Você parecia forte, Ed. Acho que você sempre pareceu forte, os seus ombros e o queixo, os seus braços te conduzindo pela sala, o pescoço onde agora sei que você gosta de ser beijado. Forte e limpo, confiante, até amigável, mas não muito disposto a agradar. Alto como um grito, bem descansado, robusto. De banho tomado. Lindo, Ed, era isso que eu queria dizer. Suspirei que nem o Al quando dei o presente perfeito para ele. — Eu amo essa música — alguém falou. Acho que você sempre faz isso nas festas, Ed, andar com os cotovelos de sala em sala, cumprimentando todo mundo com os olhos na sala à frente. Alguns ficavam olhando, teve uns caras que fizeram “toca aí” com você, e o Trevor e o Christian quase bloquearam os homens que nem guarda-costas. O Trevor estava bem bêbado e você o acompanhou por uma porta até sair de vista e eu esperei até a música chegar de novo no refrão antes de ir te procurar. Não sei por quê, Ed. Não é que eu nunca tivesse te visto. Todo mundo te conhece, você é, tipo, sei lá, o filme que todo mundo vê quando é criança, todo mundo te viu, ninguém lembra de não te ver. Mas de repente eu queria mesmo, de verdade, te ver de novo naquele instante, naquela noite. Passei por aquele cara que ganhou o prêmio de ciências, olhei na sala de jantar, na salinha com as fotos emolduradas do Al sem jeito na escadaria da igreja. Estava abafado, cada sala, muito calor e muito barulho, e eu subi as escadas correndo, bati na porta para o caso
  • 19. a de já haver alguém na cama do Al, peguei o casaco de lã e então fui para fora tomar um ar e talvez te ver no quintal. E eu vi, você estava lá. O que me levou a fazer essa coisa, você lá parado e sorrindo, segurando duas cervejas enquanto o Trevor passava mal na floreira da mãe do Al? Não era para eu estar olhando, eu não. Não era o meu aniversário, foi isso que eu pensei. Não tinha motivo para eu ter saído assim, no quintal, assim, de repente. Você era o Ed Slaterton, qual é, falei para mim mesma, você nem tinha sido convidado. O que é que eu tenho? O que eu estava fazendo? Mas da boca para fora eu estava conversando com você e perguntando o que tinha acontecido. — Não é comigo — você disse. — Mas o Trev está meio mal. — Vai se foder — o Trevor balbuciou dos arbustos. Você riu e eu ri também. Você ergueu as garrafas na luz do alpendre para ver qual era qual. — Toma, essa aqui ninguém tocou ainda. Eu não costumo beber cerveja. Não bebo nada, na verdade. Peguei a garrafa. — Não era para o seu amigo? — Ele não devia misturar — você disse. — Já tomou metade de uma Parker’s. — É mesmo? Você olhou para mim e aí pegou a garrafa de volta porque eu não conseguia abrir. Em um segundo você abriu e pôs as duas tampinhas na minha mão como se fossem moedas, um tesouro, um segredo, e aí me devolveu a garrafa. — A gente perdeu — você explicou. — O que ele faz quando vocês ganham? — perguntei. — Bebe meia garrafa de Parker’s — você disse, e aí... A Joan me contou que teve uma vez que você levou um soco numa festa depois de perder um jogo, então é por isso que você vai
  • 20. a na festa dos outros quando perde. Ela me disse que ia ser difícil namorar o irmão dela, o astro do basquete. — Você vai ser viúva — ela me disse, lambendo a colher e aumentando o volume do Hawk. — Uma viúva do basquete, num tédio sem fim enquanto ele bate bola mundo afora... Eu pensei, e fui burra, que não ia me importar. E aí você perguntou o meu nome. Respondi que era Min, apelido de Minerva, deusa romana da sabedoria, porque o meu pai estava fazendo mestrado quando eu nasci, e que, nem pergunte, não ia mesmo ter jeito, só a minha vó podia me chamar de Minnie porque ela me disse que, quando eu imitava a voz dela, eu era a melhor de todas. Você disse que o seu nome era Ed. Como se eu não soubesse. Perguntei como vocês perderam. — Não — você disse. — Se eu tiver que te contar como a gente perdeu, vou ferir todos os meus sentimentos. Gostei, “todos os meus sentimentos”. — Cada um deles? — perguntei. — De verdade? — Bom — você disse, e deu outro gole. — Talvez me restem um ou dois. Talvez eu ainda tenha um sentimento. Eu também tinha um sentimento, um feeling. É claro que você acabou me dizendo, Ed, já que você é menino, por que perdeu o jogo. O Trevor roncava na grama. A cerveja tinha gosto ruim e eu cuidadosamente coloquei a garrafa atrás de mim no chão gelado, e lá dentro as pessoas estavam cantando. “Amargor para você, nesta data fedida, muitas calamidades” — e o Al nunca me deu uma dura por ter ficado lá fora com um garoto sobre o qual ele não tinha opinião formada em vez de entrar para vê-lo apagar as dezesseis velas negras naquele coração negro e incomível —, “muitos anos de dor.” Você me contou a história toda, os seus braços magros na jaqueta feia, e refez todos os seus movimentos.
  • 21. a O basquete ainda é incompreensível para mim, esse negócio de bater bola, gritar, correr de uniforme, e embora não tenha ouvido eu estava ligada em cada palavra. Sabe do que eu gosto, Ed? Da palavra “bandeja”. Tem uma coisa sexy. Eu saboreei aquela palavra — “bandeja”, “bandeja”, “bandeja” —, as suas fintas e faltas, os seus arremessos livres e tocos e as cagadas que fizeram tudo ir por água abaixo. A bandeja, aquele movimento fluido que saiu como você queria, enquanto todos os convidados ficavam cantando na casa, “O Al é só amargura, o Al é só amargura, o Al é só amargura, ninguém pode negar”. A canção que eu guardei para o filme, tão alta, passando pela janela, que as suas palavras viraram um borrão dos esportes quando você terminou o seu jogo e atirou a garrafa para que se partisse elegantemente contra a cerca, e aí você começou a perguntar: — Posso te chamar para... Achei que você ia pedir para me chamar de Minnie. Mas você queria saber se podia me telefonar. Quem era você para fazer aquilo, quem era eu para dizer sim? Eu teria dito sim, Ed, teria deixado você me chamar daquilo que eu odiava ser chamada por aquela que me ama mais do que todos. No lugar disso falei que sim, claro, você podia me chamar para a gente ver um filme no fim de semana que vem, e Ed, o negócio de ter o que o seu coração deseja é que o seu coração não sabe o que deseja até aparecer. Como uma gravata em liquidação, uma coisinha perfeita num balaio de nadas, você estava lá, sem ser convidado, e agora a festa tinha acabado e você era tudo que eu queria, o melhor presente. Eu não estava nem procurando, não por você, e agora você era o que o meu coração desejava, chutando o Trevor para que ele acordasse e saindo a trotar pela noite doce. — Aquele era o... Ed Slaterton? — a Lauren perguntou, de sacola na mão.
  • 22. a — Quando? — falei. — Antes. Não diz quando. Era ele. Quem convidou? Que piração ele aqui. — Eu sei — falei. — Né? Ninguém? — E ele pegou o seu telefone? Escondi as tampinhas na mão para ninguém ver. — Hã. — O Ed Slaterton te convidou para sair? O Ed Slaterton te convidou para sair? — Ele não me convidou — falei, tecnicamente. — Ele só perguntou se podia... — Se podia o quê? A sacola fazia barulho no vento. — Se ele podia me convidar para sair — admiti. — Minha Nossa Senhora — disse a Lauren, e aí, veloz: — Como diria a minha mãe. — Lauren... — A Min foi convidada para sair pelo Ed Slaterton — ela avisou a casa inteira. — O quê? — a Jordan foi lá fora. O Al ficou olhando assustado pela janela da cozinha, franzindo o cenho na frente da pia como se eu fosse um guaxinim. — A Min foi convidada para sair... — É mesmo? — A Jordan estava procurando por ele no quintal. — Não — falei. — Não foi assim. Ele só pediu o meu telefone. — Claro, pode ser qualquer coisa — a Lauren bufou, jogando guardanapos molhados na sacola. — Pode ser que ele trabalhe na telefônica. — Para.
  • 23. a — Talvez seja obcecado por DDDs. — Lauren... — Ele te convidou para sair. O Ed Slaterton. — Ele não vai ligar — falei. — Foi só da festa. — Não se rebaixe — a Jordan disse. — Você tem todas as qualidades que o Ed Slaterton procura nas mil namoradas dele, se pensar bem. Você tem duas pernas. — E você é uma forma de vida de base carbono — a Lauren falou. — Parem — falei. — Ele não é... ele é só um cara. — Olha só ela, só um cara. — A Lauren continuou a recolher o lixo. — O Ed Slaterton te convidou para sair. Que loucura. Tipo, Olhos no telhado de loucura. — Não é tão louco quanto este, deve-se dizer, ótimo filme, que se chama Olhos no teto. Porém, ele não vai ligar. — Não acredito — a Jordan disse. — Não tem no que acreditar — falei para todo mundo no quintal, inclusive para mim. — Foi uma festa, e o Ed Slaterton estava aqui e acabou e agora vamos limpar tudo. — Então vem me ajudar — o Al finalmente falou e ergueu a tigela do ponche, que estava pingando. Corri na cozinha atrás de uma toalha. — Jogo essas fora? — O quê? Ele apontou para as tampinhas na minha mão. — Sim, claro — falei, mas enfiei no bolso de trás e ele não viu. O Al me entregou tudo, a tigela, a toalha para secar, e ficou me olhando. — O Ed Slaterton? — Pois é — falei, tentando bocejar. Por dentro eu me tremia toda.
  • 24. a — Ele vai mesmo te ligar? — Não sei. — Mas você... quer? — Não sei. — Não sabe? — Ele não vai me ligar. É o Ed Slaterton. — Eu sei quem ele é, Min. Mas você... o que vocês...? — Não sei. — Sabe sim. Como não sabe? Sou muito boa em mudar de assunto. — Feliz aniversário, Al. O Al só fez que não, provavelmente porque eu estava rindo, acho. Acho que eu estava rindo, a festa tinha acabado e aquelas tampinhas pegavam fogo no meu bolso. Pegue-as de volta, Ed. Aí estão. Pegue também o sorriso e a noite, pegue tudo de volta, era isso que eu queria que você fizesse.
  • 25. a
  • 26. a ESTE É O INGRESSO DO PRIMEIRO FILME que a gente assistiu, que diz: Greta em fuga, Matinê, 5 de outubro, uma data que vai me provocar para sempre. Não sei se é o seu ou o meu, mas sei que comprei os dois e fiquei esperando e tentei não ficar andando naquele friozinho. Você estava quase atrasado, o que acabou se tornando normal. Foi um feeling. Você não ia aparecer, esse feeling, a câmera indo e voltando pela rua vazia no filme daquela data, 5 de outubro, eu sozinha, cinzenta, caminhando diante da lente. E daí, pensei. Você é só o Ed Slaterton. Apareça. Quem se importa? Apareça, apareça, onde você está? Vai se foder, estava todo mundo certo, mostre que estão errados, onde você está? E aí, do nada, você estava na minha vida de novo, me chamando por cima do ombro com o cabelo penteado e úmido, sorrindo, talvez nervoso. Talvez sem fôlego, que nem eu. — Oi — saiu como um guincho. — Oi — você disse. — Desculpa se eu me atrasei. Esqueci qual era o cinema. Eu nunca vim aqui. Confundi com o Internationale. — O Internationale? — o Internationale, Ed, não é o Carnelian. O Internationale exibe adaptações britânicas dos três mesmos livros da Jane Austen desde sempre, fora os documentários sobre poluição. — E quem estava te esperando no Internationale?
  • 27. a — Ninguém. Muito solitário. Prefiro aqui. Ficamos ali parados e eu abri a porta. — Então você nunca veio aqui? — Uma vez numa excursão da oitava série, para ver alguma coisa da Segunda Guerra Mundial. O meu pai já me trouxe, junto com a Joan, antes de ele conhecer a Kim, acho, era preto e branco. — Eu venho aqui tipo toda semana. — Bom saber — você disse. — Sempre vou saber onde te encontrar. — Mmm — falei, saboreando. — O.k., o que é mesmo que a gente vai assistir? — Greta em fuga. É a obra-prima do P. F. Mailer. Difícil de conseguir assistir na telona. — Arrã — você disse, olhando para a entrada vazia. Tinha só os barbudos solitários de sempre, outro casal que devia ser da universidade e uma senhora com um chapéu lindo que eu fiquei observando. — Vou comprar os ingressos. — Eu já comprei. — Ah — você disse. — Bom, quer alguma coisa? Pipoca? — Com certeza. O Carnelian tem pipoca de verdade. — Legal. Quer manteiga? — Como você quiser. — Não — você disse, e me tocou, só no ombro, com certeza você não lembra, mas para mim foi de desmaiar. — Como você quiser. O que eu queria foi o que aconteceu. Sentamos na sexta fileira, onde sempre gosto de ficar. O mural esmaecido, o chão grudento. Os barbudos idênticos e separados em assentos distantes, como os cantos de um retângulo. O perfil da senhora nos fundos tirando o chapéu e ajeitando-o ao lado. E você, Ed, o
  • 28. a seu braço como uma emoção à minha volta, nós sentados no escuro e as luzes se apagando. Greta em fuga começa, brilhante, lindo, com a cortina se abrindo. A Lottie Carson é uma das dançarinas de palco numa chorusline, com aquela covinha que a transformou tanto na Paixão Cinematográfica da América quanto em amante do P. F. Mailer naquelas lindas festas das fotos do Quando apagam as luzes: pequena história ilustrada do cinema, com os braços dele a envolvendo. Ela está só um pouquinho mais velha do que eu agora, com um leque de renda, um chapeuzinho, uma música chamada “Chéri, você é meu mimo” toda pomposa, com orquestra e uma maçã resplandecente de papelão que desce pelos fios das vigas. O Miles de laRaz não consegue tirar os olhos dela, com o bigodinho encerado no camarote onde ele é flanqueado por dois guarda-costas carrancudos, e você segurou a minha mão com as suas duas mãos, quente e elétrico depois de soltar a pipoca. Nos bastidores ele é um canalha, como se já não soubéssemos pelo bigode. “Greta, já falei um milhão de vezes para não dar trela para o vagabundo do trombone.” “Ah, Joe, ele é só meu amigo, só isso” etc. Mais diálogos, outra música, mas... ... você me beijou. Foi repentino, acho, embora não seja repentino beijar alguém num encontro, principalmente quando se é Ed Slaterton e, se é para eu escrever a verdade, quando se é Min Green. Foi um bom começo, carinhoso e chocante, ainda consigo sentir aqui no pescoço, no caminhão do pai do Al, algo leve mas agitado. O que você vai fazer, me perguntei, e aí, enquanto o rá- tá-tá das metralhadoras fazia a curva de balas no estojo do instrumento no beco, e a Lottie Carson gritava no seu casaco de peles, eu o beijei de volta. A Lottie Carson tem que sair da cidade, mas nós ficamos por ali. O braço direito do Miles de La Raz, o careca que também
  • 29. a faz Jantar à meia-noite de óculos e resfriado, põe a Lottie no trem e ela joga o casaco de peles no rosto tagarela dele num acesso de mau humor, mas você não deve lembrar da cena porque agora vinha de língua com a boca molhada e um leve toque de creme dental de menta. O Al e eu assistimos no segundo ano, sessão dupla com Pegue o revólver, na casa dele com pizza e café gelado que me deixou com a língua travada, embora o Al tenha ficado só trêmulo e com o joelho que não parava de mexer e sem saber onde enfiar as mãos. Então já conheço a cena. E como ela se arrepende de ter jogado o casaco, porque o trem vai para o norte, para o extremo norte na montagem que eu amo, ainda melhor na telona com os cantos da imagem nublados, anunciando “Buffalo! Próxima parada: Buffalo!”, e as cidades cada vez mais engraçadas, “Worchester! Badwood! Chokypond! Ducksbreath!”, até que ela chega no maldito Yukon com o Will Ringer todo empacotado num trenó de cachorros pronto para transportá-la pelo resto do caminho até o lugar onde ela vai se esconder, a sua mão no meu pescoço e eu sem saber se você vai deslizá-la para tocar no meu top, o segundo dos que eu mais gosto, com aqueles botões de pérola estranhos e que tem que lavar na mão, ou se só estava de passagem para me segurar pela cintura antes de seguir para baixo, e se resolver eu impedi-lo, ou se eu quiser, se você contar para alguém, as suas mãos em mim e só passaram vinte minutos do primeiro filme do primeiro encontro. Então eu detenho o beijo, e a Lottie Carson dorme sozinha no iglu e o Will Ringer — com neve na barba que ele vai tirar por causa dela, porque ela vai pedir, porque ele a ama —, ele dorme com os cachorros. Ficamos quietos até acabar, no escuro, só de mãos dadas até o fim e aquele beijo, aquele grande beijo, e aí estamos piscando os olhos no saguão e eu perguntei o que você tinha achado.
  • 30. a — Hã — você disse, deu de ombros, olhou para mim, deu de ombros de novo e fez uma gangorra de mais ou menos com a mão, e eu queria agarrar o seu pulso e pôr a sua mão bem onde eu tinha feito você parar antes. O meu coração, Ed, era tum-tum- tum para que aquilo acontecesse, naquela hora, 5 de outubro, no Carnelian. — Bom, eu gostei — falei, esperando que não estivesse vermelha de pensar naquilo. — Obrigada por assistir comigo. — É — você disse. — Quer dizer, de nada. — De nada? — Você sabe o que eu quis dizer. Desculpa. — Você queria pedir desculpas? — Não — você disse. — Quer dizer, o que vamos fazer agora? — Hã — falei, e você me olhou como se não soubesse as falas. O que eu ia fazer com você? Estava esperando que você tivesse uma ideia, porque a do filme tinha sido minha. — Está com fome? Você deu um sorriso gentil. — Eu jogo basquete — você respondeu. — Então a resposta é sempre sim. — O.k. — falei, pensando que podia tomar um chá. E ver você comer? Seria assim a tarde, todo aquele 5 de outubro? Com a Greta ainda deslumbrante no meu cérebro, eu queria fazer algo com você, não sei... E aí eu suspirei, suspirei mesmo. Eu tinha que mostrar para você, porque não era algo que você via direito, um caminho a tomar, um lugar para ir, uma abertura da história que podia tornar 5 de outubro um filme tão adorável quanto este que tínhamos acabado de assistir. Era mais que a senhora que passou por nós, mais que qualquer coisa que você pudesse vislumbrar à
  • 31. a luz normal daquela tarde modorrenta. Era o sonho de uma cortina se abrindo, e eu peguei a sua mão para poder conduzi-lo a um lugar que fosse diferente de um velho agarrando um menino no cinema, um lugar melhor que chá para a moça e refeição completa para o atleta, como todas as outras tardes de todo mundo, algo mágico numa tela grande, algo mais, algo... ... extraordinário. Suspirei e apontei o caminho. Eu te dei uma aventura, Ed, estava bem diante do seu nariz mas você não viu até eu ter que chamar a sua atenção, e foi por isso que a gente acabou.
  • 32. a DEVOLVER ISTO ME PARTE O CORAÇÃO, mas você já está de coração partido, então acho que ficamos quites. Bom, nunca mais vou querer olhar para Lottie Carson, por motivos óbvios, então, se eu não te devolvesse isto, ele ficaria definhando numa pilha de lixo por aí em vez de te olhar assim que você abrir a caixa e fazê-lo chorar com este sorrisão, este lindo sorriso, o amplo e famoso sorriso da Lottie Carson. — Que foi? — você disse, e viu a senhora descer a quadra. — Lottie Carson — falei. — Quem é? — Do filme. — Sim, eu a vi no fundo. A do chapéu. — Não, aquela é a Lottie Carson — falei. — Acho que é. Ela estava no filme. A Greta.
  • 33. a — É mesmo? — É. — Tem certeza? — Não — falei. — Claro que não tenho certeza. Mas pode ser. Demos a volta e você apertou os olhos e franziu o cenho. — Ela não está nem um pouco parecida com o filme. — Aquilo faz muitos e muitos anos — falei. — Você tem que usar a imaginação. Se for ela, quer dizer que ela entrou no Carnelian para se assistir, em fuga, e só nós sabemos disso. — Se for ela — você repetiu. — Mas como você pode confirmar? — Não tem como a gente confirmar — falei. — Não agora. Mas, sabe, eu tive um feeling lá. Durante o beijo no final. Você sorriu e eu sabia em que beijo estava pensando. — Você teve um feeling. — Não esse beijo — falei, o feeling de novo, as nossas mãos segurando o meu cabelo carinhosamente para não cair nos nossos rostos. — O beijo no filme. — Espera aí — você disse, e voltou ao cinema. A porta se fechou e eu o vi pelo vidro manchado como um filme fora de foco, uma cópia não restaurada. Você foi rapidinho na parede e se inclinou, aí, rápido, rápido, rápido, você voltou e saiu pela porta e me pegou pelo braço e nós atravessamos a Décima fora da faixa até a frente da lavanderia. Vi a hora no relógio na parede em cima do rack de roupas em que eles ficam mexendo para encontrar a sua. Vi que o filme era curto, que eu tinha bastante tempo antes de dizer para minha mãe que ia para casa e dizer para o Al que ia ligar para dar todos os detalhes. As roupas se mexiam como se fosse um teste de incêndio, enfileiradas e organizadas dando voltas nos plásticos, aí pararam e um vestido feio foi devolvido ao cliente
  • 34. a num abraço amarrotador. Mas você me puxou pelo rosto, a sua mão tão quente em mim, e vi o que você queria me mostrar. “Cartazetes”, é assim que chamam, sei por causa do Quando apagam as luzes:pequena história ilustrada do cinema, você tinha afanado o cartazete do Carnelian. É de verdade, vintage, você vê pela tinta, enrugada e brilhante na sua mão. A Lottie Carson com a nevasca ao fundo, bonitinha que só ela no casaco de pele, a Paixão Cinematográfica da América. — Esta menina — você disse. — Esta atriz e a senhora lá na rua. Você diz que são a mesma. — Olha para ela — falei, e segurei a outra ponta. Perdi o fôlego ao tocar nisso. Eu estava segurando uma ponta e você, outra, e a terceira tinha o logo da Bixby Brothers Pictures e o outro canto estava rasgado, tinha ficado num percevejo na entrada quando você roubou para a gente olhar junto para Lottie Carson. — Se for ela, deve morar aqui — percebi. Ela agora estava meio longe, de casaco, quase, quase no meio da quadra. — Por perto, eu quis dizer. Em algum lugar. Que seria... — Se for ela — você disse de novo. — Os olhos parecem os mesmos — falei. — O queixo. Olha a covinha. Você olhou longe na quadra, depois para mim, depois para a foto. — Bom — você disse. — Esta com certeza é ela. Mas a senhora no fim da rua pode não ser. Parei de olhar para ela e olhei, meu Deus que lindo, para você. Eu te beijei. Ainda sinto a minha boca na sua, agora tenho um feeling do feeling que tive naquela hora, mesmo que não tenha mais.
  • 35. a — Mesmo que não seja — sussurrei no seu pescoço quando acabou, a cliente da lavanderia nos lançou um arrãm, com o vestido feio jogado sobre o cotovelo, e eu me soltei de você —, a gente devia segui-la. — O quê? Seguir? — Vamos — falei. — Podemos ver se é ela. E, bom... — Melhor do que ficar me vendo comer — você disse, lendo a minha mente. — Bom, em vez disso a gente podia almoçar. Ou se você tiver que ir, sei lá. Para casa ou outra coisa? — Não — você disse. — Não, você não quer, ou não, você não tem que ir para casa? — Não, quer dizer, sim, tudo bem, se você quiser. Você começou a atravessar para o lado dela da rua, mas eu te segurei pelo braço. — Não, fica aqui. Devemos segui-la a uma distância discreta — essa eu tinha aprendido em Meia-noite no Marrocos. — Hein? — Vai ser fácil. Ela anda devagar. — Ela é velha — você concordou. — Tem que ser — falei. — Ela deve estar aí pelos... sei lá, ela era jovem quando fez Greta em fuga, que foi em... deixa eu ver — virei o cartazete e pisquei para as curiosidades. — Se for ela — você disse. — Se for ela — falei, e você pegou na minha mão. E mesmo que não seja, eu queria sussurrar de novo no seu pescoço, cheirando a sua barba feita e o seu suor. Vamos, foi o que eu pensei, o filme deixando trilhas de vapor na minha mente. Vamos ver aonde isso vai nos levar, esta aventura com o trum da música e a nevasca de neve teatral, a Lottie Carson vai para longe do iglu
  • 36. a e o Will Ringer grunhindo e batendo o pé antes, é claro, ela acorda os cachorros e mush!-mush!-mush!,e a Greta escolhe o homem certo, não importa quão humilde seja o seu iglu, as lágrimas de alegria dela congelando em diamantes na covinha com aquela luz que só o Mailer sabia fazer. Vamos, vamos rápido para chegar o final feliz com o casaco de peles dos sonhos, puro pelo de urso-polar, o Will Ringer bronzeado, envolvendo-a tão alegre e radiante e agradável com o anel de surpresa no bolso quando o FIM se agita na tela enorme e triunfal, o beijo, aquele beijo. Chéri, esse foi meu mimo. Eu tive um feeling de como aquele dia ia acabar, 5 de outubro, um feeling que vinha dos fundos do cartazete, o pôster promocional da Lottie Carson, uma linha do tempo com as datas da vida e obra dela. O aniversário dela estava chegando — ela tinha quase oitenta e nove. Foi isso que eu pensei, andando descuidada pela rua. Cinco de dezembro, foi isso que eu vi enquanto andávamos juntos em 5 de outubro, vamos, vamos juntos fazer algo extraordinário, e eu comecei a fazer planos, achando que íamos chegar lá.
  • 37. a
  • 38. a SE VOCÊ ABRIR, VAI VER QUE ESTÁ VAZIA, e vai parar um instante para se perguntar se estava vazia quando me deu — eu consigo até ver —, outro gesto vazio que você pôs na minha mão que nem um suborno que não dá certo. Mas a verdade, e estou te dizendo a verdade, é que estava cheia, vinte e quatro fósforos alinhadinhos e acomodados ali dentro. Está vazia agora porque eles se foram. Eu não fumo, embora isso pareça fantástico nos filmes. Mas acendo fósforos naquelas noites vazias e pensativas quando subo no telhado da garagem para ficar com o céu enquanto os meus pais dormem inocentes e carros solitários passam em ruas distantes, quando os travesseiros não esfriam e os lençóis cobrem o meu corpo não importa quanto eu me mexa ou fique parada. Fico ali com as pernas penduradas e acendo fósforos e os vejo chamejarem até apagar. Esta caixa durou apenas três noites, não consecutivas, antes de todos os fósforos acabarem e a caixa ficar com o nada que você vê agora. A primeira foi a noite do dia em que você me deu, quando a minha mãe finalmente bateu na porta me mandando ir para a cama e eu desliguei o telefone com o Al. Eu estava muito elétrica e feliz para dormir, e o dia inteiro ficou passando na salinha de projeção do meu cérebro. Tem uma foto no Quando apagam as luzes: pequena história ilustrada do cinema do Alec Matto fumando sentado na cadeira de uma sala com uma fatia de luz intensa por cima da cabeça dele projetada numa tela que a
  • 39. a gente não vê. “Alec Matto revisando copiões de Aonde foi Julia? (1947) em sala de projeção particular.” A Joan teve que me dizer o que são copiões, é quando o diretor tira um tempo à noite, fumando, para ver tudo o que foi gravado no dia, talvez uma cena só, um homem abrindo a porta várias vezes, uma mulher apontando pela janela, apontando pela janela, apontando pela janela. São os copiões, e levei sete ou oito fósforos no telhado em cima da garagem para repassar o nosso copião esbaforido, o aguardar nervoso com os ingressos na mão, a Lottie Carson indo para o norte com todos aqueles trens, beijar você, beijar você, a conversa estranha no Bazar A-Post que me deixou toda angustiada depois que falei com o Al sobre isso, mesmo que ele dissesse que não tinha opinião formada. Os fósforos eram meio que “bem me quer, mal me quer”, mas aí vi na caixa que havia só vinte e quatro, o que acabaria em mal, então deixei só aqueles pouquinhos brilharem e esfumaçarem um tanto, cada um deles uma emoção, um choquezinho delicioso para cada parte que eu lembrava, até eu queimar o dedo e voltar para dentro ainda pensando em tudo que havíamos feito juntos. — O.k., e agora? Depois de duas quadras, a Lottie Carson tinha dobrado uma esquina e entrado no Sonho de Maiakóvski, um restaurante russo com muitas camadas de cortina na janela. Não conseguíamos ver nada, pelo menos não do outro lado da rua. — Nunca tinha notado esse lugar — falei. — Ela deve ter ido almoçar. — É meio tarde para almoçar. — Talvez ela também jogue basquete, por isso está sempre comendo. Você bufou. — Ela deve jogar na Western. São umas velhinhas mesmo.
  • 40. a — Bom, vamos atrás dela. — Lá? — Que foi? É um restaurante. — Parece caro. — Não vamos pedir muita coisa. — Min, a gente nem sabe se é ela. — Vamos ficar ouvindo se o garçom a chama de Lottie. — Min... — Ou de madame Carson, ou algo assim. Olha, não parece um lugar onde uma estrela de cinema iria, que ela iria sempre? Você sorriu para mim. — Não sei. — Claro que é. — Então é. — É sim. — Tudo bem — você disse, e atravessou a rua, me puxando pelo braço. — É sim, é sim. — Espera, vamos esperar. — O quê? — Vai parecer suspeito entrar direto. Vamos esperar, sei lá, três minutos. — Claro, assim ninguém vai notar. — Você tem relógio? Esquece, a gente conta até duzentos. — O quê? — Os segundos. Um. Dois. — Min, duzentos segundos não são três minutos. — Claro que são. — Duzentos segundos nunca dariam três minutos. São cento e oitenta. — Ah, agora lembrei que você é o rei da matemática. — Para.
  • 41. a — Que foi? — Não fica me zoando por causa da matemática. — Não estou te zoando. Estou só lembrando. Você ganhou o prêmio no ano passado, não foi? — Min. — Que foi? — Só fui finalista, não ganhei. Outros vinte e cinco ganharam. — Bom, mas a questão é... — A questão é que dá vergonha, e o Trevor, e todo mundo, fica me sacaneando. — Eu não. Quem faria isso? É só matemática, Ed. Não é, sei lá, tipo, tricô. Não que tricô... — É tão gay quanto. — O quê? Não... matemática não é gay. — É sim, um pouco. — O Einstein era gay? — Ele tinha cabelo de gay. Olhei para o seu cabelo, depois para você. Você sorriu para um chiclete na calçada. — A gente — falei. — A gente vive em diferentes, hã... — É — você falou. — Você vive lá onde três minutos são duzentos segundos. — Ah, é. Três. Quatro. — Para, até já passou — você me puxou todo alegre para atravessar fora da faixa, segurando as minhas mãos como se estivéssemos dançando. Duzentos segundos, pensei, cento e oitenta, quem se importa? — Espero que seja ela. — Pois é — você disse. — Eu também. Mas mesmo que não seja...
  • 42. a Mas, assim que a gente entrou, a gente percebeu que tinha que sair. Não foi por causa do veludo nas paredes. Não foi por causa dos abajures, do tecido vermelho que ficava rosa com a iluminação ou das continhas de vidro penduradas nas cortinas que rodopiavam como prismas à brisa da porta aberta. Não foi por causa dos smokings dos homens saracoteando nem dos guardanapos vermelhos dobrados para parecerem bandeiras com uma voltinha na ponta de mastro, empilhados numa mesa de canto para reposição, bandeiras sobre bandeiras sobre bandeiras sobre bandeiras como se uma guerra tivesse acabado e a rendição fosse total. Não foi por causa dos pratos com a cursiva vermelha dizendo “Sonho de Maiakóvski” e um centauro segurando um tridente sobre a cabeça barbada e um casco erguido para nos conquistar e nos pisotear até virarmos pó e nada. E não foi só por nós. E não foi só porque a gente era colegial, eu caloura e você formando, as roupas totalmente erradas para um restaurante que nem esse, cores fortes demais e amarrotadas demais e cheias de zíperes demais e manchadas demais e comuns e desajeitadas e gastas e modinha e exageradas e casuais e incertas e fanfarronas e suadas e esporte e erradas demais. E não foi só a Lottie Carson não ter voltado o olhar para nós, e não foi só que ela estava olhando para o garçom, e não foi só que o garçom estava segurando uma garrafa, envolta por um guardanapo vermelho, inclinada bem acima da sua cabeça, e não foi só porque a garrafa, resfriada com um resplendor no pescoço, estava cheia de champanhe. Não foi só por isso. Foi o cardápio, é claro, é claro, posicionado num pequeno pódio na porta, e como era tudo fodidamente caro para nós que éramos fodidamente sem dinheiro. Então fomos embora, entramos e logo saímos, mas não antes de você pegar uma caixa de fósforos da taça de brandy gigante perto da porta e colocar na minha mão,
  • 43. a mais um presente, mais um segredo, mais uma hora de se curvar para me beijar. — Não sei por que estou fazendo isso — você disse, e eu te beijei na nuca, com a mão cheia de fósforos. A noite depois de eu perder a virgindade, depois que você me deixou em casa e depois de várias horas vazias da tarde deitada na cama, cansada e inquieta, até que eu me sentei e fui lá fora ver o sol cair no horizonte — aí foram mais sete ou oito fósforos. E então a terceira noite foi aquela depois que a gente terminou, que valia um milhão de fósforos mas acabou sendo só o que sobrou. Naquela noite parecia que, ao acendê-los e jogar pelo telhado, os fósforos iam botar fogo em tudo, as centelhas das pontas das chamas queimando o mundo e todas as pessoas que existem nele de coração partido. Fumaça que eu queria por tudo, na fumaça eu queria você, embora num filme isso não fosse funcionar, efeitos demais, pomposo demais para como eu me sentia: tão diminuída e tão mal. Corte esse incêndio do filme, não importa quanto eu assista nos copiões. Mas eu quero assim mesmo, Ed, quero o que não tem como acontecer, e foi por isso que a gente acabou.
  • 44. a
  • 45. a ATRAVESSANDO A RUA do Sonho de Maiakóvski, voltando como uma bola de pingue-pongue, nos escondemos no Bazar A-Post olhando as prateleiras de sei lá o quê, esperando e esperando a Lottie Carson acabar a sua escala glamorosa e ir embora para que a seguíssemos até em casa. Não podíamos ficar matando tempo na rua, acho, ou vai saber por que estávamos no Bazar A-Post com as velhas gêmeas eternamente amuadas que cuidam da loja, e todos aqueles disparates, caros e coloridos, que as pessoas compram umas para as outras de aniversário quando essas pessoas não se conhecem o bastante para saber onde encontrar e comprar o que elas querem de verdade. Pelo menos esta câmera é a única coisa que você me comprou do Bazar A- Post, Ed, isso eu garanto. Fiquei andando entre animais de corda e cartões safadinhos enquanto você se abaixava sob uns móbiles até que finalmente disse o que tinha em mente. — Não conheço nenhuma menina que nem você — você disse. — Hein? — Eu disse que não conheço nenhuma... — Que nem eu no quê? Você suspirou e aí sorriu e aí deu de ombros e aí sorriu. O móbile tinha estrelinhas prateadas e cometas cintilantes em círculos na volta da sua cabeça, como se eu tivesse acabado de te dar uma porrada num desenho animado. — Das artes? — você sugeriu. Fiquei bem na sua frente.
  • 46. a — Eu não sou das artes. A Jean Sabinger é das artes. A ColleenPale é das artes. — Elas são estranhas — você disse. — Peraí, são amigas suas? — Se forem, elas não são estranhas? — Se forem, eu peço desculpas por ter falado isso — você disse. — Talvez eu quisesse dizer espertas. Tipo, naquela noite você nem sabia que a gente tinha perdido o jogo. Eu achei que todo mundo sempre sabia. — Eu nem sabia que tinha jogo. — E um filme que nem aquele — você fez que não com a cabeça e soltou o ar de um jeito estranho. — Se o Trev souber que eu vi aquilo, ele vai achar, sei lá o que ia achar. Esses filmes são muito gay, sem querer ofender o seu amigo Al. — O Al não é gay — falei. — O cara faz bolo. — Eu que fiz. — Você? Sem querer ofender, mas estava horrível. — Era para ser — falei. — O negócio é que era para ser amargo, ruim, para um Dezesseis do Desgosto, em vez de doce. — Ninguém comeu, sem querer ofender. — Para de dizer sem querer ofender quando diz coisas que ofendem. Você não ganha permissão automática. Você inclinou a cabeça para mim, Ed, como um cachorrinho confuso querendo saber por que o jornal está no chão. Na hora foi bonitinho. — Ficou brava comigo? — você perguntou. — Não, brava não — falei. — Viu, essa é outra coisa. Eu não sei falar. Você é diferente das garotas normais, sem querer ofender, Min, ops, desculpa.
  • 47. a — Como são as outras garotas? — perguntei. — Quando elas ficam bravas? Você suspirou e passou a mão no cabelo como se fosse um boné que quisesse pôr ao contrário. — Bom, elas não me beijam que nem a gente fez. Na verdade, elas não me beijam de jeito algum, mas quando ficam bravas param de falar e cruzam os braços, uma coisa meio de beicinho, e vão ficar com as amigas. — E você faz o quê? — Compro flores. — Sai caro. — É, bom, esse é outro problema. Elas não teriam comprado os ingressos como você fez, no cinema. Eu pago tudo, senão a gente briga e eu compro flores de novo. Eu gostei, admito, que a gente não tenha fingido que não havia outras garotas. Sempre tinha uma garota com você nos corredores do colégio, como se viessem de brinde com a mochila. — Onde você compra? — Na Willows, perto do colégio, ou no Jardim das Delícias Terrenas se as da Willows não estiverem fresquinhas. — Você aí falando de flores fresquinhas e o Al que é gay. Você corou, um vermelho fogo nas bochechas como se eu tivesse te dado um tapa. — Isso que eu quis dizer — você disse. — Você é inteligente, você diz coisas inteligentes. — Você não gosta do jeito que eu falo? — É que eu nunca ouvi antes — você disse. — É tipo provar... tipo, por exemplo, uma comida apimentada ou uma coisa assim. Tipo, vamos provar a comida do Sei-lá-onde-lândia. — Entendi.
  • 48. a — E aí você gosta — você disse. — Geralmente. Quando você prova, aí você não quer... não quer mais as outras meninas. — Como é que as outras meninas falam? — Não falam muito. Normalmente acho que sou eu que falo. — Basquete. Bandejas. — Não só isso, mas é isso: ou do treino, ou do técnico, se a gente vai ganhar na semana que vem... Eu olhei para você, Ed, e, putz, você estava lindo naquele dia, você está fazendo com que eu me debulhe no caminhão agora, e todos os outros dias também. Fins de semana e dias de semana, quando você sabia que eu estava olhando e nem imaginava que eu estava viva. Mesmo com as estrelinhas em volta da cabeça você estava lindo. — Basquete é chato — falei. — Uou — você disse. — Isso também é diferente? — Essa eu não gostei. Aposto que você nunca foi num jogo. — Meninos jogando a bola um para o outro e quicando no chão. Não é assim? — E filme antigo é tudo chato e brega — você disse. — Você adorou Greta em fuga! Sei que adorou! E eu sei que adorou. — Eu vou jogar na sexta — você disse. — E eu fico na arquibancada e te vejo ganhar e as animadoras de torcida gritam o seu nome e eu espero sozinha até você vir do vestiário para ir numa festa da fogueira com um monte de estranhos? — Eu cuido de você — você falou, bem tranquilo. Você estendeu a mão e passou no meu cabelo, na minha orelha. — Porque eu seria, tipo, o seu caso.
  • 49. a — Se você ficasse comigo depois do jogo, estaria mais para namorada. — Namorada — falei. Era como provar sapatos. — É o que as pessoas iam pensar e dizer. — Iam pensar que o Ed Slaterton está saindo com a menina das artes. — Eu sou cocapitão — você falou, como se houvesse alguma possibilidade de alguém na escola não saber. — Você vai ser o que eu disser que é. — E você vai dizer que eu sou o quê? Das artes? — Inteligente. — Só inteligente? Você fez que não. — O negócio todo que eu estou tentando falar — você disse — é que você é diferente, e fica perguntando das outras meninas, mas o que eu quis dizer é que não penso nelas, por causa do seu jeito. Eu cheguei mais perto. — Diz isso de novo. Você sorriu. — Mas eu nem falei direito. O que toda menina quer dizer para todo menino. — Diz — falei. — Para eu saber o que você quer dizer. — Comprem alguma coisa — disse a Velha Um. — Ou caiam fora da minha loja já. — Nós estamos olhando — você disse, fingindo que olhava uma lancheira. — Cinco minutos, pombinhos. Lembrei de olhar para a porta do Sonho. — Nós a perdemos de vista? — Não — você disse. — Estou de olho.
  • 50. a — Aposto que isso é outra coisa que você nunca faz. Você deu uma gargalhada. — Não, para mim é normal passar os fins de semana perseguindo antigas estrelas de cinema. — Eu só quero saber onde ela mora — falei. Senti o aniversário da Lottie Carson, no verso do cartazete, soltando faíscas na minha bolsa, um plano secreto. — Tudo bem — você disse. — É divertido, é uma coisa para se fazer. Mas o que a gente faz quando chegar lá? — Nós vamos descobrir — falei. — Talvez seja como em Notícias de Istambul, quando a Jules Gelsen descobre aquele porão cheio de... — Qual é a sua com filme antigo? — Como assim? — Como assim como assim? Você mistura filme antigo com tudo. Aposto que já está pensando em outro agora. Era verdade: na última tomada de A vida criminosa de Rose, outro com a Gelsen. — Bom, é que eu quero ser diretora. — É mesmo? Uau. Como o Brad Heckerton? — Não, quero ser uma boa diretora — falei. — Por quê? O que você achou? — Eu não achei nada. — E você vai ser o quê? Você piscou. — Vencedor do estadual, espero. — E depois? — Depois vai ter uma festança e então vou cursar qualquer faculdade que me quiser, e aí eu descubro para onde vou depois. — Dois minutos!
  • 51. a — O.k., o.k. — você ficou mexendo num cesto de cobras de borracha, parecer ocupado, parecer ocupado. — É melhor eu comprar alguma coisa para você. Eu franzi o cenho. — Mas é tudo feio. — A gente acha alguma coisa, tem que matar tempo. Do que uma diretora vai precisar? Você ficou me entrevistando entre os corredores. Máscaras para os atores? Não. Cata-ventos para cenários? Não. Joguinhos de tabuleiro safados para a festa pós-entrega dos prêmios? Para com isso. — Uma câmera — você disse. — Pronto. — É uma câmera pinhole. — Eu não sei o que é isso. — É de papelão — eu não falei que também não sabia o que era, só tinha lido aquilo na caixa. Também não falei que eu sabia a verdade, que eu sabia, é claro que eu sabia, que tinha tido um jogo e você tinha perdido naquela noite em que te encontrei no quintal do Al. Mas você parecia gostar, acho, na época eu esperava que você gostasse, que eu fosse diferente. — Papelão, e daí; aposto que você nem tem câmera. — Diretores não mexem nas câmeras. Isso é com o DP. — Ah, claro, o DP, quase me esqueci dele. — Você não sabe o que é um DP. Você veio com três dedos para fazer cocégas na minha barriga, lá onde moram as borboletas. — Não começa. Ponte aérea, falta técnica, eu tenho um dicionário de basquete na cabeça, e você não conhece nada. Vou comprar esta câmera para você. — Aposto que nem dá para tirar foto de verdade com ela. — Vem com filme, diz aqui.
  • 52. a — É de papelão. As fotos não iam sair direito. — Que nem, como é que se diz, em francês? Para esses filmes estranhinhos? — O quê? — Tem tipo, sabe, uma expressão oficial para descrevê-los. — Filmes clássicos. — Não, não esses gays como o seu amigo. Tipo, os mais, mais estranhos. — O Al não é gay. — O.k., mas qual é a palavra? É em francês. — Ele tinha uma namorada no ano passado. — O.k., o.k. — Ela mora em Los Angeles. Ele a conheceu num troço de verão que ele fez. — O.k., eu acredito. A menina de Los Angeles. — E não sei qual é o negócio em francês que você está falando. — É para esses filmes superestranhos, tipo, oh não, ela está caindo para cima na escada dentro do olho de alguém. — Mas como é que você sabe dessa coisa do cinema? — Da minha irmã. Ela quase terminou a faculdade de cinema. Ela faz a estadual. Você devia conversar com ela, aliás. Você me lembra ela um pouco... — É como sair com a sua irmã? — Uau, de novo não sei dizer se você está brava. — Então é melhor ir comprar flores. — O.k., você não está brava. — Fora! — guinchou a segunda gêmea, como uma maldição tirânica. — Passa isso aqui — você disse, e jogou a câmera para ela pegar. Agora tome de volta, Ed. Eu já via ali aquela
  • 53. a arroganciazinha, de ser cocapitão, que tudo podia ser o que eu disser que é, como você disse. Namorada, quem sabe. — Cobra isso e nos deixa em paz. — Não tenho por que tolerar isso — esbravejou ela. — Nove e cinquenta. Você tirou uma nota do bolso e deu para ela. — Não fica assim. Você sabe que é a minha preferida. Foi a primeira vez que eu vi essa parte também. A velha se derreteu numa poça e sorriu pela primeira vez desde a Era Paleozoica. Você piscou e pegou o troco. Eu devia ter visto, Ed, como sinal de que você não merecia confiança. Mas só vi como um sinal de charme, e é por isso que não acabei tudo ali naquele instante, como eu devia ter feito e queria queriaqueria ter feito. Em vez disso fiquei acordada até tarde com você, num ônibus por ruas estranhas de um bairro perdido e distante onde a Lottie Carson se escondia numa casa com um jardim cheio de estátuas que faziam sombras no escuro. Em vez disso só te dei um beijo de obrigada na bochecha, e saímos abrindo o pacote e lendo juntos as instruções de como fazer. É fácil, era fácil, fácil demais de fazer. Avant-garde era o termo que você estava pensando, aprendi no Quando apagam as luzes: pequena história ilustrada do cinema, mas a gente ainda não sabia. Tinha um milhão de coisas, tudo, que eu não sabia. Eu era burra, a expressão oficial para dizer feliz. Peguei esta coisa que estou te devolvendo, a coisa que você me deu quando a estrela que estávamos esperando finalmente surgiu.
  • 54. a
  • 55. a — ESTÁ ABRINDO! — Onde? — Não, a porta! — O quê? — Do outro lado da rua! É ela! Ela está indo embora! — O.k., deixa eu abrir. — Depressa! — Não faz tanto alarde, Min. — Mas é agora. — O.k., deixa eu ler as instruções. — Não tem tempo. Ela está vestindo as luvas. Aja normalmente. Tira a foto. É o único jeito da gente saber que é ela. — O.k., o.k., prenda o filme no puxador A. — Ed, ela está indo. — Espera — rindo. — Diz para ela esperar. — Espere, espere, nós achamos que você é uma estrela de cinema e queremos tirar uma foto para ter certeza? Eu faço, me dá aqui. — Min. — É minha mesmo, você que me deu. — É, mas... — Você acha que meninas não sabem mexer em câmera? — Acho que você está segurando de cabeça para baixo. Mais dez passos pela quadra, mais risadas. — O.k., agora. Ela vai dobrar a esquina. — Focar assunto no enquadramento...
  • 56. a — Abre a coisa. — Como? — Me devolve. — Ah, assim. Agora. Pronto. E agora? Espera aí. Ah, sim. — Sim? — Acho que sim. Fez um clique. — Olha só você, fez um clique. É assim que você vai ser diretora? — Vou mandar outra pessoa fazer isso. Um jogador de basquete em fim de carreira. — Para. — O.k., o.k., aí você puxa de novo? Né? — Hã... — Qual é, você não é bom nas matemáticas? — Para, e isso não é matemática. — Vou tirar outra. Lá, no ponto de ônibus. — Não fala tão alto. — E outra. Pronto, sua vez. — Minha vez. — Sua vez, Ed. Tira. Tira algumas. — O.k., o.k. Quantas tem? — Tira quantas quiser. Aí a gente manda revelar e vê. Mas a gente não revelou, né? Aqui está, sem revelação, um rolo de filme com todos os mistérios não revelados. Nunca levei a lugar nenhum, só deixei esperando numa gaveta sonhando com estrelas. Foi a nossa época, ver se a Lottie Carson era quem achávamos que era, todas aquelas fotos que tiramos, nos matando de rir, beijando de boca aberta, gargalhando, mas a gente nunca revelou. A gente achou que tinha tempo, correndo atrás dela, pulando no ônibus e tentando ver de relance a covinha depois das enfermeiras cansadas nas roupas de hospital e as mães nos
  • 57. a telefones com as sacolas de compras nos colos das crianças nos carrinhos. A gente se escondeu atrás de caixas de correio e postes a meia quadra de distância enquanto ela seguia pela vizinhança dela, onde eu nunca tinha estado, o céu ficando escuro logo no nosso primeiro encontro, sempre achando que depois a gente ia revelar. A gente procurou na caixa de correio, torcendo por um envelope que dissesse “Lottie Carson”, você se apressando para entrar na varanda enfeitada dela, perfeita para ela, enquanto eu esperava com as mãos na cerca vendo você pular para dentro e depois voltar. Você escalou em cinco velozes segundos, por cima das pontas de ferro que esfriavam as minhas mãos no escuro, depressa, depressa, depressa pelo jardim com aquele não sei quê de gnomos e leiteiras e cogumelos e Virgens Marias vencidos pela sua astúcia como o time adversário. Você passou voando por todas aquelas estátuas de pedra em silêncio, e se eu pudesse jogava todas elas na merda da sua porta, fazendo um barulho tão alto quanto a sua calma, tão furioso quanto quando a gente estava gargalhando, com tanta frieza e desprezo quanto quando eu estava sem fôlego e com calor te vendo entrar sorrateiro atrás de evidências e voltar dando de ombros e de mãos vazias e a gente ainda sem saber, ainda não tinha certeza, não sem ter revelado tudo. Aqueles beijos intensos no ônibus demorado para casa de noite com ninguém além de nós dois reclinados nos últimos assentos e o motorista mantendo os olhos na estrada sabendo que aquilo não era da conta dele, e mais beijos na parada quando nos despedimos daquele encontro, e o seu grito andando em zigue-zague para longe depois que não deixei você me levar em casa para ver a minha mãe te alvejar por toda a calçada perguntando onde diabos eu estava. “Te vejo segunda!”, você gritou, como se tivesse acabado de descobrir os dias da semana. A gente achou que tinha tempo. Eu acenei mas não podia responder, porque finalmente
  • 58. a tinha me permitido sorrir tanto quanto eu queria a tarde inteira, a noite inteira, cada segundo de cada minuto com você, Ed. Que merda, acho que eu já te amava. Condenada, como um taça de vinho sabendo que um dia vai cair, sapatos que logo vão ficar gastos, a blusa nova que logo você vai sujar. O Al deve ter ouvido isso na minha voz quando eu liguei e o acordei, porque era tarde, aí disse para ele esquecer, desculpa ter te acordado, vai para cama, não, tudo bem, também estou cansada, amanhã tento de novo, quando ele disse que não tinha opinião formada. Já. Primeiro encontro, o que eu ia fazer com o eu imbecil e essa emoção de “te vejo segunda”? Achando que havia tempo, bastante tempo para ver as fotos que a gente tinha feito? Mas a gente nunca revelou. Tudo mal revelado, a coisa toda, jogada numa caixa antes de a gente ter chance de saber o que tinha conseguido, e foi por isso que a gente acabou.
  • 59. a
  • 60. a AÍ ESTÁ. Levei todo tempo do mundo para deixar do jeito que era, as suas incríveis habilidades em matemática contribuindo para essa dobradura. Quando abri a minha gaveta na segunda de manhã, parecia que uma espaçonave de origami dos velhos filmes de ficção científica do TyLimm tinha aterrissado sobre o Entendendo nossa terra, pronta para soltar o eletrodizimador na espinha dorsal da Janet Bakerfield e destruir o cérebro dela. Foi o que o bilhete fez comigo também, quando eu o abri e li. Fiquei toda formigando e me sentindo burra. Talvez você tenha esperado por mim naquela primeira manhã no colégio, eu nunca te perguntei. Talvez você tenha escrito isso no último minuto depois do segundo sinal e tenha jogado pela abertura do armário antes da volta olímpica que todos os atletas fazem nessa época do ano, deixando os molengões girando ao bater nas mochilas deles, que nem máquina de fliperama. Você não sabia que eu só olho o armário depois do primeiro período. Você nunca entendeu o meu cronograma, Ed. Não dá para entender, Ed, como você nunca sabia onde me encontrar mas mesmo assim sempre me encontrava, os nossos caminhos eram como um cabo de guerra durante todo o longo e tedioso horário do colégio, as manhãs em que eu andava com o Al e geralmente a Jordan e a Lauren nos bancos da direita enquanto você fazia umas cestas de aquecimento nas quadras dos fundos, deixando a mochila jogada junto com as outras, mais os skates e as camisetas numa pilha de tédio, nem uma única aula em comum, o seu Almoço Cedo e a sua enterrada com o resto de maçã, como se
  • 61. a tudo fosse parte do mesmo jogo, o meu Almoço Tarde no canto estranho do gramado, cercada pelas patricinhas e pelos hippies disputando as ondas sonoras com músicas concorrentes, exceto nos dias de calor, quando eles faziam uma trégua de reggae. Em Barcos na noite, o Philip Murray e a Wanda Saxton se encontram na última cena sob o toldo, embaixo de chuva, a esposa errada e o noivo errado finalmente escorraçados pela trama, e saem juntos pela borrasca — sabemos desde a primeira cena, na noite de Natal, que os dois gostam de andar na chuva mas não têm ninguém para acompanhá-los. É o milagre dos finais. Mas não há intersecções entre nós, uma bênção, já que agora eu vivo com medo de dar de cara com você. A gente só se encontrava de propósito, depois do colégio mas antes do treino, você se trocando rápido e enxotando os colegas no aquecimento até ter que ir, mais um beijo, tenho que ir, mais um, certo, agora eu tenho que, preciso mesmo ir para lá. E esse bilhete foi uma bomba de nervos, tiquetaqueando sob a superfície da minha vida normal, no meu bolso o dia inteiro lido e relido com fervor, na minha bolsa a semana inteira até eu ter medo de que ele ficasse amassado ou fosse roubado, na minha gaveta entre dois livros chatos para fugir da minha mãe e depois na caixa e agora jogado aí para você. Bilhetes, quem escreve um bilhete desses? Quem era você para escrever para mim? Ficou ressoando dentro de mim o tempo todo, uma explosão repetida, a alegria do que você escreveu como estilhaços nervosos na minha corrente sanguínea. Não posso mais ter isso perto de mim, vou lançar a granada de volta, assim que desdobrar e ler e chorar mais uma vez. Porque eu também, e vai se foder. Ainda.
  • 62. a
  • 63. a QUANDO OLHO PARA ISSO aqui rasgado ao meio, penso no absurdo do que você fez e no absurdo de eu não ter dado bola. Não posso ficar olhando para ele enquanto escrevo sobre ele, porque tenho medo de que o Al veja e aí a gente vai ter que tocar no assunto de novo, como se você rasgasse mais uma vez, e mais uma vez eu ficasse quieta. Você deve achar que é da noite que fomos ao Baile, mas não é. Você deve achar que foi rasgado ao meio por acidente, sem motivo, do jeito que acontece com todos os cartazes de todos os eventos que acabam virando uma massa de papel molhado depois da chuva ou são arrancados pelos zeladores para dar lugar ao próximo, como os cartazes do Feriado Formal que agora estão por toda parte, com o traço delicado da Jean Sabinger que desenhou um desses objetos de decoração de vidro que, se você olhar bem de perto, tem o reflexo de gente dançando como se fosse numa casa de espelhos, substituindo os crânios e morcegos e abóboras deste pôster, mas foi você, seu puto. Você que rasgou e teve um chilique. Os cartazes formavam uma grande pilha laranja sobre o colo do Al, sentado nos bancos do lado direito, quando eu cheguei no colégio com o cabelo ridiculamente úmido e a minha mochila, que carregava a lição de biologia avançada não feita. A Jordan e a Lauren também estavam lá, cada uma delas segurando — levei um segundo para entender — uma fita. — Ah, não — falei. — Bom dia, Min — o Al disse. — Ah, não. Ah, não. Al, eu esqueci.
  • 64. a — Eu avisei — a Jordan disse para ele. — Eu esqueci completamente, e preciso achar a NancieBlumineck e implorar para que ela me deixe copiar a lição de biologia. Não dá! Não posso. E eu não trouxe fita. O Al pegou uma fita, pois já sabia. — Min, você prometeu. — Eu sei. — Você prometeu para mim três semanas atrás, tomando um café que eu paguei no Federico’s, e a Jordan e a Lauren são testemunhas. — Verdade — a Jordan disse. — Somos. Fomos. — Eu autentiquei a declaração — a Lauren falou, solene. — Mas eu não posso, Al. — Você prometeu — disse ele. — Prometeu pelo trejeito da TheodoraSire quando ela joga o cigarro na banheira do esqueci-o- nome. — Tom Burbank. Mas, Al... — Você prometeu que ia me ajudar. Quando eu fui informado que era obrigado a fazer parte do comitê de organização do Hallow-Baile Municipal, você não teve que prometer que ia participar de todas as reuniões, como a Jordan. — É muito chato — a Jordan disse. — Os meus olhos rolaram lá para o fundo da cabeça. Só sobraram essas réplicas de vidro, Min, que eu deixei nos buracos que o tédio fez no meu crânio. — E você não teve que prometer, como a Lauren fez, que ia segurar a mão da Jean Sabinger enquanto cada membro do subcomitê de decoração fazia comentários sobre os seis esboços do cartaz, dois dos quais a fizeram chorar, porque a Jean e eu ainda não nos falamos depois do incidente do Baile de Calouros.
  • 65. a — É verdade, o choro — a Lauren disse. — Tive que limpar o nariz dela eu mesma. — Não é verdade — falei. — Bom, é verdade que ela chorou. E a Jean Sabinger chora. Temperamento de artista, Min. — Tudo que você prometeu fazer — o Al disse —, para conseguir ingressos grátis e entrar na lista de membros do subcomitê, foi passar uma manhã colando esses cartazes. Esta manhã, a propósito. — Al... — E não vem me dizer que eu sou imbecil — o Al continuou. — Sou o tesoureiro júnior do Colégio Hellman. Eu trabalho na loja do meu pai nos fins de semana. A minha vida inteira é imbecil. O Hallow-Baile Municipal é uma imbecilidade. Estar no comitê de organização de qualquer coisa é o cúmulo da imbecilidade, mesmo quando, principalmente quando, é obrigatório. Mas imbecilidade não é desculpa. Embora eu não tenha opinião formada... — Oh-oh — a Jordan disse. — ...há quem diga, por exemplo, que existe certa demonstração de imbecilidade em correr atrás do Ed Slaterton, e mesmo assim abusei do meu poder ontem, como membro do conselho estudantil, e olhei o telefone dele no escritório de matrículas porque você pediu, Min. A Lauren fingiu que desmaiava. — Al! — ela disse, com a voz da mãe. — Isso vai contra o código de ética do conselho estudantil! Vai levar muito tempo para eu voltar a confiar em você, muito, muito tempo... pronto, voltei. Agora todos olhavam para mim. Ed, você nunca deu bola para nenhum deles.
  • 66. a — Tudo bem, tudo bem, eu vou colar os cartazes. — Eu sabia — o Al disse, me entregando a fita. — Não duvidei nem por um instante. Em duplas, povo. Dois fazem do ginásio até a biblioteca, dois o resto. — Eu vou com a Jordan — a Lauren disse, pegando metade da pilha. — Bem melhor do que interferir no festival de tensão sexual que você e a Min estão promovendo hoje de manhã. — Todas as manhãs — a Jordan disse. — Você acha que tudo é tensão sexual — falei para a Lauren. — Só porque foi criada pelo Senhor Supercristão e pela Senhora Supercristã. Nós, judeus, sabemos que tensões subjacentes são sempre culpa de falta de glicose. — É, bom, vocês mataram o meu Salvador — a Lauren disse, e a Jordan deu tchau. — Não vou deixar acontecer de novo. O Al e eu fomos para a entrada leste, passando por cima das pernas do Marty Weiss e daquela menina com cara de japonesa que segurava as mãos dele perto das floreiras mortas, e passamos a manhã liberados da educação física colando cartazes como se eles fossem servir para alguma coisa, o Al esticando e eu arrancando pedaços de fita para colocar nas pontas. O Al me contou uma longa história sobre a Suzanne Gane (aula de direção, gancho do sutiã) e aí falou: — Então, você e o Ed Slaterton. Não conversamos ainda. O que... O que...? — Sei lá — falei, fita, fita. — Ele... acho que está indo bem. — O.k., não é da minha conta. — Não é isso, Al. É que, sabe, ele é um troço... delicado. — O Ed Slaterton, delicado. — Não, a gente é. Quer dizer. Ele e eu, parece que a gente é. — O.k. — o Al disse.
  • 67. a — Não sei o que vai acontecer. — Então você não vai virar uma daquelas marias-cestinhas das arquibancadas? “Lindo lance, Ed!” — Você não gosta dele. — Não tenho opinião formada. — Bom. Eles não chamam de “lance”. — Oh-oh, você aprendendo terminologias do basquete. — Bandeja — falei. — É assim que chamam. — Se abster de cafeína é que vai ser complicado. Não servem café nas arquibancadas, depois da aula. — Eu não vou abandonar o Federico’s. — Claro, claro. — Eu vou com você hoje. — Esquece. — Você não gosta dele. — Não tenho opinião formada, já disse. Bom, me conta depois. — Mas, Al... — Min, atrás de você. — O quê? E lá estava você. — Ah! — falei muito alto. — Oi — você disse, e acenou para o Al, que ficou envergonhado com a pilha do Halloween, claro. — Oi — falei. — Você nunca anda por aqui — você disse. — Estou no subcomitê. E você só piscou. — Está bem, te vejo depois? — Depois? — Depois do colégio, você vem ver o meu treino?
  • 68. a Depois de um segundo eu ri, Ed, e tentei usar aquele esquema multitarefa de olhar ao mesmo tempo para o Al com uma cara de “Dá para acreditar nesse cara?” e para você com outra de “A gente conversa depois”. — Não — falei. — Eu não vou assistir o treino. — Bom, então me liga depois — você disse, e passou os olhos pela escadaria. — Deixa eu te passar o número mais fácil — você falou, e, sem pensar, Ed, aconteceu aquele absurdo, você rasgando uma tira do cartaz que a gente tinha acabado de prender. Você não pensou, Ed, é claro que não pensou, pois para o Ed Slaterton o mundo inteiro, tudo que estiver colado na parede, é só papel onde você pode escrever, então você pegou um canetão da orelha do Al antes que ele conseguisse dar um pio e me deu este número que estou devolvendo, este número que eu já tinha, este número que ainda está num cartaz na minha cabeça e nunca vai rasgar, antes de devolver a caneta e passar a mão no meu cabelo e descer a escada correndo, deixando esta metade na minha mão e a outra, ferida, na parede. Quando eu te vi ir embora, o Al te olhando ir embora, eu olhando o Al te olhando ir embora, percebi que devia dizer que você era um canalha por ter feito aquilo e não consegui fazer as palavras saírem. Porque naquela hora, Ed, no dia do meu último café depois do colégio com o Al no Federico’s — porque, sim, porra, comecei a ficar sentada nas arquibancadas assistindo os seus treinos —, o número na minha mão era a passagem de saída das manhãs de colar cartazes da minha vida, dos meus amigos de sempre, de um cartaz que anunciava algo que todo mundo sabe que acontece todo ano. “Me liga depois”, você disse, para eu poder te ligar depois, à noite, e é nessas noites que sinto a sua falta, Ed, mais falta, no telefone, seu lindo filho da puta. Porque de dia era o colégio. Era o sinal alto demais ou cheio de estalos nos alto-falantes quebrados que nunca consertavam.
  • 69. a Era o assoalho ruim cheio de rangidos e pegadas, e os armários batendo. Era escrever o meu nome no lado direito superior da folha ou o sr. Nelson automaticamente deduziria cinco pontos, e no lado esquerdo superior ou o sr.Peters deduziria três. Era a caneta que desistia na metade do caminho e riscava tinta invisível no papel ou cometia suicídio e vazava na minha mão, e eu tentando lembrar se tinha tocado no meu rosto e se estava com cara de mineiro das esferográficas. Eram os meninos brigando perto das latas de lixo seja lá qual fosse o motivo, não são os meus amigos, não é a minha turma, o meu antigo vizinho de armário chorando no banco em que eu sentei no ano de caloura com uma turma que hoje em dia mal vejo. Provas, provas surpresa, trocar de nome durante a chamada quando tem substituto, qualquer coisa que faça o tempo passar, mais sinal. Era o diretor no alto-falante, dois minutos completos de som ambiente e coisas sendo arrastadas, depois um “É isso, Dave” em alto e bom som, e o barulho cessou. Era a mesa que vendia croissants do Clube de Francês, derrubada pelo Billy Keager como sempre, e a geleia de morango que deixou uma mancha grudenta no chão por três dias até alguém resolver limpar. Troféus velhos numa caixa, uma placa com os nomes deste ano esperando para ser preenchidos na etiqueta, branca e em formato de caixão. Era um profundo sonhar acordado e despertar com o professor querendo uma resposta, recusando-se a repetir a pergunta. Outro sinal, o aviso “ignorem o sinal” e o Nelson carrancudo dizendo “Ele falou para ignorar” enquanto todo mundo fechava as mochilas. Era a papelada no ginásio, grampeada ao contrário e todo mundo tendo que desvirar as folhas para preencher. Era a sacanagem e a seleção para a peça de teatro, as faixas com o grande jogo de sexta e a faixa maior roubada e o aviso para dedurar se alguém soubesse de alguma coisa. Eram a Jenn e o Tim quando eles acabaram, a Skyler que
  • 70. a perdeu o carro, o boato de que a Angela estava grávida mas depois o contraboato de que não, era só gripe, todo mundo vomita quando está gripado. Eram os dias em que o sol nem tentava sair das nuvens e você foi legal uma única vez na sua vida de estrela. Era a grama molhada, a umidade, as meias erradas que eu tinha esquecido de jogar fora e agora estava usando, a folha sorrateira caindo do meu cabelo onde deve ter ficado horas aninhada para a alegria de alguém. A Serena menstruada sem ter absorventes, como sempre, surrupiando das meninas que ela nem conhecia nos banheiros no segundo período. O grande jogo de sexta, vamos, Beavers, mostrem para eles, Beavers, a piada tão sem graça que só os calouros e o KyleHapley gostavam. Seleção para o coral, três garotas vendendo tricô para ajudar as vítimas do furacão, a biblioteca que não tinha nada não importa o que você precisasse procurar. Era o quinto período, o sexto, o sétimo, ficar olhando para o relógio e colando nas provas porque sim. Era ter fome repentina, cansaço repentino, calor, fúria, inacreditável e espantosa tristeza. Quarto período, como é que ainda pode ser o quarto, mas é. HesterPrynne, Agamemnon, John Quincy Adams, distância vezes velocidade igual a alguma coisa, menor denominador sei lá, o raio é metade do diâmetro, metáforas, o liberalismo. O blusão vermelho de alguém, a pasta aberta de alguém, ficar se perguntando como alguém podia perder um sapato, só um sapato, e não ver que ele passou semanas esperando lá no peitoril da janela. Ligue para este número no mural, ligue se você sofrer abusos, se você quiser se matar, se quiser ir para a Áustria no verão com os outros medíocres da foto. Era “ESFORÇO!” em letras feias num fundo esmaecido, “TINTA FRESCA” num chão seco, o jogo de sexta, precisamos da sua energia, traga a sua energia. As senhas dos armários, as máquinas de refrigerante, se encontrar, matar aula, fumar em segredo e
  • 71. a fones de ouvido e despejar rum no refrigerante e bala de menta para esconder o hálito, aquele menino doentinho dos óculos de aro grosso e a cadeira de rodas elétrica, graças a Deus que não sou eu, ou o colar cervical, ou a coceira ou o freio ou aquele pai bêbado que apareceu no baile e deu um soco na cara dela, ou aquela pobre criatura que precisa que alguém lhe diga “Você está sempre fedendo, dê um jeito nisso, ou as coisas nunca, nunca, nunca vão melhorar para você”. Os dias eram o dia inteiro, todo dia, ganhar nota, anotar, colocar alguma coisa, tirar alguma coisa, abrir o sapo e ver se é igual à foto do sapo aberto. Mas à noite, à noite era você, finalmente no telefone com você, Ed, a minha alegria, o meu melhor. A primeira vez que te liguei foi como a primeira vez que alguém ligou para alguém, Alexander Graham sei-lá-o-quê, casado com a Jessica Curtain naquele filme demente, franzindo o cenho com os testes na mesa de montagem, sem sucesso, até que finalmente ele diz a frase mágica pelo fio. Sabe qual foi, Ed? — Alô? — Diabos, era a sua irmã. — Hã, oi. — Oi. — Posso falar com o Ed? — Posso saber quem é? Ah, por que ela tinha que fazer isso? Foi o que eu pensei, agarrando o lençol. — Uma amiga — falei, tímida, imbecil. — Amiga? Fechei os olhos. — Sim. Houve um instante mudo, um zumbido, e eu ouvi a Joan, embora eu ainda não conhecesse a Joan, suspirar e questionar se deveria me interrogar mais, enquanto eu pensava que podia
  • 72. a desligar naquela hora, como um ladrão na noite em Como um ladrão na noite. — Espera — ela disse; aí passaram uns segundos, zumbidos e estalos, a sua voz longe dizendo “Que foi?” e a Joan tirando sarro, “Ed, você tem amigas? Porque tem uma menina dizendo que...”. — Cala a boca — você disse, bem baixinho, e depois — Alô? — Oi. — Oi. Hã, quem... — Desculpa, é a Min. — Min, oi, não tinha reconhecido sua voz. — É. — Espera, vou para outra sala porque a Joanie está aqui do meu lado. — O.k. A sua irmã disse alguma coisa, mais alguma coisa, água correndo. “Esses pratos são meus”, você disse para ela. Alguma coisa, mais alguma coisa. “Ela é minha amiga.” Alguma coisa, mais alguma coisa. “Sei lá.” Alguma coisa. “Nada.” Fiquei esperando. “Senhor Watson” foi a primeira coisa que o inventor disse, miraculosamente, da outra sala. “Venha cá — quero falar com você.” — Oi, desculpa. — Tudo bem. — A minha irmã. — É. — Ela... bom, você vai conhecer. — Tá. — Então... — Hã, como foi o treino? — Tudo bem. O Glenn foi meio sacana, mas já virou normal. — Ah.
  • 73. a — Como... o que é mesmo que você faz depois do colégio? — Vou no café. — Ah. — Com o Al. Sabe, só para bater papo. A Lauren também foi. — O.k., e como foi? Ed, foi maravilhoso. Ficar gaguejando com você, ou mesmo parar de gaguejar e não dizer nada, era tanta sorte, tão fofo, uma conversa melhor que bater papo com qualquer outro. Depois de uns minutos a gente parava de fazer barulho, a gente se acomodava, e a conversa corria noite adentro. Às vezes eram só as risadas de comparar as preferências, adoro esse sabor, aquela cor é legal, aquele disco é horrível, nunca vi esse seriado, ela é legal, ele é um idiota, você está brincando, de jeito nenhum, o meu é melhor, seguro e hilário, como fazer cosquinhas. Às vezes eram histórias que a gente contava, se revezando e incentivando, não é chata, é legal, entendi, entendi, não precisa ficar dizendo, pode dizer de novo, nunca contei isso para ninguém, não vou contar para mais ninguém. Você contou daquela vez com o seu avô na porta. Contei daquela vez com a minha mãe no sinal vermelho. Você contou daquela vez com a sua irmã e a porta trancada, e eu contei daquela vez com a minha amiga e a carona errada. Aquela vez depois da festa, aquela antes do baile. Aquela vez no acampamento, nas férias, no quintal, descendo a rua, dentro daquele quarto que eu nunca mais vou ver, aquela vez com o pai, aquela vez do ônibus, aquela outra vez com o pai, aquela época estranha naquele lugar que eu já te contei na outra história daquela outra vez, as vezes que se ligam como flocos de neve numa nevasca que nós mesmos fizemos no nosso inverno preferido. Ed, aquilo era tudo, aquelas noites no telefone, tudo que a gente dizia até tarde, ficava muito tarde e aí mais tarde e aí bem tarde e enfim para a cama com a orelha quente e cansada e
  • 74. a vermelha de segurar o telefone tão perto, pertinho, para não perder uma palavra do que quer que fosse, porque quem ia se importar com o meu cansaço no labutar enfadonho diurno sem o outro. Eu acabaria com qualquer dia, todos os dias, por essas longas noites com você, e foi o que fiz. Mas é por isso que já estava condenado, bem ali. A gente não podia ter só as noites de magia zumbindo pelos fios. A gente tinha que ter os dias, também, os belos e impacientes dias que estragavam tudo com os cronogramas inevitáveis, os horários obrigatórios que não se cruzavam, os amigos leais que não se gostavam, os absurdos imperdoáveis rasgados da parede independentemente das promessas feitas depois da meia-noite, e foi por isso que a gente acabou.
  • 75. a
  • 76. a É DISTO QUE EU ESTOU FALANDO, ED: da verdade. Olha esta moeda. De onde ela veio? Que primeiro-ministro, que rei é esse? Em algum lugar do mundo aceitam isso como dinheiro, mas não naquele dia depois do colégio na Queijaria. A gente tinha acertado, com mais argumentação e diplomacia que a minissérie de sete horas do Nigel Krath sobre o cardeal Richelieu, que iríamos jantar cedo ou tomar café tarde, lanche pós-treino ou seja lá como você chama quando o sol está se pondo e era para você estar em casa mas está comendo misto-quente na chapa e sopa de tomate aguada e escaldante em território neutro. Eles estavam cansados de não te conhecer, mesmo que tivesse passado pouquíssimo tempo. Eles pensavam, todos eles, a Jordan e a Lauren, fora o Al porque ele não tinha opinião formada, que eu estava te escondendo. Ou que eu tinha vergonha dos meus amigos? “É isso, Min?” Eu disse que você tinha treino e eles disseram que não era desculpa e eu disse que claro que era e aí a Lauren disse que de repente, se não te convidassem, como na festa do Al, aí talvez você aparecesse, aí eu falei o.k., o.k., o.k., o.k., calem-se, o.k., terça-feira depois do treino, depois do café no Federico’s, vamos na Queijaria, que tem localização central e é igualmente detestada por todos, e aí eu te perguntei e você disse que claro, parecia bom. Sentei com eles e esperei. Os bancos estavam descascando e os guardanapos sugeriam que testássemos os nossos conhecimentos sobre queijos.
  • 77. a — Min, verdadeiro ou falso, o parmesão foi inventado em 1987? Tirei o dedo da boca e dei uma pancada na Jordan. — Você vai ser legal com ele, né? — A gente sempre é legal. — Não, nunca são — falei. — E amo vocês mesmo assim, geralmente, na maioria das vezes, mas hoje não. — Se ele vai ser o que quer que seja para ele ser — a Lauren disse —, então ele deve nos ver do jeito que Deus nos criou, no nosso habitat natural, com os nossos... — A gente nunca vem aqui — o Al disse. — A gente já discutiu isso — lembrei a ele. A Lauren deu um suspiro. — O que eu quis dizer é que se a gente vai andar junto... — Andar junto? — Talvez não — a Jordan disse. — Talvez não aconteça. Talvez a gente só se veja no casamento, ou... — Parem. — Ele não tem irmã? — a Lauren perguntou. — Imagina nós duas vestidas de madrinhas! Cor de ameixa! — Eu sabia que ia ser assim. É melhor eu ligar para ele não vir. — Talvez ele já esteja com medo da gente e nem apareça — a Jordan disse. — É — a Lauren falou. — Tipo, vai que ele nem queria o telefone da Min e vai que ele não ia ligar para ela e vai que eles nem estão... Bati a cabeça na mesa e pisquei para um desenho de queijo brie. — Não olha agora — o Al murmurou. — Mas tem uma bola de suor entrando.
  • 78. a É verdade que você estava particularmente e umidamente atlético. Eu me levantei e te beijei, me sentindo naquela cena de O grande cofre em que o Tom D’Allesandro não sabe que a DodieKitt está sendo feita de refém bem debaixo do nariz dele. — E aí — você disse, depois olhou para os meus amigos. — Oi também. — Oi — todos, malditos, disseram. Você se acomodou. — Faz muito tempo que eu não venho aqui — você disse. — No ano passado eu vim com alguém que gostava da... do que mesmo... da sopa picante de queijo. — Fondue — a Jordan disse. — Era a Karen? — a Lauren perguntou. — A das tranças e do gesso no tornozelo? Você estava piscando. — Era a Carol. E não era fondue. Era sopa picante de queijo — você apontou para “SOPA PICANTE DE QUEIJO” no cardápio e, por um segundo, ficou silêncio total. — A gente sempre pede o especial do dia — disse o Al. — Eu vou querer o especial do dia, então — você disse. — E, Al, não me deixa esquecer — você deu um tapa na mochila. — O Jon Hansen disse para eu te entregar um folheto do projeto de literatura. A Lauren se virou para o Al. — Você faz literatura com o Jonathan Hansen? O Al fez que não e você tomou um gole demorado de água gelada. Fiquei olhando a sua garganta, eu queria cada palavra que você já tinha dito, todas para mim. — A namorada dele — você enfim explicou. — A Joanna Algumacoisa-ton. Mas, e não vai contar por aí, não por muito tempo. Ah, sabe o que eu lembrei?
  • 79. a — Essa Joanna Farmington é minha amiga? — a Lauren perguntou. Você fez que não e deu um sinal para o garçom. — Jukebox — você disse. — Aqui eles têm uma jukebox boa — você jogou a mochila na mesa, achou a carteira, franziu o cenho olhando para as notas. — Alguém tem trocado? — e aí puxou a bolsa da Lauren. Não entendo muito de esporte, mas eu sentia o strike um, o strike dois, o strike três passarem voando pela sua cabeça. Você puxou o zíper e ficou remexendo as coisas. Os meus olhos fitaram os do Al tentando não fitar os meus. A única pessoa que não a Lauren que teria permissão de mexer na bolsa dela seria aquela que a encontrasse morta numa vala e estivesse procurando os seus documentos. Um absorvente apareceu pela parte de cima e aí você achou a bolsinha de trocados dela e sorriu e a abriu e pegou as moedas. — Nós todos vamos querer o especial do dia — você disse ao garçom, e aí se levantou e foi até a jukebox, me deixando sozinha numa mesa atônita. A Lauren estava olhando para a bolsa como se fosse um bicho atropelado na estrada. — Jesus Cristo e o pai biológico dele. — Como diria a sua mãe — acrescentou a Jordan. — Eles são assim — falei, desesperada. — Entre eles, estão sempre mexendo no dinheiro uns dos outros. — Eles são assim? — a Lauren falou. — O que é isso, a vida na natureza? Eles são hienas? — A gente espera que o acasalamento não seja para sempre — a Jordan resmungou. O Al só olhou para mim, como se fosse pular no cavalo, dar um tiro do revólver, abrir o alçapão, mas só se eu pedisse. Não pedi. Você voltou e sorriu para todo mundo e, strike um bilhão, começou a tocar Tommy Fox. Ed, eu nem sei explicar, mas
  • 80. a Tommy Fox, eu nunca te contei, para nós é uma piada, e nem é uma piada boa, porque Tommy Fox vira piada fácil. Você sorriu de novo e ficou girando uma moeda na mesa, estala, gira, estala, gira, enquanto a gente ficava olhando. — Essa não funcionou — você disse, apontando para o meio da mesa, a terra de ninguém onde a moeda inútil girava. — Não me diga — a Lauren disse. — Eu adoro a guitarra nessa — você disse, sentando-se e passando o braço por cima de mim. Eu me encostei nele, Ed, e o seu braço era bom até com Tommy Fox tocando de fundo. — Ele está de brincadeira — falei. Desesperada, de novo. Eu me contorcia e mentia, Ed, por você. Aí a moeda estalou até parar e eu a enfiei no bolso e a gente comeu e ficou tentando falar e pagamos e fomos embora. Os seus olhos eram tão doces, me acompanhando até o ônibus enquanto eles iam para o outro lado. Eu os vi amontoadinhos e rindo, já estavam rindo. Ah, que seja o que for, Ed, fiquei pensando com a sua mão na minha cintura e a moeda no meu bolso. Onde quer que seja bom, seja qual for a terra estranha e distante, vamos lá, vamos ficar sozinhos lá.
  • 81. a OLHE BEM DE PERTO e você vai notar uns dois fios que saíram junto quando você arrancou o elástico do meu cabelo. Quem faria algo assim? Que tipo de homem faria isso, Ed? Na época eu não dava tanta bola. A nossa primeira vez na sua casa, onde você vai ler isso, de coração partido. Indo para casa com você pela primeira vez, juntos no ônibus, depois de assistir o treino. Eu estava exausta, cansada por não ter tomado o meu Federico’s de todos os dias. Cansada do tédio, mesmo, nas arquibancadas enquanto você fazia arremessos e o treinador assoprava aquele apito agudo dando conselhos do tipo “Tenta jogar mais perto da cesta”. Dei uma dormidinha no seu braço, no ônibus, e quando acordei você estava olhando para mim, pensativo. Estava suado, um nojo. O meu hálito já estava
  • 82. a ruim só de dormir um minuto, como sempre. O sol entrava pelas janelas sujas do ônibus. Você disse que gostava de me ver dormir. Você disse que queria me ver acordando de manhã. Pela primeira vez, ou não a primeira, se é para contar a verdade verdadeira, tentei pensar em algum lugar, algum lugar extraordinário, onde aquilo pudesse acontecer. A escola inteira sabe que, se a gente chegar na final do estadual, toda a equipe fica num hotel e o treinador faz que não vê, mas a gente não chegou tão longe. Quando passamos pela porta dos fundos, você gritou: “Joanie, cheguei!”, e eu ouvi: “Você sabe das regras — não fale comigo até tomar banho!”. — Pode ficar com a minha irmã um segundinho? — você me perguntou. — Eu não conheço a sua irmã — falei, numa sala de estar onde todas as almofadas do sofá estavam no chão como um dominó. — Ela é legal — você disse. — Já falei de você para ela. Falem de cinema. Não a chame de Joanie. — Você a chamou de Joanie — falei, mas você já estava correndo na escada. O sofá estripado de almofadas, pilhas de revistas separadas, uma xícara de chá, a sala inteira desorganizada. Pela porta eu ouvia a música que amei na mesma hora, mas não conseguia saber o que era. Parecia jazz, mas não era tão constrangedor. Fui em direção à música, e a Joan estava dançando na cozinha de olhos fechados, fazendo par com uma colher de pau. Havia montinhos de legumes cortados no balcão, Ed, a sua irmã é linda e fantástica, pode dizer que eu falei. — O que é isso? — O quê? — ela não ficou surpresa nem nada. — Desculpa. Eu gostei da música.
  • 83. a — Você não devia pedir desculpas por gostar da música. Hawk Davies, “The feeling”. — O quê? — “You either have the feeling or you don’t.” Nunca ouviu falar do Hawk Davies? — Ah, sim, Hawk Davies. — Para. É legal você não conhecer. Ah, ser jovem de novo. Ela se virou e continuou dançando. Achei que eu devia voltar para a sala de estar. — Você é a menina do telefone daquela noite. — É — confessei. — A amiga — ela declamou. — Qual é o seu nome, amiga? Eu disse que era Min, apelido de... etc. — Bom discurso — ela disse. — Eu sou a Joan. Gosto de Joanie tanto quanto você gosta de Minnie. — É, o Ed me contou. — Não acredite na palavra de um garoto que fica nojento de suor todo santo dia... vai tomar banho! Ela gritou o final da frase para o teto. Tump, tump, tump, a luminária da cozinha tremeu e ouvimos o chuveiro sendo ligado. A Joan sorriu e olhou para mim de novo e voltou à tábua de picar. — Sabe, espero que você não se importe, e, sem querer ofender, mas você não parece essas garotas de arquibancada. — Não? — Você é mais... — pica, pica, ela queria a palavra, pica, pica, certa. Atrás dela tinha um porta-facas. Se ela dissesse “das artes”... — ...interessante. Eu me esforcei para não sorrir. “Obrigada” não parecia ser a resposta certa. — Bom, hoje eu fui uma garota de arquibancada. Acho.
  • 84. a — Ei! — ela se empertigou, irônica, os olhos arregalados e a faca erguida como um mastro. — Vamos assistir garotos treinarem para o jogo para depois vê-los jogarem o jogo! — Você não gosta de basquete? — Desculpa, você gostou? Como é que foi ficar vendo o Ed? — Chato — falei no mesmo instante. Solo de bateria no disco. — E ainda namora o meu irmão — ela disse, fazendo “não” com a cabeça. Ela foi até o fogão, mexeu na panela e lambeu a colher, alguma coisa com tomate. — Você vai ser a viúva, a viúva do basquete, num tédio sem fim enquanto ele bate essa bola mundo afora. Se não gosta de basquete... Já era verdade, Ed. Eu já tinha me perguntado se podia ficar fazendo lição de casa ou ficar lendo enquanto você treinava. Mas ninguém mais fazia isso. As outras namoradas não se falavam muito, muito menos comigo, só me olhavam como se o garçom tivesse trazido o molho errado para a salada. Mas era tão elegante e valeu a pena te ver acenar para mim, e o suor nas suas costas quando vocês se dividiam entre os com e os sem camisa. — ...e não gosta de música, você gosta do quê? — Filmes — falei. — Cinema. Eu quero ser diretora. A música acabou, começou outra. A Joan me olhou como se eu tivesse dado um soco nela. — Ouvi dizer... O Ed me disse que você estava estudando cinema. Na Estadual? Ela suspirou, pôs as mãos na cintura. — Eu estudei. Mas tive que mudar. Ser mais prática. — Por quê? O chuveiro desligou.
  • 85. a — A minha mãe ficou doente — ela disse, apontando com o queixo na direção do quarto mais distante, e isso é uma coisa que você nunca disse, nenhuma das noites no telefone. Mas eu sou boa em mudar de assunto. — O que você está fazendo? — Almôndegas suecas vegetarianas. — Eu também cozinho, com o Al. — Que Al? — Um amigo meu. Posso ajudar? — A vida inteira, Min, há séculos eu espero que alguém faça essa pergunta. Espero que você concorde que aventais são inúteis, mas venha, pode pegar — ela foi até a porta e ficou mexendo na maçaneta um pouquinho antes de pôr aquilo na minha mão. Os elásticos, você os deixava por todo lado, em toda maçaneta de porta. — Hã. — Prenda o cabelo, Min. O ingrediente secreto é não ter cabelo. — Então como se faz almôndegas suecas vegetarianas? Com peixe? — Peixe é carne, Min. Cogumelos-ostra, castanhas, cebolinha, a páprica que ainda preciso achar, salsinha, raiz ralada, que você pode ralar aí. O molho eu já fiz, é o que está borbulhando. Parece bom? — Sim, mas não parece muito sueco. A Joan sorriu. — Na verdade, não parece muito com nada — ela admitiu. — É uma tentativa, entende? Tentar é o que eu faço. — Tentativas de almôndega, quem sabe podemos chamar assim? — falei, com o cabelo preso. Ela me passou o ralador.
  • 86. a — Gostei de você — ela disse. — Se quiser, pode pegar emprestado o meu livro de cinema. E me diz se o Ed te tratar mal que eu faço filé dele — então imagino que você esteja agora num prato com limão e não sei que mais, Ed. Mas você desceu as escadas com o cabelo para todos os lados e roupas soltas, uma camiseta de banda, pés descalços e shorts. — Oi — você falou e jogou os braços ao meu redor. Me deu um beijo e arrancou o elástico, ai, do meu cabelo. — Ed. — Prefiro assim, sem querer ofender, mas prefiro solto. — Ela precisa prender — a Joan disse. — Não, a gente vai sair — você disse. — Sim, e cozinhar. — Você podia pelo menos colocar uma música boa. — Hawk Davies detona Truthster. Vai assistir TV. A Min está me ajudando. Você foi até a geladeira fazendo um beiço e pegou leite, que bebeu direto da caixa e depois derramou numa tigela com cereais. — Você não é minha mãe de verdade — você disse, obviamente uma piada antiga. A sua linda irmã tirou o elástico da sua mão e pôs na minha, uma minhoca morta, uma serpente preguiçosa, um laço aberto pronto para lançar no rodeio. — Se eu fosse sua mãe de verdade — ela disse. — É, é, me estrangulava no berço — você saiu comendo o seu lanche, e a Joan e eu fizemos as almôndegas suecas vegetarianas, que acabaram ficando incrivelmente deliciosas. Contei a receita para o Al na mesma noite, e ele disse que parecia muito bom e que a gente podia fazer na sexta à noite ou no sábado à noite ou até no domingo à noite, ele podia pedir folga da loja para o pai, mas eu disse que não, que eu não ia estar livre nesse

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