O LIVRODA DOR E DO AMOR434.97-3
Transmissão da Psicanálisediretor: Marco Antonio Coutinho Jorge
J.-D. NasioO LIVRODA DOR E DO AMORTradução:LUCY MAGALHÃES
Título original:Le livre de la douleur et de l’amourTradução autorizada da primeira edição francesapublicada em 1996 por É...
O amor é uma esperae a dora ruptura súbita e imprevisíveldessa espera.
SUMÁRIOClémence ou a travessia da dor 9*Liminar 15*A Dor psíquica, Dor de amar 23*Arquipélago da Dor 55*A Dor corporal: um...
Excertos das obras de Freudsobre a Dor corporal,precedidos de nossos comentários 169*Excertos das obras de Freud e Lacanso...
CLÉMENCEOUA TRAVESSIA DA DOR
Clémence ou a travessia da dorQuanto mais se ama, mais se sofre.*Perder o ser que amamos.*O amado cujo luto devo realizar ...
Clémence1 tinha trinta e oito anos. Sofria de esterilidade e lutava paratornar-se mãe. Estava em análise comigo há três an...
Com efeito, pouco tempo depois desse acontecimento trágico, Clé-mence voltou. Esgotada, estava incapaz de locomover-se soz...
presença — mesmo silenciosa — podia dissipar o sofrimento ao receberas suas irradiações. E que essa impregnação aquém das ...
ou irmã de Laurent...” Antes que eu pudesse terminar a frase, a pacienteme interrompeu e exclamou surpreendida: “É a prime...
LIMINAR
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Desejei abrir este livro com um fragmento de análise, ou melhor, umfragmento de vida, que põe em presença dois seres: o qu...
a nossa vida como se amadurecêssemos a golpes de dores sucessivas.Para quem pratica a psicanálise, revela-se com toda a ev...
Antes de começar, quero estabelecer alguns preliminares e dizer aosmeus leitores que a dor — física ou psíquica, pouco imp...
as forças disponíveis para combatê-la e continuar a viver. É essa noçãode dor-afeto que vamos estudar nos primeiros capítu...
essas três dores na realidade são apenas os diferentes aspectos de umasó e mesma dor, formada instantaneamente.Durante o n...
pertençam à mesma categoria dos sentimentos penosos, podemosdistingui-los nitidamente e afirmar: o desprazer não é a dor. ...
A dor psíquica, dor de amarA DOR PSÍQUICA,DOR DE AMAR
Ao contrário da dor corporal causada por um ferimen-to, a dor psíquica ocorre sem agressão aos tecidos. Omotivo que a dese...
atroz dor interior. Vamos propor então uma segundadefinição da dor psíquica, considerada desta vez doponto de vista metaps...
alguns preconizam uma concepção de vida que tomacomo centro o amor, e na qual se pensa que toda alegriavem de amar e ser a...
desencadeada pela perda do ser amado. Definimos ador psíquica como o afeto que traduz na consciênciaa autopercepção pelo e...
desinveste subitamente a quase totalidade das suasrepresentações, para superinvestir pontualmente a úni-ca representação d...
inacabado, me dizia: “Uma parte dela está desespera-damente viva em mim, e uma parte de mim está parasempre morta com ela....
tendemos a reduzi-la, não moderando o amor, masnegando a ausência, rebelando-nos contra a realidadeda falta e recusando-no...
convicção, a presença viva do morto. Para compreen-der essa impressionante semelhança de reações aluci-natórias diante de ...
Figura 1Explicação do fenômeno do “membro fantasma”e do “amado fantasma”.A imagem psíquica de um braço amputado foi tão su...
cujo luto devemos realizar. De fato, entre todos os queamamos, quais são os raros seres que consideramosinsubstituíveis, e...
descarga total? Assim, diremos que a situação ordiná-ria do sistema inconsciente se define pelo estadotolerável de insatis...
fação é desmedida, o desejo perde o seu eixo e a doraparece. Reencontramos aqui a hipótese que habita onosso texto, isto é...
Mas, além do parceiro amoroso, há outros objetoseleitos que poderiam assegurar essa função de recen-tramento do meu desejo...
O amor é a presença em fantasiado amadono meu inconscienteSe insistem para que eu digapor que eu o amava, sinto queisso só...
“objeto a” que ele simboliza o mistério, sem com issoresolvê-lo. O a, afinal, é apenas um nome para designaro que ignoramo...
remete à idéia vaga de devaneio ou de roteiro cons-cientemente imajado. Entretanto, o conceito psicana-lítico de fantasia ...
mentos e o conjunto dos sentimentos que experimen-tamos em relação ao amado são rigorosamente deter-minados pela fantasia....
riorizada que me remete às minhas próprias imagens.Assim, a pessoa do eleito me é absolutamente neces-sária, porque ela é ...
Agora, devemos separar bem os três modos depresença fantasiada do eleito, para definir o melhorpossível o “que” desconheci...
estamos ligados, a minha própria parte impessoal,nosso real comum. Entretanto, para que o outro realexista, para que ele t...
que ninguém mais poderia acompanhar tão finamenteo ritmo do meu desejo. Como se o eleito fosse antesde tudo um corpo, que ...
reira que contém o transbordamento das tendênciasdesejantes. É também uma reinterpretação do conceitolacaniano do signific...
estiver apoiada pelo corpo vivo do amado. É precisoque meu amado esteja vivo, a fim de que o espelhoque o duplica no incon...
apego conservando no horizonte esses ideais implíci-tos. Ideais muitas vezes exagerados, até infantis, cons-tantemente rea...
Entretanto, é preciso compreender bem que essafantasia não é somente a representação daquilo que oamado é em nós; ela é ta...
desejo comum. Isso quer dizer que perdemos a coesãoe a textura de uma fantasia indispensável à nossaestrutura.A Dor do enl...
construção da fantasia, mas o desabamento dessa cons-trução. A perda é uma causa desencadeante, o desmo-ronamento é a únic...
mente o meu leitor para o mesmo caminho que melevou a modificar o meu ponto de vista inicial sobrea dor. Parti da idéia co...
a nossa maneira de escutar o paciente que sofre ou onosso próprio sofrimento íntimo.Lembremo-nos do tratamento de Clémence...
Quadro comparativo entre a Dor corporal e a Dor psíquicaDORCORPORALDOR PSÍQUICAOU DOR DE AMAR A lesão estálocalizada no c...
Arquipélago da dorARQUIPÉLAGODA DOR
O inconsciente é um conservador da dor. Ele não a esquece.*Duas espécies de dores psíquicasExistem duas maneiras de reagir...
desagregação e não de explosão. É um desmoronamento mudo docorpo.Ora, os primeiros recursos para conter esse desmoronament...
A dor inconscienteMuitas vezes, o paciente sofre sem saber por que está triste nem queperda sofreu. Outras vezes, é habita...
O amado não é um outro, mas uma parte de nós mesmos que recentrao nosso desejo.*A pessoa do amadoA pessoa do amado é como ...
Minha fantasia do amadoA fantasia é uma coleção complexa de imagens e de significantes,dispostos em um anel giratório em t...
natureza da perda, seja ela real ou imaginária, definitiva ou passageira,o que importa é a convicção absoluta com a qual o...
O amor cego que nega a realidade da perda e, ao contrário, a resignaçãolúcida que a aceita, eis os dois extremos que dilac...
Assim, o luto pode se definir como um lento e penoso processo dedesamor em relação ao desaparecido, para amá-lo de outra f...
Naiso, j. d. o livro da dor e do amor
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Naiso, j. d. o livro da dor e do amor

Published on: Mar 3, 2016
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Transcripts - Naiso, j. d. o livro da dor e do amor

  • 1. O LIVRODA DOR E DO AMOR434.97-3
  • 2. Transmissão da Psicanálisediretor: Marco Antonio Coutinho Jorge
  • 3. J.-D. NasioO LIVRODA DOR E DO AMORTradução:LUCY MAGALHÃES
  • 4. Título original:Le livre de la douleur et de l’amourTradução autorizada da primeira edição francesapublicada em 1996 por Éditions Payot & Rivages, de Paris,França, na coleção Désir/Payot dirigida por J.-D. NasioCopyright © 1996, J.-D. NasioCopyright da edição em língua portuguesa © 1997:Jorge Zahar Editor Ltda.rua México 31 sobreloja20031-144 Rio de Janeiro, RJtel.: (21) 2108-0808 / fax: (21) 2108-0800editora@zahar.com.brwww.zahar.com.brTodos os direitos reservados.A reprodução não-autorizada desta publicação, no todoou em parte, constitui violação de direitos autorais. (Lei 9.610/98)Capa: Sérgio CampanteImpressão: Cromosete Gráfica e EditoraCIP-Brasil. Catalogação-na-fonteSindicato Nacional dos Editores de Livros, RJNasio, J.-D.N211L O livro da dor e do amor / J.-D. Nasio; tradução, LucyMagalhães. — Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.— (Transmissão da psicanálise)Tradução de: Le livre de la douleur et de l’amourInclui bibliografiaISBN 978-85-7110-406-81. Psicanálise. 2. Dor. 3. Amor. I. Título. II. Série.CDD: 616.891797-1081 CDU: 159.964.2
  • 5. O amor é uma esperae a dora ruptura súbita e imprevisíveldessa espera.
  • 6. SUMÁRIOClémence ou a travessia da dor 9*Liminar 15*A Dor psíquica, Dor de amar 23*Arquipélago da Dor 55*A Dor corporal: uma concepção psicanalítica 67*Lições sobre a Dor 111A Dor, objeto da pulsão sadomasoquista 115A Dor na reação terapêutica negativa 130A Dor e o grito 145A Dor do luto 158*
  • 7. Excertos das obras de Freudsobre a Dor corporal,precedidos de nossos comentários 169*Excertos das obras de Freud e Lacansobre a Dor psíquica,precedidos de nossos comentários 181*Indicações bibliográficassobre a Dor 197*Notas ao conjunto dos capítulos 205*Índice geral 211
  • 8. CLÉMENCEOUA TRAVESSIA DA DOR
  • 9. Clémence ou a travessia da dorQuanto mais se ama, mais se sofre.*Perder o ser que amamos.*O amado cujo luto devo realizar é aquele que me satisfazparcialmente, torna tolerável minha insatisfação e recentra meudesejo.*A presença em fantasia do amado no meu inconsciente.*A pessoa do amado.*A presença real do amado no meu inconsciente.*A presença simbólica do amado no meu inconsciente.*A presença imaginária do amado no meu inconsciente.*A Dor do enlouquecimento pulsional.*Resumo das causas da Dor psíquica.
  • 10. Clémence1 tinha trinta e oito anos. Sofria de esterilidade e lutava paratornar-se mãe. Estava em análise comigo há três anos. Ainda me lembromuito bem do dia em que, informando-me de que enfim estava grávida,exclamou: “Conseguimos!” Senti então que eu compartilhava a feli-cidade de um grupo de pessoas próximas que, com Clémence, se mobi-lizara para conseguir essa gravidez. Pensei no seu marido, tão presente,e no seu ginecologista, um excelente especialista em esterilidade.Durante os meses seguintes, as sessões foram essencialmente dedi-cadas a viver e a dizer esse período intenso em que uma mulher descobreque vai ser mãe. Chegou a hora do parto e Clémence deu à luz umacriança maravilhosa. Naquele dia, ela telefonou, radiante, para meparticipar o nascimento de um menino chamado Laurent. Tambémfiquei feliz e cumprimentei-a calorosamente. Três dias depois, tive asurpresa de receber um segundo telefonema completamente diferente.Com voz surda e abafada, quase inaudível, ela disse: “Perdi o meubebê. Morreu hoje de manhã na clínica. Não sabemos como aconteceu.”Ouvindo essas palavras terríveis, fiquei paralisado e só pude dizer:“Não é possível! É absurdo!”Durante algum tempo, Clémence não se manifestou. Seu silêncionão me surpreendia, porque sabia, por experiência, como a pessoaenlutada, abatida pelo golpe de uma perda violenta, recusa-se catego-ricamente a encontrar-se com aqueles que, antes do drama, estavamligados ao desaparecido. Até imaginei que minha paciente fosse inter-romper a análise, porque eu estava inevitavelmente associado à sualuta pela fecundação, ao sucesso da gravidez, à felicidade do nasci-mento, e agora à dor atroz de uma perda brutal e incompreensível.Talvez ela desistisse de continuar comigo o seu atual caminho analítico,para retomá-lo mais tarde com outro profissional. Era necessário,pensei, que imperativamente o seu mundo mudasse. Ora, a realidadefoi diferente.11
  • 11. Com efeito, pouco tempo depois desse acontecimento trágico, Clé-mence voltou. Esgotada, estava incapaz de locomover-se sozinha, etiveram que acompanhá-la até a sala de espera. Indo ao seu encontro,vi uma mulher transformada pela desgraça. Não era mais do que umcorpo impessoal, extenuado, esvaziado de qualquer força, agarrando-seapenas às imagens onipresentes do bebê, em todas as cenas em que eleainda estava vivo. Seu corpo encarnava perfeitamente o eu exanguedo ser sofredor, um eu prostrado, suspenso à lembrança muito viva dofilho desaparecido; lembrança martelada por uma pergunta obsessiva:“De que ele morreu? Por que, como ele morreu? Por que aconteceucomigo?”*Sabemos que esse estado de dor extrema, mistura de esvaziamentodo eu e de contração em uma imagem-lembrança, é a expressão deuma defesa, de um estremecimento de vida. Também sabemos que essador é a última muralha contra a loucura. No registro dos sentimentoshumanos, a dor psíquica é efetivamente o derradeiro afeto, a últimacrispação do eu desesperado, que se retrai para não naufragar no nada.Durante todo esse período, que se seguiu imediatamente à morte deLaurent, ouvi muitas vezes Clémence dizer que tinha medo de ficarlouca. E, em certos momentos, ela até parecia louca. Às vezes, a afliçãoda pessoa enlutada dá lugar a tais impulsos de exaltação em que asimagens demasiado claras e distintas do morto são vividas com a nitidezde uma alucinação.Entretanto, todo o meu saber sobre a dor — naquela época, eu jáestava escrevendo este livro — não me protegeu do impacto violentoque recebi ao acolher a minha paciente logo depois do acidente. Naquelemomento, o nosso laço se reduziu a podermos ser fracos juntos:Clémence, arrasada pelo sofrimento, e eu sem acesso à sua dor. Euficava ali, desestabilizado pela impenetrável infelicidade do outro. Aspalavras me pareciam inúteis e fiquei reduzido a fazer eco ao seu gritolancinante. Sabia que a dor se irradia para quem escuta. Sabia que, emum primeiro momento, eu tinha apenas que ser aquele que, só por sua* Laurent morreu no berçário, no meio da noite, enquanto Clémence dormia. Foio seu obstetra — o mesmo que tornara possível a gravidez e fizera o parto —que, na manhã seguinte, lhe participou o falecimento, sem poder lhe apresentarexplicações. Hoje, Clémence e seu marido continuam a ignorar a causa exata damorte do filho.12 O livro da dor e do amor
  • 12. presença — mesmo silenciosa — podia dissipar o sofrimento ao receberas suas irradiações. E que essa impregnação aquém das palavraspoderia, justamente, inspirar-me as palavras adequadas para expressara dor e acalmá-la enfim.Após esse período de alguns meses, em que recebi Clémence frentea frente, e quando a minha escuta se limitou a acompanhar o melhorpossível as flutuações da sua infelicidade, ela retomou a sua posiçãono divã. Foi então que ela pôde começar, verdadeiramente, o seutrabalho de luto; trabalho marcado por uma sessão determinante, quedesejo evocar aqui.Clémence tinha horror de ouvir as palavras de consolo que, nessascircunstâncias, ocorrem tão facilmente aos amigos e próximos: “Nãose atormente! Pense em uma nova gravidez. Você ainda tem tempo.Tenha outro filho e você verá que vai esquecer!” Essas palavras inábeislhe eram profundamente insuportáveis e a punham fora de si. Eucompreendia a veemência da sua reação, porque essas frases suposta-mente reconfortantes eram efetivamente um apelo ao esquecimento,uma incitação a suprimir pela segunda vez o filho morto. Uma incitaçãoa perdê-lo de novo, não mais na realidade, mas “no coração”. Comose, revoltada, Clémence gritasse para o mundo: “Perdi meu filho e seique ele não voltará mais. Sei que ele não está mais vivo, mas elecontinua a viver em mim. E vocês querem que eu o esqueça! Que eledesapareça pela segunda vez!” Pedir a Clémence que esquecesse ofilho morto, substituindo-o por outro antes de realizar o seu luto, sópodia violentá-la. Era pedir-lhe que não mais amasse a imagem dobebê desaparecido, e logo que se privasse do único recurso capaz deamenizar a dor e, finalmente, que renunciasse a preservar o seuequilíbrio psíquico. A imagem do ser perdido não deve se apagar; pelocontrário, ela deve dominar até o momento em que — graças ao luto— a pessoa enlutada consiga fazer com que coexistam o amor pelodesaparecido e um mesmo amor por um novo eleito. Quando essacoexistência do antigo e do novo se instala no inconsciente, podemosestar seguros de que o essencial do luto começou.Eu não estava pensando em todas essas considerações teóricasquando, durante uma sessão que ocorreu cerca de oito meses depoisdo falecimento, interferi de uma maneira que se revelou decisiva.Clémence estava no divã e me falava com o tom de alguém que acabavade reencontrar o gosto pela vida. Eu estava muito concentrado na escutae, no momento de intervir, pronunciei estas palavras, quase mecanica-mente: “... porque, se nascer um segundo filho, quero dizer um irmãoClémence ou a travessia da dor 13
  • 13. ou irmã de Laurent...” Antes que eu pudesse terminar a frase, a pacienteme interrompeu e exclamou surpreendida: “É a primeira vez que ouçodizer ‘o irmão ou irmã de Laurent’! Tenho a impressão de que umenorme peso foi tirado de mim.” Ocorreu-me então uma idéia que eulogo comuniquei à minha paciente: “Onde quer que Laurent se encontreagora, estou certo de que ele ficaria feliz de saber que um dia você lhedará um irmãozinho ou irmãzinha.” Eu também estava surpreso de terexpresso espontaneamente, em tão poucas palavras, o essencial daminha concepção de luto, segundo a qual a dor se acalma se a pessoaenlutada admitir enfim que o amor por um novo eleito vivo nuncaabolirá o amor pelo desaparecido. Assim, para Clémence, o futuro filhoque talvez nasça nunca tomará o lugar do seu irmão mais velho, hojefalecido. Ele terá o seu próprio lugar, o lugar que o seu desejo, o desejodos seus pais e o seu destino lhe reservam. E, simultaneamente, Laurentcontinuará sendo, para sempre, o insubstituível primeiro filho.14 O livro da dor e do amor
  • 14. LIMINAR
  • 15. Liminar
  • 16. Desejei abrir este livro com um fragmento de análise, ou melhor, umfragmento de vida, que põe em presença dois seres: o que sofre e ooutro que acolhe o sofrimento. Uma mãe devastada pela perda cruelde um primeiro bebê tão esperado e tão brutalmente desaparecido. Eum psicanalista que tenta dar sentido a uma dor que, em si mesma,não tem nenhum sentido. Em si, a dor não tem nenhum valor nemsignificado. Ela está ali, feita de carne ou de pedra, e no entanto, paraacalmá-la, temos que tomá-la como a expressão de outra coisa, desta-cá-la do real, transformando-a em símbolo. Atribuir um valor simbólicoa uma dor que é em si puro real, emoção brutal, hostil e estranha, éenfim o único gesto terapêutico que a torna suportável. Assim, opsicanalista é um intermediário que acolhe a dor inassimilável dopaciente, e a transforma em uma dor simbolizada.Mas o que significa então dar um sentido à dor e simbolizá-la? Nãoé, de modo algum, propor uma interpretação forçada da sua causa, nemmesmo consolar o sofredor, e menos ainda estimulá-lo a atravessar asua pena como uma experiência formadora, que fortaleceria o seucaráter. Não; dar um sentido à dor do outro significa, para o psicanalista,afinar-se com a dor, tentar vibrar com ela, e, nesse estado de resso-nância, esperar que o tempo e as palavras se gastem. Com o pacientetransformado nessa dor, o analista age como um bailarino que, diantedo tropeço de sua parceira, a segura, evita que ela caia e, sem perdero passo, leva o casal a reencontrar o ritmo inicial. Dar um sentido auma dor insondável é finalmente construir para ela um lugar no seioda transferência, onde ela poderá ser clamada, pranteada e gasta comlágrimas e palavras.*Ao longo destas páginas, gostaria de transmitir o que eu próprio aprendi,isto é, que a dor mental não é necessariamente patológica; ela baliza17
  • 17. a nossa vida como se amadurecêssemos a golpes de dores sucessivas.Para quem pratica a psicanálise, revela-se com toda a evidência —graças à notável lente da transferência analítica — que a dor, no coraçãodo nosso ser, é o sinal incontestável da passagem de uma prova. Quandouma dor aparece, podemos acreditar, estamos atravessando um limiar,passamos por uma prova decisiva. Que prova? A prova de umaseparação, da singular separação de um objeto que, deixando-nos súbitae definitivamente, nos transtorna e nos obriga a reconstruir-nos. A dorpsíquica é dor de separação, sim, quando a separação é erradicação eperda de um objeto ao qual estamos tão intimamente ligados — apessoa amada, uma coisa material, um valor, ou a integridade do nossocorpo — que esse laço é constitutivo de nós próprios. Isso diz comoo nosso inconsciente é o fio sutil que liga as diversas separaçõesdolorosas da nossa existência.Vamos estudar a dor, tomando como exemplo a aflição que nosafeta quando somos golpeados pela morte de um ser querido. O lutodo amado é, de fato, a prova mais exemplar para compreender a naturezae os mecanismos da dor mental. Entretanto, seria falso acreditar que ador psíquica é um sentimento exclusivamente provocado pela perda deum ser amado. Ela também pode ser dor de abandono, quando o amadonos retira subitamente o seu amor; de humilhação quando somosprofundamente feridos no nosso amor-próprio; e dor de mutilaçãoquando perdemos uma parte do nosso corpo. Todas essas dores são,em diversos graus, dores de amputação brutal de um objeto amado, aoqual estávamos tão intensa e permanentemente ligados que ele regulavaa harmonia do nosso psiquismo. A dor só existe sobre um fundo de amor.*A dor psíquica é um sentimento obscuro, difícil de definir que, mal éapreendido, escapa à razão. Assim, a sua natureza incerta nos incita aprocurar a teoria mais precisa possível do mecanismo daquilo que causador. Há nisso como que um desafio de querer demarcar um afeto quese esquiva ao pensamento. Pude constatar quanto a literatura analíticaera extremamente limitada nessa área. Os próprios Freud e Lacanapenas raramente abordaram o tema da dor e nunca lhe dedicaram umestudo exclusivo.Assim, vou tentar expor uma metapsicologia da dor. Uma metapsi-cologia porque é a única abordagem teórica satisfatória para explicardetalhadamente o mecanismo de formação da dor psíquica.18 O livro da dor e do amor
  • 18. Antes de começar, quero estabelecer alguns preliminares e dizer aosmeus leitores que a dor — física ou psíquica, pouco importa — ésempre um fenômeno de limite. Ao longo destas páginas, verão comoela emerge constantemente no nível de um limite, seja o limite impre-ciso entre o corpo e a psique, seja entre o eu e o outro, ou, principal-mente, entre o funcionamento bem regulado do psiquismo e o seudesregramento.Outra observação inicial se refere ao vocabulário que utilizarei paradistinguir dor corporal e dor psíquica. Essa distinção, embora necessáriapara a clareza do meu objetivo, não é rigorosamente fundada. Do pontode vista psicanalítico, não há diferença entre dor física e dor psíquica.A razão disso é que, como acabamos de antecipar, a dor é um fenômenomisto que surge no limite entre corpo e psique. Quando estudarmos ador corporal, por exemplo, veremos que, exceto os seus estritos me-canismos neurobiológicos, ela se explica essencialmente por umaperturbação do psiquismo. Acrescente-se ainda que o modelo da dorcorporal, esboçado por Freud no início da sua obra e que retomaremosdepois, esclareceu surpreendentemente a nossa concepção de dor psí-quica.Outra precisão terminológica diz respeito à diferença entre as pala-vras “sofrimento” e “dor”. Classicamente, esses termos se distinguemda seguinte maneira: enquanto a dor remete à sensação local causadapor uma lesão, o sofrimento designa uma perturbação global, psíquicae corporal, provocada por uma excitação geralmente violenta. Se a doré uma sensação bem delimitada e determinada, o sofrimento, aocontrário, é uma emoção mal definida. Mas essa distinção esquemáticase torna caduca a partir do momento em que precisamos com rigor aformação de uma dor corporal e o fator psíquico que intervém nela.Foi o que tentamos fazer explorando o eu que sente dor com osinstrumentos da metapsicologia freudiana. Assim sendo, o termo so-frimento se revelará demasiado vago para o leitor, e o de dor, aocontrário, parecerá preciso e rigoroso. Então, preferi privilegiar apalavra “dor” e conferir-lhe um estatuto de conceito psicanalítico.Última observação preliminar. A fim de melhor situar a nossaabordagem, desejo propor uma visão de conjunto da dor dividida emtrês grandes categorias. Antes de tudo, a dor é um afeto, o derradeiroafeto, a última muralha antes da loucura e da morte. Ela é como queum estremecimento final que comprova a vida e o nosso poder de nosrecuperarmos. Não se morre de dor. Enquanto há dor, também temosLiminar 19
  • 19. as forças disponíveis para combatê-la e continuar a viver. É essa noçãode dor-afeto que vamos estudar nos primeiros capítulos.Em seguida, segunda categoria: a dor considerada como sintoma,isto é, como a manifestação exterior e sensível de uma pulsão incons-ciente e recalcada. Vamos tomar o caso exemplar de uma dor no corpo,que revela a existência de um sofrimento inconsciente. Penso nessasenxaquecas histéricas, persistentes, flutuantes ao sabor de situaçõesafetivas e sem causa detectável. Pois bem, diremos que a enxaqueca éum sintoma, isto é, uma sensação dolorosa que traduz uma comoçãorecalcada no inconsciente. Incluo nesse conjunto todas as dores quali-ficadas pela medicina atual como dores “psicogênicas”. Se consul-tarmos uma das muitas publicações médicas recentes dedicadas à dor,encontraremos inevitavelmente uma contribuição, em geral muito cur-ta, sobre a dor psicogênica. O que significa esse qualificativo de“psicogênica”? Designa as diversas dores corporais sem causa orgânicadetectável e às quais se atribui, por falta de melhor explicação, umaorigem psíquica.A terceira e última categoria psicanalítica da dor remete à perversão.Com efeito, trata-se da dor como objeto e alvo do prazer sexual perversosadomasoquista. Desenvolveremos esse tema nas duas primeiras Liçõessobre a dor.*Concretamente, vamos proceder da seguinte maneira: Depois de abor-darmos a dor psíquica propriamente dita, apresentaremos uma concep-ção psicanalítica da dor corporal. Mas, antes, devemos identificar asdiferentes etapas da formação de qualquer dor.Quer se trate de uma dor corporal provocada por uma lesão dostecidos ou de uma dor psíquica provocada pela ruptura súbita do laçoíntimo com um ser amado, a dor se forma no espaço de um instante.Entretanto, veremos que a sua geração, embora instantânea, segue umprocesso complexo. Esse processo pode ser decomposto em três tem-pos: começa com uma ruptura, continua com a comoção psíquica quea ruptura desencadeia, e culmina com uma reação defensiva do eu paraproteger-se da comoção. Em cada uma dessas etapas, domina umaspecto particular da dor.Assim, aparecem sucessivamente: uma dor própria da ruptura, depoisuma dor inerente ao estado de comoção, e enfim uma dor suscitadapela defesa reflexa do eu em resposta ao transtorno. Evidentemente,20 O livro da dor e do amor
  • 20. essas três dores na realidade são apenas os diferentes aspectos de umasó e mesma dor, formada instantaneamente.Durante o nosso percurso, seja para aprofundar a dor corporal ou ador psíquica, respeitaremos esses três tempos: tempo da ruptura, tempoda comoção e tempo da reação defensiva do eu.*Aqui, quero desde já propor a premissa maior de nossa teoria da dor.Nossa premissa:a dor é um afeto que reflete na consciência as variaçõesextremas da tensão inconsciente, variações que escapamao princípio de prazer.Um sentimento vivido é, segundo pensamos, a manifestação conscientedo movimento ritmado das pulsões. Todos os nossos sentimentosexprimem na consciência as variações de intensidade das tensõesinconscientes. Postulo que a dor manifesta não oscilações regulares datensão, mas um enlouquecimento da cadência pulsional. Mas por quecaminhos as pulsões se tornam sentimentos vividos? O eu consegueperceber no fundo de si mesmo — no seio do Isso — e com umaextraordinária acuidade, as variações das pulsões internas, para reper-cuti-las na superfície da consciência sob forma de afetos.Assim, o eu é realmente um intérprete capaz de ler no interior alíngua das pulsões e traduzi-la no exterior em língua dos sentimentos.Como se ele possuísse um órgão detector orientado para o interior,servindo para captar as modulações pulsionais e transpô-las para a telada consciência, sob forma de emoções. Quando essas modulações sãomoderadas, elas se tornam conscientes como sentimentos de prazer ede desprazer; e quando elas são extremas, tornam-se dor.Habitualmente, o funcionamento psíquico é regido pelo princípiode prazer, que regula a intensidade das tensões pulsionais e as tornatoleráveis. Mas se ocorre uma ruptura brutal com o ser amado, astensões se desencadeiam e o princípio regulador de prazer se tornainoperante. Enquanto o eu, voltado para o interior, percebia as flutua-ções regulares das pressões pulsionais, podia sentir sensações de prazere desprazer; agora que ele percebe no seu interior o transtorno dastensões incontroláveis, é dor que ele sente. Embora desprazer e dorLiminar 21
  • 21. pertençam à mesma categoria dos sentimentos penosos, podemosdistingui-los nitidamente e afirmar: o desprazer não é a dor. Ao passoque o desprazer exprime a autopercepção pelo eu de uma tensão elevadamas passível de ser modulada, a dor exprime a autopercepção de umatensão incontrolável em um psiquismo transtornado. O desprazer é poisuma sensação que reflete na consciência um aumento da tensão pul-sional, aumento submetido às leis do princípio de prazer. Em contra-partida, a dor é o testemunho de um profundo desregramento da vidapsíquica que escapa ao princípio de prazer.Assim, ao longo das páginas que se seguirão, veremos a dor aparecercomo um afeto provocado não tanto pela perda do ser amado — pensona dor psíquica — mas pela autopercepção que o eu tem do tumultointerno desencadeado por essa perda. Propriamente falando, a dor nãoé dor de perder, mas dor do caos das pulsões enlouquecidas. Em suma,o sentimento doloroso reflete não as oscilações regulares das pulsões,mas uma loucura da cadência pulsional.22 O livro da dor e do amor
  • 22. A dor psíquica, dor de amarA DOR PSÍQUICA,DOR DE AMAR
  • 23. Ao contrário da dor corporal causada por um ferimen-to, a dor psíquica ocorre sem agressão aos tecidos. Omotivo que a desencadeia não se localiza na carne,mas no laço entre aquele que ama e seu objeto amado.Quando a causa se localiza nesse invólucro de proteçãodo eu que é o corpo, qualificamos a dor de corporal;quando a causa se situa mais-além do corpo, no espaçoimaterial de um poderoso laço de amor, a dor échamada psíquica. Assim, podemos desde já propor aprimeira definição de dor psíquica ou dor de amar,como o afeto que resulta da ruptura brutal do laçoque nos liga ao ser ou à coisa amados.*Essa ruptura,violenta e súbita, suscita imediatamente um sofrimen-to interior, vivido como um dilaceramento da alma,como um grito mudo que jorra das entranhas.De fato, a ruptura de um laço amoroso provoca umestado de choque semelhante àquele que é induzidopor uma violenta agressão física: a homeostase dosistema psíquico é rompida, e o princípio de prazerabolido. Sofrendo a comoção, o eu consegue, apesarde tudo — como na dor corporal — autoperceber oseu transtorno, isto é, consegue detectar no seu seio oenlouquecimento das suas tensões pulsionais desen-cadeadas pela ruptura. A percepção desse caos logose traduz na consciência pela viva sensação de umaA dor psíquica éuma lesão dolaço íntimo como outro, uma dis-sociação brutaldaquilo que é na-turalmente cha-mado a viverjunto.A dor está sem-pre ligada à subi-taneidade de umaruptura, à traves-sia súbita de umlimite, mais-alémdo qual o sistemapsíquico é subver-tido sem ser de-sestruturado.25* Dizemos “amado”, mas o objeto ao qual estamos ligadose cuja separação brusca gera dor é um objeto igualmente amado,odiado e angustiante.
  • 24. atroz dor interior. Vamos propor então uma segundadefinição da dor psíquica, considerada desta vez doponto de vista metapsicológico, e digamos que a doré o afeto que exprime na consciência a percepção peloeu — percepção orientada para o interior — do estadode choque, do estado de comoção pulsional (trauma)provocado pela ruptura, não da barreira periféricado eu, como no caso da dor corporal, mas pela rupturasúbita do laço que nos liga ao outro eleito. Aqui, ador é dor do trauma.Quanto mais se ama, mais se sofreMas o que é que rompe o laço amoroso, dói tanto emergulha o eu no desespero? Freud responde semhesitar: é a perda do ser amado ou do seu amor.Acrescentamos: a perda brutal e irremediável do ama-do. É o que advém quando a morte fere subitamenteum de nossos próximos, pai ou cônjuge, irmão ouirmã, filho ou amigo querido. A expressão “perda doser amado”, usada por Freud nos últimos anos da suavida, aparece essencialmente em dois textos maioresque são Inibição, sintoma e angústia e Mal-estar nacultura. Cito um trecho deste último: “O sofrimento— escreve ele — nos ameaça de três lados: no nossopróprio corpo, destinado à decadência e à dissolução[...]; do lado do mundo exterior, que dispõe de forçasinvencíveis e inexoráveis para perseguir-nos e aniqui-lar-nos.” A terceira ameaça, que nos interessa aqui,“provém das nossas relações com os seres humanos”.E Freud precisa: “o sofrimento oriundo dessa fonte étalvez mais duro para nós do que qualquer outro”. Eleexamina então, com muita circunspecção, um depoisdo outro, os diferentes meios de evitar os sofrimentoscorporais e as agressões exteriores. Mas quando abor-da o meio de proteger-se contra o sofrimento que nasceda relação com o outro, que remédio encontra? Umremédio aparentemente muito simples, o do amor aopróximo. De fato, para preservar-se da infelicidade,São os seguintesos diferentes es-tados simultâ-neos do eu atra-vessado pela dor: o eu que sofrea comoção; o eu queobserva a suacomoção; o eu que sentea dor, expressãoconsciente dacomoção; e o eu quereage à comoção.26 O livro da dor e do amor
  • 25. alguns preconizam uma concepção de vida que tomacomo centro o amor, e na qual se pensa que toda alegriavem de amar e ser amado. É verdade — confirmaFreud — que “uma atitude psíquica como essa é muitofamiliar a todos nós”. Certamente, nada mais naturaldo que amar para evitar o conflito com o outro. Vamosamar, sejamos amados e afastaremos o mal. Entretan-to, é o contrário que ocorre. O clínico Freud constata:“Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofri-mento como quando amamos, nunca estamos tão ir-remediavelmente infelizes como quando perdemos apessoa amada ou o seu amor.” Acho essas frasesnotáveis porque elas dizem claramente o paradoxoincontornável do amor: mesmo sendo uma condiçãoconstitutiva da natureza humana, o amor é sempre apremissa insuperável dos nossos sofrimentos. Quantomais se ama, mais se sofre.No outro texto, Inibição, sintoma e angústia, amesma fórmula, “perda do objeto amado”, é usadapor Freud para distinguir a dor psíquica e a angústia.Como diferencia ele cada um desses afetos? Propõe oseguinte paralelo: enquanto a dor é a reação à perdaefetiva da pessoa amada, a angústia é a reação àameaça de uma perda eventual. Retomando o nossodesenvolvimento, propomos refinar essas definiçõesfreudianas, e precisar: a dor é a reação à comoçãopulsional efetivamente provocada por uma perda, en-quanto a angústia é a reação à ameaça de uma eventualcomoção. Mas como explicar o que parece tão evi-dente, que a perda súbita do amado ou do seu amorseja tão dolorosa para nós? Quem é esse outro tãoamado, cujo desaparecimento inesperado provoca co-moção e dor? Com que trama é tecido o laço amoroso,para que a sua ruptura seja sentida como uma perda?O que é uma perda? O que é a dor de amar?Perder o ser que amamosVamos deixar as respostas para depois, e consideremosagora a maneira pela qual o eu reage à comoçãoO amado meprotege contra ador enquanto oseu ser palpitaem sincronia comos batimentos dosmeus sentidos.Mas basta queele desapareçabruscamente oume retire o seuamor, para queeu sofra comonunca.Como se o eu an-gustiado já tives-se tido a expe-riência de umaantiga dor, cujavolta ele teme. Aangústia é opressentimentode uma dor futu-ra, enquanto quea saudade é alembrança tristee complacentede uma alegria ede uma dor pas-sadas.A dor psíquica, dor de amar 27
  • 26. desencadeada pela perda do ser amado. Definimos ador psíquica como o afeto que traduz na consciênciaa autopercepção pelo eu da comoção que ele sofre.Nós a chamamos então de dor do trauma. Agora,completamos dizendo que ela é a dor produzida quan-do o eu se defende contra o trauma. Mais precisamen-te, a dor psíquica é o afeto que traduz na consciênciaa reação defensiva do eu quando, sendo comocionado,ele luta para se reencontrar. A dor é pois uma reação.Mas qual é essa reação? Diante do transtorno pul-sional introduzido pela perda do objeto amado, o euse ergue: apela para todas as suas forças vivas —mesmo com o risco de esgotar-se — e as concentraem um único ponto, o da representação psíquica doamado perdido. A partir de então, o eu fica inteira-mente ocupado em manter viva a imagem mental dodesaparecido. Como se ele se obstinasse em querercompensar a ausência real do outro perdido, magnifi-cando a sua imagem. O eu se confunde então quasetotalmente com essa imagem soberana, e só viveamando, e por vezes odiando a efígie de um outrodesaparecido. Efígie que atrai para si toda a energiado eu e lhe faz sofrer uma aspiração medular violenta,que o deixa exangue e incapaz de interessar-se pelomundo exterior. Descrevemos aqui a mesma crispaçãodefensiva do eu que nos permitirá explicar a últimaetapa da gênese da dor corporal (dor de reagir), quandotoda a energia psíquica “pensa” a representação doferimento (Fig. 2). Agora, a mesma energia aflui e secondensa na representação do ser amado e desapare-cido. A dor de perder um ser caro se deve pois aoafastamento que existe entre um eu exangue e a ima-gem demasiado viva do desaparecido.A reação do eu contra a comoção desencadeadapela perda se decompõe assim em dois movimentos:uma aspiração súbita da energia que o esvazia —movimento de desinvestimento — e a polarização detoda essa energia sobre uma única imagem psíquica— movimento de superinvestimento. A dor mentalresulta assim de um duplo processo defensivo: o euA imagem doobjeto perdido, asua “sombra”,cai sobre o eu eencobre umaparte dele.“... uma aspira-ção no psiquis-mo produz umefeito de sucçãosobre as quanti-dades de excita-ções vizinhas.[...] Esse proces-so de aspiraçãotem o efeito deum ferimento(hemorragia in-terna) análogoà dor.”FreudNa dor corporal,o superinvesti-mento incide narepresentaçãodo corpo lesado;na dor psíquica,ele incide na re-presentação doamado desapare-cido.28 O livro da dor e do amor
  • 27. desinveste subitamente a quase totalidade das suasrepresentações, para superinvestir pontualmente a úni-ca representação do amado que não existe mais. Oesvaziamento súbito do eu é um fenômeno tão dolo-roso quanto a contração em um ponto. Os dois movi-mentos de defesa contra o trauma geram dor. Mas sea dor do desinvestimento toma a forma clínica de umainibição paralisante, a do superinvestimento é uma dorpungente e que oprime. Vamos propor então uma novadefinição da dor psíquica, como o afeto que exprimeo esgotamento de um eu inteiramente ocupado emamar desesperadamente a imagem do amado perdido.O langor e o amor se fundem em dor pura.Observe-se aqui que a representação do ser desa-parecido é tão fortemente carregada de afeto, tãosuperestimada, que acaba não só devorando uma partedo eu, mas também tornando-se estranha ao resto doeu, isto é, inconciliável com as outras representaçõesque foram desinvestidas. Se pensarmos agora no lutoque se seguirá à morte do amado, veremos que oprocesso do luto segue um movimento inverso ao dareação defensiva do eu. Ao passo que essa reaçãoconsiste em um superinvestimento da dita repre-sentação, o trabalho de luto é um desinvestimentoprogressivo desta. Realizar um luto significa, de fato,desinvestir pouco a pouco a representação saturada doamado perdido, para torná-la de novo conciliável como conjunto da rede das representações egóicas. O lutonão é nada mais do que uma lentíssima redistribuiçãoda energia psíquica até então concentrada em umaúnica representação que era dominante e estranha aoeu.Compreende-se então que se esse trabalho de de-sinvestimento que deve seguir-se à morte do outro nãose cumprir, e se o eu ficar assim imobilizado em umarepresentação coagulada, o luto se eterniza em umestado crônico, que paralisa a vida da pessoa enlutadadurante vários anos, ou até durante toda a sua existên-cia. Penso em um analisando que, tendo perdido a mãequando ele era muito jovem e sofrendo de um lutoA dor ocorre acada vez queacontece um des-locamento maci-ço e súbito deenergia. Assim,o desinvestimen-to do eu dói, e odesinvestimentoda imagem tam-bém dói.O luto patológi-co consiste emuma onipresençapsíquica do ou-tro morto.A dor psíquica, dor de amar 29
  • 28. inacabado, me dizia: “Uma parte dela está desespera-damente viva em mim, e uma parte de mim está parasempre morta com ela.” Essas palavras, de uma cruellucidez, revelam um ser desdobrado e desenraizadopor uma dor antiga e sorrateira. Como não evocar aquios rostos contorcidos e os corpos estranhamente de-formados que habitam as telas desse pintor da dor queé Francis Bacon?*O que dói não é perder o ser amado, mascontinuar a amá-lo mais do que nunca, mesmosabendo-o irremediavelmente perdido.Temos pois um eu dissociado entre dois estados: porum lado, concentrado e contraído em um ponto, o daimagem do outro desaparecido, com a qual ele seidentifica quase totalmente; por outro lado empobre-cido e exangue. Lembremo-nos de Clémence, sugadapelas imagens obsessivas do seu bebê morto, e esva-ziada de toda a sua substância. Entretanto, existe umaoutra dissociação, ainda mais dolorosa, uma outrarazão para a dor de amar. O eu fica esquartejado entreo seu amor desmedido pela efígie do objeto perdidoe a constatação lúcida da ausência real desse objeto.O dilaceramento não se situa mais entre contração eesvaziamento, mas entre contração — isto é, amorexcessivo dedicado a uma imagem — e reconheci-mento agudo do caráter irremediável da perda. O euama o objeto que continua a viver no psiquismo, eleo ama como nunca o amara, e, no mesmo momento,sabe que esse objeto não voltará mais. O que dói, nãoé perder o ser amado, mas continuar a amá-lo mais doque nunca, mesmo sabendo-o irremediavelmente per-dido. Amor e saber se separam. O eu fica esquartejadoentre um amor que faz o ser desaparecido reviver, eo saber de uma ausência incontestável. Essa falha entrea presença viva do outro em mim e sua ausência realé uma clivagem tão insuportável que muitas vezesEntre a cegueirado amor e a cla-reza do saber, es-colho a opacida-de do amor queacalma a minhador.30 O livro da dor e do amor
  • 29. tendemos a reduzi-la, não moderando o amor, masnegando a ausência, rebelando-nos contra a realidadeda falta e recusando-nos a aceitar o desaparecimentodefinitivo do amado.Essa rebelião contra o destino, essa renegação daperda é algumas vezes tão tenaz que a pessoa enlutadaquase enlouquece. A recusa de admitir o caráter irre-mediável da perda ou, o que dá no mesmo, o caráterincontestável da ausência na realidade, avizinha-se daloucura, mas atenua a dor. Uma vez apaziguados essesmomentos de rebelião, a dor reaparece tão viva quantoantes. Diante da morte súbita de um ser querido,acontece freqüentemente que a pessoa enlutada seponha à procura dos sinais e dos lugares associadosao morto e, às vezes, a despeito de qualquer razão,imagine que pode fazê-lo reviver e reencontrá-lo.Penso em uma paciente que ouvia os passos do maridomorto subindo a escada. Ou na mãe que via com umaextrema acuidade o filho recentemente desaparecido,sentado à sua mesa de trabalho. Nessas alucinações,a pessoa enlutada vive com uma certeza inabalável avolta do morto e transforma a sua dor em convicçãodelirante. Compreende-se assim que a supremacia doamor sobre o saber leva a criar uma nova realidade,uma realidade alucinada, em que o amado desapare-cido volta sob a forma de uma fantasia.O fantasma do amado desaparecidoInspirando-nos no fenômeno do membro fantasma, bemconhecido dos neurologistas, chamamos essa aluci-nação da pessoa enlutada de “fenômeno do amadofantasma”. Mas por que o qualificativo de “fantasma”?Lembro que a alucinação do membro fantasma é umdistúrbio que afeta uma pessoa amputada de um braçoou perna. Ela sente de modo tão vivo sensações vindasdo seu membro desaparecido, que este lhe pareceexistir ainda. Do mesmo modo, a pessoa enlutada podeperceber, com todos os seus sentidos e uma absolutaA dor psíquica, dor de amar 31
  • 30. convicção, a presença viva do morto. Para compreen-der essa impressionante semelhança de reações aluci-natórias diante de duas perdas de natureza tão diferente— a de um braço e a de um ser amado — propomosa hipótese seguinte. Vamos precisar logo que o eufunciona como um espelho psíquico composto de umamiríade de imagens, cada uma delas refletindo esta ouaquela parte do nosso corpo ou este ou aquele aspectodos seres ou das coisas aos quais estamos afetivamenteligados. Quando perdemos um braço, por exemplo, ouum ser querido, a imagem psíquica (ou representação)desse objeto perdido é, por compensação, fortementesuperinvestida. Ora, vimos que esse superinvestimentoafetivo da imagem gera dor. Mas o grau superior dessesuperinvestimento provocará outra coisa além da dor;acarretará a alucinação da coisa perdida, cuja imagemé o reflexo. De fato, a alucinação das sensações fan-tasmas provenientes do braço amputado, ou a aluci-nação da presença fantasma de um marido desapare-cido se explicariam, ambas, por um superinvestimentotão desproporcional da imagem desse objetos perdidos,que esta acaba sendo ejetada para fora do eu. E é ali,fora do eu, no real, que a representação reaparecerá soba forma de um fantasma. Diremos então que a repre-sentação foi foracluída, isto é, sobrecarregada, expulsae alucinada. O fenômeno do membro fantasma ou doamado fantasma não se explica mais por uma simplesnegação da perda do objeto amado — braço amputadoou ser desaparecido — mas pela foraclusão da repre-sentação mental do dito objeto (Fig. 1).Mas a impressionante afinidade entre essas duasalucinações fantasmáticas mostra ainda quanto a pes-soa amada é, na verdade, um órgão interno do eu tãoessencial quanto podem ser uma perna ou um braço.Só posso alucinar essa coisa essencial, cuja privaçãotranstorna o funcionamento normal do meu psiquismo.*Justamente, chegou a hora de retomarmos nossas in-terrogações sobre as particularidades do outro amado,A pessoa amadaé para o eu tãoessencial quantouma perna ouum braço. Seudesaparecimentoé tão revoltanteque o eu ressus-cita o amadosob a forma deum fantasma.32 O livro da dor e do amor
  • 31. Figura 1Explicação do fenômeno do “membro fantasma”e do “amado fantasma”.A imagem psíquica de um braço amputado foi tão superinvestida que acabasendo projetada para fora do eu e percebida pelo sujeito como um braçoalucinado. A sua expulsão deixa no psiquismo um buraco aspirante por ondese escoa a energia do eu até o esvaziamento. Pensamos que esse mecanismode expulsão da imagem do objeto perdido e o seu reaparecimento no realexplica a alucinação do membro fantasma. Esse mecanismo, que não é outrosenão a foraclusão, explicaria também o distúrbio de algumas pessoasenlutadas, que alucinam o morto e o vêem como se ele estivesse vivo.Chamamos esse fenômeno de amado fantasma. Em ambos os casos, oobjeto perdido — o braço amputado ou o morto — continua a viver narealidade para o eu.membrofantasmaamadofantasmaburacoaspiranteesvaziamentodo eu A imagem doamado expulsado eu volta sob aforma de umaalucinaçãoA dor psíquica, dor de amar 33
  • 32. cujo luto devemos realizar. De fato, entre todos os queamamos, quais são os raros seres que consideramosinsubstituíveis, e cuja perda súbita provocaria dor?Quem é esse outro eleito que faz com que eu seja oque sou, e sem o qual eu não seria mais o mesmo?Que lugar ele ocupa no seio do meu psiquismo, paraque ele seja tão essencial para mim? Como nomearesse laço que me liga a ele? Com todas essas perguntas,desejaríamos finalmente demarcar o laço misterioso,o do amor, que nos une ao outro eleito. As respostasa essas interrogações vão nos conduzir a uma novadefinição da dor.O amado cujo luto devo realizaré aquele que me satisfaz parcialmente,torna tolerável minha insatisfação erecentra meu desejoPara saber quem é esse outro eleito, o seu papelessencial no seio do inconsciente e a dor que o seudesaparecimento provoca, devemos voltar por um ins-tante ao funcionamento ordinário do sistema psíquico.Desta vez, vamos abordá-lo de um ângulo particular.Sabemos que esse sistema é regido pelo princípio dedesprazer/prazer, que apresenta a premissa segundo aqual o psiquismo está constantemente submetido auma tensão que ele procura descarregar, sem nuncaconseguir completamente. Enquanto que o estado per-manente de tensão se chama “desprazer”, a descargaincompleta e parcial de tensão se chama “prazer”,prazer parcial. Pois bem, no seu funcionamento nor-mal, o psiquismo permanece basicamente submetidoao desprazer, isto é, a uma tensão desprazerosa, já quenunca há descarga completa. Vamos mudar agora anossa formulação, e ao invés de empregar as palavras“tensão” e “desprazer”, vamos utilizar a palavra “de-sejo”. Pois o que é o desejo, senão essa mesma tensãodesprazerosa vista em movimento, orientada para umalvo ideal, o de chegar ao prazer absoluto, isto é, à34 O livro da dor e do amor
  • 33. descarga total? Assim, diremos que a situação ordiná-ria do sistema inconsciente se define pelo estadotolerável de insatisfação de um desejo2 que nuncachega a realizar-se totalmente. Entretanto, enunciarque a tensão psíquica continua sempre viva, e atépenosa, que o desprazer domina ou que nossos desejosficam insatisfeitos, não exprime, de modo algum, umavisão pessimista do homem. Pelo contrário, esse enun-ciado equivale a declarar que ao longo da nossa exis-tência, estaremos, felizmente, em estado de carência.Digo felizmente, porque essa carência, vazio semprefuturo que atiça o desejo, é sinônimo de vida.Se quiséssemos representar espacialmente essa par-te de insatisfação que aspira o desejo, não a imagina-ríamos como o trecho de uma estrada reta que aindanos resta percorrer para chegar enfim ao alvo míticode um gozo pleno. Não, a insatisfação não é a partenão percorrida do trajeto do desejo até a satisfaçãoabsoluta. É de outra forma que lhes peço que a repre-sentem. Proponho que a imaginemos, antes, sob aforma de um buraco. Um buraco situado no centro donosso ser, e em torno do qual gravitariam os nossosdesejos. O vazio futuro não está diante de nós, masem nós. O trajeto do desejo não descreve pois umalinha reta orientada para o horizonte, mas uma espiralgirando em torno de um vazio central, que atrai eanima o movimento circular do desejo. Conseqüente-mente, declarar que nossos desejos são insatisfeitossignifica, espacialmente falando, que eles seguem omovimento centrípeto de um fluxo que circunscreveuma carência irredutível.Vê-se bem que a carência não é apenas um vazioque aspira o desejo; ela é também um pólo organizadordo desejo. Sem carência, quero dizer sem esse núcleoatraente que é a insatisfação, o impulso circular dodesejo se perturbaria e então só haveria dor. Vamosnos expressar de outra maneira. Se a insatisfação éviva mas suportável, o desejo continua ativo e osistema psíquico continua estável. Se, ao contrário, asatisfação é demasiado transbordante ou se a insatis-A dor psíquica, dor de amar 35
  • 34. fação é desmedida, o desejo perde o seu eixo e a doraparece. Reencontramos aqui a hipótese que habita onosso texto, isto é, que a dor exprime a turbulênciadas pulsões no domínio do Isso.Assim, um certo grau de insatisfação é vital paraconservarmos a nossa consistência psíquica. Mascomo preservar essa carência essencial? E ainda, sendoessa carência necessária, como mantê-la nos limitesdo suportável? É justamente aí que intervém o nossoparceiro, o ser do nosso amor, porque é ele que faz opapel de objeto insatisfatório do meu desejo, e porisso mesmo, de pólo organizador desse desejo. Comose o buraco de insatisfação no interior estivesse ocu-pado pelo outro eleito no exterior; como se a carênciafosse finalmente um lugar vacante, sucessivamenteocupado pelos raros seres ou coisas exteriores queconsideramos insubstituíveis e cujo luto deveríamosrealizar caso desaparecessem.Entretanto, como aceitar que o meu parceiro possater essa função castradora de limitar a minha satisfa-ção? Sem dúvida, esse papel restritivo do ser amadopode ser desconcertante, porque habitualmente atri-buímos ao nosso parceiro o poder de satisfazer osnossos desejos e nos dar prazer. Vivemos na ilusão,em parte verificada, de que ele nos dá mais do quenos priva. Mas a sua função no seio do nosso incons-ciente é completamente diferente: ele nos assegura aconsistência psíquica pela insatisfação que ele faznascer e não pela satisfação que ele proporciona.Nosso parceiro, o ser do nosso amor, nos insatisfazporque, ao mesmo tempo em que excita o nosso desejo,ele não pode — a rigor, será que ele teria os meios defazê-lo? — e não quer nos satisfazer plenamente.Sendo humano, ele não pode e sendo neurótico elenão quer. Isto significa que ele é ao mesmo tempo oexcitante do meu desejo e o objeto que só o satisfazparcialmente. Ele sabe me excitar, me proporcionarum gozo parcial e, por isso mesmo, me deixar insa-tisfeito. Assim, ele garante essa insatisfação que meé necessária para viver e recentra meu desejo.Nosso eleito nosé indispensávelporque ele nosassegura aindispensávelinsatisfação.36 O livro da dor e do amor
  • 35. Mas, além do parceiro amoroso, há outros objetoseleitos que poderiam assegurar essa função de recen-tramento do meu desejo? Sim, como por exemplo esseobjeto que é o amor em si, o próprio amor que o meuparceiro me dedica; ou ainda o amor que eu dedico àminha própria imagem, alimentada pelo reconheci-mento do outro, como a honra ou uma posição social.O objeto do desejo pode ser também a minha integri-dade corporal, que eu devo preservar acima de tudo.Acontece até que o objeto seja uma coisa material tãopessoal como o nosso corpo, como a terra natal ou acasa ancestral. Todos são objetos eleitos e ao mesmotempo tão internos, tão íntimos, tão intrinsecamenteordenadores do movimento do nosso desejo, que vi-vemos sem perceber a solidez do seu enraizamento noinconsciente. É unicamente quando somos ameaçadosde perdê-los, ou depois de tê-los perdido, que a suaausência revela dolorosamente a profundidade desseenraizamento. É apenas no só-depois, muito maistarde, que saberemos se o ser, a coisa ou o valordesaparecidos eram ou não eleitos para nós.De fato, quando paira a ameaça de perder um dessesobjetos considerados insubstituíveis, é a angústia quesurge; e ela surge no eu. Se, em contrapartida, umdesses objetos desaparece subitamente, sem ameaçaprévia, é a dor que se impõe: e ela emana do Isso.Sofrerei a dor no Isso, se perder brutalmente a pessoaamada (luto), o seu amor (abandono), o amor quededico à imagem de mim mesmo (humilhação), ouainda a integridade do meu corpo (mutilação). O luto,o abandono, a humilhação e a mutilação são as quatrocircunstâncias que, se forem súbitas, desencadearão ador psíquica ou dor de amar.Mas vamos ficar com o caso exemplar em que oobjeto do desejo é a pessoa amada, cuja perda suscitaa dor do luto. Justamente, o que perdemos quandoperdemos o ser que amamos? Ou mais simplesmente:quem é o outro amado?A angústia éuma formaçãodo eu, ao passoque a dor é umaformação doIsso.A dor psíquica, dor de amar 37
  • 36. O amor é a presença em fantasiado amadono meu inconscienteSe insistem para que eu digapor que eu o amava, sinto queisso só pode exprimir-serespondendo: “Porque era ele;porque era eu.”MontaigneEssas linhas de Montaigne são de um belíssimo textosobre a amizade, escrito pouco depois da morte do seuamigo mais caro, La Boétie. Dentre as muitas amizadesque alimentaram a sua alma, ele distingue aquela,única, que o ligava indissoluvelmente ao seu compa-nheiro. Amizade tão poderosa que todas as costurasdas suas diferenças se apagaram em uma misturauniversal. Depois, tentando responder ao motivo deum tal amor excepcional pelo amigo eleito e recente-mente desaparecido, Montaigne escreveu essa frasecintilante de beleza e de discrição: “Por que eu oamava? Porque era ele; porque era eu.” Assim, o amorpermanece sendo um mistério impenetrável, que nãose deve explicar, mas apenas constatar.Outro escritor adota uma reserva semelhante diantedo enigma do apego ao eleito. Em Luto e melancolia,Freud fala do amor falando da morte. Observa que apessoa enlutada ignora o valor intrínseco do amadodesaparecido: “a pessoa enlutada sabe quem perdeu,mas não sabe o que perdeu ao perder o seu amado”.Graças ao simples “que”, impessoal, Freud sublinhacomo o ser que mais amamos é primeiramente umainstância psíquica e quanto essa instância é diferenteda pessoa concreta. Sem dúvida, o amado é umapessoa, mas é primeiramente e sobretudo essa parteignorada e inconsciente de nós mesmos, que desabaráse a pessoa desaparecer. Mais recentemente, Lacan,também diante do mistério do laço amoroso, inventao seu “objeto a”. Pois é precisamente com a expressão38 O livro da dor e do amor
  • 37. “objeto a” que ele simboliza o mistério, sem com issoresolvê-lo. O a, afinal, é apenas um nome para designaro que ignoramos, ou seja, essa presença inapreensíveldo outro amado em nós, essa coisa que perdemosquando a pessoa do eleito desaparece definitivamenteda realidade exterior.Essa é justamente a questão decisiva, tão insolúvelquanto inevitável. Em que consiste o “o” que se perdequando perdemos o eleito? O que une dois seres paraque um deles sofra tão profundamente com o fimsúbito do outro? Assim, no momento o nosso problemanão é mais o da dor, mas o do amor. É realmente oamor que nos interessa agora, porque é demarcandoo melhor possível a sua natureza que chegaremos auma nova definição psicanalítica da dor.Quem é pois aquele que eu amo e considero únicoe insubstituível? É um ser misto, composto ao mesmotempo por essa pessoa viva e definida que se encontradiante de mim e pelo seu duplo interno em mim.Para compreender bem como tal ser se torna meueleito, vamos decompor em duas etapas o processo doamor pelo qual transformamos um outro exterior emum duplo interno. Vamos imaginar uma pessoa que nos seduz, istoé, que desperta e capta a força do nosso desejo. Progressivamente, respondemos e nos apegamosa essa pessoa até incorporá-la e fazer dela uma partede nós mesmos. Insensivelmente, nós a recobrimoscomo a hera recobre a pedra. Nós a envolvemos comuma multidão de imagens superpostas, cada uma delascarregada de amor, de ódio ou de angústia, e a fixamosinconscientemente através de uma multidão de repre-sentações simbólicas, cada uma delas ligada a umaspecto seu que nos marcou.3 Toda essa hera germi-nada no meu psiquismo, alimentada pela seiva brutada pressão do desejo, todo esse conjunto de imagense de significantes que liga o meu ser à pessoa viva doamado até transformá-la em duplo interno, nós ochamamos de “fantasia”, fantasia do eleito. Sei que,usualmente, a palavra “fantasia” é equívoca, poisA dor psíquica, dor de amar 39
  • 38. remete à idéia vaga de devaneio ou de roteiro cons-cientemente imajado. Entretanto, o conceito psicana-lítico de fantasia que elaboramos aqui, para melhorcompreender a dor, é extremamente preciso. A fantasiaé o nome que damos à sutura inconsciente do sujeitocom a pessoa viva do eleito. Essa sutura operada nomeu inconsciente é uma liga de imagens e de signifi-cantes vivificada pela força real do desejo que o amadosuscita em mim, e que eu suscito nele, e que nos une.Mas essa fantasia do amado, mesmo sendo levadapela pressão impulsiva do desejo, tem por função freare domar esse impulso. Contendo essa força e evitandoque ela se embale, ele impede o desejo de chegar àsatisfação absoluta. Assim, a fantasia instala a insa-tisfação e assegura a homeostase do sistema incons-ciente. Compreende-se melhor agora que a funçãoprotetora da pessoa do amado é, na verdade, a funçãoprotetora da fantasia do amado. A fantasia é protetoraporque nos preserva do perigo que significaria umaturbulência desmesurada do desejo ou o seu equiva-lente, o caos pulsional.Em resumo, a pessoa amada deixou de ser apenasuma instância exterior, para viver também no interiorde nós, como um objeto fantasiado que recentra nossodesejo, tornando-o insatisfeito no limite do tolerável.O ser que mais amamos continua sendo inevitavel-mente o ser que mais nos insatisfaz. A insatisfação dodesejo se traduz na realidade cotidiana do casal pelodescontentamento com o amado, com um amado queconsideramos não só como o Outro do amor, mastambém como o Outro das nossas queixas, acusaçõese recriminações.Assim, o eleito existe duplamente: por um lado,fora de nós, sob a espécie de um indivíduo vivo nomundo, e por outro lado em nós, sob a espécie de umapresença fantasiada — imaginária, simbólica e real —que regula o fluxo imperioso do desejo e estrutura aordem inconsciente. Das duas presenças, a viva e afantasiada, é a segunda que domina, pois todos osnossos comportamentos, a maioria dos nossos julga-A fantasia é apresença real,simbólica e ima-ginária do ama-do no inconscien-te. Sua função éregular a intensi-dade da força dodesejo.40 O livro da dor e do amor
  • 39. mentos e o conjunto dos sentimentos que experimen-tamos em relação ao amado são rigorosamente deter-minados pela fantasia. Só captamos a realidade doeleito através da lente deformante da fantasia.4 Só oolhamos, escutamos, sentimos ou tocamos envolvidono véu tecido pelas imagens nascidas da fusão com-plexa entre a sua imagem e a imagem de nós mesmos.Véu tecido também pelas representações simbólicasinconscientes, que delimitam estritamente o quadrodo nosso laço de amor.A pessoa do amadoVamos refinar imediatamente os três modos de pre-sença real, simbólica e imaginária do eleito fantasiadono nosso inconsciente. Mas antes, vamos distinguirclaramente o sentido da expressão “pessoa do amado”,que empregamos para designar a existência exteriordo eleito. Se é verdade que a existência fantasiada dooutro é mais importante do que a sua existência exte-rior, não é menos verdadeiro que a primeira se alimentada segunda, e que a minha fantasia inconsciente sópode desabrochar se o outro estiver vivo. A pessoaviva do eleito me é indispensável como uma basedotada de vida própria, sobre a qual repousa e desa-brocha o objeto fantasiado. Sem essa base, substratode vida, nossa fantasia desabaria e o sistema incons-ciente perderia o seu centro de gravidade. Ocorreriaentão uma imensa desordem pulsional, acarretandoinfelicidade e dor.Mas por que é preciso que a pessoa do eleito estejaviva para que haja fantasia? Por duas razões. Primeiro,porque ela é um corpo ativo e desejante, do qualprovêm as excitações que estimulam o meu própriodesejo, que por sua vez carrega a fantasia. Excitaçõesque são os impactos em mim das irradiações do seudesejo. E depois, porque a dita pessoa é um corpo emmovimento, cujo aspecto singular será projetado noseio do meu psiquismo como uma imagem inte-A pessoa doamado é ao mes-mo tempo o su-porte animadodas minhas ima-gens e um corpocrivado de focosde irradiação doseu desejo, quesão outros tan-tos focos de exci-tação para omeu desejo.A dor psíquica, dor de amar 41
  • 40. riorizada que me remete às minhas próprias imagens.Assim, a pessoa do eleito me é absolutamente neces-sária, porque ela é uma constelação irradiante de fontesde excitação que sustenta o meu desejo e, mais-além,a fantasia, e também porque ela é a silhueta viva apartir da qual se imprime no meu inconsciente asilhueta do outro eleito.Mas se o corpo do eleito é para a minha fantasiaum arquipélago de focos de excitação do meu desejoe o suporte vivo das minhas imagens, o que sou eu,eu e meu corpo, para a fantasia dele? Justamente, ametáfora da hera é muito evocadora, pois a hera é umaplanta vivaz que não só rasteja e sobe, mas enganchaas suas hastes em lugares bem específicos da pedra,nas rachaduras e nas fendas. Do mesmo modo, o meuapego ao outro eleito, que se tornou meu objeto fan-tasiado, é uma sutura que não pega em qualquer lugar,mas muito exatamente nos orifícios erógenos do corpo,ali onde ele próprio irradia o seu desejo e me excita,sem com isso conseguir satisfazer-me. E, reciproca-mente, é no meu corpo, nos pontos de emissão do meupróprio desejo, que a fantasia dele se fixará. Admiti-remos assim que a minha própria fantasia atará umlaço ainda mais potente se, por minha vez, eu for apessoa viva sobre a qual se construiu a sua fantasia,se eu me tornei o regulador da sua insatisfação. Emoutros termos, minha fantasia será um laço tanto maisapertado quanto mais eu for para o outro aquilo queele é para mim: o eleito fantasiado.Por conseguinte, é preciso saber que quando ama-mos, amamos sempre um ser híbrido, constituído aomesmo tempo pela pessoa exterior com que convive-mos no exterior, e pela sua presença fantasiada einconsciente em nós. E reciprocamente, somos paraele o mesmo ser misto feito de carne e de inconsciente.É por isso que lhes falo da fantasia. É para compreen-der melhor que não sofrerei outra dor senão a dor dodesaparecimento daquele que foi para mim o que eufui para ele: o eleito fantasiado.42 O livro da dor e do amor
  • 41. Agora, devemos separar bem os três modos depresença fantasiada do eleito, para definir o melhorpossível o “que” desconhecido que perdemos quandoa sua pessoa desaparece.A presença realdo amado no meu inconsciente: uma forçaO estatuto fantasiado do amado assume pois trêsformas diferentes, que correspondem às três dimensõ-es lacanianas do real, do simbólico e do imaginário.Das três, é a presença real do outro no inconscienteque provoca mais dificuldades conceituais, porqueesse qualificativo de “real” pode fazer crer que ele serefere simplesmente à realidade da pessoa do eleito.Ora, “real” não significa uma pessoa, mas aquilo que,dessa pessoa, desperta no meu inconsciente uma forçaque faz com que eu seja o que eu sou e sem a qual eunão mais seria consistente. O real é simplesmente avida no outro, a força de vida que anima e atravessao seu corpo. É muito difícil distinguir nitidamente essaforça que emana do corpo e do inconsciente do eleitoenquanto ele está vivo e me excita, dessa outra forçaem mim que arma meu inconsciente. Muito difícil, namedida em que essas forças, na verdade, são umamesma e única coluna energética, um eixo vital eimpessoal que não pertence nem a um nem ao outroparceiro. Difícil também porque essa força única nãotem nenhum símbolo nem representação que possasignificá-la. É o sentido do conceito lacaniano de“real”. O real é irrepresentável, a energia que garanteao mesmo tempo a consistência psíquica de cada umdos parceiros e do seu laço comum de amor. Em suma,se quisermos condensar em uma palavra o que é ooutro real, diríamos que ele é essa força imperiosa edesconhecida que dá corpo ao nosso laço e ao nossoinconsciente. O outro real não é pois a pessoa exteriordo outro, mas a parte de energia pura, impessoal, queanima a sua pessoa. Parte que é também, porqueA presença realdo eleito é umaforça, e a suapresença simbó-lica é o ritmodessa força.A dor psíquica, dor de amar 43
  • 42. estamos ligados, a minha própria parte impessoal,nosso real comum. Entretanto, para que o outro realexista, para que ele tenha essa força real que nãopertence nem a um nem ao outro, é preciso que oscorpos de um e do outro estejam vivos e frementes dedesejo.A presença simbólica do amadono meu inconsciente: um ritmoMas se o estatuto real do eleito é ser uma força estranhaque liga como uma ponte de energia os dois parceirose arma o nosso inconsciente, o estatuto simbólico doeleito é ser o ritmo dessa força. Certamente, não sedeve imaginar a tensão do desejo como um impulsocego e maciço, mas como um movimento centrípetoe ritmado por uma sucessão mais ou menos regularde subidas e quedas de tensão. Nosso desejo não é umreal puro, mas uma força regulada por um ritmopreciso e definido, que a torna singular. Ora, o que éo ritmo, senão uma estrutura simbólica organizadacomo uma seqüência de tempos fortes e tempos fracos,repetidos a intervalos regulares? O ritmo é, efetiva-mente, a mais primitiva expressão simbólica do desejo,e até da vida, pois no começo a vida é apenas energiapalpitante. A força de impulsão desejante é real porqueé em si irrepresentável, mas as variações rítmicas dessaforça são simbólicas, porque são, ao contrário, repre-sentáveis. Representáveis como uma alternância deintensidades fortes e de intensidades fracas, segundoum traçado de picos e de vazios.Ora, formulamos a hipótese de que a presençasimbólica do outro no nosso inconsciente é um ritmo,um acorde harmonioso entre o seu poder excitante ea minha resposta, entre o seu papel de objeto e ainsatisfação que eu sinto. Se considero o eleito insubs-tituível, é porque meu desejo se modelou progressi-vamente pelas sinuosidades do fluxo vibrante do seupróprio desejo. Ele é considerado insubstituível por-44 O livro da dor e do amor
  • 43. que ninguém mais poderia acompanhar tão finamenteo ritmo do meu desejo. Como se o eleito fosse antesde tudo um corpo, que pouco a pouco se aproxima, seposiciona e se ajusta aos batimentos do meu ritmo.Como se as pulsações da sua sensibilidade dançassemna mesma cadência que as minhas próprias pulsações,e os nossos corpos se excitassem mutuamente. Assima cadência do seu desejo se harmoniza com a minhaprópria cadência, e cada uma das variações da suatensão responde em eco a cada uma das minhas.Algumas vezes, o encontro é suave e progressivo;outras, violento e imediato. Entretanto, se é verdadeque as trocas erógenas podem ser harmoniosas, assatisfações resultantes continuam sendo para cada umdos parceiros satisfações sempre singulares, parciaise discordantes. Nossas trocas se afinam, mas nossassatisfações desafinam. Elas desafinam, porque sãoobtidas por ocasião de momentos diferentes e emintensidades desiguais. Há uma afinação na excitaçãoe desarmonias na satisfação.Vê-se bem que o meu outro eleito não é apenas apessoa que tenho diante de mim, nem uma força, umexcitante, nem mesmo um objeto de insatisfação; eleé tudo isso ao mesmo tempo, condensado no ritmo devida do nosso laço de amor. Ora, quando ele não estámais aqui, quando a irradiação do seu ser vivo edesejante não está mais aqui, e o meu desejo se vêprivado das excitações que ele sabia tão bem despertar,perco certamente uma infinidade de riquezas, mas per-co principalmente a estrutura do meu desejo, isto é, asua escansão e o seu ritmo.Assim, a presença simbólica do amado no seio domeu inconsciente se traduz pela cadência pela qualdeve regular-se o ritmo do meu desejo. Em resumo,o outro simbólico é um ritmo, ou ainda um compasso,ou melhor, o metrônomo psíquico que fixa o tempoda minha cadência desejante.Essa maneira que temos de conceber o estatutosimbólico do eleito é uma reinterpretação do conceitofreudiano de recalcamento, considerado como a bar-Se a pessoa doamado não estámais aqui, entãofalta a excitaçãoque escandia oritmo do meudesejo.A presençasimbólica doeleito é um ritmo,mais exatamenteo compasso peloqual se regula oritmo do meudesejo.A dor psíquica, dor de amar 45
  • 44. reira que contém o transbordamento das tendênciasdesejantes. É também uma reinterpretação do conceitolacaniano do significante do Nome-do-Pai, considera-do como o limite que enquadra e dá consistência aosistema simbólico. Seja o recalcamento freudiano ouo significante lacaniano do Nome-do-Pai, trata-se deum elemento canalizador das forças do desejo e orde-nador de um sistema. Ora, justamente, o ser eleito,definido como um metrônomo psíquico, cumpre essafunção simbólica de obrigar o desejo a seguir o ritmodo nosso laço. Assim, diremos que o eleito, dono docompasso imposto ao meu desejo, me impede de meperturbar ao restringir o meu gozo. Ele me protege eme torna insatisfeito. O eleito simbólico é, definitiva-mente, uma figura do recalcamento e a figura maisexemplar do significante do Nome-do-Pai.A presença imaginária do amadono meu inconsciente: um espelho interiorA pessoa do amado como corpo vivo não é apenasfonte de excitação do meu desejo; ela é também —como dissemos — a silhueta animada que será proje-tada no meu psiquismo sob a forma de uma imageminterna. O corpo do outro se duplica assim por umaimagem interiorizada. É precisamente essa imageminterna do amado em mim que nós identificamos comoa sua presença imaginária no inconsciente.O outro imaginário é pois simplesmente uma ima-gem, mas uma imagem que tem a particularidade deser ela própria uma superfície polida, sobre a qual serefletem permanentemente as minhas próprias ima-gens. Capto as imagens de mim mesmo, refletidasnesse espelho que é a imagem interiorizada do eleito.Assim, esta última tem o poder de ser simultaneamenteimagem do outro e espelho das minhas.A imagem do meu amado, a que tenho no incons-ciente, só brilhará com todo o seu resplendor, sóenviará as minhas imagens e só despertará afetos seA presença ima-ginária do eleitono nosso incons-ciente se resumeem ser o espelhointerior que nosremete as nossaspróprias imagens.46 O livro da dor e do amor
  • 45. estiver apoiada pelo corpo vivo do amado. É precisoque meu amado esteja vivo, a fim de que o espelhoque o duplica no inconsciente possa refletir imagensbastante vivas para produzir sentimentos. Justamente,as imagens adquirem essa vivacidade graças à impul-são ativa e ritmada do desejo diretamente ligada à vidado corpo do amado. É a força do desejo que carregaas imagens de energia, as faz ondular como reflexosna superfície da água e as torna capazes de criarsentimentos.Mas quais são as principais imagens de mim mesmoque esse espelho interior me devolve? São imagensque, logo que percebidas, fazem nascer um afeto. Àsvezes, percebemos uma imagem exaltante de nós mes-mos, que reforça o nosso amor narcísico; outras vezes,uma imagem decepcionante que alimenta o ódio pornós mesmos; e freqüentemente uma imagem de sub-missão e de dependência em relação ao amado queprovoca a nossa angústia.Duas observações ainda, para concluir sobre o es-tatuto imaginário do outro amado. O espelho psíquicoque a imagem do eleito é no meu inconsciente nãodeve ser pensado como a superfície lisa do gelo, mascomo um espelho fragmentado em pequenos pedaçosmóveis de vidro, sobre os quais se refletem, confun-didas, imagens do outro e imagens de mim. Essaalegoria caleidoscópica tem a vantagem de nos mostrarque a imagem inconsciente que temos do eleito é umespelho fragmentado e que as imagens que nele serefletem são sempre parciais e móveis. Mas essa me-táfora tem o defeito de sugerir que a presença imagi-nária do outro seria inteiramente visual, enquantosabemos quanto uma imagem pode ser também olfa-tiva, auditiva, tátil ou cinestésica.A segunda observação refere-se ao enquadramentoda imagem inconsciente do amado, isto é, a maneirapela qual imaginamos o amado, não mais segundonossos afetos, mas segundo nossos valores. Penso nosdiversos ideais que, às vezes sem saber, atribuímos àpessoa do eleito. Ancoramos e desenvolvemos o nossoO eu se ama, seodeia ou se an-gustia quandopercebe a suaprópria imagemenviada pelo es-pelho interior.Logo que o eucapta a sua ima-gem, experimen-ta instantanea-mente um senti-mento de amor,de ódio ou deangústia.Amar é tambémidealizar o eleito.A dor psíquica, dor de amar 47
  • 46. apego conservando no horizonte esses ideais implíci-tos. Ideais muitas vezes exagerados, até infantis, cons-tantemente reajustados pelas limitações inerentes àsnecessidades (corpo), à demanda (neurose) e ao desejodo outro. Ora, quais são esses ideais situados naencruzilhada do simbólico e do imaginário? Eis osprincipais: Meu eleito deve ser único e insubstituível; Deve permanecer invariável, isto é, não mudarnunca, a menos que nós próprios o mudemos; Deve sobreviver, inalterável, à paixão do nossoamor devorador ou do nosso ódio destruidor; Deve depender do nosso amor, deixar-se possuire mostrar-se sempre disponível para satisfazer os nos-sos caprichos; Mas, mesmo submisso, deve saber conservar asua autonomia, para não nos estorvar...Esses ideais, comparáveis aos que guiam a relaçãoda criança pequena com o seu objeto transicional,caracterizam a neurose do amante e nos dão a medidados seus limites. Expectativas tão exageradas só po-dem acentuar o afastamento entre a satisfação sonhadado desejo e a sua insatisfação efetiva.*Tivemos que fazer esse longo desvio para responderà nossa pergunta sobre a presença do amado no in-consciente, e compreender assim o que perdemosverdadeiramente quando a sua pessoa desaparece. Oeleito é, antes de tudo, uma fantasia que nos habita,regula a intensidade do nosso desejo (insatisfação) enos estrutura. Ele não é apenas uma pessoa, mas umafantasia construída com a sua imagem, espelho dasnossas imagens (imaginário), atravessado pela forçado desejo (real), enquadrado pelo ritmo dessa força(simbólico), e apoiado pelo seu corpo vivo (real,também), fonte de excitação do nosso desejo e objetodas nossas projeções imaginárias.48 O livro da dor e do amor
  • 47. Entretanto, é preciso compreender bem que essafantasia não é somente a representação daquilo que oamado é em nós; ela é também aquilo que nos ocultainextricavelmente para a sua pessoa viva. Ela não éapenas uma formação intra-subjetiva, mas intersubje-tiva. Vamos dizer de outra maneira: o amado é umaparte de nós mesmos, que chamamos de “fantasiainconsciente”; mas essa parte não está confinada nointerior da nossa individualidade, ela se estende noespaço intermediário e nos liga intimamente ao seuser. Reciprocamente, o amado é ele próprio habitadopor uma fantasia que nos representa no seu incons-ciente e o liga ao nosso ser. Vemos como a fantasiaé uma formação psíquica única e comum aos doisparceiros, e como, até aqui, era inadequado porémnecessário falar da fantasia de um ou da fantasia dooutro, do “meu” inconsciente ou do inconsciente “dooutro”. É isto que queríamos dizer: a fantasia, e maisgeralmente o inconsciente que ela manifesta, é umaconstrução psíquica, um edifício complexo que seergue, invisível, no espaço intermediário e repousasobre as bases que são os corpos vivos dos parceiros.Assim sendo, quando nos ocorre perder a pessoa doeleito, a fantasia se abate e desaba como uma cons-trução à qual se retira um dos pilares. É então que ador aparece.Assim, à pergunta: O que perdemos quando perde-mos a pessoa do ser que amamos? respondemos:Perdendo o corpo vivo do outro, perdemos uma dasfontes que alimenta a força do desejo, sem com issoperder essa força que perdura, indestrutível e inesgo-tável, enquanto tivermos vida. Perdemos também asua silhueta animada que, como um apoio, mantinhao espelho interior que refletia nossas imagens. Mas,perdendo a pessoa do amado, perdemos ainda o ritmosob o qual vibra a força real do desejo. Perder o ritmo,é perder o outro simbólico, o limite que torna consis-tente o inconsciente. Em resumo, perdendo quemamamos, perdemos uma fonte de alimento, o objetode nossas projeções imaginárias e o ritmo do nossoA dor psíquica, dor de amar 49
  • 48. desejo comum. Isso quer dizer que perdemos a coesãoe a textura de uma fantasia indispensável à nossaestrutura.A Dor do enlouquecimento pulsional“Esse enlouquecimento dabússola interior.”Marcel ProustVoltemos agora às nossas definições de dor. Dissemosque a dor corporal era produzida por uma lesão situadana periferia do nosso ser, isto é, no corpo. Mas domesmo modo que se acredita, sem razão, que a sen-sação dolorosa causada por um ferimento no braço selocaliza no braço, também se acredita, erroneamente,que a dor psíquica se deve à perda da pessoa do seramado. Como se fosse a sua ausência que doesse. Ora,não é a ausência do outro que dói, são os efeitos emmim dessa ausência. Não sofro com a falta do outro.Sofro porque a força do meu desejo fica privada doexcitante que a sensibilidade do seu corpo vivo signi-ficava para mim; porque o ritmo simbólico dessa forçafica quebrado com o desaparecimento do compassoque as suas excitações escandiam; e depois porque oespelho psíquico que refletia as minhas imagens des-moronou, por falta do apoio vivo em que o seu corpose transformara. A lesão que provoca a dor psíquicanão é pois o desaparecimento físico do ser amado, maso transtorno interno gerado pela desarticulação dafantasia do amado.Nas páginas que precederam as nossas considera-ções sobre a presença fantasiada do eleito, definimosa dor como a reação à perda do objeto amado. Agora,podemos precisar melhor e dizer que a dor é umareação não à perda, qualquer que ela seja, mas à fraturada fantasia que nos ligava ao nosso eleito. A verdadeiracausa da dor não é pois a perda da pessoa amada, istoé, a retirada de uma das bases que suportavam aA perda doamado é umaruptura não fora,mas dentro demim.50 O livro da dor e do amor
  • 49. construção da fantasia, mas o desabamento dessa cons-trução. A perda é uma causa desencadeante, o desmo-ronamento é a única causa efetiva. Se perdemos apessoa do eleito, a fantasia se desfaz e o sujeito ficaentão abandonado, sem recurso, a uma tensão extremado desejo, um desejo sem fantasia sobre o qual seapoiar, um desejo errante e sem eixo. Afirmar assimque a dor psíquica resulta do desabamento da fantasiaé localizar a sua fonte não no acontecimento exteriorde uma perda factual, mas no confronto do sujeito como seu próprio interior transtornado. A dor é aqui umadesgraça que se impõe inexoravelmente a mim, quan-do descubro que o meu desejo é um desejo nu, loucoe sem objeto. Encontramos assim, sob outra forma,uma das definições propostas no início deste capítulo.Dizíamos que a dor é o afeto que exprime a autoper-cepção pelo eu da comoção que o devasta, quando éprivado do ser amado. Agora que reconhecemos afratura da fantasia como o acontecimento maior, in-tra-subjetivo, que se sucede ao desaparecimento dapessoa amada, podemos afirmar que a dor exprime oencontro brutal e imediato entre o sujeito e o seupróprio desejo enlouquecido.É nesse instante de intensa movimentação pulsionalque, em desespero de causa, nosso eu tenta salvar aunidade de uma fantasia que desmorona, concentrandotoda energia de que dispõe sobre uma pequena parcelada imagem do outro desaparecido; imagem parcelar,fragmento de imagem que se tornará supersaturada deafeto. É então que a dor, logo nascida de um desejotumultuado, ao invés de reduzir-se, se intensifica.Alguns meses depois, uma vez começado o trabalhodo luto, a hipertrofia desse fragmento de imagem dodesaparecido diminui, e a dor que se ligava a ele seatenua pouco a pouco.*Chegou o momento de concluir. Através das diversashipóteses que apresentei, quis conduzir insensivel-A dor psíquica, dor de amar 51
  • 50. mente o meu leitor para o mesmo caminho que melevou a modificar o meu ponto de vista inicial sobrea dor. Parti da idéia comum de que a dor é a sensaçãode um ferimento e que a dor psíquica é o ferimentoda alma. Era a idéia primeira. Se me tivessem pergun-tado: O que é a dor psíquica? eu teria respondido sempensar muito: é a desorientação de alguém que, tendoperdido um ser querido, perde uma parte de si mesmo.Agora, podemos responder melhor, dizendo: a dor éa desorientação que sentimos quando, tendo perdidoum ente querido, nós nos encontramos diante da maisextrema tensão interna, confrontados com um desejolouco no interior de nós mesmos, com uma espécie deloucura do interior que fica adormecida em nós, atéque uma perda exterior venha arrancar os seus gritosde desespero.*Resumo das causas da dor psíquicaA dor provém da perda da pessoa do amado.A dor provém da fratura da fantasia que me liga aoamado.A dor provém da desordem pulsional que reina noIsso, consecutiva à ruptura da barreira que era afantasia.A dor provém da hipertrofia de uma das imagensparcelares do outro desaparecido.*Uma última palavra sob forma de pergunta: o quepodemos fazer com essa teoria psicanalítica da dorque lhes proponho? Ouso dizer simplesmente: nãofaçamos nada. Vamos deixá-la. Vamos deixar a teoriameditar em nós. Vamos deixar que ela aja sem saber-mos. Se essa teoria da dor, por mais abstrata que seja,for realmente fecunda, ela terá talvez o poder de mudar52 O livro da dor e do amor
  • 51. a nossa maneira de escutar o paciente que sofre ou onosso próprio sofrimento íntimo.Lembremo-nos do tratamento de Clémence, em quea intervenção do psicanalista se situou na encruzilhadada teoria com o inconsciente. Por sua maneira deacolher o sofrimento, de afinar-se com ele e de apre-sentar as palavras decisivas que comutaram o malinsuportável em dor simbolizada, o psicanalista agiugraças ao seu saber teórico, mas também com o seuinconsciente. Ao fazer isso, pelo seu saber sobre a dore o seu saber originário da transferência, ele acalmoua dor dando-lhe uma moldura. Tomou o lugar do outrosimbólico que, na fantasia de Clémence, fixava o ritmodo seu desejo, esse outro que Clémence tinha perdidoao perder o seu bebê.Diante da dor de seu paciente, o analista se tornaum outro simbólico, que imprime um ritmo à desordempulsional, para que a dor se acalme enfim.A dor psíquica, dor de amar 53
  • 52. Quadro comparativo entre a Dor corporal e a Dor psíquicaDORCORPORALDOR PSÍQUICAOU DOR DE AMAR A lesão estálocalizada no corpo. A dor é vividaerroneamente, nocorpo, mas na verdadeela está no cérebro,quanto à sensaçãodolorosa e no eu,quanto à emoçãodolorosa. A dor nos pareceexterior e remediável.Ela me incomodacomo um malprovisório.A. Perda do ser amado A lesão estálocalizada,erroneamente, nomundo exterior:desaparecimento dapessoa do amado. Naverdade, ela estásituada no ponto emque a minhasensibilidade maisíntima se arrancou dasensibilidade do outroamado; no ponto emque a minha imageminterior vacila, porfalta do suporte queera a sua pessoa; e noponto em que o meusistema simbólicofalha, por falta do eixoque era o ritmo donosso casal. A lesãoestá no desabamentoda fantasia. A dor nos pareceinterior, absoluta,irremediável, e àsvezes até necessária.Ela está em mim comoa minha substânciavital.B. Perda de integridadecorporal Gostamos do nossocorpo como o outromais amado. Seramputado de umaperna causa a mesmador atroz interior queperder o ser mais caro.Essa perda exige umverdadeiro trabalho deluto, que nos ensinaráa amar o novo corpodesprovido de perna. A lesão que provocaa dor corporal se situano nível da amputação,mas a lesão que causador psíquica se situaem três planosdiferentes, semelhantesaos que definem aperda do ser amado: oda sensibilidade (aperna é uma parte domeu todo sensível): odo imaginário (aimagem da ausência daperna muda a imagemdo meu corpo); e o dosimbólico (a ordempsíquica perde uma dassuas maioresreferências que é aintegridade do corpo).54 O livro da dor e do amor
  • 53. Arquipélago da dorARQUIPÉLAGODA DOR
  • 54. O inconsciente é um conservador da dor. Ele não a esquece.*Duas espécies de dores psíquicasExistem duas maneiras de reagir dolorosamente à perda do ser amado.Quando estamos preparados para vê-lo partir, porque está condenadopela doença, por exemplo, vivemos a sua morte com uma dor infinita,mas representável. Como se a dor do luto fosse nomeada antes deaparecer, e o trabalho do luto já estivesse começado antes do desapa-recimento do amado. Assim a dor, embora insuportável, fica integradaao nosso eu e se compõe com ele. Se, ao contrário, a perda do outroamado é súbita e imprevisível, a dor se impõe sem reservas e transtornatodas as referências de espaço, tempo e identidade. Ela é invivívelporque é inassimilável pelo eu. Se devêssemos designar qual dessesdois sofrimentos merece plenamente o nome de dor, escolheríamos osegundo. A dor é sempre marcada com o selo da subitaneidade e doimprevisível.*Como se experimenta corporalmente a dor psíquica?Nos primeiros instantes, a dor psíquica é vivida como um ataqueaniquilador. O corpo perde a sua armadura e cai por terra como umaroupa cai do cabide. A dor se traduz então por uma sensação física de57
  • 55. desagregação e não de explosão. É um desmoronamento mudo docorpo.Ora, os primeiros recursos para conter esse desmoronamento, e quetardam a vir, são o grito e a palavra.O antídoto mais primitivo contra a dor ao qual os homens recorreramdesde sempre é o grito, quando pode ser emitido. Depois, são as palavrasque ressoam na cabeça, e que tentam lançar uma ponte entre a realidadeconhecida de antes da perda e aquela, desconhecida, de hoje. Palavrasque tentam transformar a dor difusa do corpo em uma dor concentradana alma.A verdadeira causa da dor está no IssoO homem só tem que temer a si mesmo, ou melhor, o homem temapenas o Isso a temer, verdadeira fonte da dor.*A dor vinda do Isso é um estranho com o qual coabitamos, mas quenão assimilamos. A dor está em nós, mas não é nossa.*Aquele que sofre confunde a causa que desencadeia a sua dor e ascausas profundas. Confunde a perda do outro amado e os transtornospulsionais que essa perda acarreta. Acredita que a razão da sua dorestá no desaparecimento do amado, enquanto a verdadeira causa nãoestá fora, mas dentro do eu, nos seus alicerces, no reino do Isso.*Não há dor sem o eu, mas a dor não está no eu; está no Isso. Para quehaja dor, são necessários três gestos do eu: que ele ateste a irremediávelrealidade da perda do amado, que perceba a maré pulsional que invadeo Isso — verdadeira fonte da dor — e que ele traduza essa endoper-cepção em sentimento doloroso.*58 O livro da dor e do amor
  • 56. A dor inconscienteMuitas vezes, o paciente sofre sem saber por que está triste nem queperda sofreu. Outras vezes, é habitado pela dor, sem mesmo saber quesofre. É o caso do alcoólatra que ignora que uma profunda dor está naorigem da sua sede compulsiva. Bebe para embriagar seu eu e neutra-lizar assim a sua capacidade de perceber as turbulências no Isso. Asturbulências pulsionais estão ali, mas o eu anestesiado pelo álcool nãochega a traduzi-las em emoção dolorosa. Como se o álcool tivessecomo efeito neutralizar a função do eu, tradutor da língua do Isso emlíngua dos sentimentos conscientes.*Microtraumas e dor inconscienteUm trauma psíquico pode se produzir seja pelo choque brutal da perdado ser amado, seja por ocasião de um acontecimento inócuo que vemacrescentar-se a uma longa série de microtraumas não sentidos pelosujeito. Cada um desses traumas pontuais provoca uma imperceptíveldor, da qual o sujeito não tem consciência. A acumulação progressivadessas múltiplas dores cria um tal estado de tensão que basta a faíscade um acontecimento inócuo para liberar a dor até então contida e vê-laexplodir sob forma consciente. O menor acontecimento desencadeadorpode ser tanto exterior quanto interior ao eu. Uma lembrança ou umsonho insignificante pode aparecer em circunstâncias tão precisas quelibera um afluxo selvagem de excitações internas, que transbordam eferem o eu. Esse estado é então vivido sob a forma de uma dor dotrauma.*Quem é o outro amado?O amado é um excitante para nós, que nos deixa crer que ele podelevar a excitação ao máximo. Ele nos excita, nos faz sonhar e nosdecepciona. Nosso amado é nossa carência.Arquipélago da dor 59
  • 57. O amado não é um outro, mas uma parte de nós mesmos que recentrao nosso desejo.*A pessoa do amadoA pessoa do amado é como um cabide no qual se penduram as nossaspulsões, até cobri-lo com inúmeras camadas de afetos.*Aquele que amo é aquele que me limitaA representação mais singular do meu amado, a que será superinvestidaimediatamente depois do seu desaparecimento, é a representação doque eu não posso ter, mas também do que não quero ter: a satisfaçãoabsoluta. O amado representa um limite, representa o meu limite.Assim, não só o amado me dá a minha imagem, garante a consistênciada minha realidade e torna tolerável a minha insatisfação, mas tambémrepresenta o freio para o desmedido de uma satisfação absoluta que eunão poderia suportar. Em resumo, o eleito — que qualificamos deamado, mas que também pode ser odiado, temido ou desejado —representa a minha barreira protetora contra um gozo que eu consideroperigoso, embora o saiba inacessível. Pela sua presença real, imagináriae simbólica, ele é, no exterior, o que o recalcamento é no interior. Essabarreira viva, que me evita os gozos extremos e me garante umainsatisfação tolerável, não me impede por isso de sonhar com o gozoabsoluto. Pelo contrário, o meu eleito alimenta as minhas ilusões e meincita a sonhar.Assim, compreende-se por que se sofre quando o outro eleitodesaparece. Com ele, desaparecem as insatisfações cotidianas e tole-ráveis dos meus desejos, e eu me torno então todo insatisfação ou, oque dá no mesmo, todo satisfação. O que a morte do outro acarreta deessencial é a morte de um limite. Assim, o trabalho do luto é areconstrução de um novo limite.*60 O livro da dor e do amor
  • 58. Minha fantasia do amadoA fantasia é uma coleção complexa de imagens e de significantes,dispostos em um anel giratório em torno do buraco da insatisfação. Nocentro desse buraco se ergue a pessoa viva do amado.*A fantasia que tenho do meu amado é a base do meu desejo. Se oamado morre, a fantasia desaba e o desejo enlouquece.*A fantasia que alimento em relação ao outro amado pode ser tãoinvasora e exclusiva que me impede de estabelecer novos laços comnovos eleitos, isto é, de criar novas fantasias. Um exemplo de fantasiainvasora é o de uma jovem mulher que, tendo sido tão apegada ao pai,desenvolveu uma fantasia tão coagulada, que tornou-se impossível paraela criar um novo laço de amor com um homem. Outro exemplo defantasia invasora é o do rancor inabalável por um eleito que noshumilhou. Aqui, o eleito é um eleito odiado, e não amado.*Pode haver uma fantasia do amado reguladora do nosso inconscientesem que ela corresponda na realidade a uma pessoa precisa. É o casode uma fantasia doente desmedidamente desenvolvida, muitas vezesinvasora, e que se basta a si mesma. A ilustração mais impressionantedela é o luto patológico. A pessoa enlutada continua a fantasiar o seueleito morto como se ele estivesse vivo. Ou ainda o caso do delírioerotomaníaco, organizado em torno de uma fantasia desenvolvida demodo tão desproporcional que ela faz existir artificialmente um laçode amor no qual o delirante se atribui a si mesmo o papel do eleitojunto a uma pessoa estranha.*A dor é a certeza do irreparávelQuando há dor em reação a uma perda, é porque o sujeito sofredorconsidera essa perda como irreversível. Pouco importa a verdadeiraArquipélago da dor 61
  • 59. natureza da perda, seja ela real ou imaginária, definitiva ou passageira,o que importa é a convicção absoluta com a qual o sujeito crê a suaperda irreparável. Uma mulher pode viver a partida do seu amante comuma imensa infelicidade e considerá-la como um abandono definitivo,enquanto na realidade ela se revelará temporária. Sua dor nasce dacerteza absoluta com a qual ela interpreta a ausência do seu amadocomo sendo uma ruptura sem volta. Aqui, não há nem dúvida nemrazão que tempere, apenas certeza e dor. A dor permanece indissociávelda certeza, e incompatível com a dúvida. Assim, o sentimento penosoque acompanha a dúvida não é dor, mas angústia. A angústia nasce naincerteza de um perigo temido; ao passo que a dor é a certeza de ummal já realizado.*O amado morto é considerado como insubstituívelDigo que o eleito é “considerado” como insubstituível, e não que eleo é. Somos nós que lhe atribuímos o poder de ser único, tanto em vidaquanto imediatamente após o seu desaparecimento. Durante sua vida,agimos guiados pela convicção tácita de que ele é o nosso único eleito.Se ele desaparece, essa convicção se faz explícita e se torna uma certezadolorosa: ninguém mais nunca poderá substituí-lo. Todavia, é verdadeque, com o tempo, uma vez acabado o luto, outra pessoa virá ocuparo lugar do eleito.*Amor e dorO eu é como um espelho em que se refletem as imagens de partes donosso corpo ou aspectos do nosso amado. Um excesso de investimentode uma dessas imagens significa amor se a imagem se apóia sobre acoisa real da qual ela é o reflexo. Em contrapartida, o mesmo excessode investimento significa dor se o suporte real nos deixou.*62 O livro da dor e do amor
  • 60. O amor cego que nega a realidade da perda e, ao contrário, a resignaçãolúcida que a aceita, eis os dois extremos que dilaceram o eu e suscitamdor. A dor psíquica pode se resumir em uma simples equação: um amorgrande demais dentro de nós por um ser que não existe mais fora.*Dois modos da dor do lutoA dor de amar o desaparecido, mesmo sabendo-o perdido para sempre,é um sofrimento que pode ocorrer no próprio momento da perda, ouentão ressurgir episodicamente ao longo do período de luto. Emborasempre se trate da mesma dor, ela se apresenta diferentemente segundoos seus aparecimentos: súbita e maciça em resposta imediata à perda;ou episódica durante o luto. Para distinguir bem essas duas manifes-tações, devemos apresentar a nossa concepção de luto.*O luto é um processo de desamor,e a dor do luto é uma pressão de amorO luto é um longo caminho, que começa com a dor viva da perda deum ser querido e declina com a aceitação serena da realidade do seudesaparecimento e do caráter definitivo da sua ausência. Durante esseprocesso, a dor aparece sob a forma de acessos isolados de pesar. Paracompreender a natureza dessas pressões dolorosas, é preciso pensar oluto como um lento trabalho graças ao qual o eu desfaz pacientementeo que tinha atado com urgência, na hora do golpe da perda. O luto édesfazer lentamente o que se coagulara precipitadamente. De fato, paraconter os efeitos devastadores do trauma, o eu percorre, excessivamentecarregado de afeto, a representação do ser eleito e desaparecido. Agora,durante o período de luto, o eu percorre o caminho inverso: pouco apouco, desinveste a representação do amado, até que esta perca a suavivacidade e deixe de ser um corpo estranho, fonte de dor para o eu.Desinvestir a representação significa retirar-lhe o seu excesso de afeto,reposicioná-la entre as outras representações e investi-la de outra forma.Arquipélago da dor 63
  • 61. Assim, o luto pode se definir como um lento e penoso processo dedesamor em relação ao desaparecido, para amá-lo de outra forma.Vamos nos explicar. Com o luto, a pessoa enlutada não esquece omorto nem deixa de amá-lo; ela apenas tempera um apego demasiadoexcessivo e reativo à perda brutal.Ora, agora que definimos o luto como um processo de desamor,compreendemos que a dor ocorra a cada vez que um acesso de amorse reaviva. A dor no luto corresponde, com efeito, ao reinvestimentomomentâneo de uma imagem em vias de desinvestimento. É o que seproduz quando a pessoa enlutada encontra incidentalmente na realidadeum ou outro detalhe que lembre o amado no tempo em que estava vivo.Nesse momento em que a representação do morto é reanimada pelaforça da lembrança e o sujeito deve novamente render-se à evidênciada perda irreversível, a dor volta. Vamos dizer claramente: há dor acada vez que a imagem do ser desaparecido é reanimada e, simulta-neamente, eu me curvo à evidência do incontestável desaparecimentodo outro. Os acessos de dor que pontuam o luto são pois impulsos deum amor tenaz que não quer desaparecer.*A saudade é uma mistura de amor, dor e gozo:sofro com a ausência do amadoe gozo em oferecer-lhe a minha dorMesmo dolorosa, a lembrança do amado perdido pode suscitar o gozode oferecer nossa dor como homenagem ao desaparecido. Amor, dore gozo se confundem aqui. Amar o outro perdido certamente faz sofrer,mas esse sofrimento também acalma, pois ele faz reviver o amadopara nós.*Luto patológicoNo luto patológico, a sobrecarga afetiva se cristalizou para sempre narepresentação psíquica do amado perdido, como se quiséssemos tentar64 O livro da dor e do amor

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