J.-D. Nasio Édipo O complexo do qualnenhuma criança escapa tradução André Telles
Título original: L’Oedipe (Le concept le plus crucial de la ...
Sumário Abertura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71. O Édipo do menino . . . . . . . . . . . . . ...
Nenhuma criança escapa ao Édipo!O Édipo de que vou falar é uma lenda que explica a origem de nossaidentidade sexual de hom...
Abertura
As relações do filho com sua mãe são para ele uma fonte contínua de excitação e satisfação sexual, a qual se in...
10 Sobre o Édipouma história de corpos que sentem prazer em se acariciar, sebeijar e se morder, em se exibir e se olhar...
Abertura 11entre a exaltação de desejar e o medo de se consumir naschamas do desejo. Assim, a criança reage sem tran...
12 Sobre o Édipo Que é, então, o Édipo? O Édipo é a experiência vivida poruma criança de cerca de quatro anos que, a...
Abertura 13a própria psicanálise, uma vez que o conjunto dos sentimen-tos que a criança experimenta durante essa experi...
14 Sobre o Édipomoderno que nos revela que o interdito universal do incestoé uma resposta ao louco desejo humano de inc...
Abertura 15fantasia, em que a pequena Sarah fica dividida entre o desejode ser menino e o de ser mulher, não é uma con...
16 Sobre o Édipoincestuosos falaremos imediatamente; em seguida, examina-remos as três fantasias mais importantes do Éd...
Abertura 175. É uma fábula simbólica que põe em cena uma criança encarnando a força do desejo, e seus pais encarnando...
1. O Édipo do menino
• No começo era o corpo de sensações erógenas • Os três desejos incestuosos ...
No começo era o corpo de sensações erógenas*Por volta de três, quatro anos, todos os meninos focalizam seuprazer sobre o p...
22 Sobre o Édipodiremos que todos esse prazeres sentidos pela excitação dosolhos, dos dentes ou do corpo inteiro são pr...
O Édipo do menino 23nome à fase do desenvolvimento libidinal durante a qual acon-tece a crise edipiana. Com efeito, Freu...
24 Sobre o Édipohumano já é plenamente capaz de sentir a falta de um objetovital, e eu diria até a falta pura e simples...
O Édipo do menino 25nele encontrar prazer. Que prazer é esse? O desejo é o im-pulso que nos leva a procurar prazer no e...
26 Sobre o Édipomaravilhosa história em quadrinhos, o mito grego ou a maislouca e imemorial das fábulas. Esclareço imed...
O Édipo do menino 27desejos incestuosos não são exclusivamente eróticos, mas an-tes um condensado de tendências erótica...
28 Sobre o Édipocionado um gozo não-humano por uma ação fantasiada quebaixa a tensão do desejo e suscita prazer, angúst...
O Édipo do menino 29adulto. Em seguida, esse desejo é satisfeito com fantasias queproporcionam prazer à criança. Repit...
30 Sobre o Édipolhosa de impor sua presença ao Outro. A fantasia de possessãomanifesta-se por meio dos comportamentos t...
O Édipo do menino 31da mãe. Seu olho se acende, ele se aproxima e, subitamente,morde com vontade. É isto o Édipo! O Édip...
32 Sobre o Édipoclínica, assinalo que a escolha de lhes apresentar o Édipo cor-responde acima de tudo ao meu desejo de ...
O Édipo do menino 33seu órgão viril, símbolo de sua potência, de seu orgulho ede seu prazer. Essa fantasia, em que seria...
34 Sobre o Édipoponto. Da mesma forma que a psicanálise postula a premissado desejo incestuoso, ela afirma que todos os...
O Édipo do menino 35fantil segundo a qual todo o mundo possui um Falo, com-preenderemos por que o menino então rumina in...
36 Sobre o Édipoassediado é uma fantasia primordial que pode ser constatadano tratamento analítico dos homens neurótico...
O Édipo do menino 37Lei do interdito do incesto, consuma-se assim o momentoculminante, o apogeu do complexo de Édipo m...
38 Sobre o Édipooutras palavras, as pulsões de autoconservação venceram aspulsões sexuais. Insisto em dizer que essa vi...
O Édipo do menino 39para bloquear um tiro direto. Nesse momento, por reflexo,colocam as duas mãos cruzadas sobre o sexo...
40 Sobre o Édipode fazer e criar. Com efeito, repetir para ele que ele é bonitoe simpático antes reforçaria seu “mau” n...
O Édipo do menino 41namos supereu e os sentimentos que o exprimem: pudor, sensode intimidade, vergonha e delicadeza mor...
42 Sobre o ÉdipoO leitor pode desde já se reportar à FIGURA 8 (p.126-7), queapresenta um quadro comparativo entre o ...
2. O Édipo da menina
• Tempo pré-edipiano: a menina é como um menino• Tempo da solidão: a menina sente-se sozinha e humilhada ...
Tempo pré-edipiano: a menina é como um menino*Vou dar seqüência à nossa lenda metapsicológica descreven-do-lhes os quatro ...
48 Sobre o Édipoa etapa preparatória da sexualização do pai de “fase pré-edipia-na”. Já o menino não precisa dessa fase...
O Édipo da menina 49homem neurótico, pense sobretudo no pai dele; e, na presençade uma mulher neurótica, pense antes em...
50 Sobre o Édipote esse período, a menina é animada pelo desejo incestuosode possuir a mãe, regozija-se por tê-la toda ...
O Édipo da menina 51Chamo essa fantasia, na qual a menina sofre com a dor de tersido privada do precioso Falo, de “fant...
52 Sobre o Édipochamo “dor da humilhação”, isto é, sentir-se vítima de umainjustiça e julgar a auto-imagem ferida. Aqui...
O Édipo da menina 53narcisismo do corpo interrompe o Édipo; no caso da menina, o narci-sismo da imagem de si abre para...
54 Sobre o Édipouma criança magoada, vingativa e nostálgica, que quer recu-perar o símbolo do poder de que julga ter si...
O Édipo da menina 55tir-lhe esse desejo. Cabe a você depois transformá-lo em de-sejo feminino de amar, parir e criar.” ...
56 Sobre o Édipocom o desejo da mãe de agradar seu companheiro e ser ama-da por ele. O comportamento edipiano da menin...
O Édipo da menina 57que nada mais tem a perder, obstina-se audaciosamente a seapoderar do pai. Ela queria ter o Falo, r...
58 Sobre o Édipo A menina: Mas então eu queria ser sua força! Por favor, deixe- me ser sua musa, a fonte arden...
O Édipo da menina 59rio do menino, era animada por uma sede inextinguível deamor e que o crescendo de seu Édipo – “Dê-...
60 Sobre o Édipoespontânea de se comportar e andar. Não é incomum umamulher adotar inconscientemente o mesmo meneio de ...
O Édipo da menina 61diversamente dos traços femininos e masculinos assimiladosao mesmo tempo da mãe e do pai. Este é pr...
62 Sobre o Édipoquanto o mais nefasto dos vírus, e que a mais virulenta dessasfantasias é representar a mulher como uma...
Tempo “Tenho quatro anos. Sinto excitações clitoridianas → Tenho o Falo, tenho A meninapré-edipiano orgulho dele...
3. Perguntas e respostas sobre o Édipo
De que problema o conceito de Édipo é a solução?O sr. afirma com freqüência que um conceito psicanalítico é aresposta a um...
68 Sobre o Édiponos serve para compreender como um prazer erótico apodera-se de uma criança de quatro anos para se tran...
Perguntas e respostas sobre o Édipo 69rara recentemente sobre a etiologia da histeria. Com efeito,por essa época ele ach...
70 Sobre o Édipo Mas que relação há entre isso e o Édipo? Pois bem, achoque Freud descobriu o Édipo ao refletir no r...
Perguntas e respostas sobre o Édipo 71 Agora que conhecemos o contexto da descoberta do Édi-po, podemos voltar à sua ...
72 Sobre o Édiposexuais, intensificando-se quanto mais ela demonstrar, para acriança, sentimentos que derivem de sua pr...
Perguntas e respostas sobre o Édipo 73uma pessoa global, mas como um objeto parcial; a mãe re-duz-se ao seio. O Édipo k...
Nasio, j.d. édipo o complexo do qual nenhuma criança escapa
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Nasio, j.d. édipo o complexo do qual nenhuma criança escapa

Published on: Mar 3, 2016
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Transcripts - Nasio, j.d. édipo o complexo do qual nenhuma criança escapa

  • 1. J.-D. Nasio Édipo O complexo do qualnenhuma criança escapa tradução André Telles
  • 2. Título original: L’Oedipe (Le concept le plus crucial de la psychanalyse) Tradução autorizada da primeira edição francesa, publicada em 2005 por Payot & Rivages, de Paris, França Copyright © 2005, Éditions Payot & Rivoges Copyright da edição em língua portuguesa © 2007: Jorge Zahar Editor Ltda. rua México 31 sobreloja 20031-144 Rio de Janeiro, RJ tel.: (21) 2108-0808 / fax: (21) 2108-0800 editora@zahar.com.br www.zahar.com.br Todos os direitos reservados. A reprodução não-autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação de direitos autorais. (Lei 9.610/98) Projeto gráfico e composição: Victoria Rabello Capa: Sérgio Campante CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ Nasio, Juan-DavidN211e Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa / J.-D. Nasio; tradução, André Telles. — Rio de Janeiro: Zahar, 2007. Tradução de: L’Oedipe: (Le concept le plus crucial de la psychanalyse) Inclui bibliografia ISBN 978-85-7110-972-8 1. Édipo, Complexo de. 2. Psicanálise. I. Título. CDD: 154.2406-4626 CDU: 159.964.21
  • 3. Sumário Abertura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71. O Édipo do menino . . . . . . . . . . . . . . . . . 192. O Édipo da menina . . . . . . . . . . . . . . . . . . 453. Perguntas e respostas sobre o Édipo . . . . . . 654. O Édipo é a causa das neuroses ordinárias e mórbidas do homem e da mulher . . . . . . . 915. Arquipélago do Édipo . . . . . . . . . . . . . . . . 1076. Excertos das obras de Freud e Lacan sobre o Édipo, precedidos de nossos comentários . . . 129 Seleta bibliográfica sobre o Édipo . . . . . . . . . . . 147 Índice geral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 155
  • 4. Nenhuma criança escapa ao Édipo!O Édipo de que vou falar é uma lenda que explica a origem de nossaidentidade sexual de homem e mulher e, além disso, a origem denossos sofrimentos neuróticos. Essa lenda envolve todas as crianças,vivam em uma família clássica, monoparental, recomposta ou, ainda,cresçam no seio de um casal homossexual, ou até mesmo sejam crian-ças abandonadas, órfãs e adotadas pela sociedade. Nenhuma criançaescapa ao Édipo! Por quê? Porque nenhuma criança de quatro anos,menina ou menino, escapa à torrente das pulsões eróticas que lheafluem e porque nenhum adulto de seu círculo imediato pode evitarser o alvo de suas pulsões ou tentar bloqueá-las.
  • 5. Abertura
  • 6. As relações do filho com sua mãe são para ele uma fonte contínua de excitação e satisfação sexual, a qual se intensi- fica quanto mais ela lhe der provas de sentimentos que derivem de sua própria vida sexual, beijá-lo, niná-lo, consi- derá-lo substituto de um objeto sexual completo. Seria pro- vável que uma mãe ficasse bastante surpresa se lhe dissessem que assim ela desperta, com suas ternuras, a pulsão sexual do filho. Ela acha que seus gestos demonstram um amor assexual e puro, em que a sexualidade não desempenha pa- pel algum, uma vez que ela evita excitar os órgãos sexuais do filho mais que o exigido pelos cuidados corporais. Mas a pulsão sexual, como sabemos, não é despertada apenas pela excitação da zona genital; a ternura também pode ser muito excitante. SIGMUND FREUD“O menino está apaixonado pela mãe e quer afastar o pai; amenina, por sua vez, apaixonada pelo pai, quer afastar a mãe.”Eis em algumas palavras o mais batido clichê da psicanálise,uma ilustração tradicional, ingênua e enfática do célebre dra-ma amoroso: o complexo de Édipo. E, no entanto, nada maisenganador que essa visão estática do complexo freudiano. Porquê? Porque o complexo de Édipo não é uma história deamor e ódio entre pais e filhos, é uma história de sexo, isto é, 9
  • 7. 10 Sobre o Édipouma história de corpos que sentem prazer em se acariciar, sebeijar e se morder, em se exibir e se olhar, em suma, corposque sentem tanto prazer em se tocar quanto em se fazer mal.Não, Édipo nada tem a ver com sentimento e ternura, mascom corpo, desejo, fantasias e prazer. Provavelmente, pais efilhos amam-se ternamente e podem se odiar, mas, no cora-ção do amor e do ódio familiar, medra o desejo sexual. O Édipo é um imenso despropósito: é um desejo sexualpróprio de um adulto, vivido na cabecinha e no corpinho deuma criança de quatro anos e cujo objeto são os pais. A criançaedipiana é uma criança alegre que, em toda inocência, se-xualiza os pais, introduzindo-os em suas fantasias como ob-jetos de desejo e imitando sem pudor nem senso moral seusgestos sexuais de adultos. É a primeira vez na vida que acriança conhece um movimento erótico de todo seu corpoem direção ao corpo do outro. Não se trata mais de umaboca tendendo para um seio, mas de um ser integral quequer apertar o corpo inteiro da mãe. Ora, se é verdade que acriança edipiana fica feliz ao desejar e obter prazer com isso,é mais verdade ainda que desejo e prazer a assustam, pois elaos teme como um perigo. Que perigo? O perigo de ver seucorpo desgovernar-se sob o ardor de seus impulsos; o perigode ver sua cabeça explodir em virtude de não conseguir con-trolar mentalmente seu desejo; e, finalmente, o perigo de serpunida pela Lei do interdito do incesto, por ter tomado ospais como parceiros sexuais. Excitada pelo desejo, feliz comsuas fantasias mas igualmente angustiada, a criança sente-seperdida e completamente desamparada. A crise edipiana éum insuportável conflito entre o prazer erótico e o medo,
  • 8. Abertura 11entre a exaltação de desejar e o medo de se consumir naschamas do desejo. Assim, a criança reage sem transigir. Dividida entre a ale-gria e a angústia, não tem outra saída senão esquecer tudo eapagar tudo. Sim, a criança edipiana, seja menino ou menina,recalca vigorosamente fantasias e angústia, pára de tomar seusparentes por parceiros sexuais e torna-se com isso disponívelpara conquistar novos e legítimos objetos de desejo. É assimque, progressivamente, descobre o pudor, desenvolve o senti-mento de culpa, o senso moral e estabelece sua identidadesexual de homem ou de mulher. Observemos que depois deum período de relativa acalmia pulsional – digo efetivamenterelativa –, um segundo abalo edipiano irá produzir-se na pu-berdade. Assim como já fizera aos quatro anos, o jovem ado-lescente deverá ajustar o ardor de seus impulsos ao seu novocorpo em plena metamorfose da puberdade e às novas solici-tações sociais. Mas tal ajuste nunca é fácil para um jovem e eispor que encontramos tantas dificuldades com o adolescenteem crise. O jovem não sabe mais refrear seus impulsos como ofizera no fim de seu Édipo; ao contrário, atiça seu desejo tor-nando-se inibido e tímido. Entretanto, o vulcão edipiano nãose extingue na adolescência. Muito mais tarde, na idade adulta,por ocasião de um conflito afetivo, novas erupções poderão sedar sob a forma de sofrimentos neuróticos como a fobia, ahisteria e a obsessão. Enfim, não esqueçamos que outrareativação do Édipo pode se desenvolver, experimentalmentedessa vez, na cena analítica central da neurose de transferência.Em outras palavras: a transferência entre paciente e psicanalis-ta é a repetição em ato do complexo de Édipo.
  • 9. 12 Sobre o Édipo Que é, então, o Édipo? O Édipo é a experiência vivida poruma criança de cerca de quatro anos que, absorvida por umdesejo sexual incontrolável, tem de aprender a limitar seu im-pulso e ajustá-lo aos limites de seu corpo imaturo, aos limitesde sua consciência nascente, aos limites de seu medo e, final-mente, aos limites de uma Lei tácita que lhe ordena que parede tomar seus pais por objetos sexuais. Eis então o essencial dacrise edipiana: aprender a canalizar um desejo transbordante.No Édipo, é a primeira vez na vida que dizemos ao nossoinsolente desejo:“Calma! Fique mais tranqüilo! Aprenda a vi-ver em sociedade!” Assim, concluímos que o Édipo é a dolo-rosa e iniciática passagem de um desejo selvagem para umdesejo socializado, e a aceitação igualmente dolorosa de quenossos desejos jamais serão capazes de se satisfazer totalmente. Porém, o Édipo não é apenas uma crise sexual de cresci-mento, é também a fantasia que essa crise molda no incons-ciente infantil. Com efeito, a experiência vivida do terremotoedipiano fica registrada no inconsciente da criança e perduraaté o fim da vida como uma fantasia que definirá a identidadesexual do sujeito, determinará diversos traços de sua persona-lidade e fixará sua aptidão a gerir os conflitos afetivos. Nocaso de a criança ter experimentado, por ocasião da crise edi-piana, um prazer precoce demais, intenso demais e inespera-do demais, isto é, no caso de a experiência de um prazerexcessivo ser traumática, a fantasia daí resultante seria a causacerta de uma futura neurose. O Édipo, no entanto, é mais que uma crise sexual e umafantasia que ela modela no inconsciente; é também um con-ceito, o mais crucial dos conceitos psicanalíticos. Diria que é
  • 10. Abertura 13a própria psicanálise, uma vez que o conjunto dos sentimen-tos que a criança experimenta durante essa experiência se-xual que chamamos de complexo de Édipo é, para nóspsicanalistas, o modelo que utilizamos para pensar o adultoque somos. Assim como a criança edipiana, percebemos aescalada do desejo pelo outro, forjamos fantasias, sentimosprazer com nosso corpo ou o corpo do outro, temos medode ser superados por nossos impulsos e aprendemos, final-mente, a refrear nosso desejo e nosso prazer para viver emsociedade. Que é a psicanálise senão uma prática sustentadapor uma teoria que concebe o homem de hoje a partir daexperiência edipiana vivida por todas as crianças quando têmde aprender a refrear seu desejo e moderar seu prazer? Enfim, o Édipo é também um mito, já que essa crise reale concreta vivida por uma criança de quatro anos, é umaexplosiva alegoria da luta entre as forças impetuosas do dese-jo sexual e as forças da civilização que se lhe opõem.O melhor desfecho para essa luta é um compromisso chama-do pudor e intimidade. Qual é o status do Édipo? Uma realidade, uma fantasia, um conceito ou um mito?Qual é então o verdadeiro status do Édipo? Consistiria eleem uma crise sexual de crescimento observável no compor-tamento das crianças? Uma fantasia inscrita no inconsciente?Ou a mais importante construção teórica, chave-mestra doedifício analítico? Ou ainda simplesmente um mito, o mito
  • 11. 14 Sobre o Édipomoderno que nos revela que o interdito universal do incestoé uma resposta ao louco desejo humano de incesto? Logo,seria o Édipo uma realidade, uma fantasia, um conceito ousimplesmente um mito? Pois bem, responderei que o Édipo étudo isso ao mesmo tempo: realidade, fantasia, conceito e mito.Contudo, para o psicanalista que somos, o Édipo permaneceantes de tudo uma fantasia, devo dizer até uma dupla fantasia.É a fantasia infantil agindo no inconsciente do paciente,duplicada pela mesma fantasia, reconstruída, dessa vez, peloprofissional.Assim, só consigo compreender o sofrimento queescuto em meus pacientes adultos ao supor-lhes desejos, fic-ções e angústias vividas na idade edipiana. E penso que essesdesejos, ficções e angústias infantis ainda estão presentes nosdias de hoje, travestidos nos múltiplos tormentos da neurosede que o paciente se queixa. Quando, por exemplo, escutoSarah, uma anoréxica grave de 26 anos, vejo mentalmente acriancinha que ela era e a imagino dividida entre o desejo deser um menino com um corpo reto como o de seu irmão,filho predileto do pai, e o desejo de ser a mulher amada pelopai. Ora, é ao me dirigir a essa menina de quatro anos presen-te em Sarah que posso ter uma chance de influenciar o cursode sua anorexia. Quando, durante uma sessão, sugiro uma in-terpretação, é Sarah minha paciente que a escuta, mas é apequena Sarah que a recebe. Qual pequena Sarah? A menini-nha edipiana que eu fantasio em minha escuta que suponhoatuante no inconsciente da Sarah adulta. Mas o que provaque essa fantasia, forjada na escuta com ajuda do materialclínico e da teoria do Édipo, seja de fato a que atua no in-consciente de minha paciente? Quem me garante que essa
  • 12. Abertura 15fantasia, em que a pequena Sarah fica dividida entre o desejode ser menino e o de ser mulher, não é uma construção erra-da? Em outros termos, qual a validade dessa fantasia e doconceito de Édipo que lhe subjaz? Pois bem, esse conceito eessa fantasia são válidos fundamentalmente por duas razões.Em primeiro lugar, porque sempre que escuto um pacientecom o a priori teórico do Édipo e da fantasia daí resultanteminhas intervenções verificam-se pertinentes, isto é, são vali-dadas a posteriori pelo próprio paciente. Em segundo lugar,porque tenho a confirmação, pela minha experiência, de quea escuta, enriquecida pelo conceito de Édipo, é uma escutaextremamente flexível, maleável, capaz de harmonizar aomesmo tempo o sofrimento atual do paciente, a fantasia dacriança que ele foi e o rigor de uma teoria analítica que nãocesso de modelar e aperfeiçoar. * * *Se agora eu tivesse de esquematizar a crise edipiana em duasgrandes etapas, diria que o Édipo começa com a sexualizaçãodos pais e termina com a dessexualização dos pais, dessexuali-zação que desembocará finalmente na identidade sexual adulta. Portanto, vou expor em detalhes, passo a passo, a lógica dacrise edipiana no menino e na menina, como uma lendametapsicológica e romanceada que forjei à luz da teoria psi-canalítica e de minha experiência clínica. Preciso antes, po-rém, indicar os principais elementos que intervêm nessa crise:os desejos incestuosos, as fantasias e a identificação. Dos desejos
  • 13. 16 Sobre o Édipoincestuosos falaremos imediatamente; em seguida, examina-remos as três fantasias mais importantes do Édipo: fantasias deonipotência fálica: a criança julga-se onipotente; fantasiasde prazer que satisfazem imaginariamente o desejo incestuo-so: a criança é alegre; fantasias de angústia no caso do menino:ele é medroso – e de sofrimento no caso da menina: ela ficamagoada; e, finalmente, a última malha da lógica edipiana, oespantoso fenômeno de identificação. Desejos, fantasias e iden-tificação são portanto os três operadores que pontuam respec-tivamente o nascimento, o apogeu e o declínio do complexode Édipo. (FIGURA 1). * * * Que é, então, o Édipo? O Édipo:1. É uma chama de sexualidade vivida por uma criança de quatro anos no cerne da relação com seus pais.2. É uma fantasia sexual forjada inocentemente pelo me- nino ou pela menina para aplacar o ardor de seu desejo.3. É também a matriz de nossa identidade sexual de ho- mem e de mulher, pois é durante a crise edipiana que a criança sente pela primeira vez um desejo masculino ou feminino em relação ao genitor do sexo oposto.4. É ainda uma neurose infantil, modelo de todas as nossas neuroses adultas.
  • 14. Abertura 175. É uma fábula simbólica que põe em cena uma criança encarnando a força do desejo, e seus pais encarnando tan- to o objeto desse desejo quanto o interdito que o refreia.6. É a chave-mestra da psicanálise. É o conceito soberano que gera e organiza todos os outros conceitos psicanalíti- cos e justifica a prática da psicanálise.7. É, enfim, o drama infantil e o inconsciente que todo ana- lisando representa na cena do tratamento ao tomar seu psicanalista como parceiro.
  • 15. 1. O Édipo do menino
  • 16. • No começo era o corpo de sensações erógenas • Os três desejos incestuosos • As três fantasias de prazer • As três fantasias de angústia de castração• Resolução do Édipo do menino: a dessexualização dos pais• Comparado à mulher, o homem é visceralmente um covarde • Os frutos do Édipo: o supereu e a identidade sexual • Resumo da lógica do Édipo do menino
  • 17. No começo era o corpo de sensações erógenas*Por volta de três, quatro anos, todos os meninos focalizam seuprazer sobre o pênis, vivido ao mesmo tempo como órgão,objeto imaginário e emblema simbólico. Nessa idade, o ór-gão peniano torna-se a parte do corpo mais rica em sensa-ções e impõe-se como a zona erógena dominante, uma vezque o prazer por ele proporcionado à criança torna-se a refe-rência principal de todos os outros prazeres corporais. Antesdessa idade, os locais de prazer eram a boca e, depois, o ânus ea atividade muscular – não esqueçamos que o prazer de an-dar, correr e agir prevalece em todos os bebês entre dois e trêsanos –, ao passo que, com quatro, todo prazer corporal, sejaqual for o lugar excitado, repercute no nível de seu pequenopênis sob a forma de um arrepio de prazer. Em outras pala-vras, se um menino de quatro anos sente prazer em olhar odecote da mãe ou gosta de se mostrar nu em público, ouainda, excitado pela brincadeira, morde a coxa da irmãzinha,* A FIGURA 2 (ver p.43) acompanha a leitura deste Capítulo 1. 21
  • 18. 22 Sobre o Édipodiremos que todos esse prazeres sentidos pela excitação dosolhos, dos dentes ou do corpo inteiro são prazeres que reper-cutem no nível de seu pequeno sexo e já lhe fazem viver umaexcitação genital. Porém, aos quatro anos, o pênis não é apenas o órgão maisrico em sensações. É também o objeto mais amado e o quereclama todas as atenções. Apêndice visível, facilmente mani-pulável, erógeno e eréctil, o pênis atrai a mão, assim como ateta atrai os lábios e a língua; o pênis convoca os olhares, atiçaa curiosidade dos meninos e das meninas e lhes inspira fábu-las, ficções e bizarras teorias infantis. A pregnância imagináriado pênis é tamanha que o menino faz dele seu objeto narcísicomais precioso, a coisa pela qual tem mais apego e orgulho depossuir. Assim, tal culto do pênis eleva o pequeno órgão aonível de símbolo do poder absoluto e da força viril. Mas aten-ção! É também, e pelas mesmas razões, vivido como um ór-gão frágil, excessivamente exposto aos perigos e, porconseguinte, símbolo não apenas do poder, mas também davulnerabilidade e da fraqueza. Pois bem, quando esse apêndi-ce, eminentemente excitável, nitidamente visível, eréctil, ma-nipulável e tão altamente valorizado torna-se aos olhos detodos – meninos e meninas – o representante do desejo, nóso chamamos de “Falo”. O Falo não é o pênis enquanto órgão.O Falo é um pênis fantasiado, idealizado, símbolo da onipo-tência e de seu avesso, a vulnerabilidade. Veremos adiante,quando abordarmos em detalhe o Édipo feminino, que a su-premacia imaginária e simbólica do pênis é tão forte nessaidade que a menininha também acreditará que possui umFalo. É precisamente esse pênis fantasiado, dito Falo, que dá
  • 19. O Édipo do menino 23nome à fase do desenvolvimento libidinal durante a qual acon-tece a crise edipiana. Com efeito, Freud chama essa fase emque a sexualidade infantil permanece polarizada no Falo de“fase fálica” (cf. p.77-9). Durante essa fase, as crianças, meninos ou meninas, achamque todas as criaturas do mundo são dotadas de um Falo, istoé, que todas as criaturas são tão fortes quanto elas. Quando,por exemplo, um menino considera que todos têm um Falo,ele pensa: “Todos detêm um órgão peniano como o meu.Todos experimentam as mesmas sensações que eu e todosdevem se sentir tão fortes quanto eu.” Observo que essa fic-ção infantil, essa ilusão de acreditar que o pênis é um atributouniversal, é forjada tanto pelo menino quanto pela menina.Ora, eis que a idolatria da criança pelo Falo vai ser acompa-nhada pela angústia de perdê-lo no menino e pelo sofrimen-to de havê-lo perdido na menina. Com efeito, nessa idade acriança já fez a experiência de perder os objetos vitais: bebê,perdeu o seio materno que considerava uma parte de si pró-prio; em seguida fez a experiência de renunciar à mamadeirae se separar de seu primeiro “paninho”; mais tarde, a expe-riência de defecar e constatar que seu “cocô” separa-se dele;fez também a experiência de perder o status de filho-rei como nascimento de um irmãozinho ou irmãzinha; e, finalmente,talvez já tenha chorado a morte de um parente. Resumindo,na idade edipiana uma criança é perfeitamente capaz de serepresentar a perda de um objeto que lhe era caro e temerque ela se repita. Entretanto, para ser mais preciso, eu deveriaacrescentar que, desde sua vinda ao mundo, ou melhor, desdeas primeiras palpitações de seu corpo embrionário, o pequeno
  • 20. 24 Sobre o Édipohumano já é plenamente capaz de sentir a falta de um objetovital, e eu diria até a falta pura e simplesmente. Sabemos oquanto um bebê, por menor que seja, sente, sabe e chora dedor quando lhe falta algo essencial. Eis por que eu diria que aaptidão da criança edipiana para perceber a falta é no fundouma intuição inerente a toda a espécie humana. Mas retomemos o fio. Peço-lhes agora que guardem aobservação referente à ficção de um Falo universal e a refe-rente à capacidade da jovem criança de se representar intuiti-vamente uma falta, pois essas duas proposições são as premissasindispensáveis para compreendermos como se formam a fan-tasia de angústia de castração no menino e a fantasia de dorde privação na menina, isto é, para compreendermos como omenino sai do Édipo e como a menina entra nele. Logo vol-taremos a isso. Os três desejos incestuososAbordemos agora a dinâmica dos desejos incestuosos. Excita-do sexualmente e orgulhoso de seu poder, o menino de quatroanos vê eclodir em si uma nova força, um impulso desconhe-cido: o desejo de ir em direção ao Outro, em direção a seuspais ou, mais exatamente, em direção ao corpo de seus paispara nele encontrar prazer, para nele descobrir o conjuntodos diferentes prazeres erógenos conhecidos antes dessa ida-de. Eis a novidade do Édipo! Até esse estágio, a criança nãoconhecia tal floração dos sentidos e nunca tinha sentido dese-jo tão impetuoso de se apossar do corpo inteiro do Outro e
  • 21. O Édipo do menino 25nele encontrar prazer. Que prazer é esse? O desejo é o im-pulso que nos leva a procurar prazer no enlace com nossoparceiro. Deseja-se sempre uma pessoa em sua carne. Desejaré atirar-se para fora de si em busca da carne do outro; é que-rer atingir, através da carne, sobre a carne, o gozo mais re-quintado. Eis o que é o desejo! É nesse aspecto que tododesejo é um desejo sexual. Sexual quer dizer mais que genital.Sexual quer dizer: “Deixa-me olhar teu corpo nu! Acariciá-lo, senti-lo, beijá-lo, devorá-lo e, até mesmo, destruí-lo!” Quecorpos? Os corpos daqueles a quem amo me atraem e estãoao alcance da minha mão. E que são eles para uma criançasenão seu pai e sua mãe? Como um bichinho travesso, acriança edipiana põe as garras do desejo nas costas de seuspais. Em suma, a criança edipiana é arrastada por um impulsoque a leva e pressiona a procurar prazer na troca sensual comos corpos daqueles a quem ama, de quem depende e quetambém são criaturas desejantes, criaturas que despertam eexercitam seu desejo. Ora, esse desejo imperioso, esse impul-so irresistível cuja fonte são as excitações penianas, cujo alvo éo prazer e cujo objeto é o corpo de um dos genitores ou dequalquer outro adulto tutelar, esse impulso é uma expressãodo mítico desejo de incesto. Sim, o Édipo é a tentativa infan-til de realizar um desejo incestuoso irrealizável. Mas que é odesejo incestuoso? É um desejo virtual, nunca saciado, cujoobjeto é um dos pais e cujo objetivo seria alcançar não o prazerfísico, mas o gozo. Que gozo? O gozo prodigioso que pro-porcionaria uma relação sexual plena em que os dois parcei-ros, criança e adulto genitor, diluiriam em uma total e extáticafusão. Naturalmente, esse desejo é um sonho irrealizável, uma
  • 22. 26 Sobre o Édipomaravilhosa história em quadrinhos, o mito grego ou a maislouca e imemorial das fábulas. Esclareço imediatamente queas verdadeiras passagens ao ato incestuosas pai/filha ou pai/filho e mais raramente mãe/filho são estupros relativamenteraros e, quando acontecem, nunca proporcionam gozo al-gum, nem prodigioso nem banal. Nada disso! Ao contrário, aclínica dos casos de incesto revela a extrema pobreza da satis-fação obtida pelo adulto perverso e o forte trauma sofridopela criança. Não. O desejo incestuoso de que lhes falo nadatem a ver com a desgraça do abuso sexual cometido por umpai sobre seu filho. Mas então, vocês me diriam, por que apsicanálise precisa sacralizar o desejo incestuoso e postularque todos os desejos, por ínfimos que sejam, referem-se a umdesejo igualmente virtual? Por que o desejo incestuoso éo desejo padrão? Pois bem, o único valor desse desejo insen-sato de ir para a cama com a mãe e matar o pai é ser a alegoria dolouco desejo de retorno ao estado original de beatitude intra-uterina. Para a psicanálise, cada um de nossos desejos cotidia-nos – o prazer sensual de contemplar um quadro ou acariciaro corpo do amado, por exemplo –, cada um desses desejostenderia, de um ponto de vista teórico, insisto, para a felicida-de perfeita de que gozariam dois seres conjugados em Um. Odesejo incestuoso, portanto, não é senão uma figura mítica doabsoluto, o nome assumido pelo desejo louco de um herói depenetrar sua mãe para encontrar seu ponto de origem nosconfins do corpo materno. Para dizê-lo com uma imagem, odesejo incestuoso é o desejo de fusão com nossa terra nutriz. Uma vez admitido o caráter mítico do desejo incestuoso,distingo três variantes dele no menino. Ressalvemos que os
  • 23. O Édipo do menino 27desejos incestuosos não são exclusivamente eróticos, mas an-tes um condensado de tendências eróticas e agressivas. Assim,há três desejos fundamentais presentes em um menino e emtodo ser humano em posição masculina, seja qual for sua ida-de: o desejo de possuir sexualmente o corpo do Outro, em parti-cular o da mãe; o desejo de ser possuído pelo corpo do Outro,em particular o do pai; e o desejo de suprimir o corpo do Outro, emparticular o do pai. Desejo de possuir, desejo de ser possuído edesejo de suprimir, eis os três movimentos fundadores do dese-jo masculino. As três fantasias de prazerOra, sem atingir esses três objetivos incestuosos e impossí-veis – obter o gozo absoluto de possuir o corpo do Outro; serpossuído pelo Outro, isto é, ser sua coisa e fazê-lo gozar; e,finalmente, obter o gozo absoluto de suprimir o Outro –, omenino cria fantasias que lhe dão prazer ou angústia, masque, de toda forma, satisfazem imaginariamente seus loucosdesejos. Mas em que consiste uma fantasia? Em uma cena, emgeral consciente, destinada a satisfazer de maneira imagináriao desejo incestuoso irrealizável, ou melhor, a satisfazer qual-quer desejo, uma vez que todo desejo é uma expressão dodesejo incestuoso. Uma fantasia é uma cena imaginária quepropicia consolo à criança, tome esse consolo a forma de umprazer ou, como veremos, de uma angústia. Assim, a fantasiatem como função substituir uma ação ideal que teria propor-
  • 24. 28 Sobre o Édipocionado um gozo não-humano por uma ação fantasiada quebaixa a tensão do desejo e suscita prazer, angústia ou aindaoutros sentimentos, às vezes penosos. Com efeito, a queda datensão psíquica obtida com a fantasia nem sempre se traduzpor distúrbios ou tormentos que, por penosos que sejam, per-mitem evitar uma fissura irreparável do psiquismo. Por maisespantoso que pareça, a queda da tensão psíquica tambémpode se traduzir por um sofrimento consciente. Uma crise dechoro, por exemplo, pode exercer a função de uma descar-ga salutar; ou um sintoma fóbico impor-se como um malmenor que protege de outro mal muito mais grave, comouma psicose. Observemos também que a cena fantasiada não é obriga-toriamente consciente e que ela com freqüência se traduz navida cotidiana da criança por um sentimento, um comporta-mento ou uma fala. Um menininho, por exemplo, nunca co-pulará com a mãe, mas compensará essa impossibilidade comuma fantasia voyeurista em que a imagina nua. Essa fantasia setraduzirá então pela vontade maliciosa de espiar e surpreen-der a mãe em situações íntimas.Vocês têm aqui a gradação deque falamos: o desejo incestuoso de possuir a mãe, o desejoderivado de ver o corpo nu da mãe, a fantasia de imaginá-loe, enfim, o gesto malicioso de olhar pelo buraco da fechadura,gesto que põe em ato a fantasia. Eu gostaria, porém, de interromper um instante a fim dedissipar qualquer confusão entre os termos “sensações”, “de-sejos”, “fantasias” e “comportamentos”. Sejamos claros. Co-mecemos pelo começo. Em primeiro lugar, as sensaçõessentidas despertam o desejo de ir em direção ao corpo do
  • 25. O Édipo do menino 29adulto. Em seguida, esse desejo é satisfeito com fantasias queproporcionam prazer à criança. Repito que essas fantasias deprazer raramente são visualizadas mentalmente pelo sujeito.Somos nós, psicanalistas, que as deduzimos a partir da obser-vação dos comportamentos infantis e, sobretudo, a partir daescuta de nossos analisandos adultos. Nós escutamos um pa-ciente, criança ou adulto, e reconstruímos as cenas fantasiadasque governam suas vidas. Ora, subindo um degrau na abstra-ção, diremos que essas cenas são forjadas inconscientementepelo sujeito para satisfazer imaginariamente seu desejo – de-sejo voyeurista no nosso exemplo – e, além disso, para satisfa-zer seu mítico desejo de incesto. Vamos resumir. Fico sabendoque um garotinho espia sua mãe e deduzo disso que estáinconscientemente animado por uma cena voyeurista em quesua mãe estaria nua. Considero também que essa cena satisfazo desejo incestuoso de possuir sua mãe e, mais concretamen-te, o desejo de devorá-la com os olhos. Em suma, as sensaçõesdespertam o desejo, o desejo suscita a fantasia e a fantasia se atualizaatravés de um sentimento, um comportamento ou uma fala. Por exem-plo, ao nos vermos diante de uma emoção, dizemos que elaexprime uma fantasia e que a fantasia satisfaz um desejo, sem-pre vivificado pelo corpo de sensações. Estabelecidas essas premissas, vejamos agora como cadaum dos três desejos incestuosos se satisfaz imaginariamentegraças a uma fantasia de prazer particular. A cada desejo in-cestuoso corresponde uma fantasia de prazer específica. Qualé então a fantasia específica do desejo incestuoso de possuir oOutro? Na verdade, essa fantasia adota vários roteiros em quea criança desempenha sempre um papel ativo e se sente orgu-
  • 26. 30 Sobre o Édipolhosa de impor sua presença ao Outro. A fantasia de possessãomanifesta-se por meio dos comportamentos típicos dessa idade,como por exemplo exibir-se de maneira escandalosa, brincar“de papai e mamãe”, brincar “de médico”, bancar o palhaço,dizer palavrões sem conhecer sua significação ou mesmo ma-caquear posições sexuais. Às vezes o gesto que predomina é ode tocar o corpo de um de seus pais, irmãos ou irmãs oubeijá-lo febrilmente e às vezes mordê-lo ou maltratá-lo. Masde todos os roteiros de possessão o que exprime mais fiel-mente o desejo incestuoso de possuir o Outro é o desejo domenino de se apoderar da mãe e tê-la apenas para si. Gostaria de dar um exemplo. Penso aqui em um menini-nho de três anos, Martin. É um garoto vivo, malicioso que só,que sua mãe, uma de minhas analisandas, levara um dia aomeu consultório, não tendo conseguido ninguém para ficarcom ele. Enquanto a criança brincava na sala de espera contí-gua ao meu consultório, a mãe me contou em tom de aparteum episódio sobre o filho, que considero uma bela ilustraçãode uma fantasia de prazer edipiana de possuir a mãe. Saibamque a mãe de Martin é uma moça divorciada, muito bonita esimpática, que mora sozinha com o filho. Ela então me conta:“Adivinhe, doutor, o que me aconteceu com esse traquinasdo Martin. Eu estava no banheiro, em trajes sumários, memaquiando – deixo sempre a porta entreaberta – e, de repen-te, dei um grito: Martin entrara silenciosamente, na ponta dospés, e me mordera as nádegas antes de fugir correndo, todoorgulhoso e feliz com o que tinha feito.” Peço-lhes que ima-ginem esse menininho insinuando-se sorrateiramente no ba-nheiro e descobrindo, na altura dos olhos, as nádegas atraentes
  • 27. O Édipo do menino 31da mãe. Seu olho se acende, ele se aproxima e, subitamente,morde com vontade. É isto o Édipo! O Édipo é morder asnádegas da mãe! O Édipo não é acariciar ternamente a ma-mãe, é desejá-la e mordê-la. Isso parece evidente agora quelhes digo, mas essa evidência da natureza sexual do Édipo (oÉdipo é uma questão de sexo e não de amor) nem sempre éadmitida. O Édipo é o desejo sexual de um menininho quenão tem nem cabeça nem corpo para assumi-lo. Depois dessa primeira fantasia edipiana de possuir a mãe,chegamos à segunda fantasia de prazer, a de ser possuído peloOutro. A fantasia mais típica do desejo de ser possuído é umacena em que o menino sente prazer em seduzir um adultopara se tornar seu objeto. Essa fantasia é uma fantasia de sedu-ção sexual em que o menino sedutor imagina-se seduzidopela mãe, por um irmão mais velho ou até mesmo, ainda queisso os surpreenda, pelo próprio pai. Com efeito, um meninopode desempenhar o papel passivo, eminentemente femini-no, de ser a coisa do pai e fazê-lo gozar. Mas devemos enten-der que, se a criança imagina-se seduzida, não apenas ela évítima passiva de um pai perverso, malvado ou tarado, comotambém uma sedutora ativa que espera ser seduzida; a criançaseduz para ser seduzida. Observemos que, se essa fantasia edi-piana de sedução do menino pelo pai imobiliza-se e invademais tarde a vida do adulto que a criança se tornou, ela medracomo um agente nocivo, causa freqüente de uma forma dehisteria masculina muito difícil de tratar. Freqüentemente, otratamento analítico dessa histeria fracassa e esbarra em umacrise conhecida como “pedra de castração” ou, como a cha-mava Adler, “protesto viril”. Uma vez que nos referimos à
  • 28. 32 Sobre o Édipoclínica, assinalo que a escolha de lhes apresentar o Édipo cor-responde acima de tudo ao meu desejo de esclarecer a práticade vocês com seus pacientes adultos. Pois, como vocês perce-beram, o interesse do Édipo não é apenas teórico, é princi-palmente clínico, e a fantasia de sedução é uma ilustraçãopatente disso. Sempre que recebo homens neuróticos que medemandam uma análise, penso em sua fantasia inconscientede serem a coisa do pai e fazê-lo gozar. A última fantasia de prazer, a relativa ao desejo de suprimiro Outro, em particular o pai, coloca o sujeito em uma atitudesexual ativa. Digo “sexual” porque destruir o Outro provocatanto prazer sexual quanto qualquer fantasia edipiana. Umdos comportamentos infantis que melhor traduz a fantasia dematar o pai rival é aquele, muito freqüente, em que o meni-ninho aproveita-se da ausência do pai, em viagem, para brin-car de “chefe de família” e, por exemplo, querer partilhar ogrande leito conjugal com a mãe. As três fantasias de angústia de castraçãoAs fantasias de prazer – seja aquela em que o menino adotauma atitude sexual ativa como morder a mãe; seja aquela emque adota uma atitude sexual passiva como seduzir para serseduzido; seja, enfim, aquela em que adota uma atitude sexualativa de rejeição do pai –, todas essas fantasias são fantasias deprazer que, embora façam a criança feliz, também desenca-deiam nela uma profunda angústia: o menininho maliciosoteme ser punido por seu pecado, punido com a mutilação de
  • 29. O Édipo do menino 33seu órgão viril, símbolo de sua potência, de seu orgulho ede seu prazer. Essa fantasia, em que seria punido com a muti-lação de seu Falo, chama-se fantasia de “angústia de castra-ção”.Vamos entender.A ameaça de ser punido com a castraçãoe a angústia daí resultante são uma ameaça e uma angústiafantasiadas. Decerto, um menino pode cometer um erro eter medo do castigo, mas a fantasia de ser punido com a cas-tração e a angústia daí resultante são inconscientes. Falemosclaramente: a angústia de castração não é sentida pelo meni-no, ela é inconsciente. Este é um ponto importante, pois muitosde vocês gostariam de verificar se um menininho de quatroanos receia efetivamente que lhe mutilem o pênis. Pois bem,respondo-lhes prontamente: salvo exceção, vocês não terãoconfirmação desse receio. Claro, acontece muitas vezes de de-terminada mãe, ao ver o filho apalpar o sexo, gritar com ele:“Pare de se bolinar! Seu passarinho não vai voar e ninguémvai comê-lo!” Mas é uma réplica que não suscita no menini-nho nenhuma angústia de ser castrado. Não. A angústia decastração nunca é consciente. Isso posto, como considerar entãoas angústias que observamos diariamente nos meninos sob aforma de medos ou pesadelos? Eu diria que essas angústiasinfantis são as formas clínicas assumidas pela angústia incons-ciente de castração. Em suma, não interessa se o menino sofreou não uma ameaça real e se angustia, o que interessa saber éque, de toda forma, ele é habitado pela angústia inconscientede castração; enquanto desejar e obtiver prazer, ainda quemínimo, ficará angustiado. A angústia é o avesso do prazer.Angústia e prazer são tão indissociáveis que os imagino comogêmeos paridos pelo desejo. Gostaria de ser bem claro nesse
  • 30. 34 Sobre o Édipoponto. Da mesma forma que a psicanálise postula a premissado desejo incestuoso, ela afirma que todos os homens sãoessencialmente habitados por uma angústia de castração in-trínseca ao desejo masculino.Voltaremos a isso quando falar-mos da neurose masculina, mas desde já afirmo que a angústiade castração é a medula espinhal do psiquismo do homem.Quanto ao psiquismo da mulher, veremos mais tarde de queestofo emocional é feito. Dizíamos então que a angústia masculina é o avesso doprazer de fantasiar. Com efeito, não existe prazer edipianosem a contraparte: a angústia de desejar e de ser punido porisso. Esse par de sentimentos antagônicos, prazer e medo deser punido, está na base de toda neurose. Podemos desde jádizer que o próprio Édipo é uma neurose infantil, ou melhor,a primeira neurose de crescimento do ser humano. Por quê?Porque a neurose é acima de tudo a ação simultânea de sen-timentos opostos e porque a criança edipiana sofre, como umneurótico, com o doloroso conflito entre saborear o prazerde fantasiar e ter medo de ser punido caso persevere. Voltareimuitas vezes a essa idéia cardinal segundo a qual o Édipo é, emsi, uma neurose. Embora já tenhamos afirmado o status inconsciente daangústia de castração sem apresentar situações concretas parajustificá-lo, nem por isso certos incidentes da vida da criançadeixam de confirmar, se necessário, a existência dessa angús-tia. Eis o acontecimento incontornável a que se referem to-dos os teóricos do Édipo. Um dia, o menino vê o corpo nude uma menininha ou de sua própria mãe e constata, surpre-so, que elas não têm pênis-Falo. Se lembrarmos a ilusão in-
  • 31. O Édipo do menino 35fantil segundo a qual todo o mundo possui um Falo, com-preenderemos por que o menino então rumina inconscien-temente: “Uma vez que existe um ser neste mundo que perdeuseu Falo, também corro o risco de ficar privado dele.” É comessa descoberta que a angústia de castração é definitivamenteconfirmada. Temos então três variantes da fantasia de angústia, quedevem ser compreendidas como o avesso das três fantasias deprazer: • Se a fantasia de prazer é morder a mãe ou ter um filhocom ela, isto é, possuir o Outro, a ameaça de castração incidesobre o objeto mais precioso: o pênis-Falo, ou seja, sobre aparte do corpo mais investida. Aqui, o agente da ameaça é opai repressor, que lembra ao menino a Lei do interdito do in-cesto: “Não possuirás tua mãe nem lhe darás um filho!” Damesma forma, ele se dirige à mãe, dizendo-lhe: “Não reinte-grarás teu filho no teu seio!” • Se a fantasia de prazer é uma fantasia de sedução, isto é,ser possuído pelo Outro, mais exatamente oferecer-se ao pai, aameaça de castração incide igualmente sobre o Falo, mas des-sa vez considerado menos como apêndice destacável que comosímbolo da virilidade. Aqui, o agente da ameaça não é o pairepressor, mas o pai sedutor: o pai é um amante que o meninodeseja, mas teme que vá longe demais e abuse dele. Nessecaso, a angústia não é o medo de perder o pênis-Falo, mas deperder a virilidade tornando-se a mulher-objeto do pai. “Te-nho medo de ser assediado sexualmente pelo meu pai e decom isso perder minha virilidade.” Insisto em dizer que essafantasia de sedução do menino pelo pai e a angústia de ser
  • 32. 36 Sobre o Édipoassediado é uma fantasia primordial que pode ser constatadano tratamento analítico dos homens neuróticos. • E, finalmente, se a fantasia de prazer é uma fantasia deafastar o pai rival, a ameaça de castração incide novamentesobre o pênis-Falo considerado a parte exposta do corpo. Aqui,o agente da ameaça é o pai odiado que intimida a criança paradeter seus impulsos parricidas. Eis, portanto, as três variantes da fantasia de angústia decastração. Na primeira, o pai é um repressor temido; na segun-da, é um tarado temido; e, na terceira, é um rival temido. Emtodos os casos, o agente da ameaça é o pai e o objeto ameaça-do, o pênis-Falo ou seu derivado, a virilidade. Resolução do Édipo do menino: a dessexualização dos pais O menino desiste da mãe porque tem medo de ser punido em sua carne, ao passo que a menina – como veremos – abandona a mãe que a decepciona e volta-se para o pai.A que leva à angústia de castração? Pois bem, é ela que preci-pita o fim da crise edipiana. Com efeito, dilacerado entre suasfantasias de prazer e suas fantasias de angústia, dividido entre aalegria e o medo, o menino é finalmente tomado pelo medo.A angústia, mais forte que o prazer, dissuade a criança de pros-seguir sua busca incestuosa e a leva a desistir do objeto de seusdesejos. Angustiada, a criança esquiva-se dos pais tomados comoobjetos sexuais para salvar seu precioso pênis-Falo, isto é, paraproteger seu corpo. Com a renúncia aos pais e a submissão à
  • 33. O Édipo do menino 37Lei do interdito do incesto, consuma-se assim o momentoculminante, o apogeu do complexo de Édipo masculino. Fi-nalmente, a criança consegue preservar seu Falo, mas ao preçode abandonar seus pais sexualizados. Em outros termos, sobameaça, o menino angustiado tem de escolher entre protegera mãe ou o pênis. Pois bem, é o pênis que ele protege e é a mãeque ele abandona. Ao renunciar à mãe, dessexualiza global-mente os dois pais e recalca desejos, fantasias e angústia. Ali-viado, pode agora abrir-se a outros objetos desejáveis, mas dessavez legítimos e adaptados às suas possibilidades reais. Somenteassim, separada sexualmente dos pais, a criança pode doravan-te desejar outros parceiros escolhidos fora de sua família. Comparado à mulher, o homem é visceralmente um covarde Quanto mais o menino for amado pela mãe, mais se tor- nará um homem viril. E quanto mais orgulhoso for de sua potência, mais se preocupará em defendê-la, suscetível quanto à sua virilidade e ridiculamente sensível ao menor “dodói”. Comparado à mulher, o homem é visceralmente um covarde.Gostaria aqui de esquematizar a seqüência da crise edipianado menino.Temos então três tempos: amor pelo pênis → angús-tia de perdê-lo → renúncia à mãe. Graças à angústia, o narcisismodo menino, isto é, o amor pelo próprio corpo, o amor por seupênis-Falo, prevaleceu sobre o desejo pelos pais. Sob ameaça,o narcisismo foi mais forte que o desejo ou, formulado em
  • 34. 38 Sobre o Édipooutras palavras, as pulsões de autoconservação venceram aspulsões sexuais. Insisto em dizer que essa vitória do narcisis-mo sobre o desejo foi precipitada pela angústia: não se esque-çam de que é por medo de se prejudicar que o menino seesquiva da mãe. Entretanto, a angústia será recalcada, e, fre-qüentemente, mal recalcada. Com efeito, veremos que a neu-rose na idade adulta é o retorno da angústia de castração malrecalcada na infância. Porém, fora desse retorno neurótico, éincontestável que a angústia de castração permanece onipre-sente na relação normal que um homem mantém com seusórgãos genitais e, mais genericamente, com sua virilidade.Apesar de seu recalcamento pela criança edipiana, a angústia,pivô do Édipo do menino, marca para sempre a condiçãomasculina. Com isso, podemos deduzir o quanto a angústiaestá no centro da vida de um homem. Ela impregna tão for-temente o caráter masculino que não hesito em dizer, e aclínica o comprova, que o homem é uma criatura particular-mente medrosa diante da dor física, e preocupado em garan-tir permanentemente sua virilidade e sua potência. O homemé essencialmente um ser aflito com a perda do poder quejulga possuir, ou, para dizê-lo em uma síntese caricatural, ohomem é um covarde. Sim, reconheço, nós, homens, somosvisceralmente covardes; e essa covardia vem do medo; e omedo vem do narcisismo excessivo do corpo, da atenção in-quieta e febril que dirigimos ao nosso corpo. Esclareçamos,da atenção que dedicamos não à aparência ou à beleza docorpo, mas ao seu vigor e, sobretudo, sua integridade. A pro-pósito, ocorre-me aqui uma imagem divertida inspirada naspartidas de futebol, quando os jogadores formam a barreira
  • 35. O Édipo do menino 39para bloquear um tiro direto. Nesse momento, por reflexo,colocam as duas mãos cruzadas sobre o sexo para se protege-rem da bola. É uma imagem burlesca, que lembra uma fileirade menininhos, todos preocupados com seus corpos, e é tam-bém uma ilustração clara da maneira como o homem viveseu sexo como seu mais íntimo calcanhar-de-aquiles. Porémo mais engraçado desse instantâneo futebolístico é constatarque, quando o jogador da equipe adversária bate finalmente afalta, os defensores da barreira, sempre preservando seu sexo,desequilibram-se espontaneamente como se tivessem medode ser atingidos pela bola, e, às vezes, contra toda a expectati-va, saltam no lugar para evitar serem atingidos pela bola, cor-rendo o risco de deixá-la passar entre as pernas e vê-la nofundo das redes! Preocupados em se preservar, negligen-ciam sua missão, que é bloquear a bola. Da mesma forma,quando sua virilidade está em perigo, o homem fica tão preo-cupado em protegê-la quanto o jogador em proteger seu sexo.Ele pode arriscar tudo, até sua vida, mas nunca seu orgulhode ser viril. Ora, quem são as criaturas que, na vida de umhomem, podem fazer-lhe mal, tomar-lhe o poder, ameaçarsua virilidade ou humilhá-lo senão o pai admirado e temidoou a mulher, isto é, a mulher que rivaliza com ele? Quempode roubar-lhe a potência senão o pai admirado ou a mu-lher rival? Em todo caso, não a mãe. Ao contrário, a mãealimenta sua força e o persuade sobre o destino excepcionalque o espera... Eis por que recomendo sempre às mães queexprimam ao filho toda a confiança que depositam nele e oapóiem em seus projetos. Sobretudo que não o apóiem noque diz respeito à sua beleza ou sua imagem, mas ao seu poder
  • 36. 40 Sobre o Édipode fazer e criar. Com efeito, repetir para ele que ele é bonitoe simpático antes reforçaria seu “mau” narcisismo, o da ima-gem, e enfraqueceria seu eu. Não, decididamente, não é amãe que ameaça o homem, são antes o pai idealizado e a mãevingadora. Em suma, para o homem, o sexo, a virilidade e aforça são as coisas a serem defendidas a todo custo.Os frutos do Édipo: o supereu e a identidade sexualUma vez resolvido – eu deveria dizer insuficientemente re-solvido, uma vez que a dessexualização dos pais nunca é com-pleta e a angústia, nunca definitivamente recalcada –, ocomplexo de Édipo masculino terá duas conseqüências deci-sivas na estruturação da personalidade futura do menino: porum lado o nascimento de uma nova instância psíquica, osupereu, por outro a confirmação de uma identidade sexualnascida por volta dos dois anos de idade e afirmada mais soli-damente após a puberdade. O supereu é instituído graças aum gesto psíquico surpreendente: o menino abandona os paiscomo objetos sexuais e os mantém como objetos de identifi-cação. Uma vez que não pode mais tê-los como objetos deseu desejo, apropria-se deles como objetos do seu eu; na im-possibilidade de tê-los como parceiros sexuais, promete in-conscientemente ser como eles – em suas ambições, fraquezase ideais. Sem poder possuí-los sexualmente, assimila a moraldeles. É graças a essa incorporação que a criança integra osinterditos parentais que doravante imporá a si mesma. O re-sultado dessa passagem da sexualidade à moral é o que desig-
  • 37. O Édipo do menino 41namos supereu e os sentimentos que o exprimem: pudor, sensode intimidade, vergonha e delicadeza moral. O segundo fruto do Édipo é a assunção progressiva daidentidade sexual. Antes do Édipo, a criança tinha um conhe-cimento rudimentar e intuitivo acerca da diferença dos sexossem ainda ser capaz de se dizer menina ou menino ou afirmarque o pai é um homem e a mãe, uma mulher. No início doÉdipo, nem sempre ele consegue identificar o sexo de seu pai,de sua mãe ou de seus irmãos e irmãs. Não esqueçamos que,aos três anos, a linha divisória ainda não passa entre homem emulher, masculino e feminino, mas entre aqueles que têm oFalo e os que não o têm, entre os fortes e os fracos. Entretanto,o contexto familiar, social e lingüístico, bem como as sensa-ções erógenas que emanam de sua região genital e a sensaçãode ser atraído pelo pai de sexo oposto, são os fatores que insta-larão progressivamente as bases de uma identidade sexual quesó será realmente adquirida muito mais tarde, na época dapuberdade. É então que o jovem adolescente integrará a idéiade que o pênis é um atributo exclusivo do homem e, se jádescobriu a vagina, que a vagina é um atributo exclusivo damulher. Pouco a pouco, ele se forjará uma identidade sexualde homem e ao mesmo tempo descobrirá que a masculinidadee a feminilidade são antes de tudo comportamentos que nãocorrespondem necessariamente à realidade fisiológica eanatômica de um homem ou de uma mulher. Aprenderá as-sim que todos os seres humanos, em virtude de sua constitui-ção bissexual, possuem ao mesmo tempo característicasmasculinas e femininas. Daí concluirá, talvez, que a diferençasexual permanece um enigma que não cessa de nos interrogar.
  • 38. 42 Sobre o ÉdipoO leitor pode desde já se reportar à FIGURA 8 (p.126-7), queapresenta um quadro comparativo entre o tipo viril e o tipofeminino. Adianto que esse quadro deve ser lido como o con-junto dos traços dominantes que caracterizam o comporta-mento de um homem e o de uma mulher do ponto de vistado Édipo, e não como um conjunto de traços normativos. Resumo da lógica do Édipo do meninoAntes de abordar o Édipo da menina, gostaria de resumir asdiferentes fases atravessadas pelo menino edipiano, dando-lhea palavra.Vamos escutá-lo: “Tenho quatro anos. Sinto excitações penianas → Tenho o Falo e julgo-me onipotente → Desejo ao mesmo tempo possuir se- xualmente meus pais, ser possuído por eles e eliminar meu pai → Sinto prazer em fantasiar meus desejos incestuosos → Meu pai ameaça me punir me castrando → Vejo o corpo nu de uma menina ou o de minha mãe e constato a ausência de pênis → Sinto mais medo ainda de ser punido → Angustiado, prefiro renunciar a desejar meus pais e salvar meu pênis → Esqueço tudo: desejos, fantasias e angústia → Separo-me sexualmente de meus pais e adoto a moral deles → Começo a compreender que meu pai é um homem e minha mãe uma mulher e a saber pou- co a pouco que pertenço à linha dos machos → Mais tarde, na adolescência, minhas fantasias edipianas ressurgirão, mas meu supereu, muito severo nessa idade, vai se opor ferozmente a isso. Essa luta entre fantasias e supereu irá se manifestar por atitudes exageradas e conflituosas próprias da adolescência: pudor exa- cerbado, inibições, medo da mulher e desprezo por ela, bem como negação dos valores estabelecidos.”
  • 39. 2. O Édipo da menina
  • 40. • Tempo pré-edipiano: a menina é como um menino• Tempo da solidão: a menina sente-se sozinha e humilhada • Tempo do Édipo: a filha deseja o pai • Resolução do Édipo: a mulher deseja um homem• A mais feminina das mulheres tem sempre o pai dentro de si • Resumo da lógica do Édipo da menina
  • 41. Tempo pré-edipiano: a menina é como um menino*Vou dar seqüência à nossa lenda metapsicológica descreven-do-lhes os quatro tempos do Édipo feminino.Vocês vão logoperceber que entramos em um mundo completamente dife-rente daquele do Édipo masculino. Ao passo que em ummenino de quatro anos coexistem três desejos incestuosos –possuir, ser possuído e suprimir o Outro, na menina da mes-ma idade há apenas um desejo incestuoso no início: o depossuir a mãe, seguido mais tarde pelo de ser possuída pelo pai.Eu disse “possuir a mãe”, ainda que isso lhes pareça estranhopara uma menina. A esse propósito, um esclarecimento. Serespeitamos a acepção corrente da palavra “Édipo” como aatração erótica da criança pelo genitor do sexo oposto, nãopodemos dizer que a menininha que deseja possuir a mãeesteja no Édipo; ela vive antes um pré-Édipo consideradonecessário para acessar o pai e entrar efetivamente no Édipo.Portanto, é sexualizando inicialmente a mãe que a meninapoderá em seguida sexualizar o pai. Eis por que Freud chama* A FIGURA 3 (ver p.64) acompanha a leitura deste Capítulo 2. 47
  • 42. 48 Sobre o Édipoa etapa preparatória da sexualização do pai de “fase pré-edipia-na”. Já o menino não precisa dessa fase preliminar, uma vezque deseja desde logo o genitor do sexo oposto, isto é, a mãe;e a mãe será o único objeto de seu desejo edipiano. Acabo dedizer que o menino sempre tem a mãe como objeto, apesarde, a propósito da fantasia de sedução do menino, ter-lhesmostrado que o pai também pode ser objeto do desejo dofilho. Entretanto, classicamente falando, deveríamos dizer queo menino deseja apenas um único objeto sexual, a mãe; aopasso que a menina deseja ambos: antes a mãe, depois o pai. Estamos na aurora do século XXI e sou obrigado a evocaras incontáveis e apaixonantes discussões travadas pelos psica-nalistas nos anos 1930 acerca da importância da fase pré-edi-piana na vida de uma mulher. Com efeito, essa fase é essencialpara compreendermos a problemática das pacientes neuróti-cas que recebemos todos os dias. Quando escuto uma mulher,penso sempre na relação dela com a mãe, e, paralelamente,quando escuto um homem, penso mais freqüentemente emsua relação com o pai. Claro que estou em vias de expor umateoria do Édipo, mas gostaria de fazê-los perceber a incidên-cia do Édipo na clínica e sobretudo fazê-los compreender queo problema das neuroses reside no difícil retorno à idade adul-ta de um Édipo invertido, isto é, do que era na infância a atraçãosexual pelo genitor do mesmo sexo. A menina se neurotizaportanto mais facilmente a partir de sua relação com a mãe, eo homem se neurotiza mais facilmente a partir de sua relaçãocom o pai. Assim, deveríamos dizer que a neurose masculinaresulta de uma fixação do filho pelo pai e a feminina, de umafixação da filha pela mãe. Se, como analista, você escuta um
  • 43. O Édipo da menina 49homem neurótico, pense sobretudo no pai dele; e, na presençade uma mulher neurótica, pense antes em sua mãe. Deixemos agora a clínica e consideremos por um instantea expressão consagrada: “entrar no Édipo”. Quando diremosque uma menininha entra no Édipo? Nossa resposta é dife-rente da relativa ao menino. Este entra diretamente no Édipoporque desde logo deseja sua mãe e abandona o Édipo quan-do deseja outra mulher que não sua mãe. A menina, por suavez, entra no Édipo (isto é, sexualiza seu pai) após ter atraves-sado a fase pré-edipiana durante a qual sexualiza, e depoisrejeita, sua mãe, e abandona o Édipo quando deseja outro ho-mem que não seu pai. Uma segunda dessimetria entre o me-nino e a menina diz respeito à velocidade com que eles saemdo Édipo. O menino, como vimos, dessexualiza simultanea-mente seus dois genitores de maneira rápida e brutal, ao passoque a menina dessexualiza primeiro a mãe e só depois, maistarde, muito lentamente, separa-se sexualmente do pai. Omenino sai do Édipo em um dia, a menina precisa de muitosanos. Assim, poderíamos dizer que o menino torna-se ho-mem de uma tacada só, ao passo que a menina torna-se mulherprogressivamente. Mas voltemos ao período pré-edipiano, quando a meninadeseja a mãe como objeto sexual, adotando perante ela a mes-ma atitude que o menino edipiano. Assim como ele, ela julgadeter um Falo e mostra, por seus comportamentos, ser guiadapor fantasias de onipotência fálica e prazer nas quais desem-penha um papel sexual ativo em relação à mãe. Exatamentecomo o menino, ela se sente feliz, forte e orgulhosa; é curiosa,às vezes voyeurista, exibicionista e agressiva. Em suma, duran-
  • 44. 50 Sobre o Édipote esse período, a menina é animada pelo desejo incestuosode possuir a mãe, regozija-se por tê-la toda para si e adotauma posição nitidamente masculina, similar à do menino. Tempo da solidão: a menina sente-se sozinha e humilhadaOra, ocorrerá um acontecimento crucial que ofuscará o ino-cente e insolente orgulho da garotinha radiante por se sentironipotente. Da mesma forma que o menino descobre, visual-mente e angustiado, a ausência de pênis no corpo feminino, amenina constata a diferença de aspecto entre seu sexo e o domenino. A reação da menina é imediata; fica decepcionadapor não ter o mesmo apêndice que o menino:“Ele tem algu-ma coisa que eu não tenho!” Até então fiava-se em suas sen-sações de poder vaginal e clitoridiano, que a confortavam emseu sentimento de onipotência. Agora que viu o pênis, duvi-da de suas sensações e julga que a fonte do poder não estánela, mas no corpo do outro, no sexo do menino. O impactoda visão do pênis, portanto, foi mais forte que a manifestadaem suas sensações erógenas.A imagem desconcertante do pênisprevaleceu sobre seus sentimentos íntimos; o que ela viu abo-liu o que ela sentia. A menina vê-se assim dolorosamentedespossuída, pois o cetro da força não é mais encarnado porsuas sensações erógenas, mas pelo órgão visível do menino.Agora o Falo está no outro e assume doravante a forma deum pênis. É então que, brutalmente, uma imensa ilusão des-morona, provocando um pungente dilaceramento interno.
  • 45. O Édipo da menina 51Chamo essa fantasia, na qual a menina sofre com a dor de tersido privada do precioso Falo, de “fantasia de privação”, ou,mais exatamente, “fantasia da dor de privação”. Enquanto omenino vivia a angústia de ter a perder, a menina vive a dorde ter perdido; enquanto o menino teme uma castração, amenina se ressente de uma privação. Lembrem-se, a fantasia que levou à resolução do Édipono menino é uma fantasia de angústia. Temendo perder oFalo venerado que julga deter, o menino é levado a preferiro pênis à mãe. Para a menina, é radicalmente diferente: elanão tem medo de perder, uma vez que acaba de constatarque não tem pênis e que nunca o terá. Ao contrário do meni-no, ela nada tem a perder. Não, ela não receia perder, nãosofre de angústia, sofre de dor, a dor de ter sido privada. Ve-jam, a angústia prevalece no menino e a dor, na menina. Masdor por quê? Claro, dor por ter sido privada de um objetoinestimável que ela julgara possuir, mas sobretudo por ter sidoenganada. Sim, a menininha sente-se enganada.Alguém todo-poderoso teria mentido para ela fazendo-a acreditar que eladetinha o Falo e que o conservaria eternamente. Mas quem éesse alguém senão sua própria mãe? Uma mãe ontem onipo-tente e que agora se revela impotente para lhe dar um Faloque ela própria não tem nem nunca teve. Sim, sua mãe tam-bém é tão desprovida quanto ela, merecendo apenas desprezoe recriminações. É nesse exato instante que, despeitada, a menina esquiva-se da mãe e, em sua solidão, fica furiosa por ter sido privada eenganada. A dor de ter sido privada e a de ter sido enganadanão passam na verdade de uma única e mesma dor, a qual
  • 46. 52 Sobre o Édipochamo “dor da humilhação”, isto é, sentir-se vítima de umainjustiça e julgar a auto-imagem ferida. Aqui, a privação e oamor-próprio ferido confundem-se em um único sentimen-to, o da humilhação. A experiência da privação foi vividacomo uma ofensa irreparável ao “legítimo” orgulho de pos-suir o Falo, como um golpe humilhante infligido em seu nar-cisismo. Havíamos dito que, para o menino, o objeto narcísicopor excelência é seu precioso órgão, o pênis-Falo, e que suaopção por salvá-lo leva-o a renunciar aos pais. Para a menina,ao contrário, o objeto narcísico por excelência não é umaparte de seu corpo, é seu amor-próprio, a imagem cativantede si mesma. O Falo, para a menina, não é o pênis, mas aimagem de si. Ora, a reação imediata ao amor-próprio feridoé reivindicar à mãe o que lhe é devido e se queixar do prejuí-zo que sofreu. Apenas mais tarde, quando a filha desejar o pai,chegará a época da reparação, da pacificação e da reconcilia-ção com a mãe. Por ora, a menininha está só, pois não temmais pais para quem se voltar: rejeitou a mãe e ainda nãorecorreu ao pai. É um período de negra solidão, em que amenina chora seu narcisismo ofendido. Resumindo, se o menino sai do Édipo para proteger seunarcisismo, eu diria que a menina entra no Édipo, vai ao encon-tro do pai para pedir-lhe que faça um curativo em seu narci-sismo ferido. Formulemos de outra maneira. Para o menino, asalvaguarda de seu pênis-Falo interrompeu o impulso inces-tuoso em direção à mãe, ao passo que a necessidade de con-solação desperta na menina um novo desejo, o de ser possuídapelo pai. Ela abandona a mãe, e, para ser consolada, procura opai na esperança de ser possuída por ele. No caso do menino, o
  • 47. O Édipo da menina 53narcisismo do corpo interrompe o Édipo; no caso da menina, o narci-sismo da imagem de si abre para o Édipo. A inveja ciumenta de deter o FaloVoltemos, porém, um pouco, ao momento em que a meninadescobre no menino o pênis-Falo que ela não tem. Ela sofre,sente-se lesada em seu amor-próprio e reivindica, exige mes-mo, o que lhe cabe: “Quero esse Falo que me tomaram e oterei nem que tenha que arrancá-lo do menino!”, ela exclama.Essa reivindicação mostra muito bem que a dor da humilha-ção comutou-se em fúria invejosa de deter o Falo. A menina édesde então presa de um sentimento que a psicanálise chama“inveja do pênis” e que prefiro chamar de “inveja do Falo”para enfatizar que a menina não inveja o órgão peniano domenino, mas o símbolo de potência por ele encarnado aosolhos das crianças. O pênis não a interessa, e, às vezes, inclusivea repugna; o que a interessa e apaixona é o poder que ela lheatribui e que a deixa com inveja. Mas atenção! Inveja não ésinônimo de desejo. A inveja não é o desejo. Uma coisa é inve-jar o Falo, outra é desejar o pênis de um homem. Vejam,a menininha tem inveja do Falo, mas a mulher deseja o pênis; ainveja é um sentimento pueril, ao passo que o desejo de pênisé um impulso próprio da maturidade. Assim, para que umamenina venha a desejar o pênis de um homem, deve primeirotransformar-se em mulher, amadurecer seu Édipo, isto é, pri-meiro sexualizar seu pai e separar-se dele, para, mais tarde, tor-nar-se a companheira que goza do corpo e do sexo do homemamado. Não, a inveja do Falo é a inveja infantil e ciumenta de
  • 48. 54 Sobre o Édipouma criança magoada, vingativa e nostálgica, que quer recu-perar o símbolo do poder de que julga ter sido despossuída.Observem que, nesse duelo imaginário, ela luta de igual paraigual com o menino e adota uma posição de rivalidade viril. Tempo do Édipo: a filha deseja o paiEis que agora um novo personagem entra em cena: é o paimaravilhoso, grande detentor do Falo. É quando a menininhamagoada e sempre ciumenta volta-se para ele a fim de serefugiar e se consolar, mas também para lhe reivindicar seupoder e sua potência. Quer ser tão forte quanto seu pai ebrandir o Falo que a tornaria novamente senhora dos serese das coisas. A tal pretensão, o pai todo-poderoso de sua fan-tasia opõe uma recusa inapelável, dizendo-lhe: “Não, nunca lhe darei a chama da minha força, uma vezque ela cabe à sua mãe!” Naturalmente o pai que fala assim éum personagem caricatural, é o pai fantasiado por uma crian-ça caprichosa e intransigente. Não, um pai adulto nunca fala-ria dessa forma. Se tivesse de responder a uma demanda tãopueril, antes replicaria: “Não, minha filha, não posso lhe dar opoder absoluto que você me atribui pela simples razão deque ele não existe. O Falo que você me pede é um sonhode criança, ainda que esse sonho seja uma velha quimera quelevou os homens a se amarem, mas freqüentemente a se des-truírem. Não, ninguém tem o Falo, e ninguém nunca o terá.Meu único poder, minha filha, meu mais dileto poder, é opoder supremo de desejar viver, de lutar a cada instante parafazer o que tenho de fazer, de amar o que faço e tentar transmi-
  • 49. O Édipo da menina 55tir-lhe esse desejo. Cabe a você depois transformá-lo em de-sejo feminino de amar, parir e criar.” Essa recusa irrevogável do pai é recebida pela filha comouma bofetada que põe fim a toda esperança de um dia con-quistar o mítico Falo. Ela acaba de compreender que nunca oterá e, não obstante, não se resigna. Ao contrário, lança-seagora, com toda a fúria de seu desejo juvenil, nos braços dopai, não mais para lhe arrancar o poder, mas para ser ela mes-ma a fonte do poder. Sim, ela queria ter o Falo, mas agoraquer ir mais longe, quer sê-lo, ser a coisa do pai. Que significaisso? Isso significa que a menina quer ser, ela própria e porinteiro, o Falo precioso. Em outros termos, quer se tornar afavorita do pai. Em virtude do “não”, primeira recusa pater-na, a inveja ciumenta de deter o Falo do pai dá lugar agora aodesejo incestuoso de ser possuída por ele, ser o Falo do pai.Quando a menina era invejosa, adotava uma posição masculi-na, agora que é desejante engaja-se em uma posição femi-nina. Ao sentimento masculino de inveja sucede o desejofeminino de ser possuída pelo pai. Assim, ao sexualizar o pai, ator principal de suas fantasias,a menina entra efetivamente no Édipo. Por sinal, a fantasia deprazer que melhor ilustra o desejo edipiano de ser possuídapelo pai é a de ser sua mulher, esperança freqüentementemanifestada por essa frase: “Quando ficar grande, vou me ca-sar com papai!” Essa entrada no Édipo é também o momentoem que a mãe, após ter sido afastada, volta à cena e fascina afilha por sua graça e feminilidade. Com efeito, a mãe, antestão desacreditada, é agora admirada como mulher amada emodelo de feminilidade. Espontaneamente a menina entãoaproxima-se da mãe e identifica-se com ela, mais exatamente
  • 50. 56 Sobre o Édipocom o desejo da mãe de agradar seu companheiro e ser ama-da por ele. O comportamento edipiano da menina inspira-seplenamente no ideal feminino encarnado pela mãe; a criançaé toda olhos e ouvidos na observação da mãe e no aprendiza-do da arte de seduzir o homem. É a idade em que as filhasadoram observar a mãe se maquiando ou se embelezando –ainda que a admiração pela mãe seja duplicada por uma forterivalidade: toda mãe é então, para a filha, tanto um ideal quantouma temível rival. Assim, realiza-se o primeiro movimentode identificação da filha com o desejo da mãe, o de ser amulher do homem amado e dar-lhe um filho. Resolução do Édipo: a mulher deseja um homemDa mesma forma que o pai recusou o Falo à sua filha, nega-se agora, com a mesma firmeza, a tomá-la como objetosexual, a considerá-la como seu Falo, isto é, a possuí-la inces-tuosamente. Depois que a primeira recusa – “Não lhe dareiminha força!” – permitiu à filha aproximar-se da mãe e comela identificar-se, a segunda – “Não a quero como mulher!” –leva a filha a identificar-se com a pessoa do pai. Com efeito,produz-se um fenômeno curioso, mas perfeitamente saudá-vel, no desenvolvimento do Édipo feminino: uma vez que amenina não pode ser o objeto sexual do pai, quer ser entãocomo ele. “Já que não quer saber de mim como mulher, en-tão vou ser como você!” Que significa isso? Que a meninaaceita recalcar seu desejo de ser possuída pelo pai, sem comisso renunciar à sua pessoa. Enquanto o menino edipiano re-signa-se a perder a mãe por covardia, por sua vez, a menina,
  • 51. O Édipo da menina 57que nada mais tem a perder, obstina-se audaciosamente a seapoderar do pai. Ela queria ter o Falo, recusaram-lhe; ela quissê-lo, foi despachada; agora basta, quer tudo, quer o pai porinteiro e o terá! Eis por que digo que a dessexualização do paié, no fundo, um luto: a menina chora o pai sexualizado e o fazreviver dessexualizado nela. Assim como o enlutado, que, nasaída do luto, acaba por se identificar com o defunto, a meni-na, tendo renunciado ao pai fantasiado, acaba por se identifi-car com a pessoa do pai real. Ela mata seu pai fantasiado, maso ressuscita como modelo de identificação. Em outras pala-vras, a menina deixa de considerar o pai desejável em suasfantasias edipianas e incorpora sua pessoa no eu. Assim, im-pregna-se de atitudes, gestos e até mesmo desejos e valoresmorais que caracterizam seu pai no real. Ela é “o retrato es-carrado do pai”. Identificada com os traços masculinos do paidepois de se ter identificado com os traços femininos da mãe,a menina enfim abandona a cena edipiana, abrindo-se agorapara os futuros parceiros de sua vida de mulher. Notem queas duas identificações constitutivas da mulher – identificaçãocom a feminilidade da mãe e identificação com a virilidadedo pai – foram desencadeadas por duas recusas do pai: recusade dar o Falo à filha e recusa de tomá-la como Falo. Mas mudemos o tom. O cara a cara a que acabamos deassistir, opondo a filha edipiana ao pai, inspirou-me esse brevee animado diálogo entre nossos dois heróis legendários. Apres-so a adverti-los que o pai da cena seguinte é um homemsaudável e apaixonado pela mulher! A menina: Pai, dê-me sua força! O pai: Não! Não farei nada disso. Não lhe darei minha força. Dou-a à sua mãe.
  • 52. 58 Sobre o Édipo A menina: Mas então eu queria ser sua força! Por favor, deixe- me ser sua musa, a fonte ardente de sua força. Pai, eu suplico! Olhe para mim! Sou seu objeto mais precioso. Possua-me! O pai: Não! Está fora de questão! Você não é minha mulher. Já lhe recusei minha força, e aceito ainda menos que você seja a fonte dela. A menina: Já que é assim, já que você me priva de sua força e não me deixa ser sua musa, então vou me apoderar de você e ser como você, o que me diz disso? Melhor que você! Sim, vou devorá- lo inteirinho e me parecer com você a ponto de andar como você, ter o nariz como o seu, a intensidade do seu olhar, o brilho da sua inteligência ou o ardor da sua ambição. Então serei tão forte quanto você, e, você verá, muito mais forte! Eis a avidez juvenil, a vontade pugnaz de uma meninaque só terá fim quando realizar seu desejo de ser amada e,chegado o momento, esperar um filho. Amar e transmitir avida, definitivamente, é a missão mais digna que a naturezaatribui à mulher. Como se a natureza – se de fato existe umaentidade chamada natureza – a encorajasse, intimando-lhe:“Defenda o desejo com o bico e as garras, proteja o amor egaranta a transmissão da vida!” Antes de prosseguir, gostaria de lhes dizer o quanto a lite-ratura analítica sobre o Édipo feminino é imensa, rica e reple-ta de questões. Entretanto, todos os autores convergem para amesma conclusão, isto é, que a feminilidade permanece umenigma não-resolvido. Porém, uma vez reconhecida nossa ig-norância, nem por isso avançamos muito. Da minha parte, tenteiaprofundar a lenda da menina edipiana, modelar sua história epropor um roteiro claro e detalhado para ela, um roteiro inspi-rado pela teoria psicanalítica e a escuta dos meus pacientes.Quis dramatizar minha intuição de que a menina, ao contrá-
  • 53. O Édipo da menina 59rio do menino, era animada por uma sede inextinguível deamor e que o crescendo de seu Édipo – “Dê-me! Pegue-me! eEu o devoro!” – não passava da escalada irresistível de umdesejo que perpassa todas as fibras de sua feminilidade. A mais feminina das mulheres tem sempre o pai dentro de si “Meu pai deixou seu selo em mim: ele impregnou meu desejo, modelou a forma do meu nariz, marcou o ritmo dos meus passos, e, apesar disso, sinto-me a mais feminina das mulheres.” DECLARAÇÃO DE UMA PACIENTEGostaria de me deter ainda por um instante na identificaçãoda filha com a pessoa do pai. Do ponto de vista clínico, vocêsnão imaginam a importância do pai fantasiado na vida de umamulher. Ao escutarem uma mulher sofredora, indaguem-se duas coisas. Em primeiro lugar, como já disse, indaguem-sesobre o laço, freqüentemente conflituoso, que ela estabeleceucom o genitor do mesmo sexo, isto é, com sua mãe; depois,indaguem-se qual é o pai que está dentro dela. Sim, uma mu-lher tem sempre seu pai dentro de si. Sempre que escuto umapaciente, ocorre-me a idéia de que é habitada pelo pai. Segu-ramente essa identificação não é válida para todas as mulheres,mas quando ela se confirma, e se você for um bom observa-dor, você descobre facilmente o pai nas expressões distraídasdo rosto de sua paciente, nas rugas de sua testa, na rudeza desuas mãos, na forma de seu nariz e, sobretudo, em sua maneira
  • 54. 60 Sobre o Édipoespontânea de se comportar e andar. Não é incomum umamulher adotar inconscientemente o mesmo meneio de cabe-ça e a mesma postura do pai. Incontestavelmente, o pai fanta-siado ocupa um lugar central na vida de uma mulher. Aqui, penso em uma situação familiar mais clássica. Umavez identificada com o pai, a filha pode não suportar mais seuverdadeiro pai, seu pai de carne e osso. Freqüentemente, seaborrece com ele e o critica por seus defeitos e fraquezas, ou,simplesmente, por ser o que é. Assim, o pai, quero dizer overdadeiro pai, o pai que somos, tem diante de si, na pessoa dafilha, a encarnação de seu próprio supereu. Sua filha tornou-se para ele, sem que ela o saiba, seu mais temível rival, e ele,para ela, seu mais intolerável espelho. Uma última observação sobre a patologia da identificaçãoda filha com o pai. Quando essa introjeção não é contraba-lançada pela identificação com a mãe, instala-se uma das neu-roses femininas mais tenazes, que designo como histeria deamor, que consiste em uma rejeição do laço amoroso. A mu-lher inteiramente tomada pelo pai fantasiado não consegueempreender uma relação amorosa duradoura; todos os seusreceptores de amor estão saturados pela onipresença paterna.Ela não tem namorado mas continua fortemente impregnadapelo pai amado; está sozinha e insatisfeita, mas arrebatada porsua paixão secreta. Não é nem vingativa nem odiosa a respei-to do homem, simplesmente aposentou-se da vida amorosa esexual. Resumindo, prefere preservar seu pai interior a se lan-çar em uma relação afetiva, sempre frágil, em que se senteexposta ao risco de ser abandonada. Porém, salvo essa eventual deriva neurótica resultante deuma intensa identificação com o pai, a menina se apropriará
  • 55. O Édipo da menina 61diversamente dos traços femininos e masculinos assimiladosao mesmo tempo da mãe e do pai. Este é precisamente odesfecho mais freqüente do Édipo feminino. O fim do Édipoé, com efeito, um comprido caminho, ao longo do qual amenina, ao se tornar mulher, adotará traços masculinos e fe-mininos e transformará progressivamente seu desejo de serpossuída pelo pai em desejo de ser possuída pelo homemamado. Opera-se assim uma lenta dessexualização da relaçãoedipiana com o pai e, correlatamente, a assunção de sua iden-tidade feminina. Como então é resolvido o Édipo da menina? Proponho-lhes o que poderia ser seu desenlace ideal. A fantasia dolorosade ter sido privada de um Falo todo-poderoso encerrou-sedefinitivamente. Agora, a jovem em seu devir mulher esque-ceu-se completamente da alternativa pueril de ter ou não tero Falo. Ela não mede mais seu ser nem seu sexo com a réguade um suposto Falo masculino. Ela fez o luto do Falo ilusórioe constata que seu sexo é diferente da falta de um Falo desa-parecido. Assim, supera a idéia infantil que faz da mulher umacriatura castrada e inferior e pára de recriminar a mãe e derivalizar com o homem. A menina descobre a vagina, o dese-jo de ser penetrada e gozar com o pênis na união sexual; damesma forma, descobre o útero e seu desejo de carregar umfilho do homem amado. Mais uma palavrinha, antes de concluir, a fim de dissiparum mal-entendido corriqueiro: que a psicanálise, fundadorado conceito de Falo, concebia a mulher como uma criaturacastrada e inferior! Isso é um absurdo! A única coisa que apsicanálise fez – e foi uma verdadeira revolução – foi descobrirque os seres humanos são habitados por fantasias tão mórbidas
  • 56. 62 Sobre o Édipoquanto o mais nefasto dos vírus, e que a mais virulenta dessasfantasias é representar a mulher como uma criatura castrada einferior. Essa fantasia é antes de tudo uma quimera infantil. Seimuito bem que essa representação pueril está igualmente ins-talada na cabeça de vários adultos neuróticos. São justamenteos neuróticos que acham que a mulher é uma criatura castrada –quando, evidentemente, isso é falso. O sexo de uma mulhernão é de forma alguma a falta do que quer que seja! A mu-lher tem seu próprio sexo, e tem orgulho dele; quer se trate desua vagina, de seus seios, de sua pele ou de todo o seu corpoerógeno, a mulher é feliz por ser o que é. Mas por que dizerque o neurótico, homem ou mulher, considera a mulher umacriatura inferior? Porque é dele próprio que se trata; é ele amulher fraca! Fixado em sua fantasia infantil, o neurótico vivesob a ameaça de ser castrado. Assim, todas as suas relações afe-tivas são vividas no modo defensivo: está sempre de prontidãopara bloquear qualquer abuso ou humilhação proveniente da-queles que o cercam, daqueles de quem depende e... de quemele não gostaria nem morto de depender. É como se, em suasfantasias, o neurótico se dissesse: “Eles não me terão! Não souuma mulherzinha!” Decerto a psicanálise postula que o Faloexiste e que a mulher é castrada, mas, vocês entenderam, o Faloé uma ilusão e a mulher é castrada tão-somente na imaginaçãoinconsciente das crianças e dos neuróticos. Resumo da lógica do Édipo da meninaA exemplo do menino que nos contou sua travessia edipiana,escutemos agora o depoimento da menina:
  • 57. Tempo “Tenho quatro anos. Sinto excitações clitoridianas → Tenho o Falo, tenho A meninapré-edipiano orgulho dele e julgo-me onipotente → Assim como um menino, desejo é um possuir minha mãe → menino Na frente de um garotinho nu, descubro que não tenho Falo → Sofro por Tempo ser privada dele → Constato que minha mãe também é desprovida dele → A menina da solidão Critico-a por ter-me feito acreditar que ambas o tínhamos → Logo, ela me sente-se enganou → Despeitada, abandono minha mãe → Agora sinto-me sozinha e humilhada humilhada. Estou ferida em meu amor-próprio → Invejo o menino → Volto-me agora para o meu pai, grande detentor do Falo → Sempre ciu- menta e invejosa, peço-lhe que me dê o Falo – Ele me recusa o Falo → A menina Tempo Constato que nunca o terei → Peço a meu pai para me consolar → Minha deseja do Édipo inveja transformou-se em desejo. Não quero mais ter o Falo do meu pai, o pai quero sê-lo; quero ser a favorita do meu pai → Então identifico-me com minha mãe enquanto mulher desejada e modelo de feminilidade → Dese- jo ser possuída pelo meu pai → Meu pai se recusa → Dessexualizo meu pai, mas incorporo sua pessoa Resolução → Pouco a pouco torno-me mulher e me abro para o homem amado → A mulher do Édipo Paro de medir meu sexo pela régua de um mítico Falo e descubro a vagina, deseja o útero e o desejo de ter um filho do meu companheiro.” um homem
  • 58. 3. Perguntas e respostas sobre o Édipo
  • 59. De que problema o conceito de Édipo é a solução?O sr. afirma com freqüência que um conceito psicanalítico é aresposta a uma questão. Qual seria a questão que leva ao Édipo?*Perfeito! Um conceito psicanalítico só tem valor caso se de-monstre indispensável à coerência da teoria e à eficácia denossa prática. Princípio ainda mais verdadeiro quando se tratade noção tão capital quanto a que acabo de expor. De queproblema, então, o Édipo é a solução? Para mim, o Édiporesponde a duas questões: como se forma a identidade sexualde um homem e de uma mulher e como uma pessoa torna-se neurótica. Logo, o problema cuja solução é o Édipo é o daorigem da nossa sexualidade de adulto e, mais além, da ori-gem dos nossos incontáveis sofrimentos neuróticos. Essas duasquestões, sexualidade e neurose, estão tão intimamente im-bricadas que podemos dizer que a neurose resulta de umasexualidade infantil perturbada, interrompida em sua maturi-dade, hipertrofiada ou, ao contrário, inibida. No fundo, o Édipo* As perguntas que respondo foram redigidas a partir das intervenções dosouvintes que assistiram às diferentes exposições orais que realizei sobre otema do Édipo. 67
  • 60. 68 Sobre o Édiponos serve para compreender como um prazer erótico apodera-se de uma criança de quatro anos para se transformar em umsofrimento neurótico que atormenta o homem ou a mulherde quarenta anos que ela se tornou. Gostaria agora de formular a mesma idéia mas lembrandoa vocês o que levou Freud à descoberta do Édipo. De ondeele tirou a idéia do Édipo? Da observação das crianças? Emabsoluto. Decerto estava atento a seus comportamentos, masnão foi estudando a relação pais-filhos que concebeu a noçãode Édipo, ainda que a realidade familiar, seja de ontem, seja dehoje, confirme cotidianamente a descoberta freudiana. Não,não foram as crianças que introduziram o Édipo. Devemosentão supor que a invenção freudiana decorre da auto-análisede Freud. Efetivamente, foi ao sonhar, analisar seus sonhos,evocar sua infância e dirigir por escrito essas reflexões ao amigoe correspondente Wilhelm Fliess que Freud elaborou o Édi-po; um Édipo dominado essencialmente pelo desejo parrici-da e pela culpa daí resultante, na medida em que a idéia doÉdipo foi exposta pela primeira vez no mesmo ano, 1897, damorte de Jacob Freud, seu pai. Entretanto, não foi a partir desua introspecção que Freud apreendeu o essencial desse con-ceito nodal da psicanálise. Minha hipótese é bem outra. Sub-meto-a a vocês. O Édipo é uma invenção forjada por Freudna escuta de seus pacientes adultos. Deixem-me agora pro-por-lhes uma ficção. Estamos em Viena em 1896, no consultório da Berggasse19, no momento em que Freud recebe uma paciente histéri-ca que lhe fala de sua infância. Ao mesmo tempo em que aescuta atentamente, Freud busca confirmar a tese que elabo-
  • 61. Perguntas e respostas sobre o Édipo 69rara recentemente sobre a etiologia da histeria. Com efeito,por essa época ele acha que a histeria é provocada pela inca-pacidade do paciente de recordar um trauma sexual ocorridonos primeiros anos de sua vida. Criança, Freud reflete, a pa-ciente teria sofrido um abuso sexual cometido por um adul-to. E seria o esquecimento tenaz dessa cena de sedução que ateria tornado neurótica. Enquanto permanecer recalcada noinconsciente, a cena de sedução traduz-se em sintomas quecausam sofrimento; mas basta torná-la consciente para queperca a virulência. Justamente, para curar a histeria, pensavaFreud, é preciso que as cenas de conteúdo sexual que jazemno inconsciente tornem-se conscientes, única condição paraque se enfraqueçam e deixem de ser um foco patogênico.Assim, Freud escuta a jovem histérica tentando saber se nainfância ela foi seduzida por um adulto e, em caso afirmativo,tentando fazê-la relatar os detalhes do incidente e sobretudoreviver seu vivido traumático. Muitos de vocês sabem que,anos mais tarde, Freud vai operar uma mudança capital emsua teoria, admitindo que essas famosas cenas de sedução nãohaviam necessariamente ocorrido, sendo antes fantasias ima-ginadas por seus pacientes. Assim, os sintomas neuróticos se-riam não a conseqüência de um abuso sexual realmente sofrido,mas de um abuso sexual fruto da fantasia e esquecido. Nofundo, seja um acontecimento real ou fantasiado, pouco im-porta, pensava ele, a cena de uma sedução sexual infantil, co-metida por um adulto perverso, permanece a verdadeira causada histeria, sob a condição, todavia, de que tenha sido recalcada.Lembrem-se que a histeria é principalmente uma doença doesquecimento, que a histérica é histérica porque não quer selembrar do que foi doloroso.
  • 62. 70 Sobre o Édipo Mas que relação há entre isso e o Édipo? Pois bem, achoque Freud descobriu o Édipo ao refletir no roteiro e nosatores que atuam na cena de sedução. No caso da neurose, amenina é seduzida por um homem perverso; no caso doÉdipo, a menina é seduzida pelo próprio pai. A cena fanta-siada de sedução na origem da histeria transformara-se, nopensamento de Freud, em uma cena fantasiada na qual acriança era seduzida pelo pai sem por isso ser vítima de umabuso sexual, sem por isso ficar siderada por um prazer deefeitos nocivos; bastava que um dos pais fosse mais carinhosoque de costume para que a criança sentisse esse excesso deternura como um estímulo erógeno e um prazer sexual muitointenso. Mas ter pensado no pai ainda não é a plena desco-berta do Édipo. Falta o elemento principal. Gostaria de sermuito claro neste ponto. Ao escutar sua paciente relatar umincidente sexual da infância, Freud imagina a cena, identifica-se com o personagem da criança seduzida e percebe queessa criança não é apenas passiva, é habitada pelo desejo ativode ser seduzida pelo pai. Sim, a chave do Édipo reside nodesejo incestuoso da criança de ser possuída pelo pai. Freuddescobriu o Édipo ao passar de uma cena de sedução naqual uma menininha assustada é a vítima passiva de umagressor adulto para a cena edipiana em que uma menininhainocente e sensual é a instigadora inconsciente que incita opai ou o irmão mais velho a desejá-la sexualmente. A crian-ça da cena de sedução é uma vítima, ao passo que a criançada cena edipiana é atormentada entre o desejo de ser seduzidae o medo de sê-lo, entre o medo de sentir o prazer e omedo de experimentá-lo.
  • 63. Perguntas e respostas sobre o Édipo 71 Agora que conhecemos o contexto da descoberta do Édi-po, podemos voltar à sua pergunta inicial: de que problemao Édipo é a solução? O Édipo é uma fantasia de sedução nabase da identidade sexual de todo homem e toda mulher:uma fantasia de prazer e de angústia. Em geral, essa fantasia émetabolizada pela criança, mas pode ocorrer de o prazer, aangústia ou a dor serem traumáticas e dificilmente recalcáveis,isto é, de as emoções vividas pela criança edipiana na situa-ção de sedução serem tão violentas que permaneçam ativase fomentem uma neurose na idade adulta. A fantasia edipia-na que não foi liquidada permanece virulenta, aflora à cons-ciência e se exterioriza repetitiva e compulsivamente na vidado neurótico.Com que idade uma criança sente prazer sexual pela primeira vez?Em primeiro lugar, uma evidência: o prazer sexual vivido poruma criança é de natureza diversa do que nós, adultos, expe-rimentamos. Dito isto, sabemos que na vida intra-uterina umfeto já pode ter ereções que nos permitem atribuir-lhe umavivência, se não de excitação sexual, pelo menos de frêmitogenital. Isso mostra como não há idade para o prazer sexual,sob a condição de que o corpo da criança esteja em contatocom um adulto igualmente excitado, desejante e sentindoprazer em se dedicar a ela, ainda que o mais terna e castamen-te possível. A esse respeito, tenho aqui algumas espantosas li-nhas de Freud, que gostaria de ler para vocês. Freud não hesitaem “identificar os sentimentos de ternura com o amor se-xual”. Afirma assim que “as relações entre a criança e a mãesão para esta uma fonte contínua de excitação e satisfação
  • 64. 72 Sobre o Édiposexuais, intensificando-se quanto mais ela demonstrar, para acriança, sentimentos que derivem de sua própria vida sexual:beijá-la, niná-la, considerá-la o substituto de um objeto se-xual pleno. É provável, prossegue Freud, que uma mãe fiquevivamente surpresa se lhe dissermos que, dessa forma, comsuas ternuras, ela desperta a pulsão sexual da criança. Ela julgaque seus gestos demonstram um amor assexual e puro no quala sexualidade não desempenha papel algum, uma vez que elaevita excitar os órgãos sexuais da criança além dos cuidadoscorporais exigidos. Mas a pulsão sexual, como sabemos, não édespertada apenas pela excitação da zona genital; a ternuratambém pode ser excitante. Ao lhes apresentar o Édipo, afirmei que a sexualidade es-tava no cerne do amor e do ódio familiares, porém, na passa-gem que acabo de ler, Freud vai muito mais longe, pois nãodiz que o sexual jaz na ternura, mas que a própria ternura éuma excitação sexual.Se é verdade que um bebê pode sentir prazer sexual nos braços damãe, poderíamos deduzir que o Édipo aparece bem antes dostrês ou quatro anos de idade?Esta é precisamente a posição de Melanie Klein, que postulaum Édipo precoce no recém-nascido; e a de Lacan, ao consi-derar que não haveria idade para o Édipo, uma vez que odesejo da criança não passa do prolongamento do desejo damãe; posição que é efetivamente a de Freud no trecho queacabam de ouvir. Logo, há uma diferença entre o Édipokleiniano e o Édipo freudiano. Para Melanie Klein, as pulsõeseróticas de um bebê incidem sobre a mãe percebida não como
  • 65. Perguntas e respostas sobre o Édipo 73uma pessoa global, mas como um objeto parcial; a mãe re-duz-se ao seio. O Édipo kleiniano pode ser um Édipo oral,anal etc. Para Freud, é diferente. O Édipo existe apenas se aspulsões eróticas da criança incidirem sobre a mãe ou o paicomo pessoas globais dotadas de um corpo, habitadas por umdesejo e suscetíveis de sentirem prazer. Enquanto para MelanieKlein o Édipo é oral ou anal, para Freud o Édipo está além dopré-genital e aquém do genital, sendo acima de tudo fálico.Como se dá o Édipo quando a mãe vive sozinha com o filho?Plenamente, sob a condição de que a mãe seja desejante. Poucoimporta que a mãe viva sozinha, o que conta é que seja ape-gada a alguém, que deseje alguém; e, no caso de não ter ne-nhum parceiro amoroso, o que conta é que seja interessadapor outra coisa que não o filho, que o amor pelo filho nãoseja o único amor de sua vida. Em suma, há Édipo a partir domomento em que a mãe deseja um terceiro entre ela e ofilho. Eis o pai! O pai é o terceiro que a mãe deseja. * “Freud não deu explicação científica para o mundo mítico. Propôs um novo mito, eis o que ele fez.” WITTGENSTEIN Claro que Freud propôs um mito novo, mas que mito! Que fecundidade! É graças a esse formidável instrumento teórico que os psicanalistas sabem atualmente escutar seus pacientes e os consolar.

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