Introdução às Obras deFREUD  FERENCZI  GRODDECK KLEIN  WINNICOTT DOLTO  LACAN J.-D. Nasio – Introdução às Ob...
Transmissão da Psicanálisediretor: Marco Antonio Coutinho Jorge
Sob a direção de J.-D. NASIO Introdução às Obras deFREUD  FERENCZI  GRODDECK KLEIN  WINNIC...
Título original: Introduction aux œuvres de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, L...
Sumário Liminar 7 * Introdução à obra de FREUD 9 Excertos da obra de Freud 48 ...
Introdução à obra de WINNICOTT 177 Excertos da obra de Winnicott 197 Biografia de Donald Woods Winnicott ...
LiminarAqui estão, reunidos pela primeira vez num único volume, os grandesautores da psicanálise. É nossa intenção expor a...
8verdade. O princípio que tem constantemente guiado nosso trabalho detransmissão da psicanálise pode ser resumido numa fór...
Introdução à Obra de FREUDFREUD J.-D. Nasio J.-D. Nasio – Introdução às Obras... ...
Esquema da lógica do pensamento freudiano * Definições do inconsciente Definiç...
Pulsões de vida e pulsões de morte. O desejo ativo do passado *A transferência é uma fantasi...
J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .12.
A aceitação de processos psíquicos inconscientes, o reconhecimento da doutrina da resistência e do recal...
14tos foram comentados, resumidos e reafirmados inúmeras vezes. Como,então, transmiti-los aos leitores de uma nova maneira...
FREUD 15Esquema da lógica do pensamento freudianoFreud nos deixou uma obra imensa — ele foi, como sabemos, um traba...
16conceitual já clássico, utilizado pela neurofisiologia do século XIX paraexplicar a circulação do influxo nervoso, e bat...
FREUD 17 Cremos que [o princípio de prazer] é cada vez provocado por uma t...
18psiquismo, já que tanto o choque externo quanto as necessidades internascriam uma marca psíquica, à maneira de um selo i...
FREUD 19direito o representante psíquico de uma ação. Por isso, o aparelhopsíquico permanece submetido a uma ten...
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FREUD 21lembra as exigências da realidade e incita à moderação — nele, a realidadeé soberana. O princípio que rege ...
22 Sublinhemos: os dois sistemas buscam a descarga, ou seja, o prazer;mas, enquanto o primeiro tende ao prazer absolu...
FREUD 23conteúdos do inconsciente transpõem a barreira do recalcamento. Essadescarga gera um prazer parcial e subst...
24Podemos agora resumir, numa palavra, o esquema lógico que perpassa nasentrelinhas a obra de Freud e, assim fazendo, defi...
FREUD 25
26de um observador, como eu mesmo, por exemplo, diante de minhas própriasmanifestações inconscientes ou das manifestações ...
FREUD 27rede das representações. Nessa perspectiva, a fonte de excitação chama-serepresentação de coisa, e os prod...
28 Note-se que essas aparições conscientes do recalcado, esses retornos dorecalcado podem ser igualmente concebidos ...
FREUD 29mento: um recalcamento primário, que contém e fixa as representaçõesrecalcadas no solo do inconsciente, e u...
30estatuto de representações inconscientes de coisa. Mas as fantasias podemainda desempenhar o papel de defesas do eu cont...
FREUD 31continua a ser um processo irreprimivelmente ativo e inesgotável em suasproduções. Quer vocês tenham dois d...
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FREUD 33tendência pulsional, e de que natureza é o alvo ideal a que essa tendênciaaspira, isto é, a ação ideal e im...
34à estimulação de sensações genitais. Não, o conceito de “sexual” reveste-se,em psicanálise, de uma acepção muito mais am...
FREUD 35definida. Esses três estados, bem entendido, imbricam-se e se confundem emtoda relação amorosa. Ma...
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FREUD 37A sublimaçãoO primeiro desses entraves consiste em desviar o trajeto da pulsão, mudandoseu alvo; essa manob...
38sob a forma de uma fantasia, mesmo que, conjuntamente, continuemos areconhecer nela uma existência autônoma no mundo. Po...
FREUD 39As fases da sexualidade infantil e o complexo de ÉdipoMas as pulsões sexuais remontam a um ponto longínquo ...
40é, acima de tudo, um apego a objetos fantasiados. Assim, o polegar real quea criança suga é, na verdade, um objeto fanta...
FREUD 41clitóris são apenas os suportes concretos e reais de um objeto fantasiadochamado falo7. Quanto ao prazer se...
42perder o outro “falo” inestimável que é o amor proveniente do objeto amado.A angústia de castração, na mulher, não é out...
FREUD 43o pai aparece aos olhos do menino como um objeto sexual desejável. Tudosofre uma reviravolta. De objeto idea...
44uma criança mítica, é, na verdade, a mesma alternativa que todos atraves-samos em certos momentos de nossa existência, q...
FREUD 45tensão busca aliviar-se no mundo externo. Entretanto, quando as pulsõesde morte permanecem dentro de nós, e...
46obstante, o par pulsões de vida/pulsões de morte continua a ser regido pelaação conjunta desses dois princípios fundamen...
FREUD 47 *A psicanálise não é um sistema fechado, à maneira de uma teoria abst...
Excertos da obra de Freud*A psicanálise é um procedimento, um método e a teoria daí derivadaPsicanálise é o nome: 1) de um...
FREUD 49importância etiológica da vida sexual, em particular a dos primórdios dasexualidade infantil.3 ...
50concerne aos produtos psíquicos do representante recalcado. (...) O recalca-mento propriamente dito, portanto, é um reca...
FREUD 51de sua altivez, lançam um olhar de desprezo à psicanálise, que eles deveriamlembrar-se do quanto a idéia de...
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Published on: Mar 3, 2016
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  • 1. Introdução às Obras deFREUD  FERENCZI  GRODDECK KLEIN  WINNICOTT DOLTO  LACAN J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .1.
  • 2. Transmissão da Psicanálisediretor: Marco Antonio Coutinho Jorge
  • 3. Sob a direção de J.-D. NASIO Introdução às Obras deFREUD  FERENCZI  GRODDECK KLEIN  WINNICOTT DOLTO  LACAN com as contribuições de A.-M. Arcangioli, M.-H. Ledoux, L. Le Vaguerèse, J.-D. Nasio, G. Taillandier, B. This e M.-C. Thomas Tradução: Vera Ribeiro psicanalista Revisão: Marcos Comaru mestre em teoria psicanalítica, UFRJ
  • 4. Título original: Introduction aux œuvres de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan Tradução autorizada da primeira edição francesa, publicada em 1994 por Éditions Payot & Rivages, de Paris, França, na coleção Rivages-Psychanalyse, dirigida por J.-D. Nasio Copyright  1994, Éditions Payot & Rivages Copyright da edição em língua portuguesa  1995: Jorge Zahar Editor Ltda. Rua México 31 sobreloja 20031-144 Rio de Janeiro, RJ tel.: (21) 2108-0808 / Fax: (21) 2108-0800 editora@zahar.com.br www.zahar.com.br Todos os direitos reservados. A reprodução não-autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação de direitos autorais. (Lei 9.610/98) Capa: Sérgio Campante Composição: Kraft Produções Gráficas Ltda. Impressão: Cromosete Gráfica e Editora CIP-Brasil, Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJI48 Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan / sob a direção de J.-D. Nasio, com as contribuições de A.-M. Arcangioli... [et al]; tradução, Vera Ribeiro; revisão, Marcos Comaru. – Rio de Janeiro: Zahar, 1995. (Transmissão da psicanálise) Tradução de: Introduction aux œuvres de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan Bibliografia ISBN 978-85-7110-325-9 1. Psicanálise. 2.Psicanalistas – Biografia. I. Nasio, Juan- David. II. Série. CDD: 150.19595-1197 CDU: 159.964.2
  • 5. Sumário Liminar 7 * Introdução à obra de FREUD 9 Excertos da obra de Freud 48 Biografia de Sigmund Freud 55 Seleção bibliográfica 58 * Introdução à obra de FERENCZI 59 Excertos da obra de Ferenczi 95 Biografia de Sándor Ferenczi 98 Seleção bibliográfica 101 * Introdução à obra de GRODDECK 103 Excertos da obra de Groddeck 127 Biografia de Georg Groddeck 129 Seleção bibliográfica 130 *Introdução à obra de Melanie KLEIN 133 Excertos da obra de Klein 167 Biografia de Melanie Klein 170 Seleção bibliográfica 174 * J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .5.
  • 6. Introdução à obra de WINNICOTT 177 Excertos da obra de Winnicott 197 Biografia de Donald Woods Winnicott 200 Seleção bibliográfica 201 * Introdução à obra de Françoise DOLTO 203 Excertos da obra de Dolto 238 Biografia de Françoise Dolto 241 Seleção bibliográfica 245 *Um testemunho sobre a clínica de Françoise DOLTO 247 * Introdução à obra de LACAN 259 Excertos da obra de Lacan 283 Biografia de Jacques-Marie Lacan 286 Seleção bibliográfica 287 * Notas 289 * Índice geral 301 J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .6.
  • 7. LiminarAqui estão, reunidos pela primeira vez num único volume, os grandesautores da psicanálise. É nossa intenção expor a essência da vida e da obrade cada um desses pioneiros que marcaram nossa maneira de pensar e depraticar a análise, nossa linguagem e, mais genericamente, a cultura de hoje.Concebemos este livro como um instrumento de trabalho em que cadacapítulo, consagrado a um dos sete grandes psicanalistas, propõe ao leitoruma apresentação de sua biografia, uma exposição clara e rigorosa das idéiasfundamentais de sua obra, trechos seletos da obra, um quadro cronológicodos acontecimentos decisivos de sua vida e, por fim, uma seleção biblio-gráfica. Essas diferentes rubricas permitirão ao leitor ingressar neste livropela entrada que lhe convier. Com esta introdução, fazemos votos de que oleitor tenha o desejo e o entusiasmo de consultar diretamente os textosoriginais das obras. Os psicanalistas que colaboraram neste volume coletivo esforçaram-sepor mostrar as especificidades das obras estudadas. Empenharam-se nãoapenas em expor uma teoria, mas sobretudo em fazer reviver a alma de cadaautor, os desejos e os conflitos que moldaram seu estilo e marcaram sua obrapara além dos conceitos. Cada colaborador redigiu sua contribuição, impreg-nado não somente do conteúdo da obra comentada, mas também da imageminterna do autor abordado. Destinamos esta obra tanto ao estudante desejoso de dispor de umdossiê completo sobre cada uma das grandes figuras da psicanálise, quantoao psicanalista experiente, que — a exemplo de Freud — não pára de voltaraos fundamentos da teoria. Lembremo-nos dos numerosos textos em queFreud efetivamente retornou aos fundamentos de sua doutrina para delesretirar o essencial, como fez, por exemplo, em seu último texto, o Esboço depsicanálise, que redigiu aos 82 anos de idade. Que houve então? Com aredação do Esboço, Freud continuou a inventar novos conceitos. Por isso, oretorno aos fundamentos comporta, muita vez, a inesperada gestação donovo. O ensino converte-se em pesquisa e o antigo saber, numa nova 7 J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .7.
  • 8. 8verdade. O princípio que tem constantemente guiado nosso trabalho detransmissão da psicanálise pode ser resumido numa fórmula: procuremosdizer bem o que já foi dito, e talvez tenhamos uma oportunidade de dizer onovo. Foi dentro desse espírito que concebemos esta obra. ***Cada um dos capítulos que leremos é uma versão bastante reformulada deconferências proferidas por cada colaborador deste livro, no âmbito doEnsino das sete grandes correntes da psicanálise. O ciclo dessas conferên-cias de ensino foi organizado pelos Seminários Psicanalíticos de Paris entredezembro de 1991 e junho de 1992. J.-D. N. J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .8.
  • 9. Introdução à Obra de FREUDFREUD J.-D. Nasio J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .9.
  • 10. Esquema da lógica do pensamento freudiano * Definições do inconsciente Definição do inconsciente do ponto de vista descritivo Definição do inconsciente do ponto de vista sistemático Definição do inconsciente do ponto de vista dinâmico O conceito de recalcamento Definição do inconsciente do ponto de vista econômico Definição do inconsciente do ponto de vista ético * O sentido sexual de nossos atos * O conceito psicanalítico de sexualidade Necessidade, desejo e amor * Os três principais destinos das pulsões sexuais: recalcamento, sublimação e fantasia. O conceito de narcisismo *As fases da sexualidade infantil e o complexo de ÉdipoObservação sobre o Édipo do menino: o papel essencial do pai * J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .10.
  • 11. Pulsões de vida e pulsões de morte. O desejo ativo do passado *A transferência é uma fantasia cujo objeto é o inconsciente do psicanalista * * * Excertos da obra de Freud Biografia de Sigmund Freud Seleção bibliográfica J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .11.
  • 12. J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .12.
  • 13. A aceitação de processos psíquicos inconscientes, o reconhecimento da doutrina da resistência e do recalcamento e a consideração da sexualidade e do complexo de Édipo são os conteúdos principais da psicanálise e os fundamentos de sua teoria, e quem não estiver em condições de subscrever todos eles não deve figurar entre os psicanalistas. S. FreudUm século — e que século! — nos separa de Freud, desde o dia em que eledecidiu abrir seu consultório em Viena e redigir a primeira obra fundadorada psicanálise, A interpretação dos sonhos. Um século é muito extenso; extenso para a história, para a ciência epara as técnicas. Muito extenso para a vida. E, no entanto, é muito pouco paranossa jovem ciência, a psicanálise. A psicanálise, admito, não progride àmaneira dos avanços científicos e sociais. Ocupa-se de coisas simples,sumamente simples, que são também imensamente complexas. Ocupa-se doamor e do ódio, do desejo e da lei, dos sofrimentos e do prazer, de nossosatos de fala, nossos sonhos e nossas fantasias. A psicanálise ocupa-se dascoisas simples e complexas, mas eternamente atuais. Ocupa-se delas nãoapenas por meio de um pensamento abstrato, de uma teoria que registrareineste capítulo, mas através da experiência humana de uma relação concretaentre dois parceiros, analista e analisando, mutuamente expostos à incidênciade um no outro1. Porém um século, mais uma vez, é muita coisa. E, no decurso dessescem anos, os problemas abordados pela psicanálise foram amiúde designa-dos e conceituados de diferentes formas. De fato, a experiência sempresingular de cada tratamento analítico obriga o psicanalista que nele se engajaa repensar, em cada situação, a teoria que justifica sua prática. Entretanto, ofio inalterável dos princípios fundamentais da psicanálise atravessa o século,ordena as singularidades do pensamento analítico e assegura o rigor quelegitima o trabalho do psicanalista. Ora, qual é esse fio que garante talcontinuidade, quais são os fundamentos da obra freudiana? Esses fundamen- 13 J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .13.
  • 14. 14tos foram comentados, resumidos e reafirmados inúmeras vezes. Como,então, transmiti-los aos leitores de uma nova maneira? Como falar de Freudnos dias atuais? Optei por lhes submeter minha leitura da obra freudiana a partir de umaquestão que habitou em mim durante estes últimos dias, enquanto eu escreviaeste texto. Perguntei-me incessantemente o que mais me impressionava emFreud, o que dele vivia em mim, no trabalho com meus analisandos, nareflexão teórica que orienta minha escuta, e no desejo que me anima, detransmitir e fazer a psicanálise existir, tal como ela existe neste instante emque vocês lêem estas linhas. O que mais me impressiona em Freud, aquiloem sua obra que me remete a mim mesmo e que, portanto, assim transmite àobra sua atualidade viva, não é a teoria dele, embora eu lhes vá falar sobreisso, nem tampouco seu método, que aplico em minha prática. Não. O queme encanta quando leio Freud, quando penso nele e lhe dou vida, é sua força,sua loucura, sua força louca e genial de querer captar no outro as causas deseus atos, de querer descobrir a fonte que anima um ser. Sem dúvida, Freudé, antes de mais nada, uma vontade, um desejo ferrenho de saber; mas suagenialidade está em outro lugar. A genialidade é uma coisa diferente doquerer ou do desejo. A genialidade de Freud está em ele haver compreendidoque, para apreender as causas secretas que movem um ser, que movem esseoutro que sofre e a quem escutamos, é preciso, primeiro e acima de tudo,descobrir essas causas em si mesmo, refazer em si — enquanto se mantém ocontato com o outro que está diante de nós — o caminho que vai de nossospróprios atos a suas causas. A genialidade não reside, pois, no desejo dedesvendar um enigma, mas em emprestar o próprio eu a esse desejo; em fazerde nosso eu o instrumento capaz de se aproximar da origem velada dosofrimento daquele que fala. A vontade de descobrir, tão tenaz em Freud,conjugada com essa modéstia excepcional de comprometer seu eu paraconsegui-lo, isso é o que mais admiro, e do que jamais lhes poderei prestarcontas plenamente através de palavras e conceitos. A genialidade freudiananão se explica nem se transmite e, no entanto, não pode persistir como umagraça inaudita do fundador. Não, a genialidade freudiana é o salto que todoanalista é conclamado a realizar em si mesmo, todas as vezes que escutaverdadeiramente seu analisando. * J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .14.
  • 15. FREUD 15Esquema da lógica do pensamento freudianoFreud nos deixou uma obra imensa — ele foi, como sabemos, um trabalhadorinfatigável — e toda a sua doutrina é marcada por seu desejo de identificar aorigem do sofrimento do outro, servindo-se de seu próprio eu. Assim,tentarei apresentar-lhes a essência dessa doutrina, os fundamentos da teoriafreudiana, sem esquecer que ela continua a ser uma tentativa incessantemen-te renovada de dizer o que nos move, de dizer o indizível. Toda a obrafreudiana é, nesse aspecto, uma imensa resposta, uma resposta inacabada àpergunta: qual é a causa de nossos atos? Como funciona nossa vida psíquica? Eu gostaria, justamente, de fazê-los compreender o essencial do fun-cionamento mental, tal como é visto pela psicanálise e tal como se confirmaquando o psicanalista está com seu paciente. A concepção freudiana da vidamental, com efeito, pode formalizar-se num esquema lógico elementar, quese nos evidenciou durante nossa releitura dos escritos de Freud. À medidaque fomos procurando aproximar-nos mais do cerne da teoria, em vez deapreendê-la de fora, vimos que ela se transfigurava. Primeiro, a complexida-de reduziu-se. Depois, as diferentes partes imbricaram-se umas nas outras,para enfim se ordenarem numa épura simples de sua relação. Se eu logrartransmitir-lhes esse esquema, terei realizado plenamente meu propósito deintroduzi-los na obra de Freud, porque esse esquema retoma de maneirasurpreendente a lógica implícita e interna do conjunto dos textos freudianos.Desde o Projeto para uma psicologia científica, redigido em 1895, até suaúltima obra, o Esboço de psicanálise, escrito em 1938, Freud não parou dereproduzir espontaneamente, muitas vezes de modo inadvertido, num quase-automatismo do pensamento, um mesmo esquema básico, expresso segundodiversas variantes. É precisamente essa lógica essencial que agora tentareiexpor-lhes. Procederemos da seguinte maneira: começarei por construir com vo-cês este esquema elementar e o irei modificando progressivamente, à medidaque desenvolvermos os temas fundamentais que são o inconsciente, o recal-camento, a sexualidade, o complexo de Édipo e a transferência no tratamen-to analítico. *Passemos a nosso esquema básico. Em que consiste ele? Para responder,preciso lembrar, inicialmente, que ele é uma versão corrigida de um modelo J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .15.
  • 16. 16conceitual já clássico, utilizado pela neurofisiologia do século XIX paraexplicar a circulação do influxo nervoso, e batizado de esquema do arcoreflexo. Esclareço desde logo que o modelo do arco reflexo continua a ser umparadigma ainda fundamental da neurologia moderna. O esquema neurológico do arco reflexo é muito simples e bastanteconhecido (Figura 1). Ele comporta duas extremidades: a da esquerda,extremidade sensível em que o sujeito percebe a excitação, isto é, a injeçãode uma quantidade “x” de energia — quando ele recebe, por exemplo, umaleve martelada médica no joelho. A da direita, extremidade motora, transfor-ma a energia recebida numa resposta imediata do corpo — em nosso exem-plo, a perna reage prontamente com um movimento reflexo de extensão.Entre os dois extremos, instala-se, pois, uma tensão que aparece com aexcitação e desaparece com a descarga escoada pela resposta motora. Oprincípio que rege esse trajeto em forma de arco é muito claro, portanto:receber a energia, transformá-la em ação e, conseqüentemente, reduzir atensão do circuito.
  • 17. FREUD 17 Cremos que [o princípio de prazer] é cada vez provocado por uma tensão desprazerosa, e assume uma direção tal que seu resultado final coincide com um rebaixamento dessa tensão, isto é, com uma evitação de desprazer ou uma produção de prazer. S. FreudApliquemos agora esse mesmo esquema reflexo ao funcionamento do psi-quismo. Pois bem, o psiquismo é igualmente regido pelo princípio que visaa reabsorver a excitação e reduzir a tensão, exceto pelo fato de que justamen-te, como veremos, o psiquismo escapa a esse princípio. Na vida psíquica,com efeito, a tensão nunca se esgota. Estamos, enquanto vivemos, emconstante tensão psíquica. Esse princípio de redução da tensão, que devemosantes considerar como uma tendência, e nunca como uma realização efetiva,leva, em psicanálise, o nome de Princípio de desprazer-prazer. Por quechamá-lo dessa maneira, “desprazer-prazer”? E por que afirmar que o psi-quismo está sempre sob tensão? Para responder, retomemos as duas extremi-dades do arco reflexo, mas imaginando, desta vez, que se trata dos dois pólosdo próprio aparelho psíquico, imerso como está no meio composto pelarealidade externa. A fronteira do aparelho, portanto, separa um interior de umexterior que o circunda (Figura 2). *No pólo esquerdo, a extremidade sensível, discernimos duas característicaspróprias do psiquismo: a) A excitação é sempre de origem interna, e nunca externa. Quer setrate de uma excitação proveniente de uma fonte externa, como, por exem-plo, o choque provocado pela visão de um violento acidente de automóvel,quer se trate de uma excitação proveniente de uma fonte corporal, de umanecessidade como a fome, a excitação continua a ser sempre interna no
  • 18. 18psiquismo, já que tanto o choque externo quanto as necessidades internascriam uma marca psíquica, à maneira de um selo impresso na cera. Numapalavra, a fonte da excitação endógena é uma marca, uma idéia, uma ima-gem, ou, para empregar o termo apropriado, um representante ideativocarregado de energia, também chamado representante das pulsões. Termoeste — pulsão — que reencontraremos muitas vezes neste capítulo. b) Segunda característica: esse representante, depois de carregado umaprimeira vez, tem a particularidade de continuar tão duradouramente excita-do, como se fosse uma pilha, que qualquer tentativa do aparelho psíquico dereabsorver a excitação e eliminar a tensão revela-se uma tentativa fadada aofracasso. Pois bem, essa estimulação ininterrupta mantém no aparelho um nívelelevado de tensão, dolorosamente vivenciado pelo sujeito como um apelopermanente à descarga. É a essa tensão penosa, que o aparelho psíquico tentaem vão abolir, sem nunca chegar verdadeiramente a fazê-lo, que Freudchama desprazer. Temos, assim, um estado de desprazer efetivo e incontor-nável e, inversamente, um estado hipotético de prazer absoluto, que seriaobtido se o aparelho conseguisse escoar imediatamente toda a energia eeliminar a tensão. Esclareçamos bem o sentido de cada uma dessas duaspalavras: desprazer significa manutenção ou aumento da tensão, e prazer,supressão da tensão. Todavia, não nos esqueçamos de que o estado de tensãodesprazeroso e penoso não é outra coisa senão a chama vital de nossaatividade mental; desprazer, tensão e vida são eternamente inseparáveis. No psiquismo, portanto, a tensão nunca desaparece totalmente,afirmação esta que pode ser traduzida por: no psiquismo, o prazerabsoluto nunca é obtido. Mas, por que a tensão é sempre premente e oprazer absoluto nunca é atingido? Por três razões. A primeira, vocês já aconhecem: a fonte psíquica da excitação é tão inesgotável que a tensão éeternamente reativada. A segunda razão concerne ao pólo direito de nossoesquema. O psiquismo não pode funcionar como o sistema nervoso eresolver a excitação através de uma ação motora imediata, capaz deevacuar a tensão. Não, o psiquismo só pode reagir à excitação através deuma metáfora da ação, uma imagem, um pensamento ou uma fala querepresente a ação, e não a ação concreta, que permitiria a descargacompleta da energia. No psiquismo, toda resposta é inevitavelmentemediatizada por uma representação, que só pode efetuar uma descargaparcial. Do mesmo modo que pusemos no pólo esquerdo o representantepsíquico da pulsão (excitação pulsional contínua), colocamos no pólo J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .18.
  • 19. FREUD 19direito o representante psíquico de uma ação. Por isso, o aparelhopsíquico permanece submetido a uma tensão irredutível: na porta deentrada, o afluxo das excitações é constante e excessivo; na saída, háapenas um simulacro de resposta, uma resposta virtual, que efetua somen-te uma descarga parcial. Mas há ainda uma terceira razão, a mais importante e mais interessantepara nós, que explica por que o psiquismo está sempre sob tensão. Ela consistena intervenção de um fator decisivo, que Freud denomina de recalcamento.Antes de explicar o que é o recalcamento, convém eu esclarecer que entre orepresentante-excitação e o representante-ação estende-se uma rede de muitosoutros representantes, que tecem a trama de nosso aparelho. A energia que afluie circula da esquerda para a direita, da excitação para a descarga, atravessanecessariamente essa rede intermediária. Entretanto, a energia não circula damesma maneira entre todos os representantes (Figura 2). Se imaginarmos o recalcamento como uma barra que separa nosso esque-ma em duas partes, a rede intermediária ficará assim dividida: alguns repre-sentantes, que reunimos como um grupo majoritário, situado à esquerda dabarra, são muito carregados de energia e se ligam de tal modo que formam ocaminho mais curto e mais rápido para tentar chegar à descarga. Às vezes,organizam-se à maneira de um cacho e fazem toda a energia confluir para umúnico representante (condensação); noutras vezes, ligam-se um atrás do outro,em fila indiana, para deixar a energia fluir com mais facilidade (deslocamento).* Alguns outros representantes da rede — que reuniremos como umgrupo mais restrito, situado à direita da barra — são igualmente carregadosde energia e também procuram livrar-se dela, mas numa descarga lenta econtrolada. Estes se opõem à descarga rápida, pretendida pelo primeirogrupo majoritário de representantes. Instaura-se, pois, um conflito entreesses dois grupos: um que quer de imediato o prazer de uma descarga total— o prazer é soberano, nesse caso —, e outro que se opõe a essa loucura,* Essa visão econômica do movimento e da distribuição da energia pode traduzir-se numavisão “semiótica”, segundo a qual a energia investida numa representação corresponde àsignificação da representação. Dizer que uma representação é carregada de energia equivale adizer que uma representação é significante, portadora de significação.Assim, o mecanismo de condensação de energia corresponde à figura da metonímia, segundo aqual uma única representação concentra todas as significações; e o mecanismo do deslocamentocorresponde à figura da metáfora, na qual as representações se vêem atribuir sucessivamente,uma por uma, todas as significações. Observe-se, por outro lado, que essa relação se inverte paraLacan: a condensação é da alçada da metáfora, e o deslocamento, da alçada da metonímia. J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .19.
  • 20. 20
  • 21. FREUD 21lembra as exigências da realidade e incita à moderação — nele, a realidadeé soberana. O princípio que rege esse segundo grupo de representanteschama-se Princípio de realidade. O primeiro grupo constitui o sistema inconsciente, que tem por missão,portanto, escoar a tensão o mais depressa possível e tentar atingir o prazerabsoluto. Esse sistema tem as seguintes características: compõe-se exclusi-vamente de representantes pulsionais, como se o representante do póloesquerdo se multiplicasse em muitos outros. Freud os denomina de “repre-sentações inconscientes”. Essas representações, ele também as chama “re-presentações de coisa”, por elas consistirem em imagens (acústicas, visuaisou tácteis) de coisas ou de pedaços de coisa impressas no inconsciente. Asrepresentações de coisa são de natureza principalmente visual e fornecem amatéria com que se moldam os sonhos e, em especial, as fantasias. Acrescen-temos que essas imagens ou traços mnêmicos só são denominados de“representações” sob a condição de estarem investidos de energia. Por isso,um representante psíquico é a conjunção de um traço imajado (um traçodeixado pela inscrição de fragmentos de coisas ou acontecimentos reais) coma energia que reaviva esse traço. As representações inconscientes de coisanão respeitam os limites da razão, da realidade ou do tempo — o inconscientenão tem idade. Elas atendem a uma única exigência: buscar instantaneamenteo prazer absoluto. Para esse fim, o sistema inconsciente funciona segundo osmecanismos de condensação e deslocamento, destinados a favorecer umacirculação fluente da energia. A energia é chamada livre, uma vez que circulecom toda a mobilidade e com poucos entraves na rede inconsciente. O segundo grupo de representantes também constitui um sistema, osistema pré-consciente/consciente. Esse grupo busca igualmente o prazer,mas, diferindo do inconsciente, tem por missão redistribuir a energia —energia ligada — e escoá-la lentamente, seguindo as indicações doPrincípio de realidade. Os representantes dessa rede são chamados “repre-sentações pré-conscientes e representações conscientes”. As primeiras sãorepresentações de palavra; elas abarcam diferentes aspectos da palavra,como sua imagem acústica ao ser pronunciada, sua imagem gráfica ou suaimagem gestual de escrita. Quanto às representações conscientes, cadauma é composta de uma representação de coisa, agregada à representaçãoda palavra que designa essa coisa. A imagem acústica de uma palavra, porexemplo, associa-se a uma imagem mnêmica visual da coisa para lheconferir um nome, marcar sua qualidade específica e, assim, torná-laconsciente. J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .21.
  • 22. 22 Sublinhemos: os dois sistemas buscam a descarga, ou seja, o prazer;mas, enquanto o primeiro tende ao prazer absoluto e obtém apenas, comoveremos, um prazer parcial, o segundo, por sua vez, visa a obter e obtém umprazer moderado. *Isto posto, podemos agora perguntar-nos: que é o recalcamento? Dentre asdefinições possíveis, proporei a seguinte: o recalcamento é um espessamentode energia, uma capa de energia que impede a passagem dos conteúdosinconscientes para o pré-consciente. Ora, essa censura não é infalível: algunselementos recalcados vão adiante, irrompem abruptamente na consciência,sob forma disfarçada, e surpreendem o sujeito, incapaz de identificar suaorigem inconsciente. Eles aparecem na consciência, portanto, mas permane-cem incompreensíveis e enigmáticos para o sujeito. Essas exteriorizações deturpadas do inconsciente conseguem assimdescarregar uma parte da energia pulsional, descarga esta que proporcionaapenas um prazer parcial e substitutivo, comparado ao ideal perseguido deuma satisfação completa e imediata, que seria obtida por uma hipotéticadescarga total. A outra parte da energia pulsional, a que não transpõe orecalcamento, continua confinada no inconsciente e realimenta sem cessar atensão penosa. Tínhamos dito que o aparelho psíquico tem por função reduzir a tensãoe provocar a descarga de energia. Sabendo, agora, que a estimulação endó-gena é ininterrupta, que a resposta é sempre incompleta, e que o recalcamen-to aumenta a tensão e a obriga a buscar expressões deturpadas, podemosconcluir, portanto, que existem diferentes tipos de descarga proporcionado-res de prazer: Uma descarga hipotética, imediata e total, que provocaria um prazerabsoluto. Essa descarga plena aparenta-se com o caso do desaparecimentoda tensão quando de uma resposta motora do corpo. Ora, para o psiquismo,como sabemos, essa solução ideal é impossível. Todavia, quando abordar-mos o tema da sexualidade, veremos como esse ideal de um prazer absolutomantém-se como referência incontornável das pulsões sexuais. Uma descarga mediata e controlada pela atividade intelectual (pensa-mento, memória, julgamento, atenção etc.), que proporciona um prazermoderado. E, por fim, uma descarga mediata e parcial, obtida quando a energia e os J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .22.
  • 23. FREUD 23conteúdos do inconsciente transpõem a barreira do recalcamento. Essadescarga gera um prazer parcial e substitutivo, inerente às formações doinconsciente. Esses três tipos de prazer estão representados na Figura 2, na página 20. *Antes de retomarmos e resumirmos nosso esquema do funcionamento psíqui-co, convém fazer alguns esclarecimentos importantes no que concerne à signi-ficação da palavra “prazer” e à função do recalcamento. A propósito do prazer,assinalemos que a satisfação parcial e substitutiva ligada às formações doinconsciente não é necessariamente sentida pelo sujeito como uma sensaçãoagradável de prazer. Muitas vezes, sucede até essa satisfação ser vivida, parado-xalmente, como um desprazer, ou até como um sofrimento suportado por umsujeito que esteja às voltas com sintomas neuróticos ou conflitos afetivos. Mas,sendo assim, por que empregar o termo prazer para qualificar o caráter dolorosoda manifestação de uma pulsão? É que, a rigor, a noção freudiana de prazer deveser entendida no sentido econômico de “baixa da tensão”. É o sistema incons-ciente que, através de uma descarga parcial, encontra prazer em aliviar suatensão. Por isso, diante de um sintoma que causa sofrimento, devemos discernirclaramente o sofrimento experimentado pelo paciente e o prazer não sentido,conquistado pelo inconsciente. Passemos agora ao papel do recalcamento e levantemos o seguinteproblema: por que tem que haver recalcamento? Por que é preciso que oeu se oponha às solicitações de uma pulsão que apenas pede para sesatisfazer e, desse modo, liberar a tensão desprazerosa que reina noinconsciente? Por que barrar a descarga liberadora da pressão inconscien-te? Qual é a finalidade do recalcamento? O objetivo do recalcamento nãoé tanto evitar o desprazer que reina no inconsciente, mas evitar o riscoextremo que o eu correria por satisfazer a exigência pulsional de maneiraintegral e direta. Com efeito, a satisfação imediata e total da pressãopulsional destruiria, por seu descomedimento, o equilíbrio do aparelhopsíquico. Existem, pois, duas espécies de satisfações pulsionais. Uma,total, que o eu idealiza como um prazer absoluto, mas evita — graças aorecalcamento — como um excesso destrutivo2. A outra satisfação é umasatisfação parcial, moderada e isenta de perigos, que o eu tolera. * J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .23.
  • 24. 24Podemos agora resumir, numa palavra, o esquema lógico que perpassa nasentrelinhas a obra de Freud e, assim fazendo, definir o inconsciente.Reportemo-nos à Figura 3 e formulemos a pergunta: como funciona opsiquismo? O essencial da lógica do funcionamento psíquico, considerado doponto de vista da circulação da energia, resume-se, pois, em quatro tempos: Primeiro tempo: excitação contínua da fonte e movimentação da energia à procura de uma descarga completa, nunca atingida  Segun- do tempo: a barreira do recalcamento opõe-se à movimentação da energia  Terceiro tempo: a parcela de energia que não transpõe a barreira resta confinada no inconsciente e retroage para a fonte de excitação  Quarto tempo: a parcela de energia que transpõe a barreira do recalcamento exterioriza-se sob a forma do prazer parcial inerente às formações do inconsciente. Quatro tempos, portanto: a pressão constante do inconsciente, o obstá-culo que se opõe a ele, a energia que resta e a energia que passa. É esse oesquema que eu gostaria de lhes propor, pedindo-lhes que o ponham à provaem sua leitura dos textos freudianos. Talvez vocês constatem o quanto Freudraciocina de acordo com essa lógica essencial dos quatro tempos3.Definições do inconscienteAbordemos agora o inconsciente conforme os diferentes pontos de vistaestabelecidos por Freud, levando em conta os vocábulos particulares quedesignam os dois extremos do esquema: a fonte de excitação (tempo 1) e asformações exteriores do inconsciente (tempo 4). Cada uma dessas extremi-dades assume um nome diferente, conforme a perspectiva e a terminologiacom que Freud define o inconsciente.Definição do inconsciente do ponto de vista descritivoSe considerarmos o inconsciente de fora, isto é, do ponto de vista descritivo J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .24.
  • 25. FREUD 25
  • 26. 26de um observador, como eu mesmo, por exemplo, diante de minhas própriasmanifestações inconscientes ou das manifestações provenientes do incons-ciente do outro, perceberemos apenas produtos. O inconsciente em si conti-nua suposto como um processo obscuro e incognoscível, que se acha naorigem dessas manifestações. Um sujeito comete um lapso, por exemplo, elogo concluímos: “Seu inconsciente está falando.” Mas nada explicamossobre o processo subjacente a esse ato; o inconsciente nos é inacessível. E, muito embora desconheçamos a natureza do inconsciente, resta-nossaber como identificar os produtos do inconsciente. Dentre a infinita varie-dade das expressões e comportamentos humanos, qual identificar como umato surgido do inconsciente? Quando podemos afirmar: há inconscienteaqui? As formações do inconsciente apresentam-se diante de nós como atosinesperados, que surgem abruptamente em nossa consciência e ultrapassamnossas intenções e nosso saber consciente. Esses atos podem ser condutascorriqueiras, como, por exemplo, os atos falhos, os esquecimentos, os so-nhos, ou mesmo o aparecimento repentino desta ou daquela idéia, ou ainvenção imprevista de um poema ou de um conceito abstrato, ou aindacertas manifestações patológicas que fazem sofrer, como os sintomas neuró-ticos ou psicóticos. Mas, sejam eles normais ou patológicos, os produtos doinconsciente são sempre atos surpreendentes e enigmáticos para a consciên-cia do sujeito e para a do psicanalista. A partir dessas produções psíquicasfinais e observáveis, supomos a existência de um processo inconsciente,obscuro e ativo, que atua em nós sem que o saibamos naquele momento.Estamos, no que tange ao inconsciente, diante de um fenômeno que seconsuma independentemente de nós e que, no entanto, determina aquilo quesomos. Na presença de um ato não intencional, postulamos a existência doinconsciente, não apenas como causa desse ato, mas também como a quali-dade essencial, a essência mesma do psiquismo, o psiquismo em si. Oconsciente, portanto, seria apenas um epifenômeno, um efeito secundário doprocesso psíquico inconsciente. “Convém ver no inconsciente”, diz-nosFreud, “a base de toda a vida psíquica. O inconsciente assemelha-se a umgrande círculo que encerrasse o consciente como um círculo menor (...). Oinconsciente é o psíquico em si e sua realidade essencial”4.Definição do inconsciente do ponto de vista sistemáticoJá definimos o inconsciente como um sistema, ao abordarmos a estrutura da J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .26.
  • 27. FREUD 27rede das representações. Nessa perspectiva, a fonte de excitação chama-serepresentação de coisa, e os produtos finais são manifestações deturpadasdo inconsciente. O sonho é o melhor exemplo delas.Definição do inconsciente do ponto de vista dinâmico.O conceito de recalcamento A teoria do recalcamento é o pilar sobre o qual repousa o edifício da psicanálise. S. FreudSe agora definirmos o inconsciente do ponto de vista dinâmico, isto é, doponto de vista da luta entre a moção que impulsiona e o recalcamento queimpede, a fonte de excitação receberá o nome de representantes recalca-dos, e as produções finais corresponderão a escapadas irreconhecíveis doinconsciente subtraídas à ação do recalcamento5. Esses derivados dorecalcado chamam-se retornos do recalcado, produtos do recalcado, ouainda, produtos do inconsciente. Produtos, no sentido de jovens brotos doinconsciente, que, a despeito da capa do recalcamento, eclodem disfarça-dos na superfície da consciência. Os exemplos mais freqüentes dessesprodutos deturpados do recalcado são os sintomas neuróticos. Lembro-mede um analisando que, ao volante de seu carro, foi subitamente assaltadopela imagem obsedante de uma cena em que se via deliberadamenteatropelando uma mulher idosa que atravessava a rua. Essa idéia fixa quese impunha a ele, que o fazia sofrer e que, muitas vezes, impedia-o deutilizar seu veículo, revelou, no correr da análise, ser o produto conscientee dissimulado do representante recalcado do amor incestuoso que elenutria por sua mãe. Assim, a representação inconsciente “amor incestuo-so” transpôs a barreira do recalcamento para aparecer na consciência,transformada em seu contrário, ou seja, numa imagem obsedante de um“impulso assassino”. J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .27.
  • 28. 28 Note-se que essas aparições conscientes do recalcado, esses retornos dorecalcado podem ser igualmente concebidos como soluções de compromissono conflito que opõe o movimento do recalcado em direção à consciência aorecalcamento que o repele. “Solução de compromisso” significa que o retornodo recalcado é uma mistura que se compõe, em parte, do recalcado e, em parte,de um elemento consciente que o mascara. Em outras palavras, o retorno dorecalcado é um disfarce consciente do recalcado, porém incapaz, apesar disso,de mascará-lo por completo. Assim, em nosso exemplo, a figura da vítima,encarnada pela velha, deixava transparecer, sob os traços de uma mulher idosa,a figura recalcada da mãe. Outra ilustração dos traços visíveis do recalcado noretorno do recalcado foi-nos proposta por Freud, quando ele comentou umacélebre gravura de Félicien Rops. Nela, o artista figurou a situação de um ascetaque, para rechaçar a tentação da carne (o recalcado), refugiou-se aos pés da Cruz(recalcamento) e viu surgir, estupefato, a imagem de uma mulher nua, crucifi-cada (retorno do recalcado como solução de compromisso) no lugar de Cristo.O retorno do recalcado, nesse caso, foi um compromisso entre a mulher nua(parte visível do recalcado) e a cruz que a sustentava (recalcamento). Por outro lado, acrescentemos que os produtos do inconsciente, umavez chegados à consciência, podem sofrer uma nova ação do recalcamento,que os manda de volta para o inconsciente (o chamado recalcamento secun-dário ou recalcamento a posteriori). Resta dizermos uma palavra para justificar a definição de recalcamen-to que propusemos anteriormente como sendo uma capa de energia queimpede a passagem dos conteúdos inconscientes para o pré-consciente.* Comefeito, Freud nunca renunciou a considerar o recalcamento como um jogocomplexo de movimentos de energia. Um jogo destinado, de um lado, aconter e fixar nos recônditos do inconsciente as representações recalcadas, ede outro, a reconduzir ao inconsciente as representações fugitivas que che-gam ao pré-consciente ou à consciência, depois de haverem burlado avigilância do recalcamento. Por isso, Freud distinguiu dois tipos de recalca-* Os “elementos recalcados” que atravessam a barreira do recalcamento podem ser a repre-sentação, munida de sua carga energética, ou então (o que Freud privilegiou) apenas a carga,desligada de sua representação. Mais adiante, examinaremos a primeira eventualidade, a dapassagem para o consciente da representação investida de sua carga. Quanto à segundaeventualidade, a da passagem apenas da carga, Freud vislumbrou quatro destinos possíveis:permanecer inteiramente recalcada; atravessar a barreira e se transmudar em angústia fóbica;atravessar a barreira e se converter em distúrbios somáticos, na histeria; ou, ainda, atravessar abarra e se transformar em angústia moral, na obsessão. J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .28.
  • 29. FREUD 29mento: um recalcamento primário, que contém e fixa as representaçõesrecalcadas no solo do inconsciente, e um recalcamento secundário, querecalca — no sentido literal de fazer retroceder — no sistema inconscienteos produtos pré-conscientes do recalcado. O recalcamento primário, o mais primitivo, é não apenas uma fixaçãodas representações recalcadas no solo do inconsciente, como também umtapume energético que o pré-consciente e o consciente erguem contra apressão de energia livre oriunda do inconsciente. Esse tapume é chamado“contra-investimento”, ou seja, um investimento contrário que o sistemaPré-consciente/Consciente opõe às tentativas de investimento da pressãoinconsciente. O segundo tipo de recalcamento, cujo objetivo é restituir o produto aseu lugar de origem, é também um movimento de energia, porém maiscomplexo. Em essência, ele se resume nas seguintes operações, centradas noproduto consciente ou pré-consciente do recalcado: Primeiro, retirada da carga pré-consciente/consciente de energia ligadaque o produto havia adquirido durante sua estada no pré-consciente ou noconsciente. Uma vez desprendido de sua carga pré-consciente/consciente e vendoreativada sua antiga carga inconsciente, o produto é atraído, é como queimantado pelas outras representações inconscientes, perenemente fixadasno sistema inconsciente pelo recalcamento primário. O produto fugitivoretorna então ao âmago do inconsciente.Definição do inconsciente do ponto de vista econômicoSe, desta vez, definirmos o inconsciente do ponto de vista econômico, aqueleque adotamos para desenvolver nosso esquema, a fonte de excitação sechamará representante das pulsões, e as produções finais do inconscienteserão fantasias, ou, mais exatamente, comportamentos afetivos e escolhasamorosas inexplicados, escorados em fantasias. Explicarei dentro em poucoa natureza dessas fantasias, mas sua localização tópica em nosso esquemalevanta o seguinte problema. As fantasias podem não apenas aparecer naconsciência — como acabamos de dizer —, a título de produções finais doinconsciente, tais como laços afetivos despropositados, ou, mais particular-mente, como devaneios diurnos e formações delirantes; como também po-dem permanecer enfurnadas e recalcadas no inconsciente, tendo então o J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .29.
  • 30. 30estatuto de representações inconscientes de coisa. Mas as fantasias podemainda desempenhar o papel de defesas do eu contra a pressão inconsciente.Ou seja, uma fantasia tanto pode assumir o papel de um produto pré-cons-ciente do recalcado quanto de um conteúdo inconsciente recalcado, ou aindade uma defesa recalcante. Em nosso esquema, localizamos a fantasia tantoaquém da barra do recalcamento (tempo 1) quanto no nível dela (tempo 2),ou ainda além da barra (tempo 4).Definição do inconsciente do ponto de vista éticoSe, por fim, definirmos o inconsciente do ponto de vista ético, iremoschamá-lo de desejo. O desejo é o movimento de uma intenção inconscienteque aspira a um objetivo, o da satisfação absoluta. As produções finais doinconsciente devem ser consideradas, aqui, como realizações parciais dodesejo, ou, se preferirmos, satisfações parciais e substitutivas do desejodiante da satisfação ideal, jamais atingida. Qualificamos como ética essadefinição do inconsciente, na medida em que assemelhamos o movimentoenergia  descarga à tendência do inconsciente para se fazer ouvir e se fazerreconhecer como um Outro. Ela é ética, também, na medida em que conferi-mos um valor ao objetivo ideal do desejo: o valor inultrapassável de um bemsuperior, de um Bem Supremo, a que a psicanálise chama incesto. Intrinse-camente, o desejo é sempre desejo do incesto. Voltaremos a isso. *Depois de mostrar o funcionamento do aparelho psíquico segundo alógica de um esquema espacial, eu lhes propus uma visão descritiva,sistemática, dinâmica, econômica e ética do inconsciente, mas tudo issoestaria incompleto se não inscrevêssemos nosso aparelho no fio do tempoe não o incluíssemos no universo dos outros. Dois fatores emolduram avida psíquica: o tempo e os outros (Figura 4). O tempo, primeiramente,pois o funcionamento psíquico não pára de se renovar ao longo de toda ahistória de um sujeito, a ponto de escapar à mensuração do tempo. Oinconsciente é extratemporal, ou seja, é perpétuo no tempo histórico.Silencioso aqui, ele reaparece ali e não definha nunca. É só tentar fazê-localar-se para que ele reviva prontamente, voltando a desabrochar emnovas manifestações. Por isso, seja qual for a idade, o inconsciente J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .30.
  • 31. FREUD 31continua a ser um processo irreprimivelmente ativo e inesgotável em suasproduções. Quer vocês tenham dois dias de vida ou 83 anos, ele perseveraem seu ímpeto e sempre consegue fazer-se ouvir. Mas devemos ainda compreender que a vida psíquica está imersa nomundo dos outros, no mundo daqueles a quem estamos ligados pela lingua-gem, por nossas fantasias e nossos afetos. Nosso psiquismo prolonga, neces-sariamente, o psiquismo do outro com quem nos relacionamos. As fontes denossas excitações são os vestígios deixados em nós pelo impacto do desejodo outro, daquele ou daqueles que nos têm por objeto de seu desejo. É comose a seta do tempo 4 do esquema do aparelho psíquico do outro se unisse,para estimulá-la, à fonte de excitação de nosso próprio aparelho. E, inversa-mente, é como se nossas próprias produções reavivassem, por sua vez, odesejo do outro. Examinemos a Figura 4.O sentido sexual de nossos atosEstamos agora em condições de formular a premissa fundadora da psicaná-lise. Nossos atos, aqueles que nos escapam, não somente são determinadospor um processo inconsciente, mas sobretudo têm um sentido. Eles veiculamuma mensagem e querem dizer algo diferente daquilo que mostram à primei-ra vista. Antes de Freud, os atos mais inesperados passavam por atos anódi-nos. Hoje em dia, com Freud, supor um sentido nas condutas e nas palavrasque nos escapam tornou-se um gesto costumeiro. Basta alguém cometer umlapso para logo sorrir ou, quem sabe, enrubescer, considerando-se traído pelarevelação de um desejo, de um sentido até então velado. Mas, que é um sentido? Que vem a ser o sentido de um ato? Asignificação de um ato involuntário reside no fato de ele ser o substituto deum ato ideal, de uma ação impossível que, em termos absolutos, deveriater-se produzido, mas não ocorreu. Quando o psicanalista interpreta e des-venda a significação de um sonho, por exemplo, que faz ele senão mostrarque o sonho, como ato, é o substituto de um outro ato que não veio à tona,mostrar que aquilo que é é o substituto daquilo que não foi? Nossos atosinvoluntários têm um sentido, portanto. Mas, como qualificar esse sentido?Qual é o teor do sentido oculto de nossos atos? A resposta a essa perguntaenuncia a grande descoberta da psicanálise. Que diz ela? Que a significaçãode nossos atos é uma significação sexual. Mas, por que sexual? Reportemo-nos à Figura 5 e vejamos de que natureza é a fonte que está na origem da J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .31.
  • 32. 32
  • 33. FREUD 33tendência pulsional, e de que natureza é o alvo ideal a que essa tendênciaaspira, isto é, a ação ideal e impossível que não se deu, e da qual nossos atossão os substitutos. O sentido de nossos atos é um sentido sexual porque afonte e o alvo dessas tendências são sexuais. A fonte é um representantepulsional cujo conteúdo representativo corresponde a uma região do corpoque é muito sensível e excitável, chamada zona erógena. Quanto ao alvo,sempre ideal, ele é o prazer perfeito de uma ação perfeita, de uma perfeitaunião entre dois sexos, cuja imagem mítica e universal seria encarnada peloincesto. *O conceito psicanalítico de sexualidadeEssas tendências, que aspiram ao ideal impossível de uma satisfação sexualabsoluta, que nascem na representação de uma zona erógena do corpo,esbarram no recalcamento e, finalmente, exteriorizam-se por atos substituti-vos do impossível6 ato incestuoso — essas tendências chamam-se pulsõessexuais. As pulsões sexuais são múltiplas, povoam o território do inconscien-te, e sua existência remonta a um ponto longínquo de nossa história, desde oestado embrionário, só vindo a cessar com a morte. Suas manifestações maismarcantes aparecem durante os primeiros cinco anos de nossa infância. Freud decompõe a pulsão sexual em quatro elementos. Deixando delado a fonte de onde ela brota (zona erógena), a força que a move e o objetivoque a atrai, a pulsão serve-se de um objeto por meio do qual tenta chegar aseu objetivo ideal. Esse objeto pode ser uma coisa ou uma pessoa, ora aprópria pessoa, ora uma outra, mas é sempre um objeto fantasiado, e nãoreal. Isso é importante para compreender que os atos substitutivos através dosquais as pulsões sexuais se exprimem (uma palavra inesperada, um gestoinvoluntário, ou laços afetivos que não escolhemos) são atos moldados emfantasias e organizados em torno de um objeto fantasiado. Mas devo ainda acrescentar um elemento essencial que caracterizaessas pulsões, a saber, o prazer particular que elas proporcionam. Não oprazer absoluto a que visam, mas o prazer limitado que obtêm: um prazerparcial, qualificado de sexual. Ora, que é o prazer sexual? E, em termos maisgerais: que é a sexualidade? Do ponto de vista da psicanálise, a sexualidadehumana não se reduz ao contato dos órgãos genitais de dois indivíduos, nem J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .33.
  • 34. 34à estimulação de sensações genitais. Não, o conceito de “sexual” reveste-se,em psicanálise, de uma acepção muito mais ampla que a de “genital”. Foramas crianças e os perversos que mostraram a Freud a vasta extensão da idéiade sexualidade. Chamamos sexual a toda conduta que, partindo de umaregião erógena do corpo (boca, ânus, olhos, voz, pele etc.), e apoiando-senuma fantasia, proporciona um certo tipo de prazer. Que prazer? Um prazerque comporta dois aspectos. Primeiro, sua diferença radical daquele outroprazer que é proporcionado pela satisfação de uma necessidade fisiológica(comer, eliminar, dormir etc.). O prazer de mamar do bebê, por exemplo, seuprazer da sucção, corresponde, do ponto de vista psicanalítico, a um prazersexual que não se confunde com o alívio de saciar a fome. Alívio e prazer porcerto estão associados, mas o prazer sexual de sucção logo se transformanuma satisfação buscada por si mesma, fora da necessidade natural. O sujeitopassa a ter prazer em sugar, independentemente de qualquer sensação defome. Segundo aspecto: o prazer sexual — bem distinto, portanto, do prazerfuncional —, polarizado em torno de uma zona erógena, obtido graças àmediação de um objeto fantasiado (e não de um objeto real), é encontradoentre os diferentes prazeres das carícias preliminares ao coito em si. Paraconservar nosso exemplo, o prazer de sucção irá prolongar-se como o prazerde abraçar o corpo do ser amado.Necessidade, desejo e amorPara melhor situar a distância entre prazer funcional e prazer sexual, dete-nhamo-nos por um instante e definamos com clareza as noções de necessi-dade, desejo e amor. A necessidade é a exigência de um órgão cuja satisfaçãose dá, realmente, com um objeto concreto (o alimento, por exemplo), e nãocom uma fantasia. O prazer de bem-estar proveniente daí nada tem de sexual.O desejo, em contrapartida, é uma expressão da pulsão sexual, ou melhor, éa própria pulsão sexual, quando lhe atribuímos uma intencionalidade orien-tada para o absoluto do incesto e a vemos contentar-se com um objetofantasiado, encarnado pela pessoa de um outro desejante. Diferentemente danecessidade, o desejo nasce de uma zona erógena do corpo e se satisfazparcialmente com uma fantasia cujo objeto é um outro desejante. Assim, oapego ao outro equivale ao apego a um objeto fantasiado, polarizado emtorno de um órgão erógeno particular. O amor, por último, é também umapego ao outro, mas de maneira global e sem o suporte de uma zona erógena J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .34.
  • 35. FREUD 35definida. Esses três estados, bem entendido, imbricam-se e se confundem emtoda relação amorosa. Mas, por que essas pulsões sexuais só obtêm um prazer limitado? Emais, por que se contentam com objetos fantasiados, e não com objetosconcretos e reais? Para responder, reportemo-nos à Figura 5. Pois bem, aspulsões sexuais só obtêm um prazer parcial e substitutivo porque esse foi oúnico prazer que elas conseguiram conquistar, com muita garra, depois de selivrarem das defesas do eu. Que defesas? Em primeiro lugar, o recalcamento.Ora, o recalcamento também é, a sua maneira, uma força, ou melhor, umapulsão. Acaso isso significa que haveria dois grupos de pulsões opostas: ogrupo das pulsões que tendem à descarga e o grupo das pulsões que se opõema elas? Sim, foi justamente essa a primeira teoria das pulsões, proposta porFreud no início de sua obra e até 1915, quando ele introduziu o conceito denarcisismo. Logo veremos qual foi a segunda teoria, formulada depois dessadata, mas, por enquanto, vamos distinguir duas tendências pulsionais anta-gônicas: as pulsões sexuais recalcadas e as pulsões do eu recalcantes.* Asprimeiras buscam o prazer sexual absoluto, enquanto as últimas se opõem aele. O resultado desse conflito consiste, precisamente, no prazer derivado eparcial que denominamos de prazer sexual.Os três principais destinos das pulsões sexuais:recalcamento, sublimação e fantasia.O conceito de narcisismoSe vocês se houverem assenhoreado da lógica em quatro tempos do funcio-namento psíquico, facilmente admitirão que o destino das pulsões sexuais ésempre o mesmo: elas estão condenadas a deparar sempre, no caminho deseu alvo ideal, com a oposição das pulsões do eu, isto é, com o obstáculo dorecalcamento. Mas, além do recalcamento, o eu opõe duas outras obstruçõesàs pulsões sexuais: a sublimação e a fantasia.* Com essa expressão, “pulsões do eu recalcantes ”, reduzimos o vasto campo das pulsões doeu a seu aspecto essencial. Estudar exaustivamente o campo das pulsões do eu ultrapassaria oslimites deste trabalho. J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .35.
  • 36. 36
  • 37. FREUD 37A sublimaçãoO primeiro desses entraves consiste em desviar o trajeto da pulsão, mudandoseu alvo; essa manobra é chamada sublimação e reside na substituição doalvo sexual ideal (incesto) por um outro alvo, não sexual, de valor social. Asrealizações culturais e artísticas, as relações de ternura entre pais e filhos, ossentimentos de amizade e os laços sentimentais do casal são, todos eles,expressões sociais das pulsões sexuais desviadas de seu alvo virtual.A fantasiaA outra barreira imposta pelo eu é mais complicada, porém a compreensãode seu mecanismo nos permitirá explicar por que os objetos com que a pulsãoobtém prazer sexual são objetos fantasiados, e não reais. Esse outro obstácu-lo que o eu opõe às pulsões sexuais consiste não numa mudança de alvo,como foi o caso da sublimação, mas numa mudança de objeto. No lugar deum objeto real, o eu instala um objeto fantasiado, como se, para deter oímpeto da pulsão sexual, o eu contentasse a pulsão enganando-a com a ilusãode um objeto fantasiado. Mas, como é que o eu consegue realizar essa mágica? Pois bem, paratransmudar o objeto real num objeto fantasiado, ele precisa, primeiro, incor-porar dentro de si o objeto real, até transformá-lo em fantasia. Tomemos umexemplo e decomponhamos artificialmente esse estratagema do eu, em seisetapas. 1. Imaginemos uma relação afetiva com uma pessoa que nos atraia e aquem amemos. Sem distinguir necessidade, desejo e amor, vamos preocu-par-nos com o estatuto dessa pessoa, quando ela é transformada, de objetoreal, em objeto fantasiado. Suponhamos, primeiro, que essa pessoa seja oobjeto real para o qual se orienta a pulsão sexual. 2. Nós (isto é, o eu) amamos essa pessoa até incorporá-la em nossointerior e fazer dela uma parte de nós mesmos. 3. Assim, identificamo-nos com o ser amado que está em nós e otratamos com um amor ainda mais poderoso do que aquele que lhe votáva-mos quando ele era real. 4. Então, a pessoa amada deixa de estar do lado de fora e vive dentrode nós como um objeto fantasiado, que mantém e reaviva constantemente apulsão sexual. Assim, a pessoa real passa a não mais existir para nós senão J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .37.
  • 38. 38sob a forma de uma fantasia, mesmo que, conjuntamente, continuemos areconhecer nela uma existência autônoma no mundo. Por conseguinte, quan-do amamos, sempre amamos um ser que é feito da fantasia e está referido aooutro ser real que reconhecemos do lado de fora. 5. A relação amorosa, assim fundamentada numa fantasia que aplaca asede da pulsão, proporciona, pois, o prazer parcial que qualificamos desexual. 6. Amaremos ou odiaremos nosso próximo conforme o modo quetivermos de acalentar ou odiar, dentro de nós, seu duplo fantasiado. Todas asnossas relações afetivas e, em particular, a relação que se estabelece entre opaciente e seu psicanalista — o amor de transferência —, todas essas relaçõesconformam-se aos moldes da fantasia; fantasia que mobiliza a atividade daspulsões sexuais e proporciona prazer.O conceito de narcisismoEntretanto, nas seqüências que acabamos de distinguir, não demos destaqueao gesto essencial do eu que lhe permite transformar o objeto real em objetofantasiado. Que gesto é esse? É uma torção do eu chamada narcisismo. Onarcisismo é o estado singular do eu quando — a fim de incorporar o objetoreal e transformá-lo em fantasia — ele toma o lugar do objeto sexual e se fazamar e desejar pela pulsão sexual. É como se o eu, para domar a pulsão, adesviasse de seu alvo ideal e a enganasse, dizendo-lhe: “Já que você estáprocurando um objeto para chegar a seus fins sexuais, venha, sirva-se demim!” A dificuldade teórica do conceito de narcisismo é justamente com-preender que as pulsões sexuais e o eu — identificado com o objeto fantasia-do — constituem duas partes de nós mesmos. O eu-pulsão sexual ama oeu-objeto. Assim é que podemos formular: o eu-pulsão ama a si mesmo comoa um objeto sexual. O narcisismo não se define, de maneira alguma, por umsimples voltar-se para si num “amar a si mesmo”, mas por um “amar a simesmo como objeto sexual”: o eu-pulsão sexual ama o eu-objeto sexual. Oamor narcísico do eu por ele mesmo, enquanto objeto sexual, está na base daconstituição de todas as nossas fantasias. Por isso, podemos concluir que amatéria das fantasias é, sempre e inevitavelmente, o eu. Resumamos, pois, os principais destinos das pulsões sexuais: serrecalcadas, sublimadas ou tapeadas por uma fantasia. * J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .38.
  • 39. FREUD 39As fases da sexualidade infantil e o complexo de ÉdipoMas as pulsões sexuais remontam a um ponto longínquo em nossa infância.Têm uma história que pontua o desenvolvimento de nosso corpo de criança.Sua evolução começa desde o nascimento e culmina entre os três e cincoanos, com o aparecimento do complexo de Édipo, que marca o apego dacriança àquele dos pais que é do sexo oposto ao dela e sua hostilidade paracom o do mesmo sexo. A resolução desse complexo é que irá conduzir acriança a encontrar sua identidade de homem ou de mulher. A maioria dosacontecimentos sobrevindos durante esses primeiros anos da vida é atingidapelo esquecimento, um apagamento a que Freud chamou amnésia infantil. Podemos destacar, sucintamente, três fases na história das pulsõessexuais infantis. Três fases que se distinguem de acordo com a dominânciada zona erógena: a fase oral, em que a zona dominante é a boca, a fase anal,em que é o ânus que prevalece, e a fase fálica, com a primazia do órgãogenital masculino. *A fase oral abrange os primeiros seis meses do bebê; a boca é a zona erógenapreponderante e proporciona ao bebê não apenas a satisfação de se alimentar,mas sobretudo o prazer de sugar, isto é, de pôr em movimento os lábios, alíngua e o palato, numa alternância ritmada. Quando empregamos a expres-são “pulsão oral” ou “prazer oral”, devemos afastar qualquer relação exclu-siva com o alimento. O prazer oral é, fundamentalmente, o prazer de exerceruma sucção sobre um objeto que se tem na boca ou que se leva à boca, e queobriga a cavidade bucal a se contrair e se relaxar sucessivamente. No bebê,como vimos, esse ganho de prazer à margem da saciação deve ser qualificadode sexual. O objeto da pulsão oral não é, portanto, o leite que ele ingere comoalimento, mas o afluxo de leite quente que excita a mucosa, ou então omamilo do seio materno, a mamadeira e, algum tempo depois, uma parte dopróprio corpo — na maioria das vezes, os dedos e, em especial, o polegar,que são, todos eles, objetos reais que mantêm o movimento cadenciado dasucção. E que são, todos, objetos-pretexto que sustentam as fantasias. Quan-do observamos uma criança que chupa o polegar bem apoiado contra aconcavidade do palato, com seu olhar sonhador, deduzimos que, nessemomento, ela está experimentando — psicanaliticamente falando — umintenso prazer sexual. Não nos esqueçamos de que o apego aos objetos reais J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .39.
  • 40. 40é, acima de tudo, um apego a objetos fantasiados. Assim, o polegar real quea criança suga é, na verdade, um objeto fantasiado que ela acaricia, ou seja,ela mesma (narcisismo). Acrescentemos que existe ainda uma fase oraltardia, que começa por volta do sexto mês de vida, com o surgimento dosprimeiros dentes. O prazer sexual de morder, às vezes com raiva, completa oprazer da sucção. *A fase anal desenvolve-se durante o segundo e terceiro anos. O orifício analé a zona erógena dominante, e as fezes constituem o objeto real que dá ensejoao objeto fantasiado das pulsões anais. Do mesmo modo que havíamosdistinguido o prazer de comer do prazer sexual da sucção, devemos aquiseparar o prazer funcional de defecar, aliviando-se de uma necessidadecorporal, do prazer sexual de reter as fezes e ejetá-las bruscamente. Aexcitação sexual da mucosa anal é provocada, antes de mais nada, por umritmo particular do esfíncter anal, quando ele se contrai para reter e se dilatapara evacuar. Originalmente, conhecemos apenas objetos sexuais: a psicanálise nos mostra que as pessoas a quem acreditamos apenas respeitar e estimar podem, para nosso inconsciente, continuar a ser objetos sexuais. S. FreudA fase fálica precede o estado final do desenvolvimento sexual, isto é, aorganização genital definitiva. Entre a fase fálica, que se estende dos três aoscinco anos, e a organização genital propriamente dita, que aparece quandoda puberdade, intercala-se um período chamado “de latência”, durante o qualas pulsões sexuais são inibidas. No curso da fase fálica, o órgão genital masculino — o pênis —desempenha o papel dominante. Na menina, o clitóris é considerado, segun-do Freud, um atributo fálico, fonte de excitação. À semelhança das outrasfases, o objeto real serve de base para o objeto fantasiado. Aqui, o pênis e o J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .40.
  • 41. FREUD 41clitóris são apenas os suportes concretos e reais de um objeto fantasiadochamado falo7. Quanto ao prazer sexual, ele resulta das carícias masturbató-rias e dos toques ritmados das partes genitais, tão ritmados quanto podem seros movimentos alternados da sucção no prazer oral e os da retenção/expulsãono prazer anal. No começo dessa fase, meninos e meninas acreditam que todos osseres humanos têm ou deveriam ter “um falo”. A diferença entre os sexos,homem/mulher, é então percebida pela criança como uma oposição possui-dor do falo/privado do falo (castrado). Depois, a menina e o menino seguirãoum caminho diferente, até sua identidade sexual definitiva. Essas vias diver-gem porque o objeto (falo) com o qual a pulsão fálica se satisfaz assume, nume noutro, uma forma diferente. Para o menino, o objeto da pulsão, ou seja, ofalo, é a pessoa da mãe, ou melhor, a mãe fantasiada, e às vezes, curiosamen-te, como veremos, o próprio pai. Para a menina, o objeto é inicialmente a mãefantasiada, e depois, num segundo tempo, o pai. O garotinho entra no Édipoe começa a manipular seu pênis, entregando-se a fantasias ligadas a sua mãe.Depois, sob o efeito conjunto da ameaça de castração proferida pelo pai e daangústia provocada pela percepção do corpo feminino, privado de falo, omenino acaba renunciando a possuir o objeto-mãe. O afeto em torno do qualo Édipo masculino se organiza, culmina e chega ao desenlace é a angústia;a chamada angústia de castração, isto é, o medo de ser privado daquela partedo corpo que, nessa idade, o menino tem por objeto mais estimável: seupênis, cuja fantasia tem o nome de “falo”. Na menina, a passagem da mãe para o pai é mais complicada. O grandeacontecimento durante o Édipo feminino é a decepção que a menina sente aoconstatar a falta do falo de que ela acreditava ter sido dotada. Esse sentimentode decepção, onde se misturam rancor e nostalgia, assume a forma acabadade um afeto de inveja: a inveja do pênis. Pênis — não nos esqueçamos —cuja fantasia é o falo. O afeto em torno do qual gravita o Édipo feminino nãoé, portanto, a angústia, como no menino, mas a inveja. Inveja do pênis, quelogo se transformará no desejo de ter um filho do pai e, mais tarde, quandoa menina se houver transformado em mulher, no desejo de ter um filho dohomem eleito. Mas vamos deixar claro que Freud, muito depois, comple-mentou a teoria da castração na menina, reconhecendo que a inveja não eraa única resposta à castração que ela acreditava já e definitivamente consuma-da, em virtude de sua falta de pênis. Existe ainda na mulher um afetodiferente da inveja, o de angústia. De uma angústia que deve ser compreen-dida como o medo, não de perder o pênis/falo que ela nunca teve, mas de J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .41.
  • 42. 42perder o outro “falo” inestimável que é o amor proveniente do objeto amado.A angústia de castração, na mulher, não é outra coisa, portanto, senão aangústia de perder o amor do ser amado. Numa palavra, os dois grandesafetos que decidirão sobre o desfecho do Édipo feminino são a inveja dopênis e a angústia de perder o amor. Observação sobre o Édipo do menino: o papel essencial do paiEu gostaria de desfazer, aqui, um freqüente mal-entendido concernente aoÉdipo do menino e, em particular, ao papel que o pai desempenha nele.Habitualmente, como nós mesmos acabamos de fazer, enfatizamos o apegodo menino à mãe como objeto sexual e seu ódio pelo pai. Pois bem, semrenegar essa configuração clássica do Édipo, Freud privilegiou tanto a rela-ção do menino com o pai que não hesitaremos em fazer do pai — e não damãe — o personagem principal do Édipo masculino. Eis o argumento paraisso. Na primeira etapa da formação do Édipo, reconhecemos dois tipos deligação afetiva do menino: um apego desejante à mãe, considerada comoobjeto sexual, e sobretudo um apego ao pai como modelo a ser imitado. Omenino faz de seu pai um ideal em que ele próprio gostaria de se transformar.O vínculo com a mãe — objeto sexual — não é outra coisa senão o ímpetode um desejo, ao passo que o vínculo com o pai — objeto ideal — repousanum sentimento de amor, produzido pela identificação com um ideal. Essesdois sentimentos, o desejo pela mãe e o amor pelo pai, diz-nos Freud,“aproximam-se um do outro, acabam por se encontrar, e é desse encontro queresulta o complexo de Édipo normal”8. Ora, o que se passa durante esseencontro? O menino fica aborrecido com a presença da pessoa do pai, quebarra seu impulso desejante dirigido à mãe. A identificação amorosa com opai ideal transforma-se, então, numa atitude hostil contra o pai, e acaba porderivar para uma identificação com o pai como homem da mãe. O meninopassa então a querer substituir o pai junto da mãe, tomada como objetosexual. Certamente, todos esses afetos dirigidos ao pai cruzam-se e combi-nam-se numa mescla de ternura pelo ideal, animosidade em relação aointruso e vontade de possuir os atributos do homem. Entretanto, pode ainda suceder ao Édipo virar-se numa curiosa inver-são. O verdadeiro Édipo invertido — expressão muito usada e raramente bemcompreendida — consiste numa mudança radical do estatuto do objeto-pai: J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .42.
  • 43. FREUD 43o pai aparece aos olhos do menino como um objeto sexual desejável. Tudosofre uma reviravolta. De objeto ideal que despertava admiração, ternura eamor, o pai transforma-se então num objeto sexual que excita o desejo.Antes, o pai era aquilo que se queria ser, um ideal; agora, o pai é o que segostaria de ter, um objeto sexual. Numa palavra, para o menino, o pai seapresenta sob três imagens diferentes: amado como um ideal, odiado comoum rival e desejado como um objeto sexual. É isso que nos empenhamos emsublinhar: o essencial do Édipo masculino são as vicissitudes da relação domenino com o pai, e não — como se costuma acreditar — com a mãe. *Mais uma palavra para sublinhar as particularidades da fase fálica, tãoessencial em relação às fases precedentes, já que de seu desfecho dependeráa futura identidade sexual da criança transformada em adulto. Aqui estão osaspectos a serem guardados em mente. Primeiro, note-se que, nessa fase, oobjeto fantasiado da pulsão não se apóia, como antes, numa parte do corpodo indivíduo, como o polegar ou as fezes, mas numa pessoa. O objetofantasiado da pulsão (falo) assume a imagem de uma mãe ou de um pai àsvoltas com desejos e pulsões. Assim, a mãe é percebida pelo menino da fasefálica através da fantasia de uma mãe desejante. Observe-se ainda que, no decorrer dessa fase, a criança, pela primeiravez, tem a experiência de perder o objeto da pulsão, não como conseqüênciade uma evolução natural, como nos estágios precedentes (o desmame, porexemplo), mas em resposta a uma obrigação incontornável. O menino perdeseu objeto-mãe para se submeter à lei universal da proibição do incesto. Leique o pai lhe ordena respeitar, sob pena de privá-lo de seu pênis. Por último, observe-se que a fase fálica é a única que se conclui pelaresolução de uma opção decisiva: o sujeito terá de escolher entre salvaruma parte de seu próprio corpo ou salvar o objeto de sua pulsão. Essaalternativa equivale, definitivamente, a eleger uma ou outra forma de falo:ou o pênis, ou a mãe. O menino terá que decidir entre preservar seu corpoda ameaça da castração, isto é, preservar o pênis, ou conservar o objeto desua pulsão, ou seja, a mãe. Terá que escolher entre salvar seu pênis erenunciar à mãe, ou não renunciar à mãe, mas sacrificar seu pênis. Semdúvida, o desfecho normal consiste em renunciar ao objeto e salvar aintegridade de sua pessoa. O amor narcísico tem primazia sobre o amorobjetal. Essa alternativa, que apresento como o drama que seria vivido por J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .43.
  • 44. 44uma criança mítica, é, na verdade, a mesma alternativa que todos atraves-samos em certos momentos de nossa existência, quando somos forçadosa tomar decisões em que o que está em jogo é perder aquilo que nos é maiscaro. Então, para preservar o ser, é o objeto que abandonamos. *Pulsões de vida e pulsões de morte.O desejo ativo do passadoAnunciei-lhes que Freud havia modificado sua primeira teoria das pulsões,que opõe as pulsões recalcantes do eu às pulsões sexuais. O motivo principaldisso foi a descoberta do narcisismo. Com efeito, lembremo-nos de que, paraenganar as pulsões, o eu torna-se um objeto sexual fantasiado: já não hádistinções a estabelecer entre um suposto objeto sexual externo e real, sobreo qual incidiria a libido das pulsões, e o próprio eu. O objeto sexual externo,o objeto sexual fantasiado e o eu são uma só e mesma coisa, que chamamosobjeto da pulsão. Desse ponto de vista, podemos afirmar: o eu ama a simesmo como objeto das pulsões. Mas, se a libido das pulsões sexuais pode incidir sobre esse objetoúnico que é o eu, já não há por que reconhecer no eu uma vontadedefensiva e recalcante contra as referidas pulsões sexuais. Por conseguin-te, as pulsões do eu desaparecem da teoria de Freud e, com elas, o par deopostos pulsões do eu/pulsões sexuais. Freud propõe então reagrupar osmovimentos libidinais, que incidem tanto no eu quanto nos objetossexuais externos, sob o termo único pulsões de vida, opondo-o ao termopulsões de morte. O alvo das pulsões de vida é a ligação libidinal, isto é,o atamento dos laços, por intermédio da libido, entre nosso psiquismo,nosso corpo, os seres e as coisas. As pulsões de vida tendem a investirtudo libidinalmente e a manter a coesão das partes da substância viva. Emcontrapartida, as pulsões de morte visam ao desligamento, ao desprendi-mento da libido dos objetos e ao retorno inelutável do ser vivo à tensãozero, ao estado inorgânico. No tocante a isso, esclarecemos que a “morte”que rege essas pulsões nem sempre é sinônimo de destruição, guerra ouagressão. As pulsões de morte representam a tendência do ser vivo aencontrar a calma da morte, do repouso e do silêncio. Podem tambémestar na origem das mais mortíferas manifestações humanas, quando a J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .44.
  • 45. FREUD 45tensão busca aliviar-se no mundo externo. Entretanto, quando as pulsõesde morte permanecem dentro de nós, elas são profundamente benéficas. Note-se que esses dois grupos de pulsões agem não apenas de comumacordo, mas compartilham um traço comum. Eu gostaria de me deter nisso,porque esse traço constituiu um conceito absolutamente novo, um salto nopensamento freudiano. Qual é esse traço comum às pulsões de vida e demorte? Qual é esse novo conceito? À parte sua diferença, tanto a pulsão devida quanto a pulsão de morte visam a restabelecer um estado anterior notempo. Seja a pulsão de vida, que procura aumentar a tensão, seja a pulsãode morte, que aspira à calma e ao retorno a zero, ambas tendem a reproduzire a repetir uma situação passada, quer tenha sido agradável ou desagradável,prazerosa ou desprazerosa, com ou sem tensão. Nossa vida e a vida daquelesque falam conosco, nossos pacientes, mostram que amiúde tendemos arepetir nossos fracassos e nossos sofrimentos, com uma força mais poderosa,às vezes, do que a que nos leva a reencontrar os acontecimentos agradáveis.É o caso do soldado com um trauma de guerra, que não consegue impedir-sede rever em sonhos, repetidamente, o evento traumático em que a bombaexplodiu a seu lado. Em suma, o novo conceito introduzido por Freud com a segunda teoriadas pulsões foi o da compulsão à repetição no tempo. A exigência de repetiro passado é mais forte do que a exigência de buscar no futuro o acontecimen-to prazeroso. A compulsão a repetir é uma pulsão primária e fundamental, apulsão das pulsões; já não se trata de um princípio que orienta, mas de umatendência que exige retornar, reencontrar aquilo que já aconteceu. O desejoativo do passado, mesmo que o passado tenha sido ruim para o eu, explica-sepor essa compulsão a retomar o que não foi concluído, com vontade decompletá-lo. Havíamos mostrado que nossos atos involuntários eram substi-tutos de uma ação ideal e não consumada. Por isso, a compulsão à repetiçãoseria o desejo de retornar ao passado e rematar, sem entraves e sem desvios,a ação que se revelou impossível, como se as pulsões inconscientes nunca seresignassem a ficar condenadas ao recalcamento. Por conseguinte, podemos afirmar que a pulsão de repetir no tempoé ainda mais irresistível que a de buscar o prazer. A tendência conserva-dora que é própria das duas pulsões — a de voltar atrás — prevalece sobrea outra tendência, igualmente conservadora, regida pelo princípio deprazer — a de reencontrar um estado sem tensão. Por isso, Freudconsiderou a compulsão à repetição como uma força que ultrapassa oslimites do princípio de prazer, que vai além da busca do prazer. Não J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .45.
  • 46. 46obstante, o par pulsões de vida/pulsões de morte continua a ser regido pelaação conjunta desses dois princípios fundamentais do funcionamentomental: encontrar o passado e encontrar o prazer.A transferência é uma fantasia cujo objeto é o inconscientedo psicanalistaDevo concluir agora. Gostaria de fazê-lo pedindo-lhes para entrar noconsultório do psicanalista e reconhecer, ali, que a relação do pacientecom o analista também pode ser entendida como uma expressão da vidapulsional. Desde o apego mais apaixonado até a mais obstinada hostilida-de, a relação analítica retira todas as suas particularidades das fantasiasque sustentam e sustentaram as relações afetivas que o analisando já viveuno passado. Esse é o fenômeno da transferência. Vamos deixar bem claroque o vínculo transferencial com o analista não é a simples reprodução,no presente, dos laços afetivos e desejantes do passado. A transferência é,antes de mais nada, a colocação em ato das mesmas fantasias que outrorase expressaram sob a forma dos primeiros laços afetivos. Portanto,convém entender que a transferência não é a repetição de uma antigarelação, mas a atualização de uma fantasia. O manejo da transferência exige do analista não só uma grande habili-dade e experiência, mas também uma constante atividade de autopercepção.O instrumento do psicanalista não é apenas o saber, mas, acima de tudo, seupróprio inconsciente, único meio de que ele dispõe para captar o inconscientedo paciente. Se, no complexo de Édipo, o objeto da pulsão fálica é o desejoda mãe, deveríamos adiantar que, na transferência, o objeto da pulsãoanalítica — vamos chamá-lo assim — é o inconsciente do psicanalista. Essa disponibilidade singular do analista, que lhe permite agir comseu inconsciente, mas também expor-se ao inconsciente do outro, explicapor que as produções do inconsciente surgidas ao longo do tratamentopodem aparecer, alternadamente, num ou noutro dos parceiros da análise.Foi essa alternância que me levou a propor a tese de um inconscienteúnico. Não há dois inconscientes, um pertencente ao analista e outro aoanalisando, mas um só e único inconsciente. As formações do inconscien-te, cujo aparecimento se alterna entre analista e analisando, podem serlegitimamente consideradas como a dupla expressão de um único incons-ciente, o da relação analítica. J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .46.
  • 47. FREUD 47 *A psicanálise não é um sistema fechado, à maneira de uma teoria abstrata.Ela é obrigada a se abrir constantemente e a avançar de modo tateante, guiadapor uma única exigência: empenhar-se na escuta daquele que sofre e verba-liza seu sofrimento. Esse fato, o simples fato de haver pacientes que expri-mem sua dor, obriga o psicanalista a voltar constantemente aos fundamentosda psicanálise, a rever, retomar e atualizar os princípios e conceitos básicos— como acabo de tentar fazer através deste trabalho. A psicanálise, diversa-mente de outras disciplinas do espírito, é inevitavelmente aberta, por serininterruptamente submetida à prova da verdade que é a realidade clínica. J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .47.
  • 48. Excertos da obra de Freud*A psicanálise é um procedimento, um método e a teoria daí derivadaPsicanálise é o nome: 1) de um método de investigação dos processos psíquicosque, de outro modo, são praticamente inacessíveis; 2) de um método de trata-mento dos distúrbios neuróticos que se fundamenta nessa investigação; 3) deuma série de concepções psicológicas adquiridas por esse meio (...).1 *O conhecimento favorece o tratamento, e o tratamento faz conhecer(...) há outra coisa que sei. Houve na psicanálise, desde o começo, umaestreita união entre tratamento e pesquisa, o conhecimento levava ao sucesso,e era impossível tratar sem aprender alguma coisa nova, não se adquirianenhum esclarecimento sem experimentar sua ação benéfica. Nosso proce-dimento analítico é o único em que essa preciosa conjunção se conservou.2 *Quais são os conteúdos da teoria psicanalítica?Agruparei mais uma vez os fatores que constituem o conteúdo dessa teoria.São eles: a ênfase colocada na vida pulsional (afetividade), na dinâmicapsíquica, na significância e no determinismo gerais, inclusive dos fenômenospsíquicos aparentemente mais obscuros e mais arbitrários; a doutrina doconflito psíquico e da natureza patogênica do recalcamento, a concepção dossintomas mórbidos como satisfação substitutiva, e o reconhecimento da* As traduções aqui constantes dos excertos de S. Freud correspondem às citações fornecidasem francês no original deste livro, não seguindo os textos traduzidos na E.S.B., cujos títulos evolumes são indicados para facilitar a consulta pelos leitores. (N.T.) 48 J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .48.
  • 49. FREUD 49importância etiológica da vida sexual, em particular a dos primórdios dasexualidade infantil.3 *O tempo 4 e o tempo 3 de nosso esquemaUma parte [das moções pulsionais sexuais] apresenta a preciosa propriedadede se deixar desviar de seus alvos imediatos e, assim, como tendências“sublimadas”, de colocar sua energia à disposição da evolução cultural[nosso tempo 4]. Mas outra parte permanece no inconsciente, como moçãode desejo insatisfeita, e pressiona à satisfação, seja ela qual for, mesmo quedeturpada [nosso tempo 3].4 *Aquilo que é, é o substituto do que não foi[Os] sintomas nascem em situações que contêm um impulso para uma ação,um impulso (...) que fora reprimido (...). É justamente no lugar dessas açõesnão ocorridas que surgem os sintomas.5 *O recalcamento primário é uma fixação do representante psíquico nosolo do inconscienteÉ lícito, portanto, admitirmos um recalcamento originário, uma primeirafase do recalcamento, que consiste em que ao representante psíquico (repre-sentante-representação) da pulsão é recusado o acesso ao consciente. Comele se produz uma fixação; o representante correspondente subsiste (...) demaneira inalterável, e a pulsão continua ligada a ele.6 *Depois que o recalcado chega à consciência, sob a forma de produtos,o recalcamento secundário é o recalcamento que reconduz essesprodutos a seu lugar de origem, isto é, ao inconscienteO segundo estádio do recalcamento, o recalcamento propriamente dito, J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .49.
  • 50. 50concerne aos produtos psíquicos do representante recalcado. (...) O recalca-mento propriamente dito, portanto, é um recalcamento a posteriori.7 *O recalcado é apenas uma parte do inconsciente (sendo a outra parteconstituída pela ação do próprio recalcamento)A psicanálise nos ensinou que a essência do processo de recalcamento nãoconsiste em suprimir, em aniquilar uma representação que representa apulsão, mas em impedir que ela se torne consciente. Dizemos, então, que elase encontra em estado “inconsciente”, e podemos fornecer sólidas provas deque, mesmo sendo inconsciente, ela pode produzir efeitos, alguns dos quaischegam até a atingir a consciência. Todo recalcado é necessariamente incons-ciente, mas fazemos questão de afirmar, desde logo, que o recalcado nãoabrange todo o inconsciente. O inconsciente tem uma extensão maior; orecalcado é uma parte do inconsciente.8 *O recalcado dita nossos atos e determina nossas escolhas afetivasTudo o que uma criança de dois anos já viu sem compreender pode muitobem nunca mais voltar a sua memória, a não ser em sonhos. (...) Mas, numdado momento, estes últimos [acontecimentos], dotados de grande forçacompulsiva, podem surgir na vida do sujeito, ditar-lhe seus atos, determinarsuas simpatias ou antipatias e, muitas vezes, decidir sobre sua escolhaamorosa, embora essa escolha, como é muito freqüente, seja indefensável doponto de vista racional.9 *As crianças e os perversos ensinaram a Freud que a sexualidadehumana ultrapassa largamente os limites do genitalChegou-se até a (...) fazer [à psicanálise] a extravagante censura de explicar“tudo” pela sexualidade. (...) No que concerne à extensão dada por nós à idéiade sexualidade, extensão esta que nos foi imposta pela psicanálise dascrianças e por aqueles a quem chamamos perversos, respondemos aos que, J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .50.
  • 51. FREUD 51de sua altivez, lançam um olhar de desprezo à psicanálise, que eles deveriamlembrar-se do quanto a idéia de uma sexualidade mais ampla se aproxima doEros do divino Platão.10 *O prazer sexual de sugar e o prazer de aplacar a fome são duassatisfações inicialmente associadas que, depois, vêm a se separarA criança, quando suga, busca nesse ato um prazer já experimentado e que,agora, volta-lhe à memória. Ao sugar ritmicamente uma parte da epidermeou da mucosa, a criança se satisfaz. (...) Diríamos que os lábios da criançadesempenham o papel de uma zona erógena e que a excitação causada peloafluxo do leite quente provoca o prazer. No começo, a satisfação da zonaerógena está estreitamente ligada ao aplacamento da fome. (A atividadesexual apóia-se, a princípio, numa função que serve para preservar a vida, daqual ela só se torna independente mais tarde.)11 *No Édipo masculino, o pai apresenta-se aos olhos do menino sob trêsimagens diferentes: amado como um ideal, odiado como um rival edesejado como um objeto sexual. Neste último caso, não só o meninotoma o pai como objeto sexual, mas também se oferece a ele, aexemplo da mãe, como objeto sexualA relação do menino com o pai é (...) uma relação ambivalente. Ao lado do ódioque gostaria de eliminar o pai enquanto rival, um certo grau de ternura para comele também costuma estar presente. (...) Outra complicação sobrevém quando(...) a ameaça que a castração faz pesar sobre a masculinidade reforça a inclina-ção do menino a se desviar em direção à feminilidade, colocar-se no lugar damãe e assumir o papel dela como objeto de amor do pai.12 *No Édipo feminino, o afeto que predomina não é, como no menino, aangústia de castração, mas a inveja do pênisAs coisas são diferentes na menina. Ela julga e decide prontamente. Viu aquilo, J.-D. Nasio – Introdução às Obras... 21/07/95 .51.

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