Editora Fiel
MARTINHO LUTERO
Versão condensada e de fácil leitura do clássico
“A Escravidão da Vontade” (Martinho Lutero),...
Título do Original:
Born Slaves
Copyright © 1984 Grace Publication Trust
Primeira Edição em Português: 1992
Segunda Edição...
Sumário
Prefácio à Edição em Português...................................................... 7
Prefácio: A Questão..........
Prefácio à
Edição em Português
“MartinhoLutero,aovenerávelD.ErasmodeRotterdam,
com os votos de Graça e Paz em Cristo”. É a...
• Nascido Escravo
Publicado inicialmente em 1525, A Escravidão da Vontade é um
primor de composição polêmica. Nesta obra t...
Prefácio à Edição em Português •
Criador. Lutero, assim, compreende que a pergunta pela liberdade da
vontade no fundo é a...
10 • Nascido Escravo
Prefácio
A Questão
A questão é: Possui o homem algo chamado “li-
vre-arbítrio”? Pode um ser humano, voluntariamente e sem
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12 • Nascido Escravo
MartinhoLuteroescreveu“AEscravidãodaVontade”como
reação aos ensinamentos de Desidério Erasmo. Nascido em Rotterdam,
na Hol...
14 • Nascido Escravo
ria uma abordagem simples do ensinamento cristão aos complicados e
pormenorizados métodos dos teólogo...
Introdução • 15
giado por Henrique VIII.
Este fato levou Lutero a declarar que Erasmo era um adversário
da fé evangélica. ...
c apítulo 1
O Que Ensinam
as Escrituras
Argumentos:
l: A culpa universal da humanidade prova que o “livre-arbítrio” é fal...
18 • Nascido Escravo
Argumentos:
12: A salvação para o mundo pecaminoso é pela graça de Cristo,
exclusivamente mediante...
O Que as Escrituras ensinam • 19
argumento 1
A culpa universal da humanidade prova que o
“livre-arbítrio”é falso.
Em Roman...
20 • Nascido Escravo
mas isto não os poupou de estarem debaixo da ira de Deus. Os gentios
desfrutavam de admiráveis benefí...
O Que as Escrituras ensinam • 21
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os homens são possuido...
22 • Nascido Escravo
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tamente claro. Deus é conhecido...
O Que as Escrituras ensinam • 23
guardar a lei de Deus. Todos os homens são ímpios e culpados, e mere-
cem ser punidos por...
24 • Nascido Escravo
lei moral. Paulo estava argumentando que não podemos ser justificados
diante de Deus mediante a tenta...
O Que as Escrituras ensinam • 25
reconhecer o que o pecado realmente é.Alei não foi dada a fim de mostrar
aos homens o que...
26 • Nascido Escravo
enquanto a enfermidade não for diagnosticada. A lei é necessária para
fazer os homens perceberem a pe...
O Que as Escrituras ensinam • 27
“livre-arbítrio”, capaz de praticar boas obras ou de tornar-nos bons
cidadãos, Paulo cont...
28 • Nascido Escravo
argumento 6
Não há lugar para qualquer idéia de mérito
ou recompensa pelas boas obras.
Aqueles que pr...
O Que as Escrituras ensinam • 29
de Deus. Portanto, em quase nada diferem um do outro.
Na verdade esses defensores da idéi...
30 • Nascido Escravo
Deus, e isso lhe foi imputado para justiça”. Ora, Paulo não nega que
Abraão era um homem justo. Mas o...
O Que as Escrituras ensinam • 31
Em último lugar, estamos todos debaixo da condenação divina, em
face da pecaminosa desobe...
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argumento 10
O estado do homem sem o Espírito de Deus
mostra que o“livre-arbítrio”nada pode fazer
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O Que as Escrituras ensinam • 33
argumento 11
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pensavam previamente sobre Cristo,ne...
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ceberam”. Por “mundo”, João dá a entender a humanidade inteira. Visto
que o “livre-arbítrio” seria um...
O Que as Escrituras ensinam • 35
temos recebido da sua plenitude, e graça sobre graça”. Isto posto, rece-
bemos bênçãos es...
36 • Nascido Escravo
novo nascimento? Eles nem ao menos podiam buscar aquelas realidades
pertencentes à salvação, antes da...
O Que as Escrituras ensinam • 37
conhecimento de que não poderia ser condenado.
Também lemos em João 3.27 que “o homem não...
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a menos que o próprio Pai fale ao coração e traga a pessoa a Cristo.
Erasmo pretende suavizar o senti...
O Que as Escrituras ensinam • 39
Não somos libertos por qualquer poder que em nós mesmos exista, mas
tão-somente pela graç...
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ou se haveria ainda mais alguma coisa que precisaria fazer. Posso pro-
var isso mediante a minha próp...
O Que as Escrituras ensinam • 41
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c apítulo 2
O Que Erasmo ensinava
Argumentos:
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Argumentos
13: A lei mostra a fraqueza humana e o poder salvador de Deus...............................
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argumento 1
Definição de Erasmo do“livre-arbítrio”.
Para ser justo, terei de citar a sua própri...
46 • Nascido Escravo
Em seguida, quais são as coisas que “conduzem à eterna salva-
ção”? Elas têm de ser as palavras e as ...
O Que Erasmo ensinava • 47
humana. Você é um homem muito estranho!
Prefiro até mesmo o ensinamento de alguns dos antigos f...
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argumento 3
Três pontos de vista de Erasmo a respeito do
“livre-arbítrio”.
Você apresenta três pontos...
O Que Erasmo ensinava • 49
tão absurda”. O que você escreve significa que tentar ser bom, está e ao
mesmo tempo não está n...
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(Eclesiásticos) 15.14-17. Esse trecho começa dizendo: “No princípio ele
fez o homem e o deixou entreg...
O Que Erasmo ensinava • 51
argumento 6
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52 • Nascido Escravo
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damentos”, devem significar “por...
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argumento 8
Deuteronômio 30.19 — a lei é designada para
nos dar conhecimento do pecado.
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esquerda. É-lhe então ordenado que escolha um deles. O que você está
tentando provar com essa ilustra...
O Que Erasmo ensinava • 55
voltar-se para Deus contando apenas com a sua própria capacidade. Mas,
quando os homens entende...
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Portanto, essas palavras em Ezequiel, “não tenho prazer na
morte de ninguém”, longe de provarem o “li...
O Que Erasmo ensinava • 57
no que ela consiste. Basta-nos saber que a vontade secreta de Deus exis-
te, de modo que venham...
58 • Nascido Escravo
Você diz que essas palavras não somente mostram que nos é pos-
sível cumprir aquilo que elas nos orde...
O Que Erasmo ensinava • 59
argumento 12
O homem não deve intrometer-se na vontade
secreta de Deus.
Agora chegamos aos seus...
60 • Nascido Escravo
9.19,21; e Isaías, antes de Paulo (Is 58.2). É evidente que não devemos
procurar sondar a vontade sec...
O Que Erasmo ensinava • 61
guardar os mandamentos (o que terás, não por ti mesmo, mas através de
Deus, que a dá a quem Ele...
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e instruções cujo intuito é despertar aqueles que forem justificados,
após haverem recebido a graça e...
O Que Erasmo ensinava • 63
bom capacitados pela graça divina, daí é óbvio, que o mérito e o galar-
dão provêm exclusivamen...
Nascido escravo martinho lutero
Nascido escravo martinho lutero
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Nascido escravo martinho lutero
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Nascido escravo martinho lutero

Published on: Mar 3, 2016
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Transcripts - Nascido escravo martinho lutero

  • 1. Editora Fiel MARTINHO LUTERO Versão condensada e de fácil leitura do clássico “A Escravidão da Vontade” (Martinho Lutero), publicado inicialmente em 1525 Preparado por Cliffor Pond Editor Geral: J.K.Davies, B.D., Th.D.
  • 2. Título do Original: Born Slaves Copyright © 1984 Grace Publication Trust Primeira Edição em Português: 1992 Segunda Edição em Português: 2007 • Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica Literária Proibida a reprodução deste livro por quaisquer meios, sem a permissão escrita dos editores, salvo em breves citações, com indicação da fonte. • Editor: Pr. Richard Denham Coordenação Editorial: Tiago Santos Tradução: Editora Fiel Revisão: Laura Macal; Tiago Santos Capa e diagramação: Edvânio Silva Direção de arte: Rick Denham ISBN: 978-8599145-30-2 Editora Fiel Missão Evangélica Literária Av. Cidade Jardim, 3978 Bosque dos Eucaliptos São José dos Campos-SP PABX.: (12) 3936-2529 www.editorafiel.com.br
  • 3. Sumário Prefácio à Edição em Português...................................................... 7 Prefácio: A Questão............................................................. 11 Apresentação: O Pano de Fundo do Livro e a Controvérsia com Erasmo.................................... 13 Capítulo 1: O Que Ensinam as Escrituras............................... 17 Capítulo 2: O Que Erasmo ensinava....................................... 43 Capítulo 3: O Que Lutero Pensava Sobre o Ensino de Erasmo.................................... 67 Capítulo 4: Comentário de Lutero .......................................... 87 Post Scriptum: História Posterior da Controvérsia e sua Importância Atual........................................ 99
  • 4. Prefácio à Edição em Português “MartinhoLutero,aovenerávelD.ErasmodeRotterdam, com os votos de Graça e Paz em Cristo”. É assim que Lutero introduz a sua obra De Servo Arbítrio, A Escravidão da Vontade, resposta à famosa Diatribe sobre o Livre Arbítrio, que Erasmo publicou em 1524. Desidério Erasmo (c. 1466-1536) e Martinho Lutero (1483-1546) permanecem como dois nomes precursores do espírito moderno, e entre eles há algumas semelhanças. Esses dois gigantes intelectuais europeus protagonizaram no contexto explosivo, destinado a dissolver a unidade do mundo medieval. Havendo passado pela Ordem agostiniana, ambos vieram a rejeitar métodos hermenêuticos da Igreja Romana, bem como muitas de suas superstições e crendices. Ambos ofereceram grande con- tribuição à disseminação do texto bíblico em sua época. Detentores de enorme capacidade para o debate acadêmico, erudito, e partilhando de talento literário, ambos escreveram acerca do “livre arbítrio”, embo- ra com uma diferença diametral: Erasmo, o humanista, defendendo; e Lutero, o reformador, condenando. Isto marcou uma ruptura definitiva entre os dois homens, que, anteriormente, ofereciam-se mútuo enco- rajamento. Desde o debate de Leipzig (1519), os caminhos de ambos vinham conduzindo a rumos diferentes.
  • 5. • Nascido Escravo Publicado inicialmente em 1525, A Escravidão da Vontade é um primor de composição polêmica. Nesta obra transparecem com bastante evidência a personalidade e a franqueza dos sentimentos de Lutero. A força lógica e persuasiva de seus argumentos revelam a mente treinada na disciplina da escolástica medieval. O estilo polêmico de Lutero era o da época em que viveu e traduz o vapor existente na atmosfera aca- dêmica de então. Na obra original (tanto mais do que no sumário aqui apresentado), há ironias, asperezas, ad hominems e alusões indiretas. Não obstante, o leitor deve comparar o texto luterano muito mais com o bisturi de um resoluto cirurgião do que com a pena de um clínico em seu receituário. Na estima de Lutero, o tratado erasmiano era uma obra da carne. Contendo uma anamnese mal feita, partia de um princípio falso e oferecia um placebo para uma ferida mortal. Lutero repudia a Diatribe de Erasmo expondo a doutrina bíblica do pecado original. Sem um diagnóstico preciso acerca da enfermidade humana, não há como discernir de maneira apropriada o valor das boas-novas do evangelho da graça de Cristo. Em sua réplica, Lutero procede a um honesto e rigoroso exame das Escrituras Sagradas, evidentemente preterido por Erasmo. Foi com a compreensão do puro evangelho que se abriu para Lutero a noção do cativeiro radical da vontade. Sem nenhuma dúvida, na dou- trina da depravação do homem situa-se a pedra angular da Reforma. No coração da teologia de Lutero e da doutrina da justificação, está a sua compreensão da depravação original e da pecaminosidade do ho- mem – que ele conheceu muito bem, mesmo como um monge asceta na Ordem agostiniana. O reformador está muito bem qualificado para tratar do assunto da impiedade e da depravação. O que é a verdadeira liberdade? Neste caso, vê-se também que o discurso sobre a condição servil da vontade não visa a outra coisa, se não ao discurso correto sobre a liberdade. Para Lutero, a livre vontade é um termo divino, e não cabe a ninguém, a não ser unicamente à ma- jestade divina. Conceder ao ser humano tal atributo significaria nada menos do que atribuir-lhe a própria divindade, usurpando a glória do
  • 6. Prefácio à Edição em Português • Criador. Lutero, assim, compreende que a pergunta pela liberdade da vontade no fundo é a pergunta pelo poder da vontade. Por isso mesmo, a livre vontade é predicado de Deus. É poder essencialmente específico do próprio Deus. Lutero considerava A Escravidão da Vontade a sua melhor e mais útil publicação. O valor deste tratado é inestimável realmente, e poucos livros há que sejam tão necessários no presente momento. O atual ensino de muitos que se denominam “protestantes” está em maior acordo com os dogmas papistas, ou com as idéias de Erasmo, do que com os princí- pios dos Reformadores; analisado criticamente, tal ensino está em maior harmonia com os Cânones e Decretos do Concílio de Trento do que com as Confissões de Fé Protestantes e Reformadas. O que o leitor tem em mãos é uma versão condensada e adaptada, facilitando o acesso ao clássico texto luterano. Oramos sinceramente que o Senhor abençoe o leitor e que este, abraçando com fé o Eleito de Deus, Jesus Cristo, batalhe por manter sua Causa e sua Verdade nestes dias em que muito tem sido perdido. Que o livro seja um meio de edifi- cação e fortalecimento para todos quantos desejam ser instruídos pelos oráculos de Deus! Gilson Santos Maio, 2007 São José dos Campos – SP
  • 7. 10 • Nascido Escravo
  • 8. Prefácio A Questão A questão é: Possui o homem algo chamado “li- vre-arbítrio”? Pode um ser humano, voluntariamente e sem qualquer ajuda, voltar-se para Cristo a fim de ser salvo de seus pecados? Erasmo respondia com um “Sim!”. Lutero, com um ressoante “Não!” Lutero estava convencido de que o conceito do “livre-arbítrio” fere no âmago a doutrina bíblica da salvação exclusivamente pela graça. Precisamos ter a mesma convic- ção. Devemos combater o “livre-arbítrio” tão vigorosamente quanto o fazia Lutero. Erasmo, o seu opositor, dizia: “Posso conceber o “livre-arbítrio” como um poder da vontade huma- na, mediante o qual um homem pode aplicar-se àquelas coisas que conduzem à eterna salvação, ou pode afastar-se delas”. A isso devemos replicar com um resoluto “Não! O homem já nasce escravo do pecado!” O homem não é livre.
  • 9. 12 • Nascido Escravo
  • 10. MartinhoLuteroescreveu“AEscravidãodaVontade”como reação aos ensinamentos de Desidério Erasmo. Nascido em Rotterdam, na Holanda, entre 1466 e 1469, Erasmo foi monge agostiniano durante sete anos, antes de viajar para a Inglaterra, onde foi motivado a aprofun- dar seu conhecimento do grego, chegando a produzir um texto crítico do Novo Testamento Grego (1516). Ele rejeitava os métodos fantasiosos de interpretação das Escrituras, bem como as muitas superstições dos mestres da Igreja Católica Romana. Rebelou-se contra a preguiça e o vício, comuns nos mosteiros, mas, apesar disso, não foi um crente no evangelho. Ele era um humanista, pois acreditava que os homens podem conquistar a salvação, ao invés de dependerem exclusivamente de Jesus Cristo — em sua morte e ressurreição. Erasmo acertadamente prefe- apresentação O Pano de Fundo do Livro e a Controvérsia com Erasmo
  • 11. 14 • Nascido Escravo ria uma abordagem simples do ensinamento cristão aos complicados e pormenorizados métodos dos teólogos profissionais. Ele evitava as con- trovérsias e, por longo tempo, não procurou tratar publicamente sobre o conceito do “livre-arbítrio”. No entanto, ao fazê-lo, constituiu um desa- fio que Martinho Lutero não pôde ignorar. Martinho Lutero nasceu na Saxônia (hoje parte da Alemanha) e era cerca de catorze anos mais jovem do que Erasmo. Enquanto ainda era monge, passou por uma dramática experiência com o evangelho da graça de Deus. A partir de então, compreendeu que cada crença e expe- riência precisa ser testada através da autoridade das Escrituras Sagradas. Ele entendeu que a salvação é recebida como uma graça divina, “me- diante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9). A sua própria experiência confirmou sua convicção. Lutero era professor, teólogo e também pastor. Os membros de sua igreja sabiam que ele sentia o que pregava. Ele não era um erudito seco e indiferente. Ele sentia a pressão da eternidade cada vez que pregava. Isso o compelia, algumas vezes, a fazer coisas impopulares e, por vezes, até perigosas. Era alguém disposto a defender a verdade de Deus, ainda que fosse contra o mundo inteiro. A princípio, Erasmo parecia ser um dos aliados de Lutero, visto que ambos rejeitavam muitos dos erros e falhas da Igreja de Roma. Todavia, Lutero desafiava cada vez mais o ensinamento romanista da salvação mediante as obras, insistindo que “o justo viverá por fé” (Rm 1.17). Entrementes, Erasmo continuava na Igreja de Roma, e, como era um erudito, cedeu à pressão de sua igreja para defender o ensino do “li- vre-arbítrio”. Desafiando a solicitação de Lutero para que não fizesse tal coisa, Erasmo publicou sua “Discussão Sobre o Livre-Arbítrio”, em 1524, tendo escrito a Henrique VIII nestes termos: “Os dados foram lançados. O livrete sobre o ‘livre-arbítrio’acaba de ver a luz do dia’’. O livro agradou ao Papa e ao Sacro Imperador Romano, e foi elo-
  • 12. Introdução • 15 giado por Henrique VIII. Este fato levou Lutero a declarar que Erasmo era um adversário da fé evangélica. Deus controlou soberanamente a intensa luta entre esses dois homens, para benefício de seu reino. O conflito produziu uma grandiosa declaração da doutrina evangélica que tem, desde então, enriquecido a Igreja de Cristo — a obra de Lutero, “A Escravidão da Vontade”. Oferecemos aqui uma edição abreviada dessa grande obra. Pudemos reter muito do estilo de Lutero, embora não tenhamos segui- do sua ordem de apresentação. Começamos por onde Lutero terminou, sumariando a sua posição doutrinária sobre a escravidão da vontade humana. Seguimos com outras seções, onde Lutero apresenta e, em se- guida refuta os argumentos de Erasmo. O estilo de Lutero normalmente nos impeliria a acrescentar cer- tas palavras, toda vez que ele emprega a expressão “livre-arbítrio”. Por exemplo: o livre-arbítrio que você supõe que existe. Entretanto, temos preferido refletir o sentido tencionado por Lutero usando aspas — “livre-arbítrio”. E, nos capítulos dois, três e quatro, retivemos o discurso direto de Lutero, conservando, tanto quanto possível, a at- mosfera de sua obra. Não incluímos cada argumento utilizado por Lutero, porque, se o fizéssemos, isso ampliaria indevidamente este sumário.
  • 13. c apítulo 1 O Que Ensinam as Escrituras Argumentos: l: A culpa universal da humanidade prova que o “livre-arbítrio” é falso.............19 2: O domínio universal do pecado prova que o “livre-arbítrio” é falso................21 3: O “livre-arbítrio” não pode obter aceitação diante de Deus através da observância da lei moral e cerimonial..............................................23 4: A lei tem o propósito de conduzir os homens a Cristo, dando-lhes o conhecimento do pecado.............................................................25 5: A doutrina da salvação pela fé em Cristo prova que o “livre-arbítrio” é falso....................................................................................26 6: Não há lugar para qualquer idéia de mérito ou recompensa pelas boas obras.................................................................................................28 7: O “livre-arbítrio” não tem valor porque as obras nada têm a ver com a justiça do homem diante de Deus...........................................................29 8: Uma série de refutações....................................................................................30 9: Paulo é absolutamente claro ao refutar o “livre-arbítrio”.................................31 10: O estado do homem sem o Espírito de Deus mostra que o “livre-arbítrio” nada pode fazer de natureza espiritual..................................32 11: Aqueles que chegam a conhecer a Cristo não pensavam previamente sobre Cristo, nem O buscavam, nem se prepararam para conhecê-Lo.............33
  • 14. 18 • Nascido Escravo Argumentos: 12: A salvação para o mundo pecaminoso é pela graça de Cristo, exclusivamente mediante a fé...........................................................................33 13: O caso de Nicodemos, no terceiro capítulo de João, opõe-se ao “livre-arbítrio”.................................................................................35 14: O “livre-arbítrio” não tem utilidade, pois a salvação vem somente por meio de Cristo.......................................................................36 15: O homem é incapaz de crer no evangelho, por isso todos os seus esforços não podem salvá-lo.......................................................37 16: A incredulidade universal prova que o “livre-arbítrio’’ é falso........................38 17: O poder da carne, mesmo em verdadeiros crentes, mostra a falsidade do “livre-arbítrio”................................................................39 18: Saber que a salvação não depende do “livre-arbítrio” pode ser muito reconfortante.............................................................................39 19: A honra de Deus não pode ser maculada..........................................................40 As Escrituras são como diversos exércitos que se opõem à idéia de que o homem tem um “livre-arbítrio”para escolher e receber a salvação.Porém,basta-me trazer à frente de batalha dois generais — Paulo e João,com algumas de suas forças.
  • 15. O Que as Escrituras ensinam • 19 argumento 1 A culpa universal da humanidade prova que o “livre-arbítrio”é falso. Em Romanos 1.18, Paulo ensina que todos os homens, sem qualquer exceção, merecem ser castigados por Deus. “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça”. Se todos os homens possuem “livre-arbítrio”, ao mesmo tempo em que todos, sem qualquer exceção, estão debaixo da ira de Deus, segue-se daí que o “livre-arbítrio” os está conduzindo a uma única direção — da “impiedade e da iniqüidade”. Portanto, em que o poder do “livre-arbítrio” os está ajudando a fazer o que é certo? Se existe realmente o “livre-arbítrio”, ele não parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação, porquanto os deixa sob a ira de Deus. Algumas pessoas, no entanto, acusam-me de não seguir bem de perto a Paulo. Eles afirmam que as palavras dele, “contra toda impie- dade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” não significam que todos os seres humanos, sem exceção, estão culpados aos olhos de Deus. Eles argumentam que o texto dá a entender que algumas pessoas não “detêm a verdade pela injustiça”. Entretanto, Paulo estava usando uma construção de frase tipicamente hebraica, que não deixa dúvida de que ele se referia à impiedade de todos os homens. Além do mais, notemos o que Paulo escreveu imediatamente antes dessas palavras. No versículo 16, Paulo declara que o evangelho é “o po- der de Deus para a salvação de todo aquele que crê”. Isso significa que, não fosse o poder de Deus conferido através do evangelho, ninguém teria forças, em si mesmo, para voltar-se para Deus. Paulo prossegue, asseverando que isso tem aplicação tanto aos judeus quanto aos gen- tios. Os judeus conheciam as leis divinas em seus mínimos detalhes,
  • 16. 20 • Nascido Escravo mas isto não os poupou de estarem debaixo da ira de Deus. Os gentios desfrutavam de admiráveis benefícios culturais, mas isto em nada os aproximava de Deus. Havia judeus e gentios que muito se esforçavam por acertar a sua situação diante de Deus, mas, apesar de todas as suas vantagens e de seu “livre-arbítrio”, eles fracassaram totalmente. Paulo não hesitou em condenar a todos eles. Observemos igualmente que, no versículo 17, Paulo diz que “a jus- tiça de Deus se revela”. Assim, Deus mostra a sua retidão aos homens. Mas Ele não é um tolo. Se os homens não precisassem da ajuda divina, Ele não desperdiçaria o seu tempo prestando-lhes tal ajuda. A conversão de qualquer pessoa acontece quando Deus vem até ela e vence-lhe a ignorância ao revelar-lhe a verdade do evangelho. Sem isso, ninguém jamais poderia ser salvo. Ninguém, durante toda a história humana, concebeu por si mesmo a realidade da ira de Deus, conforme ela nos é ensinada nas Escrituras. Ninguém jamais sonhou em estabelecer a paz com Deus por intermédio da vida e da obra de um Salvador singular, o Homem-Deus, Jesus Cristo. De fato, o que ocorre é que os judeus rejeitaram a Cristo, apesar de todo o ensino que lhes foi ministrado por seus profetas. Parece que a justiça própria alcançada por alguns judeus ou gentios os levou a deixarem de buscar a justiça divina através da fé, para fazerem as coisas à sua própria maneira. Portanto, quanto mais o “livre-arbítrio” se esforça, tanto piores tornam-se as coisas. Não existe um terceiro grupo de pessoas, que se situe em algum ponto entre os crentes e os incrédulos — um grupo de homens capazes de salvarem-se a si mesmos. Judeus e gentios constituem a totalidade da humanidade, e todos eles estão debaixo da ira de Deus. Ninguém tem a capacidade de voltar-se para Deus. Deus precisa tomar a iniciativa e revelar-Se a eles. Se fosse possível descobrir a verdade por meio do “livre-arbítrio”, certamente algum judeu, em algum lugar, tê-lo-ia feito! Os mais elevados raciocínios dos gentios e os mais intensos esforços dos melhores dentre os judeus (Rm 1.21; 2.23,28,29) não conseguiram aproximá-los nem um pouco sequer da fé em Cristo. Eles eram pecado-
  • 17. O Que as Escrituras ensinam • 21 res condenados juntamente com todo os demais homens. Ora, se todos os homens são possuidores de “livre-arbítrio”, e todos os homens são culpados e estão condenados, então esse suposto “livre-arbítrio” é im- potente para conduzi-los à fé em Cristo. Por conseguinte, a vontade dos homens, afinal, não é livre. argumento 2 O domínio universal do pecado prova que o “livre arbítrio”é falso. Precisamos permitir que Paulo explique o seu próprio ensinamen- to. Diz ele em Romanos 3.9: “Que se conclui? Temos nós [os judeus] qualquer vantagem [sobre os gentios]? não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado”. Não somente são todos os homens, sem qualquer exceção, consi- derados culpados à vista de Deus, como também são escravos desse mesmo pecado que os torna culpados. Isso inclui os judeus, os quais pensavam que não eram escravos do pecado porque possuíam a lei de Deus. Mas, visto que nem judeus nem gentios têm se mostrado capazes de desvencilharem-se dessa servidão, torna-se evidente que no homem não há poder que o capacite a praticar o bem. Esta escravidão universal ao pecado inclui até mesmo aqueles que parecem ser os melhores e mais retos. Não importa o grau de bondade que um homem possa alcançar; isso não é a mesma coisa que possuir o conhecimento de Deus. O que há de mais admirável é sua razão e sua vontade, contudo, é forçoso reconhecer que esta mais nobre porção dos homens está corrompida. Diz Paulo, em Romanos 3.10-12: “Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça
  • 18. 22 • Nascido Escravo o bem, não há nem um sequer”. O significado dessas palavras é perfei- tamente claro. Deus é conhecido através da razão e da vontade humana. Porém, nenhum ser humano, somente por sua natureza, conhece a Deus. Precisamos concluir, portanto, que a vontade humana está corrompida e que o homem é totalmente incapaz, por si mesmo, de conhecer a Deus ou de agradá-Lo. Talvez alguma pessoa audaciosa atreva-se a dizer que somos ca- pazes de fazer mais do que de fato fazemos; porém, o que aqui nos interessa é o que somos capazes de fazer, e não o que estamos ou não estamos fazendo. O trecho das Escrituras citado por Paulo, em Romanos 3.10-12, não nos autoriza a fazer tal distinção. Deus condena tanto a incapacidade pecaminosa dos homens quanto os seus atos corruptos. Se os homens fossem capazes, ainda que o mínimo possível, de movimen- tarem-se na direção de Deus, não haveria mais qualquer necessidade de Deus salvá-los. Deus permitiria que os homens salvassem-se a si mes- mos. Porém, nenhum é capaz de ao menos tentar fazê-lo. Em Romanos 3.19, Paulo declara que toda boca se calará diante de Deus, porque ninguém poderá argumentar contra o julgamento divino, visto que nada existe, em pessoa alguma, digno de ser elo- giado pelo Senhor — nem ao menos um arbítrio livre para voltar-se espontaneamente para Ele. Se alguém disser: “Tenho uma capacida- de própria, ainda que pequena, de voltar-me para Deus”, esse alguém deve estar querendo dizer que pensa que nele há alguma coisa a qual Deus possa elogiar e não condenar. Sua boca não está calada! Mas tal idéia contradiz as Escrituras. Deus ordenou que toda boca ficasse calada. Não é apenas certos gru- pos de pessoas que são culpados diante de Deus. Não apenas os fariseus, dentre o povo israelita, estão condenados. Se isso fosse verdade, então os demais judeus teriam tido alguma capacidade própria para guardar a lei e evitar tornarem-se culpados. Porém, até mesmo os melhores dentre os homens estão condenados por sua impiedade. Estão espiritualmente mortos, da mesma forma que aqueles que, de maneira alguma, procuram
  • 19. O Que as Escrituras ensinam • 23 guardar a lei de Deus. Todos os homens são ímpios e culpados, e mere- cem ser punidos por Deus. Essas coisas são tão evidentes que ninguém pode nem mesmo sussurrar uma palavra que as contrarie! argumento 3 O“livre-arbítrio”não pode obter aceitação diante de Deus através da observância da lei moral e cerimonial. Eu argumento que quando Paulo disse em Romanos 3.20,21: “...ninguém será justificado diante dele por obras da lei”, pensou na lei moral (os dez mandamentos), bem como na lei cerimonial. Tem-se generalizado a idéia de que Paulo tinha em mente apenas a lei cerimonial — o ritual de sacrifícios de animais e a adoração no templo. É espantoso que chamem Jerônimo, que criou essa idéia, de santo! Eu o classificaria de forma bem diferente! Jerônimo declarou que a morte de Cristo pôs fim a qualquer possibilidade de alguém ser justificado (ou declarado justo) por meio da observância da lei ceri- monial. Mas deixou inteiramente aberta a possibilidade de alguém ser justificado mediante a observância da lei moral, contando apenas com as suas próprias forças, sem a ajuda de Deus. Minha resposta a isso é que se Paulo referiu-se somente a lei ce- rimonial, então seu o argumento não tem qualquer significado. Paulo estava afirmando que todos os homens são injustos e necessitados da graça especial de Deus — o amor, a sabedoria e o poder de Deus — por intermédio dos quais Ele nos salva. O resultado da idéia de Jerônimo seria que a graça de Deus é necessária para salvar-nos da lei cerimonial, mas não da lei moral. Todavia, nós não podemos observar a lei moral à parte da graça divina. Você pode intimidar as pessoas para que observem as cerimônias, mas nenhum poder humano pode forçá-las a guardar a
  • 20. 24 • Nascido Escravo lei moral. Paulo estava argumentando que não podemos ser justificados diante de Deus mediante a tentativa de guardar a lei moral, ou mesmo a lei cerimonial. Comer e beber, e fazer outras coisas semelhantes, em si mesmas, nem nos justifica nem nos condena. Irei ainda mais longe, afirmando que Paulo queria dizer que a tota- lidade da lei, e não alguma porção particular dela, é obrigatória a todos homens. Se a lei não se aplicasse mais aos homens devido a morte de Cristo, tudo quanto Paulo precisava dizer era isto e nada mais. Em Gálatas 3.10, Paulo escreveu: “Todos quantos, pois, são das obras da lei, estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las”. Nesse texto, Paulo busca apoio em Moisés para afirmar que a lei é im- posta sobre todos os homens, e que o fracasso na obediência à lei sujeita todos os homens à maldição divina. Nem os homens que procuram obedecer à lei, nem aqueles que não tentam guardá-la estão justificados diante do Senhor, porquanto todos estão espiritualmente mortos. O ensinamento de Paulo é que há duas classes de pessoas no mundo — aquelas que estão espiritualmente vivas e aquelas que não estão. Isto está em harmonia com o ensinamento de Jesus Cristo em João 3.6: “O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito”. Para as pessoas que não possuem o Espírito Santo, a lei é sem utilidade. Não importa o quanto procurem guardar a lei, não serão justificadas exceto pela fé. Finalmente, então, se existe tal coisa como o “livre-arbítrio”, deve ser a mais nobre das capacidades humanas, porque, mesmo sem o Espírito Santo, o “livre-arbítrio” afirma possibilitar ao homem guardar a lei intei- ra! Entretanto, Paulo assevera que aqueles que são das “obras da lei” não estão justificados. Isso significa que o “livre-arbítrio”, mesmo considerado por seu melhor ângulo, é incapaz de corrigir a situação do homem diante de Deus. De fato, em Romanos 3.20, Paulo afirma que a lei é necessária para mostrar-nos no que consiste o pecado: “Pela lei vem o pleno conheci- mento do pecado”. Aqueles que são das “obras da lei” não são capazes de
  • 21. O Que as Escrituras ensinam • 25 reconhecer o que o pecado realmente é.Alei não foi dada a fim de mostrar aos homens o que eles podem fazer, mas para corrigir as suas idéias sobre o que é o certo e errado aos olhos de Deus. O “livre-arbítrio” é cego, pois precisa ser ensinado através da lei. E também é impotente, pois não con- segue justificar ninguém diante de Deus. argumento 4 A lei tem o propósito de conduzir os homens a Cristo,dando-lhes o conhecimento do pecado. O argumento a favor do “livre-arbítrio” é que a lei não nos teria sido dada se não fôssemos capazes de obedecê-la. Erasmo, por repetidas vezes você tem dito: “Se nada podemos fazer, qual é o propósito das leis, dos preceitos, das ameaças e das promessas?” A resposta é que a lei não foi dada para mostrar-nos o que podemos fazer. Nem mesmo a fim de aju- dar-nos a fazer o que é correto. Paulo diz em Romanos 3.20: “...pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”. O propósito da lei foi o de mostrar-nos no que consiste o pecado e ao que ele nos conduz — à mor- te, ao inferno e à ira de Deus. A lei só pode destacar essas coisas. Não pode livrar-nos delas. O livramento nos chega exclusivamente através de Cristo Jesus, que nos é revelado através do evangelho. Nem a razão, nem o “livre-arbítrio” podem conduzir os homens a Cristo, visto que a razão e o “livre-arbítrio” precisam da luz da lei para mostrar-lhes sua enfermidade. Paulo faz esta indagação em Gálatas 3.19: “Qual, pois, a razão de ser da lei?” Entretanto, a resposta de Paulo à sua própria per- gunta é o contrário da resposta que você e Jerônimo dão. Você diz que a lei foi dada a fim de provar a existência do “livre-arbítrio”. Jerônimo diz que ela tem o propósito de restringir o pecado. Mas Paulo não diz nada disso. Todo seu argumento é que os homens precisam de graça especial para lutar contra o mal que a lei revela. Não pode haver cura
  • 22. 26 • Nascido Escravo enquanto a enfermidade não for diagnosticada. A lei é necessária para fazer os homens perceberem a perigosa condição em que estão, a fim de que anelem pelo remédio que se encontra somente na pessoa de Cristo. Portanto, as palavras de Paulo em Romanos 3.20, podem parecer muito simples, mas elas têm poder suficiente para fazer com que o “livre-ar- bítrio” seja total e completamente inexistente. Diz Paulo em Romanos 7.7: “...pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás”. Isto significa que o “livre-arbítrio” nem mesmo reconhece o que o pecado é! Como, pois, poderia chegar a conhecer o que é certo? E, se não sabe reconhecer o que é certo, como poderia esforçar-se por fazer o que é certo? argumento 5 A doutrina da salvação pela fé em Cristo prova que o“livre-arbítrio”é falso. Em Romanos 3.21-25, Paulo proclama com toda a confiança: “Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que crêem; porque não há dis- tinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus; a quem Deus propôs, no seu sangue, como pro- piciação, mediante a fé...” Essas palavras são como raios contra a idéia do “livre-arbítrio”. Paulo faz distinção entre a justiça conferida por Deus e a justiça que vem mediante a observância da lei. O “li- vre-arbítrio” só poderia ser uma realidade se o homem pudesse ser salvo mediante a observância da lei. Não obstante, Paulo demonstra claramente que somos salvos sem dependermos, em absoluto, das obras da lei. Não importa o quanto possamos imaginar um suposto
  • 23. O Que as Escrituras ensinam • 27 “livre-arbítrio”, capaz de praticar boas obras ou de tornar-nos bons cidadãos, Paulo continua asseverando que a justiça dada por Deus é de natureza inteiramente diferente. É impossível que o “livre-arbí- trio” consiga resistir a assaltos de versículos como esses. Estes versículos desfecham ainda outro raio contra o “livre-arbítrio”. Neles, Paulo traça uma linha distintiva entre os crentes e os incrédulos (Rm 3.22). Ninguém pode negar que o suposto poder do “livre-arbítrio” é bem diferente da fé em Jesus Cristo. Mas sem fé em Cristo, conforme Paulo esclarece, ninguém pode ser aceito por Deus. E se alguma coisa é inaceitável para Deus, então é pecado. Não pode ser algo neutro. Por conseguinte, o “livre-arbítrio”, se existe, é pecado, visto que se opõe à fé e não redunda em glória a Deus. Romanos 3.23 constitui-se em mais outro raio. Paulo não diz: “to- dos pecaram, exceto aqueles que praticam boas obras mediante seu próprio “livre-arbítrio””. Não há exceções. Se fosse possível nos tornar- mos aceitáveis diante de Deus através do “livre-arbítrio”, então Paulo seria um mentiroso. Ele deveria ter dado margem a exceções. No entan- to, Paulo afirma, categoricamente, que em face do pecado ninguém pode realmente glorificar e agradar a Deus. Todo aquele que agrada ao Senhor deve saber que Deus está satisfeito com ele. Porém, a nossa experiência nos ensina que coisa alguma em nós agrada a Deus. Pergunte àqueles que defendem o “livre-arbítrio” se existe neles alguma coisa que agrada a Deus. Eles serão forçados a admitir que não existe. E é isto que Paulo claramente afirma. Até mesmo aqueles que acreditam no “livre-arbítrio” precisam con- cordar comigo que não podem glorificar a Deus, contando apenas com seus próprios recursos. A despeito de seu “livre-arbítrio”, eles têm dúvida se podem agradar a Deus. Assim, eu provo, com base no testemunho da própria consciência deles, que o “livre-arbítrio” não agrada a Deus.Apesar de todos os seus esforços e de seu empenho, o “livre arbítrio” é culpado do pecado de incredulidade. Portanto, vemos que a doutrina da salvação pela fé é completamente contrária a qualquer idéia de “livre-arbítrio”.
  • 24. 28 • Nascido Escravo argumento 6 Não há lugar para qualquer idéia de mérito ou recompensa pelas boas obras. Aqueles que pregam o “livre-arbítrio” afirmam que se não há “livre- arbítrio”, então também não há lugar para o mérito ou para a recompensa. O que dirão os defensores do “livre-arbítrio” a respeito da palavra “gratuitamente”, em Romanos 3.24? Paulo diz que os crentes são “justifi- cados gratuitamente, por sua graça”. Como interpretam “por sua graça”? Se a salvação é gratuita e oferecida pela graça divina, então não se pode conquistá-la ou merecê-la. No entanto, Erasmo argumenta que a pessoa deve ser capaz de fazer alguma coisa a fim de merecer a sua salvação, ou ela não merecerá ser salva. Erasmo pensa que a razão pela qual Deus jus- tifica uma pessoa e não outra, é que uma delas usou de seu “livre-arbítrio”, e tentou tornar-se justa, enquanto que a outra não o fez. Ora, isso transfor- ma Deus em alguém que diferencia pessoas, ao passo que a Bíblia ensina que Deus não faz acepção de pessoas (At 10.34). Erasmo e algumas outras pessoas, como ele, admitem que os homens conseguem fazer muito pou- co, através de seu “livre-arbítrio”, para obterem a salvação. Afirmam que o “livre-arbítrio” tem apenas um pouco de merecimento — não é digno de muita recompensa. E, não obstante, ainda pensam que o “livre-arbítrio” torna possível às pessoas tentarem encontrar a Deus. Imaginam, igual- mente, que se as pessoas não tentam encontrá-Lo, cabe exclusivamente a elas a culpa, se não recebem a graça divina. Portanto, sem importar se esse “livre-arbítrio” tem grande ou pe- queno mérito, o resultado é o mesmo. A graça de Deus seria obtida por meio do “livre-arbítrio”. Todavia, Paulo nega toda a noção de mérito quando afirma que somos justificados “gratuitamente”. Aqueles que dizem que o “livre-arbítrio” possui apenas um pequeno mérito, erram tanto como aqueles que dizem que ele possui muito mérito, pois ambos ensinam que o “livre-arbítrio” tem mérito suficiente para obter o favor
  • 25. O Que as Escrituras ensinam • 29 de Deus. Portanto, em quase nada diferem um do outro. Na verdade esses defensores da idéia do “livre-arbítrio” nos dão um perfeito exemplo do que significa “saltar da frigideira para dentro do fogo”. Quando dizem que o “livre-arbítrio” tem apenas um pequeno mé- rito, pioram a sua posição, ao invés de melhorá-la. Pelo menos aqueles que dizem que o “livre-arbítrio” envolve um grande mérito (os chama- dos “pelagianos”) conferem um elevado preço à graça divina, porquanto concebem que um grande mérito é necessário para alguém obter a sal- vação. Todavia, Erasmo barateia a graça divina, dizendo ser possível obtê-la por meio de um débil esforço. No entanto, Paulo transforma em nada essas duas idéias usando apenas uma palavra — “gratuitamente” (Rm 3.24). Mais adiante, em Romanos 11.6, ele declara que a nossa aceitação diante de Deus depende apenas da graça de Deus: “E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça”. O ensino paulino é perfeitamente claro. Não existe tal coisa como mérito humano aos olhos de Deus, sem importar se esse mérito é grande ou pe- queno. Ninguém merece ser salvo. Ninguém pode ser salvo através das obras. Paulo exclui todas as supostas obras do “livre-arbítrio”, estabele- cendo em seu lugar apenas a graça divina. Não podemos atribuir a nós mesmos a menor parcela de crédito para nossa salvação; ela depende inteiramente da graça divina. argumento 7 O“livre-arbítrio”não tem valor porque as obras nada têm a ver com a justiça do homem diante de Deus. Passarei agora a considerar os argumentos de Paulo, em Romanos 4.2,3: “Porque se Abraão foi justificado por obras, tem de que se gloriar, porém não diante de Deus. Pois que diz a Escritura? Abraão creu em
  • 26. 30 • Nascido Escravo Deus, e isso lhe foi imputado para justiça”. Ora, Paulo não nega que Abraão era um homem justo. Mas o ponto em questão é que essa justiça não lhe outorgou a salvação. Ninguém discorda que as obras más não são aceitáveis diante de Deus. Isso é óbvio. O argumento paulino, entre- tanto, é que nem mesmo as boas obras nos tornam aceitáveis diante de Deus. Elas merecem somente a sua ira, jamais o seu favor. Em Romanos 4.4,5, Paulo contrasta a pessoa “que trabalha” com aquela que “não tra- balha”. A justificação, que equivale a aceitação diante de Deus, não é atribuída “ao que trabalha”, mas àquele que “não trabalha”, mas crê no Senhor. Não há posição intermediária. argumento 8 Uma série de refutações. Preciso mencionar, de passagem, mais alguns argumentos contra o “livre-arbítrio”. Mas me referirei a eles apenas de modo breve, embora cada um deles, de per si, pudesse destruir completamente a idéia do “livre- arbítrio”. Por exemplo, a fonte da graça mediante a qual somos salvos é o propósito eterno de Deus. Isso, sem dúvida, anula a sugestão de que Deus é gracioso para conosco por causa de alguma coisa que possamos fazer. Um outro argumento fundamenta-se sobre o fato de que Deus pro- meteu a salvação por meio da graça (a Abraão), antes mesmo de haver dado a lei. Paulo argumenta, em Romanos 4.13-15 e Gálatas 3.15-21, que se somos salvos mediante a observância da lei, através do “livre- arbítrio”, isso significaria que a promessa da salvação pela graça foi cancelada. E a fé, igualmente, perderia o seu valor. Paulo também nos diz que a lei pode apenas revelar o pecado, sen- do incapaz de removê-lo. Visto que o “livre-arbítrio” só pode operar com base na observância da lei, não pode haver retidão aceitável diante de Deus obtida pelo “livre-arbítrio”.
  • 27. O Que as Escrituras ensinam • 31 Em último lugar, estamos todos debaixo da condenação divina, em face da pecaminosa desobediência de Adão. Estamos todos sujeitos a esta condenação, desde o nosso nascimento, incluindo aqueles que são possuidores do “livre-arbítrio” — se é que pessoas assim existem! De que outra forma então poderia o “livre- arbítrio” nos ajudar, senão a pecar e a merecer a condenação? Eu poderia ter deixado de lado esses argumentos, apresentando tão- -somente um comentário geral sobre os escritos de Paulo. Todavia, quis demonstrar quão ignorantes mentalmente são os meus oponentes, por deixarem de perceber com clareza estas simples questões. Deixo que meditem sozinhos a respeito desses argumentos. argumento 9 Paulo é absolutamente claro ao refutar o “livre- arbítrio”. Os argumentos usados por Paulo são tão claros que é de admirar que alguém possa compreendê-los mal. Diz ele: “... todos se extravia- ram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer...” Estou admirado do fato que certas pessoas afirmam: “Algumas pessoas não se extraviaram, não se fizeram inúteis, não são más e nem pecadoras. Há alguma coisa no homem que o inclina para o bem”. Ora, Paulo não fez essas declarações em apenas algumas passagens isola- das. Algumas vezes ele as fez em termos positivos, em outras vezes, em termos negativos, usando palavras diretas ou utilizando contrastes. O sentido literal de suas palavras, todo o contexto e escopo de seu ar- gumento, resumem-se neste pensamento: à parte da fé em Cristo nada existe senão pecado e condenação. Meus oponentes estão derrotados, ainda que não queiram se render! Porém, não está ao meu alcance con- vencê-los disto. Deixo isto à operação do Espírito Santo.
  • 28. 32 • Nascido Escravo argumento 10 O estado do homem sem o Espírito de Deus mostra que o“livre-arbítrio”nada pode fazer de natureza espiritual. Em Romanos 8.5, Paulo divide a humanidade em duas categorias — aqueles que são da “carne” (ou da natureza pecaminosa) e aqueles que são do “Espírito” (ver também João 3.6). Isto só pode significar que aqueles que não têm o Espírito estão na carne e continuam presos à uma natureza pecaminosa. Paulo insiste que “...se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dEle” (Rm 8.9). Isto significa, obviamente, que aqueles que estão sem o Espírito pertencem a Satanás. O “livre-arbítrio” não os tem beneficiado muito! Paulo afirma que “os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Rm 8.8). Ele diz que “ pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar” (Rm 8.7). É impossível que tais pessoas possam fazer qual- quer esforço, por conta própria, para agradar a Deus. Orígenes sugeriu que cada pessoa tem uma “alma” dotada da ca- pacidade de voltar-se para a “carne” ou para o “Espírito”. Mas isto é apenas produto de sua imaginação. Ele sonhou com tal idéia, e não tinha qualquer meio de provar o que afirmava. Na verdade, não há posição intermediária. Tudo que não provém do Espírito é carnal; e as melhores atividades da carne são hostis a Deus. Trata-se do mesmo ensinamento ministrado por Cristo, em Mateus 7.18, de que uma árvore má não pode produzir bom fruto. E também está em harmonia com a dupla declaração de Paulo — “O justo viverá por fé” (Rm 1.17), e “tudo o que não provém de fé é pecado” (Rm 14.23). Aqueles que não têm fé não estão justi- ficados; e aqueles que não estão justificados são pecadores, nos quais qualquer suposto “livre-arbítrio” só pode produzir o mal. Portanto, o “li- vre-arbítrio” nada é senão um escravo do pecado, da morte e de Satanás. Tal “liberdade”, enfim, não é liberdade alguma.
  • 29. O Que as Escrituras ensinam • 33 argumento 11 Aquelesque chegam a conhecer aCristonão pensavam previamente sobre Cristo,nemO buscavam,nem se prepararam paraconhecê-Lo. Em Romanos 10.20, Paulo cita de Isaías 65. l: “Fui buscado pelos que não perguntavam por mim; fui achado por aqueles que não me bus- cavam; a um povo que não se chamava do meu nome eu disse: Eis-me aqui, eis-me aqui”. Paulo reconhecia, por sua própria experiência, que ele não buscara a graça de Deus, mas a recebera apesar de sua furio- sa cólera contra ela. Ele diz, em Romanos 9.30,31, que os judeus, que envidavam grandes esforços para observar a lei, não foram salvos por esses esforços, mas que os gentios, que eram totalmente ímpios, foram alvos da misericórdia de Deus. Isso demonstra claramente que todos os esforços do “livre-arbítrio” do homem são inúteis para a sua salvação. O zelo dos judeus não os conduziu a parte alguma, ao passo que os ímpios gentios receberam a salvação. A graça é gratuitamente ofertada a quem não a merece, nem é digno; não é conquistada por qualquer esforço que o melhor e mais justo dentre os homens tenha tentado empreender. argumento 12 Asalvação para o mundo pecaminosoépela graçadeCristo,exclusivamente medianteafé. Voltemo-nos agora para João, que também escreveu com eloqüên- cia contra o “livre-arbítrio”. Ele diz, em João 1.5: “A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela”. E, em João 1.10,11: “O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o re-
  • 30. 34 • Nascido Escravo ceberam”. Por “mundo”, João dá a entender a humanidade inteira. Visto que o “livre-arbítrio” seria uma das mais excelentes faculdades do ho- mem, deve ser incluído em qualquer coisa em que João diz acerca do “mundo”. Assim sendo, de acordo com esses textos, o “livre-arbítrio” não reconhece a luz da verdade, mas antes, odeia a Cristo e ao seu povo. Muitas outras passagens, como João 7.7; 8.23; 14.7; 15.19; e l João 2.16; 5.19, proclamam que o “mundo” (o que inclui, especialmente, o “livre- arbítrio”) está debaixo do controle de Satanás. O “mundo” inclui tudo quanto não foi separado para Deus por meio do Espírito Santo. Ora, se tivesse havido alguém neste mundo que, por meio de seu “livre-arbítrio”, tivesse chegado a conhecer a verdade e que, por intermédio do “livre-arbítrio”, não tivesse odiado a Cristo, então João teria alterado o que escreveu. Entretanto, ele não o fez. Torna-se eviden- te, portanto, que o “livre-arbítrio” é tão culpado quanto o “mundo”. Em João 1.12,13, o mesmo apóstolo prossegue: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da von- tade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. As palavras “não nasceram do sangue” significam que é inútil alguém depender de sua origem familiar ou do local do seu nascimento. As palavras “nem da vontade da carne” apontam para a insensatez de se depender das obras da lei. E as palavras “nem da vontade do homem” mostram que nenhum esforço humano pode conseguir tornar alguém aceitável a Deus. Se é que o “livre-arbítrio” tem alguma utilidade, então João não deveria ter rejeitado a “vontade do homem”, porquanto, de outro modo, estaria em perigo conforme Isaías 5.20: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal”. Não há margem para dúvida de que a origem fa- miliar é inútil para que alguém, através dela, venha a obter a salvação, porque em Romanos 9.8 Paulo escreve: “Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa”. Além disso, João também afirma, em João 1.16: “Porque todos nós
  • 31. O Que as Escrituras ensinam • 35 temos recebido da sua plenitude, e graça sobre graça”. Isto posto, rece- bemos bênçãos espirituais exclusivamente através da graça derivada de Outrem, e não através de nossos próprios esforços. Duas idéias contrá- rias não podem ser ambas verdadeiras. É impossível que a graça divina seja tão sem valor que qualquer um, em qualquer lugar, seja capaz de obtê-la, ao mesmo tempo que essa graça é tão valiosa que só podemos recebê-la através dos méritos de um único homem, Jesus Cristo. Como eu gostaria que os meus opositores percebessem que quando advogam a causa do “livre-arbítrio”, estão negando a Cristo. Se podemos obter graça divina mediante o nosso “livre-arbítrio”, então não temos necessidade de Cristo. E, se temos a Cristo, não precisamos do “livre- -arbítrio”. Aqueles que defendem o “livre-arbítrio” atestam sua nega- ção a Cristo por meio de suas ações, porquanto alguns deles chegam ao extremo de apelar para a intercessão de Maria e de “santos”, não depen- dendo de Cristo como o único mediador entre Deus e o homem. Todos esses têm abandonado a Cristo em sua obra como mediador e gracioso salvador, considerando os méritos de Cristo de menor valor do que seus próprios esforços. argumento 13 O caso de Nicodemos,no terceiro capítulo de João,opõe-se ao“livre-arbítrio”. Consideremos as virtudes de Nicodemos (Jo 3.1,2). Ele confessa que Cristo era idôneo e que viera da parte de Deus. Faz alusão aos milagres realizados por Cristo e procura-O a fim de ouvir algo de sua própria boca. Porém,aoouvirfalarsobreonovonascimento(Jo3.3-8),porventuraNico- demos admite que era isso o que ele vinha buscando? Não! Ele ficou atônito e confuso, repelindo a idéia, a princípio, como uma impossibili- dade (Jo 3.9). Porventura os maiores filósofos chegaram a mencionar o
  • 32. 36 • Nascido Escravo novo nascimento? Eles nem ao menos podiam buscar aquelas realidades pertencentes à salvação, antes da chegada do evangelho. Ora, quando admitem isso, estão admitindo que o seu “livre-arbítrio” é ignorante e incapaz! Por certo, aqueles que ensinam o “livre-arbítrio” estão loucos; porém não se calarão nem darão glórias a Deus. argumento 14 O“livre-arbítrio”não tem utilidade,pois a salvação vem somente por meio de Cristo. Torna-se claro, em João 14.6, onde se lê que Jesus Cristo é o “ca- minho, e a verdade, e a vida”, que a salvação só pode ser encontrada em sua pessoa. Sendo esta a verdade, tudo quanto está fora de Cristo só pode ser trevas, falsidade e morte. Qual necessidade haveria da vinda de Cristo a este mundo, se os homens, naturalmente, pudessem compreen- der o caminho de Deus, entender a verdade de Deus e compartilhar da vida de Deus? Nossos opositores dizem que os homens perversos possuem “li- vre-arbítrio”, embora abusem dele. Se isso fosse realmente assim, então haveria algo de bom no pior dos homens. E se isso fosse realmente ver- dade, então Deus seria injusto ao condená-los. Entretanto, João diz que aqueles que não crêem em Jesus Cristo já estão condenados (Jo 3.18). Contudo, se os homens fossem possuidores dessa coisa boa chamada “livre-arbítrio”, então João deveria ter dito que os homens só estão con- denados por causa de sua parte má, e não devido àquela boa parte neles existente. As Escrituras dizem: “O que, todavia, se mantém rebelde con- tra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.36). Sem dúvida está em pauta todo o homem. Pois, se assim não fosse, então haveria uma parte no homem capaz de impedi-lo de ser con- denado, e ele poderia continuar pecando sem o menor temor, firmado no
  • 33. O Que as Escrituras ensinam • 37 conhecimento de que não poderia ser condenado. Também lemos em João 3.27 que “o homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada”. Isto se refere especialmente à capa- cidade da pessoa cumprir a vontade de Deus. Somente aquilo que vem do alto pode ajudar um homem a cumprir a vontade do Senhor. Mas o “livre- arbítrio” não vem do alto, o que significa que o “livre-arbítrio” é inútil. Em João 3.31, diz ainda o mesmo apóstolo: “...quem vem da terra é terreno e fala da terra; quem veio do céu está acima de todos”. Ora, por certo o “livre-arbítrio” não tem origem celestial. Pertence à terra, não lhe havendo outra possibilidade. E, assim sendo, isso só pode significar que o “livre-arbítrio” nada tem a ver com as realidades celestiais; cogi- ta somente das coisas terrenas. O Senhor Jesus afirma, em João 8.23: “Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, eu deste mundo não sou”. Se esta afirmativa de Jesus quisesse dizer apenas que os corpos de seus ouvintes eram terrenos, tal declaração seria desneces- sária, pois eles já sabiam disso. O que Jesus quis dizer é que aos seus ouvintes faltava, absolutamente, qualquer poder espiritual, e que este só poderia ser recebido de Deus. argumento 15 Ohomem é incapaz de crer no evangelho,por issotodos os seus esforços não podemsalvá-lo. Na passagem de João 6.44, Jesus Cristo diz: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer”. Isto não deixa qualquer espaço para o “livre-arbítrio”. E o Senhor Jesus passou a explicar como alguém é trazido pelo Pai: “Portanto, todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e aprendido, esse vem a mim” (v. 45). A vontade humana, por si mesma, é incapaz de fazer qualquer coisa para vir a Cristo em busca de salvação. A própria mensagem do evangelho é ouvida em vão,
  • 34. 38 • Nascido Escravo a menos que o próprio Pai fale ao coração e traga a pessoa a Cristo. Erasmo pretende suavizar o sentido claro desse texto ao comparar os homens a ovelhas, que atendem ao pastor quando este lhes estende o cajado. Argumenta que nos homens há alguma coisa que responde ao chamado do evangelho. Porém isso não acontece, porque quando Deus exibe o dom de seu próprio Filho a homens ímpios, estes não reagem favoravelmente antes que Ele opere em seus corações. De fato, sem a operação interna do Pai, os homens inclinam-se mais a odiar e perseguir ao Filho, do que a segui-Lo. Entretanto, quando o Pai mostra aos homens quão maravilhoso é seu Filho, àqueles a quem tem dado entendimento espiritual, eles são atraídos a Cristo. Essas pessoas já são “ovelhas” e conhecem a voz do pastor! argumento 16 A incredulidade universal prova que o“livre-arbítrio”é falso. Em João 16.8, Jesus afirma que o Espírito Santo viria “para convencer o mundo do pecado...” E no versículo seguinte, Ele explica que o pecado consiste no fato de que os homens “não crêem em mim”. Ora, esse pecado de incredulidade não se acha na pele ou nos cabelos, mas na mente e na vontade. Todos os homens, sem exceção, são tão ignorantes do fato de sua culpa de incredulidade quanto ignoram o próprio Jesus Cristo. A culpa da incredulidade precisa ser-lhes revelada pelo Espírito Santo. Portanto, tudo quanto existe no homem, incluindo o “livre-arbítrio”, está condenado aos olhos de Deus, contribuindo apenas para aumentar a culpa acerca da qual ele é ignorante, enquanto Deus não a revelar. A totalidade das Escrituras proclama Cristo como o único meio de salvação. Todo aquele que estiver fora de Cristo está debaixo do poder de Satanás, do pecado, da morte e da ira divina. Somente Cristo pode resgatar os homens do reino de Satanás.
  • 35. O Que as Escrituras ensinam • 39 Não somos libertos por qualquer poder que em nós mesmos exista, mas tão-somente pela graça de Deus. argumento 17 Opoder da carne,mesmo em verdadeiros crentes,mostra a falsidade do“livre-arbítrio”. Por alguma razão, Erasmo, você ignorou os meus argumentos base- ados em Romanos 7 e em Gálatas 5. Esses dois capítulos mostram-nos que até mesmo nos verdadeiros crentes a força da “carne” é tanta que eles não podem fazer aquilo que sabem que devem e querem fazer. A natureza humana é tão má, que mesmo as pessoas que são dotadas do Espírito de Deus, não somente falham em fazer o que é direito, como até mesmo lutam contra isso. Portanto, que possibilidade há de que aque- les que são destituídos do novo nascimento venham a praticar o bem? Conforme diz Paulo, em Romanos 8.7: “O pendor da carne é inimizade contra Deus”. Eu gostaria de conhecer o homem que é capaz de fazer cair por terra tal argumento! argumento 18 Saber que a salvação não depende do“livre- arbítrio”pode ser muito reconfortante. Confesso que eu não gostaria de possuir “livre-arbítrio” ainda que o mesmo me fosse concedido! Se a minha salvação fosse deixada ao meu encargo, eu não conseguiria enfrentar vitoriosamente todos os perigos, dificuldades e demônios contra os quais teria de lutar. Porém, mesmo que não houvesse inimigos a combater, eu jamais poderia ter a certeza do sucesso. Eu jamais poderia ter a certeza de haver agradado a Deus,
  • 36. 40 • Nascido Escravo ou se haveria ainda mais alguma coisa que precisaria fazer. Posso pro- var isso mediante a minha própria dolorosa experiência de muitos anos. Porém, a minha salvação está nas mãos de Deus, não nas minhas. Ele será fiel à sua promessa de salvar-me, não com base no que eu faço, mas em conformidade com a sua grande misericórdia. Deus não mente, e não permitirá que o meu adversário, o diabo, me arranque de suas mãos. Por meio do “livre-arbítrio”, ninguém poderá ser salvo. Mas, por meio da “livre graça”, muitos serão salvos. E não somente isso, mas também alegro-me por saber que, como um cristão, agrado a Deus, não por causa daquilo que faço, mas por causa de sua graça. Se trabalho muito pouco ou errado demais, Ele, graciosamente, me perdoará e me fará melhorar. Essa é a glória de todo cristão. argumento 19 A honra de Deus não pode ser maculada. Talvez alguém fique preocupado, pensando que é difícil defender a honra de Deus em meio a tudo isso. E talvez diga: “Afinal de contas, Deus condena aqueles que não podem deixar de ser pecaminosos, e que são forçados a permanecer dessa maneira porque Ele não os escolheu para a salvação”. Como Paulo diz: “Éramos por natureza filhos da ira, como tam- bém os demais” (Ef. 2.3). Porém, você poderá ver essas questões por um outro ângulo. Deus deveria ser reverenciado e respeitado por ser miseri- cordioso para todos quantos Ele justifica e salva, embora sejam totalmente indignos. Sabemos que Deus é divino. Ele também é sábio e justo. A sua justiça não é da mesma categoria que a justiça humana. Ela está acima de nosso poder de apreensão plena, conforme Paulo exclama, em Romanos 11.33: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conheci- mento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos!” Se concordamos que a natureza, o poder, a sabedoria e
  • 37. O Que as Escrituras ensinam • 41 o conhecimento de Deus estão muito acima dos nossos, então também de- veríamos acreditar que a sua justiça é maior e melhor do que a nossa. Ele nos fez a promessa de que quando chegar a revelar para nós a sua glória, então veremos claramente aquilo no que agora devemos acreditar — que Ele é justo, sempre o foi e sempre o será. Eis um outro exemplo. Se você usar da razão humana para consi- derar a maneira como Deus governa os acontecimentos do mundo, será forçado a dizer que Deus não existe, ou que Ele é injusto. Os ímpios prosperam e os piedosos sofrem (Jó 12.6 e SI 73.12), e isso parece ser injusto. Por esse motivo, muitos homens negam a existência de Deus e dizem que as coisas acontecem movidas pelo acaso. A resposta que damos a essa questão é que há uma vida após a vida presente, e que tudo quanto não tiver sido castigado e corrigido nesta vida, será castigado e corrigido na vida futura. A vida terrena nada mais é que uma preparação para, ou, ainda melhor, o começo da vida que virá. Esse problema tem sido debatido por toda a História, mas a solução não tem sido encontra- da, exceto pela crença no evangelho, conforme ele se acha nas páginas da Bíblia. Três raios de luz brilham sobre a questão: a luz da natureza, da graça divina e da glória celestial. Mediante a luz da natureza, Deus parece ser injusto, porquanto os piedosos sofrem e os ímpios prosperam. A luz da graça divina ajuda-nos a compreender melhor as coisas, embo- ra ainda não explique como Deus pode condenar alguém que, por suas próprias forças, nada pode fazer senão pecar e ser culpado. Somente a luz da glória celeste explicará isso plenamente, naquele dia vindouro, quando Deus revelar a Si mesmo como inteiramente justo, embora os seus juízos ultrapassem a nossa limitada compreensão de seres huma- nos. Um homem piedoso crê que Deus conhece de antemão e pré-ordena todas as coisas, e que nada acontece, senão pela sua soberana vontade. Nenhum homem, ou anjo, ou qualquer outra criatura, em vista de tais fatos, é dotado de “livre-arbítrio”. Satanás é o príncipe deste mundo e conserva cativos todos os homens, a menos que eles sejam libertos pelo poder do Espírito Santo.
  • 38. 42 • Nascido Escravo
  • 39. c apítulo 2 O Que Erasmo ensinava Argumentos: l: Definição de Erasmo do “livre-arbítrio”...........................................................45 2: Argumento de Erasmo baseado em um livro apócrifo......................................47 3: Três pontos de vista de Erasmo a respeito do “livre-arbítrio”..........................48 4: Voltando ao argumento de Erasmo baseado em Síracides (Eclesiásticos) 15.14-17...............................................................49 5: Exame posterior do uso que Erasmo fez de Síracides (Eclesiásticos) 15.14-17................................................................50 6: Os argumentos de Erasmo devem significar que a vontade do homem é completamente livre.....................................................51 7: Gênesis 4.7 — outro texto que prova que receber um mandamento não significa ter a capacidade de obedecê-lo....................................................52 8: Deuteronômio 30.19 — a lei é designada para nos dar conhecimento do pecado...................................................................................53 9: Confusão de Erasmo acerca da lei e do evangelho...........................................54 10: A vontade revelada de Deus e a vontade secreta de Deus.................................56 11: A obrigação não é evidência de capacidade para obedecer...............................57 12: O homem não deve intrometer-se na vontade secreta de Deus..........................59
  • 40. 44 • Nascido Escravo Argumentos 13: A lei mostra a fraqueza humana e o poder salvador de Deus............................60 14: O Novo Testamento provê instruções para guiar os justificados......................61 15: A base para o galardão do crente é a promessa de Deus e não o mérito do homem.................................................62 16: A soberania de Deus não anula a nossa responsabilidade.................................64
  • 41. O Que Erasmo ensinava • 45 argumento 1 Definição de Erasmo do“livre-arbítrio”. Para ser justo, terei de citar a sua própria definição de “livre- arbítrio”. Você diz: “Compreendo o “livre-arbítrio” como o poder da vontade humana mediante o qual uma pessoa pode aplicar ou afastar-se das coisas que conduzem à eterna salvação”. Você pode realmente chamar isso de definição? Uma definição precisa ser clara, e cada aspecto dessa declaração precisa ser explicado para tornar-se claro. Além disso, você começa definindo uma coisa, mas termina definindo algo inteiramente diferente. Quero dizer que somente Deus tem a liberdade de vontade que você descreve e ainda supõe que pertence aos homens. Entretanto, o homem é como um escravo, cuja única liberdade consiste em obedecer a seu senhor. Os seres humanos só agem de acordo com as determinações de Deus. Será isso “liberdade de arbítrio” como você a descreve? Porconseguinte,tereideconsideraressasupostadefiniçãoemseus vários aspectos.Alguns deles são suficientemente claros, mas tenho de realçar outros aspectos, antes que possa mostrar onde eles erram. Eles parecem ter medo da luz, como se fossem culpados de alguma coisa. Começarei supondo que o “poder da vontade humana”, a respeito do qual você fala, seja o de aceitar ou rejeitar alguma coisa, o po- der de aprovar ou desaprovar. Essa é realmente a função da vontade humana. Mas, em seguida, você acrescenta: “...mediante o qual uma pessoa pode aplicar-se...”. O que você está fazendo é separar o ho- mem de sua vontade. Está dando à pessoa o poder de dirigir a sua vontade. Entretanto, a vontade de um homem faz parte dele — é a parte dele que faz essas escolhas. Obviamente, separar o homem de sua vontade e conferir-lhe poder sobre ela, é absurdo! Se, porventura, entendi mal a questão, a culpa é sua, Erasmo, por não haver escrito com mais clareza!
  • 42. 46 • Nascido Escravo Em seguida, quais são as coisas que “conduzem à eterna salva- ção”? Elas têm de ser as palavras e as obras de Deus. Nenhuma outra coisa pode conduzir-nos à salvação eterna. Aliás, a mente humana é incapaz de apreender o significado da salvação. Paulo diz: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (l Co 2.9). Paulo passa então a dizer como podemos tomar conhecimento dessas realidades: “Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito...” (l Co 2.10). Isso sem dúvida significa que sem o Espírito Santo jamais tomaríamos conhecimento dessa salvação, e assim sendo, não pode- ríamos nos “dedicar” a buscá-la. Alguns dos homens mais bem instruídos deste mundo têm consi- derado as verdades espirituais como bobagem. De fato, quanto mais brilhantes têm sido as suas mentes, mais ridículas lhes parecem ser as verdades espirituais. Os homens só podem chegar a reconhecer as realidades dos valores espirituais em seus corações quando o Espírito Santo os ilumina. Em seguida, você assevera que o “livre-arbítrio” é a capacidade que a vontade humana tem, por si mesma, de decidir se aceita ou não a palavra e as obras de Deus. Isso equivale a fazer com que a vontade hu- mana seja capaz de escolher entre o céu ou o inferno. Isso significa que não há espaço para a atuação do Espírito Santo ou para a graça divina, colocando a vontade humana no mesmo nível de Deus. Os pelagianos também fizeram isso. Mas você os ultrapassa! Eles distinguiam em duas partes o “livre-arbítrio” — o poder de com- preender a diferença entre as coisas e o poder de escolher entre elas. Porém, para você o “livre-arbítrio” tem o poder de escolher coisas eternas, embora seja totalmente incapaz de entendê-las. Desse modo, você criou um “meio livre—arbítrio”. Além disso, você contradiz a si mesmo, visto que afirmou que a “vontade humana nada pode fazer sem a graça divina”. No entanto, quando você escreveu uma definição do “livre-arbítrio”, concedeu total liberdade para a vontade
  • 43. O Que Erasmo ensinava • 47 humana. Você é um homem muito estranho! Prefiro até mesmo o ensinamento de alguns dos antigos filósofos aos seus. Eles diziam que um homem entregue a si mesmo só faria o que é errado. O homem só poderia escolher o bem com a ajuda de graça divina. Eles diziam que os homens são livres para cair, mas precisam de ajuda para elevarem-se! Porém, é risível chamar isso de “livre-arbítrio”. Com base em tais conceitos, eu poderia afirmar que uma pedra tem “livre-arbítrio”, pois só pode cair, a menos que seja erguida por alguém! O ensino daqueles filósofos, porém, ainda é melhor do que o seu, pois a sua pedra, Erasmo, pode escolher se sobe ou desce! argumento 2 Argumento de Erasmo baseado em um livro apócrifo. Você alicerça a sua defesa do “livre-arbítrio” no livro apócrifo de Síracides (Eclesiásticos) 15.14-17: “No princípio ele fez o homem e o deixou entregue ao seu próprio arbítrio”. O escritor desse livro apócrifo ainda adiciona as seguintes palavras sobre os mandamentos e preceitos de Deus: “Se queres, guardarás os mandamentos, e farás fielmente a sua vontade. Diante de ti foi colocado o fogo e a água, podes estender a mão para onde quiseres. Diante dos homens estão vida e morte; a cada um será dado o que lhe agradar”. Eu poderia eliminar esse suposto texto de prova asseverando que o livro de Síracides (Eclesiásticos) nunca foi incluído pelos judeus como porção integrante do Antigo Testamento; porém, basta-me dizer que você mesmo afirmou que tal livro é “obscuro e ambíguo”. Levaria uma eternidade, para você ou para qualquer outro apresentar uma passagem que diga claramente no que consiste o “livre-arbítrio”.
  • 44. 48 • Nascido Escravo argumento 3 Três pontos de vista de Erasmo a respeito do “livre-arbítrio”. Você apresenta três pontos de vista acerca de um mesmo “livre- arbítrio”’. Examinemo-los! O primeiro é a idéia que o homem não pode querer fazer o bem; ele não pode tomar tal iniciativa, progredir nessa direção ou consumar o bem, sem a graça especial. A esse ponto de vista, você chama de “rígido, mas suficientemente provável”. O segundo ponto de vista, que você reputa “ainda mais rígido”’, é o de que o “livre-arbítrio” só pode conduzir o homem ao pecado, e que somente a graça divina pode conduzi-lo à bondade. O terceiro ponto de vista, que você considera como “o mais rígido de todos”, é que o “livre-arbítrio” não tem qualquer sentido, e que Deus é a causa tanto do bem quanto do mal que em nós existe. Você se declara disposto a aceitar o primeiro desses três pontos de vista, porquanto permite que o homem faça algum esforço. E afirma que opõe-se aos dois outros. Você parece não saber o que está dizendo! Esses não são, realmente, três diferentes pontos de vista. São um único ponto de vista, expresso mediante diferentes palavras, em ocasiões diferentes por seus oponentes. Sua definição de “livre-arbítrio” em coisa alguma assemelha-se ao primeiro ponto de vista, o qual você declara aceitável. A sua definição assegura que o “livre-arbítrio” pode fazer tanto o bem quanto o mal. No entanto, o ponto de vista que você aceita, afirma que a vontade humana não pode escolher o bem sem a ajuda da graça divina. Assim, você já conta com duas vontades humanas em desacordo. Ao aceitar o primeiro ponto, você concorda que o “livre-arbítrio” não pode praticar o bem. Você mesmo disse, um pouco antes: “A vontade humana é tão maligna que perdeu a sua liberdade, sendo forçada a servir ao pe- cado, não podendo retomar a um estado melhor”. Não obstante, quando eu digo exatamente a mesma coisa, você diz: “Nunca se ouviu coisa
  • 45. O Que Erasmo ensinava • 49 tão absurda”. O que você escreve significa que tentar ser bom, está e ao mesmo tempo não está no poder do “livre-arbítrio”. Se isso não é um absurdo, eu gostaria de saber o que é! As suas afirmativas são de tal modo contrárias umas às outras que não há qualquer possibilidade delas permanecerem coesas. Não há meio termo entre “ser capaz de fazer o bem” e “não ser capaz de fazer o bem”. No que concerne ao segundo e ao terceiro pontos de vista que você delineou, nada há neles que já não se encontre no primeiro. Os três pontos de vista concordam plenamente uns com os outros. Você diz que se opõe ao segundo e ao terceiro, mas todos os três afirmam que a vontade humana perdeu a sua liberdade, sendo forçada a servir ao pecado, não podendo pôr o bem em prática. Ora, se isso é verdade, se- gue-se que quando o ser humano pratica algum mal, assim age porque é forçado. Ele não pode evitá-lo. argumento 4 Voltando ao argumento de Erasmo baseado em Síracides (Eclesiásticos) 15.14-18. Retornemos àquela passagem do livro apócrifo de Síracides (Eclesiástico), a fim de compará-la com o primeiro dos três pontos de vista que acabamos de aludir. Esse ponto de vista, que você afirma ser provavelmente correto, declara que o “livre-arbítrio” não pode querer pra- ticar o bem. No entanto, aquela passagem extraída do livro de Síracides (Eclesiásticos) foi citada a fim de provar que “o livre-arbítrio” pode fazer algo de bom. Segundo a sua opinião, essa passagem deveria apoiar o pri- meiro ponto de vista, no entanto ela não diz nada a respeito do assunto. Seria como alguém citar uma passagem qualquer sobre Pilatos, como go- vernador da Síria, a fim de provar que Cristo foi o Messias! Mas para sermos justos, consideraremos o trecho de Síracides
  • 46. 50 • Nascido Escravo (Eclesiásticos) 15.14-17. Esse trecho começa dizendo: “No princípio ele fez o homem e o deixou entregue ao seu próprio arbítrio”. Até essa altura, não há qualquer referência aos mandamentos. O homem era dotado de uma vontade inteiramente livre quando o Senhor Deus o tornou senhor de todas as coisas. Mas, então lemos que Deus acrescentou seus mandamen- tos e preceitos: “Se queres, guardarás os mandamentos, e farás fielmente a sua vontade...” E isso também exprime uma verdade. Deus tirou o ho- mem de sua posição de domínio, e, dali por diante, ele ficou debaixo dos mandamentos. Não era mais livre. Portanto, você pode ver que é possível compreender essa passagem de Síracides (Eclesiásticos) de uma maneira que concorda comigo e não com você!Aminha compreensão desse trecho concorda com a totalidade das Escrituras. A sua maneira de compreendê- lo faz esse texto voltar-se contra as Escrituras em sua inteireza. argumento 5 Exame posterior do uso que Erasmo fez de Síracides (Eclesiásticos) 15.14-17. Você, Erasmo, sugere que as palavras “Se queres, guardarás os mandamentos” mostram que o homem é capaz de escolher com liber- dade. Argumentar assim é avaliar o que seriam as palavras de Deus de acordo com a razão humana. Porém, eu posso provar que, mesmo de conformidade com a razão humana, as palavras “Se queres, guardarás os mandamentos” nem sempre significam uma capacidade para obedecer. Por exemplo, os pais com freqüência dizem a seus filhos para fazerem algo, não para provarem o que eles podem fazer, mas a fim de provar que eles não podem fazer, para que aprendam a pedir ajuda. É também assim que Deus lida conosco. Ele dá a sua lei a fim de mostrar-nos a nossa total incapacidade de observá-la. Esse é o ensina- mento de Paulo em Romanos 3.20 e 5.20 e em Gálatas 3.19,24.
  • 47. O Que Erasmo ensinava • 51 argumento 6 Os argumentos de Erasmo devem significar que a vontade do homem é completamente livre. Há uma contradição básica em seu argumento. Por um lado, você diz que as palavras de Síracides (Eclesiásticos) 15.14-17 “Se queres, guardarás os mandamentos...” significam que o homem pode livremente escolher. Mas você também diz que o primeiro dos três possíveis pontos de vista é provavelmente verdadeiro. No entanto, esse ponto de vista afirma que o “livre-arbítrio” não pode fazer bem algum. Você não pode manter essas duas posições! Ora, o livro de Síracides (Eclesiásticos) não diz “Se queres, e tentares, guardarás os mandamentos”, diz: “Se queres, guardarás os mandamentos”. Por conseguinte, se o livro de Síracides (Eclesiásticos) favorece o “livre-arbítrio”, em algum sentido, deve estar em pauta uma liberdade total, não apenas parcial. Essa foi a conclusão a que chegaram os pelagianos acerca dessas palavras. Qualquer um que deseje discordar dos pelagianos enfrentará um grande problema. Tal pessoa talvez queira apenas conceber um “livre- arbítrio” parcial, a exemplo do que você faz. O que significa que um homem é livre meramente para desejar e tentar obedecer a Deus. Os pelagianos retrucariam dizendo que essa passagem ensina um comple- to “livre-arbítrio” ou uma completa servidão da vontade. E levariam esse argumento ainda mais adiante, para o trecho que diz: “...Se queres, guardarás os mandamentos, e farás fielmente a sua vontade”. Como re- sultado disso, os pelagianos ensinavam que o homem é livre para crer. Não obstante, na Bíblia, Paulo enfaticamente argumenta contra tal idéia, ao dizer que a fé é um dom especial conferido por Deus (Ef 2.8). Contudo, cumpre-me retornar ao meu argumento de que o livro de Síracides (Eclesiásticos) não prega o “livre-arbítrio”. Constitui um
  • 48. 52 • Nascido Escravo grande erro argumentar que as palavras “Se queres, guardarás os man- damentos”, devem significar “portanto, tu podes”. O primeiro homem, Adão, era assistido pela graça de Deus e, no entanto, desobedeceu. Se Adão desobedeceu, o que podemos nós fazer, antes de havermos recebido qualquer graça divina? O “livre-arbítrio” é completamente im- potente. Se pusermos a situação de Adão ao lado do trecho de Síracides (Eclesiásticos) 15.14-17, você verá que esse trecho, longe de manifes- tar-se em favor do “livre-arbítrio” é fortíssimo argumento contra tal idéia. Essa passagem, pelo contrário, ensina o nosso dever de cumprir a vontade de Deus e não a nossa capacidade de obedecer a Deus. argumento 7 Gênesis 4.7 — outro texto que prova que receber um mandamento não significa ter a capacidade de obedecê-lo. Erasmo, você cita as palavras de Gênesis 4.7: “...eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo”, para provar que maus pensamentos podem ser controlados, não levando, necessariamente, ao pecado. Uma vez mais você contradiz a si mesmo. Você já havia dito que o ponto de vista que é provavelmente verdadeiro é aquele que afirma que a vontade humana não pode querer o que é bom. No entanto, aqui você diz que o homem pode dominar os maus desejos, sem fazer qualquer alusão à ajuda de Cristo ou do Espírito Santo. Esse texto bíblico, na verdade, não está ensinando nada disso. É um outro exemplo de que ao homem é mostrado o que ele deve fazer, e não o que ele pode fazer. Outro exemplo disso é o primeiro mandamento: “Não terásoutrosdeusesdiantedemim...”.Ostextoscitadossãomandamentos,e mandamentosnãoimplicamacapacidadedeobedecer.Pelocontrário,de- monstramincapacidadedeobedecer,como,porexemplo,nocasodeCaim.
  • 49. O Que Erasmo ensinava • 53 argumento 8 Deuteronômio 30.19 — a lei é designada para nos dar conhecimento do pecado. Essa é a terceira passagem que você cita a favor do “livre-arbítrio”. No texto se lê: “Te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição: es- colhe, pois, a vida...”. Você diz: “O que poderia ser mais claro, do que dizer que o homem tem liberdade de escolha?” Entretanto, replico que você está cego! Quando Moisés disse “escolhe, pois, a vida”, porventura o povo israelita escolheu a vida? Se eles tivessem feito essa escolha, não teria havido necessidade das operações do Espírito Santo. Você diz: “É ridículo dizer a um homem, diante de dois caminhos, para ele ir pelo que lhe agrada, se apenas um dos caminhos estiver livre à sua frente”. Que ilustração tola! É verdade que nós estamos diante de uma bifurcação; porém os dois caminhos — e não somente um — estão fechados para nós. Somos incapazes de tomar o caminho que conduz ao bem, sem a graça de Deus. E nem mesmo podemos tomar o outro cami- nho, sem a permissão de Deus! Em Romanos 3.20, Paulo não diz: “Pela lei vem o pleno conhecimento da bondade”, nem: “Pela lei vem o pleno conhecimento da vontade”. Ele diz: “Pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”. A lei não ensina o que os homens podem fazer, mas o que os homens devem fazer. Em seguida, você cita Deuteronômio 3 acerca de “escolher”, de “desviar-se” e de “observar”.Você diz que se as pessoas não têm realmen- te poder para fazer essas coisas, então os mandamentos são destituídos de significado. Uma vez mais, porém, todos esses mandamentos dizem o que as pessoas devem fazer e não o que podem fazer. Não são destituídos de significação. Têm por desígnio ensinar ao homem orgulhoso o quão impotente ele é. Você tenta ridicularizar essa posição, comparando-a a um homem que esteja totalmente amarrado, menos o seu braço esquer- do. Então lhe é dito que há um bom vinho à sua direita e veneno à sua
  • 50. 54 • Nascido Escravo esquerda. É-lhe então ordenado que escolha um deles. O que você está tentando provar com essa ilustração? Estará tentando provar a liberdade absoluta da vontade humana? Mas quão esquecido você é! Você já tinha dito que o “livre-arbítrio” nada pode fazer sem a graça de Deus. Você tentou ridicularizar a minha posição com a sua ilustração, porém deixe- me expor a minha posição com uma ilustração melhor. Imaginemos um homem com ambos os braços amarrados! Esse homem gaba-se de que é livre para mover seus braços para a direita e para a esquerda. Ordena-se, então, a ele que mova um braço em uma certa direção — não a fim de divertir-se com ele, mas a fim de provar que ele é incapaz de obedecer. Nas Escrituras aprendemos que o homem não apenas está amarrado por Satanás, mas também iludido na crença de que é livre para fazer o que é direito. A lei de Moisés foi dada para mostrar aos homens que eles estão iludidos com sua liberdade imaginária. argumento 9 Confusão de Erasmo acerca da lei e do evangelho. Você se vale de inúmeras passagens para provar a sua posição, mas fracassa completamente em sua tentativa de mostrar a diferença entre a lei e o evangelho. Deixe-me mostrar como o evangelho é ensinado em passagens que você pensa que dizem respeito à lei. Para exemplificar, consideremos o texto de Jeremias 15.19: “Se tu te arrependeres, eu te farei voltar e estarás diante de mim...”; e Zacarias 1.3: “Tornai-vos para mim, diz o Senhor dos Exércitos, e eu me tornarei para vós outros...” Porventura, “tornai-vos” prova que o homem tem a capacidade de vol- tar? E “amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de toda a tua força” (Dt 6.5), prova que ele tem capacidade para amar a Deus? Essas palavras não provam que os homens possam
  • 51. O Que Erasmo ensinava • 55 voltar-se para Deus contando apenas com a sua própria capacidade. Mas, quando os homens entendem o que devem fazer, então eles perguntarão aonde poderão encontrar a capacidade para obedecer. As palavras “tor- nai-vos para mim” não significam “tentai tornar-vos para mim”. Você diz que a graça divina é posta à disposição quando os homens tentam voltar-se para Deus. Mas isso faria também a segunda parte desse ver- sículo significar “eu tentarei tornar-me para vós”! Isso seria espantoso! Talvez a graça também esteja à disposição do Senhor! Longe de nós os argumentos vazios! A palavra “tornar” é utilizada nas Escrituras tanto em sentido “legal” como em sentido “evangélico”. Quando ela é usada em sentido legal, trata-se de um mandamento obriga- tório, não apenas uma tentativa do homem de obedecer, mas uma completa mudança em sua vida (Jr 4. l; 25.5 e 35.15). E quando a palavra “tornar” é empregada em seu sentido evangélico, ela é proferida por Deus como um consolo e uma promessa, quando coisa alguma é exigida de nós, mas, antes, a graça de Deus nos é oferecida (SI 14.7; 116.7 e 126.1). Zacarias exibe-nos tanto a mensagem da lei quanto a mensagem da graça. A totali- dade da lei é resumida nas palavras “tornai-vos para mim”; a totalidade da graça, nas palavras “e eu me tornarei para vós outros”. Você interpreta de igual maneira Ezequiel 18.23: “Acaso tenho eu prazer na morte do perverso? diz o Senhor Deus; não desejo eu antes que ele se converta dos seus caminhos, e viva?” Uma vez mais, você interpreta as palavras “que ele se converta” como a capacidade de fazê- lo. Você faz desse trecho lei, ao invés de evangelho. Faz dele uma ordem para que nós não pequemos. Isso é lei. No entanto, o Senhor declara: “Porque não tenho prazer na morte de ninguém...” (Ez 18.32), e alude claramente ao castigo do pecado que o pecador merece e o sabe. Deus está dando a tal pessoa esperança do perdão e salvação. As palavras da lei pesam sobre aqueles que não sentem nem reconhecem os seus peca- dos. A esses é mostrado o que devem fazer. Entretanto, o evangelho é dirigido àqueles que são afligidos pelo senso de pecado e são tentados a cair no desespero.
  • 52. 56 • Nascido Escravo Portanto, essas palavras em Ezequiel, “não tenho prazer na morte de ninguém”, longe de provarem o “livre-arbítrio”, provam exa- tamente o contrário. Elas mostram quão impotentes somos à parte das promessas de Deus. De fato, vamos nos tornando cada vez piores, en- quanto a graça de Deus não nos é dada. Essas palavras de misericórdia são necessárias para salvar pecadores (a menos que você imagine que Deus diz essas coisas só por dizer). Ninguém aceitará essa promessa divina se- não aquele a quem a lei houver mostrado seu pecado. Aqueles que ainda não sentiram o poder da lei de Deus e não temem o julgamento e a morte eterna, não têm interesse pelas promessas misericordiosas de Deus. argumento 10 A vontade revelada de Deus e a vontade secreta de Deus. Na passagem do livro de Ezequiel que acabamos de considerar, o profeta não trata, de forma alguma, da questão por que algumas pessoas são convencidas do pecado através da lei e outras não. Também não trata de por que algumas pessoas recebem a graça de Deus e outras não. Precisamos estabelecer clara distinção entre a vontade revelada de Deus e a vontade secreta de Deus. Deus, de acordo com a sua vontade secreta, planejou que aqueles aos quais escolheu receberiam sua miseri- córdia. Não nos compete inquirir a questão, mas adorar reverentemente ao Senhor. Devemos nos interessar por aquilo que Deus nos tem revela- do e não por aquilo que Ele reserva para Si mesmo. Aplicados ao nosso texto, esses pensamentos significam que Deus, oculto em sua majestade, não lamenta pela morte do pecador. Mas Deus, como nos é revelado, lamenta sobre a morte que vê em seu povo, e tem agido de modo tal que o pecado e a morte sejam eliminados. É impossí- vel sermos orientados pela vontade secreta de Deus, pois não sabemos
  • 53. O Que Erasmo ensinava • 57 no que ela consiste. Basta-nos saber que a vontade secreta de Deus exis- te, de modo que venhamos a temê-Lo e adorá-Lo. Se estamos falando de Deus, da maneira como Ele nos é revelado, é absolutamente certo dizer que a culpa é nossa se perecermos, porque, na verdade, a falha encontra-se na vontade do homem (Mt 23.27). Mas por que Deus não remove essa falha de cada ser humano, ou por que nos considera responsáveis pelo erro que não podemos evitar, não nos compete indagar a respeito. E mesmo que indagássemos, não obtería- mos resposta, conforme diz Paulo, em Romanos 9.20: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?” argumento 11 A obrigação não é evidência de capacidade para obedecer. Você prossegue com o argumento: “Se não está dentro da capacidade de cada indivíduo obedecer ao que é ordenado, então todo encorajamen- to nas Escrituras, todas as promessas, ameaças, repreensões, bênçãos, maldições e tantos exemplos são inúteis”. Porém, conforme já tenho esclarecido por várias vezes, as passagens bíblicas que impõem o senso de dever não podem ser utilizadas para provar a existência de um “livre- arbítrio”, conforme você sugere. Uma das últimas passagens que você emprega em respaldo à sua posição é Deuteronômio 30.11-14, que diz: “Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não é demasiado difícil, nem está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar, que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Pois esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires”.
  • 54. 58 • Nascido Escravo Você diz que essas palavras não somente mostram que nos é pos- sível cumprir aquilo que elas nos ordenam, mas que é algo tão fácil quanto cair de uma pinguela. Porém, se realmente esse é o sentido da passagem, então temos de concluir que Jesus Cristo foi um tolo por des- perdiçar seu tempo. Ele derramou o seu sangue, a fim de nos garantir o Espírito Santo, embora, o tempo todo, não tivéssemos qualquer necessi- dade dEle, porquanto todos podemos fazer, fácil e naturalmente, aquilo que Deus requer de nós. Mas, se esse é o caso, como isso se harmoniza com o seu próprio argumento de que provavelmente seja verdadeiro o ponto de vista de que o “livre-arbítrio” não pode fazer o bem sem a gra- ça divina? Você já se esqueceu de que escreveu isso? Portanto, quase nem preciso referir-me à explicação de Paulo sobre Deuteronômio 30.11-14, em Romanos 10.8. Preciso apenas examinar essa passagem, para ver que nenhuma palavra é dita a res- peito do “livre-arbítrio”. Por exemplo, o que significam para você expressões como: “não é demasiado difícil”, “nem está longe de ti”, “nos céus” e “além do mar”? Elas tão-somente aludem a coisas que devemos tentar fazer. Mas nada dizem quanto à nossa capacidade de fazer essas coisas. Elas meramente referem-se à noção de distância. Eu sei que tudo isso é uma lógica infantil, mas, que posso fazer quan- do me deparo com argumentos tão tolos? Nesta passagem, Moisés mostrou, de forma patente, ser legislador fiel. Ele deixou o povo sem a desculpa de desconhecer a lei de Deus. Eles não precisavam olhar em lugar algum a fim de tomar conhecimento do que Deus exige. Eles não podiam alegar ignorância, como desculpa por não observar lei. Eles não podiam dizer que tudo era um mistério. Tudo estava claro para que todos vissem. Então, do “livre-arbítrio” são retiradas todas as desculpas para desobedecer. Repito que esses textos bíblicos mostram-nos somente aquilo que Deus requer. Mostram-nos o que devemos fazer, mas que não podemos fazer. Seu intuito é mostrar-nos quão impotentes e quão pecaminosos nós somos.
  • 55. O Que Erasmo ensinava • 59 argumento 12 O homem não deve intrometer-se na vontade secreta de Deus. Agora chegamos aos seus textos “comprobatórios” do Novo Testamento. Você destaca o texto de Mateus 23.37: “Jerusalém! Jerusalém!... quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!” Você argumenta que, se tudo acontece precisamente conforme Deus deseja, então Jerusalém poderia replicar com justa causa: “Por que desperdiças as tuas lágrimas? Se não tinhas a intenção que déssemos ouvidos aos profetas, então por que os enviaste? Por que nos consideras responsá- veis, quando Tu decidiste aquilo que deveríamos fazer?” Porém, conforme eu já disse, não nos compete intrometermo-nos na vontade secreta de Deus, pois as coisas secretas de Deus estão intei- ramente fora do nosso alcance (l Tm 6.16). Devemos dedicar o nosso tempo considerando o Deus encarnado, o Senhor Jesus Cristo, em quem Deus tornou claro para nós o que deveríamos e o que não deveríamos saber (Cl 2.3). É verdade que o Deus que se tornou carne exclamou: “Quantas vezes quis eu... e vós não o quisestes!” Cristo veio a este mun- do a fim de realizar, sofrer e oferecer a todos os homens tudo quanto é necessário à sua salvação. Mas alguns homens, endurecidos por causa da vontade secreta do Senhor, rejeitam-nO (Jo 1.5,11). O mesmo Deus encarnado, entretanto, chora e lamenta-se em face da destruição eterna dos ímpios, ainda que, em sua divina vontade, propositalmente Ele os tenha deixado perecer. Não nos cabe perguntar por quê, mas antes, nos prostrarmos admirados diante de Deus. Neste instante alguns dirão que logo que sou empurrado para um canto, evito enfrentar frontalmente a questão, dizendo que não devemos nos intrometer na vontade secreta de Deus. Entretanto, isso não é in- venção minha. Foi dessa maneira que Paulo argumentou em Romanos
  • 56. 60 • Nascido Escravo 9.19,21; e Isaías, antes de Paulo (Is 58.2). É evidente que não devemos procurar sondar a vontade secreta de Deus, sobretudo quando observa- mos que são justamente os ímpios que são fortemente tentados a fazê-lo. Nós devemos adverti-los a ficar calados e reverentes. Se alguém quiser levar avante essa forma de inquirição, é bem-vindo a fazê-lo; porém, des- cobrir-se-á lutando contra Deus. Quanto a nós — ficaremos observando para ver quem vencerá! argumento 13 A lei mostra a fraqueza humana e o poder salvador de Deus. Um outro trecho que você cita é Mateus 19.17: “Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos”. Você indaga como é que as palavras “se queres” poderiam ter sido dirigidas a alguém cuja vontade não é livre. No entanto, você já havia concordado que o “livre-arbítrio” não pode querer nenhuma coisa boa e que, sem a graça divina, pode so- mente servir ao pecado. Como, então, pode querer provar que a vontade humana é inteiramente livre? Será realmente verdade que a cada vez em que dizemos a alguém “se quiseres”, ou “se desejas”, significa que exis- te a capacidade de se fazer aquilo? Suponha que digamos o seguinte: “Se você quiser comparar-se a Davi, terá de produzir salmos como os dele”. Não estaríamos dizendo que isso nos seria impossível, a menos que Deus nos capacitasse para tanto? Assim, nas Escrituras encontramos ex- pressões similares a essa, para nos mostrar o que pode ser feito no poder de Deus e o que não podemos fazer por nós mesmos. Essas expressões não somente mostram coisas que não podemos fazer com nossos pode- res naturais, mas também revelam uma promessa do tempo em que essas coisas serão realizadas através do poder de Deus. Poderíamos exprimir o sentido das Escrituras assim: “Se chegares a manifestar a vontade de
  • 57. O Que Erasmo ensinava • 61 guardar os mandamentos (o que terás, não por ti mesmo, mas através de Deus, que a dá a quem Ele deseja), então, eles te preservarão”. Dessa maneira, podemos perceber que não podemos fazer nenhuma daquelas coisas que nos são ordenadas, ao mesmo tempo em que pode- mos fazer todas elas; pois, nossas fraquezas pertencem a nós mesmos e a nossa capacidade nos é dada através da graça de Deus. argumento 14 O Novo Testamento contém instruções para guiar os justificados Você emprega um argumento alicerçado em muitas referências do Novo Testamento a respeito de boas e más obras. Por exemplo: “Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós” (Mt 5.12). Você diz que, se tudo é feito porque assim Deus o deseja, não pode haver qualquer mérito nas boas obras. Isto posto, você quer que o texto signifique que o homem pode fazer, sem a ajuda divina, boas obras que merecerão recompensas no céu. Ora, vejam só! O “livre-arbítrio” tem sofrido algumas distorções, à medida em que o seu livro avança! Não somente o “livre-arbítrio” é capaz de querer e de realizar o bem, mas agora você também quer que o mesmo mereça a vida eterna! Nesse caso, que necessidade temos de Cristo ou do Espírito Santo? Homens “espertos” podem ser cegos para as coisas que são per- feitamente claras às pessoas “comuns”! Você não consegue perceber a diferença entre o Antigo e o Novo Testamento. No Antigo Testamento, há leis e ameaças cujo propósito é fazer-nos avançar para as promessas encontradas no Novo Testamento. No Novo Testamento encontramos o evangelho, onde achamos a graça e o perdão dos pecados, que nos foram obtidos pelo Cristo crucificado. Além disso, há encorajamento
  • 58. 62 • Nascido Escravo e instruções cujo intuito é despertar aqueles que forem justificados, após haverem recebido a graça e perdão, para que produzam o fruto do Espírito e para que carreguem ousadamente a cruz. Você está cego com respeito a total operação regeneradora do Espírito de Deus, vendo nas Escrituras somente leis por meio das quais os homens deveriam viver. Isto é surpreendente, em alguém que tem pas- sado tanto tempo estudando as Escrituras. O texto de Mt 5.12 tem tanto a ver com o “livre-arbítrio” como a luz tem a ver com as trevas, tendo por único desígnio encorajar os apóstolos, que já estavam debaixo da “graça divina”, a fim de perseverarem diante das dificuldades do mundo. argumento 15 A base para o galardão do crente é a promessa de Deus e não o mérito do homem O “galardão”, referido em Mateus 5.12, é uma espécie de promessa. Uma promessa, entretanto, não prova que podemos fazer coisa algu- ma. Prova apenas que, se fizermos certas coisas, seremos galardoados. A questão é se realmente podemos fazer as coisas em razão das quais o galardão é dado. Alguns dizem: O prêmio é posto perante todos os que correm, assim sendo, todos podem correr e obter o prêmio! Não é essa uma lógica ridícula? Poderia ser útil para alguns, se a noção do “livre- arbítrio” pudesse ser estabelecida por meio de tais argumentos! Você procura argumentar que se Deus já decidiu tudo de antemão, então não podemos falar em galardão. Se quer dizer com isso que você não recompensaria quem trabalha com má vontade, eu estou de acordo. Porém, quando as pessoas praticam o bem ou o mal propositadamente, então, com toda a justiça, recebem o galardão ou a punição. Isso é ver- dade, mesmo quando as pessoas são incapazes de alterar a sua vontade por seus próprios esforços. Se, porém, só podemos desejar fazer o que é
  • 59. O Que Erasmo ensinava • 63 bom capacitados pela graça divina, daí é óbvio, que o mérito e o galar- dão provêm exclusivamente da graça divina. Entretanto, não deveríamos falar sobre méritos humanos. Melhor é falar acerca das conseqüências daquilo que fazemos. Nada existe de bom ou de mal que não venha a receber sua devida retribuição. O infer- no e o julgamento divino, certa e seguramente, esperam pelos ímpios. Da mesma forma, é certo que um reino espera pelos piedosos, porque o mesmo foi-lhes preparado por seu Pai celestial (Mt 25.34). Se tentarmos fazer o bem a fim de merecermos herdar o reino de Deus, haveremos de fracassar, mostrando assim que somos ímpios. Os filhos de Deus fazem o bem visando a glória de Deus, e não alguma recompensa. Por conseguinte, qual é o significado daquelas passagens bíblicas que prometem o reino de Deus ou ameaçam com o inferno? (Gn 15.1; 2 Cr 15.7; Jó 34.11; Rm 2.7). Elas simplesmente mostram o resultado de uma vida boa ou de uma vida má. Seu propósito é instruir e alertar. Nada dizem a respeito de mérito, mas ensinam aquilo que devemos fazer, en- corajando-nos a prosseguir até ao fim (Gn 15.1; l Co 15.58; 16.13). É como se quiséssemos consolar alguém, dizendo que o que ele está fazen- do agrada a Deus, ou como se quiséssemos advertir a alguém, dizendo que o que ele está fazendo desagrada a Deus. Mesmo assim, você argumenta: “Por que Deus importa-se em dizer-nos essas coisas, quando todas elas já foram determinadas de antemão?” A resposta é que Deus produz em nós o seu propósito por in- termédio da sua Palavra. O Senhor poderia fazer essas coisas sem a sua Palavra; todavia, agradou-Lhe fazer de nós seus cooperadores. Portanto, Ele nos diz essas coisas em sua Palavra, a fim de envolver-nos em seu plano. Por conseguinte, vemos que Deus realiza em nós a sua vontade, e também nos apresenta a sua Palavra, com o intuito de dizer ao mundo inteiro quais os fatos a respeito dos galardões e das punições, a fim de que o seu poder e a sua glória, bem como a nossa debilidade e impieda- de, sejam proclamadas por todo o mundo. E essas verdades, que tantos desprezam, serão recebidas pelos corações dos piedosos.

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