NA MIRA DO VAMPIRO
LOPES DOS SANTOS
J,
B869.35
S237 MIR
7a. edição
Série Vaga-Lume
Editora ática
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Você acredita em vamp...
concreto". Foi assim que surgiu Na mira do vampiro, livro que, concretamente, está
fazendo muito sucesso com o leitor jove...
- Calma, Duda, não dá mais! Não tá vendo que os galhos de cima são finos? -
reclamava Toninho ao lado de Duda.
Postados nu...
trabalho de catar os abacates? Essa é boa! - chiou Toninho, enquanto ia se movendo
por entre os galhos do abacateiro.
Toni...
fazia chover goiabas sobre Duda, que ia catando todas as que podia.
- Caramba, Toninho! Acho que a gente não vai ter como ...
Duda e Toninho ainda correram alguns metros, parando defronte a uma outra casa
velha, na mesma rua. Os dois estavam ofegan...
com certa displicência. No local não havia ninguém.
Os dois pararam.
Toninho ainda estava de mal com Duda, porém, não se c...
Ilustração: Está vendo aquele velho todo de preto? - apontou Duda em direção à
caminhonete - Ele é esquisitão...
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- Se...
mulheres e as criancinhas - completou, sombrio, com o intuito de assustar o amigo.
- Puxa vida! Isso parece perigoso! Vamo...
Desta feita conseguiu, e a caminhonete saiu sacolejando.
Olhando contrariado para Duda e Kid, que abanava o rabinho em sau...
falou:
- Dr. Kriegel, o pessoal já está aqui embaixo.
- Mande-os subir imediatamente - respondeu uma voz metálica, saída d...
Mora perto daqui? - perguntou o porteiro, encarando Duda.
- Mais ou menos - voltou a responder ele, inseguro. - Quer dizer...
Duda repetiu o mesmo gesto displicente. Estava amedrontado.
- Não vai me dizer que você conhecia a falecida?
- Quem? ! - d...
com que ele se aproximara da portaria tinha sido muito estranha.
- Pô! Deixa... o Kid tá morrendo de sede. Eu não sou nenh...
outra, reforçando o argumento da primeira.
Graças a esse esquecimento, Duda estava salvo. Ele aproveitou a oportunidade pa...
Kid parou também. Após alguns segundos, deitou-se e permaneceu de olhos fixos no
dono.
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cautela, para não fazer nenhum barulho que o denunciasse, porém ouviu novo ruído e
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debaixo da cama.
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- O vampiro?! Mas que moça é essa? Não tô entendendo nada, meu irmão...
- Pô! Eu estou falando grego, Duda? Eu tô dizendo ...
- Não, isso eles não falaram.
- A teia está mais emaranhada... - disse Duda em tom de mistério.
- Que teia?
- Eu quero diz...
- Eu vou ensinar vocês a não fazerem molecagem com os mais velhos...
Duda e Toninho saíram correndo em disparada, com o po...
- Atrasados?! Vocês perderam a aula pela segunda vez esta semana! - volveu Da.
Amanda, irritada. - Acho que eu vou acabar ...
Ela, metida em algum canto da casa, ocupada com seus afazeres, não respondeu.
No quarto, Duda foi até seu material escolar...
rodeios.
- Vamos ver o que eu posso fazer. O que é desta vez, detetive Duda?
- Eu tenho aqui o número da placa de um carro...
- Vocês já sabem alguma coisa sobre isso? - retrucou Duda, admirado.
- Provavelmente algum lunático fazendo-se passar por ...
dissera.
- Por aqui - disse ele, convocando Ferretti.
Os dois pegaram o elevador e subiram...
De dentro do carro de políci...
- Fica frio. Minha mãe pensa que eu estou estudando nesse momento com o Toninho.
Você vai localizar o endereço deles? - pe...
- Falou...
Contudo, quando ia saindo porta afora, parou e mirou a manchete do jornal que sua
mãe lia: "Vampiro solto na ci...
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15 A MANSÃO DO VAMPIRO
Já havia anoitecido quando Duda chegou à sinistra casa, que parecia deserta.
Aproximou-se do p...
"E agora?", pensou ele. "Trancado no esconderijo do vampiro, com o caixão dele
bem debaixo do nariz..." Lembrou-se de um d...
Uma coisa, porém, chamou mais a atenção de Duda... Mais ou menos no centro do
grande salão, em cima de dois cavaletes, est...
atenção da vizinhança toda. Kid Pulga, depois do aparecimento do dono, latia
ininterruptamente.
- Quieto, Kid! - ordenou D...
- Você já sabia que o caixão dele ficava guardado aqui dentro? - indagou Toninho,
voltando a inquietar-se.
- Não, não sabi...
expliquei a você que ele age de noite para caçar suas vítimas?
Toninho limitou-se a confirmar com a cabeça.
- Então. Ele e...
- Eles quem? - indagou Toninho, curioso e excitado ao mesmo tempo.
- O criado do vampiro e aquele ajudante dele - disse Du...
- Ué, se vamos correr contra o relógio, só pode ser o relógio do vampiro!
- Não é nada disso, Toninho! O que eu quero dize...
- Que horas são? - perguntou Duda.
- Vinte para as nove, doutor - informou Da. Amanda, ainda no mesmo tom.
- No outro cana...
querer saber onde a gente vai... Bom, aí você já sabe o resto...
- Então vamos de táxi! - falou Duda, automaticamente, sem...
Duda, ao contrário da avó, não tinha a mínima discrição; observava tudo sob os
olhos do criado do vampiro, que o vigiava c...
Na mira do vampiro lopes dos santos
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Na mira do vampiro lopes dos santos

Na mira do vampiro lopes dos santos
Published on: Mar 3, 2016
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Transcripts - Na mira do vampiro lopes dos santos

  • 1. NA MIRA DO VAMPIRO LOPES DOS SANTOS J, B869.35 S237 MIR 7a. edição Série Vaga-Lume Editora ática <p> Você acredita em vampiros? Duda e Toninho não acreditavam, até que aquela mulher foi encontrada morta com dois furos no pescoço... Crucifixo, coroas de alho, estacas, os dois se armaram como puderam, e resolveram tirar aquela história a limpo. Prepare-se para sentir com eles os calafrios de quem está na mira do vampiro. Você vai acompanhar uma aventura incrível. <p> <03> UM VAMPIRO E MUITA DIVERSÃO Quem não gosta de histórias de terror? Elas sempre fizeram muito sucesso na literatura e no cinema. Das criaturas sobrenaturais que nos assustam e fascinam há muito tempo, uma tem a franca preferência do público: o vampiro - um morto-vivo que se alimenta de sangue fresco. E é justamente de vampiros que fala este romance incrível. Nele, Duda convence seu amigo Toninho a participar de uma investigação arriscada: descobrir tudo sobre um vampiro que está à solta na cidade do Rio de Janeiro. Já pensou? A coragem de um deles, mais o bom senso do outro, serão suficientes para garantir o sucesso da missão? Descubra a resposta mergulhando nesta história que não é só mistério e suspense: há muitas situações engraçadas que tornam a leitura uma delícia. Agora, faça como Duda e Toninho, pegue uma coroa de alhos, um crucifixo e uma estaca de madeira... e boa sorte. <p> <4> Conhecendo LOPES DOS SANTOS Cláudio José Lopes dos Santos nasceu em 02 de novembro de 1961, no Rio de Janeiro. Começou a escrever aos 22 anos, depois de ter feito uma rápida carreira teatral. Tem escrito peças para teatro, roteiros de cinema, poemas, contos, inéditos por enquanto. Como diz o autor, porém, "esperem para ver!". Aliás, foi por isso que, como ele conta, "depois de uma lição de moral do pai"; resolveu "fazer algo de
  • 2. concreto". Foi assim que surgiu Na mira do vampiro, livro que, concretamente, está fazendo muito sucesso com o leitor jovem. Lopes dos Santos foi colaborador da revista humorística Mad. <p> <5> SUMÁRIO 1. A velha maluca - 9 2. A maldição - 12 3. "Morta com dois furos no pescoço" - 13 4. O criado do vampiro - 16 5. Um corpo que some - 21 6. O cúmplice - 23 7. Flagrante delito - 29 8. Toninho em apuros - 31 9. O vampiro ressuscitou? - 34 10. "Eu incinero vocês!" - 38 11. Depois da tempestade - 39 12. Ferretti e Elias - 42 13. De volta ao edifício - 46 14. Funerária Além da Vida - 49 15. A mansão do vampiro - 52 16. A prova está no caixão - 54 17. Por um triz - 58 18. Vovó Dalila! - 62 19. A passagem secreta - 65 20. Era uma vez uma alma penada - 72 21. Os gatos justiceiros - 76 22. Que cheiro tem a morte? - 81 23. Dois gatos com uma cajadada só - 86 24. O nome dele é Cristóvão Lee - 91 25. As pedras são autênticas - 95 26. A vingança do vampiro - 98 27. Tiros no escuro - 106 28. Morte ao vampiro - 112 29. Toninho, o gênio - 117 <p> <5> NA MIRA DO VAMPIRO Lopes dos Santos 1 - A VELHA MALUCA - Anda, moleque!
  • 3. - Calma, Duda, não dá mais! Não tá vendo que os galhos de cima são finos? - reclamava Toninho ao lado de Duda. Postados num dos galhos da mangueira, tentavam alcançar as frutas mais acima. Eram aproximadamente nove horas de uma bela manhã e os meninos haviam decidido trocar o hábito diário da pelada por um pouco de aventura. - Olha, Toninho! Tá cheio de manga ali daquele lado, rapaz! - Ô Duda, não vê que não dá pra subir naquele galho? A gente vai ter que descer pra tentar com uma vara de bambu. Duda e Toninho encontravam-se na casa de Da. Carmem, na rua do Cortiço, a uns três quarteirões da casa deles. Costumavam chamá-la de "velha maluca", embora ela não tivesse nada de louca. - Quantas mangas a gente já pegou? - perguntou Duda na expectativa. - Olha lá no chão. Tem uma porção caída - retrucou Toninho, indicando o local onde estavam as frutas esparramadas. - Não precisa pegar mais, nós já temos muitas - concluiu ele, taxativo. - Vamos pegar algumas goiabas, então - sugeriu Duda. - Vamos nessa... Começaram a descer da mangueira. A casa onde estavam era quase uma mansão, porém, um pouco desgastada pelo tempo, com um diminuto jardim na frente e um imenso pomar nos fundos. Duda e Toninho estavam justamente na parte dos fundos, e, ainda que o pomar estivesse abandonado, isso não prejudicava o desenvolvimento das árvores. Frutificavam à vontade: além das mangueiras, alvo dos dois pequenos, goiabeiras, sapotizeiros, cajazeiras, abacateiros, entre outras. <10> - Vamos pegar também alguns abacates ali naquele pé. Tá cheio! - falou Duda em tom de ordem . - E as goiabas? - lembrou Toninho. - São mais fáceis de pegar, depois a gente volta pra elas. Dito isso, os dois dirigiram-se aos abacateiros... Kid Pulga, o vira-lata de estimação Duda, como bom ajudante que Era, ficara do lado de fora para alertá-los no caso de alguém se aproximar. Seu desempenho era perfeito: dormia profundamente. Várias pessoas circulavam pela calçada sem serem percebidas, e até mesmo uma atraente poodle que passava com sua dona deixou de ser notada pelo eficiente vigilante. Kid Pulga era aproximadamente do tamanho de um pequinês, de focinho comprido, pêlo branco com algumas manchas pretas dispostas pelo corpo e, o que mais chamava a atenção, manchas negras em volta dos olhos, como uma máscara. Duda e Toninho já estavam no abacateiro, quer dizer, Toninho havia subido, enquanto Duda aguardava tranqüilamente embaixo. - Toninho, sacode aquele galho ali que tá cheio de abacate madurinho - voltava a ordenar Duda. - E você vai ficar fazendo o que aí embaixo? perguntou Toninho com certa indignação. - Eu vou catar os que caírem - devolveu Duda, esboçando um sorriso debochado. - Você é engraçado! Eu me arranho todo tentando subir na árvore e você só vai ter o
  • 4. trabalho de catar os abacates? Essa é boa! - chiou Toninho, enquanto ia se movendo por entre os galhos do abacateiro. Toninho era um negrinho dos seus dez anos de idade, pouco mais de metro e meio de altura. Sua mãe, Neusa, era o braço direito de Da. Amanda, a mãe de Duda. O garoto tinha braços e pernas bem treinados no serviço caseiro, e quando se tratava de escapar às confusões criadas por Duda, era ele que tinha sempre um bom truque tirado da cartola. Não possuía a mesma criatividade de Duda, mas estava muito mais amadurecido para a vida que o amigo. - Pare de reclamar, moleque! A parte que me cabe é a direção intelectual da operação - arrematou Duda, um pouco mais empolado que o normal. - Fica frio que você não entende nada de estratégia, tá? <11> Duda tinha a mesma idade de Toninho e era um pouco mais baixo que ele. Seus olhos castanhos demonstravam uma sapiência fora do comum. Tinha cabelos lisos, também castanhos, que a mãe exigia estivessem sempre muito bem cortados, e a pele era ligeiramente morena do sol. O garoto adorava quadrinhos e histórias policiais, além de ser espectador assíduo da televisão. Tudo isso Ihe dava material de sobra para alimentar sua poderosa imaginação, daí o hábito de falar difícil de vez em quando, coisa pouco comum na sua idade. Determinado, usava de todos os artifícios para convencer as pessoas a ajudá-lo em seus "casos": desde chantagem emocional até os argumentos mais absurdos para justificar seus atos; acrescente-se a isso um talento fundamental para conquistar as pessoas, um carisma. Toninho continuou a se movimentar pelos galhos do abacateiro sob os olhos atentos de Duda, que esperava pelas frutas na segurança do chão. Enquanto isso, na surdina, a "velha maluca" os observava. Ela conhecia muito bem os dois ladrõezinhos... Os primeiros abacates despencaram e Duda começou a recolhê-los. - Vai segurando aí, Duda! - gritou Toninho. Bastou ele sacudir novamente outro galho para mais abacates precipitarem-se sobre o amigo. O pé estava repleto. - Caramba, Toninho! Tem abacate paca! - Então vou descer - avisou o garoto, escorregando pela árvore. - Tá legal - concordou Duda, admirando as frutas aos seus pés. Toninho desceu com rapidez, indo direto à goiabeira ao lado, sem esperar nova "ordem" de Duda. Da. Carmem continuava a observá-los. Corriam boatos pela vizinhança de que aquela mulher solitária havia sido muito rica, mas o interesse dos filhos em seu dinheiro, somado ao desprezo que lhe legaram após a herança, distribuída ainda em vida, fizeram com que ela caísse em profunda depressão, recusando mesmo os amigos mais chegados. Assim, ela demitiu todos os empregados e doou tudo o que lhe restara a instituições de caridade, passando a levar uma vida muito humilde. <12> Duda lembrava-se dessa história contada por sua avó. Toninho, no alto da goiabeira,
  • 5. fazia chover goiabas sobre Duda, que ia catando todas as que podia. - Caramba, Toninho! Acho que a gente não vai ter como levar todas essas frutas pra casa. - A gente dá um jeito! E continuava a despejar as goiabas, enlouquecido de alegria. Duda, no mesmo estado de espírito, ia recolhendo tudo na medida do possível. De repente, no meio da festa, a dona do pomar surgiu do nada e os surpreendeu... 2 A MALDIÇÃO Ai! - berrou Duda surpreso. - Sujou, Toninho! É a velha! Duda saiu correndo pelo pomar com Da. Carmem atrás dele. Aos poucos ia se livrando das frutas que carregava. - Seu ladrão! Eu vou te ensinar a não invadir a casa dos outros! - ameaçava Da. Carmem. Toninho, no alto da goiabeira, ficou imóvel, esperando passar despercebido. Mas depois, pensando que o companheiro pudesse estar em apuros, saltou da árvore e, como uma perereca, quicou no chão e emendou numa veloz corrida. Da. Carmem, com uma agilidade fora do comum para a sua idade, tentava pegar Duda, que a driblava por entre as árvores. - Vem cá, seu capeta! Eu te pego! - berrava ela de raiva. Toninho passou pelos dois como um foguete, desviando a atenção da mulher para si. Duda aproveitou-se da confusão provocada pela aparição repentina de Toninho e correu em direção ao portão da frente, seguido pelo amigo. <13> Da. Carmem insistia em persegui-los, atirando neles todas as frutas que ficaram pelo chão. O tumulto foi suficiente para acordar o barão Kid von Pulga do seu sono matinal. Assim que avistou seus dois amigos sendo perseguidos, começou a latir, arrepiado. - Rápido, Toninho, ela vai nos pegar! Os dois escalaram o muro da frente da casa sob o fogo cerrado das frutas atiradas pela anciã, esquecendo-se até que o portão estava aberto, pois dessa maneira eles haviam entrado na casa. Na pressa, não se deram conta de terem feito o mais difícil. Do lado de fora, na rua, ainda tiveram tempo de debochar de Da. Carmem. - Tchau, maluca! Amanhã a gente volta pra pegar as frutas - gritou Toninho, fazendo caretas. - Tchau, sua velha cheia de teia de aranha! - reforçou Duda no mesmo tom de deboche de Toninho. Ela veio na direção dos dois, furiosa, e eles trataram de correr. - Seus malcriados! Tomara que um espírito maligno castigue vocês! - praguejou Da. Carmem. Kid Pulga ficou para enfrentar a velha, latindo ameaçadoramente. Mas bastou ela lhe direcionar os "projéteis frutíferos" para que ele desistisse da gloriosa tarefa a que se propunha. Então, abandonando o campo de batalha, foi juntar-se aos amigos na retaguarda... 3 "MORTA COM DOIS FUROS NO PESCOÇO"
  • 6. Duda e Toninho ainda correram alguns metros, parando defronte a uma outra casa velha, na mesma rua. Os dois estavam ofegantes. Sentaram-se no portão da tal casa um pouco tristes pela tentativa frustrada de levar algumas frutas para casa, poupando, assim, boa parte da feira da semana. <14> A mão direita segurando a cabeça, o cotovelo direito apoiado no joelho do mesmo lado: era o gesto final dos dois, que pareciam agora duas estátuas gêmeas. - Caramba! - acordou Duda subitamente. - Esquecemos o Kìd! - disse em pânico. Contudo, antes que voltasse em disparada para a casa da "velha maluca", avistou Kid Pulga aproximando-se lentamente, com a língua pendurada. Ele não agüentara correr tanto quanto o dono. Passado mais esse susto, Duda e Toninho voltaram a sentar, observados por Kid Pulga, que ainda tinha meio palmo de língua para fora. Um silêncio absoluto tomou conta deles. Kid Pulga esparramou-se no chão para descansar. Súbito, Toninho retirou do bolso do short uma baita goiaba amarelinha. Ofereceu-a a Duda, mas quando este se preparava para abocanhá-la, Toninho desviou a trajetória dele, zombando: - Essa não, xará! Essa é do papai aqui - disse ele, mordendo a fruta com gosto. Duda levantou-se com raiva e uma pontinha de inveja, deixando Toninho sozinho para saborear a goiaba. Kid Pulga seguiu-o. - Peraí, Duda, eu só estava brincando. Toma, dá uma mordida. Duda não atendeu e continuou a andar. Toninho chamou por Kid, que parou e olhou para ele. Duda voltou-se, pegou-o no colo e desapareceu na esquina da avenida Fontenelle, transversal à rua do Cortiço e que também se comunicava com a rua dos Lírios, onde moravam os meninos. Toninho foi atrás. Emparelhou com o amigo e foram seguindo para casa sem se falar. Todavia, ao passarem por uma banca de jornal, onde havia um grupinho de pessoas lendo as manchetes dos principais jornais da cidade, Duda, curioso, decidiu parar para espíar também. Viu, em letras garrafais, a manchete de um jornal sensacionalìsta: "MORTA COM DOIS FUROS NO PESCOÇO". Abaixo, vinha a explicação: "Maria Aparecida Imaculada dos Santos foi encontrada morta, esta manhã, em sua casa no bairro de Fátima, centro do Rio, com dois furos no pescoço, sem hemorragia e com perda parcial de sangue..." <15> Duda parou de ler e olhou boquiaberto para Toninho, sem dizer nada. O amigo, lendo também a manchete, retribuiu o espanto. Kid não tirava os olhos da enorme goiaba, que ia sendo devorada aos poucos por Toninho. Os dois garotos, impressionados, retomaram o caminho, mas quando se preparavam para atravessar a rua Provinciana, que distava ainda cerca de um quarteirão da rua deles, depararam-se, do outro lado da avenida, com uma caminhonete funerária. Fora da caminhonete, no chão, jazia um caixão fechado, aparentemente deixado ali
  • 7. com certa displicência. No local não havia ninguém. Os dois pararam. Toninho ainda estava de mal com Duda, porém, não se contendo mais, abriu o bico: - Que é aquilo? - É um caixão, moleque - retrucou Duda com os olhos brilhando de assombro. - Eu já vi um igualzinho num filme de Drácula, o vampiro mais famoso do mundo... - Drácula? ! - balbuciou Toninho. Duda tapou a boca do amigo com a mão esquerda, pedindo silêncio, e completou abaixando a voz, como quem não quer ser ouvido: - É, é aquele vampiro que suga o sangue das pessoas... Vai me dizer que você nunca viu um vampiro? - desafiou Duda. - Quê? Ah, claro que já vi - respondeu ele sem muita convicção, observando a caminhonete funerária. A essa altura a boa relação deles já estava restabelecida. As briguinhas eram comuns entre os dois. Ao invés de seguirem para casa, decidiram adiar a volta e ficaram esperando pelo dono do caixão. Sentaram na porta de uma loja e aguardaram. <16> 4 O CRIADO DO VAMPIRO Poucos minutos depois, dois homens saíam da casa em frente da qual estava estacionada a caminhonete. O bairro de Duda e Toninho ainda conservava muitas casas de arquitetura antiga. Um dos homens aparentava uns 50 anos, tinha um aspecto carrancudo e um rosto cadavérico. Trajava um velho terno preto. O outro, mais jovem uns vinte anos, era moreno e vestia um macacãò surrado e desbotado. Transportavam um caixão para dentro do bagageiro da caminhonete, e, pelo esforço, ele parecia estar bastante pesado. Duda não deixou que esse incidente passasse em branco: - Alá! Aqueles homens estão em atitude suspeita... - Ué, Duda, não vejo nada de suspeito. Eles estão fazendo o trabalho deles, mané. Eles tão tirando outro caixão e levando pra casa de novo... - Está vendo aquele velho todo de preto? - apontou Duda em direção à caminhonete. - Tô. Que que tem? - Ele é esquisitão... - Não acho nada de esquisito nele, Duda - disse o garoto com convicção. - Você não vê pelo jeitão dele? - Ver o quê? - indagou Toninho, sem captar o que o amigo tentava transmitir. - Os criados dos vampiros são sempre assim: mal encarados e misteriosos - concluiu Duda com certo suspense na voz. Os dois homens entravam na casa novamente. - Ah, é? Se você diz - concordou Toninho sem contestar. - Um daqueles caixões deve ser o do mestre deles, os outros servem de disfarce... - Será? - tornou Toninho aparentando interesse. - Claro que é! Pode apostar uma goiaba - acrescentou Duda maliciosamente, olhando para o amigo. <17>
  • 8. Ilustração: Está vendo aquele velho todo de preto? - apontou Duda em direção à caminhonete - Ele é esquisitão... <18> - Se você diz - voltou a concordar Toninho, observando a caminhonete -Repare que casa mais sinistra é aquela pra onde eles foram. - Ah! Isso não, Duda - discordou o amigo com veemência. - Aqui no bairro tá cheio de casa assim. - Devem estar preparando tudo para ressuscitar o mestre deles - continuou Duda, já envolvido pelo clima de suspense, sem dar atenção às palavras do amigo. - Quem é o "mestre" deles, Duda? - quis saber Toninho, exagerando na pronúncia da palavra "mestre" O vampiro, moleque! - replicou Duda asperamente. - Ah, tá. O vampiro, claro. Os dois homens saíam novamente da casa sob o olhar atento e perscrutador de Duda. Toninho fez uma pausa para refletir sobre o que se passava, então perguntou de novo: - E como eles vão fazer isso? - Fazer o quê? - perguntou Duda, concentrado na atividade dos dois homens. - Ressuscitar o mestre deles - cochichou Toninho. - Com uma "missa negra". - Ué, e como é que se reza uma missa assim? Todo mundo vestido de preto? - volveu Toninho com inocência. - Não! - exclamou Duda, esquecendo seus suspeitos e encarando o amigo. - Não é nada disso, Toninho! "Missa negra" não é uma "missa preta" ! É um ritual demoníaco, onde eles matam alguém, aí o sangue da vítima é despejado nas cinzas do vampiro, que o criado guardou. Com isso, o vampiro vai reencarnar... - Reencarnar? - É, Toninho, é a mesma coisa que ressuscitar. Toninho não compreendia todas essas histórias de vampiros e coisas fantásticas tão bem quanto Duda e, apesar de lhe fazer companhia de vez em quando diante da televisão, não se deixava influenciar de maneira alguma pelo que assistia e tampouco encontrava tempo para dedicar-se à literatura juvenil ou aos quadrinhos como Duda fazia. Quando Toninho não estava estudando, estava ajudando a mãe em algum serviço doméstico. <19> - Puxa! É complicado, né? - Ô Toninho, eu acho que você nunca viu filme de vampiro coisíssima nenhuma! Implacável, Duda olhava com superioridade para Toninho. - Claro que já vi, Duda! É aquele sujeito mau que chupa o sangue das pessoas e que tem dois dentes pontudos retrucou Toninho. Ele não gostava dessas coisas. Sua diversão era jogar bola, soltar pipa, coisas mais saudáveis, na sua opinião. - E aí, depois de ser ressuscitado pelo servo, ele desperta todas as noites, transforma- se num morcego horripilante e ataca suas vítimas na calada da noite sedento de sangue... Duda deu um grito apavorante, e depois continuou: - ...principalmente as
  • 9. mulheres e as criancinhas - completou, sombrio, com o intuito de assustar o amigo. - Puxa vida! Isso parece perigoso! Vamos embora daqui... Duda caiu na risada com o impressionado Toninho, que já se preparava para sair correndo. Mas o garoto o impediu, segurando-o pelo braço. - Calma, moleque! Eu só tava brincando. Além do mais, isso só acontece de noite, e não tá nem na hora do almoço. Faltavam vinte minutos para as onze horas. Mal disse a frase, os dois homens suspeitos terminaram de ajuntar os caixões dentro da caminhonete e preparavam-se para sair, quando Duda advertiu Toninho: - Olha! Eles vão embora. - E nós também, né, Kid? Eu já estou com fome. - Não, senhor - disse Duda autoritário, pegando Kid no colo. - Olha, eles devem ter esquecido alguma coisa. O cara de macacão está saindo do carro de novo. O homem bateu a porta do automóvel e voltou à casa. Segundos depois, reapareceu chamando pelo mais velho, o que usava um terno preto. O velho saiu do carro, bateu a porta e foi ao encontro do outro. - Olha, ele tá indo pra casa... - Duda descrevia a cena como se Toninho não estivesse acompanhando. - É o que eu vou fazer também - afirmou Toninho, levantando-se e dando os primeiros passos. <20> - Negativo. Essa é a nossa oportunidade... Dito isso, Duda atravessou a rua e foi em direção à caminhonete. Toninho, sem ouvir o amigo, seguiu em direção à rua dos Lírios, pensando estar sendo acompanhado. Parou quando percebeu que não era seguido, então, virando-se, viu Duda aproximar- se da caminhonete. De repente, gritou: - Ei! Peraí! Que que você está fazendo? - Vamos entrar no carro e descobrir para onde vão esses homens - disse Duda baixinho, do outro lado da rua, por entre os carros que passavam. - Quê?! - berrou Toninho sem entender uma palavra. Duda esperou que os carros que transitavam pela avenida Fontenelle passassem para em seguida atravessar de volta. - Nós temos que ir investigar para onde eles estão indo, Toninho. - Tá louco! Eu não vou! Parece que bebe! - gritou Toninho. - Então vamos nós, Kid - falou Duda fazendo-se de vítima, enquanto acariciava o cãozinho. - Deixa o medroso pra lá. Se alguma coisa acontecer com a gente ele vai passar o resto da vida com a consciência pesada por não ter ajudado chantageou, como lhe era peculiar. Depois, atravessou a rua com Kid no colo. Olhou em volta para saber se alguém o observava, então entrou na parte traseira da caminhonete, exatamente onde ficavam os caixões. Toninho ficou observando. Os dois homens saíram da casa. O mais jovem deles bateu a porta e passou a chave. O mais velho entrou no carro e sentou-se ao volante. Deu a partida... O motor do velho Chevrolet engasgou. O velho tentou ligar o carro novamente, mas ele não pegou... Toninho atravessou a rua correndo e pulou para dentro do bagageiro da caminhonete no mesmo instante em que o velho tentava pela terceira vez ligar o motor...
  • 10. Desta feita conseguiu, e a caminhonete saiu sacolejando. Olhando contrariado para Duda e Kid, que abanava o rabinho em saudação a ele, Toninho praguejou: <21> - Você só me mete em enrascada - chiou, visivelmente irritado, mas baixo, para não ser ouvido. Dito isso, só teve tempo de notar o sorriso de satisfação que se desenhou no rosto de Duda. Em seguida, olhou para fora da caminhonete funerária e pôde ver que o bairro deles ia ficando cada vez mais distante. ` 5 UM CORPO QUE SOME A caminhonete funerária parou defronte de um luxuoso edifício num bairro vizinho ao dos meninos. Dentro do bagageiro, eles perceberam que não haviatn rodado muito. Ouviram o ruído da porta do carro abrindo. "Caramba?", pensou Duda, gelado de medo. "O cara vem pra cá. " Toninho quis dar uma espiadela, mas foi impedido por Duda antes de colocar a cabeça para fora do bagageiro. Duda fez um gesto avisando que um dos homens havia saído do carro e aproximava-se deles. Contudo, o sujeito afastou-se da caminhonete e foi ter com alguém. Conversaram algo que os meninos não ouviram, mas puderam reconhecer a voz de um deles. Tratava-se do homem do terno preto, o criado do vampiro. Duda olhava para Kid Pulga, que respondia abanando o rabinho. Seria o fim dos três se Kid resolvesse dar um daqueles latidos desafinados. Duda acariciava sua pequena cabeça justamente para evitar que isso acontecesse. Toninho tremia de medo. Um ouvia a respiração do outro. - Vem cá ver, o tamanho é perfeito - disse alguém aproximando-se da caminhonete. Os garotos ouviram os passos que vinham na direção deles... <22> - E agora, Toninho? - murmurou Duda para o companheiro, em pânico. Sem hesitar, Toninho abriu um dos caixões e, vendo que estava vazio, fechou-se nele. Duda o imitou, levando Kid Pulga consigo. O criado do vampiro abriu a cortina que velava o interior do bagageiro e a luz forte do sol invadiu o local onde ficavam os caixões. - É aquele ali - apontou o criado do vampiro com uma voz tenebrosa. - Vamos transportá-lo para cima? O outro homem, ao seu lado, com uniforme de porteiro, fez que sim com a cabeça. - Vem, Paco, vamos levá-lo. Paco, o homem que usava o macacão surrado, saiu do carro e foi ao encontro dos outros dois, que o esperavam diante do bagageiro. Paco subiu na caminhonete, pegou na ponta do caixão onde Toninho se escondera e empurrou-o um pouco, a fim de facilitar o trabalho do criado do vampiro. Este, da calçada, segurou na outra extremidade. Levaram o caixão até a entrada do prédio, então o pousaram no chão, sem perceber o peso extra que carregavam. O porteiro ligou pelo interfone para o apartamento 201 e
  • 11. falou: - Dr. Kriegel, o pessoal já está aqui embaixo. - Mande-os subir imediatamente - respondeu uma voz metálica, saída do aparelho. O porteiro foi seguido pelos dois homens que transportavam o caixão; abriu a porta do elevador, permitindo que eles entrassem. Os dois subiram e o porteiro voltou para a frente do prédio. ' Nesse meio tempo, sentindo que o movimento serenara, Duda e Pulga saíram do caixão no qual estavam escondidos. Duda olhou em volta, mas não viu o outro caixão, onde Toninho se metera. Abriu o que havia sobrado somente para se certificar de que o amigo não estava lá. - Essa não, Kid! Levaram o Toninho! - gemeu ele, com os olhos esbugalhados. - Será que o criado do vampiro descobriu tudo e aí resolveu dar um sumiço nele? - perguntou-se, preocupado com o amigo. <23>r Duda se aproximou da entrada do bagageiro e pôs um pedaço da cabeça para fora. Viu o porteiro sentado, lendo distraidamente seu jornal. Saltou para fora sem ser visto, com Kid Pulga no colo. Sem perder tempo, escondeu-se atrás de um carro estacionado em cima da calçada, bem em frente ao prédio. Pousou Kid no chão. Depois de ser libertado, o cãozinho coçou-se um pouco, praticou todo o ritual do cheira-cheira, para então deixar uma enorme poça ao lado da roda traseira do carro. Nesse momento, Duda compreendeu que o pobre vira-lata estava apertado fazia um bom tempo. O garoto voltou a observar a portaria atentamente e viu quando o criado do vampiro e Paco desceram de mãos vazias, despedindo-se do porteiro formalmente. Seguiu os dois com os olhos; eles entraram na caminhonete e partiram. Duda fixouse na placa do carro para tentar gravá-la mentalmente. O porteiro permanecia sentado à entrada do edifício, enquanto Duda arquitetava algum plano mirabolante para tentar entrar no prédio onde, provavelmente, iria encontrar Toninho. "Será que existe alguma ligação entre aqueles homens todos?", pensou. Era o que ele precisava descobrir. 6 O CÚMPLICE Enquanto Duda tentava pensar num meio de penetrar no edifício, Kid descarregava outra vez na mesma poça, aumentando a lagoa. Após estudar o ambiente, Duda saiu de trás do carro e caminhou em direção ao porteiro. Kid seguiu-o. - Oi, moço - falou meio encabulado. - Oi, garoto - respondeu o porteiro, Tião, com simpatia. <24> Duda ficou olhando em volta sem saber o que falar. - O mascarado aí tá com sede - comentou o homem sorridente, apontando para Kid e quebrando o gelo. - É, acho que ele tá, sim - concordou Duda, muito sem jeito para entrar no assunto que lhe interessava. olhar. - Não exatamente - respondeu Duda, desviando o olhar.
  • 12. Mora perto daqui? - perguntou o porteiro, encarando Duda. - Mais ou menos - voltou a responder ele, inseguro. - Quer dizer, não é tão perto, mas também não é muito longe. - O que você está fazendo por estas bandas, garoto? - Eu tenho amigos da escola que moram nesta rua. - Sei - disse o porteiro, acreditando. - E você está indo pra casa de algum deles? - Isso mesmo! - concordou Duda, surpreendendo Tião com um entusiasmo repentino. - E justamente quando eu estava passando, eu vi... bem, eu estava indo pra casa desse amigo meu, aí eu vi... bom, eu vi um caixão entrando aqui - finalizou, encolhido, esperando por uma reprimenda. - Sim, e daí? - falou o porteiro, intrigado. - Você se impressiona com essas coisas? - Não - respondeu Duda secamente. - Você não sabe que muitas pessoas morrem todos os dias? Duda fez que sim com a cabeça, porém sem dizer nada. - Então - continuou Tião -, isso acontece. Todos os dias morrem muitas pessoas. E crianças também. Pra morrer é que vivemos - finalizou, com uma pontinha de malícia, tentando assustar Duda. O garoto arregalou os olhos, espantado. A partir daquele momento, caso Toninho aparecesse morto, o porteiro, certamente, seria um dos suspeitos. O garoto começou a imaginar a cumplicidade dele, já que um caixão havia sumido e o criado do vampiro e eu ajudante foram embora sem levar nada com eles. "Talvez o porteiro esteja escondendo o caixão com Toninho morto lá dentro." Duda arrepiou-se todo ao pensar nessa <25> Ilustração: - Mora perto daqui? - perguntou Tião, encarando Duda. - Mais ou menos - respondeu o garoto, inseguro. <26> possibilidade. Temeroso, olhava fixamente nos olhos do porteiro, como se pudesse desvendar algo por telepatia. Kid estava totalmente indiferente aos acontecimentos, quase dormindo aos pés do dono. Ele não ligaria caso Toninho nunca mais aparecesse. O esquecimento faz parte da natureza animal. - Você quer alguma coisa, garoto? - voltou a perguntar Tião, quebrando o silêncio pela terceira vez. - Então morreu alguém aí, né? - indagou Duda, cauteloso, com receio da resposta. - Algum dos seus amigos mora neste prédio? - Não - Então por que você quer saber, garoto? - retrucou Tião friamente. - Quer dizer... - Mora? - É... - Mora ou não mora? Você disse que não conhecia ninguém aqui! - falou o porteiro, deixando a simpatia de lado. - Onde moram os seus amigos? - Têm uns ali, outros lá - balbuciou Duda, apontando aleatoriamente, sem especificar nenhum lugar. - Onde?
  • 13. Duda repetiu o mesmo gesto displicente. Estava amedrontado. - Não vai me dizer que você conhecia a falecida? - Quem? ! - disse Duda, automaticamente, com certo alívio. - A Da. Catherine, do 201... - Ah! Que bom! - gritou Duda, saltitante de alegria. Porém, recompondo-se, falou solenemente: - Que chato, né? - Você conhecia ela de algum lugar? - perguntou Tião, admirado, franzindo a testa, como que medindo a sinceridade de Duda. - É, eu a vi algumas vezes lá na praça... - Praça? O homem estava confuso, não sabia sobre o que falava Duda. Este, por sua vez, pensava que o porteiro estivesse dissimulando. <27> - Mas não tem nenhuma praça aqui por perto! espantou-se Tião. - É que ela costumava aparecer de vez em quando lá no colégio pra apanhar o neto... - Apanhar o neto no colégio? ! Mas de quem é que você está falando? Ela quase não saía de casa, nem tinha família! Muito menos um neto! Ficava trancada em casa vários dias seguidos. Eu acho até que ela era meio... O porteiro fez um gesto como que querendo indicar que a mulher fosse louca. - Quem sabe ela não ia lá escondida fazer alguma doação - disse Duda, tentando contornar uma situação difícil, criada por ele próprio. - Eu acho que você está confundindo as coisas, viu, garoto? Ou então se enganou de prédio! Essa velha que morava aqui era uma tremenda unha-de-fome - Tião encerrou o assunto secamente. - Será que eu não poderia entrar pra ver ela? - arriscou Duda, medindo as palavras. - Pra quê? - tornou o porteiro, surpreso. - Para fazer uma homenagem, ora! - Você gosta de ver defuntos? - perguntou Tião, preocupado. Duda fez que não com a cabeça, engolindo em seco. - Então não vejo por que você quer ir lá em cima ver a velha. Onde já se viu! Um garoto fanático pra ver gente morta! Você é muito novo pra ter essas manias, rapazinho. Vai jogar bola com seus amigos, vai. Olha, vai dar água pro seu cachorrinho que ele está morrendo de sede. Duda teve uma idéia luminosa. Se ele conseguisse convencer o porteiro a deixá-lo entrar no edifício, talvez pudesse descobrir o paradeiro de Toninho, mesmo que tivesse de arriscar o pescoço. Restava saber se, uma vez lá dentro, ele sobreviveria para chegar ao seu objetivo. Enfim, com esses pensamentos misturados em sua cabeça, Duda decidiu jogar a última cartada... - Tem alguma torneira aqui? - indagou ele a Tião. - Só lá na garagem, por quê? <28> - Porque até eu chegar em casa vai demorar um pouco e o Kid tá com a língua pendurada de tanta sede - alegou Duda, tentando convencer o porteiro. Tião pensou um pouco no assunto e emendou: - Não sei... com essa onda de assaltos a edifícios que anda por aí... Não sei, não... Tião hesitava. Ainda que em seu íntimo não achasse Duda um trombadinha, a forma
  • 14. com que ele se aproximara da portaria tinha sido muito estranha. - Pô! Deixa... o Kid tá morrendo de sede. Eu não sou nenhum ladrão - suplicou Duda, apontando para o viral-ata, que continuava deitado com a língua de fora. O porteiro olhou para ambos pensativo, pesando as conseqüências da autorização. - Tá bom, leva ele lá embaixo - disse, após pensar muito bem. - Mas rápido, hem! Se algum morador pegar você lá é bem provável que me mandem embora, e eu não posso perder este emprego. Tenho duas filhas para criar. - Pode deixar que ninguém vai me pegar, falou? "Bom, assim espero", pensou Duda. Tião abriu a porta da garagem, que ficava um andar abaixo da portaria, no subsolo. - Obrigado - disse Duda com certo desânimo, descendo a rampa da garagem seguido por Kid Pulga. O porteiro fechou a porta logo em seguida. "Ai, meu Deus! É agora!", pensou Duda, apavorado. Ele não acreditava na sinceridade do porteiro. O que ele achava era que o homem estava fingindo toda aquela situação para encobrir sua participação no desaparecimento de Toninho. Vagarosamente, tateando na penumbra com todo o cuidado, Duda foi descendo a rampa da garagem, imaginando o que teria pela frente. Kid seguia seu ritmo como fiel cão-de-guarda. Chegaram ao salão repleto de colunas e encanamentos externos. Não havia ninguém. Duda foi até a torneira num canto da garagem, abriu-a e deixou que Kid bebesse à farta, enquanto chamava o elevador. Quando estava quase chegando à garagem, Duda ouviu vozes. Imediatamente pegou Kid no colo e escondeu-se atrás de um dos muitos carros estacionados por ali. <29> Duas elegantes senhoras saíram do elevador muito entusiasmadas com a conversa que travavam. Duda ficou na expectativa para ver de qual dos carros elas se aproximariam. Manteve-se quieto, torcendo para Kid fazer o mesmo. Ouviu vozes cada vez mais próximas. Elas vinham na direção do carro que Duda usava como esconderijo... 7 FLAGRANTE DELITO Quando estavam em frente ao carro, as duas mulheres pararam de repente. Duda podia ver seus pés por baixo do chassi. Uma delas comentou com a outra: - Que barulho é esse? - Não ouvi... - Esse... Não está escutando? - É... realmente. A que falou primeiro vasculhou a garagem procurando a origem do som. - Venha cá, Heloísa - disse ela, finalmente, achando a fonte do barulho. A outra foi ao seu encontro e ambas viram a torneira que Duda esquecera aberta. Uma delas comentou, zangada: - Tá vendo só? A gente paga um dinheirão pela água pra esses serventes desperdiçarem... Impressionante! - Eles não têm cuidado nenhum porque não são eles que pagam - acrescentou a
  • 15. outra, reforçando o argumento da primeira. Graças a esse esquecimento, Duda estava salvo. Ele aproveitou a oportunidade para esconder-se em outro carro, mais afastado, livrando assim sua pele, porém prejudicando consideravelmente a imagem dos serventes de condomínios, que não tinham nada a ver com o peixe. <30> As duas mulheres entraram no carro, fizeram a manobra que exigia a arquitetura da garagem e subiram a rampa... Duda correu para o elevador e até se esqueceu de Kid, que correu atrás do dono pensando que ele estava brincando. As mulheres buzinaram chamando o porteiro. Sem pestanejar, Tião veio abrir o portão... Enquanto isso, Duda enterrava o dedo no botão do elevador, que havia subido e agora demorava a descer... Elas deixaram o prédio. Tião fechou a porta da garagem e em seguida voltou à portaria. Finalmente, o elevador chegou ao subsolo. Duda tinha pressa em ingressar nele... Já dentro do elevador, o garoto parecia estar aliviado. Porém, mal começara a subir, parou no andar seguinte. - Você ia subir, não ia? - Era o porteiro, que, abrindo a porta, olhava para Duda com uma expressão de contrariedade. Duda empalideceu. - Eu não falei pra você que não podia subir? - disse Tião, controlando a raiva. - Já pensou na bronca que eu ia levar se alguém visse um garoto desconhecido rondando o prédio? - Mas seu... - Não tem nada de seu nem meu, garoto! Eu falei pra você não subir e você tinha que me obedecer! Eu fui legal deixando seu cachorrinho ir beber água na garagem... De súbito, o porteiro interrompeu seu raciocínio e, ligando uma coisa a outra, perguntou: - A Da. Cristina não viu você, viu? Duda fez que não com a cabeça. - Ah, bom! Agora você quer fazer o favor de ir passear em outro lugar, quer? Vai jogar bola, já disse! Se você gosta tanto assim de ver defunto, vai no cemitério que lá defunto é o que não falta, viu garoto? Duda foi saindo do edifício desanimado. Kid ficou parado, abanando o rabinho para Tião, que logo o colocou em marcha também. Da portaria, o homem os observava. Duda voltou ao carro estacionado na calçada em frente ao prédio. Olhava para lá como se estivesse diante de um brinquedo que se admira na vitrina de uma loja, sem se poder tocar. <31> ' Kid Pulga fuçava novamente a roda do carro, velha conhecida sua. Fazendo a famosa pose dos cães machos, inundou-a mais uma vez. - Vamos, vamos! Me deixem trabalhar! - gritou o porteiro, zangado. Duda caminhou pela rua até afastar-se do edifício. Kid, como sempre, seguia o dono, indiferente a tudo. Claro, ele não sabia nada sobre histórias de vampiros. Duda chutou um maço de cigarros amassado que estava no seu caminho, depois encostou-se em outro carro, estacionado na mesma rua, e ficou olhando o chão, pensativo.
  • 16. Kid parou também. Após alguns segundos, deitou-se e permaneceu de olhos fixos no dono. Passava do meio-dia. A essa hora sua mãe já os devia estar caçando para o almoço. A aula, naquele dia, estava perdida. "Onde será que eles meteram o Toninho?", pensava Duda, tentando adivinhar. 8 TONINHO EM APUROS Enquanto, lá embaixo, Duda preocupava-se com o destino de Toninho, tentando driblar o porteiro, no segundo andar as coisas aconteciam... Quando o criado do vampiro e Paco saíram do elevador carregando o caixão, Alberto Kriegel já os aguardava no corredor. Era um homem alto, de cabelos escuros, com certa majestade na postura e o olhar penetrante. Estava impecavelmente vestido com um smoking. - Entrem rápido - disse Kriegel, apontando para a porta do apartamento, aberta. Era um apartamento de porte médio, mas mobiliado e decorado com requinte. Os três, atravessando a sala, entraram num pequeno corredor à direita, passaram por um quarto que servia de escritório à esquerda e entraram no outro quarto, imediatamente ao lado. <32> Lá estava uma jovem loira, toda vestida de branco, deitada numa cama de casal. Parecia morta. O criado do vampiro e Paco pousaram o caixão ao lado da cama, perto da parede; depois a olharam com certo pesar. Contudo, Kriegel tratou de apressá-los: - Rápido. Já está na hora. Alguém viu vocês chegarem com o caixão? - Não, tudo saiu de acordo com o planejado - retrucou o criado do vampiro com satisfação. - O Tião trabalhou direitinho. - Ótimo. Agora vocês terão uma tarefa importante pela frente. De madrugada removeremos o corpo. Tião estará de plantão. Podem ir - arrematou Kriegel, seco. Ele falava como se lhe faltasse vida interior. O criado do vampiro e Paco tomaram a direção da porta. Kriegel seguiu-os. Nesse momento, Toninho abriu o caixão para respirar um pouco de ar fresco. O caixão tinha um visor de vidro mais ou menos no local onde ficava posicionada a cabeça do morto e esse visor estava aberto, assim que Toninho escapara de morrer asfixiado. Para não ser descoberto, ele recolhera-se na parte de baixo, visto ser bem menor que aquele pijama de madeira. Ainda dentro do caixão, ficou observando o ambiente através do visor, quando ouviu um barulho. Voltou a se esconder. Kriegel fechou a porta tão logo os dois homens desceram, depois foi até o banheiro, que ficava no fundo do corredor, ao lado do último quarto, e trancou-se lá. Percebendo que o silêncio voltava a reinar, Toninho abriu o caixão, levantou-se e deu de cara com o cadáver da jovem na cama. Tomou um susto tremendo e deitou-se de novo, sobressaltado. Após recuperar a calma, resolveu ficar de pé para observar melhor. Persistindo o silêncio, Toninho aproveitou para sair definitivamente do caixão. Fechou-o com
  • 17. cautela, para não fazer nenhum barulho que o denunciasse, porém ouviu novo ruído e se meteu debaixo da cama. <33> Ilustração: Toninho abriu o caixão, levantou-se e deu de cara com o cadáver da jovem na cama. <34> Alberto Kriegel saiu do banheiro e veio até o quarto. Ficou contemplando a jovem por alguns instantes, depois tornou a sair. Toninho viu os sapatos de Kriegel, perfeitamente engraxados, virarem à direta e seguirem pelo corredor. Ele permaneceu debaixo da cama para ver o que iria acontecer. Momentos depois, voltava Kriegel e trancava-se pela segunda vez no banheiro, fato que chamou a atenção de Toninho: "Por que esse cara entra toda hora no banheiro?" pensou. Ficou esperando mais alguns segundos, por segurança, e, não acontecendo nada, saiu do esconderijo, deu uma parada diante da jovem morta, benzeu-se e foi saindo de fininho... Já estava no corredor quando ouviu a maçaneta da porta do banheiro girar. Imediatamente entrou no escritório ao lado e escondeu-se atrás da porta. Com a porta do banheiro aberta, diante do espelho, Kriegel barbeava-se, enquanto Toninho observava tudo pela fresta da porta, reparando assustado na imponente figura do homem vestindo um smoking. Kriegel voltou a fechar a porta. Logo depois, Toninho ouviu o som de água caindo... "Será que vampiros também gostam de tomar banho?" Sem pensar muito na resposta, saiu em disparada pelo corredor e foi até a entrada do apartamento. Virou a chave duas vezes e, quando abriu a porta, não pôde segurar um grito... 9 VAMPIRO RESSUSCITOU? Toninho deu de cara com Duda, tão apalermado quanto ele, preparando-se para tocar a campainha. Ouvindo o grito, Alberto Kriegel saiu do banheiro, enrolado na toalha, para verificar. Os meninos fecharam a porta rapidamente e correram para a escada de serviço. <35> Kriegel fez uma ronda pelo apartamento e, não vendo nada, voltou para o banheiro, não sem antes parar diante da bela jovem deitada na cama, como se quisesse ter certeza de que não poderia ter sido ela a responsável pelo grito. Na escada, Toninho desabafou: - Eu vi, Duda! ... A moça... o vampiro... morta... - O quê? ! Calma, Toninho. Fale devagar... - O vampiro, Duda!... Estava lá... com a moça... morta!
  • 18. - O vampiro?! Mas que moça é essa? Não tô entendendo nada, meu irmão... - Pô! Eu estou falando grego, Duda? Eu tô dizendo que vi o vampiro em pessoa lá no apartamento! - reafirmou Toninho, já recuperando o fôlego. - Tinha uma moça bonita deitada numa cama de casal. Ela estava morta, rapaz! - Que que você está me dizendo? O vampiro ressuscitou?! - Duda repetia as palavras mecanicamente, sem acreditar no que estava ouvindo. - E essa moça que você disse que tava morta lá dentro? - Ela era loira, estava toda vestida de branco. Pálida como uma vela! Parecia que alguém tinha tirado todo o sangue. Igualzinha àquela do jornal... - acrescentou Toninho, dando ênfase à parte sobre o sangue. - Então, a mulher que você viu foi a segunda vítima dele. Você reparou se ela tinha os dois furos no pescoço? - Hã? - Toninho fez uma pausa para reflexão, depois emendou: - Sei lá se tinha furos no pescoço! Não deu pra ver. Eu tinha que salvar a pele, mané! - Você tem certeza que era o vampiro? - insistia Duda. - Certeza, não. Você é que é o especialista, né? Ele estava todo vestido de preto e dava ordens para aqueles dois caras da caminhonete, aí eu pensei... - Viu! - gritou Duda com entusiasmo. - Não te falei que aqueles caras eram suspeitos? Como era esse homem todo vestido de preto que você diz ser o vampiro? - Era alto, cabelos escuros e tinha uma expressão fria... - Hum! Parece que é ele - disse Duda com certeza. - Toninho, agora é que a coisa vai começar a esquentar! Se esse cara que você viu lá no apartamento for mesmo o vampiro, <36> a moça morta foi sua segunda vítima. Se essas coisas forem confirmadas, quer dizer que a maldição pode se espalhar por toda a cidade... Ninguém vai escapar do vampiro. Temos que agir rapidinho! - Por que não saímos logo daqui antes que alguém ouça a gente? . - Espere um pouco - retrucou Duda, sem ligar para as palavras de prevenção do amigo. Os dois dialogavam tranqüilamente na escada, sem lembrar que, a qualquer momento, poderiam ser pegos... - Há uma coisa estranha nesse troço... - tornou Duda, após meditar. - O que é? - Como pode ser o vampiro, se eles só saem da toca de noite?... Mas, por outro lado, a descrição que você fez do sujeito confere exato com a figura do vampiro. Estamos diante de um enigma. - Ora, os vampiros modernos não gostam só da noite não, meu camarada! Eles gostam de curtir uma praia também. Lá eles podem ver as garotas de biquíni... - Pára de dizer besteira, Toninho! Eu tô falando sério! Não deu pra sacar o que ele combinou com os capangas? - Nadinha. Mas é claro que eles tinham uma missão ultra-importante, pois foi o próprio chupador de pescoço quem falou isso... - Como é que você sabe? - Eu ouvi de dentro do caixão, ué - respondeu Toninho com certo orgulho. - E não ouviu eles dizerem pra onde estavam indo? - insistia Duda, para conseguir o maior número de informações possível.
  • 19. - Não, isso eles não falaram. - A teia está mais emaranhada... - disse Duda em tom de mistério. - Que teia? - Eu quero dizer que a coisa complicou de vez, Toninho. Bom, a gente tem que descobrir se o sujeito que você viu é mesmo o vampiro ressuscitado, quem é a moça morta lá no apartamento, e se essa morte tem alguma ligação com aquela que <37> saiu no jornal. Aí só falta descobrirmos aonde foram os dois homens da funerária e, também, se este apartamento é o esconderijo do vampiro... - Só isso? ! Então é moleza! - exclamou Toninho em tom de deboche. - Por que a gente não vai lá dentro e acaba com o vampiro? - desafiou, mantendo o tom. - Engraçadinho~! Não podemos enfrentar um vampiro sem preparo. Vamos ter que adiar o confronto para outro dia, quando estivermos prevenidos... - E quando será isso? - volveu Toninho, preocupado. - Não sei... - respondeu Duda com o pensamento longe. - O que está me deixando grilado é que o porteiro falou de uma tal de Da. Catherine, uma velha estranha que tinha falecido. Será que foi o sangue dela que o vampiro usou para ressuscitar... - Uau! Chupar sangue de velha? Que gosto! - brincou Toninho. - Talvez essa tal velha fosse a dona do apartamento... - É, mas não tinha nenhuma velhinha morta ali dentro e sim uma senhora gata! - Estranho... - Duda voltava a refletir. - Ah! E por falar nisso, esse porteiro está envolvido com a turma do vampiro. - Isso eu já sabia, meu caro! - rebateu Duda com presunção. - Sabe o que mais, vamos embora que já é tarde disse Toninho, descendo os primeiros degraus. - A gente vai perder a hora da aula... - Correção: já perdemos - retrucou Duda, seco. Ele ia voltando em direção ao apartamento, quando Toninho o deteve: - Vai aonde? - Ver se a moça que o vampiro matou tem os furos no pescoço... - Tá maluco! - volveu Toninho, segurando-o pelo braço. - Você acha que eu vou enfrentar esse bicho sem nenhuma arma? Tá doido! Você só me mete em enrascada! Vamos embora... - Então vamos de elevador - sugeriu Duda com a maior naturalidade. <38> - Que elevador nada! Vamos de escada mesmo... Os dois desceram a escada cautelosos. Ao chegarem na portaria, notaram que não havia ninguém por perto, então foram saindo... "EU INCINERO VOCÊS!" Todavia, quando já iam passando pela porta, toparam com Tião vindo da garagem. Ele olhou para os meninos furioso. - Você de novo? O que vocês estavam fazendo lá em cima? - perguntou indignado. - E quem é esse aí? - falou, apontando para Toninho. Os garotos não responderam.
  • 20. - Eu vou ensinar vocês a não fazerem molecagem com os mais velhos... Duda e Toninho saíram correndo em disparada, com o porteiro atrás. - Voltem aqui, seus moleques! Eu pego vocês! - esbravejava ele, enquanto os meninos desapareciam pela rua. Da próxima vez que eu pegar vocês por aqui, eu vou jogar todo mundo na lixeira! Eu incinero vocês! Duda e Toninho já estavam longe e não escutaram a ameaça. Pouco tempo depois, encontraram-se com Kid Pulga. Duda o prendera no quintal de uma casa vazia, numa rua próxima, para que ele não atrapalhasse a missão de resgate. Serenados os ânimos, Toninho voltava a perguntar: - Ô Duda, pra que você ia tocar a campainha? - Ora, eu ia perguntar... - Se alguém tinha visto um crioulinho escondido dentro de um caixão? - completou Toninho em tom de gozação. - Não, espertalhão, eu ia inventar uma desculpa qualquer - retrucou Duda, meio irritado. <39> - Qual? - Por exemplo, perguntar se era ali que tinham pedido umas flores... - disse Duda, seguro de si. - Você nem imagina o que eu fiz pra entrar naquele prédio. Todos os truques que eu tentava, esbarravam sempre naquele porteiro; só que teve uma hora que ele bobeou, aí eu entrei sem ser visto. Puxa! Cheguei a pensar que nunca mais veria você... - Não vai me dizer que você ficou imaginando que eu, o mais esperto da rua, tinha sido apanhado? - indagou Toninho, convencido. - Pior! Fiquei imaginando que você tinha servido de comida para o vampiro ressuscitado - retrucou Duda seriamente. - Você viu em que direção foi a caminhonete? Seguiu pela rua e virou à esquerda; mas pra onde ela foi, eu não sei - respondeu Duda meio desanimado. -Mas eu guardei a placa ao carro de memória e isso não vai ficar barato! - concluiu, reanimando-se. Os dois continuaram a pé o caminho de casa; afinal, não era muito longe e eles conheciam bem a redondeza. Talvez fosse tarde para o almoço, mas o mistério envolvendo o vampiro estava apenas no começo... 11 DEPOIS DA TEMPESTADE... Eram exatamente treze horas e vinte e dois minutos quando os garotos chegaram em casa. Dona Amanda, mãe de Duda, uma mulher morena de seus 30 anos, já os esperava há algum tempo. - Muito bonito, não é, seu Duda! Esqueceu da aula de novo! - disse ela de cara amarrada. - É, nós tivemos alguns contratempos... - respondeu Duda cinicamente. - E você, Toninho, qual é a sua desculpa? - Nós estamos atrasados, né? - retrucou ele, sem graça. <40>
  • 21. - Atrasados?! Vocês perderam a aula pela segunda vez esta semana! - volveu Da. Amanda, irritada. - Acho que eu vou acabar com esses jogos de futebol durante as manhãs. Vão almoçar que a comida ainda deve estar quente. Os dois, famintos, correram para a copa sem maiores explicações. Kid Pulga começou a latir do lado de fora em tom de súplica. Da. Amanda foi até a copa e falou para Neusa: - Neusa, você pode dar comida ao Kid pra mim, por favor? - Já tô providenciando, Da. Amanda - disse Neusa, uma negra forte, uns vinte anos mais velha que a mãe de Duda. Da. Amanda retirou-se para seu quarto. - Que que vocês andaram aprontando? - perguntou Neusa, fitando os dois com uma expressão séria. - Nada não, Neusa. Só estávamos jogando bola e esquecemos a hora da aula. - Outra vez, Duda! Se você esquecer a hora mais uma vez tua mãe vai te colocar de castigo. Neusa acabou de servir os dois pequenos e saiu da cozinha levando o pote de comida de Kid repleto. Logo depois voltava Da. Amanda, vestida para sair. Então ordenou: - Depois do almoço, eu quero que vocês estudem o resto da tarde já que não foram à aula hoje. Quando eu voltar, não quero queixas, ouviu, Duda? Duda limitou-se a balançar a cabeça, concordando. Da. Amanda saiu e os dois continuaram a comer. - Toninho, nem um pio sobre o vampiro. Se elas descobrirem com quem a gente andou se metendo, isso vai dar a maior confusão... - É, e a gente não pode dar mais furo, senão vamos ficar de castigo. Aí, adeus às peladas de manhã. - É por isso que eu vou sozinho procurar o Ferretti lá na delegacia - disse Duda, já planejando algo. - E como você vai enganar a minha mãe? - Simples! Você vai ficar lá no meu quarto trancado, fingindo que está estudando, enquanto eu vou voltar naquele <41> prédio com o Ferretti pra tentar solucionar alguns daqueles mistérios que ficaram no ar... - explicou Duda, na sua pose de detetive particular. - Vê lá o que você vai arrumar, heim! - Deixa comigo! Já acabou de comer? Toninho fez um gesto para Duda esperar. Ele estava de boca cheia e preparva-se para dar outra garfada. - Vamos logo, Toninho! O tempo voa. - Peraí, mané. Eu tô com fome! - Como você consegue pensar em comida quando nós temos um vampiro perambulando por aí noite e dia? Acaba logo! Toninho dava a última garfada. Sem esperar pelo final da mastigação, Duda arrancou o amigo bruscamente da mesa, fazendo-o engasgar, e foram para o quarto... Antes de entrar, porém, Duda deu um recado para Neusa: - Neusa, nós vamos estudar, tá? Não deixa ninguém atrapalhar a gente!
  • 22. Ela, metida em algum canto da casa, ocupada com seus afazeres, não respondeu. No quarto, Duda foi até seu material escolar, arrancou uma folha de caderno e escreveu o número da placa do carro funerário. Depois, exibiu-o a Toninho... - Olha, é o número da placa da caminhonete. - Você vai dar para o Ferretti investigar? - É lógico. Mas antes a gente tem que ir lá naquele prédio fazer uma visitinha ao porteiro enfezado que expulsou a gente. É por lá que começam as investigações. - Vai com calma, Duda. - Deixa comigo. Tranca a porta do quarto assim que eu sair. Olha, tem que parecer que nós estamos estudando de verdade. Eu vou assobiar quando chegar na rua, falou? Toninho confirmou com a cabeça. Duda saiu do quarto, foi até a sala e, não vendo Neusa por perto, abriu a porta da rua com toda cuidado para não ser ouvido e saiu. Chegando na rua, assobiou, conforme o combinado. De agora em diante a farsa do estudo estava valendo. <42> 12 FERRETTI E ELIAS Duda foi até a delegacia, próxima à sua casa, procurar o seu grande amigo, o policial Ferretti. Logo que chegou, encontrou o delegado Paranhos, que ia saindo. Quando este o avistou, brincou com o pequeno: - O, meu caro detetive! Como vai você? - Tudo certo - respondeu Duda, meio convencido. - Como vai o Capitão Campos? - perguntou Paranhos, referindo-se ao pai de Duda, um oficial do Exército. - Vai bem. Esta semana ele tá de plantão no quartel... - Ih! Então você vai aproveitar, hem, malandro! voltou a brincar o delegado com sua costumeira irreverência. - Já almoçou? - Já, obrigado. - Pra você ver, eu estou indo agora - volveu Paranhos meio contrariado. Duda olhava para ele sério. - É! Tá pensando que vida de policial é moleza? - Cadê o Ferretti? - Ele estava fazendo um relatório na sala dele, mas eu acho que já deve ter acabado. - Eu posso ir até lá? - Pode, você é de casa. O que é agora, mais um caso sem solução? Duda esboçou um sorriso amarelo e não disse nada, foi entrando. Paranhos despediu-se e continuou seu caminho. Duda chegou na sala de Ferretti e o viu lendo o jornal tranqüilamente, o que demonstrava que o tal relatório já estava encerrado. - Oi, Ferretti, tudo beleza? - disse Duda da entrada da sala. - Ô rapaz! Você por aqui. Que que manda? Seu pai está bom? - cumprimentou o homem alto e robusto. - Está. Ele vai ter que ficar esta semana no quartel, de plantão - respondeu Duda, já meio entediado de ter que repetir sempre a mesma coisa para todo o mundo. <43> - Sei... E aí, alguma novidade? - Bom, Ferretti, tem umas coisinhas pra você me ajudar a resolver... - disse Duda sem
  • 23. rodeios. - Vamos ver o que eu posso fazer. O que é desta vez, detetive Duda? - Eu tenho aqui o número da placa de um carro. Duda retirou do bolso da bermuda um pedaço de papel dobrado e agitou-o no ar, mostrando ao policial. - Qual é o problema? - Eu gostaria que você descobrisse de quem é o carro e o endereço do dono... Ferretti levantou-se da mesa, foi até um armário em frente, pegou uma garrafa térmica e encheu o copinho de plástico com café. Ofereceu a Duda, que não quis. Voltou a sentar-se, sempre em silêncio, fitou Duda durante alguns segundos e depois disse: - Duda, você está inventando o que desta vez? - Nada, só que tem umas coisas que a gente precisa investigar - respondeu ele, propositadamente distraído. - Você quer ser mesmo um policial quando crescer? Duda apenas respondeu que sim com a cabeça e não falou nada. - Você sabe que é uma vida difícil, que somos mal remunerados, além de arriscarmos o pescoço o tempo todo? - Ih! Não vem com essa lição de moral de novo, Ferretti! E nem me fale de pescoço! - Por quê? - Pra começar, antes que você descubra o endereço e o dono desse carro, nós temos que ir até um edifício de luxo aqui perto identificar dois cadáveres... - Como é que é?! - indagou Ferretti estupefato, abandonando o copinho de café. - E o pior não é isso: um vampiro está solto na cidade - tornou Duda secamente, sempre indo direto ao assunto. - O quê? - espantou-se Ferretti, numa surpresa crescente. - Peraí, Duda, isso não é hora para brincadeira... - Eu não tô brincando, é sério. O Toninho está de prova, ele é que viu o homem... Nesse momento, Elias, companheiro de ronda de Ferretti, passava por ali; quando viu Duda agitado na cadeira, entrou e foi logo fazendo aquela festa: <44> - Olá! Como vai o nosso Batman mirim? - disse o homem de porte médio, pele morena e cabelos lisos como os de um índio. - Elias, sente-se e ouça a história do Duda - sugeriu Ferretti, refeito da surpresa. - Que que é? - Elias mudou de tom na mesma hora. - Eu estava falando com o Ferretti que o Toninho viu uma mulher morta num apartamento aqui perto e que eu, conversando com o porteiro do prédio, descobri que pode haver também uma velha morta no mesmo apartamento e um vampiro... - Peraí, Duda - interrompeu Elias, embaralhado. - Isso está muito confuso... - E você não me deu esses detalhes... - interrompeu, por sua vez, Ferretti. - Por que você não conta pra gente como tudo aconteceu desde o início? - pediu Elias com calma. - Tudo bem... ] Duda recontou toda a história, em detalhes, na frente dos dois policiais. Ao terminar, Elias comentou com Ferretti: - Será que essa história que o Duda nos contou tem alguma relação com aquele caso da moça assassinada com dois furos no pescoço e sem sangue no corpo?
  • 24. - Vocês já sabem alguma coisa sobre isso? - retrucou Duda, admirado. - Provavelmente algum lunático fazendo-se passar por vampiro. Agora, é possível que os garotos tenham presenciado esse suposto vampiro agindo e, pelo que o Duda falou, com outros homens ajudando. O que nos faz pensar que essa história de vampiro não é tão louca assim, a menos que um bando de malucos tenha fugido do hospital junto... - Quer dizer, agora são duas vítimas - afirmou Duda. - Não sabemos se os dois casos têm ligação, Duda - rebateu Elias na sua conhecida tranqüilidade. - E nem temos provas do que você nos contou... - Mas então estamos perdendo tempo! Temos que descobrir... - Duda, eu já te falei: se você quiser ser um policial, ainda vai ter que comer muito feijão, malandro. <45> Ilustração: Duda recontou toda a história, em detalhes, na frente dos dois policiais. <46> - Tá bom, mas enquanto o feijão não faz efeito, que tal nós irmos juntos lá pra investigar? - Nada feito. Você vai ficar aqui bonitinho nos esperando. Daqui a pouco nós trazemos novidades. Até já... Ferretti e Elias iam saindo, quando Duda chamou a atenção para um fato: - Como vocês vão lá se eu não disse onde é? Ferretti e Elias se entreolharam com cara de bobos, enquanto Duda dava uma sonora gargalhada de satisfação. - Tá bom, vem logo - falou Ferretti, fingindo um ar zangado. Os três saíram... 13 DE VOLTA AO EDIFÍCIO Cinco minutos depois, paravam defronte àquele mesmo edifício, velho conhecido de Duda. - É aquele porteiro mesmo - falou Duda, encolhendo-se no banco traseiro do carro- patrulha. - Vou ficar aqui, o resto é com vocês. - Eu vou lá - disse Ferretti, decidido, saindo do carro. Ele caminhou até onde estava Tião, que, para variar, folheava seu jornal. - Boa tarde - principiou Ferretti. - Boa tarde - respondeu Tião prontamente. - Eu gostaria de saber se o dono do 201 está em casa - volveu Ferretti sem rodeios. - Não, o apartamento está vazio. - O senhor desculpe a intromissão, mas é que nós recebemos denúncias de que havia uma senhora e uma moça mortas lá em cima... - Mas que absurdo! - retrucou Tião, sorrindo. Quem é que poderia inventar uma história dessa? <47> - O senhor sabe como é, trote ou não, nós temos a obrigação de averiguar... - Claro, claro. Eu vou pegar a chave do apartamento... Tião foi até a mesa, na portaria, abriu uma gaveta e pegou a chave, conforme
  • 25. dissera. - Por aqui - disse ele, convocando Ferretti. Os dois pegaram o elevador e subiram... De dentro do carro de polícia, Elias observava toda a movimentação. - Para quem está envolvido em assassinato, o cúmplice não parecia nem um pouquinho preocupado - declarou Elias sem tirar os olhos da portaria. - É, mas pode ter certeza de que ele tem culpa no cartório - enfatizou Duda, ainda recolhido no banco de trás do carro. Dali a pouco, os dois desceram de novo. - O senhor me desculpe, mas sé nosso dever verificar toda e qualquer denúncia. - Não foi problema algum, policial - disse Tião na mais absoluta tranqüilidade, pegando novamente seu jornal, sacudindo-o e voltando à leitura. Ferretti entrou no carro e os três foram embora. Durante a viagem, Duda, ansioso, queria saber dos detalhes: - E aí, Ferretti? - Nada. O apartamento estava completamente vazio - respondeu o policial com a atenção voltada para a direção, pois era ele quem dirigia o carro. - Eles limparam tudo - disse Duda, desanimado. - Claro, eles não iam deixar nada que provasse a presença de alguém. Ainda mais depois que eu e Toninho, dois garotos desconhecidos no bairro, andamos rondando o prédio. - Não havia nenhum vestígio? Nenhuma roupa, nenhum móvel? - perguntou Elias, aflito. <48> - Havia: as paredes, por exemplo, não recebem uma boa pintura há algum tempo, e há marcas demonstrando que os móveis foram arrastados pelo chão recentemente. Na verdade, Elias, estou certo de que essa mudança foi feita hoje, porque, senão, a poeira já teria coberto uma boa parte das marcas no chão. Eu acho que acabamos por surpreender os caras, chegando antes que eles pudessem limpar o apartamento. Agora, se o porteiro é culpado ou não, como o Duda diz, não sei, porque o homem mostrou naturalidade o tempo todo que estava comigo, como se não soubesse de nada - explicou Ferretti sem desviar a atenção do trânsito. Eles chegavam à delegacia, enquanto Duda tentava justificar-se: - Ferretti, Elias, eu tenho certeza que aquele porteiro tem uma coisa a ver com a história, porque o Toninho ouviu o criado do vampiro comentar sobre o tal Tião. Os três voltaram à sala de Ferretti, que tratou de servir-se de mais um cafezinho, passando um também para seu colega Elias. Duda, como sempre, não bebia café. Todos reinstalados, Ferretti continuou: - Duda, como estava o estado dessa moça morta? - Eu não entrei lá, como disse, mas o Toninho falou que ela estava toda vestida de branco e "pálida como uma vela". Ele contou que parecia que alguém tinha tirado todo o sangue dela, mas não reparou se tinha os furos no pescoço... - É, meu chapa, temos um novo caso - constatou Elias, coçando o queixo. Duda, animado, disse: - E por onde começamos? - Você vai começar indo pra casa agora, depois trate de ir estudar e não atrapalhe a gente - disse Ferretti, autoritário, pegando no telefone e discando.
  • 26. - Fica frio. Minha mãe pensa que eu estou estudando nesse momento com o Toninho. Você vai localizar o endereço deles? - perguntou Duda na expectativa. - Daqui a pouco - respondeu Ferretti, aguardando a ligação feita. - Alô, Teresa? É o Ferretti... Dito isso, Elias saiu da sala levando Duda com ele, que, ansioso, protestou:Peraí, mas nós não vamos esperar a resposta? - Ela ainda vai demorar um pouquinho a sair respondeu Elias em tom de piada, sorrindo para Duda. 14 FUNERÁRIA ALÉM DA VIDA No dia seguinte, por volta das seis da tarde, Duda chegava em casa, como sempre, sujo e amarrotado. O uniforme da escola estava irreconhecível. Da. Amanda lia o jornal na sala, quando o filho entrou. - Oi, mãe - cumprimentou-a, indo direto para o quarto. Da. Amanda continuou a ler o jornal tranqüilamente. Minutos depois, vinha Duda de roupa trocada. - O Ferretti não veio entregar nada pra mim, mãe? - Não, ele não me entregou nada, mas andou fazendo umas perguntas sobre você... - Que perguntas? - indagou Duda, preocupado. - Se você tinha se metido em alguma confusão nesses últimos dias ou se, por acaso, estaria inventando outra de suas aventuras. Coisas desse tipo. - E ele disse mais alguma coisa? - Disse sim. Para que eu tomasse cuidado com você, depois foi embora dizendo que ia a uma tal de funerária Além da Vida resolver um probleminha que você tinha arranjado... - Funerária Além da Vida - repetiu Duda, pensativo, dirigindo-se à estante e anotando o nome num pedaço de papel. - Que história é essa, Duda? - perguntou Da. Amanda, desconfiada. - Hã? - volveu Duda distraído, com o pensamento longe. - Duda! Acorda! Que história de funerária é essa? - Ah! Nada não, mãe. Não se preocupe. - Não me preocupar, não é? Se eu bem te conheço, você está aprontando alguma. Veja lá se não vai fazer bobagem! Lembre-se que seu pai não vai estar em casa esses dias... Duda voltou para o quarto, deixando sua mãe falando sozinha. Segundos depois, voltou com uma bola de futebol <50> embaixo do braço; quando ia passando pela sala, em direção à porta da rua, sua mãe o deteve: - Aonde vai, mocinho? O jantar já vai sair. - Vou bater uma bolinha antes de comer... - Onde? - perguntou Da. Amanda, desconfiada. - Aqui em frente mesmo - explicou Duda. - Tá bom - tranqüilizou-se a mãe -, daqui a pouco eu te chamo para tomar um banho.
  • 27. - Falou... Contudo, quando ia saindo porta afora, parou e mirou a manchete do jornal que sua mãe lia: "Vampiro solto na cidade ainda é um mistério". Saiu correndo esbaforido. Duda foi até a porta dos fundos de sua casa e gritou por Toninho, que logo depois aparecia para saber o que o amigo desejava. - Rápido, Toninho! Precisamos fazer alguma coisa imediatamente... - Calma, Duda, o que foi? - O vampiro! Eu acabei de ver a manchete no jornal. Tem mesmo um vampiro solto na cidade. - O quê? - exclamou Toninho, compartilhando do espanto com o companheiro. - Vamos, nós temos que ir investigar aquela casa. - Ir lá naquele prédio outra vez! - Não, Toninho, naquela casa da avenida Fontenelle - retificou Duda. - Ué, mas você não vai jogar bola? - tornou Toninho, vendo a bola de futebol que Duda trazia debaixo do braço. - Que jogar bola, moleque! - exclamou Duda, irritado. - Eu tinha que dar uma desculpa qualquer pra sair... - Você tá doido, Duda! Esse vampiro anda solto por aí, chupando o sangue das pessoas, e eu ainda vou facilitar? Não vou mesmo, nem adianta contar comigo. - Pô, Toninho, você vai me abandonar numa hora dessas! Eu preciso de você... - O Ferretti falou pra você não atrapalhar ele no caso. Não se esqueça que nós não somos policiais. Ele não descobriu nada sobre a caminhonete? - Ele já deve saber de tudo, mas não vai me dizer nem que a vaca tussa. Ele teve lá em casa conversando com a mamãe, aí, sem querer, ela acabou me dizendo o nome da funerária. <51> -E aí? - E aí é que nós vamos lá na casa tentar descobrir alguma coisa por nossa conta mesmo. - Mesmo que eu quisesse, minha mãe não ia deixar. Daqui a pouco sai o jantar, né? - Não tem importância, Toninho! Pra todos os efeitos, você está jogando bola comigo... - Não dá, Duda. Eu não vou. Eu não tô a fim de levar uma mordida no pescoço. - Ô, Toninho, vamos! Eu preciso da sua ajuda, moleque! - Não vou e pronto! - afirmou Toninho, irredutível. - Pode ser que assim você desista dessa idéia maluca. Se você quer enfrentar o vampiro, vá sozinho. - Tá bom, vou sozinho. Mas se eu não voltar pro jantar, me faz um favor: vai lá no casarão amanhã de manhã me buscar com o Ferretti e o Elias, falou? Pode ser que o corpo fique inteirinho; afinal, os vampiros só precisam do sangue - chantageou Duda, bem ao seu estilo. Dito isso, saiu de casa deixando a bola no jardim e seguiu pela rua dos Lírios... Segundos depois, olhou para trás. Dessa vez Toninho cumprira a promessa: ficou olhando o amigo afastar-se sentado no muro. Duda virou a cara orgulhoso e continuou a andar. Dobrou à esquerda no cruzamento da rua dos Lírios com a avenida Fontenelle e voltou a procurar por Toninho. Ele permanecera firme em sua posição. Desta feita Duda teria de agir sozinho.
  • 28. <52> 15 A MANSÃO DO VAMPIRO Já havia anoitecido quando Duda chegou à sinistra casa, que parecia deserta. Aproximou-se do portão, olhou a sua volta a fim de verificar se alguém o observava e entrou ao perceber que o caminho estava livre. Foi até a porta da frente da casa, mas ela estava trancada. As janelas, também. O mato crescia ao redor sem nenhum cuidado. Então, ele se dirigiu aos fundos da casa e, pelo caminho, confirmou o estado de total abandono. Duda localizou a porta dos fundos. Foi até ela e, surpreso, verificou que estava destrancada. Girou a maçaneta, estranhando que esta só se mexesse por fora, e olhou para dentro da casa, mergulhada na escuridão. Não viu sinal de gente. Acendeu a luz. A entrada dos fundos dava para a cozinha, mas o único indício demonstrando que aquilo era uma cozinha eram algumas panelas penduradas na parede e a tradicional pia. Nem fogão, nem geladeira. Havia também alguns instrumentos de carpintaria e marcenaria espalhados e dois armários encostados numa das paredes, entulhados com os mais variados materiais: desde peças de automóveis até artefatos religiosos, passando por vários tipos de estatuetas de gesso. Enfim, uma total desorganização. Duda observou tudo com bastante atenção, e o fato de a "cozinha" estar assim desarrumada aumentou sua curiosidade. Ele foi entrando na casa... Passou por um banheiro de tamanho razoável, onde havia outras bugigangas. Depois do banheiro, ele pôde ver a enorme oficina que se escondia dentro daquela casa antiga, com serras elétricas. e todos os tipos de materiais que um carpinteiro ou marceneiro precisam para trabalhar. Ficou pasmo. O local não estava dividido em cômodos, como de costume. Todas as paredes tinham sido derrubadas para que se fizesse do lugar uma boa oficina. <53> Duda viu vários caixões semi-construídos e tampas ainda por construir espalhados por todos os lados. Viu também as alças, que ficavam penduradas na parede numa espécie de mostruário. Uma coisa, porém, chamou mais a atenção de Duda... Mais ou menos no centro do grande salão, em cima de dois cavaletes, estava um luxuosíssimo caixão negro, brilhando intensamente. Muito bem ornamentado e envernizado, tinha cerca de um metro e noventa centímetros de comprimento. "Uau! Aquele caixão... Só pode ser dele!", pensou Duda, petrificado ao lembrar do vampiro. Naquele instante, ele ouviu um barulho... Recuou, assustado, olhando para trás. A porta dos fundos batera com o vento que soprava naquele início de noite. Como a maçaneta só girava por fora, aquilo significava que Duda, agora, estava trancado dentro da casa. E o azar era que sua mãe em pouco tempo iria chamá-lo para jantar. Duda tentou forçar a porta da frente, mas ela era muito resistente. Pensou em quebrar as vidraças das janelas, mas isso seria inútil, porque elas eram protegidas por grossas barras de ferro pelo lado de fora, e o barulho do vidro quebrando chamaria a atenção da vizinhança. Não adiantava insistir.
  • 29. "E agora?", pensou ele. "Trancado no esconderijo do vampiro, com o caixão dele bem debaixo do nariz..." Lembrou-se de um detalhe: "A essa hora ele deve estar caçando alguma pessoa para sugar o sangue e só vai voltar lá pelas cinco da matina, quando começar a amanhecer... Eu acho que até lá o Toninho já veio me procurar", tranqüilizou-se. Mesmo assim, Duda foi até a porta dos fundos e tentou forçá-la. Não tendo sucesso, procurou num armário por uma chave de fenda bem grossa. Pegou a que lhe pareceu maior... No momento em que ia forçar a fechadura, ouviu passos vindos do lado de fora. Tratou de correr para o salão e esconder-se num dos caixões ali guardados. Estava ficando mestre em usar esse tipo de esconderijo. Do interior do caixão, ouviu quando a porta foi aberta, mas não ouviu o ruído dela batendo. "Alguém esqueceu alguma coisa e voltou para buscar. Espero que não demore muito", raciocinou Duda. "Vou esperar aqui até que vá embora." 15 A MANSÃO DO VAMPIRO Já havia anoitecido quando Duda chegou à sinistra casa, que parecia deserta. Aproximou-se do portão, olhou a sua volta a fim de verificar se alguém o observava e entrou ao perceber que o caminho estava livre. Foi até a porta da frente da casa, mas ela estava trancada. As janelas, também. O mato crescia ao redor sem nenhum cuidado. Então, ele se dirigiu aos fundos da casa e, pelo caminho, confirmou o estado de total abandono. Duda localizou a porta dos fundos. Foi até ela e, surpreso, verificou que estava destrancada. Girou a maçaneta, estranhando que esta só se mexesse por fora, e olhou para dentro da casa, mergulhada na escuridão. Não viu sinal de gente. Acendeu a luz. A entrada dos fundos dava para a cozinha, mas o único indício demonstrando que aquilo era uma cozinha eram algumas panelas penduradas na parede e a tradicional pia. Nem fogão, nem geladeira. Havia também alguns instrumentos de carpintaria e marcenaria espalhados e dois armários encostados numa das paredes, entulhados com os mais variados materiais: desde peças de automóveis até artefatos religiosos, passando por vários tipos de estatuetas de gesso. Enfim, uma total desorganização. Duda observou tudo com bastante atenção, e o fato de a "cozinha" estar assim desarrumada aumentou sua curiosidade. Ele foi entrando na casa... Passou por um banheiro de tamanho razoável, onde havia outras bugigangas. Depois do banheiro, ele pôde ver a enorme oficina que se escondia dentro daquela casa antiga, com serras elétricas. e todos os tipos de materiais que um carpinteiro ou marceneiro precisam para trabalhar. Ficou pasmo. O local não estava dividido em cômodos, como de costume. Todas as paredes tinham sido derrubadas para que se fizesse do lugar uma boa oficina. <53> Duda viu vários caixões semi-construídos e tampas ainda por construír espalhados por todos os lados. Víu também as alças, que ficavam penduradas na parede numa espécie de mostruário.
  • 30. Uma coisa, porém, chamou mais a atenção de Duda... Mais ou menos no centro do grande salão, em cima de dois cavaletes, estava um luxuosíssimo caixão negro, brilhando intensamente. Muito bem ornamentado e envernizado, tinha cerca de um metro e noventa centímetros de comprimento. "Uau! Aquele caixão... Só pode ser dele!", pensou Duda, petrificado ao lembrar do vampiro. Naquele instante, ele ouviu um barulho... Recuou, assustado, olhando para trás. A porta dos fundos batera com o vento que soprava naquele início de noite. Como a maçaneta só girava por fora, aquilo significava que Duda, agora, estava trancado dentro da casa. E o azar era que sua mãe em pouco tempo iria chamá-lo para jantar. Duda tentou forçar a porta da frente, mas ela era muito resistente. Pensou em quebrar as vidraças das janelas, mas isso seria inútil, porque elas eram protegidas por grossas barras de ferro pelo lado de fora, e o barulho do vidro quebrando chamaria a atenção da vizinhança. Não adiantava insistir. "E agora?", pensou ele. "Trancado no esconderijo do vampiro, com o caixão dele bem debaixo do nariz..." Lembrou-se de um detalhe: "A essa hora ele deve estar caçando alguma pessoa para sugar o sangue e só vai voltar lá pelas cinco da matina, quando começar a amanhecer... Eu acho que até lá o Toninho já veio me procurar", tranqüilizou-se. Mesmo assim, Duda foi até a porta dos fundos e tentou forçá-la. Não tendo sucesso, procurou um armário por uma chave de fenda bem grossa. Pegou a que lhe pareceu maior... No momento em que ia forçar a fechadura, ouviu passos vindos do lado de fora. Tratou de correr para o salão e esconder-se num dos caixões ali guardados. Estava ficando mestre em usar esse tipo de esconderijo. Do interior do caixão, ouviu quando a porta foi aberta, mas não ouviu o ruído dela batendo. "Alguém esqueceu alguma coisa e voltou para buscar. Espero que não demore muito", raciocinou Duda. "Vou esperar aqui até que vá embora." <54> Agora Duda ouvia latidos dentro da casa. "Epa! Será que é o..." Dentro do caixão, Duda fez um movimento, como se quisesse sair, mas, reconsiderando: "Não! Vou ficar quietinho aqui dentro. Esses vampiros usam muitos truques para pegar as suas vítimas..." Permaneceu imóvel, esperando que a "assombração" fosse embora, mas voltou a ouvir passos. O som ecoara no salão. Quem quer que houvesse entrado na casa, estava agora bem próximo dele. Duda segurava a chave de fenda que trouxera consigo como se fosse um punhal. Estava disposto a fazer uso dela, se fosse preciso... Novos latidos e logo a seguir alguém mandava o cão se calar. Duda não duvidava mais de quem se tratava... 16 A PROVA ESTÁ NO CAIXÃO - Como é que é, moleque! - Duda abriu o caixão berrando de felicidade. Toninho, levando um baita susto, deu um grito tão alto que provavelmente chamou a
  • 31. atenção da vizinhança toda. Kid Pulga, depois do aparecimento do dono, latia ininterruptamente. - Quieto, Kid! - ordenou Duda, saindo do caixão para confortar o cãozinho, que só parou de latir quando o dono lhe pôs a mão. - Você e sua mania de detetive... - desabafou Toninho. - Vai se preparando, porque a sua mãe vai te arrancar o couro. - Ela sabe que eu vim pra cá? - Não... Duda não deixou que Toninho explicasse; saiu correndo em direção à cozinha, seguido por Kid. Toninho ficou parado, sem entender nada. <55> A porta dos fundos batia pela segunda vez. Dois minutos depois, voltava Duda desanimado; Kid vinha logo atrás com a língua pendurada. - A porta, Toninho... - Que que tem a porta? - Estamos trancados nesta porcaria. - Que nada! Aquela porta abre por dentro; por fora é que ninguém pode abrir - explicou Toninho com total segurança. - Não aquela porta lá. Você não viu quando entrou? A fechadura tá invertida... - É?! - espantou-se Toninho, perdendo a segurança anterior. - Droga! Que armadilha, hem! Duda sentou num banco de madeira, pensativo. - Você vai ficar aí parado sem fazer nada? - tornou Toninho, nervoso com a passividade de Duda. - Vamos esperar pela minha mãe... - disse Duda conformado, riscando o chão com a chave de fenda. - Mas eu não disse que ela estava vindo pra cá, seu burro! Eu falei aquilo porque ela já estava te procurando por todo lado e não te encontrava. Aí, quando percebi, peguei o Kid e ia saindo de mansinho quando topei com ela no portão. Ela estranhou quando me viu e perguntou por que eu não estava jogando bola com você. Aí eu falei que tinha vindo em casa beber água, mas que já tava voltando pra te chamar pra jantar. Aí ela perguntou por que eu estava levando o Kid para isso. Eu fiquei sem saber o que falar... - Que tal você encurtar a história, Toninho? - Bom, agora eu estou preso aqui dentro contigo. Pronto para servir de comida para o vampiro assassino. Duda deu de ombros e continuou a riscar o chão com a chave de fenda... Kid, como sempre, observava os dois, indiferente a tudo. - Putz! Como isso aqui é grande! - volveu Toninho, esquecendo por instantes o medo e contemplando o local, admirado. - O que é aquilo? - perguntou, surpreso. - Nada, é só o caixão do vampiro - respondeu Duda com ironia. - Quê? ! - Você ficou surdo? É o caixão do vampiro! <56>
  • 32. - Você já sabia que o caixão dele ficava guardado aqui dentro? - indagou Toninho, voltando a inquietar-se. - Não, não sabia, mas desconfiava; depois que eles limparam o apartamento, essa casa era a nossa única chance de conseguir alguma pista - explicou Duda, calmo, sem levantar-se do banco de madeira. - Caramba! Então a gente tem que sair daqui depressa! - disse Toninho num medo crescente. - Oh! Brilhante dedução - zombou Duda. - Anda, mané! Você vai ficar aí parado como uma mula? - Calma, meu irmão - replicou Duda com tranqüilidade. - Nada de desespero. Antes de irmos embora, temos que conseguir alguma prova contra o vampiro... Se tivéssemos algumas estacas aqui com a gente... - Estacas? - É... Vai me dizer que você não sabe o que são - estacas? Toninho balançou a mão, como que querendo dizer "mais ou menos". - Podemos levar algum pedaço de madeira daqui mesmo... - Do que você tá falando agora? - Do modo como vamos fazer as estacas, Toninho! - "Vamos?" - Se você não quiser ajudar, ótimo! Vou fazer tudo sozinho. É até bom contarmos somente com profissionais nesses serviços - finalizou Duda com ar de superioridade. - A gente tem é que dar o fora! Já passa da hora do jantar. - Você só pensa em comer? Uma coisa de cada vez. O jantar que espere! Ô Toninho, você veio aqui pra quê? Não foi pra me ajudar? - Não, foi pra levar você de volta... <57> - É? Como? Pode me dizer? Já se esqueceu que nós estamos trancados aqui dentro? - E o que você quer que a gente faça, que fiquemos esperando pela volta do vampiro pra ele soltar a gente? - observou Toninho, irônico. - Vamos arrombar a porta, ué! - Não antes de eu achar alguma prova... Duda começou a procurar entre as coisas algum vestígio do vampiro. Toninho aproximou-se do caixão, receoso, e disse: - Se é uma prova contra o vampiro que você está procurando, o melhor lugar pra encontrar é este aqui... Quando ele se preparava para abrir o caixão, Duda gritou: Não abra isso! - Eu não ia abrir- defendeu-se -, eu só ia pôr a mão. Assim... - Não! ! ! Toninho estacou. - É melhor não - tornou a prevenir Duda, com a respiração pesada. - Por quê, ele está aqui dentro? - Claro que não! Se estivesse, ele não ia ficar escondido ouvindo a nossa voz sem fazer nada - respondeu Duda, iniciando nova demonstração de seu conhecimento. - Eu já não
  • 33. expliquei a você que ele age de noite para caçar suas vítimas? Toninho limitou-se a confirmar com a cabeça. - Então. Ele está perambulando por aí - completou Duda. - Então digo eu! - retrucou Toninho, perdendo a paciência. - Então por que a gente não aproveita essa sorte e não caímos fora? - Ainda não - volveu Duda, lacônico. E continuou a vasculhar a oficina, tentando achar as tais provas... Toninho, imóvel, olhava tudo à sua volta, desconfiado e temeroso. - Duda, acho bom a gente dar no pé logo, antes que seja tarde - disse Toninho em tom de aviso. <57> Duda, indo até o banheiro, começou a remexer as tralhas espalhadas por lá e descobriu um pequeno baú prateado. Encheu-se de alegria e pavor ao mesmo tempo. Como se estivesse hipnotizado, segurou o baú com as duas mãos e foi andando em direção a Toninho, sem tirar os olhos do objeto. - Se nós vacilarmos, vamos... acabar... entrando.. pelo cano... - Toninho calou a boca. Olhava para o baú cheio de curiosidade, ainda que não soubesse do que se tratava. Duda parou na frente do amigo e arrematou: - Agora sim, Toninho. Agora podemos ir embora. Esse é o baú onde o criado do vampiro guardava as cinzas do seu mestre. - Caramba! Está manchado de sangue! - Claro que está! Para o criado do vampiro despejar o sangue da vítima dentro desse buraco não deve ter sido nada fácil... - Ué, ele podia ter despejado as cinzas no chão. Ficava mais fácil... Enquanto os dois discutiam a forma pela qual teria sido feita a ressurreição do vampiro, Kid ouviu alguma coisa fora da casa e latiu. O ruído vinha dos fundos. Todos se calaram. <58> 17 POR UM TRIZ - Rápido, Toninho! Ali atrás... Esconderam-se atrás de uma pilha de tábuas. Toninho carregava Kid no colo, e Duda segurava o pequeno baú prateado. O criado do vampiro entrou na casa e seguiu direto para o caixão negro. Ele trajava o mesmo terno preto de sempre. Deu uma ajeitadinha no imenso objeto, como se quisesse tirá-lo dos cavaletes. Logo depois, chegava Paco. <59> Ilustração: Como se estivesse hipnotizado, Duda segurou o baú com as duas mãos. <60> Em silêncio, cada homem segurou numa das extremidades do caixão e, juntos, transportaram-no sem dificuldades. Ele estava realmente vazio, como Duda previra. Duda observava tudo através de uma frestinha entre as tábuas. - Eles levaram o caixão, Toninho - sussurrou para o amigo, narrando a cena.
  • 34. - Eles quem? - indagou Toninho, curioso e excitado ao mesmo tempo. - O criado do vampiro e aquele ajudante dele - disse Duda, ainda de olho na saída do grande salão. - O vampiro , deve ter prometido vida eterna para os dois. É assim que ele faz para convencer as pessoas a ajudar, sabia? Depois que os idiotas realizam todos os desejos dele, se danam. Aí vão ficar uma eternidade esperando pela vida eterna... - finalizou em tom profético. - Amém - completou Toninho, fazendo o sinal da cruz. Duda calou-se, pois o criado do vampiro acabava de entrar novamente na casa. Aproximou-se do lugar onde estivera o caixão e olhou em volta para certificar-se de que não havia esquecido nada; depois, começou a examinar todo o salão. Subitamente, despertou: - As luzes não estavam acesas hoje de manhã... Eu apaguei quando saí... Dirigiu-se para o interruptor e desligou a luz; porém, quando se preparava para sair, Kid latiu. O criado do vampiro parou instantaneamente na soleira da porta, voltou a acender a luz, virou-se e tentou localizar a origem do latido. Puxou do canivete portátil, que retirou do bolso do paletó preto, e vasculhou o salão à procura do cão atrevido que havia invadido a sua oficina. Toninho tapava a boca de Kid para que ele não voltasse a latir, enquanto o animal se debatia para livrar-se da mão do garoto. Duda, assistindo a tudo, suava frio... - Onde está o vira-lata miserável que invadiu a minha oficina? - praguejou o homem, rosnando de raiva. Era um homem esquentado, o criado do vampiro. - Que que foi, patrão? - perguntou Paco, chegando no salão. <61> - Algum vira-lata do bairro entrou aqui e vai acabar emporcalhando a oficina toda. Depois, ninguém vai agüentar trabalhar aqui com o fedor. - Vamos embora que estamos atrasados, patrão observou Paco, sem ligar para a implicância do chefe. - Deixe estar, seu cão danado! A partir de amanhã, as imundícies desse mundo não vão me chatear mais... Foram saindo. O criado do vampiro, gargalhando sinistramente. Bateu a porta dos fundos e passou a chave. Os meninos permaneceram quietos até ouvirem o barulho do carro se afastando. - Vamos, Toninho, vamos tentar fugir daqui agora - disse Duda resoluto, saindo do esconderijo. - Eu acho que eles devem estar preparando algum plano diabólico... - É? - retrucou Toninho, mecanicamente, sem entender onde Duda queria chegar com aquelas palavras. - Mas é claro! Você não notou pelas palavras dele? Se eles levaram o caixão do mestre deles daqui, boa coisa não é. - Será? - Pode ter certeza... Vamos, Toninho, temos que correr contra o relógio. - E encaminhou-se para a porta dos fundos da casa. Toninho também saiu dó esconderijo, acompanhando. Libertou Kid, que se sacudiu e começou a se coçar todo. - Vampiro usa relógio? - perguntou Toninho, intrigado. - O quê? - Duda cutucava a fechadura com a chave de fenda, mas esta não cedia.
  • 35. - Ué, se vamos correr contra o relógio, só pode ser o relógio do vampiro! - Não é nada disso, Toninho! O que eu quero dizer é que eles estão levando vantagem em relação à gente; estão trabalhando rápido e nós temos que reagir. Toninho ergueu as sobrancelhas, como se tivesse entendido. Ele observava com desdém a tentativa do companheiro de arrombar a fechadura. Duda, olhando para o amigo, que esboçava um sorriso maroto, disse: - Você vai ficar aí me olhando com essa cara de pateta? <62> Muito dono da situação, Toninho rebateu: Por que você não tenta com um pé-de-cabra? É o troço ideal para isso. Pé-de-cabra? - indagou Duda, admirado. Toninho foi até um dos armários da cozinha e trouxe um enorme pé-de-cabra para apresentar ao amigo. Dito e feito. Bastou forçar um pouco a fechadura para que ela cedesse. Duda olhava despeitado para Toninho, que se divertia com o xeque-mate aplicado no amigo. Assim, uma vez aberta a porta, os três ganharam a rua e voltaram para casa. 18 VOVÓ DALILA! Duda e Tonhinho chegaram em casa atrasados para o jantar, mas ainda em tempo para pegar a sobremesa: a bronca de Da. Amanda. Os dois entraram em casa e deram de cara com ela, que desviou os olhos da televisão e os fitou, séria. Oi, mãe , a comida tá quente? - perguntou Duda, encaminhando-se para a cozinha, seguido Toninho. Ah! Agora o "barão" resolveu aparecer para jantar? - replicou ela com ironia. - Onde você estava? Jogando bola - mentiu Duda. Onde? - quis saber Da. Amanda. Aqui em frente, ora. Duda, não minta para mim. Você sabe que eu detesto isso. Eu procurei por você e não te encontrei. Duda tentava ludribiá-la, mas, obviamente, não estava conseguindo. É uma história um pouquinho longa... Eu já imaginava - volveu Da. Amanda, cortante. <63> Da. Amanda já estava acostumada aos constantes atrasos de Duda para as refeições. Os meninos entraram na cozinha. Dois minutos depois, Duda chegava na sala com um prato repleto. Toninho ficou na copa mesmo e começou a devorar a comida. - Pode voltar, Duda - disse Da. Amanda com autoridade. - Você está cansado de saber que eu não gosto que ninguém coma aqui na sala. - Eu sei, mãe, mas é que eu preciso ver o telejornal... - Então pode ir lá para dentro comer sossegado; o jornal já acabou - retrucou ela friamente.
  • 36. - Que horas são? - perguntou Duda. - Vinte para as nove, doutor - informou Da. Amanda, ainda no mesmo tom. - No outro canal tem um começando agora... - E desde quando você se interessa pelas notícias, menino? Duda, mudando a televisão de canal, respondeu: - A professora de Estudos Sociais mandou a gente fazer um trabalho baseado nos telejornais... Em seguida, sentou-se no sofá e começou a mastigação. O locutor anunciava: "O caso do vampiro do Rio... Em dois dias de investigações, a polícia ainda não conseguiu nenhuma pista sobre o crime do bairro de Fátima. Embora os jornais cariocas fizessem alarde sobre o acontecimento, até o momento só foi encontrada uma vítima..." - Uma só, uma ova! Eles não estão contando com aquela do apartamento... Toninho parou de comer e veio ouvir a notícia. Da. Amanda não entendia a indignação do filho: - Que que foi, Duda? Ele, percebendo a mancada, calou-se e voltou para a copa para terminar seu jantar ao lado de Toninho. Da. Amanda, sem desconfiar do que tanto afligia o filho, preveniu: - Você anda vendo muita televisão, Duda. E acho que deveria evitar ler tantas histórias de detetive como você faz... Duda não deu atenção ao conselho da mãe. Na copa,ele planejava com Toninho uma estratégia para pegar o vampiro: <64> - O vampiro continua fazendo vítimas e ninguém está se dando conta disso. A gente tem que fazer alguma coisa. - É, a situação tá feia... E o Ferretti? - perguntou Toninho, lembrando-se dos policiais. - Sei lá do Ferretti! - respondeu Duda com irritação. - Não vamos nos preocupar com ele. Esses policiais usam uns métodos lentos demais pro meu gosto. Até eles conseguirem alguma pista concreta, a cidade toda já virou um bando de vampiros. - Caramba, Duda, então a gente tem que agir por nossa conta! - Calma! Tô tentando colocar as idéias em ordem... - Por que a gente não vai lá na funerária tentar alguma jogada? - sugeriu Toninho. - É? E qual é o endereço? Você sabe? Eu não sei. - Nós temos o nome... - O nome... Ei, peraí! - exclamou Duda despertando. - O nome! Claro! Por que não lembramos disso antes? - Eu lembrei agora, ué! - Vamos procurar nas páginas amarelas! Só deve ter uma funerária Além da Vida na cidade. Duda pegou o catálogo telefônico e começou a procurar a seção de serviços funerários. Após alguns minutos de busca, finalmente encontrou o que queria: - Aqui, Toninho! Agora só dependemos de nós mesmos. - É, só tem um probleminha... - Que que tem? - Como nós vamos até lá? - perguntou Toninho, em dúvida. - Como nós vamos até lá... - repetiu Duda, enquanto formulava algum raciocínio coerente. - Como todo mundo vai, de ônibus. - Com que dinheiro? Nós íamos ter que pedir à sua mãe ou à minha. Aí elas iam
  • 37. querer saber onde a gente vai... Bom, aí você já sabe o resto... - Então vamos de táxi! - falou Duda, automaticamente, sem refletir. - Ia ser pior, bobalhão - rebateu o amigo, crítico. - Pô, Toninho, deixa de ser estraga prazeres! <65> - Você é que sonha demais, mané! - Voltamos à estaca zero - tornou Duda, desanimado. - A menos que nós tivéssemos alguém de confiança. Pensa bem, Duda... Duda pôs-se a refletir; subitamente, sua memória explodiu: - É isso mesmo, Toninho! Vovó Dalila! 19 A PASSAGEM SECRETA - Ih, Duda, o Toninho ficou uma fera por você não ter deixado ele vir com a gente - observou Da. Dalila, enquanto pilotava seu belíssimo Puma vermelho conversível. - Não sei por quê! Ele não tem nenhuma experiência nesses assuntos e fica logo com medo. E, além do mais, alguém tinha de ficar na retaguarda embromando a minha mãe, no caso de ela querer saber onde eu estou... - E você, tem experiência com vampiros? Duda sorriu levemente, sem responder. - Ai, Duda, você me diverte! Sua mãe também vai me odiar se descobrir que eu ajudei você - volveu ela com um sorriso maroto. Da. Dalila era uma senhora de 50 anos, alegre e esportiva, com um gosto especial por carros de corrida. O oposto da filha, Amanda, que às vezes fazia mais o papel de mãe. - Chegamos. A rua é esta. - Cadê a loja? - perguntou Duda, ansioso. - Logo descobriremos. Deixa eu estacionar aqui nesta vaga mesmo. É muito difícil conseguir um lugar na cidade. Duda saiu do carro e ficou orientando a avó, que, com alguma dificuldade, tentava encaixar o pequeno carro num imenso espaço. <66> - Deixe-me ver o número - pediu Da. Dalila, saindo do carro e estendendo a mão para o neto, que lhe passou o pequeno pedaço de papel. Os dois caminharam pela rua e rapidamente Da. Dalila avistava a discreta fachada da loja. - Funerária Além da Vida. É ali, Duda. Está vendo uns caixões na entrada? - disse Da. Dalila, encaminhando-se com o neto para a loja. - Não esquece, hem, vó! O sujeito vai tratar a senhora com muito respeito e, enquanto você o distrai, eu vou fazendo as minhas investigações... - Como você tem tanta certeza que o rapaz vai me tratar com educação? - Ora, vovó, ele é vendedor; e, além disso, é assim que os vilões fazem nos filmes. - E se nós dermos de cara com o vampiro? - perguntou Da. Dalila, assustada, acreditando na história do neto. - Ele não é trouxa de aparecer em público. Fica fria, vó. Entraram na loja. Da. Dalila começou a fingir que estava interessada nos caixões, e assim foi andando pela funerária.
  • 38. Duda, ao contrário da avó, não tinha a mínima discrição; observava tudo sob os olhos do criado do vampiro, que o vigiava continuamente. Por fim, ele aproximou-se de Da. Dalila e cumpriu todo o ritual do bom vendedor: - Bom dia, senhora. Em que posso servi-la? Apesar da tentativa de ser gentil, Da. Dalila pôde perceber que a simpatia não era uma das virtudes do homem. - Bom dia. Eu estou procurando um caixão... - Para quê? - disse o criado do vampiro, automaticamente. - Para nada - respondeu Da. Dalila, traída pelo nervosismo. - Hã... quer dizer, como? - indagou ela, tentando retomar a conversa. - Desculpe-me, senhora. Na verdade, a minha pergunta não foi adequada. É evidente que a senhora procura um caixão para alguém, não é mesmo? - Não... - disse ela, hesitante. O criado do vampiro espantou-se. <67> Então, ela murmurou: - É... é para minha irmã, coitada. Faleceu há um mês... - Há um mês! - estranhou ele. O criado do vampiro indicou uma cadeira para Da. Dalila, em frente a uma pequena escrivaninha, e em seguida também se sentou. Sua dúvida, porém, não se dissipara: - Sua irmã morreu há um mês e a senhora ainda não a enterrou? - De certa forma, sim - continuou ela -, pois há coisa de um mês ela entrou em coma quando caiu no banheiro... - Ela entrou em coma quando caiu no banheiro...repetiu o homem, estranhando a história. - Ela não caiu simplesmente; ela pisou no sabonete... - O quê?! Enquanto Da. Dalila tentava distrair o criado do vampiro com aquela conversa sem sentido, Duda xeretava por todo lado à procura de alguma coisa que pudesse incriminar o homem que, segundo ele, camuflava suas atividades demoníacas disfarçando-se de agente funerário. O criado do vampiro mantinha Duda sob vigilância, mesmo conversando com Da. Dalila. - Pois é - insistia ela -, minha irmã estava tomando banho calmamente, quando pisou no sabonete e escorregou... - Ah! Ela. caiu no banheiro, bateu com a cabeça e por isso entrou em estado de coma... - Pois é, bateu com a cabeça na borda da banheira, teve uma hemorragia interna. Parece que um dos vasos sanitá... digo, sangüíneos do cérebro rompeu-se. Segundo o médico, a situação piorou e aí... - Já entendi - disse ele, compreensivo. - Não precisa continuar a me contar tão terrível tragédia, minha senhora, eu compreendo que essa história deve deixá-la transtornada... Bom, já que ela vai morrer com certeza, eu vou Ihe mostrar uma coisa... O agente funerário tirou um livro preto de uma das gavetas da escrivaninha e, quando ia passá-lo a Da. Dalila, viu Duda abrindo o velho armário que ficava ao fundo da loja com documentos e outras papeladas. <68>