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18/01/2016 - 05:00
Por que não aumentar os juros
Por Luiz Carlos Mendonça de Barros
Na última coluna do ano de...
investimento e gastos públicos) - caiu 7,2% em relação a 2014, o que corresponde a uma redução equivalente de
7,4% do PIB....
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Por que não aumentar os juros

Luiz Carlos Mendonça de Barros; Valor Econômico; Opinião A11; 16, 17 e 18 de janeiro de 2016
Published on: Mar 4, 2016
Published in: Economy & Finance      
Source: www.slideshare.net


Transcripts - Por que não aumentar os juros

  • 1. Imprimir () 18/01/2016 - 05:00 Por que não aumentar os juros Por Luiz Carlos Mendonça de Barros Na última coluna do ano de 2015 escrevi sobre o erro em que incorrerá o Banco Central se seguir a maioria dos analistas de mercado e subir os juros na reunião do Copom de janeiro. Há uma semana o Valor trouxe uma matéria sobre esta mesma questão, ouvindo vários economistas que também defendem a manutenção dos juros na próxima reunião do BC. Fui um dos consultados pela reportagem do Valor, o que me permitiu aprofundar um pouco mais minha reflexão sobre esta questão. No dia seguinte a esta matéria, o próprio Valor publicou uma mensagem do Copom, refutando os argumentos utilizados por mim e outros companheiros desta cruzada contra o aumento dos juros. A manchete era: "O Banco Central acredita na eficácia dos juros no combate à inflação". Venho de uma terra onde se dá uma cabra para não entrar em uma briga, mas, quando se começa uma, nem 100 cabras leiteiras o fazem desistir. Por isto volto a este tema nesta coluna inicial do ano de 2016. E o faço por duas razões principais: a primeira é que a resposta do Banco Central às posições antagônicas às suas, expressadas na entrevista citada, é capciosa e covarde. Ninguém está debatendo se os juros são ou não uma arma eficaz no combate à inflação, como parece indicar a mensagem da autoridade monetária. Entre os anos 2008 e 2011 vivemos um verdadeiro piquenique na beira de um vulcão em atividade Conheço todos os economistas que foram ouvidos pelo Valor e não tenho dúvida que defendem - como eu - a eficiência dos juros na ação do Banco Central. Mas, alertamos que este instrumento precisa ser usado com critério e inteligência, e que sua utilização está condicionada à dinâmica do ciclo econômico em que se vive. Ou seja, um dos indicadores mais importantes para balizar a ação do Banco Central, quando implementando um ciclo de contração monetária, é o chamado hiato do produto. Ele mede a relação entre a capacidade produtiva de uma economia de mercado e o nível de sua utilização em um dado momento. A razão para isto é clara, pois o que se procura criar na economia em momentos de alta da inflação é uma ociosidade dos fatores de produção para dificultar o aumento dos preços livres do mercado. Para auxiliar na minha argumentação trouxe o gráfico anexo no qual está colocada a evolução de um indicador do hiato do produto no período 2006 até o terceiro trimestre de 2015. Trago também as previsões de um economista - que respeito muito - para o quarto trimestre do ano passado. E os números são estonteantes - até mais graves do que eu pensava - o que reforça minha oposição aos defensores do aumento de juros no próximo Copom. Vejamos então os números já medidos e as previsões de Fernando Montero para o período out/dez 2015: no terceiro trimestre do ano passado o PIB caiu 4,5% ante o mesmo período de 2014, enquanto a parte externa gerou um crescimento equivalente a 2,9 pontos percentuais do PIB. Ou seja, a chamada absorção interna - (consumo,
  • 2. investimento e gastos públicos) - caiu 7,2% em relação a 2014, o que corresponde a uma redução equivalente de 7,4% do PIB. Números espantosos mesmo em uma economia volátil como a brasileira. Para o quarto trimestre de 2015, Fernando Montero estima uma contribuição positiva do setor externo equivalente a 3,6% do PIB e queda do PIB da ordem 5,6% em relação ao mesmo trimestre de 2014. Destes números sai uma estimativa de queda da absorção interna de mais de 9% em relação a 2104. E os nossos "radicais chics" do mercado querem subir os juros! E para tornar este caminho ainda mais insensato, precisamos considerar, como tenho dito, a armadilha da indexação em um momento de grandes correções no câmbio e nos preços administrados. Nesta situação a queda da inflação é mais lenta do que em um sistema de preços livres e a experiência brasileira mostra que um intervalo, de pelo menos dois anos, é necessário para que uma política monetária contracionista conclua com êxito seu trabalho. Aliás, o que vem acontecendo nestes últimos meses é a chamada prova do Pudim desta observação empírica pois uma queda de 9% da absorção interna tem tido - ainda - pouca influência sobre o comportamento dos preços. Mostra também que a combinação necessária para o êxito de uma política monetária no Brasil, depois do choque de preços ocorrido em 2015, é a queda da absorção interna e muita paciência. Finalmente, o quadro anexado nos mostra a insensatez - e os riscos para a estabilidade de preços - que foi a gestão da economia entre 2008 e 2011, quando a absorção doméstica crescia a taxas próximas de 10%. Um verdadeiro piquenique na beira de um vulcão em atividade, que era a economia brasileira à época do boom de commodities. Concluo afirmando que a queda da absorção interna em 2016 será menor do que a verificada em 2015 e que, a partir de 2017, a economia voltará a crescer puxada pelo lado externo da economia. E a inflação lentamente vai convergir para perto do centro da meta, talvez no início de 2017. Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações. Escreve mensalmente às segundas.

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