crítica do contemporâneo
conferências internacionais serralves 2007
criticism of contemporary issues
serralves internation...
crítica do contemporâneo
conferências internacionais serralves
criticism of contemporary issues
serralves international co...
política · politics
Giorgio Agamben
Giacomo Marramao
Jacques Rancière
Peter Sloterdijk
Crítica do Contemporâneo
Criticism of Contemporary issu...
Conselho de Fundadores
Board of Founders
João Vasco Marques Pinto
Presidente / President
1989
Estado Português
Fundadores ...
De Weltgeschichte à Modernidade-Mundo.
O problema de uma esfera pública global
From Weltgeschichte to world­‑modernity.
Th...
Apresentação
As quatro conferências sobre política que se realizaram no Museu
de Serralves entre Março e Junho de 2007 no ...
buscar uma dimensão importante do seu método: a que consis‑
te em trabalhar com paradigmas, em raciocinar não a partir de
...
verificada a radical mudança teórica que a globalização impõe às
categorias das formas de governo e à definição do polític...
do pensamento crítico chegou ao seu fim (“Não há hoje uma rea‑
lidade sólida por oposição à aparência”, diz Rancière, reme...
distinções codificadas pela metafísica, muito particularmente
aquela entre o elemento “maquínico” e o humano.Ora,se aí est...
Introduction
The four conferences held at the Serralves Museum, between
March and July 2007, as part of the “Criticism of ...
Foucault: it consists in the use of paradigms,and in a reasoning
that arises from models, and not from a chronology. It is...
set in that book. But now that Marramao has verified the radical
theoretical change imposed by globalization on the catego...
of arts, and especially in the dialogue between arts and politics.
In his conference entitled “The Misadventures of Critic...
conference was an answer to Heidegger’s Letter on Humanism,
published in 1947.In his criticism of humanism and its subject...
política
Arte,Inoperatividade,Política
Nos últimos três anos concentrei as minhas pesquisas sobre algo
que poderia definir como uma...
pensar os modos e as formas da actividade divina e angelical,que,
atravessando todo o cosmos,desde os astros até ao último...
A visão desta impensável inoperatividade é, para Agostinho,
tão difícil que a sua escrita se torna hesitante e quase parec...
século XIII apresenta o trono vazio como que suspenso no céu,
coberto por um pano purpúreo e rodeado por seis anjos celebr...
felicidade como objecto último da ciência política,Aristóteles co‑
loca o problema de saber qual seria “a obra do homem” (...
lação entre arte e política.A arte não é uma actividade humana
de ordem estética, que pode, eventualmente e em determinada...
De Weltgeschichte
à Modernidade-Mundo.
O problema de uma
esfera pública global
Prefácio: o Mundo e o Ocidente de hoje
O mu...
do Novo Mundo, ainda assim encontra um referente significati‑
vo na história grega e romana do século iv a.C., com o adven...
criticara. O choque entre o mundo e o Ocidente provocado pela
expansão planetária da Europa moderna não seria mais do que
...
plexidade do conceito de interesse após os séculos xvii e xviii,
que não pode, de todo, ser reduzida ao ambiente estritame...
Argumentações
1. Era Global: Oportunidades e Riscos. O título do livro, Passaggio a
Occidente [Passagem a Ocidente], abran...
Partindo de uma natureza endógena, ou seja, interna aos países
ocidentais de tradição judaico­‑cristã, a dinâmica deste pr...
quantitativa. É precisamente o inexorável retraimento da eficá‑
cia das prerrogativas da soberania territorial na determin...
Huntington.Se considerarmos cuidadosamente,a forma do con‑
flito global parece muito mais próxima das guerras religiosas q...
forma do conflito afecta o paradigma contratual da modernidade
política no seu âmago, uma modernidade política que vê a su...
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk
of 113

Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk

Published on: Mar 4, 2016
Published in: Government & Nonprofit      
Source: www.slideshare.net


Transcripts - Politica agamben-marramao-ranciere-sloterdijk

  • 1. crítica do contemporâneo conferências internacionais serralves 2007 criticism of contemporary issues serralves international conferences 2007 política politics agamben marramao rancière sloterdijk coordenador geral general coordination rui mota cardoso
  • 2. crítica do contemporâneo conferências internacionais serralves criticism of contemporary issues serralves international conferences 2007
  • 3. política · politics
  • 4. Giorgio Agamben Giacomo Marramao Jacques Rancière Peter Sloterdijk Crítica do Contemporâneo Criticism of Contemporary issues Conferências internacionais Política / Educação / Biologia International conferences Politics / Education / Biology Serralves 2007 Coordenação / Coordination Rui Mota Cardoso Comissários / Curators António Guerreiro (Política / Politics) Manuel Costa (Educação / Education) António Amorim (Biologia / Biology) Moderadores / Moderators Guilherme d’Oliveira Martins (Política / Politics) Alberto Amaral (Educação / Education) Manuel Sobrinho Simões (Biologia / Biology) Publicação / Publication Textos / Texts Giorgio Agamben António Guerreiro Giacomo Marramao Jacques Rancière Peter Sloterdijk Concepção / Concept Ricardo Nicolau Design Pedro Nora Coordenação / Coordination Ricardo Nicolau Tradução / Translation Giorgio Agamben Simoneta Neto (italiano – português / Italian – Portuguese) Caroline Beamish (italiano – inglês / Italian – English) António Guerreiro Luísa Yokochi (português – inglês / Portuguese – English) Giacomo Marramao / Jacques Rancière Luísa Yokochi (inglês – português / English – Portuguese) Peter Sloterdijk Mariana Sousa Moreira (alemão – português / German – Portuguese) Shaun Whiteside (alemão – inglês / German – English) Edição / Copy­‑editing Paulo Monteiro Pré-impressão, impressão e acabamento Pre-press,printing and binding cem Artes gráficas,Barcelos ISBN 978-972-739-199-8 Depósito Legal 278313/08 © 2008 Fundação de Serralves © dos textos e das traduções: os autores of texts and translations: the authors Todos os direitos reservados.Esta obra não pode ser reproduzida,no todo ou em parte, por qualquer forma ou quaisquer meios electrónicos,mecânicos ou outros,incluindo fotocópia,gravação magnética ou qualquer processo de armazenamento ou sistema de recuperação de informação,sem prévia autorização escrita dos editores. All rights reserved. No part of this publication may be printed or utilised in any form or by any means, including photocopying and recording,or any information or retrieval systems,without permission in writing from the publisher. política · politics
  • 5. Conselho de Fundadores Board of Founders João Vasco Marques Pinto Presidente / President 1989 Estado Português Fundadores por natureza Honorary founders Árvore – Cooperativa de Actividades Artísticas,crl Associação Comercial do Porto Associação Empresarial de Portugal Câmara Municipal do Porto* Fundação Engenheiro António de Almeida Universidade do Minho Universidade do Porto Fundadores / Founders A Boa Reguladora – Comércio e Indústria de Relógios,Lda. Airbus Industrie Alexandre Cardoso,s.a.* Amorim – Investimentos e Participações,sgps,s.a.** António Brandão Miranda Arsopi – Indústria Metalúrgica, s.a.* Auto Sueco,Lda.* Banco Bilbao Vizcaya Argentaria (Portugal),s.a. Banco Borges e Irmão,s.a. Banco BPI,s.a.** Banco Comercial Português,s.a. Banco de Comércio e Indústria, s.a. Banco Fonsecas & Burnay Banco Internacional de Crédito Banco Nacional Ultramarino Banco Português do Atlântico, e.p. Banco Totta & Açores,s.a. BNP Factor,Cª Internacional de Aquisição de Créditos,s.a. Caixa Geral de Depósitos,s.a.** Chelding,Lda. Cinca – Companhia Industrial de Cerâmica,s.a. Cotesi – Companhia de Têxteis Sintéticos,s.a.* Diliva – Sociedade de Investimentos Imobiliários, s.a.* Fábrica de Malhas Filobranca, s.a.* Fnac – Fábrica Nacional de Ar Condicionado Fromageries Bel Portugal,s.a. Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento I.P.Holding,sgps,s.a. Indústrias Têxteis Somelos,s.a. João Vasco Marques Pinto* Jorge de Brito Maconde Confecções II – Comércio e Indústria,s.a. Nestlé Portugal,s.a. Polimaia,sgps,s.a. Produtos Sarcol,s.a. R.A.R.– Refinarias de Açúcar Reunidas,s.a.* Rima,s.a. Rolporto (Soleasing) Santogal,sgps,s.a. Sociedade Comercial Tasso de Sousa – Automóveis,s.a. Sociedade Têxtil A Flor do Campo,s.a. Sogrape Vinhos,s.a.* Soja de Portugal,sgps,s.a.* Sonae sgps,s.a.** Têxteis Carlos Sousa,s.a. Têxtil Manuel Gonçalves,s.a.* Toyota Caetano Portugal,s.a. União de Bancos Portugueses, s.a. Unicer – Bebidas de Portugal, sgps,s.a.** Vera Lilian Cohen Espírito Santo Silva Vicaima – Indústria de Madeiras e Derivados,s.a.* 1994 AdP – Águas de Portugal,sgps, s.a.** APDL – Administração dos Portos do Douro e de Leixões, s.a.* Banco Espírito Santo,s.a.** Banco Santander Portugal,s.a. Cerealis,sgps.,s.a.* Cimpor – Cimentos de Portugal, sgps,s.a. Cockburn Smithes & Cª.,s.a. Companhia de Seguros Fidelidade-Mundial,s.a.* Companhia de Seguros Tranquilidade,s.a.* Companhia Portuguesa de Hipermercados,s.a.* Entreposto – Gestão e Participações,sgps,s.a. Europarque – Centro Económico e Cultural Filinto Mota,sucrs,s.a. Francisco José Marques Pinto Jerónimo Martins,sgps,s.a.* JMA Felpos,s.a. Joaquim Moutinho Miguel Pais do Amaral Mota – Engil,sgps,s.a.* Parque Expo 98,s.a. Vista Alegre Atlantis,s.a. 1995 Banco Finantia,s.a. EDP – Electricidade de Portugal, s.a.** N.Quintas,sgps,s.a. Ocidental Seguros SAG Geste – Soluções Automóveis Globais,sgps,s.a.* 1996 CIN – Corporação Industrial do Norte,s.a. GALP Energia,sgps,s.a.* Império-Bonança – Companhia de Seguros,s.a. Mário Soares Transgás – Sociedade Portuguesa de Gás Natural,s.a. 1997 Edifer – Construções Pires Coelho e Fernandes,s.a. 1998 McKinsey & Company 1999 ACO – Fábrica de Calçado,s.a. André Jordan Banco Privado Português,s.a. Banif – Banco Internacional do Funchal* Brisa – Auto-estradas de Portugal* CTT – Correios de Portugal,s.a. Efacec Capital,sgps,s.a. Ericsson Telecomunicações,Lda. F.Ramada,Aços e Indústrias, s.a. Fernando Simão,sgps,s.a. JBT – Tecidos,s.a. Lusomundo,sgps,s.a. Maria Cândida e Rui Sousa Morais Pedro Almeida Freitas Portgás – Soc.de Produção e Distribuição de Gás,s.a.* Portugal Telecom,sgps,s.a.** Rumape,sgps,s.a. SIC – Sociedade Independente de Comunicação,s.a. STCP – Sociedade de Transportes Colectivos do Porto,s.a. Vulcano Termo-Domésticos,s.a. 2000 Águas do Douro e Paiva,s.a.* Bial – Portela & Cª,s.a.* Gamobar – Sociedade de Representações,s.a.* TMN – Telecomunicações Móveis Nacionais,s.a. 2001 Euronext Lisbon – sgmr,s.a.* Metro do Porto,s.a.* Montepio Geral Portucel – Empresa Produtora de Pasta e Papel,s.a.** 2002 Aenor – Auto-estradas do Norte, s.a.* ASA Editores II,s.a. Inditex,s.a.(Zara Portugal)* Siemens,s.a. Somague,sgps,s.a.* Vodafone Portugal, Comunicações Pessoais,s.a. 2003 Álvaro Siza El Corte Inglês,s.a.* João Rendeiro Refrige – Sociedade Industrial de Refrigerantes,s.a. SCC – Sociedade Central de Cervejas,s.a. Teresa Patrício Gouveia 2004 Martifer – Construções Metalomecânicas,s.a. Rangel Invest – Investimentos Logísticos,s.a. REN – Rede Eléctrica Nacional, s.a. 2005 Grupo Nabeiro – Delta Cafés Ibersol,sgps,s.a. João Gonçalves Jorge Sampaio José Berardo Prosegur Sap Ibéria Varzim-Sol – Turismo,Jogo, Animação,s.a.** 2006 Adalberto Neiva de Oliveira Câmara Municipal de Matosinhos C.ª de Seguros Allianz Portugal, s.a. JVC – Holding,sgps,s.a. Conselho Fiscal Auditing Council Ana Margarida Barata Fernandes Presidente / President Ernst & Young Audit & Associados – SROC.,s.a. Jorge Quintas Directores / Directors Directora Geral Managing Director Odete Patrício Director do Museu Director of the Museum João Fernandes Director Adjunto do Museu Deputy Director of the Museum Ulrich Loock Directora do Parque Director of the Park Teresa Andresen Director Administrativo­ ‑Financeiro / Financial Director Nuno Nogueira Projecto co-financiado pela União Europeia / FEDER Apoio Mecenas das Conferências internacionais – Biologia Norprint – Artes Gráficas,s.a. Tabaqueira,s.a. 2007 Ana –Aeroportos de Portugal,s.a. Área Metropolitana do Porto Associação Nacional de Farmácias Câmara Municipal da Póvoa de Varzim Câmara Municipal de S.João da Madeira Câmara Municipal de Santa Maria da Feira Câmara Municipal de Santo Tirso Câmara Municipal de Vila do Conde Gestifute,s.a. Grupo Civilização Grupo Media Capital Imatosgil – Investimentos, sgps.,s.a. J.Soares Correia,s.a. José Paulo Fernandes Manoel de Oliveira Morais Leitão,Galvão Teles, Soares da Silva e Associados * Fundador Patrono Patron Founder ** Mecenas Institucional Institutional Sponsor 11 de Junho 2008 / 11 June 2008 Apoio institucional / Institutional support Conselho de Administração Board of Directors António Gomes de Pinho Presidente / President Vergílio Folhadela Moreira Vice-Presidente / Vice-President António Lobo Xavier Vice-Presidente / Vice-President Luís Portela Vice-Presidente / Vice-President Luís Braga da Cruz Rui Manuel de Campos Guimarães Luís Campos e Cunha Adalberto Neiva de Oliveira Elisa Ferreira
  • 6. De Weltgeschichte à Modernidade-Mundo. O problema de uma esfera pública global From Weltgeschichte to world­‑modernity. The Problem of a Global Public Sphere giacomo marramao As Desventuras do Pensamento Crítico The Misadventures of CriticalThinking jacques rancière A Natureza por Fazer. O Tema Decisivo da Época Moderna Nature to­‑be­‑made. The Crucial Subject of ModernTimes peter sloterdijk 13 23 35 127 47 139 75 167 99 191 giorgio agamben Arte,Inoperatividade,Política Art,Inactivity,Politics antónio guerreiro Apresentação Introduction
  • 7. Apresentação As quatro conferências sobre política que se realizaram no Museu de Serralves entre Março e Junho de 2007 no âmbito do programa “Crítica do Contemporâneo” tiveram como objectivo apresentar um conjunto de reflexões que incidiam criticamente sobre ques‑ tões actuais relacionadas quer com a matéria política com que estamos confrontados,no plano prático,quer com o pensamento político,num plano mais teórico,numa altura em que muitas das categorias tradicionais deixaram de ser válidas e se impôs com carácter de urgência a necessidade de estabelecer novos paradig‑ mas conceptuais.Sabemos que a regra tem sido a de uma despo‑ litização generalizada da sociedade,seja pelo facto de o debate e a luta política se terem transferido para questões da ordem cultu‑ ral e das reivindicações identitárias, seja porque a acção política e os seus modos de representação ficaram submetidos à lógica do espectáculo e reduzidos ao pragmatismo técnico­‑económico que antónio guerreiro 17
  • 8. buscar uma dimensão importante do seu método: a que consis‑ te em trabalhar com paradigmas, em raciocinar não a partir de uma cronologia,mas a partir de modelos.É em função deste mé‑ todo que devemos entender a sua controversa tese de que o cam‑ po, o “Lager” nazi, sendo a realização suprema da biopolítica, é o paradigma das democracias modernas. É utilizando o método genealógico que Agamben explica o funcionamento da máquina governamental. Na conferência que fez em Serralves, “Arte, Ino‑ peratividade, Política”,Agamben retomou a questão da genealo‑ gia teológica da economia e do governo, que o tem ocupado nos seus últimos trabalhos,e propôs a ideia de inoperatividade (“ino‑ perosità) como a substância,constitutiva da humanidade,de que se apropriou a política do Ocidente, inscrevendo­‑a no centro va‑ zio do seu dispositivo governamental.Trata­‑se,assim,de verificar que toda a operação política remete para categorias teológicas. Tornar inoperante, diz Agamben, consiste em “desactivar todas as obras humanas e divinas”, não é uma inacção, um não fazer, mas a actividade de desactivar. Somos aqui remetidos para um termo neutro, nem negativo nem positivo. Na medida em que a arte é o exemplo supremo desta inoperactividade (ecoando a lição de Walter Benjamin,Agamben fala da poesia como o lugar onde a língua é pura contemplação de si mesmo e,portanto,se tornou inoperante), o filósofo italiano pensa a arte na sua dimensão in‑ trinsecamente politica e a política como algo consubstancial à arte. Reapropriarmo­‑nos daquilo de que fomos expropriados pe‑ los dispositivos governamentais, tornar inoperativas as “opera‑ ções biológicas,económicas e sociais”,eis a única politica,segun‑ do Agamben, capaz de restituir a gestualidade absoluta, integral dos homens. antónio guerreiro conferências internacionais serralves 2007 • política 19 os reduz a meros actos governativos de gestão e administração. A despolitização significa também o triunfo da contingência e a renúncia às ideias,em favor das determinações económicas e de um culturalismo que absorve o conflito político ou o remete para um plano onde tudo se traduz em termos de identidades,diferen‑ ças,reconhecimentos.Este ciclo de conferências foi orientado por uma ideia de diagnóstico e de análise crítica do presente. Por isso, convidámos quatro filósofos de diversas proveniên‑ cias,cujo pensamento crítico significa a decifração da linguagem, do idioma, dos sinais que caracterizam e dão forma à sociedade contemporânea.São eles,por ordem alfabética,Giorgio Agamben, Giacomo Marramao (ambos italianos),Jacques Rancière (francês) e Peter Sloterdijk (alemão).Todos eles são pensadores eclécticos e movem­‑se no cruzamento de vários saberes e disciplinas; todos eles têm contribuído para tornar mais inteligível o nosso tempo. Nas obras destes quatro filósofos,a reflexão política é indissociá‑ vel, no mais alto grau, da análise das questões sociais, culturais, estéticas e éticas que dão uma configuração (sempre em movi‑ mento, difícil de apreender) ao mundo em que vivemos. O hori‑ zonte em que se move o pensamento destes filósofos não é o de uma disciplina bem delimitada,mas o de um saber que atravessa fronteiras disciplinares e procura chegar a uma legibilidade das condições e das regras em que vivemos, e das grandes transfor‑ mações que se têm dado nas últimas décadas. Giorgio Agamben é hoje, à escala internacional, um dos filó‑ sofos mais lidos,traduzidos e estudados.Acompanha­‑o uma aura de guia intelectual, a que ele, no entanto, se subtrai com toda a veemência. Livros como A Comunidade que Vem (1993) Homo Sacer (1998) e Estado de Excepção (2003) são peças fundamentais para a caracterização e compreensão do paradigma político moderno, aquele em que estamos imersos.A Michel Foucault,foi Agamben apresentação18 crítica do contemporâneo
  • 9. verificada a radical mudança teórica que a globalização impõe às categorias das formas de governo e à definição do político.Por ou‑ tro lado,convicto de que a realidade em que vivemos tem muito a ver com uma cadeia de consequências determinadas pela mo‑ dernidade, Giacomo Marramao evita qualquer referência à pós­ ‑modernidade e fala de “modernidade­‑mundo”. Para compreen‑ der a natureza dos conflitos globais é então necessário construir um universalismo da diferença,reconduzir os pólos da razão e da identidade às dimensões simbólicas da relação e da subjectivação. Neste sentido,é necessário pensar uma política que não continue a ser conduzida em nome da lógica identitária da Nação (a mesma lógica que se pluraliza e multiplica nas identidades fragmentadas dos fundamentalismos).Com a noção de “modernidade­‑mundo”, Marramao pretende sublinhar o aspecto específico da actual fase da mundialização,uma fase em que a modernidade se tornou ver‑ dadeiramente mundial,produzindo no seu interior uma multipli‑ cidade de variantes culturais.Ou seja,estamos longe da hegeliana “Weltgeschichte” (história universal) de carácter unidimensional – monopólio da Europa e do Ocidente ­‑ e em direcção a um fim. O filósofo francês Jacques Rancière tornou­‑se conhecido em 1965, quando surgiu como co­‑autor, com Louis Althusser e outros, de Lire “Le Capital”.A partir de meados dos anos 90,com a publicação de um dos seus livros mais importantes,La Mésentente.Politique et philosophie (1995),Rancière tornou­‑se um dos autores mais impor‑ tantesdafilosofiapolítica,comumafortíssimapenetraçãonosEs‑ tados Unidos da América.Nesse livro,Rancière desenvolve a ideia de que aquilo a que se chama “filosofia politica” não indica um gé‑ nero filosófico preciso nem um âmbito bem definido da filosofia. Pelo contrário,designa o terreno de um embate polémico onde se manifesta o verdadeiro paradoxo da politica: o facto de esta estar 21 conferências internacionais serralves 2007 • política Giacomo Marramao tornou­‑se conhecido internacionalmente com um livro onde faz a reconstrução genealógica da seculari‑ zação como conceito­‑chave da modernidade: Poder e Secularização, assim se intitula esse livro,de 1983,reeditado em 2005,numa ver‑ são alterada e ampliada. Marramao colocava aí no centro da sua reflexão a questão da historicidade e da “continuidade do tempo”. O processo de secularização,tal como ele é delineado neste livro, implica um tempo­‑história cumulativo e irreversível, uma tem‑ poralização da história,ou seja,a sociedade ocidental passa da es‑ pacialidade ritual das ordens hierárquicas para a fase dinâmica da autodeterminação do sujeito. As categorias do tempo e da história continuam a ser centrais num outro livro deste filósofo, publicado em 2003, com o título Passagem a Ocidente. Filosofia e Globalização,onde Marramao desen‑ volve a tese de que a categoria da globalização, implicando uma mudança de escala de todos os fenómenos políticos da nossa épo‑ ca,significa muito mais do que um fenómeno técnico­‑económico. Trata­‑se,segundo Marramao,de uma “passagem” que transforma todas as culturas e que obriga a uma reconversão de conceitos fundamentais, tais como “identidade” e “diferença”, que não se limita ao plano técnico­‑económico. Considerando falsas duas oposições – entre Estado e mercado,entre Oriente e Ocidente,o fi‑ lósofo confronta­‑se neste livro com algumas das discussões mais pregnantes da nossa época (desmistificando tanto a ideia de um “choque das civilizações”,desenvolvida por S.Huntington,como a tese da homologação universal sob o império de um pensamento único,de Fukuyama) e propõe um exame crítico da globalização. A conferência que proferiu em Serralves, “Da Weltgeschichte à Modernidade­‑Mundo” prossegue um pensamento sobre a glo‑ balização que se iniciou nesse livro. Mas agora trata­‑se também de interrogar a existência de uma esfera pública global,uma vez 20 crítica do contemporâneo antónio guerreiroapresentação
  • 10. do pensamento crítico chegou ao seu fim (“Não há hoje uma rea‑ lidade sólida por oposição à aparência”, diz Rancière, remetendo para as premissas da crítica da ideologia), mas alguns dos seus conceitos e procedimentos foram deslocados para outros objec‑ tivos, como se pode perceber nalgumas manifestações artísticas contemporâneas,nomeadamenteemcertasfotomontagens,onde se procede como se houvesse um “desmascaramento”, mas não existe nenhuma realidade por trás da imagem. O que Rancière vai mostrar é que nesta arte de alcance crítico se cria uma equiva‑ lência do real com a sua imagem,uma indistinção entre o que se pretende denunciar e os mecanismos críticos que são postos em acção para essa tarefa. A relação da arte com a política, questão central no pensamento de Rancière, é aqui tematizada e anali‑ sada nos seus dispositivos. Estas “desventuras” do pensamento crítico,este desvio de conceitos e procedimentos que faziam par‑ te de um determinado quadro de pensamento,é também o que se pode verificar quando, por exemplo, a crítica ao consumismo, ao espectáculo e ao fetichismo da mercadoria se torna uma inves‑ tida contra a democracia,o que se verifica tanto do lado da “me‑ lancolia esquerdista” como da “right wing rage” – duas faces da mesma moeda,afirma Rancière. Temos, finalmente, uma conferência do filósofo alemão Peter Sloterdijk.É um dos filósofos mais polémicos e conhecidos da ac‑ tualidade.A sua obra é imensa (Crítica da Razão Cínica,de 1983,foi o primeiro livro que lhe deu uma enorme projecção internacional) e sobre um vastíssimo leque de temas e matérias. De tal modo que já foi apelidado de “ogre da filosofia”.O carácter polémico do seu discurso filosófico,assim como as questões de que trata (por exemplo: a tecnologia,a biologia moderna,a dimensão planetária do capitalismo que cria o “sistema-mundo”,isto é,a globalização, 23 conferências internacionais serralves 2007 • política privada de um fundamento autónomo. A política, defende Ran‑ cière nesse livro,tem a sua origem no momento em que a emer‑ gência da parte mais numerosa da sociedade – o “demos” – põe em crise a ordem natural do domínio e a subdivisão dos papeis entre os vários grupos.Deste modo,a questão da igualdade surge como efeito da entrada em cena desta parte litigiosa da sociedade – o “povo” – que funda a comunidade politica como uma comunidade do litígio.É da lógica do litígio,do desacordo,que nasce a politica. Ela está,pois,afastada da discussão consensual.Rancière obriga­ ‑nos assim a pensar no que significa a despolitização,quando todo o conflito político surge esvaziado em favor da diferença cultural ou anulado no determinismo económico. A filiação althusseriana que preside ao início da obra de Ran‑ cière, iria ser quebrada com uma crítica à teoria da ideologia de Althusser (La leçon d’Althusser, 1974). Porém, sendo muito embo‑ ra um dos filósofos que mais contribuiu para definir a configu‑ ração do pensamento político para além do marxismo, não dei‑ xou de insistir na necessidade de não esquecer Marx, sob pena de se esquecer a própria cena do político.As formas políticas da igualdade, a teoria da emancipação intelectual, a oposição polí‑ tica/polícia e os seus modos de emergência na vida pública con‑ temporânea,a problemática noção de democracia são alguns dos seus principais temas de análise.Nos últimos anos,Rancière fez importantes incursões na estética, na literatura (na escrita lite‑ rária mas também na literatura como instituição) e no cinema. A uma “política”, Rancière acrescentou, na última fase da sua obra,uma “estética”,o que o tornou um dos filósofos contemporâ‑ neos de referência no campo das artes e,especialmente,no diálo‑ go entre a arte e a política. Na sua conferência,intitulada “As Desventuras do Pensamen‑ to Crítico”,Rancière parte de uma verificação: a de que a tradição 22 crítica do contemporâneo antónio guerreiroapresentação
  • 11. distinções codificadas pela metafísica, muito particularmente aquela entre o elemento “maquínico” e o humano.Ora,se aí esta‑ va em questão uma “antropotécnica”,uma ideia de construção do homemqueaniquilaasbasesdequalquerhumanismo,aquitrata­ ‑se de pôr de lado a forma metafísica da filosofia da natureza e da origem, substituindo­‑a pelo modelo de uma natureza por fazer, submetida a um processo generativo como aquele que alimenta os fantasmas dos primeiros minerologistas,ferreiros e alquimis‑ tas. À ideia de unidade entre o homem e a natureza, Sloterdijk opõe a ideia de luta,propondo que por mais que recuemos às ori‑ gens nunca iremos descobrir a harmonia. O que iremos sempre descobrir é o elemento mecânico no núcleo básico do subjectivo e do “natural”.Sloterdijk prossegue assim,com uma certa dose de radicalidade, a tarefa de defender que o humanismo é o funda‑ mentalismo da nossa cultura. 25 conferências internacionais serralves 2007 • política a ira no tempo do terrorismo, etc.), fizeram de Sloterdijk um fi‑ lósofo com uma forte presença no espaço público. Truculento e intempestivo, este filósofo nietzschiano com uma enorme força analítica e terapêutica, disse uma vez: “Todo o meu trabalho se move nessa dimensão ‘trans­‑’, desloca­‑se constantemente entre as disciplinas, as linguagens, os diversos aspectos. Poderíamos considerá­‑lo como a materialização de uma noção alargada do Iluminismo”.A sua condição de ogre leva­‑o a procurar alimento num território imenso,a abarcar a totalidade do saber,a proceder pela “intoxicação voluntária”. Esta metáfora farmacológica, que deu origem ao título de um dos seus livros, indica um procedi‑ mento metodológico que Sloterdijk explica assim: para fazer o diagnóstico da sua época,o filósofo tem de tornar­‑se uma espécie de toxicómano esclarecido e experimentar o excesso e o terror do seu próprio tempo. Na conferência que proferiu em Serralves, “A Natureza por Fazer.O Tema Decisivo da Época Moderna”,Sloterdijk desenvolve, por vezes em termos alegóricos,uma reflexão sobre a ruptura do homem com a natureza, muito afim daquela que encontramos num pequeno livro de 1999,Regras para o Parque Humano,resulta‑ do de uma conferência que fizera na Suíça.Recordemos que,logo que foi publicada,essa conferência causou um verdadeiro tumul‑ to nos meios intelectuais alemães,com uma enorme repercussão mediática.O “caso Sloterdijk” ficou a dever­‑se ao facto de o filoso‑ fo utilizar um vocabulário que,na Alemanha,está demasiado co‑ notado com o eugenismo nazi (termos como “selecção” e “domes‑ ticação”), de tal modo que a polémica acabou por se centrar em questões de interpretação de certas palavras.Essa conferência era uma resposta à Carta sobre o Humanismo, que Heidegger escreveu em 1946. Na sua crítica ao humanismo e ao seu modelo subjec‑ tivista, Sloterdijk mostrava como eram insustentáveis as velhas 24 crítica do contemporâneo antónio guerreiroapresentação
  • 12. Introduction The four conferences held at the Serralves Museum, between March and July 2007, as part of the “Criticism of Contemporary Issues” programme aimed to present, at a time when many of the traditional categories are no longer valid and there is a press‑ ing need to establish new conceptual paradigms,a series of criti‑ cal reflections on current issues associated both with political matters that we have to face on a practical level, and with po‑ litical though,on a more theoretical level.We know that as a rule there has been a generalized depoliticization of society,be it be‑ cause the political debate and struggles have been transferred to cultural and identity issues, or because political action and its modes of representation succumbed to the logic of the specta‑ cle and were reduced to a techno­‑economic pragmatism which limit them to mere governmental practices of management and administration. Depoliticization also represents the triumph of 27 antónio guerreiro
  • 13. Foucault: it consists in the use of paradigms,and in a reasoning that arises from models, and not from a chronology. It is in the light of this method that we must understand Agamben’s con‑ troversial thesis defending that the camp,the nazi “Lager”,being the supreme accomplishment of biopolitics, is the paradigm of modern democracies.Agamben uses the genealogical method to explain how the governmental machine operates.In the confer‑ ence he presented at Serralves, “Art, Inoperativeness, Politics”, Agamben readdressed the issue of the theological genealogy of economy and government,which has occupied him in his recent work,and proposed the idea of inoperativeness (“inoperosità”) as the substance composing humanity.According to him,this sub‑ stance has been appropriated by Western politics, and inscribed on the empty core of its governmental machine.It is thus a ques‑ tion of verifying that all political operations refer to theological categories.Agamben says that to render something inoperative, ­– i.e.“to deactivate all human and divine works” ­–,is not a ques‑ tion of inaction, of not taking an action to accomplish some‑ thing; instead, it involves the activity of deactivation. We are confronted here with a neutral term that is neither positive nor negative.To the extent that art is the supreme example of this in‑ operativeness (Agamben, echoing the ideas of Walter Benjamin, speaks of poetry as the place where language is pure contempla‑ tion of itself, and consequently it has become inoperative), the Italian philosopher sees art in its inherently political dimension and politics as something consubstantial to art.To reappropriate those things that have been expropriated from us by governmen‑ tal mechanisms,to render inoperative the “biological,economic, and social operations”,is the only political approach that,accord‑ ing to Agamben,can restore the full use of gesture ­– an integral part of man. antónio guerreiro serralves international conferences 2007 • politics 29 contingency and the renunciation of ideas in favour of economic determinations and of a culturalism that either absorbs the po‑ litical conflict or relocates it on a level where everything is read in terms of identities,differences,and recognitions.This cycle of conferences was governed by the idea of promoting a diagnosis and critical analysis of the present. We have, therefore, invited four philosophers from different backgrounds whose critical thought searches to decipher lan‑ guage,idiom,and the signs that characterize and shape contem‑ porary society.They are, in alphabetical order, Giorgio Agamben, Giacomo Marramao (both Italian),Jacques Rancière (French),and Peter Sloterdijk (German). They all are eclectic thinkers, work‑ ing at the crossroads of different fields and areas of knowledge; they all have contributed to make our times more intelligible. In the work of these four philosophers, it is completely impos‑ sible to separate political reflection from the analysis of social, cultural, aesthetic, and ethical issues that impart a (constantly moving and elusive) configuration to the world in which we live. The thinking of these philosophers is not constrained by a per‑ spective confined to a well­‑delimited discipline, but stems from a knowledge that spans across disciplinary borders and hopes to render legible the conditions and rules that govern our life, and the major changes that have occurred in recent decades. Giorgio Agamben is at present one of the most widely read, studied and translated philosophers in the world.He has gained a reputation of being an intellectual guide, something that he vehemently shuns. Books such as The Coming Community (1993) Homo Sacer (1998), and State of Exception (2003) are fundamental works for the characterization and comprehension of the mod‑ ern political paradigm in which we are immersed.An important dimension of Agamben’s method was borrowed from Michel introduction28 criticism of contemporary issues
  • 14. set in that book. But now that Marramao has verified the radical theoretical change imposed by globalization on the categories of government and on the definition of the political, he also ques‑ tions the existence of a global public sphere. On the other hand, believing that the reality in which we live is closely related with a chain of consequences determined by modernity, Giacomo Marramao avoids any reference to postmodernity, and speaks of “world­‑modernity”. In order to understand the nature of global conflicts it is thus necessary to build a universalism of difference – to reinstall the poles of reason and identity within the symbolic dimensions of relationship and subjectivation.In this sense,it is necessaryto devise a political practice that is no longer conducted in the name of the identitary logic of the Nation (the very same logic that multiplies itself and proliferates in the fragmented identities of fundamentalisms). With the use of the expression “world-modernity”,Marramao intends to stress the specific char‑ acter of the present globalization phase,a phase in which moder‑ nity has become truly global,internally producing a multiplicity of cultural variants.In other words,we are far away from the one­ ‑dimensional and teleological Hegelian Weltgeschichte (world history) – a monopoly dictated by Europe and the Western world. The French philosopher Jacques Rancière became known in 1965, when his name featured as a co­‑author of Reading ‘Capital’ togeth‑ er with Louis Althusser and others.Since the mid 90s,following the publication of one of his most important books Disagreement: Politics and Philosophy (1995),Rancière has become one of the most important political philosophy authors, and he is extremely in‑ fluential in the United States.In that book,Rancière develops the idea that what we call “political philosophy” does not indicate a precise philosophical genre,or a well­‑defined domain of philoso‑ antónio guerreiro serralves international conferences 2007 • politics 31 Giacomo Marramao has become internationally known after publishing a book where he embarks on the genealogical recon‑ struction of secularization as a key­‑concept of modernity. The book is entitled Power and Secularization, and was published in 1983, and republished in a revised and enlarged edition in 2005. In that work, Marramao placed at the centre of his reflections the issue of historicity and “continuity of time”. The process of secularization, as outlined by the author in this book, implies a cumulative and irreversible “history-time”, a temporalization of history, i.e., a change in Western society from a ritual spatiality linked with the hierarchical order to a dynamic phase associated with the self­‑determination of the subject. The categories of time and history remain central in another book by this philosopher, published in 2003, and entitled West‑ ward Passage. Philosophy and Globalization.In this work,Marramao develops the thesis that the category of globalization, by imply‑ ing a change in scale in all contemporary political phenomena, represents therefore much more than a techno­‑economic phe‑ nomenon. It is, according to Marramao, a “passage” that trans‑ forms all cultures, forcing a reconversion of fundamental con‑ cepts such as “identity” and “difference”, which is not confined to the techno­‑economic sphere. Marramao postulates that the two following dichotomies are false ­– between State and mar‑ ket,and between East and West ­– ,and in this book he deals with some of the most significant discussions of our ages (he demys‑ tifies both the notion of a “clash of civilizations” developed by S. Huntington, and Fukuyama’s thesis of a universal homologa‑ tion under the rule of a “pensée unique”, i.e., an ideological he‑ gemony),and proposes a critical examination of globalization. The conference he gave at Serralves,“From Weltgeschichte to World­‑Modernity” continues a line of thought about globalization introduction30 criticism of contemporary issues
  • 15. of arts, and especially in the dialogue between arts and politics. In his conference entitled “The Misadventures of Critical Thinking”, Rancière sets out from an observation: the tradition of critical thinking has reached its end (“Today,there is not a sol‑ id reality in opposition to appearance”, says Rancière, referring back to the premises of the criticism of ideology),but some of its concepts and procedures were shifted to serve other objectives, as can be seen in some contemporary artistic manifestations, namely in some photomontages,where there seems to be an “un‑ masking” of something,but where there is no reality behind the image.What Rancière shows is that in this art characterized by its critical implications, an equivalence between reality and its image is created: an indistinctness between what is denounced and the critical mechanisms that come into action to serve that task.The relationship between art and politics,a central feature of Rancière’s thought, is problematized and its mechanisms are analysed. These “misadventures” of critical thinking, this shift of concepts and procedures that were part of a specific frame of thought is also visible when, for instance, the criticism of con‑ sumerism, spectacle and fetishism of commodities becomes an assault on democracy, which is observed both in the faction of “left­‑wing melancholy” as well as in the “right­‑wing rage” side – two faces of the same coin,says Rancière. Finally, there is a conference by German philosopher, Peter Slo‑ terdijk. He is presently one of the most controversial and wide‑ ly known philosophers. He has a vast body of work (Critique of Cynical Reason, published in 1983, was the book that gave him an international reputation) spanning over a very wide range of themes and subjects. To such an extent, that he has already been designated the “ogre of philosophy”. The controversial antónio guerreiro serralves international conferences 2007 • politics 33 phy.On the contrary,it designates the field where a controversial confrontation takes place,revealing the true paradox of politics: the fact that politics is deprived of an autonomous foundation. Rancière argues that politics originates in the moment when the emergence of the most numerous part of society – the “demos” – gives way to a crisis in the natural ruling order and the subdivi‑ sion of roles between the different groups.In this way,the issue of equality arises as a consequence of the arrival on the scene of this contentious part of society – the “people” – that institutes the political community as a community of contention. Politics proceeds, accordingly, from a logic of contention and disagree‑ ment, and it is therefore disconnected from consensual debate. Thus,Rancière compels us to think about the meaning of depoli‑ tization, at a time when all political conflict appears to be emp‑ tied of content in favour of cultural differences or annulled by economic determinism. The Althusserian influence that characterizes Rancière’s ear‑ lier work was to be broken when he criticized Althusser’s theory of ideology (The lesson of Althusser, 1974). But although he is one of the philosophers who has contributed the most to character‑ ize the configuration of political thought beyond Marxism,he al‑ ways urges us not to forget Marx,so as not to run the risk of for‑ getting the scene of the political.The political forms of equality, the theory of intellectual emancipation, the opposition politics/ police, and their modes of emergence in contemporary public life,the problematic notion of democracy are some of its main in‑ terests.In recent years,Rancière has made important incursions into aesthetics,literature (both literary writing and literature as an institution), and film. In the recent stages of his work, Ran‑ cière has added to his “politics” an “aesthetics”,which has made him one of the major contemporary philosophers in the field introduction32 criticism of contemporary issues
  • 16. conference was an answer to Heidegger’s Letter on Humanism, published in 1947.In his criticism of humanism and its subjectiv‑ ist model,Sloterdijk was showing how it was no longer possible to maintain the old distinctions codified by metaphysics,partic‑ ularly the distinction between the “machinic” and the human element.Thus,if the issue there was an “anthropotechnique”,an idea of the construction of man that annihilates the basis of any kind of humanism,here the issue is to put aside the metaphysi‑ cal form of the philosophy of nature and origins, and replace it with the model of an undone nature subjected to a generative process similar to the one feeding the ghosts of the first mineral‑ ogists,blacksmiths,and alchemists.To the idea of unity between man and nature,Sloterdijk opposes the idea of struggle,suggest‑ ing that no matter how much we retrace our steps to the origins we will never find harmony.What we will always discover is the mechanical element located on the basic core of the “subjective” and “natural”.Sloterdijk therefore pursues,with a certain degree of radicalism,the task of defending that humanism is the funda‑ mentalism of our culture. antónio guerreiro serralves international conferences 2007 • politics 35 nature of Sloterdijk’s philosophical discourse as well as the is‑ sues he explores (for example: technology; modern biology; the planetary dimension of capitalism that creates the “world sys‑ tem”,i.e.,the globalization; rage in an age of terrorism,etc.) gave him high visibility in the public arena.Fierce and untimely,this Nietzschean philosopher has once saidwith an enormous analyt‑ ical and therapeutic power that: “All mywork is developed in that ‘trans­‑’ dimension, it is constantly moving between disciplines, languages, and varied aspects. We could see it as a materializa‑ tion of a wider notion of the Enlightenment”. His condition as an ogre drives him to search for nourishment in a vast territory, to encompass the totality of knowledge,and to proceed through “voluntary intoxication”.This pharmacological metaphor,which gave the title to one of his books,indicates a methodological pro‑ cedure explained by Sloterdijk in the following manner: to make a diagnosis of the era he lives in,the philosopher himself has to become a kind of informed drug addict and experience the excess and terror of his own times. In the conference he gave at Serralves, “Nature to-be-made – the crucial subject of modern times ”,Sloterdijk develops a reflec‑ tion, sometimes allegorically, on the rupture between man and nature, similar to the analysis found in a small book published in 1999,“Rules for the Human Park”,which is the result of a con‑ ference he gave in Switzerland.We should recall that as soon as it was published the conference triggered a real uproar among German intellectual circles,which received huge media coverage. The “Sloterdijk affair” was due to the fact that the philosopher had used a vocabulary that,in Germany,is too closely linked with Nazi eugenics (terms like “selection”, and “domestication”), to such an extent that the controversy ended up revolving around questions related with the interpretation of certain words.That introduction34 criticism of contemporary issues
  • 17. política
  • 18. Arte,Inoperatividade,Política Nos últimos três anos concentrei as minhas pesquisas sobre algo que poderia definir como uma genealogia teológica da economia e do governo.Tratava­‑se de mostrar como o actual domínio da eco‑ nomia e do governo em todas as esferas da vida social tinha o seu paradigma na teologia cristã dos primeiros séculos,quando,para conciliar a Trindade com o monoteísmo,os teólogos a apresenta‑ ram como uma “economia” divina,como a forma pela qual Deus organiza e governa tanto a vida divina como o mundo criado. Como amiúde acontece quando se está completamente mer‑ gulhado numa pesquisa deste tipo, precisamente quando julga‑ va ter chegado a uma conclusão, de repente abriu­‑se um campo totalmente novo,que,felizmente,ofereceu à minha pesquisa um horizonte inesperado. Estava a trabalhar sobre os anjos enquanto instrumentos do governo divino do mundo.Na teologia cristã,os anjos são,acima giorgio agamben 39
  • 19. pensar os modos e as formas da actividade divina e angelical,que, atravessando todo o cosmos,desde os astros até ao último parda‑ linho,assegurava a cada instante o perfeito governo providencial do mundo.Como pensar agora,tanto em Deus como nos homens e nos anjos, uma vida totalmente inoperativa? Como pensar um Reino sem qualquer Governo possível? “Depois de o género humano ter sido julgado”, pergunta­‑se com angústia São Jerónimo, “que vida poderá haver? Haverá ou‑ tra terra,um novo mundo? Nós só conhecemos o que está no meio e que nos foi revelado pelas Escrituras, mas o que está antes do mundo e depois do seu fim é totalmente incognoscível”. A resposta dos teólogos a estas perguntas constitui o ponto de partida para o problema do qual vos quero falar hoje. Um deus totalmente ocioso é um deus impotente,que abdicou de qualquer governo do mundo,e é isto que os teólogos não podem aceitar de forma alguma. Para evitar o desaparecimento total de todos os poderes,eles separam­‑no do seu exercício e afirmam que o poder não desaparece, mas que, simplesmente, deixa de ser exercido, assumindo assim a forma imóvel e resplandecente da glória (em grego, doxa). As hierarquias angelicais, que desistiram de todas as actividades de governo, permanecem inalteradas e passam a celebrar a glória de Deus. Ao ininterrupto ministério governa‑ mental dos anjos, segue­‑se agora o eterno canto que, juntamen‑ te com os anjos, também os beatos entoam em louvor de Deus. O poder coincide agora integralmente com o aparato cerimonial e litúrgico que antes acompanhava o governo como uma sombra enigmática. Amiúde tenho perguntado a mim próprio porque é que o poder,que é acima de tudo força e governo eficaz,precisa da glória.Na perspectiva da teologia cristã,em que o governo é algo essencialmente finito,a Glória é a forma em que o poder sobrevive giorgio agamben 41 conferências internacionais serralves 2007 • política de tudo, os ministros do governo divino do mundo, que, ordena‑ dos em nove hierarquias ou ministérios, executam a cada ins‑ tante, tanto no céu como na terra, os decretos da providência. No ocidente cristão,a angelologia tem funcionado como paradig‑ ma da burocracia, e a nossa concepção das hierarquias ministe‑ riais tem sido profundamente influenciada por este paradigma celeste. O Castelo, de Kafka, onde os mensageiros e os funcioná‑ rios são rodeados de uma imperscrutável áurea angelical,é,neste sentido,exemplar. Nos tratados medievais sobre anjos há um ponto em que os te‑ ólogossedeparamcomumproblemamelindroso,paraoqualque‑ ria chamar a vossa atenção. O governo divino do mundo é, efec‑ tivamente, algo essencialmente acabado. Depois do Juízo Final, quando a história do mundo e das criaturas tiver chegado ao fim e os eleitos tiverem alcançado a sua beatitude eterna e os danados o seu eterno castigo, os anjos já nada terão para fazer. Enquanto no Inferno os diabos estão incessantemente ocupados em punir os danados,no Reino dos Céus,como na Europa de hoje,a condi‑ ção normal é o desemprego.Como escreve um teólogo particular‑ mente radical: “A consumição final não admite nem a cooperação das criaturas,nem qualquer possível ministério.Tal como Deus é princípio imediato de todas as criaturas,é igualmente o seu fim, alpha et omega. Cessarão, pois, todas as administrações, cessarão todos os ministérios angelicais e todas as operações hierárquicas, pois eles estavam ordenados para levar os homens ao seu fim e, uma vez alcançado esse fim,terão de cessar”. O problema é particularmente complexo,pois trata­‑se de pensar algo que a mente dos teólogos quase não consegue conceber: a cessação de toda a actividade divina, o ócio e a inoperatividade eterna.Todo o trabalho dos teólogos tinha consistido,ao invés,em arte, inoperatividade, política40 crítica do contemporâneo
  • 20. A visão desta impensável inoperatividade é, para Agostinho, tão difícil que a sua escrita se torna hesitante e quase parece bal‑ buciar. Trata­‑se de um estado que não conhece inércia nem ne‑ cessidade e cujos movimentos, impossíveis até só de imaginar, serão, de qualquer modo, cheios de glória e decoro. Para esta be‑ ata inoperatividade,que não é nem um fazer nem um não­‑fazer, acaba por não encontrar outra expressão adequada senão a de um sábado eterno, no qual Deus, os anjos e os homens parecem misturar­‑se e mergulhar no nada. Agostinho define a condição final como um sábado elevado à potência, um fazer descansar o sábado no sábado, um resolver­‑se da inoperatividade na inope‑ ratividade: “Então Deus estará inoperativo ao sábado e tornará inoperativo em si próprio o mesmo sábado que nós seremos e este será o nosso sábado,cujo fim não conhecerá ocaso,quase um oita‑ vo dia eterno… Lá estaremos inoperativos (vacabimus) e veremos, veremos e amaremos,amaremos e louvaremos.E isto será no fim sem fim.” Se a condição final coincide com a glória suprema e se a glória nos séculos dos séculos tem a forma de um sábado eterno, o que nos resta agora investigar é precisamente o sentido desta intimi‑ dade entre glória e inoperatividade. No início e no fim do poder mais alto está,segundo a teologia cristã,uma figura não da acção e do governo,mas da inoperatividade.O mistério inenarrável,que a glória, com a sua luz ofuscante, tem de esconder, é o da divina inoperatividade, daquilo que Deus fazia antes de criar o mun‑ do e depois de o governo providencial do mundo ter chegado a cumprir­‑se. Se compararmos, como amiúde me tem acontecido, a máqui‑ na do poder com uma máquina para produzir governo, então a glória é aquilo que, na política como na teologia, assegura, em giorgio agamben 43 conferências internacionais serralves 2007 • política a si próprio e a operatividade impensável encontra o seu sentido no interior da ordem teológica. A relação especial entre glória e inoperatividade é aquilo sobre o qual gostava de vos convidar a reflectir.Porquanto designa o fim último do homem e a condição que se segue ao Juízo Final,a gló‑ ria ocupa o lugar da inoperatividade pós­‑Juízo, na qual se resol‑ vem todas as obras e todas as palavras divinas e humanas.Mas a tradição hebraica conhecia também uma outra figura da inope‑ ratividade, que encontrou a sua expressão grandiosa no sábado. A festa por excelência dos hebreus,o shabat ,tem o seu fundamen‑ to teológico no facto de ter sido declarada sagrada não a obra da criação,mas a cessação de toda a obra no sétimo dia.Ainoperativi‑ dade define assim aquilo que é mais próprio de Deus (“Só de Deus é verdadeiramente própria a inoperatividade (anapausis)”,escreve Fílon, “O sábado, que significa inoperatividade, é de Deus” e, ao mesmo tempo,o objecto da expectativa escatológica (“não entra‑ rão no lugar do meu repouso” – eis ten anapausin emou,Sl.95,11 )). ÉprecisamenteestaidentificaçãodeDeuscomainoperativida‑ de que se torna,no cristianismo,problemática,ou melhor,que se tornaoproblemateológicosupremo,odosábadoeternocomocon‑ dição final da humanidade.Assim,Agostinho conclui a Cidade de Deus – ou seja,a obra à qual entrega a sua meditação extrema sobre ateologiaeapolítica–comaimagemdeumsábadoquenãoconhe‑ ce ocaso (“sabatus non habens vesperam”).Ele pergunta­‑se o que é que farão os beatos no Paraíso no seu corpo imortal e espiritual e chega àconclusãodeque,nestecaso,nãosepodefalarpropriamentenem de actividade nem de ócio e que o problema da inoperatividade fi‑ nal das criaturas ultrapassa a inteligência tanto dos homens como dos anjos.O que está aqui em causa,escreve,é “a paz de Deus,que, como diz o apóstolo,ultrapassa todas as inteligências”. 42 crítica do contemporâneo arte, inoperatividade, política
  • 21. século XIII apresenta o trono vazio como que suspenso no céu, coberto por um pano purpúreo e rodeado por seis anjos celebran‑ tes; logo acima, num losango de transparência cristalina, um li‑ vro,uma ânfora,um pássaro cândido e um touro preto. Os historiadores costumam interpretar a imagem do trono como um símbolo de realeza, tanto divina como profana. Toda‑ via,tal explicação nem sempre consegue dar conta do trono vazio na hetoimasia cristã. O termo hetoimasia, como o verbo hetoimazo e o adjectivo hetoimos, é, na tradução grega da Bíblia, um termo técnico que, nos Salmos, se refere ao trono de Jhwh: “O Senhor estabeleceu o seu trono nas alturas” (Sl.103,19); “Fixastes (hetoi‑ mos) o Vosso trono desde a eternidade” (Sl.93,2). Hetoimasia não significa o acto de preparar ou montar algo,mas o estar pronto do trono.O trono já está pronto desde sempre e desde sempre espera a glória do Senhor.Segundo o judaísmo rabínico,o trono da glória é uma das sete coisas que Jhwh criou antes da criação do mundo. No mesmo sentido,na teologia cristã o trono está pronto desde a eternidade, porque a glória de Deus é co­‑eterna com ele. O trono vazio não é, então, um símbolo da realeza, mas da glória.A glória prece‑ de a criação do mundo e sobrevive ao seu fim.E o trono está vazio não só porque a glória,embora coincidindo com a essência divina, não se identifica com esta,mas também porque ela é,no seu ínti‑ mo,inoperatividade.A figura suprema da soberania está vazia. Na majestade do trono vazio o dispositivo da glória encontra a sua cifra perfeita. O seu objectivo é o de capturar no interior da máquina governamental – para fazer dela o motor secreto desta – a impensável inoperatividade que constitui o mistério último da divindade.E a glória é quer glória objectiva,que exibe a inope‑ ratividade divina,quer glorificação,na qual também a inoperati‑ vidade humana celebra o seu sábado eterno.O dispositivo teoló‑ giorgio agamben 45 conferências internacionais serralves 2007 • política última instância, o funcionamento da máquina. Ou seja, toma o lugar daquele vazio impensável que é a inoperatividade do poder; e todavia precisamente esta indizível, ingovernável vacuidade é aquilo que parece alimentar a máquina do poder, aquilo de que o poder tanto precisa, ao ponto de ter de o capturar e manter a qualquer custo no seu centro em forma de glória. Na iconografia do poder,tanto profano como religioso,esta va‑ cuidadecentraldaglória,estaintimidadedemajestadeeinoperati‑ vidade,encontrouumsímboloexemplarnaimagemdotronovazio. Umprimeirotestemunho,emRoma,encontra­‑senasellacurulis – o assento que pertencia aos magistrados republicanos no exer‑ cício da sua função –,que o senado atribuiu a César.O assento era exposto,vazio,nos jogos,enfeitado com uma coroa áurea cravada de pedras preciosas.Na época de Augusto,tanto testemunhos es‑ critos como a sua imagem reproduzida nas moedas mostram que o assento dourado era regularmente exposto nos jogos. Sabemos que Calígula mandou colocar no Capitólio um trono vazio,peran‑ te o qual os senadores tinham de se curvar até ao chão. Mas é no âmbito cristão, na grandiosa imagem escatológica da hetoimasia tou thronou, que enfeita os arcos triunfais e as ab‑ sides das basílicas paleocristãs e bizantinas, que o significado cultual do trono vazio atinge o seu apogeu.Assim, o mosaico do arco de Sisto III em S.Maria Maggiore em Roma (século V) mos‑ tra um trono vazio cravado de pedras multicolores,no qual estão pousadas uma almofada e uma cruz; ao seu lado, entrevêem­‑se um leão, uma águia, uma figura humana alada, uns fragmentos de asas e uma coroa. Na basílica bizantina de Nossa Senhora da Assunção em Torcello,a hetoimasia no mosaico do Juízo Final exi‑ be o trono com a cruz,a coroa e o livro selado,ladeado no alto por serafins com seis asas e, nos dois lados, por duas grandes figu‑ ras angelicais.Em Mystras,na igreja de S.Demétrio,um fresco do 44 crítica do contemporâneo arte, inoperatividade, política
  • 22. felicidade como objecto último da ciência política,Aristóteles co‑ loca o problema de saber qual seria “a obra do homem” (to ergon tou anthropou) e evoca a ideia de uma possível inoperatividade da espécie humana: “Tal como para o tocador de flauta, para o es‑ cultor e para qualquer artesão e,em geral,para todos os que têm obra (ergon) e actividade (praxis),o bom e o bem parecem consistir nessa obra, o mesmo deveria acontecer com o homem enquanto tal,admitindo que haja para ele algo parecido com uma obra.Ou dever­‑se­‑á dizer que para o carpinteiro e para o sapateiro há uma obra e uma actividade,enquanto para o homem não há nenhuma, pois nasceu sem obra (argos)?”. A ideia é logo abandonada e a obra do homem é identificada por Aristóteles na particular “operativi‑ dade” (energeia) que é a vida segundo o logos; mas que inoperativi‑ dade e desœuvrement definem a essência – ou mais ainda, a praxe específica – do homem é, como devem ter percebido, a hipótese que tenciono propor­‑vos agora.E não apenas por achar que só nes‑ ta perspectiva é possível encontrar uma resposta às perguntas que pusemos até agora: “Porque precisa o poder da inoperativi‑ dade e da glória? O que há nelas de tão essencial,pelo que o poder tenha de as inscrever a todo o custo no centro vazio do seu dispo‑ sitivo governamental? Do que se alimenta o poder?.” Mas também por considerar que esta hipótese permite pensar de forma inédita tanto a política como,mais em geral,a esfera da acção humana. Inoperatividade não significa,de facto,simplesmente inércia, não­‑fazer. Trata­‑se,antes,de uma operação que consiste em tornar inoperativas, em desactivar ou des­‑oeuvrer todas as obras humanas e divinas. No fim daquele tratado sobre a servidão humana que é o livro iv da Ética, Espinosa utiliza a imagem da inoperatividade para definir a liberdade suprema que os homens podem esperar. Na‑ quele seu simples, maravilhoso latim, Espinosa (com um termo giorgio agamben 47 conferências internacionais serralves 2007 • política gico da glória coincide aqui com o profano e podemos, portanto, servir­‑nos dele como do paradigma epistemológico que nos vai permitir penetrar o arcano central do poder. Começamos então a perceber porque o cerimonial e as litur‑ gias são tão essenciais para o poder.Neles está em causa a captura e a inscrição numa esfera separada da inoperatividade central da vida humana. O poder coloca firmemente no seu centro em for‑ ma de festa e de glória aquilo que aos seus olhos aparece como a incurável inoperatividade do homem e de Deus.A vida humana é inoperativa e sem fim, mas precisamente esta falta de opera‑ tividade e de fim tornam possível a actividade incomparável da espécie humana. O homem votou­‑se à produção e ao trabalho, por ser, na sua essência, totalmente destituído de obra, por ser um animal sabático por excelência. E a máquina governamental funciona por ter capturado no seu centro vazio a inoperatividade da essência humana. Esta inoperatividade é a substância políti‑ ca do Ocidente,o alimento glorioso de todos os poderes.Por isso, festa e ociosidade voltam incessantemente a surgir nos sonhos e nas utopias políticas do Ocidente e também incessantemente neles naufragam. Eles são os restos enigmáticos que a máquina económico­‑teológica abandona na linha de rebentação da civi‑ lização e sobre os quais os homens voltam todas as vezes inútil e nostalgicamente a interrogar­‑se. Nostalgicamente, porque eles parecem conter algo que pertence ciosamente à essência huma‑ na; inutilmente, porque, na verdade, não passam de escórias do combustível imaterial e glorioso que o motor da máquina quei‑ mou nas suas rotações imparáveis. A ideia de uma inoperatividade constitutiva da humanidade en‑ quanto tal foi cursivamente avançada por Aristóteles numa pas‑ sagem da Ética à Nicómaco (1097 b, 22, ss.). Na altura de definir a 46 crítica do contemporâneo arte, inoperatividade, política
  • 23. lação entre arte e política.A arte não é uma actividade humana de ordem estética, que pode, eventualmente e em determinadas circunstâncias, adquirir também um significado político. A arte é em si própria constitutivamente política,por ser uma operação que torna inoperativo e que contempla os sentidos e os gestos ha‑ bituais dos homens e que,desta forma,os abre a um novo possível uso.Por isso,a arte aproxima­‑se da política e da filosofia até qua‑ se confundir­‑se com elas.Aquilo que a poesia cumpre em relação ao poder de dizer e a arte em relação aos sentidos, a política e a filosofia têm de cumprir em relação ao poder de agir. Tornando inoperativas as operações biológicas, económicas e sociais, elas mostram o que pode o corpo humano,abrem­‑no a um novo,pos‑ sível uso. giorgio agamben 49 conferências internacionais serralves 2007 • política no qual é preciso entender um eco da menuchah, do descanso sa‑ bático de Deus) fala de uma “acquiescentia in se ipso”, de um des‑ cansar ou encontrar a paz em si próprio, que ele define como “um gáudio nascido disso, de o homem se contemplar a si próprio e [contemplar] o seu poder de agir”. O que significa “contemplar o seu poder de agir”? Como devemos pensar uma inoperatividade que consiste em contemplar o nosso poder, aquilo que podemos ou não podemos fazer? Mais uma vez, a contemplação do poder não é simplesmente ócio e apraxia,mas algo parecido com uma inoperatividade inter‑ na à própria operação, que consiste em tornar inoperativo qual‑ quer poder particular de agir e de fazer.Avida,que contempla o seu próprio poder,torna­‑se inoperativa em todas as suas operações. Um exemplo vai permitir esclarecer como devemos entender esta “operação inoperativa”.O que é,aliás,um poema,senão aque‑ la operação linguística que consiste em tornar a língua inoperati‑ va,em desactivar as suas funções comunicativas e informativas, para a abrir a um novo possível uso? Ou seja, a poesia é, nos ter‑ mos de Espinosa,uma contemplação da língua que a traz de volta para o seu poder de dizer.Assim, a poesia de Mandelstam é uma contemplação da língua russa, os Cantos de Leopardi são uma contemplação da língua italiana,as Iluminações de Rimbaud uma contemplação da língua francesa,os hinos de Hölderlin e os poe‑ mas de Ingeborg Bachmann uma contemplação da língua alemã, etc.Mas,em todo o caso,trata­‑se de uma operação que ocorre na língua,que actua sobre o poder de dizer.E o sujeito poético é não o indivíduo que escreveu os poemas,mas o sujeito que se produz na altura em que a língua foi tornada inoperativa,e passou a ser, nele e para ele,puramente dizível. Se isto for verdade, então temos de mudar radicalmente o modo em que estamos habituados a olhar para o problema da re‑ 48 crítica do contemporâneo arte, inoperatividade, política
  • 24. De Weltgeschichte à Modernidade-Mundo. O problema de uma esfera pública global Prefácio: o Mundo e o Ocidente de hoje O mundo e o Ocidente, e não o Ocidente e o mundo. Nesta pro‑ vocante inversão da ordem das palavras,esta hendíadis segue de perto o título de uma famosa série de conferências: as Reith Lec‑ tures,palestras proferidas por Arnold Toynbee em 1952 a convite da bbc e publicadas no ano seguinte pela Oxford University Press (deste modo,publicadas antes da conclusão da monumental obra Study of History, publicada em dez volumes entre 1934 e 1954). Nunca, como neste caso, a inversão da ordem dos factores vio‑ lou o axioma matemático segundo o qual o produto se mantém igual.Aqui,a inversão esboça uma alteração radical do significado e do sentido, de tal ordem que desafia o vértice óptico tradicio‑ nal que,quer na filosofia da história quer nas ciências sociais dos séculos xix e xx, atribuiu uma posição privilegiada ao Ocidente. giacomo marramao 51
  • 25. do Novo Mundo, ainda assim encontra um referente significati‑ vo na história grega e romana do século iv a.C., com o advento do império Alexandrino. A marcha de Alexandre o Grande atra‑ vés da Ásia “produziu uma alteração tão revolucionária no equi‑ líbrio do poder no mundo quanto as viagens de Vasco da Gama e de Colombo”.4 Não há dúvida que, ao transformar a Terra numa esfera circum­‑navegável, a conquista da América marca o início da globalização moderna; contudo, não é menos verdade que no século ii a.C.,com a conquista da Índia até Bengala levada a cabo pelos Gregos e da fronteira do Atlântico representada pela penín‑ sula Ibérica e das ilhas Britânicas pelos Romanos, a civilização ocidental – ou seja, Greco­‑Romana – dessa época podia gabar­‑se de ter penetrado, graças à influência moral da sua cultura vito‑ riosa,aqueles que pareciam,na altura,os limiares de um planeta cuja forma e dimensão tinham já sido mais ou menos calculadas. O golpe do Ocidente causara, assim, ao mundo anterior ao ad‑ vento do Cristianismo “um choque tão severo quanto o impac‑ to da nossa cultura moderna ocidental lhe tem imposto desde o século xv da nossa era”.5 E, contudo, no movimento do centro radiante da tecnologia e cultura ocidentais da hegemonia grega e romana até à hegemo‑ nia da Europa moderna (que, de acordo com Toynbee, não pode ser compreendida sem a revolução científica para cuja incubação a civilização islâmica teve um contributo fundamental),e da Eu‑ ropa até à corrente supremacia americana e até ao “extremo Oci‑ dente” representado pela zona do Pacífico, aquilo que muda não é apenas a ideia de Ocidente (com um paradoxal efeito de “orien‑ talização” dos outrora centros dominantes),mas também a natu‑ reza e a configuração do “choque” entre o Ocidente e o mundo.Ao revisitá­‑la hoje,meio século mais tarde,a abordagem comparativa de Toynbee mostra­‑se – ainda que inevitavelmente condicionada giacomo marramao 53 conferências internacionais serralves 2007 • política OpróprioToynbeeantecipaaprevisívelobjecçãoàinversãodeter‑ mos que ele propõe: “Porque é que […] o livro foi intitulado O Mun‑ do e o Ocidente? Não será o Ocidente simplesmente um outro nome para uma qualquer parte do mundo com algum tipo de importân‑ cia do ponto de vista prático hoje em dia? E,se o autor sente a ne‑ cessidade de dizer algo acerca do resto do mundo não­‑Ocidental, porque é que tem de pôr as duas palavras por esta ordem? Por que não escrever O Ocidente e o Mundo em vez de O Mundo e o Ocidente? Pelo menos podia ter colocado o Ocidente primeiro.”1 A resposta é tão radical e acutilante que clarifica de alguma forma o ponto de vista interpretativo subjacente à abordagem comparativa das civilizações tomada numa obra tãovasta e ambi‑ ciosa como esta,comparável,nesta área,apenas com a de Fernand Braudel. Podemos resumir de forma drástica este ponto de vista interpretativo em três teses cardinais: Primeira,não só o Ocidente “nunca foi todo o mundo que interessa”,como também não foi “o único actor no palco da história moderna, nem mesmo no auge do poder ocidental (e este auge poderá já ter passado).” Segunda, no encontro entre o mundo e o Ocidente que dura há já quatro ou cinco séculos, a parte que teve a “experiência significativa” tem sido,até ao momento,não o Ocidente,mas o Resto – o resto do mun‑ do. Terceira, no “embate” [urto] entre o Ocidente e o Resto, não foi o Ocidente a que recebeu um golpe do mundo, mas sim “o mundo que recebeu um golpe – e um golpe severo – do Ocidente”.2 A teoria de Toynbee do “embate” confronta­‑nos com o longo prazo, com a profundidade histórica e estrutural desse conjunto de acontecimentos actualmente agregados nesse ubíquo verbete que é a “globalização”: um entrelaçado de eventos que só podem ser compreendidos indo às raízes dessa “expansão do Ocidente sobre o mundo”3 que,se é certo que tem o seu ponto de viragem no final do século xv com a conquista dos mares e o descobrimento de weltgeschichte à modernidade-mundo52 crítica do contemporâneo
  • 26. criticara. O choque entre o mundo e o Ocidente provocado pela expansão planetária da Europa moderna não seria mais do que uma ocidentalização tecnológica que se impôs com a retaliação de uma des­‑ocidentalização espiritual: “o presente encontro entre o mundo e o Ocidente desloca­‑se agora do plano tecnológico para o plano espiritual”.8 Um resultado destes – que parece ecoar, ainda que com tons e modulações bastante diferentes, um famoso ditado da grande “cultura da crise europeia” no século xx – depende,se o conside‑ rarmos cuidadosamente,da presença de uma tensão não resolvi‑ da que atravessa toda a estrutura da análise.Apesar da exortação inicial de “sair da [própria] pele nativa ocidental e olhar para o encontro entre o mundo e o Ocidente através dos olhos da grande maioria não ocidental da humanidade”,9 Toynbee é efectivamen‑ te incapaz de fugir ao preconceito subjacente às abordagens com‑ parativas europeias,e continua a considerar a Europa e o Ociden‑ te o centro de radiação da dinâmica global. Actualmente, as perspectivas teóricas propostas por estudos culturais e pós­‑coloniais (H.Bhabha,G.Spivak,R.Young) forçam as elites intelectuais e políticas da Europa em direcção a uma co‑ rajosa relativização do papel ao qual haviam sido destinados pelo conceito moderno de História ao longo dos últimos dois séculos. O provocador convite para “provincializar a Europa”, dirigido às ciências sociais do Ocidente por um representante dos estudos subordinados como Dipesh Chakrabarty,10 desafia não só as “nar‑ rativas” tradicionais da filosofia da história, que apresentam o Velho Continente como o berço da humanitas e centro propulsor de uma dinâmica de universalização, como também as aborda‑ gens comparativas, que assumindo a excepcionalidade europeia transformaram a Europa no ponto radiante da modernidade des‑ tinada a espalhar­‑se por todo o globo – uma modernidade perante giacomo marramao 55 conferências internacionais serralves 2007 • política pelas vantagens do mundo bipolar – não só antecipatória da pre‑ sente era em muitos aspectos; ela apresenta­‑se como um precioso correctivo para muitas genealogias filosóficas,nas suas reivindi‑ cações de reduzir os conflitos globais actuais a um domínio pela tecnologia que pode ser inscrita na matriz grega do Ocidente des‑ de as suas origens.Se adoptarmos um projecto tão redutor,perde‑ mos de vista não só a génese espúria da cultura “ocidental” a par‑ tir das civilizações do próximo e do extremo “Oriente”,conforme documentada pelos mais acreditados estudos de “orientalismo” (quero aqui mencionar o Mesopotamia,de Jean Bottero,que come‑ ça com uma introdução convenientemente intitulada “O Nasci‑ mento do Ocidente”),6 mas também perdemos de vista a natureza to‑ talmente ocidental do dualismo “Oriente/Ocidente” que remonta à polaridade Gregos/Bárbaros introduzida por Heródoto no incipit das suas Histórias.Além disso,perdemos vista não só da deslocação para ocidente desse par de opostos, com a consequência de que com a identificação do Ocidente com a zona franco­‑germânica a Grécia acabou por ser considerada parte do “império do Oriente”, ao passo que hoje em dia a Europa é tratada como uma entidade ambígua e indecifrável pelo Ocidente por excelência,representa‑ do pelos Estados Unidos da América; perdemos de vista também as mudanças na forma e na estrutura do mundo produzidas sub‑ sequentemente pelas diversas fases do “embate”. Foi só na época moderna, marcada – citando Carlo Cipolla – pela combinação letal do veleiro com o canhão,7 que a civilização ocidental sofre uma desterritorialização e contorna os impérios terrestres da Ásia via mar.Contudo,Toynbee interpreta este pon‑ to de viragem, em que a técnica ganha autonomia e dá origem a um entrelaçado nunca antes visto de avanço industrial, poder militar e expansão comercial, recorrendo a um esquema biná‑ rio absolutamente semelhante àqueles que ele próprio sempre 54 crítica do contemporâneo de weltgeschichte à modernidade-mundo
  • 27. plexidade do conceito de interesse após os séculos xvii e xviii, que não pode, de todo, ser reduzida ao ambiente estritamente económico­‑utilitário) e do conflito de identidades. Uma relação deste tipo pode ser resumida pelo par redistribuição­‑reconhecimento (que nos últimos anos tem esta‑ do no centro de um interessante confronto entre Nancy Fraser e Axel Honneth), e pode ser entendida, hoje em dia, apenas à luz de uma redefinição radical do conceito de esfera pública clara‑ mente demarcada quer do significado procedimental de Rawls quer do significado crítico­‑comunicativo de Habermas. Por um lado, a esfera pública política não pode ser considerada simples‑ mente como o espaço de um consenso imbricado que funciona na negociação das regras procedimentais da justiça que põe en‑ tre parêntesis o conflito das “noções globais” do bem. Por outro lado, também não pode ser entendido como uma mera troca co‑ municacional de argumentos racionais de valor que funcionam para uma Verständigung mais alargada e inclusiva; pelo contrário, tem de ser entendido como um encontro­‑confronto de “narrati‑ vas” que se relacionam com a organização da sociedade global e têm a sua origem em diferentes contextos de experiência e de mundos vivenciais. Porém, uma complicação adicional surge da circunstân‑ cia de, por causa do seu potencial de auto­‑justificação e de auto­ ‑legitimização (que não é inferior ao produzido pelos esquemas de argumentação racional de valores), as narrações têm de ser tomadas na sua contingência. Daqui deriva uma dupla exigência: 1) substituir a noção de tolerância pela de respeito mútuo entre identidades e culturas (um “respeito” que,por um lado,toma em consideração o apelo de Derrida para a responsabilidade entendi‑ da como um “responder a” em vez de uma “réplica de”, ou seja, enquanto uma disponibilidade para ser questionado pelo outro, giacomo marramao 57 conferências internacionais serralves 2007 • política a qual qualquer movimento ou tendência de mudança que venha de zonas extra­‑europeias ou não ocidentais é interpretado como uma mera manifestação “reactiva” aos processos expansionistas de modernização. A partir dos antecedentes que acabei de delinear, vou agora tentar esboçar uma leitura da “hit waive” que atravessa presen‑ temente o mundo globalizado e que, por um lado, tem a capa‑ cidade de tirar proveito do trabalho de “desconstrução” e locali‑ zação da civilização europeia/ocidental realizado pelos estudos pós­‑coloniais,e por outro,é capaz de abordar o problema de uma possível re­‑localização da região europeia após o desencanto. O ob‑ jectivo deste ensaio é questionar a existência (real ou virtual) de uma esfera pública global.Na minha opinião,esta é uma questão mais plausível (e analiticamente viável) do que as teses segundo as quais já existe uma “sociedade civil global”,ainda que in nuce (a globale Zivilgesellschaft de Ulrich Beck,que teria tomado o lugar da clássica bürgerliche Gesellschaft de tradição hegeliano­‑marxista). Colocar uma questão destas implica,contudo,uma dupla ope‑ ração: 1) estabelecer uma crítica da comunicação e 2) começar por ganhar consciência da existência,no mundo globalizado,de uma pluralidade de “esferas públicas da diáspora” (Arjun Appadurai)11 que fogem à lógica territorial da soberania dos estados­‑nação e à forma como a sociologia, a começar por Roland Robertson, tem olhado até à data para o fenómeno da glo­‑cal (ou glocalização).12 A primeira operação fica, em regra, acessível através de algu‑ mas revisões recentes dos prognósticos optimistas da aldeia glo‑ bal levadas a cabo pelos teóricos da multimédia electrónica.Para estes,em vez de produzir uma única esfera,a rede originou uma multiplicidade de esferas centrífugas.A segunda operação traz à cena a relação problemática entre as duas dimensões do conflito de interesses (ou melhor,do conflito de preferências,dada a com‑ 56 crítica do contemporâneo de weltgeschichte à modernidade-mundo
  • 28. Argumentações 1. Era Global: Oportunidades e Riscos. O título do livro, Passaggio a Occidente [Passagem a Ocidente], abrange a questão fulcral da tese. A meu ver, o conjunto heterogéneo de fenómenos que estamos habituados a agregar no quadro da “globalização” não pode ser entendido quer em termos de homologação universal através de “um pensamento único” (Francis Fukuyama),ou seja,da “ociden‑ talização do mundo” (Serge Latouche),15 quer em termos do “cho‑ que civilizacional” (Samuel Huntington),16 mas sim em termos de uma passagem a Ocidente. O termo “passagem” deve ser lido com o seu duplo significado de viagem e mudança, de risco e opor‑ tunidade. O processo que, tendo começado no final da década de 1980, está a ocorrer perante o nosso olhar é, em última análise, nada mais do que uma passagem impenetrável de toda a cultura no sentido Noroeste – uma movimentação perigosa no sentido da modernidade, destinada a produzir profundas transformações nas economias, sociedades e estilos de vida, não só dos “outros”, mas também da própria civilização ocidental.No título deposita­ ‑se,pois,a tese que conduz as múltiplas “circum­‑navegações” do livro.Em certo sentido,este abrange in nuce a minha tematização filosófica desse conjunto de fenómenos frequentemente “heteró‑ logos” que é geralmente sintetizada nas áreas culturais e linguís‑ ticas germânicas e anglo­‑saxónicas sob o rótulo de “globalização” e que na área cultural e linguística românica,comum aos países neo­‑latinos,dá pelo nome “mundialização”. 2. Pós­‑modernismo ou Modernidade-Mundo? Em que sentido se pode distinguir uma diferença entre dois lemas geralmente utilizados como sinónimos? A mundialização é um termo car‑ regado de implicações simbólicas, mais do que semânticas, do giacomo marramao 59 conferências internacionais serralves 2007 • política e, por outro lado, não excluir a contaminação, o confronto e, em última análise, o próprio conflito; e 2) subtrair a categoria do reconhecimento das tentações supremacistas condescendentes e relativistas. Um passo argumentativo deste género implica,antes de mais, uma distinção clara entre relativismo cultural (a aquisição relevan‑ te e ponto de viragem da grande antropologia do século xx) e rela‑ tivismo ético; e,em segundo lugar,implica uma dissociação das no‑ ções–frequentementeassimiladasdemodoerradoouinadequado – de incomensurabilidade e de incomparabilidade entre hierarquias de valores diferentes. De uma forma resumida, o facto de não exis‑ tir um parâmetro único de comensurabilidade entre os contextos simbólico­‑culturais (conforme ensinado por Isaiah Berlin) não significa eo ipso que estes sejam incomparáveis entre si. Uma esfera pública que é construída em torno de premissas deste género terá de sujeitar­‑se ao critério de uma política univer‑ salista da diferença,fortemente demarcada,por um lado,da política universalista da identidade do género do Iluminismo (que encon‑ tra a sua mais nobre declinação com Kant) e, por outro lado, das políticas anti­‑universalistas da diferença (que são avançadas na América do Norte pelos comunitaristas e por algumas versões do multiculturalismo,e na Europa pela etnopolítica “orientada para a segurança” de diversos movimentos regionalistas e liguistas [leghismi].13 As teses que acabei de enunciar baseiam­‑se em dez argumen‑ tações, através das quais eu abordo e desenvolvo a leitura inter‑ pretativa do mundo global que tentei propor num trabalho re‑ cente,Passaggio a Occidente.Filosofia e globalizzazione.14 58 crítica do contemporâneo de weltgeschichte à modernidade-mundo
  • 29. Partindo de uma natureza endógena, ou seja, interna aos países ocidentais de tradição judaico­‑cristã, a dinâmica deste processo tornou­‑se exógena a ponto de afectar as realidades socio culturais e experiências religiosas mais remotas. Neste sentido, mais do que o advento da “condição pós­ ‑moderna” (anunciada num panfleto com o mesmo título por Jean­‑François Lyotard em 1979),a globalização parece marcar um trânsito problemático e acidentado da nação­‑modernidade para o mundo­‑modernidade. 3. Padronização e Diferenciação. Temos de evitar a alternativa pa‑ radigmática de acordo com a qual a globalização é a homologa‑ ção total ou o choque civilizacional. Em vez disso, estou conven‑ cido de que a padronização e a diferenciação são duas faces de um mesmo processo – duas tendências que se integram e refu‑ tam simultaneamente. Observando as coisas nesta perspectiva, as teses contrárias de Fukuyama (homologação universal sob o signo do individualismo competitivo) e de Huntington (o mundo pós­‑Guerra Fria como palco de um conflito intercultural ao ní‑ vel planetário) parecem não tanto uma alternativa drástica,mas sim como duas meias verdades. Por um lado, a globalização é a padronização tecno­‑económica e financeiro­‑mercantil com o fe‑ nómeno consequente da desterritorialização e crescente interde‑ pendência entre as diversas zonas do planeta; contudo,por outro lado, é uma tendência igualmente acelerada de diferenciação e reterritorialização de identidades – de relocalização dos proces‑ sos de identificação simbólica.Entre os dois aspectos,que o léxico sociológico tende a resumir no oximoro glocal, existe, a meu ver, uma relação interfacial.Mas,ao mesmo tempo,pode ocorrer um perigoso curto­‑circuito com efeitos paralisantes. giacomo marramao 61 conferências internacionais serralves 2007 • política latim mundus, numa referência inevitável à ideia de “mundani‑ zação” e, assim, “secularização”. Expressões como “mundial” e “mundano” contêm uma referência incontornável à noção de saeculum e, consequentemente, ao campo de tensões entre o transcendente e o imanente,o céu e a terra.Pelo contrário,a glo‑ balização transporta consigo a ideia de plenitude espacial de um tal processo,a ideia de um mundo que se tornou finalmente num globo circum­‑navegável – esta é,contudo,uma ideia que tem sido rejeitada das mais variadas e controversas maneiras.Muitos (aci‑ ma de tudo Martin Albrow) reivindicam que a globalização é um fenómeno pós­‑moderno,um novo filme com um argumento toto coelo diferente de todos os outros filmes vistos até à data.É como se nos dissessem: o filme da modernidade acabou,agora começa o filme global. É uma posição com a qual não me identifico, pela simples razão,mas decisiva,de que nas fases e épocas históricas não se sucedem originando princípios e fins absolutos.Tal como não há filmes que começam e filmes que acabam, também não podemos dizer que até certo momento (A Primeira Guerra Mun‑ dial? A Segunda Guerra Mundial? A queda do muro?) existia um espaço moderno e que agora começou um espaço inteiramente novo que seria o global.Quero com isto dizer que entre duas épo‑ cas ou,se preferirem,entre dois arranjos espaciais não existe um limiar absoluto nem uma ruptura longitudinal.Em suma,temos de compreender que, na sua génese e na sua estrutura, o espaço global não pode ser concebido senão como consequência da moder‑ nidade (Anthony Giddens).17 Quero esclarecer que defender uma reivindicação destas não é o mesmo que dizer que não existem ou que não podem existir pontos de ruptura.Simplesmente significa que,precisamente para alcançar os aspectos actuais da novidade do espaço global,é necessário considerá­‑lo numa perspectiva que o relaciona de perto com o processo modernista de secularização. 60 crítica do contemporâneo de weltgeschichte à modernidade-mundo
  • 30. quantitativa. É precisamente o inexorável retraimento da eficá‑ cia das prerrogativas da soberania territorial na determinação da “quebra” na função intermediária entre o global e o local, uma função que durante a modernidade foi levada a cabo pelo Estado. O “curto­‑circuito” ocorre porque os Estados soberanos individu‑ ais são pequenos demais para confrontar os desafios do mercado global e grandes demais para controlar a proliferação dos assun‑ tos, reivindicações e conflitos induzidos por diversos regionalis‑ mos.Assim,surge aquilo a que no meu livro chamo as “tenazes” da globalização. Também em relação a este assunto me parece apropriado dissipar alguns equívocos. Seria demasiado simples interpretar o hífen em “glo­‑cal” como um mero sinal de disjunção e não como um sinal de conjunção (seguindo assim a chave inter‑ pretativa proposta por Zygmunt Bauman nos seus ensaios ainda assim dignos de mérito) – como uma simples linha de separação entre o cosmopolitismo dos ricos,vistos como a sociedade do jet set indiferente a qualquer fronteira,e o regionalismo dos pobres, constrangidos e encerrados nos seus locais cada vez mais margi‑ nais e periféricos. Se as coisas fossem realmente assim, a condi‑ ção global seria muito pouco paradoxal e muito mais tranquiliza‑ dora.Mas o que acontece é o inverso: o paradoxo com que temos de lidar hoje é um cosmopolitismo dos pobres perante um regio‑ nalismo dos ricos. Isto é tão pertinente que a ferramenta mais adequada para avaliar a intensidade das reivindicações regiona‑ listas e de autonomia parece ser o “ricómetro”. De outro modo, não podemos compreender porque é que as políticas de descen‑ tralização estão mais presentes nas regiões mais ricas do planeta (do Nordeste de Itália a outras regiões prósperas da Europa, dos países do Mercosul aos do Sudeste Asiático),enquanto os pedidos do universalismo vêm das regiões mais pobres. Que fique claro que isso não significa que os pobres sejam imunes ao vírus global, giacomo marramao 63 conferências internacionais serralves 2007 • política 4. O curto­‑circuito do “glocal”: uma interpretação filosófico­‑política. O que é, precisamente, o fenómeno do curto­‑circuito? O curto­ ‑circuito é originado pela quebra de uma ligação intermediária na moderna ordem internacional que surgiu dos massacres das guerras civis religiosas entre católicos e protestantes, e que foi sancionada pela Paz de Vestfália em meados do século xvii.Esta é a ligação representada pelo Estado­‑Nação e pela estrutura que o suporta: o isomorfismo entre pessoas,território e soberania.Nes‑ te ponto é necessário esclarecer de uma vez por todas a questão do long seller da “crise do Estado” que atravessa todos os grandes debates filosóficos e jurídico­‑políticos desde o início do fim do século xx. O centro da controvérsia em torno de temas como a obsolescência do Estado­‑Nação, a erosão da soberania, etc., não pode ser abordado de um ponto de vista puramente sociológico. Isso acontece pela simples razão de que a aplicação dos métodos quantitativos da sociologia nos forneceria um resultado diame‑ tralmente oposto ao diagnóstico da crise do Estado.Se analisásse‑ mos o estado de saúde do Estado de uma perspectiva quantitativa e através do recurso exclusivo ao método de medição,o resultado seria que hoje em dia esse estado de saúde seria excelente, dado que desde 1989 o mundo viu um verdadeiro boom no surgimento de Estados nacionais e sub­‑nacionais (hoje há muito mais Esta‑ dos a fazerem parte da Organização das Nações Unidas que antes da queda do muro de Berlim),e as instâncias e funções do Estado não diminuíram,tendo­‑se antes expandido.O declínio do Estado tem de ser lido,não em termos puramente sociológicos ou quan‑ titativos, mas em termos políticos e qualitativos – focando a efi‑ cácia da soberania dos estados individuais. A situação do Estado no seio do mundo global devolve­‑nos, portanto, o paradoxo de uma “saúde mortífera”, de um “declínio no crescimento” – de um grau de eficácia inversamente proporcional à taxa de expansão 62 crítica do contemporâneo de weltgeschichte à modernidade-mundo
  • 31. Huntington.Se considerarmos cuidadosamente,a forma do con‑ flito global parece muito mais próxima das guerras religiosas que antecederam o nascimento dos modernos Estados seculares que de um choque de alegadamente monólitos culturais. O facto de as religiões se apresentarem como um momento importante no conflito global parece­‑me uma prova de fundo para a tese que ten‑ tei delinear no meu livro e que tive oportunidade de discutir nos últimos meses, descobrindo convergências significativas com Marc Augé, um grande antropólogo e extraordinário analista da “dinâmica cultural” – que as religiões são por definição agregados identitários do tipo transcultural.As grandes religiões nunca se identificam com apenas uma civilização.Nenhuma das “religiões mundiais”podeserreduzidaaumadimensãoelatitudemonocul‑ tural.Isto acontece certamente na religião islâmica,que nós oci‑ dentais temos a tendência a identificar com o mundo árabe,ape‑ sar de ser uma linha que vai de Marrocos à Indonésia e se estende por tradições históricas e realidades culturais muito diferentes. É, contudo, necessário tomar em consideração que este fenó‑ meno,frequentemente reduzido a estereótipos do tipo o “regres‑ so do sagrado”,traz consigo uma mudança radical e silenciosa na função da religião no seio do mundo globalizado.Já não nos rela‑ cionamos com a “religião invisível”,que uma falsa previsão con‑ finou precipitadamente à privacidade do foro interior, nem com uma “religiosidade” entendida como uma surpreendente vitali‑ dade da fé após a morte das ideologias; emvez disso,relacionamo­ ‑nos com religiões (no plural) como factores de identificação sim‑ bólica e de pertença. São factores de identificação e também de conflito, exactamente pela mesma razão. Este conflito não pode certamente ser reduzido ao modelo utilitário da racionalidade do individualismo moderno; contudo, também não pode ser enten‑ dido por recurso à pura lógica do interesse ou do poder.Dito isto, giacomo marramao 65 conferências internacionais serralves 2007 • política a essa verdadeira “pandemia” a que eu chamo a obsessão identi‑ tária. Limito­‑me a dizer que o impulso para a invenção de uma identidade comunitária reconhecível e caracterizada per differen‑ tiam em relação a todas as outras – com a consequente fragmen‑ tação da sociedade global numa pluralidade de “esferas públicas da diáspora” – constitui um fenómeno reactivo: um mecanismo de defesa­‑reacção a esta globalização. Esta é uma globalização que homologa mas não universaliza,comprime mas não unifica. Assim, por detrás da falsa aparência da “política da diferença”, produz uma proliferação constante da lógica da identidade.Todas as mudanças significativas na história do homem foram precedi‑ das de grandes eventos migratórios: por contaminações de cultu‑ ras (e, naturalmente, também por reacções alérgicas às crescen‑ tes sinergias).É exactamente a isto que estamos a assistir quer na cultura ocidental pejada de processos migratórios quer noutras culturas que, apesar de dominadas pela figura do nómada ou do migrante,desejam um processo de contaminação connosco. 5. Redistribuição/reconhecimento: o conflito de interesses e o conflito de identidades. Nesta altura surge inevitavelmente a questão dos ac‑ tores da nova dimensão do conflito mundial.Anatureza do confli‑ to global representa certamente uma das questões determinantes dos tempos que correm. Estamos a aproximar­‑nos de formas de conflito muito diferentes daquelas a que a modernidade nos ha‑ bituou. No mundo globalizado, a natureza do conflito é simulta‑ neamente pós­‑nacional e transcultural: ultrapassa as fronteiras do Estado­‑Nação e atravessa identidades culturais e linguísticas. Com isto quero dizer que no mundo globalizado não são só as cul‑ turas,mas também as religiões que aparecem enquanto sujeitos e referentes no conflito. Porém, as religiões complicam e deses‑ tabilizam a linearidade geométrica do choque civilizacional de 64 crítica do contemporâneo de weltgeschichte à modernidade-mundo
  • 32. forma do conflito afecta o paradigma contratual da modernidade política no seu âmago, uma modernidade política que vê a sua representação simbólica clássica na imagem do Estado­‑Leviatã como uma macro­‑estrutura ou máquina gigantesca.Por causa da pressuposição “isométrica” inerente ao contratualismo, as téc‑ nicas procedimentais do Estado­‑Leviatã (não apenas do Leviatã absoluto de Hobbes,mas também do Leviatã democrático de um teórico liberal como Rawls) só são capazes de reger conflitos de interesse,mas não – e este é o ponto crucial – conflitos de identi‑ dade,através de medidas compensatórias de justiça distributiva. Para resolver de um modo liberatório o esperado antagonis‑ mo catastrófico entre o universalismo neutralizante do Estado moderno e o fetichismo identitário do comunitarismo e de certas variações de multiculturalismo,propus uma esfera pública global marcada por uma política universalista da “diferença”. Digo dife‑ rença no singular e não no plural (as famosas diferenças culturais acerca das quais todos ou quase todos falam hoje em dia). Para o explicar melhor, eu entendo a diferença não como um espaço, assunto ou condição particular,mas como um “vértice óptico” ca‑ paz de, no plano teórico, quebrar com o paradigma distributivo e centrado no “estado” da política e de, no plano prático, acabar com a isometria das instituições democráticas estruturalmente incapazes de lidar com as novas formas de conflito.Longe de ser uma terceira via entre o universalismo e as diferenças,entre o li‑ beralismo e o comunitarismo – os cemitérios do século xix estão cobertos de terceiras vias,como bem sabemos – a minha proposta procura reconstruir o universal, não baseado na ideia de um de‑ nominador comum, mas no critério da diferença. O princípio de reconstrução do universal só pode,por isso,ser compreendido em termos de uma síntese disjuntiva – baseada no pressuposto da dife‑ rença particular de cada um,inalienável e inapropriável.No meu giacomo marramao 67 conferências internacionais serralves 2007 • política não devemos pensar que nestes novos conflitos não está presente a componente material e estratégica. Seja qual for a fase histó‑ rica,não conseguimos observar um entrelaçamento inextricável das duas dimensões de “contrato” e “conversão” (A.Pizzorno),de “conflito redistributivo” e “luta por reconhecimento” (Nancy Fra‑ ser/AxelHonneth),deinteresseseidentidade,devontadedepoder e vontade de valor.Tal como a dimensão ética e identitária este‑ ve presente também na luta de classes mais industrial e sindical, também a dimensão do interesse económico esteve longe se estar ausente das guerras religiosas entre os católicos e os huguenotes em França.Contudo,a questão é a de identificar,vez após vez den‑ tro do aspecto constante do entrelaçado, a “característica domi‑ nante” que imprime a sua forma distintiva ao conflito.Neste sen‑ tido,para caracterizar a natureza do conflito global no meu livro, pensei que tal característica dominante poderia ser identificada no momento identitário. Com isto não quis de todo colocar a hi‑ pótese de uma espécie de “passagem do testemunho” do domínio industrial do conflito de interesses para o domínio pós­‑industrial do conflito de identidades; o que tentei foi realçar como, na fase actual, o momento identitário tende a encapsular dentro de si também o momento utilitário.No nosso mundo,parece cada vez mais difícil fazer a pergunta clássica do individualismo moderno “—O que quero?” sem antes perguntar “—Quem sou eu?”. A inter‑ rogação simbólica no que toca à identidade aparece assim como uma condição sine qua non para podermos identificar os nossos próprios interesses e a nossa escala de preferências. 6. Diferença – não diferenças. Qual é a repercussão que tudo isto pode ter ao nível da política real? Na minha opinião,as repercus‑ sões são vastas tanto na teoria como na prática,tanto na conste‑ lação conceptual como na realidade efectiva do “político”.A nova 66 crítica do contemporâneo de weltgeschichte à modernidade-mundo

Related Documents