DISCIPLINA: JORNALISMO INTERNACIONALProfessor Msc. ALFREDO GARCIA.Data: 03/03/2011. Por que os jornalistas morrem? ...
de reportar a história, temos que ao menos tentar colocar os sentimentos de lado e deixar queos fatos falem por si. ...
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Por que os jornalistas morrem

Published on: Mar 4, 2016
Published in: Education      
Source: www.slideshare.net


Transcripts - Por que os jornalistas morrem

  • 1. DISCIPLINA: JORNALISMO INTERNACIONALProfessor Msc. ALFREDO GARCIA.Data: 03/03/2011. Por que os jornalistas morrem? Cristiana Mesquita (*) A morte do jornalista Daniel Pearl (em 2002 no Afeganistão) desencadeou umadiscussão importante sobre o comportamento da imprensa nos conflitos recentes. Por"recentes" estou me referindo da Guerra do Vietnam para cá, já que não podemos falar daSegunda Guerra Mundial porque os tempos eram outros e o jornalismo era outro. Foi bom ler o artigo Journalists are now targets – but who is to blame forthis? (Jornalistas agora são alvos – mas de quem é a culpa?), de Robert Fisk, no jornal TheIndependent [23/2/02, ver remissão abaixo]. Todo mundo leu e comentou o artigo do jornalistainglês que faz pertinentes criticas aos colegas que chegam ao absurdo de usar uniformes e atéa andar armados. Não vou me dar o trabalho de comentar o uso de armas por jornalistasporque isso beira a loucura e, graças a Deus, é raro. No campo, nós chamamos estesjornalistas fantasiados de "cowboys" e fugimos deles como o diabo foge da cruz, porque atéficar por perto é um perigo. Admito que, às vezes, eu mesma adoto parte da indumentária local por motivospráticos. Se você está dirigindo por uma estrada e mal pode respirar por causa da poeira, nãovejo nada de mais em comprar um lenço no bazar local para cobrir o rosto, desde que esselenço não nos identifique com um grupo ou facção. Mas, como o próprio Fisk escreveu, não hácomo disfarçar o fato de que somos estrangeiros, ocidentais, infiéis etc. Além disso, somosobrigados pelas nossas empresas (por exigência das companhias de seguro) a usar coletes àprova de bala e capacetes. Esses adereços já nos transformam numa espécie de exército àparte e faz com que nós nos destaquemos da multidão. Muitos jornalistas, eu inclusive, só usam essa parafernália quando absolutamentenecessário – como numa incursão a uma frente de batalha ou em deslocamentos por estradasperigosas, que é onde morre a maioria dos jornalistas. Com coletes, capacetes, canivetessuíços e um bom café da manhã estamos, muitas vezes, mais bem equipados do que apopulação e a maioria dos exércitos locais. Em Sarajevo, por exemplo, confesso que tinha vergonha de andar com toda essaproteção, enquanto a população civil era alvo de franco-atiradores em cada esquina. Oproblema é que fica tão bonitinho na televisão... Todo repórter de vídeo sonha com aquelapassagem ao lado de um tanque, paramentado com colete e capacete azul, mostrando aomundo como ele/ela é corajoso e como aquele lugar é perigoso. Mas, cá entre nos, vamos falar sério. O que está matando jornalistas não é aindumentária do repórter, mas a maneira de reportar. Engajamento Já faz algum tempo que venho observando com horror a mudança de "estilo" nojornalismo de uma maneira geral e no jornalismo de guerra em particular. Só para citar algunsexemplos: vimos a CNN entrar num acordo com Saddam Hussein para permanecer em Bagdáquando todas as outras redes de televisão estavam sendo expulsas do país. Só Deus sabe oque a CNN ofereceu em troca. Vimos a famosa jornalista Christianne Amampour, também daCNN, cobrar do presidente Clinton, numa entrevista ao vivo, a imediata intervenção do exércitoamericano na Bósnia. O engajamento da Christianne, que no meu livrinho é mau jornalismo, foidecisivo para os acontecimentos da guerra e rendeu à repórter um contrato de um milhão dedólares por ano. Outro famoso repórter da BBC – John Simpson – fez questão de se adiantar às tropasda Aliança do Norte e, ao entrar na capital do Afeganistão, anunciou, ao vivo e em cores, que aBBC estava liberando Cabul. Ora, ninguém tem sangue de barata, e muitas vezes não podemos evitar chorar esofrer com o desespero das vítimas de uma guerra. E ainda bem que é assim, porque no diaem que não sentirmos nada, devemos parar tudo e procurar uma terapia urgente. Mas, na hora
  • 2. de reportar a história, temos que ao menos tentar colocar os sentimentos de lado e deixar queos fatos falem por si. Mais do que qualquer outra coisa foi a busca de neutralidade e imparcialidade que nosmanteve vivos. Mas parece que esses são conceitos antiquados e incompatíveis com ojornalismo moderno e participativo de hoje em dia. Redes mundiais Precisamos lembrar que, com as redes mundiais e a internet, tudo o que fazemos edizemos pode ser visto e ouvido por todos, inclusive por aqueles de quem estamos tratando.Osama bin Laden, por exemplo, contava com uma complexa rede de comunicação via internete tinha acesso a parabólicas que permitiam a ele acompanhar todo o noticiário internacional.Portanto, ele poderia ter desafetos neste ou naquele repórter. Já houve situações em que escapei da morte simplesmente por provar que nãotrabalhava para a BBC ou para a CNN. Isso é inevitável, mas faz com que o nosso trabalhofique muito mais perigoso. Ainda se discute se Daniel Pearl foi morto porque era americano ou judeu oucorrespondente do Wall Street Journal. Artigo publicado neste Observatório insiste em que elefoi morto por ser. Não concordo. Se fossem matar todos os judeus da imprensa não sairiajornal no dia seguinte. Penso que Pearl morreu, antes de tudo, porque era americano. Se fosseinglês, também serviria. É claro que se além de inglês ou americano o sujeito for judeu émelhor ainda. Com o envolvimento desses países nas guerras, as empresas estão cada vezmais optando por jornalistas de nacionalidades neutras, como australianos, sul-africanos,neozelandeses e até mesmo brasileiros. A morte de um cidadão inglês ou americano é uma valiosa arma de propaganda.Quantos jornais do mundo colocariam na primeira pagina o título "Jornalista brasileira éexecutada por extremistas no Paquistão”? Crise de identidade Vamos falar sério novamente. Em setembro do ano passado, o líder da Aliança doNorte, comandante Masoud, foi assassinado no Afeganistão por militantes do Talibã que sepassavam por uma equipe de televisão que ele recebia para uma entrevista. Não me lembrobem dos detalhes, mas houve também o caso da polícia holandesa que se disfarçou de equipede TV para obter acesso a um local onde algumas pessoas estavam sendo mantidas comoreféns. Uma vez lá dentro, as câmeras se transformaram em armas e os seqüestradores forammortos. Aqui mesmo, no Brasil, lembro de um homem que apontava o revólver para o pescoçode uma jovem quando um cinegrafista se aproximou e conseguiu controlar o criminoso. Depoisficamos sabendo que o cinegrafista era, na verdade, um policial que pegou a câmeraemprestada para se aproximar do bandido. O caso da Holanda causou discussão nos órgãos de imprensa de lá, que protestaramcontra a atitude da policia, mas aqui ninguém falou nada. Deve ser porque estamosacostumados a essa confusão de papéis. A todo instante vemos jornalistas com câmerasescondidas fazendo trabalho de polícia... Portanto, não deve ser nada de mais ver um policialse passar por jornalista. Estamos vivendo uma crise de identidade. Precisamos rever os princípios básicos danossa profissão e nos agarrar a eles como o náufrago segura a tábua de salvação. Sequisermos nos engajar em alguma causa devemos trabalhar para uma ONG. Se quisermosficar famosos devemos fazer novelas. Se quisermos pegar o bandido ou entrar em combatedevemos trabalhar na polícia ou nos alistar no exército. Mas se queremos ser jornalistas eseguir vivos, devemos simplesmente reportar.(*) Cristiana Mesquita: no currículo, Sarajevo, Nicarágua, El Salvador, Kosovo, Bósnia,Afeganistão e Iraque. Chefe de produção da agência de notícias Associated Press TelevisionNews na América Latina. Este artigo foi publicado em 2002 no site Observatório da Imprensa.