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A razão pela qual a maioria das pessoas sente uma repulsa instintiva à clonagem é por, no fundo, sentir queesta marca o in...
está a ser agora desafiada por uma empresa concorrente. O fundador da Geron, Michael West, saiu destaempresa e chefia agor...
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Jeremy Rifkin, Por que me oponho à clonagem humana

Site: Crítica
Published on: Mar 4, 2016
Published in: Education      
Source: www.slideshare.net


Transcripts - Jeremy Rifkin, Por que me oponho à clonagem humana

  • 1. Por que me oponho à clonagem humana? Jeremy RifkinTradução de Vítor João OliveiraAté agora, o debate sobre a clonagem e as células estaminais tem sido visto por Washington e pelos meios decomunicação como uma luta clássica entre facções conservadoras, activistas pró-vida e a Igreja Católicacontra a comunidade científica e as forças progressistas, com os republicanos alinhados com um dos lados eos democratas com o outro. Na realidade, muitos de nós que estão do lado da esquerda progressista tambémse opõem tanto à clonagem terapêutica como à clonagem reprodutiva, embora as razões difiram em relaçãoa certos aspectos dos conservadores. Recentemente, sessenta e sete líderes progressistas deram o seu apoioà legislação que criminalizava a clonagem terapêutica e a clonagem reprodutiva. Entre os signatários dapetição anti-clonagem contavam-se muitos dos intelectuais e activistas mais respeitados dos actuais círculosde esquerda.Enquanto a oposição conservadora é bem entendida, nenhuma ou quase nenhuma atenção tem sido dadapelos meios de comunicação ou nos debates públicos ao porquê de alguns de nós de esquerda nos opormos àclonagem de embriões humanos com o fim específico de os usar para o cultivo de células estaminais paraexperiências médicas ou para possibilitar o nascimento de um bebé. Preocupamo-nos com a possibilidade domercado de óvulos humanos criados por esta investigação fornecer incentivos anti-éticos para ultrapassaros tratamentos com hormonas que ameaçam a saúde e a cirurgia. Também estamos preocupados com oaumento da bio-industrialização da vida pela comunidade científica e das companhias de investigaçãocientífica e chocados e alarmados com a possibilidade de os embriões de clones humanos poderem serpatenteados e declarados “invenções” humanas. Opomo-nos aos esforços para reduzir a vida humana e assuas diversas partes e processos ao estatuto de meras instrumentos de investigação, produtosmanufacturados e utilidades. Por outro lado, poucas pessoas de esquerda, se é que existem algumas, seopõem a investigação com células estaminais adultas, que podem ser retiradas de indivíduos nascidos e queprovaram ser promissoras em estudos com animais e testes clínicos. Esta abordagem “suave” ao uso da novaciência não levanta o risco ético, social e económico das estratégias para usar células estaminaisembrionárias.Além disso, inúmeras doenças, se não a maior parte, que os investigadores esperam tratar usando célulasestaminais embrionárias para produzir partes do corpo são o resultado de uma coreografia complexarealizada pelas nossas predisposições genéticas e por disposições ambientais. Ao concentrar a investigaçãocientífica quase exclusivamente em curas mágicas sob a forma de substituição de genes, a comunidademédica exclui opções preventivas menos invasivas — isto é, que se servem de uma compreensão deconhecimentos científicos sofisticados da relação entre os genes e o ambiente para desenvolver terapiasmédicas que têm sucesso nas pessoas.Também nos preocupa o declive ardiloso. Se usar um embrião clonado com doze dias para produzir célulasestaminais e tecidos é moralmente aceitável, o que impedirá a defesa futura do cultivo de células maisdesenvolvidas pertencentes, digamos, a embriões com oito semanas, ou o cultivo de órgãos de fetos clonadoscom cinco meses de idade, se isso se viesse a verificar ser uma terapia médica mais útil?E o que dizer da questão de clonar um ser humano nascido? A maioria dos membros do Congresso, de ambosos lados da cena política, opor-se-ia ao nascimento de um clone. Mas para a maioria do Congresso, a oposiçãoda comunidade científica e da indústria biotecnológica deve-se ao facto das técnicas de clonagem seremainda inseguras e representarem um elevado risco de produção de um bebé deformado. Um númerosubstancialmente inferior dos membros de ambos os lados da cena política opor-se-ia à clonagem de umbebé humano mas apenas até os procedimentos se revelaram seguros e confiáveis. Afinal, defendem osproponentes, se um casal infértil desejar transmitir a sua herança genética para produzir clones de um ou deambos os parceiros, não poderá exercer o seu direito de escolher no emergente mercado biotecnológico?Mais ainda, dizem-nos que as nossas preocupações são exageradas porque mesmo que um clone venha a tera mesma configuração genética que o original, o seu desenvolvimento será diferente, uma vez que o contextosocial e ambiental em que a sua vida ocorreria não seria igual ao do seu dador.O que escapa tanto aos liberais como aos libertários é o facto da clonagem de um ser humano levantarquestões fundamentais que estão para lá da verdadeira natureza do que significa ser um ser humano. Desdetempos imemoriais que temos concebido o nascimento da nossa progenitura como uma bênção concedidapor Deus ou por uma natureza beneficente. Celebramos a nossa descendência e empenhamo-nos em serparticipantes de um acto de criação. A união de um espermatozóide com um óvulo representa um momentode audível rendição a forças que estão para lá do nosso controlo. Damos parte de nós próprios a outrem e afusão da nossa masculinidade e feminilidade resulta numa nova criação única e finita. 1
  • 2. A razão pela qual a maioria das pessoas sente uma repulsa instintiva à clonagem é por, no fundo, sentir queesta marca o início de uma nova viagem em que “o dom da vida” será firmemente marginalizado eeventualmente abandonado em definitivo. Em seu lugar, a nova progenitura torna-se na derradeiraexperiência de consumo — concebida à partida, produzida por especificação e procurada no mercadobiológico.A clonagem é, em primeiro lugar e fundamentalmente, um acto de “produção,” e não de criação. Recorrendoàs novas tecnologias, um ser vivo é produzido com o mesmo grau de engenharia equivalente ao que éexpectável numa linha de montagem. Quando falamos em padrões tecnológicos, o que imediatamente nosvem à cabeça são coisas como controlo de qualidade e previsão de lucros. A clonagem de seres humanos nãoé mais do que isso. Pela primeira vez na história da nossa espécie, podemos determinar antecipadamente aconstituição genética da nossa descendência. A criança já não é uma criação única — insubstituível — mas oresultado de um acto de engenharia.A clonagem humana escancara a porta a um comercial Maravilhoso Mundo Novo. É um facto que ascompanhias de investigação científica já deram o salto que as coloca para lá do jogo político que está a serjogado no Congresso e nos meios de comunicação quando patentearam embriões e células estaminais,conferindo-lhes propriedade e controlo sob novas formas de comércio reprodutivo. Muitas pessoas deesquerda preocupam-se com a clonagem humana, investigação de células estaminais, células estaminaisembrionárias, e em breve o design de bebés será a base para novas formas de biocolonialismo em que asempresas de investigação da vida se tornarão os derradeiros árbitros do próprio processo evolutivo.Temos boas razões para nos preocuparmos. Enquanto os chefes de estado e os parlamentares se debatemcom a escalada da batalha entre os defensores do direito à vida e os investigadores, algo bem maisameaçador está a crescer gradualmente nos bastidores, com consequências potenciais devastadoras para asociedade. Cientistas americanos e britânicos e empresas de biotecnologia estão a usar tecnologia deembriões e células estaminais para desenvolver a estrutura de uma sociedade eugénica comercial comimplicações de longo prazo profundas para a espécie humana.A “eugenia” foi um termo introduzido pelo filósofo inglês, Sir Francis Galton, no séc. XIX. Significa usar aprodução para eliminar traços genéticos indesejáveis e acrescentar traços genéticos desejáveis paramelhorar as características de um organismo ou da espécie. Quando pensamos na eugenia, pensamos noplano malévolo de Adolf Hitler para criar uma raça “superior.” Hoje, contudo, um novo movimento eugénicoestá a ser meticulosamente preparado pelas administrações das empresas e longe do escrutínio público:uma eugenia comercial, bastante diferente do tipo de histeria eugénica social que engoliu o mundo naprimeira metade do séc. XX.A nossa história começa com uma pequena empresa de biotecnologia, a Roslin Bio-Med. A empresa foi criadaem Abril de 1988 pelo Instituto Roslin, uma empresa subsidiada pelo governo situada nas proximidades deEdimburgo, na Escócia, onde a ovelha Dolly foi clonada. Foi concedida uma licença exclusiva para o InstitutoRoslin usar tecnologia de clonagem na investigação biomédica. Um ano depois, o Roslin Bio-Med foi vendidoà Geron, uma empresa americana situada em MenloPark, na Califórnia. Depois, em Janeiro de 2000, oGabinete Inglês de Patentes atribuiu ao Dr. IanWilmut a propriedade sobre a sua tecnologia de clonagem. Apatente, agora propriedade da Geron, abrange o processo de clonagem e todos os animais produzidos peloprocesso de clonagem. O que o público não sabe — porque isto não tem praticamente recebido atenção — éque o Gabinete Inglês de Patentes garantiu a Wilmut e à sua empresa a patente sobre todos os embriõeshumanos clonados até à fase de blástula — a fase em que surgem as células estaminais polipotentes. Ogoverno inglês tornou-se, por isso, no primeiro governo do mundo a reconhecer o embrião humano comouma forma de propriedade intelectual. O Reino Unido também foi o primeiro país a sancionar o uso deembriões, e até de embriões clonados, na cultura de células estaminais.Apesar do sucesso britânico na criação de um regime regulamentador e comercial favorável à novainvestigação, foi a empresa americana Geron que se apressou a assegurar a tecnologia da clonagem. Mesmoantes de assegurar a patente do embrião, a Geron foi financiando discretamente a investigação de célulasestaminais conduzida por dois investigadores americanos, o Dr. James A. Thomson da Universidade deWisconsin e o Dr. John Gearhart da Universidade de John Hopkins em Baltimore, Maryland. Em Novembro de1988, ambos os cientistas anunciaram ter isolado e identificado independentemente células estaminaishumanas. A descoberta abriu a porta da era da experimentação com células estaminais em medicina. Asinstituições de investigação académicas candidataram-se imediatamente às patentes e venderam as licençasde exclusividade da sua utilização à Geron. Em conformidade com os termos do acordo da Universidade deJohn Hopkins, Gearhart recebe uma parte dos direitos das patentes da Geron. Gearhart e a John Hopkinsainda têm acções da Geron, e Gearhart é consultor da empresa. A Geron, antes sem concorrência no mercado, 2
  • 3. está a ser agora desafiada por uma empresa concorrente. O fundador da Geron, Michael West, saiu destaempresa e chefia agora a AdvancedCellTechnology, em Massachussets. A nova empresa de West assegurouas suas próprias patentes para clonar embriões não humanos e está a realizar experiências para encontrarformas alternativas de criar células estaminais humanas.Ao assegurar as patentes do processo de clonagem, bem como da clonagem de embriões e células estaminaishumanas, empresas como a Geron ou a AdvancedCellTechnology estão em posição de ditar os termos dosavanços futuros na investigação médica em células estaminais. A produção em massa de embriões humanosclonados garante uma fonte ilimitada de tipos de células estaminais que constituem a biologia da vidahumana. Investigadores, institutos e outras empresas de todo o mundo terão de pagar à Geron e àAdvancedCellTechnology para aceder ao uso de embriões de células estaminais que produzem, dada avantagem inicial da empresa no mercado. Se outros investigadores ou empresas acabarem por ser bem-sucedidos na obtenção de células diferenciadas a partir de células estaminais, terão de celebrar acordoscomerciais de vários tipos com a Geron e a AdvancedCellTechnology para assegurar o direito de produzir osprodutos.O que pressagia isto para o futuro? Para começar, a garantia de uma patente para embriões humanosclonados levanta uma questão política central. Podem as instituições comerciais reclamar uma vida humanaindividual potencial, sob a forma de propriedade intelectual no seu estágio inicial de desenvolvimento? Aresposta do Gabinete Inglês de Patentes foi “sim.” No séc. XIX, lutamos pela questão de saber se os sereshumanos nascidos podiam ser propriedade comercial e todas as nações acabaram por abolir a escravatura.Todavia, agora temos a tecnologia que permite a empresas como a Geron reclamar seres humanos potenciaiscomo propriedade intelectual, num estádio de desenvolvimento entre a concepção e o nascimento. A questãode saber se as empresas comerciais serão autorizadas a possuir vida humana potencial em fase dedesenvolvimento será seguramente uma das questões políticas seminais do século biotécnico.Em segundo lugar, será que empresas como a Geron e a AdvancedCellTechnology estarão autorizadas a ter— sob a forma de propriedade intelectual — as células primárias que são o portal de acesso à totalidade dacomposição biológica que constitui a vida humana? Será que arriscaremos o amanhecer de uma nova era nahistória da humanidade em que a criação da própria vida humana estará cada vez mais sob o controlo deforças comerciais? Será que as empresas biotecnológicas globais dominarão os designs, as partes e oprocesso de produção de vida humana?As implicações comerciais da investigação de embriões e de células estaminais devem ser examinadas na suaglobalidade. Fracassar neste intento encurralar-nos-á num futuro de eugenia comercial que nemantecipámos nem escolhemos livremente.Jeremy RifkinRetirado de Andrew I. Cohen e Christopher H. Wellman (orgs.), Contemporary Debates inAppliedEthics(Oxford: Blackwell, 2005, pp. 141-144)Site: http://criticanarede.com/contraclonagem.html 3