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RESUMO
O artigo desenha percursos da anarquista russa Emma Goldman
através das palavras: suas leituras, seus e...
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Natalia montebello a mulher mais perigosa da américa...

Natalia montebello a mulher mais perigosa da américa...
Published on: Mar 3, 2016
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Transcripts - Natalia montebello a mulher mais perigosa da américa...

  • 1. 116 12 2007 a mulher mais perigosa da américa...1 natalia montebello* 1. A objeção, a travessura, a desconfiança jovial, o gosto pela burla são indícios de saúde: todo o incondicional pertence à patologia. Friedrich Nietzsche2 Existências e idéias a atravessam com a mesma intensidade com que ela vive. Sua vida não conhece o meio termo, o morno meio médio onde tudo se acomoda entre a preguiça, a conivência e o medo. Fala, e fala muito, e fala porque dizer é sua revolta, seu gesto de interrupção diante do que é porque é. Revolta de costumes, de dias-a-dias por sua vez e por ela atravessados * Pesquisadora no Nu-Sol. Doutoranda na PUC/SP, com pesquisa sobre eco- nomia e anarquismo. Secretária do Centro de Cultura Social de São Paulo. verve, 12: 116-128, 2007
  • 2. verve A mulher mais perigosa da América... 117 de práticas corajosas, de liberdade. E transborda, porque não cabe na política, nem mesmo na revolução. Não cabe na mulher emancipada do capitalismo e da vontade geral. Parafraseando o anarquista alemão Gustav Landauer, morto, literalmente, pelas botas da polícia alemã, mais do que querer a revolução, ela é revolução. Uma revoltada, uma insubmissa, que pratica a liberdade sobre ela mesma. Sobre seu corpo, seus encontros, seus amores e tremores. O tapa na cara que sua mãe lhe deu, depois de saber de sua primeira menstruação, “porque assim é mais fácil se acostumar a ser mulher”, e o arranjo, a muito bom preço, de casamento providenciado por seu pai, interromperam a esperada passagem, até hoje tantas vezes repetida, da menina para a mulher. A menina, uma criança não comportada, sobe à ponte e, diante do Volga, explode com a vida que se chama de vida, moldada com decência e conveniência: a vida da mulher que, a despeito das ingênuas diferenciações de classe, reitera as verdades de sua época. E as verdades de sua época lhe eram insuportáveis. E o rio que o diga. O não ao pai, à família e às tradições faz do rio o oceano sobre o qual desliza a criança que inventa. O gueto judeu, São Petersburgo, e o século XIX não a comportam. A escola, que lhe nega o direito de permanecer, ao antepor sua indisciplina à sua vontade, e a família, que espera dela a mulher que lava, cozinha e cuida das crianças, não a comportam. A menina não comportada faz da vida uma invenção quando, por direito, devia ser sepultada nela. 2. Penso que, tendo sido alfabetizados, deveríamos ler o melhor da literatura e não ficar repetindo para sempre nosso bê-a-bá e nossos monossílabos, sentados a vida inteira na sala de aula. A maioria dos homens fica satisfeita se consegue ler ou ouvir outros lerem um único
  • 3. 118 12 2007 livro, a Bíblia, persuadidos talvez por sua sabedoria, e pelo resto de suas vidas põem-se a vegetar e a dissipar suas faculdades com aquilo que se chama de leitura fácil. Henry David Thoreau3 Menina operária chega aos Estados Unidos. A escola que lhe foi negada torna-se, mais uma vez, ridícula diante da vontade e da curiosidade da criança que busca idéias interessantes. Idéias vivas, idéias força, idéias que estremecem e se desdobram com vidas devoradas em nome de outras idéias, aquelas grandes e universais de paz e de ordem. Os mártires de Chicago condenados à morte exemplar que a justiça do Estado exerce solenemente como pedagogia de cívica advertência provoca convulsões na garganta e nas idéias da jovem que, aos dezessete anos, fala, sem pedir licença, de sua anarquia diante do mundo e seus ditames. Sua revolta será entre palavras: a vida e as idéias, ao uníssono, inventando anarquia. Palavras que lê interessada, palavras que fala, intensamente. Sua leitura indisciplinada se detém com atenção em Nietzsche e em Bakunin. Atenta, entre o anarquismo que quer a liberdade para cada um e a anarquia que pratica sobre si mesma, tem a coragem de pensar contra seu tempo e contra o devido “eu” de seu tempo: contra a guerra, contra a justiça burguesa, contra a exploração, contra o Estado, mas também contra a mulher, sua emancipação, seu voto, sua produtividade. Nietzsche e Bakunin entretecem palavras que atentam, tanto contra a grande política como contra o que ela, com La Boétie, outro jovem de dezessete anos, entendeu como os piores tiranos: os tiranos internos. Por mais de trinta anos, na América, terra da liberdade, Emma Goldman fará das palavras sua força,
  • 4. verve A mulher mais perigosa da América... 119 sua revolta, seu sim, contundente e alegre. Um perigo, na terra que, em nome de sua heróica herança democrática, não suporta idéias que nada saibam de bom comportamento. Emma, com Bakunin e com Nietzsche, passará do incômodo democraticamente conveniente ao insuportável. Depois de 34 anos, a menina que deslizou, falante, para o outro lado do mundo, é deportada. Silenciada, para o bem geral da nação. O que disse que não devia dizer? Para ela, “(...) o anarquismo não era uma mera teoria para um futuro distante; era uma influência viva para que nos livrássemos das inibições, tanto internas como externas, e das barreiras destrutivas que separam os homens entre si.”4 A influência viva diante da teoria dimensiona um anarquismo que investe em palavras como ação política, mas que não se cala diante da pólvora contra a violência organizada. Calar, diz Emma, é consentir com a violência do Estado. Esteve ao lado de Alexander Berkman, seu amor, no atentado contra o magnata do aço que assassinou dez operários em greve, o que valeu, ao jovem de 22 anos, outros tantos de prisão. E não se calou quando Leon Czolgosz, com quem mal tinha conversado em certa ocasião, atentou, desta vez certeiramente, contra o presidente da terra da liberdade. E aos 28 anos foi eletrocutado, menos de dois meses depois. A justiça sabe ser rápida. Mas as palavras de Emma, que percorreram tribunais, prisões, jornais, panfletos e conferências, não se calando para defender gestos, violentos ou não, contra o Estado e suas violências, afirmaram também práticas de liberdade, nos mesmos percursos, como seu gesto diante do Estado e suas violências.
  • 5. 120 12 2007 3. Virtude e conformismo para os que gostam, tranqüilidade e obesidade e submissão para os que gostam: eu sou aquele que com espírito crítico incita homens e mulheres e nações gritando: — Pulem fora dos assentos e lutem por si mesmos! Walt Whitman5 Durante os 34 anos em que viveu nos Estados Unidos, Emma Goldman não deixou de falar, de escrever e de publicar interrupções ao hábito de obedecer. E não deixou de experimentar, sobre si mesma, as liberdades que suas palavras desenhavam. O ativismo político, como luta por uma humanidade livre de suas próprias convenções autoritárias, potencializa-se como vida livre de costumes autoritários. A política transborda a esfera política, desprezando territórios de contestação para inventar linhas de fuga de liberações. E a invenção de sua vida e de suas relações torna-se a potência de ações políticas urgentes, pela paixão de ser livre, mais do que importantes, pelo desejo de que um dia se seja livre. Não há, então, uma revolucionária em paralelo a uma revoltada. Talvez dois eixos que se entrecortam: o governo e o corpo. Mas que também se sobrepõem, em retornos deslocados que subvertem começos e finais. Sobre seu corpo, desde aquele tapa na cara, é onde inscreve sua recusa a ser a mulher do século XIX, emancipada pelas conquistas feministas do começo do XX. Se Nietzsche lhe dá a dimensão da mulher
  • 6. verve A mulher mais perigosa da América... 121 ressentida que se esforça por abraçar a moral do escravo, Bakunin faz o mesmo com a mulher política que se abriga em direitos que lhe dão o direito de obedecer. Assim como advertia Bakunin aos sindicalistas que a conquista de direitos laborais, louvável desde um certo ponto de vista, poderia ser também um acordo conveniente de melhoria de condições com preservação de sujeições, também adverte Emma às feministas que a emancipação da mulher poderia ser uma nova sujeição, um ajustamento em uma sociedade que pode muito bem suportar a mulher que trabalhe, que estude e que vote, sempre que com isso ela permaneça produtiva. A grande política não deixará de ser estúpida e podre porque a mulher participa dela. A política, diz Emma, é o reflexo do mundo industrial, e não cessará de sê-lo, na medida em que a participação da mulher em nada afeta o princípio de autoridade que sustenta o governo sobre todos: poder votar é poder participar da política burguesa. Mas, para além da humanidade e da política, a tragédia da emancipação da mulher, título de seu texto corajoso, é um problema vital, na vida de cada uma, mulher sujeitada, antes de mais nada entre seus próprios pequenos, cotidianos e terríveis costumes. A emancipação é a nova máscara: “(...) a tendência emancipacionista, afetando [a mulher] somente em sua parte externa, fez dela uma criatura artificial, muito parecida aos produtos da jardinagem francesa, com seus hieróglifos e geometrias em forma de pirâmide, de cones, de esferas, de cubos, etc.; qualquer coisa, menos essas formas submergidas por qualidades interiores. Na chamada vida intelectual, são numerosas essas plantas artificiais no sexo feminino.”6 A máscara da mulher emancipada ocupa o lugar da máscara da mulher devotada, da sacrificada no altar dos bons costumes. Em nome desses costumes, quanto mais a mulher se distancia do marido, dos filhos e da religião tanto mais
  • 7. 122 12 2007 tornava evidente seus baixos instintos, sua sujeira. Por pura falta de humor, de ironia e de sagacidade, diz Emma, em vez de jogar fora a máscara da devota, cívica e religiosa, e afirmar sua vida prescindindo de moralismos, do julgamento sobre si mesma, a mulher escolheu provar ao mundo sua inocência. Em vez de ser outra coisa, alguma coisa, qualquer coisa, a mulher emancipada tem que ser pura. Tem que mostrar ao mundo que a sentencia que ao ser emancipada é também boa. Uma nova devota, beata moral, tem que evidenciar sua pureza. Nova máscara: mulher emancipada, virtuosa, pura, santa, aqui na terra, na fábrica, na escola, no lar e na rua. A tragédia: agora, a mulher há de se emancipar da emancipação da mulher. Um agora de cem anos que permanece agora. Enfim, se contra os velhos preconceitos a mulher foi contundente, contra os novos nada fez. Chancela a moral com que ela mesma se julga. E mais ainda: a nova máscara esconde uma tenebrosa cumplicidade que permanece. A guerra, grande negócio de morte, sustentado por interesses financeiros e fortalecido pela cegueira patriótica, perdura com a cumplicidade da mulher virtuosa, que cria seus filhos para serem cidadãos de bem, amantes da pátria, temerosos de Deus, chefes das famílias-célula da sociedade civilizada. A mesma pureza que imprime sobre si imprime sobre a pátria; o sacrifício de seu corpo e seus desejos, o seu amor de entrega e de negação de si, é o mesmo sacrifício que ensina a seu filho, e que espera dele, como ato de honra. Ainda que se trate de carnificina organizada, a mulher cidadã provê o Estado de seus soldados. O gesto de liberdade sobre a mulher, sobre ela mesma, e o gesto de interrupção da fé na obediência, do corpo ao governo, é o mesmo: “O desenvolvimento da mulher, sua liberdade, sua independência, devem surgir dela mesma, e é ela quem deverá realizá-los. Primeiro, afirmando-se como personalidade e não como
  • 8. verve A mulher mais perigosa da América... 123 mercadoria sexual. Segundo, rejeitando o direito de qualquer um que pretenda exercer sobre seu corpo; negando-se a engendrar filhos, a menos que seja ela quem os deseje; negando-se a ser a serva de Deus, do Estado, da sociedade, da família, etc.; fazendo que sua vida seja mais simples, mas também mais profunda e mais rica. Isto é, tratando de aprender o sentido e a substância da vida em todos seus complexos aspectos, liberando-se do temor à opinião e à condenação pública. Só isso, e não o voto, tornará a mulher livre.”7 4. Senso comum, ternura comum e tranqüilidade comum Os meios de que dispomos na América para controlar a máquina da guerra devoradora de dinheiro, indústria cheia de luzes por toda parte a digerir florestas e excretar pirâmides macias de papel-jornal, patriarcais Sequóias e Pinheiros em silenciosa Meditação assassinados e regurgitados em forma de fumaça serragem, tetos histéricos de Novelas de TV, Vidas grossas mortas, Anúncios sofisticados pra Governadores mandachuvas arrotando Napalm em palmeira arroz floresta tropical. Allen Ginsberg8 Organizar e apoiar greves, e desdobramentos, como a peça encenada nas ruas do Greenwich Village de Nova Iorque, sobre a greve têxtil de 1913 em Patterson, escrever e editar, desde sua Mother Earth, conferências por todo o país, jornadas de conferências por meses e quilômetros árduos e longos, campanhas por seus amantes libertários presos, seus amigos libertários presos e libertários presos, discursos de defesa diante
  • 9. 124 12 2007 de tribunais que, como prática anarquista da época, tornavam-se discursos libertários. O discurso direto como ação direta, de frente e na cara, sobre liberdades, interrogando trabalho, mulheres, casamento, escola, família, religião, guerra, governo, justiça, política, polícia, tradição; propiciando relações livres, amores livres, homossexuais também, maternidades livres, associações livres, bons encontros, livres... Suas palavras lhe valeram prisões, que por sua vez lhe valeram boas leituras e outros bons encontros, e lhe valeram campanhas das instituições do direito da liberdade de expressão (como se falar devesse ser alguma coisa que se faz porque um direito assim o permite, independentemente de se ter ou não alguma coisa a dizer, lembrando William Godwin, desde o século XVIII). Suas palavras lhe valeram as palavras: a mulher mais perigosa da América. Quando? A partir de 1915, um deslocamento potencializa o inconveniente em insuportável: do corpo/Estado para o sexo/governo. A preocupação torna-se perigo iminente: Emma começa a falar sobre métodos anticoncepcionais, e também funda, organiza e promove a Liga Anti-alistamento. Interrompe a linha de continuidade entre o corpo e o Estado: o corpo produtivo que reproduz a população libera-se do Estado no sexo que produz prazer livre de qualquer compromisso com o destino, a família, a pátria ou a espécie. Potência de liberdade, o sexo livre do Estado interrompe a eterna dívida com a espécie, dívida que castra e sublima, e que provê legiões de trabalhadores e soldados convictos. E ela diz que o sexo é tão importante quanto a comida ou o ar. Cai a máscara. O amor livre, no começo do século XX, no país da democracia puritana. E o que seria dos exércitos modernos se todos soubessem que não têm obrigação de morrer pela pátria?
  • 10. verve A mulher mais perigosa da América... 125 Mera coincidência: ao entrar na Primeira Guerra Mundial e decretar o alistamento obrigatório, o presidente Woodrow Wilson argumenta: é necessário democratizar a Alemanha. Emma Goldman afirma: e para isso há de se prussianizar os Estados Unidos. A capa de junho de 1917 de Mother Earth gritava: “In Memoriam – Democracia Americana”. Ao escândalo provocado na imprensa, Emma responde com seu habitual bom humor: fizeram uma ótima campanha publicitária. No dia 14 do mesmo mês se realizaria um grande ato público da campanha contra o alistamento militar. Um dia antes, Emma recebe o anônimo aviso de que tentariam assassiná-la. Faz um rápido testamento, com Sasha e Fitzi, seus amigos, como testemunhas. Que o Estado ou a Igreja em nada se favoreçam com sua morte. Mas a morte que lhe estava reservada era cívica, moral e cívica. Dessa morte ela nunca viveria. Um dia depois da manifestação pública, a polícia bateria à sua porta. Emma e Sasha seriam detidos. No carro, caminho à delegacia, novamente seu bom humor e sua ironia nos contam um episódio: o excesso de velocidade lhe faz observar ao policial que estava infringindo a lei, pondo em perigo sua vida e a dos transeuntes; e ele responde, em alto e bom tom: “Sou o representante do governo dos Estados Unidos.”9 A fiança é fixada em 25 mil dólares para cada um. A prisão é uma violência obscena, uma grande covardia amparada pela covardia, a complacência e a conveniência dos temerosos cidadãos de bem, mas não é uma interrupção para aqueles que existem sem a licença do Estado. Enquanto amigos juntavam o dinheiro, Emma descobre James Joyce. Uma amiga lhe emprestara, para ler na prisão, O retrato do artista quando jovem. Bons encontros acontecem até nas mais sórdidas paisagens da ordem geral. Algo caminhava por sua nuca. Enfiou destramente o indicador e o polegar por baixo do amplo colarinho
  • 11. 126 12 2007 e o agarrou: um piolho. Esfregou entre seus dedos por um instante aquele corpinho tenro, mas quebradiço como um grão de arroz, e o deixou finalmente cair enquanto se perguntava se continuaria vivendo ou morreria. E lembrou de uma frase curiosa de Cornélio a Lapide, segundo a qual, os piolhos procediam do suor do homem e não haviam sido criados por Deus no sexto dia, junto com os outros animais. A pele da nuca coçava e a alma com ela. A vida de seu corpo, mal vestido, mal alimentado, comido de piolhos, lhe fez fechar as pálpebras em um súbito espasmo de desesperação, e viu então, na obscuridade, multidão de corpos de piolhos quebradiços e brilhantes que caíam do céu, girando e girando ao cair. Sim: não era obscuridade o que caía dos ares. Era claridade. A claridade descende dos ares. James Joyce10 Notas 1 Texto apresentado no evento “Emma Goldman na Revolução Russa, aula- teatro-vídeo”, no dia 28 de maio de 2007, noTucarena. O eventofoi organizado pelo Nu-Sol. 2 Friedrich Nietzsche. Más allá del bien y del mal. Madrid, Alianza Editorial, 1983, p. 107. 3 Henry David Thoreau. “Walden” (fragmentos), in A desobediência Civil. Porto Alegre, L&PM, 1999, p. 67. 4 Emma Goldman. Viviendo mi vida. Tomo II. Madrid, Fundación de Estudios Libertarios Anselmo Lorenzo, 1996, p. 60. 5 Walt Withman. Folhas das Folhas de Relva. São Paulo, Brasiliense, 1983, pp. 110-111. 6 Emma Goldman. “La tragedia de la emancipación de la mujer”. In: La hipocre- sía del puritanismo y otros ensayos, versión digital. http://www.antorcha.net/ biblioteca_virtual/politica/hipocresia/5.html (Consultado em: 26/05/2007) 7 Emma Goldman. Tráfico de mujeres y otros ensayos sobre el feminismo. Barcelona, Anagrama, 1977, p. 18.
  • 12. verve A mulher mais perigosa da América... 127 8 Allen Ginsberg. A queda da América. Porto Alegre, L&PM, 1987, p. 51. 9 Emma Goldman, op. cit., 1996, p. 119. 10 James Joyce. Retrato del artista adolescente. http://www.apocatastasis.com/ retrato-del-artista-adolescente-james-joyce.php (Consultado em: 27/05/2007).
  • 13. 128 12 2007 RESUMO O artigo desenha percursos da anarquista russa Emma Goldman através das palavras: suas leituras, seus escritos, suas confe- rências. Palavras como força revolucionária, que não se calam desde sua saída da Rússia (onde enfrentaram o autoritarismo familiar) até sua deportação dos Estados Unidos, onde suas palavras ata- caram o alistamento militar e a submissão sexual da mulher. Palavras-chave: anarquismo, Emma Goldman, feminismo. ABSTRACT This article indicates the ways of the Russian anarchist Emma Goldman through her words: her readings, her writtings, her lectures. Words as a revolutionary strengh that could not be silenced since her exile from Russia (where they faced her family's authoritarianism) to her deportation from the United States, where they fought the conscription and the women's sexual submission. Keywords: anarchism, Emma Goldman, feminism. Recebido para publicação em 7 de maio de 2007. Confirmado em 6 de agosto de 2007.

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