~ 2 ~
Darcy Rhone sempre teve todos os homens aos seus pés. Tinha
um emprego glamouroso, um seleto círculo de amizades e um
no...
Prólogo
Eu nasci bonita. De cesariana, comecei a vida evitando
problemas como plagiocefalia e arranhões decorrentes de
...
É claro, tive momentos de incerteza. Lembro que, no 7º
ano, gostava de brincar de psiquiatra com a Rachel. Eu
geralmente...
porcelana de ossos. Eu só precisava fazer um bom
casamento, assim como a minha mãe. Ela não era um gênio e
não tinha ter...
Era assim que eu pensava quando achava que tinha
tudo sob controle. Só não entendia por que as pessoas,
especialmente a ...
1
Um soco arrebatador. Essa era uma das expressões
favoritas do meu irmão mais novo, Jeremy, quando criança.
Ele dizia ...
Para dizer a verdade, as coisas não foram exatamente
como contei ao motorista de táxi. Mas não queria que ele
perdesse o...
meu coração, que ela me entendia completamente e que,
mais tarde, Dex também me entenderia.
Respirei fundo e entrei em s...
contei que estava grávida de Marcus e que estávamos
pensando em nos casar. Comecei a chorar, mas Rachel
permaneceu inalt...
me ajudasse com as palavras. Ela sugeriu: “Com todo o meu
amor”.
Olhei para ela, ainda esperando pela resposta, mas ela ...
Eu queria que ele dissesse que não era o que parecia e
que eles não haviam transado. Mas ninguém negou nada.
Pelo contrá...
2
Não sei como desci as escadas (contando ao porteiro de
Rachel as terríveis notícias), peguei um táxi (onde também
com...
— Bem, talvez não seja muito engraçada, mas é
~ 15 ~
ironicamente engraçada.
— Não há nada de engraçado nisso, Marcus! ...
— Talvez você nunca tenha se feito de santo como ela
fez. — E continuei: — Você não saiu com o noivo da sua
melhor amiga...
Pensei bem e decidi que preferiria a morte a ter de fazer
isso com o meu cabelo. Por isso, cogitei a opção do suicídio.
...
Amber ecoando nos corredores. Todos pensamos que ela
enlouqueceria e seria internada em uma clínica para doentes
mentais...
eles que eu também não acreditava nisso, mas que tinha
visto com os meus próprios olhos: Dex de cueca no armário
da Rach...
— Tenho certeza de que Rachel se arrependeu — disse
meu pai. — Foi um ato extremamente inadequado.
— Inadequado não é be...
3
Ironicamente, foi Rachel que me apresentou a Dex. Eles
estavam no primeiro ano do curso de Direito da Universidade
de...
perfeitas. Ele era perfeito. Tão perfeito que eu sentia que não
o merecia. Eu sabia que era bonita, mas, às vezes, achava...
minha atração pelo sexo oposto acabou se concretizando, o
que acho bastante admirável para sete anos.
O primeiro deslize...
celular. Por fim, liguei para ele e disse que tinha um
namorado sério e que ele não deveria me ligar novamente.
Disse qu...
— Você disse que são seus?
Ele concordou e sorriu.
— Que diferente — olhei fixamente nas extremidades
dos seus olhos pa...
beleza estonteante do parque nacional Kruger, eu via que ele
era mais do que um rosto bonito. Ele me disse que estava
mo...
o tempo todo. Mesmo assim, era um homem bom para
começar uma nova vida. Eu iria me casar com ele e viver feliz
para semp...
4
Por anos, Marcus foi, para mim, apenas o colega de quarto
preguiçoso de Dexter da época em que estudava na
Universida...
Dex e eu chegamos primeiro ao restaurante e esperamos
por Marcus no bar. Ele chegou usando jeans largos e
esportivos, um...
Por sorte, a personalidade de Stacey não era tão
brilhante como o seu guarda-roupa e eu consegui me
destacar perto dela....
dizer que o fato de Marcus sair com uma garota sexy como
Stacey o fez subir mais no meu conceito.
E quanto mais saíamos ...
belo corpo. Enquanto bebia um martíni, perguntei se ele
malhava. Uma pergunta que revela interesse, na melhor das
hipóte...
e outra mais vaga ainda de vomitar em um saco plástico, ao
lado da nossa cama.
Não pensei em Marcus no dia seguinte, até...
alguma maneira, eu desejasse que ele estivesse interessado
em mim. Isso era egoísmo, considerando que Rachel era
solteir...
Apesar desse dilema, no fundo eu sabia que nada
poderia acontecer com Marcus. Então, decidi fazer a coisa
certa: incenti...
lugar aos tapinhas e, então, começamos um embate corporal,
rolando na grama úmida e fria. Eu lembro que gritava para
Mar...
Se ainda restava alguma dúvida com relação ao desempenho
de Marcus, naquele momento tinha desaparecido. Ele era um
daque...
Percebi que ele estava impressionado, então, dei um
~ 38 ~
sorriso.
— Não deveríamos ter feito isso — ele disse.
— Tar...
5
No dia seguinte, acordei com um gosto de tequila na
garganta e uma dor de cabeça muito forte. Olhei para o
relógio e ...
— Ah, entendi — eu disse. — Estamos colocando a
culpa pelo que aconteceu no álcool, é isso? — Ele sacudiu a
cabeça e ten...
— Sei que não podemos voltar atrás, mas temos que
esquecer. Não foi certo o que fizemos. Você está noiva... E
Dex é meu ...
— Por que... — ele se levantou e foi para a cozinha,
voltando com uma garrafa de Gatorade. — Foi um erro.
Dentre outras ...
— Você não vai dormir com ela, vai? — perguntei,
presumindo, com base nos registros de Rachel, que ele ainda
não tinha f...
encerrar a conversa. — Agora, vamos assistir ao torneio de
tênis de Wimbledon? O que você acha do Andre Agassi?
Durante ...
— Não estava esperando visita.
— Eu sei. Eu sei. Mas você não atendeu aos meus
telefonemas. Eu tive de tomar uma atitude...
6
Depois daquela noite no sofá, Marcus parou de resistir e de
dizer que a nossa relação era um erro. Embora ele quase
n...
irrefreável e inominada que nos unia. Mas esse não era o
estilo do Marcus. Embora ele tivesse desrespeitado a lealdade
e...
Eu quase contei a verdade só uma vez. Foi quando
esqueci o meu anel de noivado no apartamento do Marcus e
acusei a empre...
passadas. Ficamos os três frente a frente, distantes alguns
centímetros. Eu estava completamente nua, com exceção dos
me...
— É claro que sim — eu respondi, como se estivesse na
defensiva. Eu não esperava esse tipo de pergunta.
— E?
— Eu nem s...
— Ah, para de chorar! Para com isso agora!
— Você me ama? — perguntei, cheia de esperanças.
Ele balançou a cabeça.
— Nã...
Percebi que ele estava falando sério. Fiquei chocada,
simplesmente não podia acreditar que tudo acabaria assim.
— É isso...
— Você ouviu o que eu disse?
— Ouvi.
— O que você acha disso?
— Você tem certeza de que é isso que você quer?
— Sim, t...
tomar a pílula ou de me prevenir. Mas eu nunca ficara
grávida. Na verdade, uma parte de mim acreditava que eu
não poderi...
7
Qual é o resultado? — perguntou Marcus, a me ver sair do
banheiro com a tira de plástico na mão. Ele estava me
espera...
passar durante o divórcio. Na verdade, senti pena de Brandi.
Por alguma razão, eu me identifiquei com ela de uma forma
c...
antes de tirá-la e colocá-la em cima da mesa, ao lado do
primeiro teste.
Marcus aguardava o resultado olhando para o rel...
apaixonada por Marcus que a ideia de ter um filho com ele
me parecesse emocionante. Um ato de extremo romantismo.
Ou tal...
— Por quê?
— Porque eu quero ter esse bebê — respondi, um pouco
irritada. — E eu esperava que você também quisesse... Nã...
deveríamos terminar tudo. Mas eu me lembrei de Marcus e
tomei coragem novamente.
— Precisamos conversar — eu disse, séri...
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Presentes da vida - Emily Giffin

Presentes da vida é o segundo livro de 'O noivo da minha melhor amiga' que conta a história de Darcy. Darcy Rhone sempre teve todos os homens aos seus pés. Tinha um emprego glamouroso, um seleto círculo de amizades e um noivo perfeito, Dexter Thaler. No entanto, tudo mudou quando Darcy se envolveu com o melhor amigo de seu noivo… Seu noivado acabou e perdeu sua melhor amiga, Rachel.
Published on: Mar 4, 2016
Published in: Entertainment & Humor      
Source: www.slideshare.net


Transcripts - Presentes da vida - Emily Giffin

  • 1. ~ 2 ~
  • 2. Darcy Rhone sempre teve todos os homens aos seus pés. Tinha um emprego glamouroso, um seleto círculo de amizades e um noivo perfeito, Dexter Thaler. No entanto, tudo mudou quando Darcy se envolveu com o melhor amigo de seu noivo... Seu noivado acabou e perdeu sua melhor amiga, Rachel. Incapaz de assumir responsabilidades e de enfrentar todo esse mal-estar, Darcy foge para Londres, para a casa de um amigo de infância, imaginando que poderia passar uma borracha em tudo isso. Mas, para seu desânimo, Londres se torna um mundo estranho, onde seus truques de sedução não mais funcionam e onde sua sorte parece ter se evaporado. Sem amigos nem família, Darcy precisa dar novo rumo à sua vida e, assim, começa uma linda trajetória rumo ao crescimento e ao amor. ~ 3 ~
  • 3. Prólogo Eu nasci bonita. De cesariana, comecei a vida evitando problemas como plagiocefalia e arranhões decorrentes de uma passagem forçada pelo canal do parto. Por outro lado, vim ao mundo com um nariz delicado, lábios em forma de arco e sobrancelhas bem definidas. Eu tinha a quantidade exata de cabelo, cobrindo os lugares certos da minha cabeça, que prometia uma bela cabeleira com um formato excepcional. Com certeza, meu cabelo cresceu grosso e sedoso, cor de café. Todas as manhãs me sentava calmamente para que minha mãe pudesse modelar os meus cachos ou fazer uma bela trança. Quando comecei a frequentar a escola, as outras crianças, muitas com o cabelo sem graça, em forma de tigela, pediam para colocar o tapete perto do meu na hora do sono e tentavam tocar no meu rabo de cavalo. Elas me emprestavam suas massas de modelar sorrindo e me deixavam escorregar primeiro. Tudo para poderem ser minhas amigas. Foi quando descobri que há uma estrutura de poder na vida, e que as aparências contam muito nessa hierarquia. Em outras palavras, compreendi, com apenas 3 anos, que a beleza atrai regalias e poder. Essa lição foi apenas reforçada com o passar dos anos, já que continuei o meu reinado como a garota mais bonita em grupos de competidores cada vez maiores. A garota mais cobiçada nos últimos anos do ensino fundamental e no ensino médio. Mesmo assim, diferentemente dos personagens dos meus filmes favoritos de John Hughes, a minha beleza e popularidade nunca fizeram eu me tornar uma pessoa má. Eu dava ordens como um bom ditador, mas controlava as outras garotas populares que tentavam abusar do poder que tinham sobre os outros. Não me uni ao “grupo dos populares” e permaneci fiel à minha melhor amiga inteligente, Rachel. Eu era tão popular que poderia criar minhas próprias regras. ~ 4 ~
  • 4. É claro, tive momentos de incerteza. Lembro que, no 7º ano, gostava de brincar de psiquiatra com a Rachel. Eu geralmente fazia o papel de paciente e dizia coisas como “Tenho tanto medo de aranhas, doutora, que mal consigo sair de casa durante o verão”. — Bem — respondia Rachel, erguendo os óculos e fazendo anotações em um bloco de papel. — Recomendo que assista ao filme A menina e o porquinho... Ou que se mude para a Sibéria, onde não há aranhas. E toma isso. — Ela me dava duas vitaminas dos Flintstones e acenava com a cabeça para me encorajar. As coisas eram sempre assim. Mas uma tarde Rachel sugeriu que eu deixasse de fingir que era um paciente e fosse eu mesma, para lhe contar os meus problemas. Então, falei como o meu irmão menor, Jeremy, que monopolizava as conversas na hora do jantar, todas as noites, contando piadas originais e histórias obscuras sobre o reino animal. Eu tinha a impressão de que meus pais preferiam Jeremy ou, pelo menos, que davam mais atenção a ele do que a mim. Rachel limpava a garganta, pensava por alguns minutos e depois elaborava alguma teoria sobre como os meninos são encorajados a serem espertos e engraçados enquanto as meninas recebem elogios por serem bonitas. Ela dizia que isso é uma “armadilha perigosa” para as garotas, pois poderia incentivar as “garotas vazias”. — Onde você ouviu isso? — eu lhe perguntara, tentando compreender o que ela queria dizer com “vazias”. — Em lugar nenhum. É apenas a minha opinião — dizia Rachel, provando que ela não corria o risco de cair nessa armadilha. Na verdade, a sua teoria aplicava-se perfeitamente a nós. Eu era a menina bonita com notas medianas. Rachel era a menina inteligente com uma beleza mediana. De repente, eu me via sentindo um pouco de inveja e desejando ter, também, grandes ideias e palavras importantes. Mas rapidamente eu observava as inesperadas ondas no cabelo castanho de Rachel e me convencia de que eu estava muito bem. Não sabia localizar o Paquistão e o Peru no mapa e não sabia converter fração em porcentagem, mas minha beleza iria me lançar no mundo do Jaguar, das mansões e dos jantares com três garfos ao lado de um prato de ~ 5 ~
  • 5. porcelana de ossos. Eu só precisava fazer um bom casamento, assim como a minha mãe. Ela não era um gênio e não tinha terminado mais do que três semestres na faculdade, mas seu rosto bonito, seu corpo delicado e seu gosto impecável conquistaram o meu inteligente pai, um dentista, e agora ela tinha uma vida boa. Eu a achava um excelente modelo para mim. Assim, aproveitei a minha adolescência e entrei na Universidade de Indiana pensando que “se passasse, tudo bem”. Participei da melhor irmandade, namorei os caras mais populares e apareci no calendário das mulheres maravilhosas de Indiana por quatro anos consecutivos. Depois de me formar com notas pouco acima da média, fui para Nova York com a minha amiga Rachel, que estava estudando Direito. Enquanto ela se isolava na biblioteca ou ia trabalhar em um grande escritório, eu continuava a minha busca pelo glamour e pela diversão, aprendendo rápido que as coisas elegantes eram ainda mais elegantes em Manhattan. Descobri os clubes mais descolados, os melhores restaurantes e os homens mais interessantes da cidade. E eu ainda tinha o cabelo mais bonito da cidade. Enquanto tínhamos vinte anos ou mais, Rachel e eu continuávamos a trilhar caminhos diferentes e, muitas vezes, ela me perguntava: “Você não se preocupa com o carma?”. (A propósito, ela mencionou a palavra “carma” pela primeira vez quando estávamos nos últimos anos do ensino fundamental, depois de eu ter colado na prova de matemática. Eu lembro que tentei compreender o seu significado recordando a canção Karma Chameleon, mas não consegui.) Mais tarde entendi o que ela queria dizer: trabalho duro, honestidade e integridade sempre têm a sua recompensa, mas viver preocupando-se com a aparência era de alguma forma, uma ofensa. Eu estava convencida de que não precisava trabalhar como voluntária em projetos de assistência social para ter um bom carma. Posso não ter seguido o caminho tradicional para o sucesso, mas conquistei um emprego glamoroso como relações-públicas, um círculo de amizades seleto e um noivo maravilhoso, Dex Thaler. Fiz por merecer o meu apartamento com sacada para o lado oeste do Central Park e o meu belo anel de diamante na mão esquerda. ~ 6 ~
  • 6. Era assim que eu pensava quando achava que tinha tudo sob controle. Só não entendia por que as pessoas, especialmente a Rachel, insistiam em tornar tudo mais difícil do que parecia ser. Apesar de ter seguido todas as regras, lá estava ela: solteira, com 30 anos de idade, perdendo noites de sono por causa de um escritório de advocacia que desprezava. Enquanto isso, eu era feliz, assim como tinha sido durante toda a nossa infância. Eu me lembro de que tentei ajudá-la, lhe dizendo que deveria injetar um pouco de alegria em sua vida triste e disciplinada. Eu dizia coisas como: “Para começar, você deveria doar os seus sapatos sem graça e comprar um par de sapatos bonitos... Aposto que vai se sentir melhor”. Agora sei como tudo isso é superficial. Percebo que só me preocupava com as aparências. Naquela época, não achava que estava ofendendo alguém, nem se fosse eu mesma a ofendida. Eu não pensava muito, na verdade. Sim, eu era maravilhosa e tinha sorte no amor, mas tinha plena convicção de que era uma boa pessoa e merecia tudo de bom. Não via razão para que o resto da minha vida fosse menos interessante do que havia sido nas três décadas anteriores. Mas aconteceu uma coisa que me fez questionar tudo o que pensava sobre o mundo: Rachel, minha madrinha sem graça, com cabelo ondulado cor de germe de trigo, colocou as mangas de fora e roubou o meu noivo. ~ 7 ~
  • 7. 1 Um soco arrebatador. Essa era uma das expressões favoritas do meu irmão mais novo, Jeremy, quando criança. Ele dizia isso quando assistia a alguma briga no ponto de ônibus ou no pátio da escola; com a voz alta e animada, os seus lábios brilhavam de saliva: “A-ha! Pow! Que soco arrebatador, cara!”. Então ele dava um soco na outra mão, demonstrando muita satisfação. Mas isso faz muito tempo. Agora, Jeremy é dentista, trabalha com o meu pai e tenho certeza de que ele não presencia, recebe ou devolve um soco arrebatador há mais de dez anos. Não me lembrava dessas palavras havia muito tempo, desde aquela memorável corrida de táxi. Eu tinha acabado de sair do apartamento da Rachel e contava ao motorista sobre a minha terrível descoberta. — Uau! — ele exclamou, com um forte sotaque do Queens. — Sua amiga lhe deu um soco arrebatador, hein? — Sim — respondi, tentando me refazer. — Foi isso que ~ 8 ~ ela fez. A confiável e leal Rachel, minha melhor amiga há vinte anos, que sempre concordava com as minhas vontades ou, pelo menos, tentava conciliá-las com as suas, teve a coragem de — “A-ha! Pow!” — me dar um soco arrebatador. Fiquei cega. O elemento-surpresa da sua traição foi o que mais me machucou. Nunca esperaria por isso. Foi tão inesperado quanto um cão-guia conduzir o seu dono em direção a um caminhão.
  • 8. Para dizer a verdade, as coisas não foram exatamente como contei ao motorista de táxi. Mas não queria que ele perdesse o foco da conversa, o que Rachel fez para mim. Eu cometi alguns erros, mas não traí a nossa amizade. Uma semana antes do meu casamento, fui ao apartamento da Rachel para contar que tudo tinha sido cancelado. Meu noivo, Dex, foi o primeiro a dizer as difíceis palavras, “talvez à gente não devesse se casar”, e eu logo concordei porque estava tendo um caso com Marcus, amigo de Dex. Uma coisa levou a outra e, depois de uma noite apaixonada, fiquei grávida. Foi tudo muito difícil de absorver e eu sabia que a pior parte seria confessar tudo à Rachel, porque no início do verão ela tinha se interessado por Marcus. Os dois saíram algumas vezes, mas o romance acabou quando comecei a me relacionar com Marcus. Sentia-me péssima: por estar traindo Dex e, pior ainda, por estar mentindo para Rachel. Mas eu estava disposta a contar tudo à minha melhor amiga. Tinha certeza de que ela entenderia. Ela sempre entendia. Por isso, cheguei resignada ao apartamento da Rachel, ~ 9 ~ no lado leste. — Qual é o problema? — ela me perguntou ao abrir a porta. Senti uma onda de paz ao pensar em como aquelas palavras eram familiares e serenas. Rachel era uma amiga maternal, mais maternal do que a minha própria mãe. Pensei em todas as vezes que minha amiga me fez essa pergunta, como no dia em que deixei o teto solar do meu pai aberto durante uma tempestade ou no dia em que menstruei e manchei a minha calça branca nova. Ela sempre estava lá me perguntando “Qual é o problema?” e dizendo “Tudo vai ficar bem”, com um tom de voz tão seguro que me convencia totalmente. Rachel sabia consertar tudo. Fazia eu me sentir melhor quando ninguém mais conseguia. Mesmo naquele momento, quando ela devia se sentir desapontada por Marcus ter me escolhido, tinha certeza de que ela saberia ficar acima da situação e me diria que eu tinha escolhido o caminho certo, que as coisas acontecem por alguma razão, que eu não era uma vilã, que eu estava certa por seguir o
  • 9. meu coração, que ela me entendia completamente e que, mais tarde, Dex também me entenderia. Respirei fundo e entrei em seu pequeno e organizado apartamento, enquanto ela tagarelava sobre o casamento, dizendo que estava à minha disposição, pronta para ajudar nos últimos detalhes. — Não vai haver casamento — eu disse de súbito. — O quê? — ela perguntou. Seus lábios se misturaram com o resto do seu rosto pálido. Ela se virou e sentou-se na cama, e então me perguntou quem tomara a iniciativa. Lembrei-me da época do ensino médio. Depois de um rompimento, que era sempre um acontecimento público na escola, os meninos e as meninas perguntavam quem terminou. Todos queriam saber quem havia dado as cartas e quem tinha sido descartado para poderem distinguir quem era a vítima e quem era o culpado. Eu disse algo que nunca diria se estivesse no ensino médio e, para ser franca, eu nunca fui descartada. — Nós dois decidimos... Bem, tecnicamente, Dexter falou primeiro. Ele me disse hoje de manhã que não poderia seguir adiante. Ele acha que não me ama — e virei os olhos. Eu não acreditava mesmo que isso fosse possível. Achava que a única razão para Dexter desistir do casamento fosse a minha indiferença. O distanciamento que acontece quando você se apaixona por outra pessoa. — Você está brincando. Isso é loucura! Como você está? Olhei para as minhas sandálias pink bordadas, que combinavam com o meu esmalte, e respirei fundo. Confessei que estava tendo um caso com Marcus, demonstrando uma pontinha de culpa. Rachel tinha tido um rápido caso de verão com Marcus, mas ela não tinha dormido com ele e já fazia semanas que ela o beijara. Ela não ficaria tão chateada com a notícia. — Então você dormiu com ele? — me perguntou Rachel com uma voz alta e estranha. Seu rosto ficou rosado, um sinal claro de que estava zangada, mas eu continuei a contar os detalhes, como começamos a sair, como tentamos acabar tudo e como não conseguimos controlar a atração que sentíamos um pelo outro. Depois disso, respirei fundo e ~ 10 ~
  • 10. contei que estava grávida de Marcus e que estávamos pensando em nos casar. Comecei a chorar, mas Rachel permaneceu inalterada. Ela fez algumas perguntas, e respondi a todas com sinceridade. Depois lhe agradeci por não me odiar, sentindo-me profundamente aliviada por não ter perdido a minha âncora, a minha melhor amiga, apesar da reviravolta na minha vida. — Sim... Eu não odeio você — disse Rachel, colocando o ~ 11 ~ cabelo atrás da orelha. — Espero que Dex também aceite tudo isso e compreenda o lado do Marcus. Ele vai odiá-lo por algum tempo. Mas Dex é racional. Ninguém fez isso de propósito para magoá-lo. Apenas aconteceu. Em seguida, quando eu ia lhe perguntar se ainda gostaria de ser madrinha no meu casamento com Marcus, o meu mundo caiu. Entendi que nada mais seria como antes e que as coisas eram bem diferentes do que eu pensava: vi o relógio de Dexter em cima da mesa de cabeceira da minha melhor amiga! Um Rolex vintage inconfundível. — Por que o relógio do Dex está na sua mesa de cabeceira? — perguntei, rezando para que ela me desse uma explicação lógica e convincente. Em vez disso, ela encolheu os ombros e disse, gaguejando, que não sabia. Depois ela falou que o relógio era dela, que era igual ao dele. O que não me convenceu porque procurei esse relógio durante meses e comprei uma pulseira de crocodilo que tivesse certa originalidade. Além disso, mesmo que esse relógio fosse dela, a sua voz estava trêmula e o seu rosto mais pálido do que de costume. Rachel pode fazer bem muitas coisas, mas não sabe mentir. E então descobri: a minha melhor amiga no mundo havia cometido um indescritível ato de traição. O resto aconteceu em câmera lenta. Quase consegui ouvir os efeitos sonoros de A mulher biônica. Uma das nossas favoritas, assisti a todos os episódios com Rachel. Eu me levantei, peguei o relógio e o virei para ler o que estava escrito atrás. “Com todo o meu amor, Darcy.” Minhas palavras soaram difíceis e pesadas ao me lembrar do dia em que fiz a gravação. Liguei para Rachel do meu celular e pedi para que
  • 11. me ajudasse com as palavras. Ela sugeriu: “Com todo o meu amor”. Olhei para ela, ainda esperando pela resposta, mas ela não disse nada, apenas olhou para mim com seus olhos grandes e castanhos, franzindo as sobrancelhas despenteadas. — Que merda é essa? — perguntei, calmamente. Depois gritei a mesma coisa ao perceber que Dex estava escondido em algum lugar do apartamento. Corri para o banheiro, abri as cortinas do box com violência. Nada. Decidi olhar dentro do guarda-roupa. — Darcy, não faça isso! — disse ela, colocando-se na ~ 12 ~ frente da porta. — Sai da frente! — gritei. — Sei que ele está aí dentro! Ela saiu e eu abri a porta. Como esperado, lá estava ele, agachado no canto do armário, usando cuecas listradas azul-marinho. Outro presente meu. — Seu mentiroso! — gritei, quase perdendo o ar. Eu estava acostumada com dramas. Eu cresci com dramas. Mas não desse tipo. Não esse tipo de drama que eu não podia controlar. Dex ficou em pé e vestiu-se calmamente, pondo um pé dentro da calça jeans e depois o outro, puxando o zíper de forma desafiadora. Não vi nenhum sinal de culpa em seu rosto. Foi como se eu estivesse acusando-o de roubar à última cereja do bolo. — Você mentiu para mim! — gritei novamente, mais alto. — Você só pode estar brincando — disse ele, em voz baixa. — Vai se foder, Darcy! Depois de tantos anos com Dex, ele nunca tinha falado assim comigo. Aquelas palavras foram sempre o meu último recurso. Não o dele. Tentei novamente. — Você me garantiu que não tinha mais ninguém! E você está comendo a minha melhor amiga! — gritei sem saber quem deveria confrontar primeiro. Arrasada por ter sido duplamente traída.
  • 12. Eu queria que ele dissesse que não era o que parecia e que eles não haviam transado. Mas ninguém negou nada. Pelo contrário, ele disse: — O roto falando do esfarrapado, não é Darcy? Você e Marcus, hein? Vão ter um bebê? Preciso lhes dar os parabéns. Eu não sabia o que dizer, então virei à mesa: — Eu sempre soube! Era tudo mentira. Eu nunca, em milhões de anos, poderia prever esse momento. O choque foi grande demais para mim. Por isso senti como se tivesse recebido um soco arrebatador; o fato de ser inesperado machuca mais do que o próprio soco. Eles me deram um soco, mas eu não queria bancar a idiota. — Odeio vocês dois! Para sempre! — disse, percebendo que as minhas palavras pareciam tolas e infantis, como na época em que tinha cinco anos e disse ao meu pai que sentia mais amor pelo diabo do que por ele. Eu queria chocá-lo e deixá-lo apavorado, mas ele apenas riu da minha resposta criativa. Dex também pareceu achar engraçado o que eu falei o que me fez chorar de raiva. Repeti a mim mesma que tinha de sair do apartamento de Rachel antes de começar a gritar. Ao me dirigir para a porta, escutei Dex dizer: — Ah, Darcy? Olhei para ele novamente. — O quê? — limpei o rosto, rezando para que ele dissesse que era uma piada, um grande mal-entendido. Talvez eles rissem e me perguntassem como pude acreditar naquela história. Talvez até nos abraçássemos. Mas tudo o que ele disse foi: — Devolva o meu relógio, por favor? Engoli seco e joguei o relógio para ele com força, mirando na sua cara. Contudo, o relógio bateu na parede e deslizou pelo chão de madeira até chegar perto do pé descalço do Dexter. Olhei para o relógio e depois para a Rachel. — E você — disse —, nunca mais quero ver a sua cara! ~ 13 ~ Você morreu para mim!
  • 13. 2 Não sei como desci as escadas (contando ao porteiro de Rachel as terríveis notícias), peguei um táxi (onde também compartilhei a história) e fui para a casa de Marcus. Entrei em seu pequeno apartamento desarrumado e o encontrei sentado de pernas cruzadas no chão, tocando em seu violão uma música que parecia com Fire and the Rain, do James Taylor. Ele me olhou com uma expressão que misturava ~ 14 ~ surpresa e aborrecimento. — Qual é o problema agora? — disse ele. Não gostei de ele ter usado a palavra “agora”. Dava a impressão de que eu estava sempre entrando em crise. Não poderia imaginar o que aconteceria comigo. Contei-lhe toda a história, nos mínimos detalhes. Eu queria que o meu novo namorado se sentisse indignado. Ou pelo menos chocado. Mas, apesar do meu esforço em tentar contaminá-lo com a minha raiva, ele me perguntou: — Como você pode ficar chateada se fizemos a mesma coisa? Além disso, nós não queremos que eles sejam felizes também? Eu lhe disse que o que fizemos foi diferente e que, droga, não queremos que eles sejam felizes! Marcus continuou a tocar o violão e estampou um sorriso artificial. — Qual é a graça? — perguntei, irritada. — Essa situação não tem graça nenhuma!
  • 14. — Bem, talvez não seja muito engraçada, mas é ~ 15 ~ ironicamente engraçada. — Não há nada de engraçado nisso, Marcus! E para de agir dessa maneira! Marcus passou o dedo nas cordas do violão pela última vez antes de guardá-lo na caixa. Depois, ele se sentou de pernas cruzadas, segurando as pontas dos seus tênis velhos e disse: — Eu não entendo como você pode ficar tão ofendida se fizemos a mesma coisa. — Não foi a mesma coisa! — disse, sentando-me no chão frio. — Olha só, eu posso ter traído o Dex, mas eu não fiz nada para a Rachel. — Bem... — disse ele. — Eu e ela tivemos um breve relacionamento. Poderíamos ter namorado se você não tivesse aparecido. — Você saiu com algumas garotas enquanto eu estava noiva de Dex. Que tipo de pessoa sai com o noivo de uma amiga? Ele cruzou os braços e me olhou vagamente. — Darcy. — O quê? — Você está olhando para uma dessas pessoas. Lembra? Eu era um dos padrinhos do Dexter? Entendeu? Soltei um suspiro. É verdade, Marcus e Dex foram amigos desde a época da faculdade. Mas não podíamos comparar. — Não é a mesma coisa. A amizade entre mulheres é mais sagrada, a minha amizade com Rachel tinha o tempo de uma vida. Ela era a minha melhor amiga e você era, por exemplo, a última pessoa na lista de padrinhos do noivo. Dex provavelmente nem escolheria você se não precisasse de um quinto padrinho para acompanhar as minhas cinco madrinhas. — Nossa, estou emocionado! Ignorei o seu sarcasmo e disse:
  • 15. — Talvez você nunca tenha se feito de santo como ela fez. — E continuei: — Você não saiu com o noivo da sua melhor amiga. Ou ex-noivo. E ponto final. Acabado. Mesmo se tivesse passado um zilhão de anos, não seria a mesma coisa. E você não pularia na cama dele um dia após o rompimento do seu noivado. — E disparei outras perguntas: — Será que ele achou que duraria apenas um dia? Será que começaram um relacionamento? Será que eles se apaixonaram? Será que vai durar? Marcus encolheu os ombros e respondeu com uma variação de “Eu não sei e isso não me interessa”. E eu gritei: — Adivinha! Preciso de ajuda! Faz com que eu fique mais calma! Então, ele colocou as mãos no meu ombro e resolveu responder de forma satisfatória às minhas perguntas. Ele concordou que, provavelmente, o relacionamento entre Dex e Rachel duraria pouco. Que Dex procurou Rachel porque estava chateado. Que estar com Rachel era uma forma de estar comigo. E, no caso de Rachel, ela aproveitou para fisgar um homem que estava fragilizado. — Legal. O que você acha que eu devo fazer agora? — ~ 16 ~ perguntei. — Não há nada que você possa fazer — disse Marcus, tentando abrir a caixa de pizza que estava perto da caixa do violão. — Está fria, mas pode se servir. — Como se eu pudesse comer agora! — Respirei fundo e deitei no chão. — Pelo que vejo, tenho duas opções: matar e/ou cometer suicídio... Seria muito fácil matá-los, sabe? Eu queria ver a reação dele, mas, para a minha tristeza, ele nunca ficava chocado com o que eu dizia. Ele simplesmente pegou um pedaço de pizza, o dobrou pela metade, colocou inteirinho na boca, mastigou por algum tempo e, com a boca ainda cheia, disse que eu seria a única e principal suspeita. — Você terminaria os seus dias em um presídio feminino no norte do estado de Nova York. Com um corte de cabelo estilo mullet. Posso vê-la inclinada na janela com o cabelo sacudindo ao vento do pátio da prisão.
  • 16. Pensei bem e decidi que preferiria a morte a ter de fazer isso com o meu cabelo. Por isso, cogitei a opção do suicídio. — Bem. O assassinato está descartado. Vou me matar. Eles sentirão muita culpa se eu me matar, não é? — perguntei, mais para assustá-lo do que para decidir a minha morte. Eu queria que Marcus dissesse que não saberia viver sem mim. Mas ele não tomou partido no assunto do suicídio como fazia Rachel quando estávamos nos últimos anos do ensino fundamental, prometendo que iria substituir a seleção de músicas clássicas da minha mãe por músicas como On the Turning Away, do Pink Floyd. — Eles se sentiriam muito culpados se eu me matasse... Você acha que eles viriam ao meu funeral? Será que eles pediriam desculpas aos meus pais? — Sim, provavelmente. Mas as pessoas mudam muito rápido. Na verdade, elas podem esquecê-la no seu próprio funeral, dependendo da qualidade da comida. — Mas onde ficaria a culpa? — perguntei. — Como ~ 17 ~ poderiam viver com ela? Ele me garantiu que a culpa inicial seria facilmente amenizada por qualquer bom psicanalista. Assim, depois de algumas noites no sofá, a pessoa, que antes sofria ao se perguntar como poderia ter evitado a tragédia, entenderia que apenas uma alma atormentada tiraria a sua própria vida e que aquele pequeno ato de traição, insignificante, não faria uma pessoa normal saltar na linha do trem número 6. Eu sabia que Marcus estava certo, lembrando que, quando eu e Rachel estávamos na segunda série do ensino médio, um colega de sala, Ben Murray, se matou com um tiro na cabeça, no seu quarto, enquanto os pais assistiam à televisão na sala. Ficamos sabendo de muitas histórias, mas, para resumir, todos sabíamos que tinha alguma coisa a ver com uma briga que ele teve com a namorada, Amber Lucetti, que o trocou por um garoto da faculdade que ela conheceu enquanto visitava a sua irmã em Illinois. Nenhum de nós conseguiu esquecer o momento em que um orientador vocacional deu a terrível notícia à Amber, ela ficou em choque. Também não conseguimos esquecer os lamentos de
  • 17. Amber ecoando nos corredores. Todos pensamos que ela enlouqueceria e seria internada em uma clínica para doentes mentais ou coisa parecida. No entanto, após alguns dias, Amber estava de volta às aulas, fazendo um seminário sobre a recente queda na bolsa de valores. Eu tinha acabado de fazer o meu seminário sobre a razão do sucesso das maquiagens vendidas em supermercados em comparação com as mais caras, uma vez que elas utilizam as mesmas cubas de óleo e de pó. Fiquei surpresa com a habilidade de Amber para falar de um assunto tão denso, quase sem olhar para as suas fichas de tópicos, enquanto seu ex-namorado estava em um caixão debaixo da terra. E o seu competente seminário não foi nada se comparado ao espetáculo que ela deu ao se apresentar com Alan Hysack no Spring Dance, menos de três meses após o funeral de Ben. Dessa forma, se eu realmente quisesse destruir o mundo de Rachel e Dex, seria melhor não escolher o suicídio. Só me restava uma opção: continuar levando a minha vida charmosa e perfeita. Eles não dizem que a felicidade é a melhor vingança? Eu me casaria com Marcus, teria o filho dele e construiríamos uma vida feliz, sem olhar para trás. — Ei. Eu quero uma fatia — disse para Marcus. — Estou comendo por dois agora. Aquela noite liguei para os meus pais e contei as novidades. Meu pai atendeu ao telefone e eu pedi para ele colocar a mamãe na extensão. — Mamãe e papai, o casamento está cancelado. Desculpem — disse resignada, talvez resignada demais porque eles entenderam imediatamente que o rompimento ocorrera por minha culpa. O velho e estimado Dex nunca cancelaria um casamento uma semana antes da data prevista. Minha mãe começou a soluçar, dizendo o quanto gostava de Dex, enquanto o meu pai falava mais alto, dizendo: — Agora, Darcy. Não seja precipitada... — Foi aí que contei o terrível episódio do armário. O telefone ficou mudo. Eles ficaram tanto tempo calados que pensei que a ligação tivesse caído. Por fim, meu pai disse que devia haver algum engano porque Rachel nunca faria uma coisa dessas. Disse a ~ 18 ~
  • 18. eles que eu também não acreditava nisso, mas que tinha visto com os meus próprios olhos: Dex de cueca no armário da Rachel. Por achar desnecessário, não contei nada aos meus pais sobre Marcus ou sobre o bebê. Eu queria que eles me dessem apoio financeiro e emocional total. Eu queria que eles colocassem a culpa em Rachel, a nossa vizinha que os enganou assim como me enganou. A perfeita, convincente, leal, honesta e previsível Rachel. — O que vamos fazer Hugh? — minha mãe perguntou a meu pai em um tom infantil. — Vou cuidar disso — disse ele. — Tudo vai ficar bem. Darcy, não se preocupe com nada. Temos a lista de convidados. Avisaremos a família. Entraremos em contato com Carlyle, o fotógrafo. E com todos os outros convidados. Você deve descansar. Você quer que viajemos para aí na quinta, como estava previsto, ou você prefere vir para cá? Você decide querida. Meu pai estava totalmente ligado no modo de crise, do jeito que ficava quando recebíamos um aviso de tornado ou de nevasca, ou quando nosso gato de estimação, inofensivo e cego de um olho, escapava pela porta dos fundos e a minha mãe e eu tínhamos uma crise de nervos, saboreando secretamente o drama. — Eu não sei papai. Não consigo pensar direito agora. Meu pai suspirou e disse: — Você quer que eu ligue para o Dex? Para fazê-lo pensar melhor? — Não, papai. Não vai adiantar. Acabou. Não faça isso, por favor! Tenho o meu orgulho. — Aquele cafajeste! — acrescentou a minha mãe. — E Rachel! Eu não posso acreditar nessa sem-vergonha. — Deus, você não está ajudando! — disse meu pai. — Bem, eu sei — respondeu minha mãe. — É que eu não posso acreditar que ela tenha feito isso. E por qual motivo Dex quis ficar com ela? — Eu sei! — disse. — Não acredito que estejam realmente juntos, certo? Ele poderia gostar dela de verdade? — Não. Sem chances — disse minha mãe. ~ 19 ~
  • 19. — Tenho certeza de que Rachel se arrependeu — disse meu pai. — Foi um ato extremamente inadequado. — Inadequado não é bem a palavra para isso — ~ 20 ~ respondeu minha mãe. Meu pai tentou de novo. — Inconsequente? Oportunista? Minha mãe concordou com a avaliação dele. — Ela provavelmente devia estar de olho nele desde o início do seu namoro. — Sei disso — respondi, sentindo-me levemente arrependida por ter deixado Dex escapar. Todos achavam que ele era como um prêmio. Eu olhava para Marcus para me convencer de que fizera a coisa certa, mas ele estava olhando para o seu video game. — A Rachel ligou para se explicar ou para pedir desculpas? — continuou meu pai. — Ainda não — disse. — Ela irá — disse minha mãe. — E até que isso aconteça você deve ser forte, querida. Tudo vai ficar bem. Você é uma garota bonita. Encontrará outra pessoa. Alguém melhor. Diga isso a ela, Hugh. — Você é a garota mais bonita desse mundo — ele disse. — Tudo vai ficar bem. Eu prometo!
  • 20. 3 Ironicamente, foi Rachel que me apresentou a Dex. Eles estavam no primeiro ano do curso de Direito da Universidade de Nova York e, como Rachel insistia em dizer que não estava na universidade para namorar, mas para estudar, ela passou o seu amigo Dex, o homem mais interessante do campus, para mim. Eu lembro bem: Rachel e eu estávamos em um bar, no Greenwich Village, esperando por Dex. No momento em que ele chegou, soube que ele era especial. Ele havia saído de uma propaganda de perfumes caros, o homem nos anúncios brilhantes olhando para o Sol em um veleiro ou encostado atentamente em um tabuleiro de xadrez com uma lareira ao fundo. Eu tinha certeza de que ele não sairia mal vestido nem ficaria bêbado até cair, que nunca falaria palavrão na frente da sua mãe, que usava produtos pós-barba de qualidade e talvez fizesse a barba com uma navalha em ocasiões especiais. Eu sabia que ele gostava de ópera, que resolvia qualquer palavra cruzada do Times e que pedia um bom vinho do Porto após o jantar. Juro que percebi tudo isso no nosso primeiro encontro. Sabia que ele era o meu parceiro ideal, o sofisticado homem da Costa Leste que eu precisava para criar, em Manhattan, uma versão da vida da minha mãe. Dex e eu tivemos uma conversa agradável naquela noite, mas ele só me convidou para sair depois de algumas semanas. Assim que ele me ligou, dispensei o garoto com quem estava saindo na época porque eu tinha certeza de que alguma coisa maravilhosa iria começar. Eu tinha razão: nós nos tornamos um casal muito rápido e as coisas eram ~ 21 ~
  • 21. perfeitas. Ele era perfeito. Tão perfeito que eu sentia que não o merecia. Eu sabia que era bonita, mas, às vezes, achava que não era inteligente ou interessante o bastante para um homem como Dex e que, assim que ele descobrisse isso, não iria mais me querer. Rachel não me ajudava com essa questão porque, como de costume, ela sempre encontrava uma maneira de acentuar as minhas limitações, sublinhar a minha apatia, a minha indiferença com relação a assuntos como aqueles com que ela e Dex se preocupavam: o que estava acontecendo nos países em desenvolvimento ou quem defendeu determinada causa no Congresso. Quer dizer, os dois escutavam a rádio NPR1, pelo amor de Deus! É isso. Só de ouvir o barulho das vozes nessa estação de rádio, os meus olhos começavam a pestanejar. Imagina, então, prestar atenção no conteúdo. Dessa maneira, depois de passar algumas semanas fingindo interesse por coisas que não me importavam, decidi mostrar quem eu era de verdade. Uma noite, enquanto Dex estava concentrado em um documentário sobre um acontecimento político no Chile, peguei o controle e mudei para o canal Nickelodeon, onde passava uma reprise de uma antiga série da TV americana chamada Gidget. — Ei! Eu estava assistindo! — disse Dex. — Estou muito cansada de ver gente pobre — disse, escondendo o controle remoto no meio das pernas. Dex riu com carinho e disse: — Eu sei Darcy. Eles podem ser muito irritantes, não é? De repente, percebi que, uma vez que Dex tinha conteúdo de sobra, ele não se importaria com a minha visão relativamente superficial do mundo. E nem com o meu interesse descarado em buscar coisas de qualidade e diversão. Ao contrário, acho que ele admirava a minha sinceridade, a minha honestidade ao revelar quem eu era. Posso não ser uma garota muito profunda, mas não sou falsa. Resumindo: Dex e eu tínhamos nossas diferenças, mas eu o fazia feliz. E, na maior parte do tempo, eu era uma namorada boa e fiel. Apenas duas vezes, antes de Marcus, ~ 22 ~
  • 22. minha atração pelo sexo oposto acabou se concretizando, o que acho bastante admirável para sete anos. O primeiro deslize ocorreu alguns anos atrás com Jack, um garoto de 22 anos que conheci uma noite no Lemon Bar enquanto tomava alguns drinques com Rachel e Claire, que era a minha melhor amiga no trabalho, ex-colega de quarto e a garota mais antenada da Costa Leste. Rachel e Claire eram tão diferentes como a escritora Laura Ingalls e Paris Hilton, mas as duas eram solteiras e minhas amigas, por isso sempre saíamos juntas. Bem, nós três estávamos conversando no bar quando Jack e seus amigos se apresentaram. Jack era o mais descontraído do grupo, jovem e charmoso, falava de quando jogava polo aquático na Universidade de Princeton. Eu tinha acabado de fazer 27 anos e estava me sentindo um pouco velha e cansada, por isso fiquei orgulhosa ao perceber que Jack estava interessado por mim. Morri de rir ao ver os outros garotos (não tão bonitos como Jack) paquerarem Claire e Rachel. Tomamos alguns coquetéis, trocamos olhares e, mais tarde, Jack e seus amigos decidiram procurar um local mais animado (comprovando a minha teoria de que o número de vezes que você troca de bar é inversamente proporcional à sua idade). Pegamos um táxi para encontrar alguma festa no SoHo. Mas, como era de se esperar dos muito jovens, Jack e seus amigos conseguiram anotar errado o endereço e o telefone de um amigo de outro amigo que estava dando a festa. Eles seguiam toda a rotina inepta na busca de um endereço errado enquanto discutiam uns com os outros. — Cara, não posso acreditar que você perdeu essa ~ 23 ~ porcaria... Acabamos indo para a rua Prince, no frio, prontos para aproveitar a noite. Rachel e Claire foram embora primeiro, rachando um táxi para o lado leste de Manhattan. Depois os amigos de Jack se mandaram, determinados a encontrar a festa. Então, fiquei sozinha com Jack na rua. Estava tonta e Jack parecia tão apaixonado que lhe dei alguns beijos inofensivos. Não foi nada demais. Não foi nada mesmo. Pelo menos para mim. É claro, o jovem e impaciente Jack me ligou várias vezes no dia seguinte, deixando milhares de mensagens no meu
  • 23. celular. Por fim, liguei para ele e disse que tinha um namorado sério e que ele não deveria me ligar novamente. Disse que eu sentia muito. — Eu entendo — disse ele, parecendo estar desapontado. — Seu namorado é um cara de sorte... Se terminar com ele algum dia, me liga. — Tudo bem. Obrigada, Jack. E me desculpe ~ 24 ~ novamente. Ao desligar, senti uma pontinha de culpa e me perguntei por que havia beijado Jack. Não fazia muito sentido. Mesmo estando tonta, eu não tinha ilusões sobre algo mais. A única coisa que pensei foi “Você quer ou não beijar esse garoto?” e, como a resposta foi sim, eu o beijei. Não sei. Talvez estivesse sentindo um pouco de tédio. Talvez estivesse com saudades dos tempos em que Dex parecia estar louco de paixão por mim. Eu cheguei a pensar que esse caso com Jack seria a evidência de um problema em nosso relacionamento, mas depois percebi que um beijo era apenas um beijo. Sem problemas. Decidi não contar nada a Rachel sobre Jack. Acabou, não fazia sentido ter que escutar um daqueles sermões que ela fazia sempre que eu traía meus namorados na época do ensino médio e da faculdade. Depois de Jack, fui o retrato da namorada ideal por um longo tempo, quase um ano. Então, encontrei Lair em um almoço organizado por nossa empresa de relações públicas para uma nova linha de roupas esportivas e modernas chamadas Emmeline. Lair era um modelo maravilhoso da África do Sul, com uma pele cor de caramelo e olhos tão azuis que combinavam com o agasalho cor de água que ele estava usando. Depois de vê-lo sorrir para mim duas vezes, eu me aproximei. — Então, eu preciso saber — gritei mais alto que a música. — São falsos? — O quê? — Seus olhos. Você está de lentes azuis? Ele deu um sorriso com um sotaque sul-africano. — Nossa, não! Eles são meus.
  • 24. — Você disse que são seus? Ele concordou e sorriu. — Que diferente — olhei fixamente nas extremidades dos seus olhos para ter certeza de que estava falando a verdade. Não havia sinal algum de lente de contato. Ele riu, mostrando os belos dentes brancos. Depois, ele me estendeu as mãos e se apresentou: — Sou Lair. — Oh, Lair. Que nome mais fofo! — disse, imaginando nós dois escondidos em algum lugar. — Sou Darcy. — Prazer, Darcy — disse ele, e deu uma olhada na festa que estive planejando por alguns meses. — É um grande evento. — Obrigada — respondi orgulhosa. Depois usei alguns termos da área de relações públicas para explicar que era um desafio fazer algo realmente diferente para o cliente no mercado competitivo de hoje. Ele concordou, fazendo um sinal com a cabeça, e depois ~ 25 ~ parou. — Mas... — sorri, mexendo o meu longo cabelo castanho de forma sedutora. — É muito divertido, também. Posso conhecer grandes pessoas como você. Continuamos a conversar, sendo interrompidos algumas vezes por meus colegas ou por outros convidados. Sua amiga modelo, Kimmy, que estava usando calças esportivas de lã rosa, com o número 69 em azul-marinho estampado na parte de trás e um top combinando com o mesmo número estampado, chamou Lair várias vezes e tirou várias fotos com sua máquina digital. — Dá um sorriso, querido — ela dizia, enquanto eu me apertava para aparecer nas fotos. Mas, apesar das interferências de Kimmy, Lair não desviava o olhar de mim e a nossa paquera acabou se transformando em uma conversa mais séria. Falamos sobre a sua casa na África do Sul. Admiti que não soubesse nada sobre o seu país exceto que havia o apartheid antes de Nelson Mandela ser solto da prisão. À medida que Lair falava mais sobre a política na África do Sul, o problema da criminalidade em Johannesburgo ou sobre a
  • 25. beleza estonteante do parque nacional Kruger, eu via que ele era mais do que um rosto bonito. Ele me disse que estava modelando para pagar seus estudos e chegou a usar a palavra “sartorial”12. Depois da festa, Lair e eu dividimos um táxi. Minhas intenções eram basicamente puras, eu só queria um beijo na rua, como foi com Jack. Mas Lair sussurrou no meu ouvido: — Darcy, você gostaria de ir ao meu hotel? E não pude me conter e fui ao The Palace com ele, convencida de que não passaria de alguns beijos calorosos. E foi isso mesmo o que aconteceu. Por volta das três da manhã, eu me levantei, arrumei minha roupa e disse a ele que precisava ir para casa. Tecnicamente, eu poderia ficar, pois Dex estava fora da cidade a negócios, mas, de alguma forma, passar a noite com um cara seria muito parecido com uma traição e, nesse ponto, sentia que eu não tinha o direito de trair Dex. Na verdade, acho que o teste para saber se houve traição é bastante claro: se o seu parceiro assistisse ao vídeo da festa, ele ou ela pensaria em traição? Um teste alternativo é: se você visse um vídeo do seu parceiro em uma situação idêntica, você pensaria em traição? Nos dois casos, a resposta seria afirmativa. Contudo, eu não atravessara a linha do sexo, e isso me dava orgulho. Abandonei Lair naquela noite e, depois de uma semana trocando e-mails quentes e apimentados, diminuímos gradualmente a frequência das nossas conversas até perdermos totalmente o contato. A noite começava a sumir em minha mente e eu quase havia esquecido aqueles incríveis olhos até vê-lo novamente, de cueca, sorrindo para mim, em um outdoor no meio da Times Square. Lembrei os detalhes do nosso encontro, pensando no que aconteceria se eu tivesse terminado com Dex por causa de Lair. Imaginei a gente morando em Johannesburgo, em meio a elefantes e ladrões de carro, e decidi, mais uma vez, que foi melhor ter deixado a nossa relação acabar no The Palace. Dex e eu ficamos noivos após alguns meses, e eu prometi a mim mesma que seria sincera com ele para sempre. Mas não tínhamos muita coisa em comum e ele não me fazia arrepiar 1 Relativo ao músculo sartório, da coxa. (N. E.) ~ 26 ~
  • 26. o tempo todo. Mesmo assim, era um homem bom para começar uma nova vida. Eu iria me casar com ele e viver feliz para sempre no Upper West Side, em Manhattan. Tudo bem, talvez mudássemos para a Quinta Avenida; então, embora precisasse de pequenos ajustes, minha vida estava traçada. Só não tinha planejado Marcus nela. ~ 27 ~
  • 27. 4 Por anos, Marcus foi, para mim, apenas o colega de quarto preguiçoso de Dexter da época em que estudava na Universidade de Georgetown. Enquanto Marcus era quase o último da turma e ficava bêbado o tempo todo, Dex se formou com honras e nunca provou uma droga ilegal sequer. Mas o fato de terem sido colegas de quarto foi tão importante para eles que continuaram amigos após a formatura apesar de viverem em lados opostos da cidade. É claro, nunca dei muita atenção a esse colega de faculdade até ficarmos noivos e ele sugerir o seu nome para padrinho. Dex tinha apenas quatro escolhas certas, mas eu tinha cinco madrinhas (incluindo Rachel, que era madrinha de honra) e a simetria no número de padrinhos era um assunto inquestionável. Por isso, Dex ligou para Marcus e lhe fez o convite. Depois de zombarem da situação por alguns minutos, Marcus pediu para falar comigo, o que achei muito educado da sua parte, uma vez que nunca havíamos nos visto. Ele me parabenizou e prometeu que não embebedaria o noivo uma noite antes do casamento. Eu comecei a rir e lhe disse que acreditaria nisso, sem imaginar que ele deveria prometer não dormir comigo antes do casamento. Na verdade, eu não esperava sequer conhecê-lo antes do casamento, mas algumas semanas depois do tal convite ele conseguiu um emprego em Manhattan. Para comemorarmos, fiz reservas em um restaurante da moda, apesar de Dex deixar bem claro que Marcus não ligava para lugares da moda. ~ 28 ~
  • 28. Dex e eu chegamos primeiro ao restaurante e esperamos por Marcus no bar. Ele chegou usando jeans largos e esportivos, uma camisa amassada e uma barba de dois dias, pelo menos. Em resumo, não era o tipo de homem para o qual eu olharia. — Dexter! — gritou Marcus ao se aproximar, depois deu um abraço apertado nele, tipo abraço de homem, com tapinhas nas costas. — Bom ver você, cara! — Você também — disse Dex, apontando para mim como um cavalheiro. — Esta é a Darcy. Eu me levantei lentamente, inclinando o corpo para dar um beijo no rosto barbudo do nosso quinto padrinho. Marcus deu um sorriso irônico. — A infame Darcy. Eu gostei de ser chamada de “infame”, apesar da conotação negativa, e ri, coloquei a mão no peito e disse: — Isso não é verdade. — Que pena — disse Marcus sussurrando e depois apontou para a ruiva escultural que estava ao seu lado. — Oh, esta é minha amiga Stacey. Trabalhávamos juntos. Eu a vi entrar na mesma hora em que Marcus, mas não pensei que estivessem juntos. Eles não combinavam em nada. Stacey estava muito bem vestida, usando uma jaqueta de couro azul petróleo acinturada e um lindo escarpim de pele de lagarto. Enquanto nos dirigíamos para a nossa mesa, olhei irritada para Dex por ele ter sugerido que eu estava querendo me exibir quando perguntei se minha roupa estava boa: uma pelerine branca e um corpete de tafetá xadrez. Agora eu estava presa a uma simples jaqueta de tweed preto e branco ao lado da estonteante Stacey. Avaliei-a novamente, para saber se era mais bonita do que eu. Logo percebi que eu era mais bonita, mas ela era mais alta, o que me deixou irritada. Eu gostava de ser as duas coisas. Sempre achei que todas as mulheres gostavam de se sentir as mais atraentes do grupo, mas quando disse isso a Rachel ela deu um olhar inexpressivo seguido de um gesto diplomático de que concordava comigo. Quando me dei conta do que tinha falado, recuei e disse que isso não se aplicaria caso fôssemos amigas e que dessa forma não haveria comparação. ~ 29 ~
  • 29. Por sorte, a personalidade de Stacey não era tão brilhante como o seu guarda-roupa e eu consegui me destacar perto dela. Marcus era extremamente divertido e alegrava a nossa mesa. Ele não era um contador de piadas, mas sempre fazia observações sarcásticas sobre o restaurante, sobre a comida sofisticada e sobre as pessoas ao nosso redor. Notei que sempre que Stacey ria para ele, ela tocava seu braço de forma familiar, o que me fez acreditar que, se eles não estavam namorando, pelo menos tinham um caso. No final da noite, reavaliei a aparência de Marcus e elevei bastante a sua nota. Foi uma combinação do interesse óbvio de Stacey por ele, do seu senso de humor e de mais alguma coisa. Havia alguma coisa que o tornava sexy: um brilho em seus olhos castanhos e a covinha no seu queixo, que me fez lembrar Danny Zuko em Nos tempos da brilhantina (aquela primeira cena do filme na praia foi a minha ideia de romance por anos). Depois do jantar, enquanto Dex e eu entrávamos no táxi para o Upper West Side, eu disse: — Gostei do Marcus. Ele é engraçado e surpreendentemente atraente. Dex já tinha se acostumado com meus cândidos comentários sobre outros homens, por isso não se surpreendia mais. Ele apenas disse: — Sim. Ele é uma figura. Esperei ele dizer que Marcus também havia me aprovado e, como ele não disse nada, perguntei: — O que Marcus disse para você no fim da noite, quando foram pegar os casacos? Ele disse alguma coisa sobre mim? Stacey e eu conversamos um pouco e achei que Marcus dissera algo como “você arrumou um mulherão”, ou “ela é muito mais atraente do que a sua namorada da faculdade”, ou até mesmo algo simples como “gostei da Darcy, ela é legal”. Depois de pressionar Dex por algum tempo, ele me contou que Marcus havia dito que estava namorando Stacey e que, apesar de ela ser ótima de cama, ele estava terminando o relacionamento por ela ser muito exigente. Nem é preciso ~ 30 ~
  • 30. dizer que o fato de Marcus sair com uma garota sexy como Stacey o fez subir mais no meu conceito. E quanto mais saíamos com Marcus, mais eu gostava dele. Mas eu ainda o enxergava apenas como amigo de Dex e padrinho do nosso casamento. Até a noite do aniversário de trinta anos de Rachel, quando fiz uma festa surpresa para ela em nosso bar favorito no Upper West Side. Eu lembro o momento exato em que me aproximei de Marcus e disse que ele deveria gostar muito de festas na época da faculdade, mas que eu poderia acompanhá-lo na bebida agora. Ele riu e deu um tapinha no balcão do bar dizendo: — Oi, beleza? Traz uma para mim, amigo. Começamos a tomar uma dose de Jägermeister. Foi quase uma experiência afetiva, não apenas por estarmos bebendo juntos, mas porque bebíamos escondido de Dex, que detesta quando fico bêbada. “Isso é impróprio. Imaturo. Faz mal à saúde. É perigoso”, ele diria em tom de sermão. Não que isso pudesse me impedir, principalmente, não naquela noite. Uma hora, antes de tomarmos a última dose, Dex nos encontrou no bar e nos olhou de forma suspeita. — Vocês estão bebendo? — perguntou, olhando para os copos vazios no balcão em frente. — Isso não é meu — eu disse. — É do Marcus. Ele ~ 31 ~ bebeu em dois copos. — Sim, cara. São meus — disse Marcus, piscando os olhos. Enquanto Dex passava por nós, com as sobrancelhas erguidas, Marcus piscou para mim. Eu ri. — Ele ia ficar bravo. Obrigada pela cobertura. — Sem problemas — disse Marcus. Desde aquele momento, tínhamos um segredo, e ter um segredo, por menor que seja, cria um laço entre duas pessoas. Eu lembro que pensei em como ele era mais engraçado do que Dex, que nunca perdia o controle. Além de ser engraçado, Marcus estava sexy aquela noite. Ele estava vestindo uma camiseta polo azul-marinho, nada especial, mas ela não era totalmente larga e pude ver que ele tinha um
  • 31. belo corpo. Enquanto bebia um martíni, perguntei se ele malhava. Uma pergunta que revela interesse, na melhor das hipóteses, e é um pouco grosseira, na pior das hipóteses, mas eu não me importava. Eu queria ir direto ao ponto. — Uma ou duas vezes por semana — disse ele. — Fala a verdade. Você tem um corpo ótimo. Você faz ~ 32 ~ musculação? Corre? Ele disse que só corria quando estava sendo perseguido. E então ele continuou a me contar que saíra para correr com uma garota outro dia, apesar de não gostar. — Eu nunca deveria ter ido — disse coçando as pernas. — Ainda estou pagando por isso. E o namoro acabou. — Foi a Stacey? — Quem? — Stacey. Você sabe, a ruiva que você levou ao jantar. — Ah! Aquela Stacey. Coisa do passado. — Bom — eu disse. — Não fui muito com a cara dela. Era muito chata. — Marcus riu. — Ela não era esperta como você. — Então, conta quem era a garota esportista? — perguntei. — Só uma garota. — Essa garota tem nome? — Podemos chamá-la de Wanda. — Certo, Wanda... E ela também era boa de cama como Stacey? — perguntei, orgulhosa pela minha ousadia. Ele sorriu, pronto para me responder, mas, nessa hora, Dex e Rachel chegaram e nunca soube a resposta, ele apenas lançou uma sexy piscada de olhos. Eu lembro que desejei lhe mostrar meus talentos naquela área. Não que eu quisesse dar em cima do meu padrinho na minha festa de casamento. Foi apenas um daqueles pensamentos fugazes de atração que ocorre por conta do álcool. Depois disso, não consigo me lembrar de nada, exceto uma vaga lembrança de Dex me carregando para fora do bar
  • 32. e outra mais vaga ainda de vomitar em um saco plástico, ao lado da nossa cama. Não pensei em Marcus no dia seguinte, até que ele ligou para falar com Dex. Eu lhe disse que Dex ainda estava no trabalho, sentindo-me feliz pela oportunidade de falar com ele. — Ele trabalha muito — disse Marcus. — Conta... Como vão as coisas? Alguma novidade? Você voltou para casa muito tarde na noite passada? — perguntei. Depois de me levar para casa, Dex voltou com Marcus e eles ficaram juntos até 7 horas da manhã. — Ah, sim! Desculpa por ter atrasado o Dex — disse ele. — Você ficou bem? — Sim. — E você não falou com outras garotas? — perguntei. ~ 33 ~ Ele riu. — Você sabe que eu sempre converso com mulheres. Eu lembrei aquele momento no bar, a minha nítida atração por ele. — Ah, eu sei — disse com a voz melosa. — E como vai a Wanda? — Wanda? — Você sabe. Wanda. A esportista. — Ah, aquela Wanda! Certo. Não deu certo com a Wanda... Mas eu queria saber se... — Queria saber o quê? — perguntei timidamente, sentindo que ele estava tentando me dar uma cantada. Mas então ele perguntou: — Qual é a da Rachel? Fiquei surpresa ao escutá-lo dizer o nome dela. — O que você quer saber? Se ela está namorando alguém? Não, não está! Por quê? — perguntei, com um sentimento de posse irracional e um pouco de ciúmes por Marcus estar interessado pela minha amiga. Talvez, de
  • 33. alguma maneira, eu desejasse que ele estivesse interessado em mim. Isso era egoísmo, considerando que Rachel era solteira e eu estava noiva. Mas não se pode controlar as emoções. Marcus continuou. — Ela é muito sexy, com aquele ar de estudiosa. — Sim, ela é adorável — disse, achando estranho ouvir que ela era sexy, embora tivesse notado que ela melhorara muito desde a época da faculdade, quando tinha 20 anos. Acho que era a sua pele. Ela não tinha muitas linhas de expressão como as outras garotas da sua idade. E, em um dia bom, quando ela se preocupava um pouco mais com a aparência, poderia até dizer que ela ficava bonita. Mas sexy era demais. — Bem, se quiser sair com a minha amiga, você precisa pedir para mim primeiro — eu disse em tom de brincadeira, mas não estava brincando. Eu queria assumir o papel de fada madrinha nesse caso. — Bem... Diz para ela que gostaria de chamá-la para sair. E diz que é melhor que ela aceite, ou então... — Ou então o quê? — Ou então será o maior engano da sua vida. — Você é tão bom assim? — Sim — disse ele. — Na verdade, sou muito bom. Foi aí que eu senti aquela angústia novamente. Aquele sentimento de que era uma lástima eu não poder provar Marcus antes de me casar com Dex. Além do que estava sentindo por Marcus, era triste saber que nunca mais daria outro primeiro beijo. Que nunca mais me apaixonaria novamente. Achava que a maioria das pessoas tinha essa sensação em um relacionamento, geralmente antes de decidirem comprar o anel de noivado. Mas pelo que posso dizer, a maioria das mulheres não pensa assim, pelo menos não admite sentir essas coisas. Elas encontram um bom homem e está tudo bem. Elas ficam aliviadas porque não precisam mais continuar procurando alguém. Elas ficam contentes comprometidas, totalmente dedicadas por um longo tempo. Acho que me pareço mais com os homens nesse ponto. ~ 34 ~
  • 34. Apesar desse dilema, no fundo eu sabia que nada poderia acontecer com Marcus. Então, decidi fazer a coisa certa: incentivei Rachel a sair com Marcus e passei a me interessar por esse relacionamento. E quando eles finalmente saíram, fiquei feliz por eles. Contudo, ele e Rachel se recusaram a me contar o que estava acontecendo e isso me irritou demais porque, acima de tudo, eu era a melhor amiga de Rachel muito antes de ela começar esse relacionamento estúpido. Ela não me contou nada, nem mesmo se haviam se beijado, o que me deixou curiosa para saber se haviam ido mais adiante. Quanto mais eu queria saber das coisas, mais eles se calavam e mais intrigada com Marcus eu ficava. Era um círculo vicioso. Consequentemente, nas semanas seguintes, sempre que Marcus ligava para Dex eu fazia de tudo para conversar um tempão com ele. Ocasionalmente, ligava para ele no trabalho com o pretexto de perguntar sobre o nosso fim de semana entre casais ou sobre o casamento. Eu desligava e lhe mandava algum e-mail engraçado. Ele me respondia com a velocidade da luz e, assim, tínhamos uma história engraçada que duraria o dia todo. Coisas inofensivas. No fim de semana de 4 de julho, Dex e Rachel ficaram trabalhando na cidade e não foram viajar conosco. Acima de tudo, eu estava triste e irritada porque a minha melhor amiga e o meu noivo não iriam, mas uma parte de mim estava animada com a ideia de passar algum tempo desacompanhada ao lado de Marcus. Não que eu quisesse que alguma coisa acontecesse. Eu queria apenas um pouco de intriga. Por certo, a intriga me acompanhou até a parte dois do nosso jogo; a diferença é que dessa vez não havia a rede de segurança de Dex. Eu bebi demais, mas não cheguei a passar mal, desmaiar ou falar besteiras. Mas estava visivelmente bêbada e Marcus também. Dançamos até 2 horas da manhã, quando ele, Claire e eu voltamos para casa. Claire colocou o seu pijama e foi direto para a cama, enquanto Marcus e eu continuamos a brincar, primeiro na sala de estar e, depois, no quintal. Estava tudo muito divertido, as piadas e as risadas. Mas, depois, as brincadeiras violentas de empurrar deram ~ 35 ~
  • 35. lugar aos tapinhas e, então, começamos um embate corporal, rolando na grama úmida e fria. Eu lembro que gritava para Marcus parar antes de ele me empurrar para debaixo de uma árvore. Eu lhe disse que iria manchar todo o meu vestido branco, mas, na verdade, eu não queria que ele parasse e acho que ele sabia disso, porque não parou. Ele prendeu meus braços nas minhas costas e isso me deixou muito excitada. E o mesmo aconteceu com Marcus: ele também estava excitado, por sentir seu corpo em cima do meu, o que, é claro, me deixou mais excitada. De repente, começou a chover, mas nenhum de nós quis voltar para a casa. Pelo contrário, continuamos com o corpo colado, quase congelando. Então, paramos de rir. Nós nem estávamos sorrindo, apenas olhando um para o outro, os nossos rostos estavam tão próximos que os narizes se tocavam. Depois de um longo tempo assim, no limbo sexual, eu dobrei a cabeça para o lado e lhe dei um beijo. Várias vezes, devagar, de forma inocente. Eu queria que ele me beijasse primeiro, mas eu havia esperado muito. Os breves segundos de contato foram deliciosos. E posso dizer que ele achou o mesmo, mas se afastou e disse: — O que está acontecendo aqui? Toquei seus lábios novamente. Dessa vez foi um beijo de verdade. Eu lembro que me sentia completamente alerta, todos os meus sentidos estavam aguçados. — Estou beijando você — eu disse. — E você deveria estar fazendo isso? — ele perguntou, ainda em cima de mim, me apertando um pouco mais. — Provavelmente não — eu disse. — Mas aqui estamos. Eu o beijei novamente e, dessa vez, ele me beijou de volta, com a chuva morna caindo sobre nós e ouvindo o barulho dos trovões. Sabia que nós dois estávamos pensando que não podíamos, não deveríamos passar dos beijos, mas estávamos protelando a verdade. Blefando. Ele me dizia coisas como “Precisamos parar”, “Isso é loucura”, “Não podemos fazer isso”, “E se Claire nos encontra aqui?”, mas nenhum de nós mudou de atitude ou parou. Ao contrário, eu segurei forte a sua mão e a movi para baixo do meu vestido. E depois ele já sabia o que devia fazer. ~ 36 ~
  • 36. Se ainda restava alguma dúvida com relação ao desempenho de Marcus, naquele momento tinha desaparecido. Ele era um daqueles caras. Dex poderia ser bonito, mas não fazia como Marcus. Não da mesma forma. E mesmo que fizesse, eu não me sentiria igual. E, ao pensar que nunca havia me sentido assim com Dex, sussurrei em seu ouvido: — Quero estar com você. — Não podemos continuar — disse Marcus, sem parar de acariciar as minhas pernas. — Por que não? — Você sabe por quê. — Mas eu quero. — Não, você não quer. — Eu quero. Tenho certeza disso — eu respondi. — Que droga! Não podemos. Em seguida, eu já estava tirando o meu cinto e desabotoando a sua calça jeans, tocando em suas roupas íntimas, determinada a deixar sua respiração tão acelerada quanto a minha. Seguimos o velho ritual do ensino médio de avançar passo a passo, adiando o inevitável. Mas o inevitável aconteceu. Bem lá debaixo da árvore, na chuva forte de julho. Gostaria de dizer que eu estava pensando coisas sérias e profundas enquanto estava com ele, coisas como o que isso significava para a minha vida, o impacto desse fato para o meu noivado, para o meu relacionamento. Mas não, pensava em coisas como: “Será que sou melhor do que a sua última namorada?”; “Será que Dex vai descobrir?”; “Será que ele vai sair de novo com a Rachel?”; “Por que estou gostando tanto dessa merda?” Ficamos juntos durante um bom tempo, talvez por termos bebido muito, mas decidi que a razão mais provável seria a química perfeita e as proezas sexuais de Marcus. Algum tempo depois, ficamos deitados de costas, recuperando o fôlego, com os olhos quase cerrados. A chuva fez uma pausa, mas nós estávamos encharcados. — Uau! — disse ele, tirando um galho de baixo das suas costas e jogando-o para longe. — Droga. ~ 37 ~
  • 37. Percebi que ele estava impressionado, então, dei um ~ 38 ~ sorriso. — Não deveríamos ter feito isso — ele disse. — Tarde demais — eu respondi, entrelaçando nossos dedos.
  • 38. 5 No dia seguinte, acordei com um gosto de tequila na garganta e uma dor de cabeça muito forte. Olhei para o relógio e já era quase meio-dia. A noite passada parecia um sonho distante. Um sonho distante e bom. Estava ansiosa para ver Marcus novamente. Eu me levantei, escovei os dentes, fiz um rabo de cavalo, coloquei um pouco de blush rosa, uma saia verde limão, uma blusa branca e saí para procurá-lo. Ele estava na sala de estar sozinho, assistindo à ~ 39 ~ televisão. — E aí? — disse, sentando-me ao lado dele no sofá. Ele olhou para mim de soslaio e resmungou algo como “dia” ou “tarde”, eu acho. Depois voltou a olhar para a TV. — Onde estão todos? — perguntei. Ele me disse que Claire fora almoçar e que Hillary, nossa outra companheira de chalé, não voltara para casa desde a noite passada. — Talvez ela tenha passado a noite acompanhada também — disse, para quebrar o gelo. — Sim — ele respondeu. — Talvez. Tentei de novo. — E como você se sente? — Eu me sinto um sacana — disse ele, mudando de canal e ainda evitando me olhar nos olhos. — Aqueles drinques não foram uma boa ideia.
  • 39. — Ah, entendi — eu disse. — Estamos colocando a culpa pelo que aconteceu no álcool, é isso? — Ele sacudiu a cabeça e tentou não sorrir. — Sempre soube que você era perigosa, Darcy Rhone. Eu gostei de saber que ele pensava assim, mas, ao mesmo tempo, não queria que ele pensasse que eu era uma pessoa volúvel ou que eu sempre traía Dexter, por isso fui direto ao ponto e disse que isso nunca tinha acontecido antes. O que era, tecnicamente, a verdade. — Sim. Bem. Não vai acontecer de novo. De volta à ~ 40 ~ realidade — disse Marcus. Fiquei chateada e com o ego ferido por ele estar me tratando de forma tão grosseira. Tínhamos, apesar de tudo, compartilhado uma noite de paixão. Paixão que eu não sentia há anos. Talvez nunca tivesse sentido. Gosto de pensar que sou uma garota do mundo e, com certeza, fiz sexo em muitos lugares interessantes, incluindo, mas sem totalizar, o estacionamento de uma igreja, uma plantação de milho, a sala de espera do dentista do meu pai. Mas a experiência no temporal foi inédita e eu estava irritada porque Marcus não estava dando o valor merecido ao fato. — Então você se arrependeu? — perguntei. — É claro que sim. Suspirei e tentei mudar o foco. — E você... Não gostou? Ele olhou para mim e sorriu. — Isso não vem ao caso, Rhone. — Não me chame de Rhone — eu disse. — Você não me chamava de Rhone na noite passada. — A noite passada — disse ele, sacudindo a cabeça — foi um erro. Acho que é melhor esquecermos tudo. — Não — respondi. Ele olhou para mim. — Não? — Não. Não podemos esquecer — repeti. — Aconteceu. Não podemos voltar atrás.
  • 40. — Sei que não podemos voltar atrás, mas temos que esquecer. Não foi certo o que fizemos. Você está noiva... E Dex é meu chapa... Está decidido. — Certo — eu disse, olhando-o de forma crítica. Ele me olhou e cruzou as pernas. — Foi uma grande sacanagem. Fiquei muito irritada por ele estar se preocupando com ~ 41 ~ Dex e não comigo. — Marcus. — O quê? — Acho que devemos falar sobre o que aconteceu. Devemos falar sobre o que nos levou a fazer isso. Eu queria testá-lo, saber o quanto ele gostava de mim ou se eu poderia tê-lo novamente, caso quisesse. E eu queria. Talvez mais uma ou duas vezes. Bem, depois que você trai pela primeira vez, faz diferença se você trair mais uma ou duas vezes? — Aconteceu porque estávamos bêbados. — Não foi por isso que aconteceu. Foi algo maior. Você não ficou com a Claire, não é? Ele limpou a garganta, mas não disse nada. — E se eu achar que não devo mais ficar com Dex? — Então é melhor você cancelar o casamento. — Você quer que eu faça isso? — perguntei. — Não, eu não disse isso. Você deve se casar com Dex — sua voz era tão fria que parecia uma pedra de gelo. — E se eu achar que devo ficar com você? — perguntei, olhando fixamente em seus olhos. Ele desviou o olhar. — Isso não vai acontecer. — Por que não? — Não pode acontecer. — Por quê?
  • 41. — Por que... — ele se levantou e foi para a cozinha, voltando com uma garrafa de Gatorade. — Foi um erro. Dentre outras coisas. — Você não sente nada por mim? — perguntei. Foi uma armadilha. Ele não poderia negar seus sentimentos ou seria um babaca por ter dormido comigo. Mas se ele admitisse que sentisse algo por mim, então a porta não ficaria totalmente fechada. Ele pensou por alguns segundos e respondeu de forma astuciosa. — É claro que gosto de você, Darcy. Somos amigos. — Então você sempre faz isso com as suas amigas? — ~ 42 ~ repliquei. Ele diminuiu o tom de voz, cruzou os braços e olhou para mim. — Darcy. Eu... Gostei muito do que aconteceu na noite passada... Mas foi um passo mal dado. E eu sinto muito... Foi um erro. — Um erro? — eu disse, parecendo ofendida. — Sim — ele respondeu calmamente. — Um erro. Um incidente causado pelo álcool. — Mas não significou nada para você? — Sim — ele bocejou, esticou os braços e sorriu. — Como eu disse, eu gostei muito. Mas acabou. Fim. — Tudo bem — eu disse. — Mas você não vai sair com a Rachel novamente, vai? — Eu não sei. Talvez. Provavelmente. Por quê? — Você vai?! — perguntei, indignada. Ele apenas olhou para mim, tomou um gole de Gatorade. — Por que não? — Você não acha que vai ficar estranho agora? — perguntei. — Como um jogo de interesses ou coisa parecida? Ele encolheu os ombros, mostrando que não via problema algum naquilo.
  • 42. — Você não vai dormir com ela, vai? — perguntei, presumindo, com base nos registros de Rachel, que ele ainda não tinha feito isso. Ele riu e disse: — Não posso garantir. — Você está falando sério? — perguntei, horrorizada. — Isso é muito estranho. Ela é a minha melhor amiga. Ele encolheu os ombros. — Tudo bem. Olha. Preciso fazer uma pergunta. Uma pergunta... Se eu fosse solteira, quem você escolheria? Rachel ou eu? — perguntei. Eu tinha quase certeza da resposta, mas queria ouvi-lo dizer. Ele riu. — Você é demais. — Vamos, responda! — Certo. Vou dizer a verdade — ele disse com a voz triste. Eu esperava algumas palavras de carinho, que não havia escutado desde o nosso primeiro encontro, mas... — Eu tentaria dormir com as duas ao mesmo tempo. — Eu dei um tapa em seu braço e disse: — Fala sério! Ele riu. — Vocês nunca fizeram isso? — Não, nunca fizemos isso! Seu grosso! Sei que dou conta de muitos, mas gosto de dar o meu amor só para uma pessoa... Então, vamos lá, você precisa escolher. Rachel ou eu? Ele encolheu os ombros. — Não vou responder. — Por causa do Dex, certo? Mas você se sente mais atraído por mim? — perguntei, esperando a resposta. Não que eu quisesse ser melhor do que a Rachel. O caso é que ela tinha o seu trunfo, ser uma advogada inteligente, enquanto ser atraente e desejada pelos homens era o meu triunfo, minha única fonte de autoestima. E eu queria, e precisava, que isso ficasse claro. Mas Marcus não me daria esse prazer. — Vocês têm belezas diferentes — disse ele, enquanto aumentava o volume da televisão para deixar claro que queria ~ 43 ~
  • 43. encerrar a conversa. — Agora, vamos assistir ao torneio de tênis de Wimbledon? O que você acha do Andre Agassi? Durante o resto do fim de semana, enquanto Marcus fazia o possível para evitar ficar sozinho comigo, eu ficava cada vez mais obcecada por ele. E, quando voltamos à cidade, minha obsessão apenas aumentou. Eu não queria ter um caso com ele, mas queria que ele me quisesse. E isso não estava acontecendo. Apesar das centenas de e-mails e telefonemas, Marcus me ignorava. Então, uma semana mais tarde, tive de adotar medidas mais drásticas e apareci em seu apartamento com um fardo de cerveja e uma cópia do filme Pulp Fiction, que todos os homens adoram. Ele abriu a porta e ficou em pé, com os braços cruzados. Estava vestindo uma calça de moletom cinza com um buraco no joelho e uma camiseta velha e manchada. Mesmo assim, ele era atraente, como qualquer pessoa com quem você tivesse feito sexo proibido na chuva. — Bem? Posso entrar? Trouxe presentinhos — eu disse, segurando o fardo de cerveja e o filme. — Não — ele respondeu sorrindo. — Por favor? — eu disse com uma voz melosa. Ele sacudiu a cabeça e sorriu, mas não se moveu. — Deixa disso! Podemos apenas passar um tempo juntos essa noite? — perguntei. — Eu só quero conversar. Como amigos. Apenas amigos. Tem alguma coisa errada nisso? Ele suspirou de cansaço e moveu-se o bastante para que eu pudesse entrar espremida pela porta. — Você é uma viagem. — Eu só quero vê-lo novamente. Como amigo. Prometo — eu disse, observando seu típico apartamento bagunçado de homem. Havia roupas e jornais espalhados por todos os lados. Uma caixa de lasanha estava descongelando em cima da mesa. Sua cama estava desarrumada, o lençol deixava à mostra uma parte do colchão azul-escuro. E havia um grande aquário, que precisava ser lavado, ao lado da televisão de plasma e dezenas de jogos de video game. Ele percebeu que eu estava reparando em tudo. ~ 44 ~
  • 44. — Não estava esperando visita. — Eu sei. Eu sei. Mas você não atendeu aos meus telefonemas. Eu tive de tomar uma atitude mais drástica. — Sei como são suas atitudes drásticas — disse ele, apontando para um futon que ficava em frente ao seu sofá de couro. — Senta. — Ah, Marcus. Acho que ainda podemos sentar no mesmo sofá. Eu juro, nada irá acontecer. Era mentira, e nós dois sabíamos. Então, no meio do filme, depois de alguns movimentos suaves, Marcus e eu estávamos cometendo o mesmo erro pela segunda vez. E posso dizer que gostei ainda mais dele no sofá seco e macio. ~ 45 ~
  • 45. 6 Depois daquela noite no sofá, Marcus parou de resistir e de dizer que a nossa relação era um erro. Embora ele quase nunca tomasse a iniciativa, sempre estava disponível quando eu pedia para vê-lo na hora do almoço, no meio do dia ou à noite, quando Dex trabalhava até tarde. Todo o meu tempo livre eu queria passar com Marcus. E quando eu não estava com Marcus, estava pensando nele, fantasiando coisas com ele. O sexo era demais, achei que aquela coisa de um em cima do outro só existisse no filme 9 ½ semanas de amor. Eu não me cansava de Marcus, e ele visivelmente estava tão obcecado quanto eu. Ele tentou fingir que não estava envolvido, mas, de vez em quando, eu percebia seus sentimentos pelo tom da sua voz ao telefone ou pela maneira como ele me olhava depois de fazermos amor, quando eu caminhava nua por seu apartamento. Mas, apesar do nosso romance ascendente, Marcus nunca pediu para que eu cancelasse o casamento. Nem uma vez. Nem mesmo quando eu o pressionei, lhe perguntando diretamente se ele queria que eu fizesse isso. Ele simplesmente me respondeu: — A escolha é sua, Darcy. Ainda era mais frustrante quando ele dizia que eu deveria me casar com Dex. Eu sei que falava isso por se sentir culpado, mas eu detestava ouvir. Embora não tivesse a intenção de cancelar o meu casamento e devesse aproveitar a liberdade de um caso sem compromisso, eu ainda queria ouvir Marcus me dizer que queria ficar comigo e que, se eu não contasse a verdade a Dex, ele contaria. Essas medidas combinariam com nosso estado de paixão, com a força ~ 46 ~
  • 46. irrefreável e inominada que nos unia. Mas esse não era o estilo do Marcus. Embora ele tivesse desrespeitado a lealdade entre homens ao dormir com a noiva de um amigo, ele não estava disposto a ir mais além e sabotar o casamento. Por isso, meu noivado com Dex continuou intacto, e eu estava dividida entre o meu noivo e o meu amante. Saía do apartamento de Marcus e ia ao meu, mudando completamente o foco: pegava os meus fichários e resolvia centenas de detalhes do casamento sem pestanejar. Apesar do meu envolvimento com Marcus, eu ainda tinha o sonho do casamento perfeito e acreditava que não havia ninguém melhor do que Dex para mim. Pelo menos no papel. Dex era muito melhor do que Marcus no papel. Em primeiro lugar, ele era mais bonito. Se fizesse uma pesquisa com cem mulheres, Dex receberia todos os votos. Marcus não era tão alto, seu cabelo não era tão grosso e seus traços não eram tão marcantes. Em outras categorias Marcus também ficava para trás: ele não se vestia tão bem, tinha uma péssima ética de trabalho, não ganhava muito dinheiro, não vinha de uma família tão boa, seu gosto não era tão refinado, havia traído suas antigas namoradas e era capaz de mentir a um amigo. Marcus apenas ganhava naquele item vago e intangível que pode ou não ser importante, dependendo da pessoa para quem você perguntar. Estávamos unidos por uma razão, que não podíamos entender. Pelo desejo, pela paixão, pela atração física. Ele era irresistível, apesar das imperfeições, e eu não conseguia evitá-lo. Não que eu tivesse tentado. Eu continuei com os meus planos de casamento, voltando para casa com Dex depois de fazer sexo intenso e caloroso com o seu padrinho. Eu queria me convencer de que acabaria com tudo antes do casamento e que, depois desse dia, eu seria uma esposa fiel. Eu estava apenas tendo o meu último caso. Apenas seguindo os meus instintos. Muitas pessoas fazem isso, por que eu não poderia? É claro que não contei a ninguém sobre nós. Nem para a minha mãe, com que eu partilhava tudo. Nem para a Claire, que não conseguiria entender por que eu trairia alguém da estirpe de Dexter e sabotaria o meu futuro. E, com certeza, nem para a Rachel. Porque ela me julgaria mal e eu sabia que ela se sentia atraída por Marcus. ~ 47 ~
  • 47. Eu quase contei a verdade só uma vez. Foi quando esqueci o meu anel de noivado no apartamento do Marcus e acusei a empregada dele de tê-lo roubado. Eu estava em pânico: preocupada se iria conseguir outro antes do casamento, preocupada em como contaria a Dex que o anel havia sumido e, de repente, preocupada se eu deveria me casar com Dex. Desesperada, procurei a Rachel. Ela sempre me ajudava a tomar decisões, mesmo sobre coisas triviais, como se deveria comprar uma bota na cor chocolate ou cru (naquela época isso não era tão trivial). Nesses momentos de dúvida, eu sabia que ela estava lá para me ajudar. Contei-lhe sobre o meu caso, mas omiti algumas coisas, dizendo que só havia acontecido uma vez. E disse que havia dormido com um cara do meu trabalho, em vez de Marcus. Eu só queria poupar os seus sentimentos porque, naquele momento, eu não me sentia pronta para contar toda a verdade. Como sempre, Rachel me deu conselhos sensatos. Sobre o fato, ela me convenceu de que foi apenas uma manifestação de insegurança, que apenas um homem ou uma mulher que possui inúmeras opções pode compreender. Ela me fez enxergar que, embora a paixão inicial de um intenso caso amoroso fosse o máximo, o que eu tinha com Dex era melhor, mais duradouro. Eu acreditei nela e decidi que me casaria com Dex. Então, em uma noite de agosto, cerca de três semanas antes do casamento, algo me fez ficar em dúvida. Eu tinha um jantar com um cliente que foi cancelado na última hora e decidi aparecer no apartamento de Marcus para fazer uma surpresa. Ele ainda não havia chegado a casa, mas convenci o seu porteiro a me emprestar a chave para que eu pudesse esperar por ele lá dentro. Subi as escadas, tirei a roupa, exceto os meus sapatos de salto com estampa de leopardo, e deitei no seu sofá, ansiosa para que ele chegasse a casa e me encontrasse assim. Passou cerca de uma hora e, quando eu estava quase dormindo, escutei a voz de uma mulher no hall de entrada e a voz baixa de Marcus, obviamente em sua companhia. Corri para me vestir, mas não consegui antes que Marcus e uma loira, que se parecia vagamente com a Stacey do restaurante, entrassem. Ela tinha um rosto bonito, mas o corpo tinha forma de pera, e, pior, usava sapatos de três coleções ~ 48 ~
  • 48. passadas. Ficamos os três frente a frente, distantes alguns centímetros. Eu estava completamente nua, com exceção dos meus sapatos de salto do estilista Manolo Blahnik. — Darcy, você me deu um baita susto — disse Marcus, sem parecer tão assustado assim. — Meu porteiro não avisou que você estava aqui. Consegui me cobrir com uma das camisetas sujas de Marcus que estava pendurada no sofá, mas não antes de perceber o olhar de inveja da garota para mim. — Acho que ele esqueceu — eu disse. — Vou embora — disse a loira, virando-se como um animal que foge de uma armadilha. — Isso mesmo — eu disse, apontando para a porta. — Tchau, Angie, eu... — disse Marcus. — Ele liga para você amanhã, Angie — eu disse, com um ~ 49 ~ tom de sarcasmo. — Tchau, tchau. Assim que a porta se fechou, eu tentei bater nele enquanto gritava. — Seu sem-vergonha, mentiroso, você estragou o meu noivado, arruinou a minha vida. Lá no fundo, eu sabia que não tinha o direito de estar furiosa, uma vez que faltavam apenas algumas semanas para o meu casamento. E, ao mesmo tempo, eu sentia que tinha todo o direito de ficar assim. Por isso, continuei a gritar enquanto ele tentava tampar a minha boca com as mãos ou os braços, como fazia o meu professor de kickboxing. Ficamos assim, por algum tempo, até Marcus ficar zangado. Ele agarrou os meus braços, me sacudiu e gritou. — O que você achou que ia acontecer, Darcy? — Com Angie? — eu disse, esperando que ele fosse me dizer que eles eram bons amigos e que nada iria acontecer. — Não — ele disse desanimado. — O que você acha que vai acontecer depois de você se casar? Você já parou para pensar nisso?
  • 49. — É claro que sim — eu respondi, como se estivesse na defensiva. Eu não esperava esse tipo de pergunta. — E? — Eu nem sei se vou me casar — eu disse. É claro, eu tinha intenção de me casar, mas achava que tinha o direito de ficar indignada se as minhas núpcias acabassem por nada. — Bem, considerando que você se case — disse Marcus. — Você acha que continuaremos nos encontrando? — Não — respondi decidida. — Então, Jesus Cristo, Darcy! — ele gritou. — Já acho uma tremenda sacanagem estar dormindo com a noiva do meu amigo por quase dois meses, mas, você sabe, tudo tem um limite: eu não vou dormir com a sua esposa, caso você esteja pensando nisso. — Eu não estava pensando nisso — respondi. Se ele estava querendo entrar em solo profundo, eu também iria, embora o solo profundo estivesse em constante erosão. — Então, o que você está pensando? Você achou que eu iria fazer celibato depois do seu casamento? Correr atrás de você pelo resto da minha vida? Sair com vocês dois, pensando: “Puxa, que cara sortudo ele é. Como gostaria de estar em seu lugar!”. — Não — eu disse, embora eu gostasse dessa história de amor proibido. Quem não gosta? Quero dizer, há uma razão para que a história de Romeu e Julieta seja tão querida. — Então, Cristo, Darcy, o que você quer de mim?! — ele gritou mais alto, andando de um lado para o outro. Pensei por alguns minutos e disse, em voz baixa, com minha cara de cachorro sem dono: — Quero que você me ame. Ele fez um som de “ah!” e olhou para mim, triste. Tudo estava se voltando contra mim. Por que, de repente, eu era a bandida da história? Eu me sentei, puxando a camiseta sobre os joelhos. As lágrimas escorreram em meu rosto. Chorar sempre funcionava com Dex, mas não consegui dobrar o Marcus. ~ 50 ~
  • 50. — Ah, para de chorar! Para com isso agora! — Você me ama? — perguntei, cheia de esperanças. Ele balançou a cabeça. — Não estou participando do seu jogo manipulador, ~ 51 ~ Darcy. — Não estou manipulando você... Por que você não me responde? — de repente, eu me vi em uma situação singular. — Por que você não me responde? Certo? Então, me diga: faz alguma diferença se eu te amar? Diz! Hum? Seu rosto estava ficando vermelho e suas mãos se mexiam desordenadamente. Exceto em algum evento esportivo ou competição, eu nunca tinha visto ele tão agitado assim, muito menos zangado e irritado. Por um segundo, fiquei encantada com a intensidade da sua reação e com o fato de ele citar a palavra “amor”. Foi a primeira vez que ele chegou perto de me contar o que sentia por mim. Mas então eu me lembrei de Angie e voltei a ficar furiosa. — Bem, se você realmente me ama, então por que saiu com a Angie? — apontei para a porta, por onde a minha fraca oponente havia saído. — Por que a trouxe aqui? Quem é ela? — Ela não é ninguém — disse ele. — Se ela não é ninguém — perguntei —, então por que você ia transar com ela? Eu esperava alguma desculpa, mas ele me lançou um olhar desafiador. — Você queria transar com ela? — perguntei. Ele esperou alguns minutos e depois respondeu: — Sim, isso estava nos meus planos. Dei um soco nos seus ombros. Minha mão doeu, mas ele não recuou. — Você é um babaca — eu disse. — Eu detesto você! Ele me lançou um olhar vazio e disse: — Vá embora, Darcy. Agora. Acabou. Nós nos encontraremos no seu casamento.
  • 51. Percebi que ele estava falando sério. Fiquei chocada, simplesmente não podia acreditar que tudo acabaria assim. — É isso o que você quer? Ele sorriu com desprezo. — E alguma vez você se interessou por outra coisa além ~ 52 ~ do que você queria? — Ah, por favor — eu disse. — Como se você não estivesse gostando. — Claro. Foi divertido — disse ele, de forma superficial. — Então foi isso? Divertido? — Sim. Divertido. Uma rajada de vento. Uma viagem. Uma coisa boa em minha vida — disse Marcus. — O que você quer que eu diga? O que você quer de mim? Eu pensei um pouco e respondi de forma honesta. — Quero que você me queira. Não só por diversão. Não só pelo sexo maravilhoso. Quero que você me queira de verdade. Ele suspirou, sorriu e sacudiu a cabeça. — Certo, Darcy, eu quero você. Eu quero você. Eu quero que você seja só minha. Está feliz agora? Antes que eu pudesse responder, ele se virou de costas, foi para o banheiro e bateu a porta. Esperei um pouco antes de ir atrás dele e encontrar a porta destrancada. Ele estava encostado na pia, no escuro. Com a ajuda da luz do corredor, eu podia ver o seu rosto no espelho. Ele parecia triste, e isso me deixou surpresa e emocionada. — Sim — eu disse em voz baixa. — Sim o quê? — A minha resposta é sim. Estou feliz por você me querer — eu disse. — E eu amo você também. Ele me olhou de forma desarmada. Eu tive a minha resposta. Marcus me amava. Eu senti um fluxo de alegria, um sentimento de triunfo e de paixão. — Vou cancelar o casamento — eu disse, por fim. Mais silêncio.
  • 52. — Você ouviu o que eu disse? — Ouvi. — O que você acha disso? — Você tem certeza de que é isso que você quer? — Sim, tenho certeza. Na verdade, eu não estava totalmente certa, mas foi a primeira vez que tomei coragem para cortar o fio longo e seguro que me ligava a Dex e dar início a uma nova vida. Talvez isso tenha acontecido por eu ter visto Marcus com outra pessoa e por ter me dado conta de que tudo iria acabar em alguns dias se eu não tomasse uma atitude. Talvez tenha sido por vê-lo encostado na pia com aqueles tristes olhos castanhos. Talvez tenha sido por tê-lo ouvido dizer a palavra “amor”. E talvez, porque o meu estado emocional estivesse muito alterado ou porque eu não tivesse outro caminho, e acabaria com o clima se dissesse outra coisa. Momentos mais tarde, Marcus e eu estávamos fazendo sexo intenso e sem camisinha. — Estou quase lá — sussurra Marcus, depois de meus ~ 53 ~ dois orgasmos. — Mais dois segundos — eu disse, lhe apertando forte. — Sim, vamos... Então, eu me movi depressa, sem me separar dele, sem me preocupar por estar no meu período fértil, provavelmente no dia mais fértil do mês. — O que você está fazendo? — ele gritou, com os olhos arregalados. — Você quer ficar grávida? Nesse instante, isso pareceu uma ótima ideia, a perfeita solução romântica. — Por que não? Ele deu um sorriso e disse que eu era louca. — Louca por você — respondi. — Nunca mais faça isso — disse ele. — É sério. — Tudo bem, papai — eu disse, embora não acreditasse que isso fosse possível. Por várias vezes em minha vida, principalmente na faculdade, eu havia me esquecido de
  • 53. tomar a pílula ou de me prevenir. Mas eu nunca ficara grávida. Na verdade, uma parte de mim acreditava que eu não poderia engravidar. O que era muito conveniente. Quando chegasse a hora, eu entraria em um avião para a China ou para o Camboja e escolheria um bebê. Assim como Nicole Kidman ou Angelina Jolie. E, num instante, eu me tornaria uma mãe glamorosa com o meu corpo intacto. — Isso não é engraçado — disse Marcus, sorrindo. — Vá fazer alguma coisa. Toma um banho ou coisa parecida, certo? — De jeito nenhum — eu disse, dobrando as pernas, a técnica que a minha amiga de ensino médio disse que usava com seu marido quando queria engravidar. — Nadem, pequenos espermas, nadem! Marcus sorriu e beijou o meu nariz. — Você é doida. — Sim, mas você me ama — eu disse. — Repete. Ele respirou forte e olhou fixamente para mim. — Acho que eu amo você, sua doida. Sorri, pensando que, finalmente, tinha conseguido o que queria. Marcus estava na minha. Ele seria meu quando eu quisesse. Nos dias seguintes, fiquei perdida, esperando algum sinal, qualquer sinal. Eu deveria escolher Dex ou Marcus? Casamento ou sexo? Segurança ou diversão? Então, no início de setembro, uma semana antes do meu casamento, eu obtive a resposta na forma de duas linhas paralelas cor-de-rosa em uma tira de plástico encharcada de urina. ~ 54 ~
  • 54. 7 Qual é o resultado? — perguntou Marcus, a me ver sair do banheiro com a tira de plástico na mão. Ele estava me esperando no sofá enquanto lia uma revista esportiva. — Aqui diz... Parabéns, papai! — Fala sério. — É sério. — Você está me sacaneando. — Não. Eu estou grávida. Marcus encostou de novo no sofá e fechou a revista. Eu me sentei ao seu lado, peguei as suas mãos e esperei a sua reação. Talvez um abraço, um carinho, algumas lágrimas. — E... Você tem certeza... De que é meu? — Sim — eu disse. — Essa pergunta é grosseira e indelicada. Eu não transo com Dex desde, bem, desde que comecei a transar com você. E você sabe disso. — Tem certeza? Nem mesmo uma vez este mês? Não é hora de esconder as coisas, Darcy. — Sim, eu tenho certeza — disse com convicção. Era ~ 55 ~ verdade, graças a Deus. Lembrei-me do meu amigo do ensino médio, Ethan, que tinha cabelos claros e olhos azuis, e de que havia casado com sua namorada, Brandi, que também era loira e estava grávida. Meses mais tarde, ela deu à luz a um bebê de pele escura com olhos cor de chocolate. Rachel e eu sentimos muito por Ethan, pela dor e pela humilhação que ele teve de
  • 55. passar durante o divórcio. Na verdade, senti pena de Brandi. Por alguma razão, eu me identifiquei com ela de uma forma carinhosa e livre de julgamentos. Sei que ela deve ter sofrido muito durante os nove meses, torcendo e rezando para que o bebê se parecesse com o seu marido e não com um nativo do Alaska com quem dividira um iglu uma vez. A espera deve ter sido agonizante. Só de pensar sinto uma dor no estômago. Foi muita sorte eu não ter feito sexo com Dex no último mês. Eu tinha certeza de que o bebê era do Marcus. Coloquei a tira de plástico em cima da mesa de centro e ~ 56 ~ olhei as duas linhas rosa. — Uau! — eu disse, sentindo uma tontura. — Um teste positivo. Eu nunca tinha visto isso antes... E já tinha feito muitos. — Devemos fazer outro teste? Só para confirmar? — perguntou Marcus, tirando outra embalagem de dentro da sacola. — Tenho testes de duas marcas. — Não é comum ocorrer erros em testes de gravidez — eu disse. — Todos funcionam da mesma forma. — Faz o que eu estou pedindo — disse Marcus, ao abrir a embalagem de outro teste. Suspirei ao lembrar que havia guardado a caneca onde havia feito xixi em seu banheiro. A expressão de Marcus mudou. — Você fez xixi na caneca do meu time de futebol, Denver Broncos? — Sim, qual o problema? — É a minha caneca favorita — disse, em voz baixa. — Ah, pelo amor de Deus, é só lavar depois — eu disse. — E você nunca ouviu falar que a urina é totalmente estéril? Marcus fez uma careta. — Desde quando você se preocupa com germes? — perguntei, olhando para a bagunça do seu apartamento. — Nunca mais vou conseguir beber naquela caneca — resmungou. Coloquei a outra tira de plástico dentro da preciosa caneca. Depois, contei lentamente até cinco em voz alta,
  • 56. antes de tirá-la e colocá-la em cima da mesa, ao lado do primeiro teste. Marcus aguardava o resultado olhando para o relógio ~ 57 ~ quando eu falei: — Uma cruz! Isso significa positivo! — Deixe-me ver — disse ele, com os olhos arregalados de surpresa ao examinar a tira, comparando-a com o quadro que havia atrás da embalagem. — A linha está um pouco apagada se comparada à da figura. — Uma cruz apagada ainda conta — eu disse. — O fato é que ninguém pode estar um pouco grávida. Aqui. Leia as instruções. Marcus passou os olhos pelo manual, esperando encontrar alguma observação, algum aviso sobre a possibilidade de erro no resultado. Uma expressão de medo surgiu em seu rosto quando colocou o manual em cima da mesa. — E agora? — Bem, para começar, vamos ter um filho em cerca de nove meses — eu disse, cheia de alegria. — Você não pode estar falando sério — sua voz tinha um tom de nervosismo. Eu olhei para ele e disse que estava falando totalmente sério. Depois, peguei as suas mãos. Marcus estava sério. — Você tem certeza de que é isso o que você quer? Porque temos outras opções. A sugestão foi clara. Eu ergui o queixo e disse: — Não sou a favor do aborto. Não sei por que eu disse isso, uma vez que sou a favor do livre-arbítrio. Além disso, eu não queria ser mãe naquele momento da minha vida. Eu não tinha nem um pouco do instinto maternal que muitas amigas estavam sentindo aflorar com a chegada dos trinta anos. E eu certamente não queria ganhar peso ou ter toda aquela responsabilidade e aquelas restrições à minha liberdade e à minha vida noturna. Mas, naquele momento, eu estava inexplicavelmente feliz com o resultado positivo. Talvez porque eu estivesse tão
  • 57. apaixonada por Marcus que a ideia de ter um filho com ele me parecesse emocionante. Um ato de extremo romantismo. Ou talvez eu gostasse do sentimento de estar mais unida a ele. Não que eu tivesse dúvidas dos seus sentimentos. Poderia dizer que ele era louco por mim, à sua maneira. Ele era um daqueles caras difíceis de controlar e estar grávida dele aumentava o meu domínio sobre ele. Eu não tinha planejado a gravidez. Não foi bem assim. Eu me lembrei do dia em que transamos após a nossa reconciliação. Era certo que isso ia acontecer. E outra coisa estava clara para mim naquele momento: um teste de gravidez positivo indicava que eu tinha de cancelar o meu casamento. Sentir-me aliviada com isso significava que eu havia encontrado a resposta: eu não queria me casar com Dex. Até fiquei triste por Dex e pelo nosso casamento de conto de fadas, por fazer parte de um drama ainda maior. — Vou contar tudo a Dex, hoje — disse isso com tanta ~ 58 ~ calma que fiquei surpresa. — Que você está grávida? — perguntou Marcus, assustado. — Não. Apenas que o casamento será cancelado. — Tem certeza de que é isso que você quer? Tem certeza de que quer ter um filho? — perguntou ele, em pânico. — Positivo — e olhei para os testes. — Positivo. Entendeu? Marcus sentou-se, parecendo estar chocado e um pouco irritado. — Você não está feliz? — lhe perguntei. — Sim — ele respondeu. — Mas... Mas eu acho que devemos ir mais devagar e discutir nossas... Opções. — Ele parecia confuso. — Eu podia jurar que você era a favor do livre-arbítrio. — Certo. Eu sou a favor do livre-arbítrio — disse em um tom exagerado. — E escolhi ter esse bebê. Nosso bebê. — Bem, você pode pensar mais um pouco... — Você está me magoando — eu disse.
  • 58. — Por quê? — Porque eu quero ter esse bebê — respondi, um pouco irritada. — E eu esperava que você também quisesse... Não acredito que você ainda não me abraçou. Marcus suspirou e me abraçou. — Diz que você está feliz. Um pouco feliz — sussurrei ~ 59 ~ em seu ouvido. Marcus olhou para mim e disse de forma pouco convincente. — Eu estou feliz. Só acho que talvez devêssemos ir mais devagar e pensar melhor nas coisas. Talvez você deva conversar com alguém. Eu lhe lancei um olhar de desprezo. — Você está sugerindo um psicólogo? — Pode ser? — Isso é ridículo! As pessoas procuram ajuda de um psicólogo quando estão desesperadas. Mas eu estou emocionada — disse. — Mesmo assim, você pode esclarecer algumas dúvidas — disse Marcus. Ele sempre generalizava as coisas relacionadas ao nosso relacionamento, algumas dúvidas, essa coisa, nosso acordo, a situação e, às vezes, mexia rapidamente as mãos. Eu sempre ficava irritada por ele achar que um movimento de mãos pudesse capturar a nossa essência. Nós éramos muito mais do que isso. Especialmente agora. Nós seríamos pais. — Não tenho nenhuma dúvida. Estou apaixonada por você. Quero ter o nosso filho. E ponto. — Mesmo dizendo isso, eu sabia que não era tão simples. Isso talvez fosse aquilo ou alguma coisa e alguma coisa junto de outra. Mas eu continuei decidida. — Agora, se você me der licença, eu tenho de cancelar um casamento. E foi exatamente o que fiz. Fui direto para o Upper West Side para dar as notícias ao meu noivo. Encontrei Dex guardando a roupa que havia chegado da lavanderia, tirando o plástico e separando suas camisas azuis das brancas. Por um momento, quase perdi a coragem. Eu não conseguia me imaginar contando a Dex que depois de anos de namoro nós
  • 59. deveríamos terminar tudo. Mas eu me lembrei de Marcus e tomei coragem novamente. — Precisamos conversar — eu disse, séria. — Tudo bem — respondeu Dex. E posso dizer que ele já esperava o que eu iria lhe dizer. Ele parecia não estar percebendo nada durante as últimas semanas, mas a sua expressão, naquele momento, me mostrou que mesmo os homens podem ter intuição. Algumas frases depois, o nosso casamento estava cancelado. Uma relação de sete anos havia terminado. Foi estranha a maneira tão rápida como tudo aconteceu. Tecnicamente, foi Dex quem terminou, dizendo que o nosso casamento seria um erro. Ouvi-lo dizer a palavra “erro” em relação a mim fez com que eu voltasse no tempo, mas, depois, compreendi que ele apenas estava se dando conta da realidade que eu havia criado. Ele estava reagindo ao meu estado físico e emocional com relação a ele. Eu olhei para ele, com aquelas roupas embrulhadas em sacos plásticos, e senti pena. Beijei o seu rosto impecavelmente barbeado e disse o que as pessoas sempre dizem quando terminam um relacionamento de forma amigável: que desejava o melhor para ele e que esperava que ele fosse feliz. E eu estava sendo sincera. Não queria que Dex morresse sozinho. Mas, para ser honesta, posso dizer que desejava que ele sofresse por um longo tempo antes de arrumar outra namorada, uma namorada que nunca estivesse aos meus pés. Mal sabia que ele estava procurando uma substituta no apartamento da minha melhor amiga. ~ 60 ~

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