Análise da obra Por Amor ao Ideal
José Passini
passinijose@yahoo.com.br
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mana do respeito e d...
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não se coadunam com o que se espera de um psicoterapeuta que se proponha à cura de doentes da alma, princi-
palmente den...
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— Quase a desanimar (Poe deu seqüência à inusitada narrativa), localizei o cemitério e me pus a
esperar um enterro. Foi ...
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Por Amor ao Ideal

Por Amor ao Ideal, análise de José Passini
Published on: Mar 4, 2016
Published in: Spiritual      
Source: www.slideshare.net


Transcripts - Por Amor ao Ideal

  • 1. Análise da obra Por Amor ao Ideal José Passini passinijose@yahoo.com.br Este livro, como os demais psicografados por Carlos Antônio Baccelli, contém bons ensinamentos e e- xemplos edificantes, cuja presença, na obra, só pode ser atribuída à tentativa de legitimar o resto do conteúdo, habilmente trabalhado por Espíritos que se dedicam ao combate ao Espiritismo. Essa mistura intencional de joio com trigo tem levado muitos leitores à aceitação de revelações mirabolantes, não raro vazadas em linguagem grotesca, fanfarrônica, na pretensão de ser hilária. Essa aceitação se deve ao desconhecimento das obras da Codi- ficação e das subsidiárias, de bons autores encarnados e desencarnados. O Espírito que se comunica através do médium Baccelli declara ser o Dr. Inácio Ferreira, espírita militan- te, eminente médico psiquiatra, que dirigiu o Sanatório Espírita de Uberaba durante cinqüenta anos. Nesta obra, como em outra, “Sob as Cinzas do Tempo”, o Autor relata um determinado período de sua vida na Terra, como diretor-clínico desse Sanatório, apresentando-se sem a menor preocupação de demonstrar alguma renovação espiritual, depois de mais de quinze anos de desencarnado. Até entende-se que relate seus e- quívocos de quando encarnado, mas não com esse tom de desafio com que sempre se apresenta quando se refere ao hábito de fumar, à sua franqueza rude, à sua impaciência. Será que depois de todo esse tempo no Mundo Espi- ritual, convivendo com Espíritos Superiores, conforme relato dele próprio, não aprendeu nada que o pudesse ori- entar no sentido de dar às suas obras um caráter consentâneo com a Doutrina que diz professar, que é o da educa- ção, do aprimoramento da alma? É-nos difícil aceitar que um médico que deixou uma contribuição valiosa à medicina psiquiátrica nos seus cinqüenta anos de profícuo trabalho, agora se torne um simples comentarista de fatos banais da sua vida enquanto encarnado, usando a mediunidade e o nome do Espiritismo. Seria possível alguém descer da cátedra de eminente instrutor de terapias psiquiátricas, à luz do Espiritismo, para tornar-se um contador de histórias corri- queiras? Em quase todas as suas obras, ele fala do seu hábito de fumar: no livro “Do Outro Lado do Espelho”, ele fala vinte e cinco vezes que acendeu um cigarro; neste, onze, sem que em nenhuma delas mencione, ainda que de leve, os malefícios do fumo. Essa obra, como as outras, é catalogada como romance. Por que um psiquiatra desencarnado não nos brindaria com conhecimentos avançados hauridos no Mundo Espiritual? Imaginemos quantos ensinamentos po- deriam ser passados aos psiquiatras espíritas, se o Autor usasse o seu tempo e a faculdade do seu médium para uma ampliação dos conhecimentos da psiquiatria à luz do Espiritismo... Analisemos algumas passagens do livro, que transcrevemos em negrito: O casal se despediu e, mal havia entrado no carro estacionado lá fora, terminei de entrar no hospi- tal aos berros, assustando os próprios gatos que me esperavam para o almoço: — Quem é o infeliz escalado para o turno da noite e que deve ter dormido?... Conhecendo-me a têmpera, Manoel Roberto me seguia, alguns passos atrás, na expectativa de que aquela crise – uma das muitas que me acometiam semanalmente – passasse. — Vamos, quem é o macho que vai se denunciar?... Quero esfolá-lo vivo! Aqui ninguém é pago pa- ra cochilar no serviço. Se não aparecer o culpado, vou escolher qualquer um e demiti-lo. Depois de uns quinze minutos, quando a fervura íntima começava a se acalmar, caminhou na mi- nha direção um pobre coitado que eu empregara para tirá-lo do alcoolismo. — Foi você, não foi? – gritei com o dedo em riste, entre uma e outra baforada de cigarro. — Você é um ingrato! Deve estar querendo voltar para a sarjeta... Você sabe que a minha cabeça vive a prêmio na cidade; se alguma coisa de pior tivesse acontecido ao rapaz, eu estaria perdido... Não passam de um bando de incompetentes. Vocês deveriam estar tomando conta de um bordel, não de um hospital. (38/39) Esse, o equilíbrio de um médico psiquiatra espírita? Se eram esses seus modos quando na Terra, como transcreve isso sem nenhum comentário? Além do mais, é de se notar a falta de organização reinante no Sanató- rio, onde ninguém sabia quem estivera de plantão... Mas, a exibição de mau humor continua: Após ter vomitado impropérios à vontade... — Afinal, quem manda nesta espelunca?... — O senhor, Doutor... — Quem dita as normas aqui? – questionei, aproveitando para um recado indireto às cozinheiras, que viviam, nos bastidores, reclamando da minha criação de gatos. (40/41)
  • 2. 2 Depois dessa demonstração de ausência completa de boas maneiras, da falta daquela autoridade que e- mana do respeito e do equilíbrio, dada pelo diretor, o enfermeiro-chefe pondera que o funcionário que estava para ser demitido havia cochilado porque estava dobrando serviço havia quinze dias, e que era pai de cinco filhos, às vésperas do sexto. Ouvindo essas ponderações do defensor, desiste da demissão, mas faz uma advertência desres- peitosa à vida íntima do funcionário: — Mas, você avise o safado do Silva para deixar de incomodar a pobre da mulher durante o dia e dormir. Seis anos de casados, cinco filhos. Uma explosão demográfica sem precedentes e tudo para o Sana- tório custear, não é? (41/42) E demonstração da falta de serenidade e mesmo de delicadeza prossegue, ao ser informado de que uma moça o esperava para uma consulta particular: — Particular, só na minha casa. Eu já me cansei de explicar a vocês. — Ela está chorando... — E isso aqui é o “muro das lamentações” – um chora aqui, outro chora de lá... Eu é que sou obri- gado a viver com os olhos secos, consolando todo o mundo. — Vai-se ver, Doutor, que na outra encarnação... – intrometeu-se uma morena redonda, das me- lhores cozinheiras que já passaram pelo Sanatório. — Cuide de suas panelas... Como é que pode ir adiante um hospital de loucos em que até a cozi- nheira dá palpites? Que outra encarnação, que nada!... É a primeira vez que estou vivendo no meio dessa corja – primeira e última, se Deus quiser. A morena sorriu e caminhou requebrando com sua pesada traseira, não dando a mínima para o que eu havia falado. (42) È difícil crer que o médico sério que escreveu os livros “Novos Rumos da Medicina” (2 volumes) e “A Psiquiatria em face da Reencarnação” não teria nada a aduzir a essas obras, agora, com o seu saber enriquecido pela experiência que o exercício da Psiquiatria no Mundo Espiritual lhe estaria propiciando, nessas quase duas décadas de desencarnado. Mas, ao invés disso, demonstra um prazer mórbido de tratar mal uma funcionária, su- balterna sua, num linguajar próprio de mesa de bar, freqüentado por pessoas que vivem longe do Evangelho. — Quem é Mãe Joana? – indagou, ingênua, a funcionária. — Sou eu – respondi, enquanto, ao invés de acender um cigarro, cheirava um rapé que me fazia espirrar até a alma. — A Mãe Joana sou eu; noutra encarnação, eu botei uma filharada no mundo e agora tenho que agüentar vocês nas minhas tetas... (51) Torna-se até difícil comentar uma passagem como essa, tanto pela linguagem vulgar, quanto pelo conteú- do. Parece que esse Espírito tem um prazer mórbido de se mostrar irreverente, revoltado, através dessas expres- sões que, no mínimo, são de mau gosto e demonstram um estado-de-espírito incompatível com alguém que se propunha a tratar de doentes mentais. Porém, profanando o ambiente, eu não resisti. Antes de me levantar e ir embora, aproximei os lá- bios de seu estúpido conduto auditivo e sussurrei-lhe, pausadamente, certos termos chulos que quase todo menino da rua sabe dizer! O homem arregalou os olhos, as suas faces ficaram congestas e eu pensei que, ao invés de um, teríamos dois cadáveres expostos no salão... (91) Essa, a reação do Dr. Inácio ante uma proposta de trabalho na Faculdade de Medicina, que lhe fora ofere- cida, mas que para aceitá-la teria de renunciar a direção do hospital, ou concordar que fosse encampado pela refe- rida Faculdade. Aqui já se trata de um caso de falta de educação! Será que o Dr. Inácio usaria esse vocabulário no círculo que diz freqüentar no Mundo Espiritual? Quando ambos se retiraram, recostei-me na poltrona giratória e acendi um enganoso cigarro, pro- curando descansar o pensamento. Eu tentara dar àquela mãe sofredora o que, muitas vezes, não possuía nem para o meu próprio consumo, ou seja, – fé! (140) Como é que alguém que diz dirigir trabalhos de desobsessão podia ser assim tão vacilante na fé? — Se você conta com a aprovação e o apoio de um homem como Chico Xavier, dê uma banana pa- ra o resto – comentei indignado. (232) Será que essa indignação legitimaria esse conselho tão grosseiro? Eu estava espiando pela vidraça, perdido com os meus pensamentos nas espirais de fumaça do ci- garro que fumava, quando vi estacionar um carro no pátio do hospital e descerem, esbaforidos. — Tolos! – resmunguei. — Idiotas! – repeti não satisfeito. — Duas bestas quadradas, apeando de um carro de luxo! – praguejei, tossindo... (250) É claro que eu estava exagerando; o garoto não tinha nada a ver com aquelas duas, desculpem-me, toupeiras... Eu nunca haveria de xingá-los o suficiente pela proposta que ambos haviam sido capazes de me fazer. (E vocês, que estão me lendo agora, não pensem que eu, o Dr. Inácio Ferreira, fosse diferente de qualquer um de vocês – o meu arsenal de palavras grosseiras era considerável!) (251) Embora esse Espírito diga o contrário, não resta a menor dúvida de que ele é realmente diferente da gran- de maioria dos espíritas. Se não, o que vale a Doutrina? Essas demonstrações de falta de refinamento espiritual
  • 3. 3 não se coadunam com o que se espera de um psicoterapeuta que se proponha à cura de doentes da alma, princi- palmente dentro dos parâmentros do Evangelho. É de se notar o quase-orgulho com que esse Espírito fala de sua grosseria e da sua capacidade de agredir. Como é que uma pessoa que se ufana da sua brutalidade pode concitar alguém à mansuetude, à calma, ao perdão, numa reunião mediúnica, como ele diz ter dirigido durante tantos a- nos? Será crível que alguém que diz estar em contato com Bezerra de Menezes, Eurípedes Barsanulfo, Hernani Guimarães Andrade, Leopoldo Cirne, Cairbar Schutel, Batuíra e outros Espíritos Superiores, se expresse de for- ma tão vulgar e rasteira? O meu misterioso paciente estava de volta... Chegou à minha casa num sábado à tarde, num desses sábados sem luminosidade, com excesso de nuvens escuras no firmamento. Havia vários meses que eu não o via. (261) — Tem obras publicadas? — Alguns ensaios apenas; nada que tenha repercutido... — E o seu sotaque? — Eu já preciso ir, Doutor — levantou-se, sem me responder. — Mandarei, depois, o dinheiro da consulta... (273) No entanto, quando abri o livreto, quase caí de costas: um retrato a bico-de-pena, feito com tinta nanquim, era a reprodução exata do rosto do meu paciente!... “E. A. Poe” – dizia o pequeno texto —, mor- to em 1918, vitimado por alcoolismo. Contista e poeta norte-americano que, infelizmente, nos deixou tão cedo — aos 39 anos de idade.” (275/6) O relato acima começa com um equívoco: Edgar Allan Poe nasceu em 1809 e desencarnou em 1849. A falta de cuidado ao montar toda essa história chega a ser ofensiva à argúcia e à inteligência dos leitores, pois quem há de acreditar que um médico, por mais desorganizado que fosse, teria atendido um cliente, repetidas ve- zes, sem ao menos saber-lhe o nome, a fim de fazer, numa ficha própria, as anotações referentes às consultas? Os trechos acima são fragmentos de algumas consultas que o Espírito Edgar Alan Poe – mais de um sécu- lo após a sua desencarnação – teria tido com o Dr. Inácio, sem o concurso de um médium, pelo fato de esse Espí- rito estar materializado, falando Português fluente, apenas com sotaque. Tal comunicação não encontra apoio em nenhuma obra espírita. Pelo contrário, André Luiz, na obra “Os Mensageiros” (cap. 18), relata o que ouviu de Alfredo, relativamente ao socorro a desencarnados na guerra: “Mas não há dificuldade no socorro a essa gente? – indagou Aniceto em tom grave. — E a questão da lingua- gem? — Os serviços de socorro, apesar de intensos na Europa, têm sido muito bem organizados, explicou Alfre- do; para cada grupo de cinqüenta infelizes, as colônias do Velho Mundo fornecem um enfermeiro-instrutor, com quem nos possamos entender, de modo direto.” Há, ainda, referência ao problema linguístico entre Espíritos nas obras: “Voltei”, “Esperanto como Reve- lação”, “Memórias de um Suicida”, “Além da Morte”. Entretanto, essa barreira parece não existir para o Dr. Iná- cio, pois conforme ele relata em sua obra “A Escada de Jacó” (caps. 21 – 26), teria conversado naturalmente com árabes encarnados e recém-desencarnados, no Iraque, em plena zona de conflito, sem o concurso de um médium, nem de um intérprete... Nem explicou como pudera, na sua condição de desencarnado, conversar com um menino encarnado e socorrê-lo, usando ectoplasma de um camelo agonizante... Relativamente à materialização, Edgar Allan Poe teria explicado, noutra oportunidade, através da mé- dium Maria Modesto Cravo, como conseguira materializar-se para falar, em várias oportunidades, diretamente ao Dr. Inácio, em seu consultório, como se fosse um paciente qualquer. O que vou lhes dizer em seguida – caros leitores –, ficará a critério de vocês aceitarem ou não. Devo ser fiel à verdade dos fatos. Prosseguindo pela voz da médium, o célebre criador do romance policial contou: — Observando-me as tentativas frustradas de contactá-lo, um desconhecido me orientou: — “Por que você não se materializa? Não é tão difícil assim... É só conseguir ectoplasma...” — Ora – explicou a entidade –, eu jamais havia ouvido falar em ectoplasma... “Que substância é es- ta?” – perguntei sem me dar conta, como das vezes anteriores, do idioma em que eu estava me expressan- do: eu pensava em inglês e ele entendia em português, exatamente, Doutor, como está acontecendo agora. — “Ectoplasma – respondeu-me – é fluido animal; se você conseguir quantidade suficiente para se revestir, poderá tornar-se visível...” — De que maneira obtê-lo? – quis saber, curioso. — “Através de um doador vivo ou... morto.” — Morto? – questionei, duvidando que aquela história toda fosse verdade. —“Sim, no cemitério...” — Poderei encontrar tal substância materializante no cemitério? —“Não nos corpos em adiantado estado de decomposição, mas nos que morreram recentes...” — E o que devo fazer? —“Mentalize, plasme-se...” falou o espírito, que se retirou.
  • 4. 4 — Quase a desanimar (Poe deu seqüência à inusitada narrativa), localizei o cemitério e me pus a esperar um enterro. Foi difícil, pois não me consentiam me aproximar de certos cadáveres... Algumas enti- dades que não falavam comigo dispersavam uma matéria brilhante na atmosfera e os cadáveres ficavam vazios. “Aquilo é o ectoplasma” – pensei. Depois disso, um enterro com quase nenhum acompanhamento chegou ao cemitério... O corpo inanimado era o de um homem que, bêbedo, havia caído de um andaime; espessa substância leitosa ainda lhe escapava abundante, dos orifícios e, inclusive, dos poros, a praticamen- te envolver-lhe toda a forma física... Dele, curiosamente, eu pude me aproximar sem qualquer embaraço e, após o seu corpo ter descido à cova rasa, postei-me ao seu lado e, com as mãos, comecei a me cobrir com aquele tecido gaseificado... O meu desespero era tamanho, Doutor, que eu o introduzia na boca, eu o inala- va através das narinas, como se eu fosse um paciente hospitalizado recebendo uma transfusão de sangue... — Aos poucos, sem que eu pudesse explicar o fenômeno – prosseguiu dizendo –, fui tomando forma humana, ou melhor, retomando-a... Era interessante observar. Felizmente, não havia ninguém por perto... A imagem que eu conservava de mim era tão forte em minha mente, que, devagar, fui reconstituindo, com a força do pensamento, detalhe a detalhe, inclusive a própria indumentária – aquela que, de hábito, eu envergava em meus derradeiros dias no corpo quando, infelizmente, tombei vítima do alcoolismo. Quando a metamorfose se completou, a minha primeira iniciativa foi a de procurar um espelho – eu queria me ver... Saí do túmulo no qual praticamente me encontrava mergulhado e, percebendo um carro estacionado à porta do campo santo, me fitei no seu retrovisor externo – era eu, sem tirar nem pôr! De imediato, acudiu- me uma déia à cabeça: – Que bom seria, se eu pudesse, sempre me conservar assim: este corpo certamente não adoece e... não morre, não estando sujeito às vicissitudes do corpo feito de carne... De certa maneira, inclusive, eu me remoçara e aquelas indisposições orgânicas haviam desaparecido. A narrativa de Poe me surpreendia; eu nunca havia lido nada parecido a respeito na extensa bibli- ografia espírita especializada. (282/6) Na verdade não poderia ter lido mesmo, pois o Espiritismo não ensina absurdos... Analisemos alguns pontos desse relato inusitado: Será que pelo simples fato de se materializar, um Espírito remoçaria e se livraria de indisposições orgâni- cas? Ainda mais com o ectoplasma de um bêbado? Mas, se ele, só então, fora tomando a forma humana, como é que antes sentia indisposições orgânicas? O Espírito disse que materializara não somente o corpo, mas também a indumentária. Como é que o Dr. Inácio, ao recebê-lo, materializado, no seu consultório, não teria percebido que as roupas do seu cliente eram de um século atrás? Se uma materialização pudesse ser tão facilmente obtida, e com tanta nitidez, que nem o experiente Dr. Inácio pôde percebê-la, por que Espíritos inferiores não se materializariam diariamente, a fim de atuarem na vida física? Se houvesse tamanha facilidade de materialização, nós, os encarnados, teríamos de estar sempre atentos, a fim de verificarmos se estaríamos vendo e conversando com um encarnado ou com um desencarnado... No livro “Obreiros da Vida Eterna” (caps. 15 e 16), lê-se que trabalhadores do Bem dissipam na atmosfe- ra comum as energias remanescentes no cadáver, quando o desencarnado é merecedor de cuidados, a fim de que os vampiros não profanem o corpo, pois há verdadeiras legiões de Espíritos que aguardam os enterros, disputando essas energias. Diante disso, é de se perguntar: como poderia um Espírito, recém-informado dessa possibilidade, apossar-se – e por várias vezes – desses fluidos? Onde estariam aqueles vampiros, contra os quais ele deveria ter lutado? As várias consultas teriam sido longas. Como poderia uma materialização – fora de um ambiente prepa- rado – manter-se durante tanto tempo? Note-se que o Espírito diz ter-se materializado no cemitério, e de lá se movimentado até o local da consulta. E o efeito da luz? Quem já leu algo sobre materialização de espíritos sabe das restrições quanto à luminosidade e ao tempo. O Espírito diz que, aos poucos, foi tomando a forma humana. Que forma tinha o seu corpo espiritual até então? Será que ainda não tivera oportunidade de ver a si próprio e de constatar que sempre tivera a forma huma- na? Que forma tinham, ele e os Espíritos com quem conversara? É realmente impressionante como esse Espírito, que diz ser o Dr. Inácio Ferreira, aproveita-se da ausên- cia de estudo de muitos leitores para relatar algo assim tão inverossímil. Se a materialização de um Espírito pu- desse ser obtida com tanta facilidade, por que todo aquele trabalho descrito por André Luiz na obra “Missionários da Luz” (cap. 10)? Note-se que ali há o trabalho altamente responsável de muitos Espíritos, que conjugam ener- gias oriundas de um médium e de outros doadores encarnados, com elementos da natureza, num trabalho delica- díssimo, que a simples presença de alguém que ingerira alcoólicos poderia perturbar, não fossem as providências de isolamento dessa pessoa. Paradoxalmente, Edgar Allan Poe teria dito que usara as energias oriundas do corpo, justamente de um bêbado. Aí estão, Irmãos, nossas considerações sobre mais esta obra, as quais submetemos à sua análise, porque entendemos que todos nós, espíritas, somos responsáveis pela manutenção da objetividade, da seriedade e da dignidade da Doutrina Espírita.

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