Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess)
Susan Mallery
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Sabrina Johnson tinha areia nos ...
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O homem que a capturara estava parado diant...
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Ela olhou para os pedaços de carne e vegeta...
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— Quem é você? — ele perguntou. — E por qu...
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— Isso é ridículo — resmungara, as palavra...
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sua respiração foi se tornando mais profun...
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Resignada, ela levou a vasilha com água pa...
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— Estou tentando ser justo.
— Justiça seri...
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Aquela era uma situação sem possibilidade ...
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— Mas não pode... Não é... — O que o homem...
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Sabrina estremeceu. O homem pretendia mesm...
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Cidade dos Ladrões e sentía-se aturdida, t...
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— Que maravilha — murmurou. — Ameaças de m...
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quanto seu quarto de dormir, e centenas de...
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— Talvez com o tempo. Quando eu me cansar ...
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palácio sozinha. Não fosse pela tempestade...
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— O que ele pensa sobre mim não importa. S...
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— Sempre tive uma vida exemplar. Assim, qu...
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se procurasse por esses pontos. E se ela é...
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— Você é meu filho e eu o amo com todo meu...
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Kardal assentiu. Nos anos recentes fora fo...
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— Preparar-me para a batalha. Se tenho mes...
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Susan Mallery- Principes do Deserto - Nas areias do deserto

Published on: Mar 3, 2016
Published in: Internet      
Source: www.slideshare.net


Transcripts - Susan Mallery- Principes do Deserto - Nas areias do deserto

  • 1. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 1 - Nas areias do deserto “The Sheik and the Runaway Princess” Susan Mallery ELE RAPTOU UMA PRINCESA... E ENCONTROU O AMOR! A princesa Sabra sabia que não devia reagir com tanta paixão ao toque do príncipe Kardal Khan. Afinal, ele a raptara! Ela bem que tentou disfarçar a atração que sentira desde o primeiro momento por aquele homem. Mas seu corpo se atrevia a traí-la reagindo tão intensamente ao toque do príncipe Kardal Khan. Como podia se sentir tão protegida nos braços de seu captor? Tudo que ela, uma princesa solitária, havia desejado era alguém que a amasse... mas apaixonar-se pelo sheik sensual que a tomara como sua escrava era demais! Embora fosse o príncipe da Cidade dos Ladrões, Kardal Khan não estava roubando a princesa que resgatara do deserto. Estava apenas tomando o que, por direito, já era seu. Porque, ainda que Sabra não soubesse, ela fora prometida a ele em casamento!
  • 2. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 2 - CAPITULO I Sabrina Johnson tinha areia nos dentes 'e em outros lugares que preferia nem mencionar. Fora uma idiota, disse a si mesma, enrolando-se no manto espesso e ouvindo a tempestade rugir a sua volta. Só alguém muito tola teria penetrado seiscentos quilómetros no deserto sozinha, deixando para trás todos os sinais de civilização e viajando apenas com um cavalo e um camelo de carga, procurando por uma estúpida cidade mística que provavelmente nem existia. Uma rajada mais forte de areia e vento quase a derrubou. Sabrina abraçou as pernas contra o peito e apoiou a cabeça sobre os joelhos, jurando que, pelo tempo de vida que ainda tivesse, presumindo que sobrevivesse a situação em que se encontrava, nunca mais seria impulsiva. Nem um pouquinho. Por seguir os impulsos, estava perdida e presa no meio de uma tempestade de areia. Pior, ninguém sabia que estava ali, e ninguém iria buscá-la. Saíra sem dizer nada ao pai e aos irmãos. Quando não aparecesse para o jantar, eles pensariam que estava em seu quarto numa crise de mau NAS ARBIAS DO DESERTO humor ou que viajara a Paris para fazer compras. Jamais imaginariam que estava perdida no deserto. Seus irmãos a preveniram diversas vezes sobre o perigo de suas ideias malucas, dizendo que ainda seria arruinada por elas. Nunca esperara descobrir que eles estavam certos. O calor e a poeira a castigavam. Tossia muito, mas não conseguia limpar a garganta. Por quanto tempo a tempestade ainda se estenderia? Seria capaz de encontrar o caminho quando ela terminasse? Como não tinha respostas para as perguntas, tentou não pensar mais nelas. Mantendo-se próxima do chão e usando o manto como proteçào, esperou não ser arrastada pela tempestade e desaparecer entre as dunas. Ouvira histórias sobre pessoas que sofreram tal destino. É claro, os relatos haviam sido feitos por seus irmãos, e eles nem sempre se mantinham fiéis à realidade. Depois de muito tempo, horas, de acordo com sua percepção, ela notou que as rajadas perdiam força. Aos poucos, sentiu que já não sofria o impacto violento do vento e podia respirar com mais facilidade. Mais alguns minutos, arriscou um rápido olhar para fora do manto. As notícias eram boas e ruins. A boa notícia era que estava viva. Para compensar, o cavalo e o camelo haviam desaparecido levando a comida, a água e os mapas. Pior ainda, a tempestade enterrara a estrada rústica que estivera seguindo e apagara todas as marcas que fizera a partir do posto fora do deserto onde deixara o caminhão e o trailer de transportar animais. O caminhão que não seria encontrado até que alguém se aventurasse a penetrar no edifício NAS AREIAS DO DESERTO
  • 3. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 3 - abandonado. Tal evento podia ocorrer em semanas... ou meses. Como sobreviveria até lá? Sabrina levantou-se e olhou em volta. Nada parecia familiar. Ao longe, a tempestade ainda emitia seu rugido furioso. Via nuvens de areia subindo para o céu como se tentasse esconder o sol. Ela engoliu em seco. O sol já estava muito baixo no horizonte. Era tarde. A tempestade devia ter se estendido por mais tempo do que havia imaginado. O estômago roncou, obrigando-a a lembrar-se de que não comera nada desde o café da manhã. Estivera tão ansiosa para empreender a jornada, que deixara a cidade antes do amanhecer, convencida de que encontraria a fabulosa Cidade dos Ladrões que estudava há meses, podendo assim provar sua existência ao pai. Ele sempre debochara de sua fascinação pelo assunto. Disposta a dar a última palavra, acabara ali, perdida no deserto. E agora? Podia continuar procurando pela cidade perdida, ou podia tentar voltar para Bahania, onde era ignorada pelo pai e pelos irmãos, ou podia simplesmente ficar ali e morrer de sede. Embora a terceira opção não fosse sua favorita, nas atuais circunstâncias era a mais provável. — Não vou perecer sem lutar — Sabrina resmungou, ajeitando o lenço que envolvia sua cabeça. Depois sacudiu o manto, dobrou-o e pendurou-o sobre um ombro. Para o oeste, pensou, virando-se de forma que o sol poente ficasse à direita. Precisava refazer a jornada seguindo para o sul e depois um pouco para o oeste a fim de encontrar o posto. Havia comida e água no carro, porque levara mais do que pudera transportar no camelo. Depois de comer alguma coisa e saciar a sede, poderia pensar com mais clareza sobre o que faria. Ignorando a fome e a garganta seca, ela começou a andar com passos firmes. O medo a seguia como um chacal do deserto, mas ela espantou a besta com a força de seu pensamento e disse a si mesma que era Sabrina Johnson. Enfrentara coisas piores na vida. Estava mentindo, claro. Nunca se deparara com nenhum perigo real e físico antes. Mas e daí? Seria inútil dar importância a detalhes. Trinta minutos mais tarde ela lamentou não poder chamar um taxi. Quarenta e cinco minutos depois se deu conta de que teria vendido a alma por um copo de água. Uma hora se passou e, apavorada, ela compreendeu que morreria no deserto. Os olhos ardiam ressecados. A pele parecia estar encolhendo, e a garganta queimava como se fosse castigada pelo fogo. Imaginou se a morte no deserto seria como o fim na neve. Ficaria muito cansada e adormeceria? — Com a sorte que tenho, é pouco provável — resmungou. — Minha morte será mais lenta e dolorosa. Mesmo assim, continuava pondo um pé na frente do outro, ignorando as miragens tentadoras que dançavam diante de seus olhos enquanto o sol mergu- lhava lentamente no horizonte. Primeiro viu um oásis exuberante, depois uma cachoeira cristalina. Finalmente, viu meia dúzia de homens cavalgando em sua direção. Cavalos? Sabrina parou e esfregou os olhos. Seriam reais? Parada, percebeu que podia sejitir o im- NAS AREIAS DO DESERTO
  • 4. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 4 - pacto dos cascos sob seus pés. Havia uma possibilidade de resgate, afinal. Ou de algo menos agradável. Passara muitos verões na Bahania com o pai, su-postamente aprendendo os hábitos de seu povo. Não que ele se desse ao trabalho de ensinar alguma coisa à menina, mas alguns dos criados ficavam penalizados e ela acabava aprendendo uma ou duas coisas por ano. Uma das lições fora sobre a hospitalidade no deserto, uma garantia para os desafortunados que se perdessem. No entanto, passara os anos escolares em Los Angeles, Califórnia, ouvindo os empregados de sua mãe repetirem que nunca devia falar com estranhos. Es- pecialmente com homens desconhecidos. O que devia fazer? Parar e esperar, ou correr para as montanhas? Ela olhou em volta. Não havia nenhuma montanha ali. Os homens se aproximavam e pareciam maiores vestidos no tradicional albornoz, um manto de lã comprido com capuz, e djellaba. A fim de distrair-se da crescente apreensão, ela tentou admirar a beleza e a elegância de suas montarias, cavalos bahanianos criados especialmente para o clima do deserto. — Olá — disse quando o grupo aproximou-se, tentando empregar um tom relaxado e confiante. Por causa da garganta seca e do medo, o sucesso não foi exatamente estrondoso. — Estou perdida. Fui surpreendida pela tempestade de areia. Por acaso viram um cavalo e um camelo quando vinham para cá? Ninguém respondeu. Em disso, os homens a cercaram com suas montarias falando em uma língua que ela reconhecia, mas não compreendia. Nómades, NAS AREIAS DO DESERTO pensou, sem saber se a constatação a animava ou apavorava ainda mais. Um deles apontou em sua direção e fez um gesto autoritário. Sabrina permaneceu onde estava, mesmo quando alguns aproximaram seus cavalos. Devia anunciar sua identidade? Nómades responderiam ao nome de seu pai, mas e se fossem bandidos? Certamente a fariam prisioneira interessados em um resgate, e poderia impressioná-los anunciando ser Sabrina Johnson, ou, como era mais conhecida no Oriente, princesa Sabra da Bahania. Ou eles poderiam matá-la e deixar seu corpo para os animais do deserto. — Estou interessado em pegar uma escrava, mas duvido que sirva para o trabalho. Ela se virou para aquele que falara. As roupas típicas escondiam boa parte de seus traços. Via que ele era alto sobre a sela, com a pele bronzeada e olhos escuros. Os lábios se distenderam quando o homem riu. — Fala inglês... — Sabrina apontou com tom atordoado. — Você não fala a língua do deserto — ele respondeu. — Nem conhece seus costumes. — O humor desapareceu de seu rosto. ■— O que faz aqui sozinha? — Isso não importa. Talvez possa emprestar-me um cavalo. Preciso chegar ao posto abandonado onde deixei meu caminhão. O homem fez um movimento com a cabeça. Outro desmontou, e por um segundo Sabrina imaginou que seu pedido seria atendido. 0 homem a ouvira, pelo menos, o que era incomum na Bahania. Normalmente preferiam ignorar o que uma mulher dizia e... 10 NAS AREIAS DO DESERTO
  • 5. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 5 - O nómade segurou o véu que cobria sua cabeça e puxou-o. Ela gritou. O círculo de homens a sua volta foi tomado por uma súbita imobilidade. Sabrina suspirou. Sabia o que tanto os espantava. Cabelos longos e encaracolados desciam por suas costas numa cascata de fogo, herança de sua mãe. A combinação entre olhos castanhos, cabelos vermelhos e pele dourada sempre chamava a atenção das pessoas, mas nunca como no oriente. Os homens falavam em voz baixa, e ela se esforçava para entender o que diziam. — Eles acham que devo vendê-la. Sabrina olhou para aquele que falava em inglês. Tinha a impressão de que era o líder. O pânico crescia em seu peito, mas não o demonstraria. Em vez disso, ergueu os ombros e o queixo. — Precisa de dinheiro? — perguntou, tentando dar uma nota de desprezo à voz... ou pelo menos banir dela o tremor. — Ele torna a vida mais fácil, mesmo aqui. — O que aconteceu com a hospitalidade do deserto? As leis de sua terra não permitem que tire proveito da minha situação. — As exceções existem para os tolos como você. Ele fez um gesto para o homem que permanecia perto dela. Um segundo antes de ser agarrada, Sabrina virou-se e correu. Não tinha nenhum destino em mente, impelida apenas pela necessidade de escapar daqueles que pretendiam capturá-la. Ouviu o som dos cascos. O medo aumentou a velocidade, mas não o suficiente. Havia percorrido uma pequena distância quando foi agarrada e posta 11 NAS AREIAS DO DESERTO sobre um cavalo, presa contra o peito rígido e forte do nómade. — Onde pensa que vai? — ele perguntou. Sabrina lutava para escapar, mas só conseguia enredar-se no tecido do manto. — Se continuar tentando fugir, vou ter de amarrá-la e arrastã-la atrás do cavalo! Podia sentir a força e o calor daquele corpo. O homem era tão duro e inclemente quanto o deserto e, resignada com sua falta de sorte, ela desistiu de lutar. — O que quer de mim? — perguntou. — Primeiro, quero que remova o joelho do meu estômago. Olhando para baixo, constatou que a perna envolvida pela calça jeans estava mesmo pressionando o estômago do desconhecido. Era como enfrentar um rochedo, mas não demonstraria a admiração por sua força física. Em vez disso, mudou de posição e sentou-se sobre a sela de forma a ver o lado esquerdo de seu perfil. O sol se escondera no horizonte. Não poderia mais escapar. Não à noite. Estava perdida, com sede e com fome, prisioneira de homens desconhecidos e as- sustadores. Pelo menos não estava chovendo! -— Ah, então sabe ser razoável — ele comentou satisfeito. — Um atributo desejável em uma mulher. E raro. — Está dizendo que nem mesmo surrando suas mulheres consegue mantê-las na linha? Que surpresa! Sabrina o encarava enquanto faiava, tentando convencer-se de que não se importava com o brilho ameaçador em seus olhos.
  • 6. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 6 - J2 NAS AREIAS DO DESERTO O homem tinha um ar duro e frio, como uma rocha desenhada pelos ventos do deserto. Um manto cobria seus cabelos, mas suspeitava de que fossem negros, talvez na altura dos ombros, ou um pouco mais curtos. Ele possuía ombros largos e a postura de um homem habituado a suportar cargas muito pesadas. — Para uma mulher inteiramente à minha mercê, ou é muito corajosa, ou muito tola. — Já me acusou de ser tola antes, e com muita injustiça, se quer saber minha opinião. — Não quero. Além do mais, o que pode ser alguém que entra no deserto sem um guia, ou sem os suprimentos mais básicos? — Eu tinha um cavalo e... — E sem os conhecimentos necessários para ge-renciá-los — o homem concluiu. Em vez de responder, ela olhou para trás. Os homens que integravam o grupo começavam a montar acampamento. Um deles acendera uma fogueira e colocava sobre o fogo uma panela. — Tem água? — Sabrina perguntou com os lábios secos. — Sim, e comida. Ao contrário de você, sabemos preservar nossos suprimentos. Não conseguia desviar os olhos do líquido que era despejado na panela. — Por favor... — Não tão depressa, minha ave do deserto. Antes de permitir que compartilhe de nossas minguadas provisões, quero ter certeza de que não vai tentar voar novamente. — Para onde eu poderia ir? — O fato de não ter um destino não a deteve antes. 13 NAS AREIAS DO DESERTO Ele desmontou. Antes que Sabrína pudesse segui-lo, o desconhecido tirou uma corda de dentro do manto e amarrou seus pulsos. — Eí! — ela protestou, tentando evitar a açào. — Não precisamos disto. Não vou a lugar nenhum. -— Quero ter certeza disso. Tentou esconder os braços atrás do corpo de forma a escapar da corda, mas ele foi mais rápido e amarrou-a. Depois puxou-a pelo manto de forma a fazê-la desmontar, e nem se incomodou quando, escorregando da sela, ela se chocou contra seu peito. Enlaçando-a pela cintura, o nómade colocou-a no chão. Enquanto a prisioneira ainda tentava recuperar o equilíbrio, ele amarrou também seus tornozelos. Depois ergueu-se. — Espere aqui — ordenou, antes de ir levar o cavalo para o acampamento. — O quê? Não pode me deixar aqui! — Sabrina se contorcia sobre a areia, incapaz de levantar-se sozinha. — Quem disse que não? — A resposta soou debochada. Perplexa, viu quando ele se juntou aos outros. O líder disse alguma coisa, e todos riram. A raiva começava a ocupar o lugar do medo em seu peito. Mostraria a ele, decidiu, lutando contra as cordas que a mantinham cativa. Escaparia do bando, voltaria para a Bahanía e ordenaria a execução de todos! Exigiria o fuzilamento,
  • 7. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 7 - ou a forca... Ou os dois, talvez ao mesmo tempo! Seu pai não era exa-tamente um homem atento e carinhoso, mas não ficaria feliz quando soubesse que alguém ousara raptar sua filha. 14 NAS AREIAS DO DESERTO Sem poder libertar-se, ela contorceu o corpo até virar as costas para o acampamento. Era terrível ter de sentir o cheiro da comida que eles preparavam. Não queria ter de olhar para a cena também. Tinha a boca e a garganta tão secas que era como se estivessem inchadas, O estômago nunca estivera tão vazio. Estaria o estranho apenas tentando atormentá-la, ou seria mesmo capaz de deixá- la sem comer? Que tipo de monstro era ele? Do tipo nómade, ela decidiu. Homens como aquele consideravam as mulheres apenas mercadoria de barganha. Lágrimas queimavam seus olhos, mas não as deixaria rolar. Nunca demonstrava fraqueza. De que adiantaria? Em vez disso, jurou manter-se emocio-nalmente forte a fim de sobreviver e, melhor ainda, vingar-se. De olhos fechados, tentou imaginar-se em outro lugar longe dali. O aroma da comida invadia seus sentidos, o estômago roncava de maneira dolorosa, e ela não podia mais ignorar o desejo de estar no palácio. Sini, o pai raramente notava sua presença e os irmãos a ignoravam, exceto quando a estavam provocando, mas não seria tudo isso tão ruim? Lembrou-se da raiva que experimentara no dia anterior quando o pai, o rei da Bahania, anunciara seu noivado. Jamais havia imaginado choque tão intenso! — Não pode estar falando sério! — protestara indignada. — Nunca falei tão sério. Você tem vinte e dois anos. Idade mais do que suficiente para casar-se. — Fiz vinte e três no mês passado, e não estamos mais na Europa medieval! — Tenho total consciência da época e do país em 15 NAS AREIAS DO DESERTO que vivemos. Vai se casar com o homem que escolhi porque é uma princesa bahaniana e alianças precisam ser concretizadas. O homem não sabia nem quantos anos ela tinha! Como podia confiar em sua capacidade para escolher um bom marido? Imaginava um sujeito velho e horrível com três esposas e mau hálito, mas adequado aos propósitos políticos do rei Hassan. Durante os últimos vinte e três anos, seu pai se mostrara satisfeito por ignorá-la. Embora houvesse passado todos os verões de sua vida no palácio, o rei raramente falava com ela. Levava os filhos em suas viagens, mas ela era sempre deixada para trás. E quando passava os períodos letivos com a mãe na Califórnia, ele nunca telefonava ou escrevia. De onde ele havia tirado a ideia de que se sacrificaria para atender ao seu desejo agora, quando já era uma mulher adulta? Em vez de ficar e conhecer aquele que o rei pretendia, tornar seu marido, fugira esperando encontrar a Cidade dos Ladrões. Acabara perdida no deserto e capturada por nómades. Talvez o príncipe prometido não fosse tào ruim, afinal. — Em que está pensando? A voz a assustou. — Preciso de férias, e este não era o destino que tinha em mente.
  • 8. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 8 - O homem que a capturara estava parado diante dela, sem o manto e turbante. Vestido apenas em calça de algodão e túnica, devia parecer menos formidável. Infelizmente, nem sempre as coisas eram como deviam ser. Ele lembrava um deus com a silhueta imponente 16 NAS AREIAS DO DESERTO recortada contra o céu escuro. Apesar de não se sentir muito confortável na Bahania, era impossível não admirar a perfeição das estrelas no céu. Mas, na- quela noite, algo além do brilho dos astros chamava sua atenção. O homem era alto e tinha cabelos negros curtos formando camadas. Na escuridão da noite, os traços formavam um conjunto vago e confuso, mas podia ver os dentes brancos e perfeitos quando ele sorria. — Tem a coragem de um camelo — ele disse. — Muito obrigada. Sei que os camelos não são corajosos, — Ah, então sabe alguma coisa sobre o deserto. Otimo. Que tal a coragem de uma raposa do deserto? — Elas não estão sempre fugindo? — Que bom. Vejo que entende o que quero dizer. Sua vontade era de mostrar a língua para o sujeito, mas, em vez disso, respirou fundo e sentiu um aroma delicioso. O estômago roncou alto quando ela percebeu que o homem tinha um prato e uma das mãos e uma caneca na outra. — Comida? — perguntou cautelosa, tentando não revelar muita esperança. — Sim. — Ele se abaixou e deixou os utensílios sobre a areia antes de ajudá-la a sentar-se. — Posso confiar em você e livrá-la das cordas? Sabrina teve de fazer um grande esforço para não se atirar sobre o prato e começar a comer. Pensar em água fazia sua garganta doer, tal a dificuldade para engolir a saliva que se formava em resposta ao aroma do alimento. —- Juro que não tentarei fugir. Ele se sentou no chão ao lado dela. 17 NAS AREIAS DO DESERTO — E por que eu confiaria em você? Não sei nada sobre sua personalidade, exceto que tem o bom senso de uma mosca. — Odeio todas essas comparações com animais. Se está se referindo ao fato de eu ter perdido o cavalo e o camelo, a culpa não foi minha. Tentei amarrá-los quando a tempestade de areia aproximou-se. Cobri-me com um manto grosso e mantive-me bem perto do chão. Acredito que ter sobrevivido à tempestade é prova do meu bom senso. Ele não se mostrava muito impressionado com os argumentos. — E quanto ao fato de estar sozinha no deserto? — O estranho pegou a caneca. — Ou prefere continuar falando sobre como perdeu ao mesmo tempo um cavalo e um camelo? — Não realmente — ela resmungou, inclinando o corpo para a frente a fim de sorver o líquido da caneca que ele mantinha perto de seus lábios. A água era fresca e limpa. Sabrina bebeu com avidez sentindo a vida voltar ao corpo. Quando terminou de beber, o homem deixou a caneca vazia no chão e pegou o prato.
  • 9. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 9 - Ela olhou para os pedaços de carne e vegetais e para as mãos do nómade. — Não está pensando em alimentar-me como se eu fosse um bebé, está? — Sabrina mostrou os pulsos amarrados. — Se não que me soltar, ao menos deixe que eu coma sozinha. A ideia de ter sua comida tocada por aquelas mãos era estranha, embora estivesse faminta e ele parecesse limpo. Apesar dos mantos pesados que ele usa- 18 NAS AKKIAS DO DESERTO ra até pouco antes e do calor do deserto, não sentia nenhum odor desagradável. — Permita-me desfrutar do privilégio. — Sua voz soou debochada e ele pegou uma tira de carne. Devia demonstrar coragem e determinação recusando-se a comer daquela maneira, mas estava faminta. Por isso aceitou a oferta tomando o cuidado para evitar qualquer contato entre os lábios e os dedos do desconhecido. — Meu nome é Kardal — ele anunciou ao vê-la mastigar. — E o seu? Sem pressa, a princesa terminou de engolir a porção que tinha na boca. Depois limpou os lábios com a língua, reconhecendo uma forte relutância em revelar sua identidade, embora não soubesse o que causava o sentimento. — Sabrina — disse, torcendo para que o nómade não ligasse o nome à princesa Sabra da Bahania. — Você não fala como um nómade — apontou, tentando distraí-lo. — Mas sou um nómade. — Deve ter frequentado a escola em algum outro país? Na Inglaterra? Na América? — Por que diz isso? — Notei como escolhe as palavras e constrói as frases. — O que sabe sobre construção de frases? — Kardal riu. — Apesar do que está imaginando, não sou nenhuma idiota. Estudei. Conheço algumas coisas. Os olhos escuros pareciam tomar posse de sua alma. — Que coisas, minha ave do deserto? 19 NAS AREIAS DO DESERTO —- Eu... eu... Em vez de esperar pela resposta, o homem a alimentou com um vegetal grelhado. Dessa vez, no entanto, Sabrina não tomou o cuidado necessário e o dedo tocou o canto de sua boca. No momento do con-tato, algo estranho aconteceu dentro de si. Intoxicação alimentar, ela decidiu. Kadar devia ter misturado alguma substância tóxica à comida. Mas estava com fome demais para importar-se com detalhes. Continuou comendo até esvaziar o prato, e depois bebeu uma segunda caneca de água oferecida pelo nómade. Quando concluiu a refeição, ela esperou vê-lo voltar para perto dos homens reunidos em torno de uma fogueira, mas, em vez disso, ele permaneceu sentado a seu lado, estudando seu rosto. Devia estar horrível. Os cabelos formavam um emaranhado terrível, e devia ter sujeira no rosto depois de enfrentar a tempestade de areia. Não que desejasse estar atraente para seu captor. Tratava-se apenas de vaidade feminina, nada específico sobre o homem diante dela.
  • 10. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 10 - — Quem é você? — ele perguntou. — E por que está sozinha no deserto? Alimentada, sentia-se menos vulnerável e assustada. Pensou em mentir, mas nunca fora muito boa nisso. Recusar-se a responder era outra opção, mas havia algo de envolvente no olhar de Kardal. A alternativa mais simples era dizer a verdade, ou parte dela, pelo menos. — Estou procurando pela Cidade dos Ladrões. Esperava uma reação de interesse ou incredulidade. Esperava qualquer coisa, menos a gargalhada 20 NAS AREIAS DO DESERTO que ecoou alta na noite silenciosa do deserto. Os homens reunidos em torno da fogueira olharam para eles. — Ria quanto quiser —■ Sabrina disparou. — É verdade. Sei onde fica o lugar e vou encontrá-lo. — Essa cidade é um mito! Há séculos aventureiros cruzam o deserto tentando encontrá-la. Por que acha que terá mais sorte que todos esses homens? — Alguns deles chegaram ã cidade. Tenho mapas, diários... Kadar examinou o corpo bem-feito da jovem. Ela usava camiseta, calça jeans e botas de caminhada. Atrás dela, na areia, estava o manto espesso que teria de ser usado mais tarde. A temperatura já caía rapidamente, e logo o frio seria insuportável. — Onde estão seus mapas e diários? Sabrina respirou fundo. — Nos alforjes. — Ah... No cavalo desaparecido? — Sim. — Deve compreender que será ainda mais difícil encontrar essa cidade fictícia sem os mapas. A irritação crescia rapidamente. — Sim, eu sei. — Mesmo assim, insiste na busca? — Eu nunca desisto daquilo que quero. Juro que voltarei e encontrarei a cidade. Ele se levantou e fitou-a do alto de sua estatura impressionante. — Fala como uma criatura determinada, mas seus planos são baseados em uma hipótese interessante. — Do que está falando agora? — Para voltar aqui, primeiro terei de soltá-la. 21 CAPITULO II Kadar mantinha os olhos fechados, tentando ignorar os movimentos da mulher a seu lado. O chão sob seu corpo era duro, mas não desconfortável, embora duvidasse de sua capacidade para apreciar a diferença. Desamarrara seus tor- nozelos, mas mantivera as amarras dos pulsos e as prendera a uma corda atada ao cinturão em torno de sua cintura. Sabia que, sem algum tipo de contenção, ela era impulsiva o bastante para tentar escapar. A mulher não aprovara sua decisão de dormirem lado a lado.
  • 11. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 11 - — Isso é ridículo — resmungara, as palavras sufocadas pelos roncos dos homens do grupo. -— Onde espera que eu vá no meio da noite, sozinha no deserto? Solte- me imediatamente. — Como é imperiosa! — ele respondera, sem se dar ao trabalho de encará-la. — Se continuar falando, vou ter de amordaçá-la. Com o tempo, isso pode tornar-se muito desagradável. A ameaça surtira efeito, e ela se calara. No entanto, continuava executando movimentos impacientes e puxando o manto sobre o corpo. A temperatura continuava caindo. Kardal sabia que, em pouco tempo, ela ficaria grata com o calor de seu corpo junto ao dela. Sozinha, passaria a madrugada tremendo. Mas também sabia que ela não manifestaria gra- tidão. As mulheres não eram criaturas sensíveis. Quanto a confiar nela o suficiente para soltá-la... seria mais seguro confiar sua fortuna a um jogador. Como alguém podia cometer a tolice de viajar sozinha pelo deserto? Então não sabia como a imensidão vazia podia ser perigosa? Era evidente que não, ele decidiu. A princípio ficara chocado por ver um viajante solitário ao longe. Ele e seus homens mudaram rapidamente de curso a fim de oferecer assistência. Na medida em que se aproximaram, constatara que o viajante era uma mulher, e depois, quando vira aquele rosto, soubera com certeza quem era ela. Sabrina Johnson, conhecida naquela região como princesa Sabra, única filha do rei Hassan da Baha-nia, era tudo que ele mais temia. Voluntariosa, tem- peramental, mimada e desprovida da inteligência que o bom Senhor costumava dar até mesmo a uma simples palmeira. Supunha que a atitude mais sensata seria devolvê-la ao rei, embora soubesse que o pai desinteressado nada faria para corrigi-la em seu comportamento impróprio. Pelo que ouvira, o rei Hassan ignorava a única filha, permitindo que ela passasse a maior parte do ano com a mãe na Califórnia, provavelmente levando uma vida desregrada, com a ex-esposa do soberano. Kardal abriu os olhos e fitou o céu. Era um produto do novo século, como qualquer outro homem de seu mundo. Encurralado entre a tradição e o pro- 23 NAS AREIAS DO DESERTO gresso, tentava encontrar o equilíbrio e agir com sabedoria em todas as situações. Mas quando pensava em Sabrina desperdiçando a vida em Beverly Hills, mantendo relacionamentos passageiros e adotando uma existência voltada apenas para o prazer... Ela podia ser linda além da compreensão humana, mas tinha a alma de uma criança mimada e caprichosa. Não era uma esposa tradicional do deserto, nem uma mulher especial produzida pelo que a cultura ocidental podia oferecer de melhor. Não se encaixava em lugar nenhum, e não tinha nenhuma utilidade para ela. Se a vida fosse justa, estaria disposto a devolvê-la e encerrar o assunto. Infelizmente, a vida não era justa e esse curso de ação não estava disponível para ele. Supunha que fosse esse o preço de ser um líder. Sabrina deitou-se de costas, puxando a corda que os mantinha unidos. Ele não se moveu. A princesa emitiu um suspiro de desgosto e ficou quieta. Com o tempo,
  • 12. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 12 - sua respiração foi se tornando mais profunda, até que ele teve certeza de que a jovem dormia. O dia seguinte seria interessante. Teria de decidir o que fazer com a mulher. Talvez já soubesse e não quisesse admitir nem para si mesmo. Também havia a questão de não ter sido reconhecido, embora fosse possível que ninguém houvesse mencionado seu nome. A ideia o fez sorrir. Se a princesa não sabia, não seria ele o portador da notícia. Ainda não. Sabrina acordou lentamente e tomou consciência de uma combinação incomum: cama dura e calor. Moveu-se com cuidado, mas o colchão não cedeu. 24 NAS AREIAS DO DF.SF.RTO Nem a fonte de calor que a cercava. Ela se localizava mais especificamente de um lado, como um... Seus olhos se abriram. Olhando para o céu que já começava a clarear, compreendeu que não estava em sua cama no palácio, nem em seu quarto na casa da mãe. Estava no deserto, presa por uma corda a um homem que não conhecia. Os eventos do dia anterior retornaram a sua mente com a sutileza de uma tempestade de areia: a excitação por finalmente começar a tão sonhada viagem até a Cidade dos Ladrões, o cuidado cora que reunira suprimentos e equipamentos, a determinação, a coragem... Só não contara com uma conspiração dos elementos. Por isso estava amarrada a um nómade, um desconhecido que poderia fazer com ela o que bem entendesse. Ela arriscou um rápido olhar para a direita. O homem ainda dormia, e Sabrina aproveitou a oportunidade para estudá-lo. Sob a luz suave do início da manhã, ele ainda parecia duro e poderoso, um típico habitante do deserto. Era assustador saber que o desconhecido tinha seu destino nas mãos, mas já não acreditava que sua vida corresse perigo. Nem temia por sua virtude. Apesar de ter protestado contra as cordas que a mantinham presa, em nenhum momento imaginara que ele a atacaria fisicamente. E era isso que não fazia sentido. Devia estar com medo! Cílios longos criavam sombras sobre suas faces. A pele era bronzeada, e os ossos do rosto e do queixo sugeriam força. Quem era aquele Kardal do deserto? 25 NAS AREIAS DO DESERTO Por que a mantinha prisioneira, em vez de acompanhá-la até a cidade mais próxima? De repente ele abriu os olhos. Separados por cerca de vinte centímetros, trocaram um olhar silencioso e intenso. Sabrina tentou decifrar sua expressão, mas não conseguiu. Era estranho, mas, se tivesse de escolher uma única palavra para descrever o que via naquele olhar, teria escolhido desapontamento. Ele se levantou sem dizer nada. Sabrina percebeu que o homem soltara a corda que os mantinha unidos. No instante seguinte, ele se ajoelhou e desamarrou seus pulsos. — Terá uma vasilha com água para sua higiene matinal — Kadar anunciou. — Não tente fugir, ou serei obrigado a entregá-la aos meus homens. — O nómade virou-se de costas. — Não é exatamente um exemplo de bom humor matinal, é? Sem responder, Kadar afastou-se e deixando-a sozinha.
  • 13. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 13 - Resignada, ela levou a vasilha com água para uma parte mais afastada do acampamento. Coberta pelo manto, fez o possível para refrescar-se. Depois da tempestade de areia, de ter passado a noite usando as roupas com que havia passado o dia, e diante da perspectiva de continuar com essas mesmas roupas, teria dado um dedo por um chuveiro. Dez minutos mais tarde, ela se aproximou cautelosa da fogueira. Dois homens preparavam uma refeição. Ignorando a comida, Sabrina olhou para o bule de café próximo das chamas. Alimentar-se não era sua prioridade nas primeiras horas da manhã, mas o café era como a seiva da vida. 26 NAS AREIAS DO DESERTO Com um gesto, chamou a atenção de Kardal e apontou para o bule. Ele assentiu sem dizer nada. Ainda em silêncio, Sabrina aproximou-se dos homens para pegar uma caneca limpa de um dos alforjes. Enchendo-a com o líquido fumegante, constatou que o café era forte e quente, como o preferia. — Perfeito — suspirou. Kardal contornou a fogueira para sentar-se perto dela. Ele usava o manto aberto sobre a túnica e a calça, o que conferia uma aparência ao mesmo tempo informal e sobrenatural, quase etérea ao homem. — Estou surpreso. Alguns ocidentais e muitas mulheres teriam recusado um café tão forte. — Gosto dele assim, forte o bastante para servir de tinta. — Não aprecia o capuccino italiano? — Deus me livre dele! Ele fez um gesto convidando-a a segui-lo até o extremo da área utilizada para acampamento. Uma vez lá, pôs as mãos na cintura e fitou-a como se estivesse diante de um insèto repugnante. — Preciso decidir o que vou fazer com você. — O quê? Não quer passar o resto da vida viajando pelo deserto em minha companhia? E eu pensando que havia sido divertido amarrar-me e obrigar-me a dormir no chão duro! — Vejo que hoje tem mais disposição para o humor do que demonstrou ontem à noite. — O que esperava? Estou descansada, tomei café... Apesar dos rumores em contrário, sou uma criatura de hábitos simples. — E claro... Bem, temos três opções. Podemos ma- 27 NAS ARRIAS DO DESERTO tá-la e abandonar seu corpo no deserto, vendê-la como escrava ou devolvê-la para sua família. Sabrina quase engasgou com o café. Recuperada, tentou usar o bom humor como arma e ganhar algum tempo. — Posso ver o que se esconde por trás da porta de número quatro? Considero a primeira opção eliminada, e a segunda... Duvido que seja uma boa escrava. — Já pensei nisso, mas uma boa surra a corrigiria em tempo recorde. — Opção descartada. — Quer dizer que prefere a terceira alternativa? — A escolha é minha? Que criatura democrática!
  • 14. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 14 - — Estou tentando ser justo. — Justiça seria dar-me um cavalo, alguns suprimentos e as informações necessárias para que eu encontre meu destino. — Já perdeu seu cavalo e um camelo. Por que acha que eu arriscaria um dos meus animais? Sabrina ignorou a pergunta. Era inútil explicar que não perdera os animais por descuido, mas por causa da tempestade de areia que a surpreendera. — Não quero morrer — disse, compreendendo que ele esperava que escolhesse seu destino. — E não desejo tornar-me escrava. — Também não queria voltar ao palácio e casar-se com o príncipe prometido, mas não tinha outra alternativa. Sabrina refletiu sobre a possibilidade de o pai pagar algum resgate por ela. Talvez o rei investisse algum dinheiro para tê-la de volta, não porque a quisesse a seu lado, mas porque seria péssimo para sua imagem deixá-la morrer nas mãos dos nómades. Por 28 NAS AREIAS DO DESERTO outro lado, se um de seus preciosos gatos houvesse sido raptado, todo o reino estaria em polvorosa tentando recuperá-lo. Era triste saber que não tinha o afeto do pai. Infelizmente, essa era a realidade. No entanto, Kardal não a conhecia, e não havia outra escolha. Teria de revelar sua identidade e esperar que ele fosse um homem de honra, alguém leal ao rei. Nesse caso, ele a devolveria ao palácio sem pedir nada em troca. Uma vez lá, pensaria no noivado com o tal príncipe desconhecido e tomaria uma atitude sobre o assunto. Erguendo o corpo, tirou proveito máximo de sua estatura, um metro e sessenta centímetros, e tentou assumir um ar importante. — Sou a princesa Sabra da Bahania. Não tem o direito de manter-me prisioneira, nem pode determinar meu destino. Ordeno que me devolva ao palácio imediatamente, ou serei forçada a contar a meu pai sobre suas atitudes. Ele o caçará e aos seus homens como se fossem cães sarnentos! Kardal suspirou entediado. — Não acredita em mim? Estou dizendo a verdade! — Não tem a aparência de uma filha da realeza. Se é mesmo a princesa, o que fazia sozinha no deserto? — Já lhe disse que procurava pela Cidade dos Ladrões. Queria encontrá-la e surpreender meu pai com os tesouros escondidos naquele lugar. Agora dizia a verdade. Não só desejava explorar a cidade lendária, como planejara usar a descoberta como um meio seguro de atrair a atenção do pai. Assim que o convencesse de seu lugar no mundo como uma pessoa real, talvez pudesse fazê-lo entender 29 NAS AREIAS DO DESERTO que o noivado com o tal príncipe era absurdo e impossível. Kardal fingiu considerar suas palavras. — Mesmo que seja a princesa, o que é pouco provável, não entendo o que fazia sozinha. E proibido. Por outro lado, dizem que a princesa é uma mulher temperamental, caprichosa e difícil... Talvez seja ela, afinal.
  • 15. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 15 - Aquela era uma situação sem possibilidade de vitória, Ou aceitava o ataque ao seu caráter, ou suas palavras cairiam no vazio. Por que as pessoas sempre imaginavam o pior a seu respeito? Não entendiam que nunca tivera uma vida normal? Dividir o tempo entre um pai e a mãe que não a queriam não havia sido o melhor caminho para uma infância feliz. As pessoas que a consideravam uma felizarda enxergavam apenas os aspectos materiais de sua situação. Ninguém sabia das intermináveis horas que passara sozinha quando criança. Mas seria inútil explicar tais coisas a Kardal. Ele não acreditaria nela, e mesmo que acreditasse, não se importaria. — Vou considerar o que disse — o homem decidiu. — Como assim? Acredita que sou a princesa? Vai me levar de volta ao palácio na Bahania? — Comparado à recente experiência no deserto, o príncipe pro- metido não seria uma escolha tão detestável, afinal. — Não — Kardal respondeu. -— Vou mantê-la comigo, pelo menos por enquanto. Seria muito mais interessante ter uma princesa como escrava. O homem não podia estar falando sério! Devia ser uma brincadeira de mau gosto! — Não! — protestou apavorada. — Não pode... 30 NAS AHF.IAS DO DKSERTO — Oh, sim, eu posso — Kardal cortou rindo, afastando-se enquanto ela ficava ali parada, boquiaberta c chocada. — Vai se arrepender! — Sabrina gritou furiosa. — Farei com que se arrependa! — Oh, tenho certeza disso — o nómade respondeu sem se virar. — Vou me arrepender por todos os dias de minha vida, até o fim dela. Quarenta minutos mais tarde, ela soube que uma surra seria uma opção boa demais. Queria vê-lo enforcado, fuzilado, talvez até decapitado. Como se ameaçá-la e insultá-la não fosse o suficiente, ele também a amarrara novamente e vendara seus olhos. -— Não sei o que pensa estar fazendo — Sabrina anunciou irada. A sensação de não poder enxergar enquanto era mantida sobre um cavalo em movimento era desconcertante. Passava o tempo todo esperando pelo momento em que cairia sob os cascos do animal. — Em primeiro lugar — Kardal sussurrou em seu ouvido —, não precisa gritar. Estou bem atrás de você. — Como se eu não soubesse! Estava sentada diante dele na sela. Por mais que tentasse evitar o contato físico, não havia espaço suficiente para isso. Manter-se rígida e tensa a fim de reduzir o contato só servia para deixá-la dolorida, porque as costas continuavam apoiadas no peito musculoso. — Acalme-se — ele disse com tom debochado. — Seu desejo será satisfeito. Estamos a caminho da Cidade dos Ladrões. 31 NAS AREIAS DO DESERTO Sabrina não respondeu. Nao poderia. Tinha a mente ocupada por centenas de perguntas, sem mencionar a incredulidade, a esperança e a excitação. — Está dizendo... que a cidade é real? — Mais do que real — ele riu. — Passei toda minha vida nela.
  • 16. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 16 - — Mas não pode... Não é... — O que o homem dizia não fazia sentido. — Se esse lugar existe mesmo, por que então nunca ouvi relatos sobre ele? Por que só conheço a cidade através dos livros e de velhos diários? — E como preferimos que seja. Não estamos interessados no mundo exterior. Vivemos de acordo com a antiga tradição. O que significava que a vida para as mulheres devia ser menos do que agradável. — Não acredito — ela declarou. — Só está dizendo tudo isso para alimentar minhas esperanças! — E por que eu manteria seus olhos vendados? É importante que não consiga encontrar o caminho de volta à nossa cidade. Sabrina mordeu o lábio. Kardal estava dizendo a verdade? A cidade existia realmente e pessoas viviam lá? Ter sido capturada valeria a pena, se pudesse ver o que havia além dos muros antigos. E o comentário sobre não poder encontrar o caminho de volta implicava numa eventual libertação, mesmo que Kardal insistisse no contrário. — Existe algum tesouro na cidade? — perguntou curiosa. — Está interessada em riqueza material? Havia algo no tom de voz do nómade. Desprezo, talvez? 32 NAS ARI-:IAS no DESLRTO — Pare de falar comigo como se eu fosse uma cavadora de ouro! Tenho um diploma de bacharel em arqueologia e mestrado em história da Bahania. Meu interesse em encontrar a cidade é intelectual e científico, não pessoal. Pensando bem, não sei por que estou perdendo meu tempo. Pense o que quiser. Não me importo. Mas era evidente que ela se importava, e Kardal percebeu com surpresa que a princesa estava ofendida. Ouvira falar sobre os estudos da herdeira real na América, mas nunca havia imaginado que ela concluiria algum curso, nem que se interessaria por algum assunto relacionado a suas origens. Não tinha certeza de que Sabrina não desejava para si os tesouros de sua terra natal, mas estava disposto a esperar e permitir que ela demonstrasse suas verdadeiras intenções através do comportamento. Ela se inclinou para a frente como se quisesse afastar-se, impedir qualquer contato, e Kardal sentiu o tremor em seus músculos, resultado da tensão e do desconforto. — Relaxe — disse, passando um braço em torno de sua cintura e puxando-a contra o peito. — Temos um dia inteiro de cavalgada pela frente. Se insistir em manter essa rigidez, em pouco tempo não suportará as dores. Prometo não abusar de sua virtude enquanto estivermos sobre o cavalo. — Nesse caso, lembre-me de nunca mais desmontar — ela resmungou irritada. Sabrina representava mais problemas do que todas as mulheres que Kardal já havia encontrado, mas não sentia por ela a antipatia que havia esperado. Pelo contrário. Era agradável ter o corpo femi- 33 NAS AREIAS DO DESERTO nino pressionado contra o dele. Durante a noite havia conseguido ignorar o perfume doce que sua pele delicada exalava, mas agora que estavam juntos,
  • 17. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 17 - sobre o cavalo, era impossível negar o estímulo que provocava seus sentidos. Quando a colocara sobre a sela, sua única intenção havia sido impedi-la de fugir. Ao amarrar suas mãos, pensara tanto em contê-la quanto em puni-la por sua atitude voluntariosa. De repente descobria que era ele quem sofria a maior punição. A cada movimento do cavalo, o corpo curvilíneo roçava o dele numa doce tortura. O quadril apoiado entre suas pernas o excitava tanto que não conseguia pensar em outra coisa. E não precisava desse tipo de dificuldade. Sabrina não era o tipo tradicional de mulher que ele teria escolhido. Não era dócil nem submissa. Sua mente rápida permitia que usasse as palavras como armas, e não havia como dizer de que forma o tempo passado no ocidente a corrompera. Ela era desrespeitosa, caprichosa e mimada. E mesmo que a considerasse intrigante, jamais a teria escolhido. Mas a escolha não estivera em suas mãos. Tudo havia sido proclamado no momento de seu nascimento. Gostaria de entender por que ela não sabia quem ele era. Teria o rei omitido os detalhes da situação, ou a princesa se recusara a ouvi-los? Descobriria toda a história mais tarde, Kardal decidiu sorrindo. Duvidava de que Sabrina desse ouvidos a alguma coisa que não considerasse interessante. E esse era um hábito que tiraria dela. Podia quase antecipar o desafio que a princesa representaria em sua vida. E no final, seria ele o 34 NAS AREIAS DO DESERTO vitorioso, sem dúvida. Ele era o homem, a força sobrepujando a fragilidade. Eventualmente, Sabrina aprenderia a apreciar tais diferenças. Até lá, o que aquela beldade de temperamento rebelde diria se soubesse que ele era o homem a quem fora prometida em casamento? 35 CAPÍTULO III Eventualmente, Sabrina descobriu que ío ritmo do cavalo era hipnótico, mesmo com a constante sensação de estar caindo. Apesar da intenção de provar sua independência, começou a relaxar nos braços de Kardal, um homem forte o bastante para sustentá-la. Além do mais, se insistisse em manter-se rígida, não suportaria as dores no final do dia. Assim, apoiou-se no peito musculoso e entregou-se à sensação de segurança criada pelos braços em torno de seu corpo. Era estranho, quase íntimo... Talvez fosse a proximidade, ou a escuridão criada pela venda. Nunca estivera em uma situação como aquela, o que não a surpreendia. Nunca fora raptada. — Tem o hábito de raptar mulheres inocentes? Em vez de mostrar-se insultado pela pergunta, ele riu. — Você pode ser muitas coisas, princesa, mas inocente não faz parte da lista. Kardal estava enganado, mas aquele não era o melhor momento para discutir tal assunto. Poderia... O cavalo tropeçou em uma pedra solta. Para Sabrina, a escuridão adquiriu uma nova e assustadora
  • 18. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 18 - 36 NAS AREIAS DO DESERTO dimensão, enquanto a sensação de queda tornou-se quase uma realidade. Assustada, tentou agarrar-se a alguma coisa, mas havia apenas o vazio ao alcance das mãos. — Acalme-se — Kardal murmurou. — Não vou deixar que nada de mal aconteça com você. Queria tirar conforto das palavras, mas conhecia o verdadeiro propósito por trás delas. — Não está preocupado comigo — acusou. — Não quer que nada diminua o valor de sua presa. — Exatamente, minha ave do deserto. Não vou deixar que voe, nem permitirei que sofra algum dano. Será mantida em total segurança até que eu possa reclamar minha recompensa. Não gostava nada do que estava ouvindo. O homem devia acreditar em tudo que era publicado pelos jornais sobre a princesa da Bahania, e assim pensava conhecê-la. — Está enganado sobre mim — disse. — Eu nunca me engano. Sei que não é uma filha obediente. Leva uma vida desregrada no ocidente, o que não é surpresa para ninguém, levando-se em conta a semente a partir da qual foi gerada. E como sua mãe, diferente das mulheres da Bahania. Sabrina disse a si mesma que não se importaria com a opinião de um bárbaro. Infelizmente, as palavras sensatas não desfizeram o nó formado pelas lágrimas em sua garganta. Odiava ser julgada a partir de reportagens e notas publicadas em jornais e revistas. Havia acontecido durante toda sua vida. Poucas pessoas se interessavam em conhecer a verdade. 37 NAS AREIAS DO DESERTO — Já pensou que às vezes é a mídia que se engana, ou engana aqueles que acreditam nela? — Às vezes, mas não no seu caso. Passou quase toda sua vida em Los Angeles, e aprender e adotar aquele estilo foi inevitável. Se seu pai a houvesse mantido aqui, teria aprendido nossas tradições e costumes, mas não foi o que aconteceu. — Fala como se eu fosse culpada por meu pai ter desistido de mim. Eu tinha quatro anos de idade! Ninguém pediu minha opinião. Caso tenha esquecido, as leis bahanianas proíbem que uma criança da realeza seja educada em outro país. Mesmo assim, meu pai permitiu que minha mãe me levasse com ela. Ele nem tentou detê-la! Era impossível banir a amargura da voz. Desde cedo tivera de conviver com a certeza de que o pai nunca a amara o bastante para desejá-la a seu lado. Se houvesse nascido menino, ele jamais a teria deixado partir. Mas era apenas uma filha. Sua única filha, mas esse era um detalhe insignificante para o rei Hassan. Podia sentir a frustração crescendo. Não era justo. Nunca havia sido, e jamais seria, mesmo que vivesse cem anos. Um dia entenderia. Talvez no mesmo dia em que deixasse de dar importância à opinião das pessoas. Nesse dia seria madura o bastante para não se incomodar quando a julgassem antes mesmo de conhecê-la.
  • 19. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 19 - Infelizmente, esse dia ainda não havia chegado, e odiava perceber que a opinião de Kardal a magoava ainda mais do que o usual. — Pode dizer o que quiser. Mantenha suas opiniões e teorias, mas ninguém conhece a verdade tanto quanto eu. 38 NAS AREIAS DO DESERTO — Tem razão — Kardal concordou em tom pensativo. — Agora relaxe. Passaremos a maior parte do dia viajando, e você deve aproveitar para descansar. Não dormiu bem à noite. Adormecera imediatamente, mas acordara diversas vezes e levara algum tempo para cochilar novamente. Agora descobria que sua agitação o mantivera acordado. Depois de ter sido raptada, amarrada, e ter os olhos vendados, podia afirmar com toda segurança que nem se incomodava com isso. Respirando fundo, tentou relaxar. Quando a tensão em seu corpo começou a diminuir, ela deixou a mente vagar. Como seria viver no comando do próprio mundo, como Kardal? Um homem do deserto... Ele não devia satisfações a ninguém. Não sabia o que era viver submissa às ordens e aos desejos de pai e mãe, sempre mandada de um para o outro como se nenhum dos dois a quisesse. — Vive mesmo na Cidade dos Ladrões? — perguntou sonolenta. — Sim. — Sempre viveu lá? — Durante toda minha vida. Passei alguns anos fora, estudando, mas sempre voltei ao deserto. Aqui é o meu lugar. — Nunca senti que pertencia a algum lugar. Quando estou na Califórnia, minha mãe age como se eu estivesse atrapalhando seu caminho. A situação melhorou um pouco agora que cresci, mas quando eu era criança, ela vivia reclamando por não ter a liberdade de movimentos que tanto apreciava. O que não era verdade, porque ela simplesmente saía e me deixava com a empregada. Na Bahania... — 39 NAS AREIAS DO DESERTO Sabrina suspirou. — Bem, meu pai não gosta muito de mim. Ele acredita que sou parecida com ela, o que não é verdade. As pessoas não sabem apreciar os pe- quenos detalhes que tornam a vida completa, os laços que as mantém unidas em torno de algum objetivo ou de um lugar comum. Se os tivesse, eu saberia apre- ciá-los. — Por dez minutos, talvez. Depois se cansaria das obrigações, das amarras... É muito mimada, minha ave do deserto. Admita. ■— Não sou mimada! E você não me conhece o bastante para estar fazendo esse tipo de julgamento. E fácil ler meia dúzia de artigos e ouvir um punhado de rumores e decidir, mas é muito diferente quando se está do outro lado, vivendo a minha vida. — Imagino que esteja preparada para concordar comigo sobre a cor do céu. — Só se eu puder vê-lo. — Desista. Não vou remover a venda. — Sua atitude precisa de ajustes. Ele riu. -— Talvez, mas não será você a fazê-los. Como minha escrava, estará ocupada com outras coisas.
  • 20. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 20 - Sabrina estremeceu. O homem pretendia mesmo mantê-la como sua escrava pessoal? Seria possível? — Está brincando, não é? Tudo isso é uma piada. Acha que preciso de uma lição e decidiu ser o mestre. — Terá de esperar para ver. Entretanto, não se surpreenda quando descobrir que não tenho nenhuma intenção de soltá-la. Não conseguia assimilar a ideia. Era loucura! Não viviam na Bahania do século XIV. Eram habitantes do mundo moderno. Os homens não mantinham es- 40 NAS AREIAS DO DESERTO cravas. Por outro lado, naquele deserto selvagem, talvez as mantivessem... Sabrina engoliu em seco. — O quê, exatamente, espera que eu faça? — Essa será mais uma surpresa. — Ah... E aposto que não vai ser muito boa. Ruídos a despertaram. Sabrina recuperou a consciência com um sobressalto, uma vez que nem havia se dado conta de ter adormecido. Por um segundo entrou em pânico por não poder ver, mas depois lembrou-se de que estava amarrada e com os olhos vendados. — Onde estamos? — perguntou, tomada por um medo ainda maior do que antes. Ouvia barulhos estranhos. Vozes, gritos, grunhidos, choro... Choro? Não. O que ouvia eram balidos e os sinos normalmente usados no pescoço do gado. Homens gritavam, e podia distinguir o som de moedas tilintando e muitas conversas paralelas. A fragrância de carne sendo assada competia com o cheiro típico dos animais do deserto e de óleos perfumados. — Isto é um mercado? —- ela arriscou assustada. — Vai me vender? Até aquele momento não refletira sobre sua verdadeira situação. Sim, era prisioneira de Kardal, mas ele a tratara bem e tudo não havia passado de um grande inconveniente. De repente tudo mudava. Era mesmo cativa à mercê de um desconhecido. Se ele decidisse vendê-la, não poderia fazer nada para impedi-lo. Ninguém daria ouvidos aos protestos de uma mulher. — Acalme-se — ele respondeu. — Reconheço que 41 NAS AREIAS DO DESERTO a ideia tem seu apelo, mas não pretendo vendê-la. Chegamos ao nosso destino. Bem-vínda à Cidade dos Ladrões. Sabrina ouviu as palavras sem entendê-las. Não seria vendida? Sua vida não corria perigo? A venda foi removida. Os olhos levaram alguns segundos para ajustarem-se à luz do entardecer, mas, quando conseguiu enxergar, ela deixou escapar uma exclamação de espanto. Havia dúzias de pessoas em todos os lugares. Centenas, na verdade, todas vestidas nos trajes tradicionais do deserto. Via mulheres carregando cestos e homens conduzindo camelos. Crianças corriam entre os grupos. Barracas haviam sido montadas ao longo de uma rua de calçamento de pedras e vendedores gritavam tentando atrair a clientela. Era um vilarejo. Ou uma cidade. A Cidade dos Ladrões realmente existia?
  • 21. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 21 - Sabrina virou-se na sela para olhar para Kardal. — Está falando sério? — É claro que sim. Ah, nossa presença foi notada. Ela olhou novamente para as pessoas e percebeu que algumas apontavam admiradas em sua direção. Sentia-se suja e desarrumada. O manto espesso fora jogado sobre suas pernas de forma a esconder os pulsos amarrados, e um véu fino cobria seus cabelos vermelhos. Mesmo assim, era uma mulher que dividia a mesma sela com um homem. Pior, tinha traços ocidentais. A pele não era tão morena quanto a de uma nativa e os olhos não tinham o mesmo formato. Também havia algo de diferente em sua boca, sinais mais do que suficientes para que qualquer um percebesse que não era uma verdadeira bahaniana. 42 NAS AREIAS DO DESERTO —- Senhora, senhora! Sabrina olhou na direção da voz estridente e viu uma garota acenando. Pensou em retribuir o cumprimento, mas lembrou que tinha as mãos amarradas e contentou-se com um aceno de cabeça. —-■ Onde está o tesouro? — perguntou. — Posso vê-lo? Mantém algum tipo de inventário? Antes que Kardal pudesse responder, ela ouviu um som peculiar. Era algo familiar, mas tão fora de lugar que... Sabrina virou-se na direção do ruído e espantou-se. Ali, além do mercado, havia um muro baixo construído com pedras. Além dele, um rio descrevia uma curva e desaparecia de vista. — Água? — indagou surpresa. — Temos uma nascente subterrânea que supre todas as nossas necessidades —- ele respondeu, conduzindo o cavalo por entre as pessoas. No lado leste da cidade, a água retorna ao subsolo, mas aqui ela irriga as plantações. Era surpreendente. No deserto, a água era mais preciosa que o ouro, ou até mesmo que o petróleo. Com ela, a civilização podia sobreviver. Sem o líquido precioso, a vida chegava ao fim rapidamente. — Li várias referências a uma nascente em um dos diários, mas nenhum relato mencionava um rio. — Talvez não tenham podido vê-lo, ou o relator tenha preferido não revelar sua existência. — Talvez. Há quanto tempo ele existe? — Desde que os primeiros nómades fundaram a cidade. — Espere um instante! Essas pessoas não podem 43 NAS AREIAS DO DESERTO ser nómades! Por definição, elas teriam de passar boa parte do ano vagando pelo deserto. — Tem razão. Alguns vivem permanentemente dentro dos muros da cidade. Outros passam uma parte do ano no deserto. Muros? Sabrina olhou além do mercado tentando encontrá-los, e só então notou que cavalgavam no que parecia ser um imenso quintal. Os muros haviam ficado para trás, mas ainda podia vê-los distantes e imponentes.
  • 22. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 22 - — Não é possível... — sussurrou, impressionada com o tamanho da cidade. — É possível e real. Aproximaram-se de um conjunto interno de paredes, e ela ergueu os olhos para examinar um arco de madeira maciça que formava uma moldura para as maiores portas duplas que já vira. Deviam ter pelo menos cento e cinquenta metros de altura! — Há quantos anos este lugar foi construído? — perguntou, incapaz de disfarçar o entusiasmo. — De onde veio a madeira? Quem foi o artesão? Elas ainda são operantes? Quero dizer, é possível fechá-las? — Quantas perguntas! E ainda nem viu a parte mais magnífica... Estava prestes a perguntar o que podia ser mais fascinante do que aquelas portas, quando eles passaram através do arco. Do outro lado da parede havia um segundo pátio. Sabrina olhou em volta com grande interesse. As paredes continuavam contornando a cidade, provavelmente de maneira a cercá-la por completo. De que tamanho seria o povoado fechado? Qual podia ser a extensão daquelas paredes? Três quilómetros? Trinta? 44 NAS AREIAS DO DESERTO Ela levantou a cabeça e quase caiu do cavalo. Kar-dal deteve o animal e deixou que a princesa olhasse quanto quisesse. Diante deles erguia-se majestoso um castelo do século XII. Sabrina tentou falar e não conseguiu. Não sabia nem se estava respirando. A estrutura erguia-se como uma antiga catedral formada por muitas torres e patamares, e havia até uma ponte elevadiça e lanças de metal no alto dos muros. Um castelo! Ali, no meio do deserto! Incrédula, ainda estudava a estrutura fascinante quando se deu conta de que ela fora erguida em etapas, modernizada, com partes acrescentadas ao desenho original. Havia influências ocidentais e orientais, janelas do século XIV e torres do século XVIII. Pessoas atravessavam a ponte principal, e era possível ver sombras em movimento no interior da construção. Um castelo operante e habitado! — Como é possível? — murmurou em tom admirado. — Como puderam guardar tal segredo por tantos séculos? — A cor, a localização... — Kardal encolheu os ombros. Sabrina estudou as pedras cor de areia utilizadas na construção do castelo e viu que montanhas de porte médio erguiam-se nos dois lados da cidade. Era possível, supôs, que o povoado não fosse visto do ar. Não a olho nu ou por um equipamento convencional de fotografia. — Outros governos devem ter conhecimento sobre este lugar — disse, mais para si mesma do que para ele. — Muitos países devem ter fotos feitas por satélite, infravermelho... 45 NAS AREIAS DO DESERTO — É claro. No entanto, é do interesse de todos manter nossa localização em segredo. Estavam parados diante da entrada do castelo. Olhando em volta, Sabrina reconheceu locais descritos nos diários que lera. Estava exatamente no meio da
  • 23. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 23 - Cidade dos Ladrões e sentía-se aturdida, tonta de excitação e espanto. Havia muito o que estudar aíi, muito o que aprender. Kardal desmontou, e quando recebeu sua ajuda para descer da montaria, Sabrina constatou que uma pequena multidão se reunira em torno deles. Estava suja e desarrumada, mas, por sorte, poucas pessoas prestavam atenção nela. Todos olhavam para Kardal e trocavam comentários em voz baixa. Quando ele se virou, homens vestidos em trajes tradicionais inclinaram-se num cumprimento formal e respeitoso. Sabrina engoliu em seco. Não estava gostando do que via. — Por que todos olham para você desse jeito? — perguntou. — Fez algo errado? — Que mente desconfiada! As pessoas estão apenas trazendo cumprimentos, dando as boas-vindas ao lar. — Não. Um cumprimento simples teria sido um aceno quando passamos por eles. O que vejo aqui é mais do que isso. — Afirmo que está é uma situação muito comum. Kardal começou a levá-la pela escada para a entrada do castelo. As pessoas se afastavam para permitir a passagem dos reeém-chegados e todos se curvavam. Sabrina parou de repente. — Quem é você, afinal? — perguntou, certa de que não iria gostar da resposta. 46 NAS AREIAS DO DESERTO — Já disse. Meu nome é Kardal. Ela olhou em volta e viu a multidão reverente acompanhando cada movimento do nómade misterioso. — E claro. Muito bem, Kardal, que outras informações está omitindo? Ele encolheu os ombros tentando fingir inocência, mas um sorriso debochado arruinava o conjunto. — Escute aqui, pode me acusar de ser mimada e temperamental, se quiser, mas nào sou estúpida. Um homem' idoso adiantou-se até parar diante dela. Sorrindo, ela ergueu a cabeça para fitá-la, uma vez que sua cabeça mal alcançava os ombros da princesa. — Então não sabe? — o homem perguntou. — Ele é Kardal, o Príncipe dos Ladrões. Ele governa este lugar. Sabrina abriu a boca, mas fechou-a sem dizer nada. Ouvira falar dele, sem dúvida. Desde que surgira, o lugar misterioso sempre tivera um príncipe. — Você? — indagou incrédula. — Suponho que acabaria mesmo descobrindo. Sim, sou o príncipe aqui. — Kardal apontou para o castelo e para o deserto além dele. — Governo tudo que pode enxergar. O deserto é meu reino... e minha palavra é a lei. Então, ele removeu o manto que cobria as mãos dela e segurou-as, levando-a para a entrada do castelo. De lá, virou-se para a multidão. — Esta é Sabrina — anunciou com voz poderosa. — Eu a encontrei no deserto e me apoderei dela. Quem ousar tocá-la não verá o próximo amanhecer! Sabrina gemeu. Todos olhavam para ela e falavam dela. Podia sentir o rosto queimando. 47 NAS AREIAS DO DESERTO
  • 24. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 24 - — Que maravilha — murmurou. — Ameaças de morte para quem ousar ajudar- me a escapar. Muito obrigada. -— As ameaças servem para protegê-la. — Como posso acreditar em suas palavras, se insiste em tratar-me como sua propriedade? — Já se esqueceu de que é minha escrava? — Eu esqueceria, se pudesse. Agora vai pôr uma coleira em meu pescoço, como meu pai faz com seus preciosos gatos! — Se for boazinha, prometo tratá-la com a mesma bondade que seu pai dedica aos gatos. — Não vou esperar por isso. Kardal riu e levou-a para o interior do castelo. Sabrina seguia confusa, incapaz de assimilar tantas informações de uma só vez. Era difícil acompanhar a rapidez com que os acontecimentos se sucediam. — Se é o Príncipe dos Ladrões, então passou toda sua vida roubando o que pertencia a outras pessoas. — Não roubo. A prática caiu em desuso há muito tempo. Hoje em dia produzimos nossa renda de outras maneiras. Queria fazer mais perguntas, mas estavam penetrando no castelo. Em todas as direções o olhar registrava a beleza, desde a perfeição das paredes de pedra à complexidade das tapeçarias. Os ladrilhos do piso formavam mosaicos delicados, e havia candelabros de ouro, esquadrias decoradas com pedras preciosas e telas originais realçando a mobília antiga. O salão principal tinha o tamanho de um campo de futebol e dois andares. Janelas de vidros coloridos 48 NAS AREIAS DO DESERTO e clarabóias deixavam entrar a luz do sol. Ela apontou para as velas e para as lamparinas. — Não há energia elétrica? — perguntou, notando aliviada que Kardal cortava as cordas que amarravam seus pulsos. — Geramos alguma energia, mas não utilizamos a eletricidade no interior dos aposentos de moradia. Aqui vivemos como há séculos. Mais uma vez, ele tomou suas mãos e levou-a pelos corredores e salões. Sabrina queria ver tudo, mas era impossível. Em todas as partes havia algo antigo, lindo e, muito provavelmente, roubado. Eram telas dos velhos mestres e impressionistas. Reconhecia o estilo, pois vira algumas delas em livros, fotos raras de quadros desaparecidos e considerados destruídos. Seguiram por um emaranhado de corredores, subiram e desceram escadas, descrevendo curvas que, depois de algum tempo, serviram para desorientá-la. Finalmente penetraram em um aposento e ele a soltou. Sabrina olhou em volta, incapaz de disfarçar a admiração. Cada peça da mobília sugeria grandiosidade. A cama acomodava seis ou sete pessoas, e havia um imenso sofá coberto pelo mesmo tecido da colcha e um fabuloso tapete oriental sobre o piso de pedras. Um mosaico brilhante formando um pavão com a cauda aberta adornava uma das paredes. A lareira era tão grande
  • 25. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 25 - quanto seu quarto de dormir, e centenas de livros ocupavam sólidas prateleiras de madeira. Ela se aproximou dos volumes de capas de couro e tocou um deles com reverência. 49 NAS AREIAS DO DESERTO — Sào catalogados? — perguntou, abrindo uma cópia muito antiga de Hamlet de Shakespeare, surpreendendo-se ao encontrar uma inscrição datada de 1793. Na pequena mesa diante dela havia uma Bíblia ilustrada à mão. Nunca vira nada mais belo. -— Tem ídéia do que guarda aqui? Todo o conhecimento, a história... Não tem preço! Ele fez um gesto de desprezo. — Alguém virá ajudá-la — disse. — Mandarei trazerem água para o banho e roupas apropriadas. — Apropriadas? — Como minha escrava, terá certas... responsabi-lidades. E para cumpri-las terá de vestir-se a fim de agradar-me. — Não pode estar falando sério! — Sabrina devolveu o livro à prateleira e, pela primeira vez, olhou realmente para o quarto. A cama ampla, o sofá confortável... — Kardal, isso tudo é só uma brincadeira, certo? Sou a princesa Sabra. Não pode se esquecer disso. Ele se aproximou e parou diante dela. Estava tão próximo que podia tocá-la, e foi o que ele fez ao segurar seu queixo entre os dedos. — Conheço sua identidade, o que significa que não precisa bancar a inocente comigo. A implicação daquelas palavras a atingiu como uma bofetada. — Já passou por sua cabeça que posso estar falando sério? — Seu estilo de vida na Califórnia é bem documentado. Posso não aprovar o que fez, mas pretendo tirar proveito disso... e de você. Os dedos mal tocavam sua pele, mas podia sentir 50 NAS AREIAS DO DESERTO o contato provocando ondas de calor que se espalhavam por todo o corpo. Não conseguia respirar, sufocada pela proximidade. O medo aliava-se à incredulidade de forma a imobilizá-la. Ele não podia estar falando sério! — Não podemos fazer sexo — disparou. — Não serei um amante egoísta. Prometo que ficará mais do que satisfeita. Não queria ficar satisfeita, Sabrina pensou com desespero. Queria que ele acreditasse no que estava dizendo. Lágrimas queimavam seus olhos, mas ela as conteve. De que adiantaria chorar? Kardal não daria ouvidos aos seus protestos. Acreditava que ela era uma dessas garotas festivas que iam para a cama com todos os homens que conhecia. Dizer que era virgem só serviria para fazê-lo rir. — Duvido que meu prazer seja recompensa suficiente para o que tem em mente — opinou com amargura. — Está fazendo um julgamento precipitado, princesa. Ainda nem esteve comigo... — A única coisa que quero é voltar ao palácio. Ele a soltou desanimado.
  • 26. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 26 - — Talvez com o tempo. Quando eu me cansar de você. Até lá... — Kardal abriu os braços de forma a mostrar o quarto. — Desfrute de sua estadia em minha casa. Afinal, realizou seu maior desejo. Agora é uma habitante da Cidade dos Ladrões. Ele se virou e saiu. Sabrina se deu conta de que era uma prisioneira. Não sabia onde estava e não conhecia ninguém que pudesse ajudá-la. 51 NAS AREIAS DO DESERTO Aflita e deprimida, ela se encostou na parede e foi escorregando até se sentar no chão. Kardal estava certo. Encontrara aquilo que estivera procurando. E a descoberta trazia à mente um velho ditado: temos de tomar cuidado com aquilo que desejamos, porque o desejo pode tornar-se realidade. 52 CAPITULO IV - Não posso acreditar! — Sabrína exclamou ao ver seu reflexo no espelho do quarto. — Pareço uma figurante num filme de xeiques de quinta categoria! — O príncipe foi insistente — declarou a criada enviada para ajudá-la a preparar-se para o retorno de Kardal. — Imagino que tenha sido — ela suspirou. Não havia nada a ser feito, e não tinha o direito de zangar-se com a mulher que havia sido tão gentil. Adiva, uma jovem de cerca de dezoito anos, esperava por sua decisão de cabeça baixa. Ela usava uma túnica larga e escura sobre calça larga e mantinha os cabelos longos e negros presos em uma trança. Sem dúvida, a criada tinha todas as características conservadoras que Kardal admirava em uma mulher. Sabrina olhou para o espelho e tentou não chorar de raiva. A calça de gaze cor- de-rosa tinha cintura muito baixa e era presa nos tornozelos. Com exceção da seda utilizada para forrar a peça na altura dos quadris, estava praticamente nua. E a metade superior não era muito melhor. O mesmo tecido fino e transparente cobria seus braços, enquanto os seios eram escondidos por um minúsculo sutiã dourado. 53 NAS AREIAS DO DESERTO Adiva prendera seus longos cabelos vermelhos em um rafao-de-cavalo no alto da cabeça utilizando uma fita dourada. A criada recuou respeitosa. —- Vou deixá-la esperando por nosso amo — disse. — Seria melhor se ficasse —- Sabrina resmungou nervosa. Deixando de lado os costumes, não estava com disposição para ser atacada sexualmente. E sabia que Kardal nem sequer ouviria sua opinião sobre o assunto. Adiva também não deu ouvidos ao pedido desesperado. Ou, talvez, a jovem a houvesse escutado, mas não podia fazer nada para ajudá-la. De qualquer maneira, ela já havia saído. Sozinha, Sabrina andava de um lado para o outro enquanto praguejava contra o Príncipe dos Ladrões e lamentava ter sido tola o bastante para ter deixado o
  • 27. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 27 - palácio sozinha. Não fosse pela tempestade, pelos animais perdidos... Não fosse a insistência de Kardal em transformá-la em escrava sexual! Pois ele teria uma surpresa, decidiu, tentando usar o bom humor como um escudo contra o pânico. O homem esperava uma odalisca experiente, e em seu lugar teria a princesa virgem. Pelo menos teria a satisfação de saber que, depois de deflorá- la, ele seria morto. Mas esse era um pequeno conforto. Ficaria mais satisfeita se encontrasse uma forma de impedir que a situação progredisse para o desfecho inevitável. Perto da janela, tentou enxergar beleza na paisagem do pátio e do mercado distante. Estava escurecendo, e muitas pessoas corriam para casa. Gostaria de poder fazer o mesmo. ■ 54 NAS AREIAS DO DESERTO — Vire-se para que eu possa vê-la. As palavras ecoaram no aposento amplo e a paralisaram. Kardal estava parado na porta, silencioso como um fantasma. Havia tomado banho, ela constatou, fitando-o enquanto tentava conter as batidas desesperadas do coração. Era impressionante o que um bom trabalho de limpeza podia fazer por um ser humano! Kardal ainda usava calça de linho e túnica, porém as roupas eram limpas e bem passadas. Os cabelos molhados brilhavam à luz da lamparina e o rosto fora barbeado. Como não queria adivinhar seus pensamentos, ela evitou fitar os olhos do príncipe, mas foi impossível não notar o nariz reto e clássico e o queixo quadrado, imponente. Se não estivesse lidando com um seqíiestrador e deflorador de mulheres indefesas, talvez o considerasse até atraente. Tentava disfarçar enquanto o estudava, mas ele não tinha a mesma sutileza. Ousado, analisava cada detalhe de seu corpo como se estivesse avaliando uma égua que pretendia comprar. Contornando-a, examinou-a também pelas costas e depois voltou a encará-la. A atenção persistente causou um arrepio. Podia sentir o poder do observador e seu estado de semi-nudez, e nenhum dos dois a agradava. O medo crescia depressa, oprimindo o peito e crispando os músculos. — Não pode fazer isso —- protestou, tentando soar forte, apesar do medo que fazia tremer a voz. — Sou uma verdadeira princesa. O preço de submeter-me a... a isso seria a morte. Além do mais, como Príncipe dos Ladrões, deve lealdade ao rei da Bahania. Insultar sua filha seria como insultá-lo pessoalmente. 55 NAS AREIAS DO DIÍSERTO NAS AREIAS DO DESERTO — Está esquecendo um detalhe; o rei da Bahania não se importa com a filha. —- Por mais que me esforce, esse é um detalhe que não consigo esquecer. — Acredita mesmo que ele ficaria zangado? Kardal segurou sua mão direita. O contato a assustou e ela tentou se soltar, mas Kardal não cedeu. — Ele pode ficar aborrecido — o príncipe concedeu depois de alguns instantes, deslizando um dedo pela palma de sua mão. O gesto provocou uma espécie de corrente elétrica, como se um nervo houvesse sido estimulado. — Hassan pode até invadir o castelo, mas duvido que me mate.
  • 28. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 28 - — O que ele pensa sobre mim não importa. Se ofender-me, estará ofendendo uma mulher da residência do rei, e isso é algo que ele jamais deixaria passar sem punição. — Talvez tenha razão. — Ele encolheu os ombros. — Vamos ter de descobrir a resposta juntos. Rápido, enquanto ainda acariciava a mão delicada, ele colocou algo gelado e duro em seu pulso. Depois repetiu o movimento com o outro braço. Sabrina sentiu-se vazia. Tentou gritar, mas não encontrou a voz. Braceletes de escrava! O homem a declarava sua propriedade por meio daqueles braceletes. — Ora, seu... Como se atreve? — explodiu com indignação. Ele riu. — O utensílio é muito antigo e valioso. Devia estar honrada. Honrada? Olhou para as espessas tiras de ouro em seus pulsos. Os braceletes eram mesmo antigos e muito valiosos. Um joalheiro habilidoso criara de- senhos elaborados sobre o metal, e sabia que em algum lugar havia um pequenino fecho que liberava o mecanismo da trava quando pressionado, mas ti- nha consciência de que poderia levar semanas para encontrá-lo. — Como ousa marcar-me com estes braceletes? — persistiu. — Você me pertence. O que esperava? A ofensa era quase insuportável. — Não sou um bicho para usar coleira! — E verdade. É uma mulher usando braceletes de escrava. Sabrina esticou os braços. — Exijo que os remova. Ele se virou e caminhou até uma mesa perto da porta. Alguém deixara ali uma vasilha com frutas, e Kardal escolheu uma pêra. Sem pressa, ele saboreava a fruta com mordidas tentadoras. — Está falando comigo? A provocação foi mais do que ela conseguiu suportar. Descontrolada, forçou os braceletes como se assim pudesse retirá-los. — Odeio isto! Odeio estar aqui. Recuso-me a ser sua escrava. E existem momentos em que odeio ser mulher. Sou ignorada por meu pai e por meus irmã- os, e agora você acha que pode fazer comigo o que bem entender. Não vou admitir que demonstre por mim o desprezo que tem por um camelo. — Está enganada. Tenho grande respeito pelos camelos, animais silenciosos que vivem para servir sem nunca pedirem nada em troca. Duvido que possa dizer o mesmo sobre você. Era demais. Gritando, Sabrina investiu contra a 57 NAS ARSIAS DO DESERTO vasilha de frutas, agarrou uma laranja e atirou-a contra o príncipe. — Fora! —- berrou. — Saia daqui e nunca maís volte! Ele se dirigiu à porta, mas estava rindo. Rindo dela! Queria vê-lo morto. E que sua morte fosse lenta e dolorosa. —■ Entende o que eu dizia? Não tem nem o bom comportamento de um camelo. Estou desapontado. Sabrina atirou uma pêra contra Kardal, mas só atingiu o batente da porta. — Espero vê-lo no inferno!
  • 29. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 29 - — Sempre tive uma vida exemplar. Assim, quando estivermos do outro lado da vida, tentarei recomendá-la com algumas palavras amenas. A princesa gritou e agarrou a vasilha. Ainda rindo, Kardal saiu e fechou a porta no instante exato em que a fruteira se chocou contra a parede. Ele ainda ria quando entrou na parte mais antiga do palácio. Oferecera-se para reformar aquela ala, mas sua mãe afirmara preferir manter todas as coisas como haviam sido nos últimos séculos. Ali, além de um arco aberto, havia existido a ala das mulheres. Há quase vinte e cinco anos sua mãe abrira as portas do harém. Eventualmente acabara por vendê-las. Como haviam sido feitas em ouro puro e tinham mais de trinta metros de altura por quinze de largura, as portas haviam rendido uma verdadeira fortuna. O dinheiro fora utilizado para financiar uma clínica feminina na cidade. Médicos bem treinados agora monitoravam a saúde de centenas de pacientes, realizavam partos e acompanhavam o cresci-58 NAS AREIAS DO DLSERTO mento das crianças, tudo gratuitamente. Cala, sua mãe, havia dito que as gerações que viveram e morreram confinadas dentro do harém teriam aprovado a iniciativa. Kardal passou sob o arco. Onde antes existira o principal salão do harém, hoje funcionava um amplo escritório. Como já era tarde, todos os empregados haviam partido, mas ainda havia uma luz sob a porta da sala de sua mãe. O príncipe atravessou o saguão de ladrilhos e foi bater naquela porta. A princesa Cala levantou a cabeça e sorriu. Alta, esbelta e dona de um olhar penetrante, ela possuía uma beleza única que afetava qualquer homem vivo. A um ano de completar meio século de vida, parecia estar muito mais próxima da idade do filho do que da dela mesma. Os cabelos longos e lisos eram negros, livres de fios brancos. Durante o dia ela os mantinha presos em um coque sofisticado, mas à noite, depois do expediente, preferia prendê-los em uma trança. O estilo combinado à calça jeans e à camiseta, seu traje habitual, faziam com que ela aparentasse metade de sua verdadeira idade. — A máe pródiga retorna -*- Kardal provocou ao contornar a mesa para beijá-la. — Por quanto tempo ainda pretende ficar aqui? Cala desligou o computador e convidou-o a sentar-se na cadeira de visitantes diante dela. — Estou pensando em tornar minha estadia definitiva — respondeu. — Isso arruinaria seu estilo? Kardal pensou na vida celibatária que levava recentemente. A carga de trabalho era tão grande, que não tinha tempo para despender com as mulheres. 59 NAS AREIAS DO DESERTO — Vou sobreviver. Como vai o último projeto? —- Caminhando. Este ano vamos inocular cerca de seis milhões de crianças. Nosso objetivo inicial era alcançar os quatro milhões, mas tivemos um aumento nas doações. — Graças a sua natureza convincente, presumo. Cala administrava uma entidade internacional de
  • 30. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 30 - caridade dedicada a mulheres e crianças em todas as partes do mundo. Quando Kardal partira para o colégio interno, ela começara a ocupar seu tempo com o trabalho de caridade, viajando muito e angariando milhões de dólares para ajudar os necessitados. — Desconheço a causa dessa inesperada generosidade, mas sou grata. — Ela hesitou por um instante. — Ela é mesmo a princesa Sabra? Kardal disse a si mesmo que não devia estar surpreso. As notícias viajavam depressa no interior dos muros da cidade, e sua mãe sempre sabia de tudo. ■— Seu nome é Sabrina. — Nunca pensei que ainda pudesse surpreender-me, mas vejo que estava enganada. Espero que tenha uma boa justificativa para raptar a filha de um aliado. O príncipe contou sobre como encontrara Sabrina no deserto. — Ela procurava pela cidade, mas jamais a teria encontrado sozinha. Teria morrido, não fosse por nossa ajuda, — Não discuto o fato de ter sido forçado a oferecer assistência. O que questiono é sua decisão de man-tê-la cativa. Soube que a trouxe até a cidade em seu cavalo, com as mãos amarradas. E por que a prin- 60 NAS AREIAS DO DESERTO cesa procurava pela cidade? Não creio que esteja interessada em tesouros. — Ela está. Disse ter um ou dois diplomas, arqueologia e alguma coisa relacionada à história ba-haniana. — Não sabe o que ela estudou? — Cala balançou a cabeça como se quisesse entender onde errara com o filho. — Era esforço demais prestar atenção? Sim, compreendo que a primeira conversa com uma noiva prometida pode ser tediosa... Odiava quando a mãe falava como se estivesse sendo razoável, quando, na verdade, usava as palavras para açoitá-lo. — Ela é tudo que eu temia — confessou. — Não só desconhece nosso noivado, mas é voluntariosa, difícil, e já foi influenciada pelo ocidente. — Você conhecia a reputação da moça quando concordou com o compromisso. Não se esqueça de que a decisão foi sua. Eu nem estava aqui quando o rei Hassan o procurou. — Eu não poderia ter recusado a proposta sem causar um incidente internacional. Cala não discutiu. Kardal conhecia a realidade tanto quanto ela. A tradição determinava que ele se casasse com a filha mais velha do soberano bahania-no, mas não era uma questão de leis. Podia ter insistido em encontrar uma esposa que fosse de seu agrado, ou até esperar pelo amor. Mas não acreditava no amor. Não no tipo romântico. Assim, que importância tinha com quem se casaria? O único propósito da união era produzir herdeiros. Mais nada. — Você e Sabrina têm mais coisas em comum do que pode imaginar — Cala opinou. — Seria sensato 61 NAS AREIAS JX> DESERTO
  • 31. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 31 - se procurasse por esses pontos. E se ela é realmente voluntariosa, suponho que haja uma razão. Teria muito a ganhar conhecendo e compreendendo a motivação da princesa. — Nada disso é necessário. — Sua futura felicidade está em jogo. Esperava que se mostrasse disposto a um mínimo de esforço. ■— Para quê? Sabrina não é o tipo de mulher que pode me fazer feliz. — Exceto na cama, ele pensou, lembrando-se de como ela havia ficado na roupa típica que a obrigara a usar. — Um homem inteligente procura sempre preservar a paz com a futura esposa. Se estiver contente, ela será uma mãe muito melhor. — Se ao menos ela fosse obediente... Por que o rei Hassan permitiu que a princesa fosse educada no ocidente? — Não tenho certeza. Sei que ele se casou com a mãe de Sabrina muito depressa. A união parecia ter sido motivada mais pela paixão do que pelo afeto genuíno. Ouvi dizer que o divórcio só não aconteceu meses depois do matrimónio por causa da princesa. Aparentemente, ao final do casamento, a ex-esposa de Hassan quis levar a filha com ela de volta para a Califórnia, e o rei concordou. — Por que um homem permitiria que alguém lhe tirasse uma filha? A lei bahaniana determina que Sabrina deveria ter ficado com o pai. — Embora a legislação permitisse que pai e mãe assumissem a custódia da criança, na família real os filhos ficavam sempre com o membro da realeza. Sabrina havia sido a única exceção. — Talvez o rei tenha sido tolo — supôs Cala. — 62 NAS AREIAS DO DESERTO Os homens costumam agir assim. Conheço um rapaz que nem se deu ao trabalho de tentar conhecer sua futura esposa. Eleja decidiu que não existe nenhuma chance de felicidade na união. Tudo isso tendo por base apenas algumas horas de convivência. — Impressionante — Kardal respondeu com tom seco e irónico. — Tudo bem, já expôs seu ponto de vista. Vou passar mais tempo com Sabrina antes de emitir meu julgamento finai. No entanto, tenho certeza de que ela provará ser inadequada. — E claro. De qualquer maneira, mantenha-se aberto a novas descobertas. — Ela suspirou. — Kardal, o que vou fazer com você? — Que tal admirar-me? Cala riu e balançou a cabeça. — Acho que o mimei demais quando era criança. Era verdade. Mas o que ficara registrado em sua mente havia sido a atenção amorosa da mãe, a devoção, a presença constante, a disposição para temperar disciplina e liberdade na medida exata. Ela era a mulher mais linda que conhecera. Inteligente, bondosa, sábia além do que se podia esperar para alguém de sua idade. E, no entanto, sempre vivera sozinha. — Foi por minha causa? Cala precisou de alguns segundos para entender a pergunta. Então se levantou, contornou a mesa e se abaixou diante dele, tocando seu rosto com carinho.
  • 32. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 32 - — Você é meu filho e eu o amo com todo meu coração. Não me casei por motivos que não têm nenhuma relação com você. — Então, a culpa deve ser dele. 63 NAS AREIAS DO DESERTO Ela se levantou e assumiu uma expressão séria. —- Não comece... Reconhecia aquele tom. Inquieto, levantou-se para encará-la. — Não entendo por que se nega a enxergar a verdade sobre esse homem. —- Existem coisas que não pode mesmo entender. Era inútil discutir esse assunto. Haviam tido a mesma conversa dúzias de vezes, sempre sem nenhum proveito. Assim, Kardal beijou-a e prometeu jantar com ela em algum dia daquela semana. Depois partiu. Mas a raiva não arrefecia. Pelo contrário, crescia a cada passo que dava, abrindo velhas feridas que ainda doíam mais do que se podia esperar ou imaginar. Talvez fosse um erro, mas Kardal sempre odiara o pai. Há trinta e um anos, o rei Givon de El Bahar chegara à Cidade dos Ladrões. Cala, filha única do Príncipe dos Ladrões, completara dezoito anos. Como não havia herdeiros para o trono, a tradição exigia que ela tivesse um filho do soberano de um reinado vizinho. O rei Givon havia sido a única opção do pai de Cala. Seu filho seria prometido à filha do rei da Bahania, o que cimentaria o relacionamento entre os dois países e a cidade do deserto. Givon seduzira Cala, permanecera até o nascimento da criança e depois partira, abandonando-os. Nos últimos trinta e um anos, jamais reconhecera a existência do filho ou do relacionamento com a mãe de seu herdeiro. Kardal já havia se tornado adolescente quando tomara conhecimento da identidade do pai. Mas, saber a verdade só tornara a situação aín-64 NAS AREIAS DO DESERTO da pior. Ansiara por uma chance de encontrar o homem de quem herdara a vida, mas ele se mantivera afastado. O comportamento do rei Givon tornara claro o desinteresse pelo filho bastardo. Kardal parou no meio do corredor. Era inútil despertar as mesmas lembranças amargas. Nada mudara. Por isso, ele se obrigou a sufocar a raiva. Os anos o transformaram em um especialista na arte de ignorar o passado. O príncipe seguiu em frente pelo corredor de pedras sem sequer notar as telas, as esculturas e as tapeçarias que adornavam aquela parte do castelo. Depois de passar por uma porta de madeira maciça, penetrou na seção do edifício reservada aos negócios. Entre as paredes erguidas no século XIV havia um moderno complexo empresarial e um centro de segurança. Uma plataforma de cerâmica escondia quilómetros de cabos, fios elétricos e fibras óticas. Computadores trabalhavam, faxes apitavam e telefones tocavam. Kardal pensou em Sabrina na ala mais antiga do castelo e sorriu. O que ela arremessaria contra sua cabeça se soubesse sobre aqueles aposentos? Dependendo do comportamento da princesa, talvez um dia a levasse para conhecer o moderno centro empresarial. Ele cumprimentou o secretário com um movimento de cabeça e entrou em seu escritório. No centro da sala havia uma grande mesa em forma de L, e no extremo oposto ao da entrada portas de correr se abriam para um pátio.
  • 33. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 33 - Kardal ignorou a paisagem, a luz da secretária eletrônica e todas as mensagens deixadas para ele. Sério, aproximou-se da mesa e pegou o telefone. 65 NAS AREIAS DO DESERTO NAS AREIAS DO DESERTO Através do número da operadora, pediu uma ligação para o rei da Bahania. Até mesmo um pai desinteressado gostaria de saber que a filha havia sobrevivido a uma aventura no deserto. — Kardal! — A voz de Hassan soou familiar do outro lado da linha. — Ela está com você? — Sim. Encontramos a princesa Sabra ontem à tarde. Ela havia perdido o cavalo e o camelo numa tempestade de areia. O rei suspirou. — Ela deixou o castelo sem dizer nada a ninguém, o que é típico de seu comportamento. E bom saber que minha filha está segura, — Sabra não demonstra ter conhecimento do nosso compromisso. — Oh, sim, é verdade! Comecei a contar que havia providenciado um casamento para ela, mas a princesa começou a gritar e saiu da sala sem ouvir todos os detalhes do acordo. Ela é rebelde e briguenta, como a mãe. Uma mulher sem grande profundidade de inteligência. Temo pela mentalidade das crianças geradas naquele ventre. Agora que a conheceu, não creio que ainda queira levar nosso acordo adiante. Kardal ouvira rumores sobre como o rei da Bahania não prestava atenção à única filha, mas não esperava que ele a insultasse tão abertamente. Sabri-na não era a mulher que ele teria escolhido para sua esposa, mas não poderia afirmar que ela carecia de inteligência. Pelo contrário. Podia aproveitar a chance para livrar-se do compromisso, mas a ousadia de Hassan em supor que também desprezaria a jovem o aborrecia. 66 — Ainda não tomei minha decisão definitiva — disse. — Não tenha pressa. Afinal, não estamos ansiosos para tê-la de volta no palácio. Depois disso discutiram alguns detalhes sobre uma questão de segurança, e então Kardal encerrou a ligação. Sabrina insinuara que a situação no palácio não era de seu agrado, mas nunca havia imaginado que um pai pudesse*demonstrar tanto desprezo pela própria filha. Não que a atitude de Hassan fizesse alguma diferença. Por outro lado, através dela podia entender algumas coisas.. — Parece pensativo. Vamos entrar em guerra? Kardal olhou para o homem alto e louro parado na porta do escritório. Rafe Stryker, ex-oficial da Força Aérea Americana e chefe da segurança da cidade, fechou a porta e sentou-se diante da mesa do príncipe. — Não conte com isso — respondeu. — Apesar do entusiasmo do rei Hassan pela combinação de nossas forças aéreas. — Entusiasmo não paga as contas — Rafe declarou, enfático. — Não, mas o rei Hassan sim. Não se preocupe com o dinheiro necessário para a compra de todas aquelas aeronaves sofisticadas que tanto cobiça. — Você também as quer.
  • 34. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 34 - Kardal assentiu. Nos anos recentes fora forçado a reconhecer que as câmeras de segurança e as patrulhas irregulares das tribos nómades não eram suficientes para manter o deserto seguro. Os campos de petróleo estavam vulneráveis, e o rei Hassan o procurara para sugerir que criassem uma força aérea 67 NAS AREIAS DO DESERTO conjunta. Rafe era o responsável pela coordenação do projeto com os bahanianos. Kardal sabia que um homem em sua posição não confiava missão tão importante a um estrangeiro. No entanto, Rafe fizera por merecer sua confiança. O oficial carregava uma cicatriz produzida por uma faca arremessada contra ele. Em troca. Kardal permitira que Rafe usasse a marca do príncipe. Como consequência, o povo da cidade aceitava o estrangeiro como um deles, honrando-o com o título de xeique. Naquele dia Rafe usava um uniforme, mas era co- I mum vê-lo transitando pelo castelo no traje tradicional dos homens do deserto, os olhos azuis ganhando destaque no rosto bronzeado, A expressão do ex-oficial americano ganhou uni toque bem-humorado. — Existem rumores sobre uma jovem escrava no palácio. Dizem que você a encontrou no deserto e declarou-a sua propriedade. Kardal olhou para o relógio. — Voltei há menos de quatro horas. Quando ouviu tudo isso? — Há cerca de três horas e meia. — As notícias viajam depressa por aqui! Rafe encolheu os ombros. — Tenho boas fontes. Essa história é verdadeira? Nunca pensei que jovens escravas fizessem seu estilo. — E não fazem. — Ele hesitou. Até aquele momento, ninguém conhecia a verdadeira identidade de Sabrina, e preferia que tudo continuasse como estava. Mas, se ela precisasse de proteção, Rafe seria NAS AREIAS DO DESERTO o único em quem confiaria. — O nome da jovem é Sabrina. Ela é filha de Hassan. — Sua... noiva? — Exatamente. Ela tem consciência do compromisso, mas ainda não foi informada sobre os detalhes. Não quero que as pessoas saibam quem ela é. — Nem que ela descubra quem você é? — Você entendeu. Rafe assobiou admirado. — Sabia que esse trabalho seria interessante. Mal posso esperar para conhecê-la. Nunca vi uma princesa de verdade antes. Kardal sabia que o amigo estava brincando, mas nem por isso conseguiu evitar o nó que se formou em sua garganta, resultado direto do calor que invadia seu corpo gerado por uma emoção inesperada. Raiva? De quê? Rafe jamais ousaria assediar a princesa, e não deveria se incomodar com um possível interesse de seu assessor direto. Afinal, Sabrina era apenas uma pedra em seu caminho. — Vai acabar conhecendo a filha de Hassan — disse. — É claro que darei ordens para que ela permaneça em seus aposentos, mas sei que a criatura não vai me ouvir. Se encontrá-la vagando pelo castelo, por favor, leve-a de volta ao quarto. — Aonde vai? — Rafe perguntou surpreso.
  • 35. Nas areias do deserto (The Sheik and the Runaway Princess) Susan Mallery - 35 - — Preparar-me para a batalha. Se tenho mesmo de desposar a selvagem princesa Sabra, é melhor que ela seja domada antes das núpcias. 69 CAPÍTULO V Kardal dirigiu-se aos aposentos de Sa-Jjrina por volta das dez da manhã se- guinte. Havia dado a ela uma noite para conformar-se com a situação, embora duvidasse de sua capacidade de enxergar a razão nos fatos. Pelo que pudera ver até então, a princesa Sabra raramente era razoável. Esperara ansioso por aquele encontro, o que era interessante. Ela reclamaria e até arremessaria ob-jetos, discutiriam e trocariam acusações, e apesar de saber que no final ele teria a última palavra, seria forçado a se empenhar pela vitória. Ainda sorria satisfeito quando empurrou a porta do quarto. Mas, antes de entrar, o sexto sentido que tantas vezes salvara sua vida o fez parar. Graças a esse instante de hesitação, Kardal não foi atingido. Sabrina passou por ele como um foguete, a mão direita armada com uma pequena faca de cozinha usada para descascar frutas. Ele a segurou pela cintura e ergueu-a no ar. — Ponha-me no chão, seu grande imbecil! Sem nenhuma cerimonia, o príncipe carregou-a até a cama e jogou-a sobre o colchão. Antes que ela pu- 70 NAS AREIAS DO DESERTO desse se levantar, imobilizou-a com o peso do próprio corpo, prendendo suas pernas entre as dele e segurando os pulsos delicados. Sabrina esperneava e lu- tava, mas não poderia escapar. — Bom dia, minha escrava — Kardal cumprimentou-a sorridente, apertando seu pulso até obrigá-la a largar a faca. — Pensou mesmo que poderia se livrar de mim com tanta facilidade? — E evidente que não. Que dano poderia ter causado com uma faca de frutas? Só estava protestando por ter sido mantida prisioneira. — Podia ter usado outro sinal para expressar sua insatisfação. — Gosto das facas. Ela falava por entre os dentes. Kardal se esforçava para não rir. A mulher o atacara! Respeitava a coragem em qualquer ser humano. Sabrina sabia que não poderia vencê-lo e antecipara sua ira, e mesmo assim o desafiara destemida. Respirou fundo e sentiu o aroma doce de sua pele. Como a deixara sem outras opções, ela fora forçada a manter o ridículo traje de harém que a obrigara a usar no dia anterior. A visão dos seios fartos transbordando do sutiã dourado era tentadora. De repente descobriu-se imaginando como seria sentir o sabor daquele corpo e despertá-lo com suas carícias. A ereção foi imediata e poderosa, mas o príncipe ignorou a manifestação física. Possuir uma princesa, mesmo que não fosse mais virgem, não era uma atitude que pudesse tomar sem pensar nas consequências. E também havia a questão do noivado. Se a possuísse, estaria selando o compromisso... algo que ainda não sabia se desejava fazer. 71 NAS AREIAS DO DESERTO

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