Créditos
NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE
© copyright 2012 Humberto Gessinger
Editor Gustavo Guertler
Produção editorial M...
(*) Vira e mexe a gente deixa de ser criança. Sempre parece irreversível. Arde nos olhos a
fumaça da ponte queimada assim...
ter.
(*) Deixei de ser criança quando vi, pela primeira vez, a parte de baixo de um automóvel. A
bola passou por este de...
Sempre na mesma hora, no mesmo tom. A tal “mesma bat-hora, mesmo bat-canal” não
aparecia só no anúncio do episódio seguin...
Eu era o “solitário solitário” no cinema.
Bristol? Baltimore? Confesso que, além da data, também já confundo os nomes... ...
(*) Voltei a ser criança alguns anos depois, novamente sozinho, novamente acompanhado
de uma banda de rock’n roll. Era vé...
Qual o motivo para as músicas serem separadas de forma tão tacanha, a facão? Com toda
a tecnologia envolvida, o motivo nã...
que estão pensando? Quem eles pensam que são?”.
Na saída, esperando elevador, um diretor artístico me confidenciou, apont...
propaganda se tornou invisível na sua onipresença. E eu paguei o jornal! E paguei para
que dissesse a verdade! Que crianç...
Além de ratos, morreriam cáctus porque eu é que não entraria mais ali! Inventei uma
gripe na primeira semana. Para a segu...
estar ali. Pareciam girar procurando algo. Não procuravam nada, só queriam estar em
outra órbita.
(*) O leão era o rei d...
(*) O que faria um arquiteto ou decorador colocar espelhos em duas paredes opostas de
um elevador? Imagem refletindo imag...
no mito do bom selvagem) que todos nascemos sabendo desenhar e a maioria desaprende
ainda na infância (deixa de ser crian...
Não comprei nada naquele dia. De presente, dei um poema.
(*) Não consegui ler o número do apartamento da minha mãe no por...
dia ele perdeu para outro primo. Deixei de ser criança quando entendi que meu primo não
era o melhor enxadrista do mundo....
(*) É impreciso, mas tentador, pensar na civilização que nos trouxe até aqui como se fosse
uma pessoa. Um ser humano que ...
renasceu uma criança!
(*) Dia desses dei à luz um cálculo renal. Fragmentos de uma pedra, pra ser preciso. Foi
detonada a laser. Tentei esperar...
− Será que aceitam meu convênio médico?
− Não. Quem faz a análise é um geólogo.
Isso mesmo. Do meu rim, direto para as m...
(*) Eu já não era moço quando descobri que tinha o que se convencionou chamar “cabelo
legal”. Quão velho eu era? Digamos ...
música que faço também proveu minhas necessidades materiais. Pude escapar das
propostas para fazer propaganda de xampu. M...
uma perna mais curta, um olho mais caído, uma narina mais aberta...
Certo é que nossa mente busca simetria nas pinturas, ...
1987. Voo de Belém para Porto Alegre. Sobe e desce, muitas escalas no caminho. O
produtor da banda me acorda pedindo um a...
1989. No Galeão, embarca Leonel Brizola. Um jovem empresário na poltrona ao meu lado
fica exaltado e começa a falar mal d...
previsão de abertura. Motivo: o recém-empossado presidente Collor chegaria de Brasília
para passar o fim de semana em cas...
celulares). As expressões mais ouvidas eram “desculpa... a gente briga por qualquer
bobagem... o importante é estar vivo....
2007. Saca o filme Terminal, com Tom Hanks? Tive um dia parecido. Decolei de Porto
Alegre às 6 da manhã para tocar em For...
Tenho amigos que gostariam de viver num futuro em que viagens interplanetárias fossem
coisa corriqueira. Conheço pessoas ...
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roll. Muito tímido, eu ficava o di...
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roupas rasgadas pelas fãs. O fato d...
venéreas. Uma encrenca. Outra história famosa, a que diz que “enfezado” vem de “fezes”.
É engraçada, mas parece não ser v...
Passei o resto da semana ouvindo protestos de colorados que acharam que subestimei a
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Tenho tédio à controvérsia. A frase é de um personagem de Machado de Assis. Perfeita.
Ele poderia ter usado a palavra “av...
Quero de volta as horas que perdi tentando conversar com caras travados que não
escutavam. Só falavam. Alto demais, rápid...
Perfume, tempero e afeto: ao mesmo tempo em que satisfazem, anestesiam. Quanto mais
se têm, mais se quer. Quem usa muito ...
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vacilo, sempre deixo a embalagem do tem...
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ver em mim. Hey, taí uma bela profissão: sermos gentis espelhos de nossos absurdos.
Na contramão do clichê “a grama do vi...
(*) Entrei no quarto do hotel, joguei a mala na cama e abri a cortina. Pela janela que ia do
chão ao teto entraram os azu...
outras coisas...
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turista?) ou mais de 20 ...
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(*) Dia desses perdemos um GreNal decisivo. Nos pênaltis! Nosso centroavante chutou a
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Voltar à adolescência, à faculdade, às primeiras raquetadas, aos primeiros acordes e
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Nas Entrelinhas do Horizonte - Humberto Gessinger [Livro]
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Nas Entrelinhas do Horizonte - Humberto Gessinger [Livro]

Livro Nas entrelinhas do horizonte Humberto Gessinger Número de páginas: 160 Formato 15,5x21cm Assunto: literatura brasileira – crônicas Sinopse do Livro: O mundo é ímpar, não dá para dividi-lo em duas metades iguais. Muito menos ver a linha imaginária que separa a infância da vida adulta. Contemplando o horizonte embalado pela trilha sonora que o tornou um dos ícones do rock brasileiro, Humberto Gessinger evoca neste livro a memória afetiva para construir crônicas pulsantes e arrebatadoras, em que cada página é uma janela onde passado, presente e futuro se misturam para compor juntos a cena. Uma paisagem que só pelas entrelinhas revela a força da sua música e da sua poesia.
Published on: Mar 3, 2016
Published in: Education      
Source: www.slideshare.net


Transcripts - Nas Entrelinhas do Horizonte - Humberto Gessinger [Livro]

  • 1. Créditos NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE © copyright 2012 Humberto Gessinger Editor Gustavo Guertler Produção editorial Marcele Brusa Maciel Revisão Tiago Vinícius Cidade, Marcele Brusa Maciel e Gustavo Guertler Projeto gráfico Melissa Mattos Tratamento de imagens Anderson Fochesato Fotos Eurico Salis Produção para ebook Fábrica de Pixel [2012] Todos os direitos desta edição reservados à Editora Belas-Letras Ltda. ISBN: 978-85-8174-018-8 Rua Coronel Camisão, 167 CEP 95020-420 – Caxias do Sul – RS www.belasletras.com.br Site ENGENHEIROS DO HAWAII www.engenheirosdohawaii.com.br desde 09.03.1996 Site POUCA VOGAL www.poucavogal.com.br desde 11.09.2008 Twitter Humberto Gessinger www.twitter.com/1bertogessinger
  • 2. (*) Vira e mexe a gente deixa de ser criança. Sempre parece irreversível. Arde nos olhos a fumaça da ponte queimada assim que chegamos à outra margem. Irretornável. Impossível colocar a pasta de dentes de volta no tubo. Eu poderia fazer uma lista das vezes em que deixei de ser criança. Uma lista? Ops, então a estrada tem volta! Mas deve ser uma curva tão longa que parece reta, pois a gente nem sente. Aprendi a ter paciência regando a horta que tínhamos na casa da minha infância. Se a mangueira fazia uma curva muito fechada, ela dobrava, interrompendo o fluxo da água. Às vezes é bom, é o que se quer. Às vezes é necessário paciência, uma curva longa. Tão longa que parece reta, a gente nem sente. Será verdade que, como dizem, se colocarmos um sapo numa panela e subirmos lentamente a temperatura da água, ele fica ali até morrer, sem sentir a mudança gradual da temperatura? Ele obviamente daria um jeito de escapar se o jogássemos na água fervendo. Alguém já fez essa experiência? Duvido... Duvido que um sapo tenha tanta paciência. Deixamos de ser crianças quando descobrimos que, todos e para sempre, andamos em círculos. Voltamos a ser crianças quando notamos que nem todos os círculos têm o mesmo raio. É possível andar em círculos tão grandes que sua curvatura, de tão longa, parece uma reta. Não pense num bambolê jogado ao chão. Imagine uma espiral de caderno, onde o fim de cada volta não significa a volta ao início. Não faz sentido sofrer querendo ser aquela criança primeira, original. O lance é ser a criança que podemos ser. Sonhos que podemos
  • 3. ter. (*) Deixei de ser criança quando vi, pela primeira vez, a parte de baixo de um automóvel. A bola passou por este desatento goleiro e rolou, rolou, rolou e ficou presa sob o Opala do meu pai. Que surpresa: ali o carro perdia sua cor, a lataria não continuava. Nos meus carrinhos de plástico não era assim; se o carro era azul ou vermelho, seguia azul ou vermelho na parte de baixo. A noção de que a cor era só a cobertura do bolo, e não o bolo em si, era estranha. A ideia de que um carro não era feito para ser visto por baixo não fazia sentido para um guri que vivia capotando suas miniaturas de plástico. Coisa de adulto. (*) Sempre que deixei de ser criança, voltei a ser. E como é bom voltar às delícias e aos medos da infância! Tenho, desde sempre, medo de gente muito espontânea e de uniformes. Coisas opostas. Seria bom que se excluíssem, que uma anulasse a outra. De um lado, as pessoas chiliquentas, que nos tocam demais enquanto falam demais, alto demais; o bêbado que chora depois da sobremesa. Do outro lado, policiais, garçons, aeromoças e metaleiros de meia-idade. Uniformizados. O uniforme é sempre do time adversário. O nosso, não enxergamos, pois raramente a vida oferece espelhos. (*) Deixei de ser criança assistindo ao milionésimo episódio de Batman, quando saquei um padrão, uma sequência que se repetia. A dupla dinâmica sempre se ferrava na mesma hora, era presa da mesma forma inescapável antes do mesmo intervalo. E conseguia dar a volta por cima antes do mesmo final. Tudo cronometricamente igual! Por que Pinguim, Charada e Mulher Gato bolavam maneiras tão estapafúrdias e morosas para eliminar o Homem Morcego e o Menino Prodígio? Para dar sorte ao azar? Não fazia sentido. Decerto pelo prazer burocrático de seguir rigorosamente o padrão. Se eu não tivesse sido criança durante a ditadura, talvez alguém me explicasse que aquilo que os vilões faziam era tortura. Pra fechar o episódio, Bruce Wayne e seu mordomo, Alfred, trocavam algumas piadinhas.
  • 4. Sempre na mesma hora, no mesmo tom. A tal “mesma bat-hora, mesmo bat-canal” não aparecia só no anúncio do episódio seguinte; impregnava todo o seriado. Um dia, caiu a ficha... eu já não era criança. Um padrão é algo fascinante. Desafia e resiste bravamente ao universo de coisas aleatórias que nos cerca. É maravilhoso ver funcionar o mecanismo de um relógio. A previsibilidade nos tranquiliza e, só assim, descansamos em paz. Pena que aconteça só na tela, essa janela onde o sol sempre brilha e o risco é calculado. Vídeo-guerra, vídeo-reino-dos- céus. O desencanto se espalhou para outras séries e desenhos animados: Corrida Maluca, Speed Racer, Zorro, Rin Tin Tin... Todos seguiam um padrão. Eu deveria ter desconfiado quando notei, em alguns desenhos animados que, quando o personagem corria, na verdade, estava parado: era a paisagem ao fundo que se movia num loop. Fruto da pressa de algum estúdio ou da preguiça de algum desenhista. Assim, até é bom deixar de ser criança. Não seria legal se, na vida real, as pessoas falassem com o corpo inteiramente imóvel mexendo só a boca, como também era comum em alguns desenhos. Ainda bem que não foi a mão preguiçosa de algum desenhista nem a afobação de algum estúdio que nos criou. Quando andamos, nós é que nos movemos, o fundo fica parado. Quando falamos, não é só a boca que se move. Ok, às vezes é da boca pra fora... Mas, quando interessa, é de corpo e alma. Até os ossos! (*) Da TV para as telas de cinema: os filmes também tinham um padrão. Saudei como uma revelação a noite em que a vida chutou a porta e implodiu o padrão. Era Ano-novo, ou Natal, já não lembro. Uma dessas noites em que o certo é estar em casa, acompanhado. Eu estava sozinho, num cinema. Quem teve a genial ideia de fazer uma sessão na hora em que um ano vira outro (ou em que o bom velhinho desce pela chaminé) deve ter pensado em perdedores solitários. A julgar pela sala vazia, não havia perdedores em Porto Alegre.
  • 5. Eu era o “solitário solitário” no cinema. Bristol? Baltimore? Confesso que, além da data, também já confundo os nomes... Cinemas de rua, que não existem mais. Uma sala ficava em cima da outra, com isolamento acústico precário. Víamos um filme, ouvíamos dois. Estávamos lá, eu e minha circunstância. Mais ninguém. Talvez um cara para cuidar da projeção, que devia ser o mesmo que me vendeu a entrada. Meia-entrada. Até então eu era criança. A cópia que estava sendo projetada de um show do AC/DC era cheia de cortes e saltos abruptos. Os solos do Angus Young pareciam música dodecafônica tocada por um rinoceronte sofrendo um ataque epiléptico. Fui gradualmente me desinteressando, tirando os olhos da tela e observando a dança de luz e sombra que tomava conta da sala. No teto, nas paredes, nas poltronas, claro e escuro se revezavam ao ritmo da música. Sempre me surpreendeu que não se visse o cinema também dessa forma: um balé de luz e sombra, abstrato, independente de narrativa. Quando a gente chega atrasado num filme, assiste a melhor cena: um bando de gente sentada olhando com a mesma cara para o mesmo ponto. Rostos transformados por luz e sombra. Estava pensando nisso quando... PUTA QUE PARIU! Vi, no braço da poltrona ao meu lado, um enorme rato. Adoraria dizer que era o Mickey, mas, não. Também não era a Ratazana do Günter Grass. Saí do cinema, já não era criança. Já era outro ano (ou o Papai Noel já tinha liberado suas renas para tomar umas depois do trabalho? Natal ou Ano-Novo? Já não lembro...). Let There Be Rock (o filme) havia se transformado em Let There Be Rat (a vida) ou Let There Be Light (o fim da noite escura da alma). Certo é que algo havia mudado. Deixando para trás os cartazes na fachada do cinema, tentei calcular para quantas pessoas AC/DC significava “corrente alternada/corrente contínua” e quantas liam “antes e depois de Cristo”. Desisti. Tentei calcular com quantos passos eu percorria uma quadra. Desisti. Tentei calcular quantas pessoas caminhavam ao meu lado na Oswaldo Aranha. Nenhuma.
  • 6. (*) Voltei a ser criança alguns anos depois, novamente sozinho, novamente acompanhado de uma banda de rock’n roll. Era véspera de carnaval. Nós porto-alegrenses fugimos histericamente da capital a cada fim de semana do nosso abafado verão. Rumo a praias que, se não são muito atrativas, ao menos são nossas e são praias. No feriadão de carnaval, a histeria é epidêmica. Para não abandonar o barco da capital embarcando na nau insana que ruma ao litoral, há que ter fortes justificativas. Os questionamentos e a estranheza serão severos para quem fica. Sem fortes justificativas, eu fiquei. Subi caminhando a avenida no contrafluxo que leva à free-way, que leva ao fim de semana. Meu destino: um supermercado onde eu iria comprar discos. Sim, havia discos naqueles dias. Sim, eram vendidos em supermercado. Comprei toda a coleção do Iron Maiden. Não era uma banda significativa para mim. Estava acostumado a ouvir coisas mais sérias. Comprei mesmo para descerebrar. E celebrar. Afinal, era carnaval. E foi um ótimo carnaval. (*) Na minha discografia, deixar de ser criança deixou suas marcas no A REVOLTA DOS DÂNDIS e no OUÇA O QUE EU DIGO NÃO OUÇA NINGUÉM. A arquetípica mãe de Terra de Gigantes e as nuvens que já não são de algodão em Somos Quem Podemos Ser estão aí para confirmar. Nem mentir eu posso; minhas músicas não deixam. Hey, mãe, por mais que a gente cresça, há sempre alguma coisa que a gente não consegue entender. Enquanto não descobrir se a Cinnamon Girl do Neil Young é a Gabriela Cravo e Canela do Jorge Amado, serei criança. (*) Quando Johnny Rotten apareceu com a camiseta I Hate Pink Floyd, em 76, colocando minha espécie favorita, o rock progressivo, em risco de extinção, deixei de ser criança. Anos depois, com a chegada do meu primeiro iPod, confirmei minhas suspeitas. O aparelhinho, que transformaria a forma de ouvir música, não conseguia reproduzir as longas faixas ligadas, características do rock progressivo. Rolava um gap entre elas, um breve e irritante corte no áudio.
  • 7. Qual o motivo para as músicas serem separadas de forma tão tacanha, a facão? Com toda a tecnologia envolvida, o motivo não parecia ser técnico. Seria pretensioso demais dizer que era um motivo ideológico. Na real, os caras não devem ter imaginado que ainda havia vida além dos três minutos. Julgaram extintos os raros espécimes ouvintes de rock progressivo. (*) Deixei de ser criança quando descobri que Roger Waters, a cabeça do Pink Floyd, era defensor da caça como esporte. Voltei a ser criança nos primeiros acordes de Julia Dream. Jim Gordon, o baterista autor da suave parte instrumental da canção Layla (aquela do Eric Clapton) matou a própria mãe. Um triste caso extremo de desequilíbrio psíquico. Não lembro como voltei a ser criança depois desta. Lembro que demorou. Criancice acreditar que a excelência artística ou profissional espelha qualidades morais ou éticas, né? Por vezes elas se contrapõem, como flores que nascem no lodo. Uma pérola nasce como defesa da ostra a um organismo estranho que entrou na concha. A ostra deve achar muito estranho que a gente dê valor estético àquilo. (*) Não me lembro o que fui fazer na minha primeira visita aos escritórios da gravadora RCA, no Rio de Janeiro. Devia haver algum motivo importante, pois socializar nunca foi meu forte. Talvez, combinar uma agenda de divulgação, marcar hora no estúdio... realmente não lembro. Só ficaram na memória três imagens: o célebre cachorrinho ouvindo gramofone, símbolo da companhia, estampado nas imensas portas de vidro e dois displays, em tamanho natural, dos artistas que eram a bola da vez: Lionel Ritchie e Whitney Houston. Ficavam na recepção e eram muito realistas. Muito office boy desatento deve ter cumprimentado ao menos um dos astros. Hoje soaria bastante ingênuo o papo que rolava entre os artistas e o pessoal da indústria na época. Ainda mais quando os artistas vinham de um lugar ao sul, onde não havia gravadoras. Estávamos sempre desconfiados, com os dois pés atrás. Possivelmente, beiramos à falta de educação em alguns momentos. “Ah, aqueles gaúchos petulantes! O
  • 8. que estão pensando? Quem eles pensam que são?”. Na saída, esperando elevador, um diretor artístico me confidenciou, apontando para um dos bonecos: “Puta profissional! Faz teste das músicas em colégios, com crianças da primeira série.” Que merda! Lá se foi, pro saco, mais uma criança que eu fui. Talvez aquela que ganhou um violão para tocar Era um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles E Os Rolling Stones. Testar?! E o risco, não é parte fundamental da arte? Ok, ok, ali se tratava mais de negócio do que arte. Mas não subestime minha ingenuidade (ou burrice) na época (e agora). Hoje me dou conta de que este lance de testar, simular um público alvo, deve ter vindo do mundo publicitário. Mas na época eu nem sabia que havia um mundo publicitário! Nada contra a publicidade. Ela já nem é o que era. Acabou virando o único de meio de remuneração num mundo onde se quer arte “de grátis” (como se houvesse almoço gratuito nesse capitalismo de banners) e não se quer que o estado gaste dinheiro com cultura. (*) 5 da matina. O barulho do elevador, só audível no silêncio da madrugada, avisa que chegaram os jornais. Faz tempo que não leio as notícias em papel, só continuo assinando jornais porque tenho dois cachorros: é uma questão de higiene. Abro a porta e me surpreendo com capas iguais em jornais rivais. Que sejam iguais é comum, mas hoje são ainda mais iguais. Na foto principal, o pouso do avião que fez o primeiro voo direto entre Europa e Porto Alegre. Caraca! Será que não havia notícias mais relevantes? Qual a importância do fato de alguns gaúchos poderem ir a Portugal sem perder um par de horas numa escala em Cumbicas? Caraca! Será que somos cada vez mais província? Ops, megacaraca: deve ser matéria paga pela companhia aérea! Na capa! Putz, mal começou o dia e já deixei de ser criança. A
  • 9. propaganda se tornou invisível na sua onipresença. E eu paguei o jornal! E paguei para que dissesse a verdade! Que criança eu fui... (*) Se fosse bom ser criança, as crianças brincariam de... ser criança. Do que elas brincam? De ser mãe das bonecas, de dirigir seus carrinhos. Gostar de ser criança é coisa de adulto. Se fosse ruim ser criança, os adultos não brincariam de ser criança, se embonecando nos salões de beleza ou comprando os mais velozes carros esportivos para ficar parados no engarrafamento de ruas esburacadas. (*) Coloquei cobras a não poder mais no disco VÁRIAS VARIÁVEIS. Na capa, em versos e em sons de chocalho e de gelo em copos de uísque. Cascavéis. Tentei exorcizar um fantasma que me acompanha desde antes de ser ou deixar de ser criança pela primeira vez. Sempre fez parte da minha personalidade um medo desproporcional de cobras. Desproporcional porque nossas geografias são distintas. A chance de cruzarmos caminhos é quase nula. Ok, houve a jiboia no museu do colégio, mas para mim era a exceção que comprova a regra. Além do mais, seu triste fim até me fazia simpatizar com ela. Um pouco. Nas aulas de ciências do segundo grau, escolhi cuidar de cáctus no museu do colégio. Confesso que os via mais como esculturas do que seres vivos. Precisavam de pouco para viver e eram esteticamente interessantes. Através de enxertos era possível brincar, se não de Deus, ao menos de escultores. Um dia, enviaram ao museu uma enorme jiboia capturada numa cidade do interior. Ela ficava numa caixa de vidro na qual, regularmente, um rato era sacrificado. Tudo bem. É a vida; ou morria o rato ou morria a jiboia, o que eu tinha a ver com isso? Nada, não fosse o lugar escolhido para ela ficar: embaixo da estante onde ficavam meus cáctus! Deus me livre!
  • 10. Além de ratos, morreriam cáctus porque eu é que não entraria mais ali! Inventei uma gripe na primeira semana. Para a segunda, tinha planejado uma terrível dor de dente. Não foi necessário. O aluno encarregado de colocar a caixa de vidro com a jiboia no sol depois da refeição de sexta-feira esqueceu de trazê-la de volta pra sombra. Ela passou o fim de semana inteiro sendo lentamente transformada num churrasco. Triste fim para a triste figura. Era pra ser a sua digestão. Foi digerida... pelo sol. (*) Bah, foi só escrevendo a respeito delas que me lembrei de já ter matado uma cobra! E não era das pequenas. Este fato estava escondido, como uma serpente enrolada, em algum canto do meu cérebro, e agora deu o bote. Eu estava no pampa quando cores estranhas apareceram rastejando em contraste com a grama. O pessoal que estava comigo, e sabia da minha fobia, estranhou a coragem que tive para avançar e matar o bicho. Já não lembro que ferramenta usei. Só lembro que matei um pouco mais do que o necessário. Na verdade, com meus golpes, abri um buraco no chão onde poderia enterrar toda a família do pobre ofídio. Quando, finalmente, olhei em volta, as pessoas pareciam mais assustadas com meu empenho desproporcional do que estavam com a ameaça rastejante. Minha coragem acabou assim que começaram os comentários do tipo: “onde tem uma tem outra”, “o macho sempre vem atrás da fêmea”, “a fêmea sempre vem atrás do macho” e outras pessimistas sabedorias campeiras. Nesta hora todos parecem ser especialistas. Já li algumas teses sobre o motivo da repulsa causada por cobras. As explicações vão desde o óbvio perigo do veneno a complicadas teses baseadas na simbologia e que passam pela maçã oferecida a Adão e Eva. Penso que, no meu caso, a origem está na maneira como uma serpente se move, parecendo estar parada. Como se estivesse sujeita às leis da física diferentes das que atuam sobre mim. (*) A gente deixa de ser criança a cada pesadelo. O eterno retorno à criança só acontece depois do primeiro café. Eu vi a cara da morte, tinha olhos prisioneiros. Não queriam
  • 11. estar ali. Pareciam girar procurando algo. Não procuravam nada, só queriam estar em outra órbita. (*) O leão era o rei da selva, na minha infância. Ninguém explicava direito a origem desta majestade. Talvez fosse a mesma do absolutismo entre humanos: direito divino, vindo direto de Deus. Quanto mais eu aprendia, mais estranha eu achava esta supremacia. A leoa, sem falar em outros animais, parecia mais nobre e valente. Melhor deixar de ser criança e aceitar a anarquia do reino animal. O maior, mais forte e feroz dos animais pode ser derrubado por um microscópico vírus, bactéria ou gotas de veneno de seres bem menores e mais frágeis. Melhor assim. Não há hegemonia na natureza. O inverno mais rigoroso, o calor mais escaldante, a montanha mais alta e o oceano mais profundo, cada um tem seu momento de glória. Dos jogos de jogar com as mãos (par-ou-ímpar, discordar...) o que mais me agrada é o “pedra-tesoura-papel”. É perfeito. Cada um dos objetos imitados pela mão vence o outro, até que se feche o ciclo. Pedra quebra tesoura. Tesoura corta papel. Papel envolve pedra. Sem vencedor absoluto. Sem hegemonia. Cada um com sua força e sua fraqueza. (*) Não sei se voltei a ser ou deixei de ser criança quando ouvi pela primeira vez o silêncio. Eu já tinha andado pelo pampa e pela praia em pleno inverno, lugares onde não havia sons humanos, mas onde a natureza falava alto. Os animais, e, principalmente, o vento, afugentavam o silêncio. Quando a porta do estúdio se fechou pela primeira vez... “Muito prazer, meu nome é Silêncio. Este é meu amigo Cheiro de Cigarro. Mande-me embora com o som distorcido desta guitarra. É para isto que estás aqui. O tempo é caro para uma banda iniciante num dos raros estúdios da Porto Alegre de 1985. Relaxe. Mas não muito. Tchau!” 1, 2, 3, Vvvvrrrrrrannnnnnggg!
  • 12. (*) O que faria um arquiteto ou decorador colocar espelhos em duas paredes opostas de um elevador? Imagem refletindo imagem refletindo imagem infinitamente é algo perturbador. Entrei num elevador assim a caminho da festa de aniversário de um colega nos primeiros anos de escola. Quando abri a porta do elevador, no andar em que meu amigo morava, eu já não era criança. Acontecia o mesmo quando eu ficava olhando, na cozinha, a embalagem de um saponáceo que trazia o desenho de uma mulher segurando uma embalagem de saponáceo que trazia o desenho de uma mulher segurando uma embalagem de saponáceo que... O mesmo efeito do espelho em frente a espelho: intuição gráfica do infinito. Anos depois, eu traria, de Moscou, aquelas bonecas russas, uma dentro de outra dentro de outra... Mas as bonecas do mundo físico acalmam mais do que inquietam: sempre há uma última, pequena, maciça, da qual nenhuma outra sairá. No mundo gráfico, mesmo que não haja pena suficientemente fina para desenhar, a gente intui que sempre haverá uma embalagem de saponáceo menor onde uma mulher segura outra embalagem de saponáceo menor onde... (*) Quando eu estudava Arquitetura, era sempre uma criança que passava horas na biblioteca sentindo vertigem ao olhar as escadas que sobem infinitamente nas gravuras do M.C. Escher. Intuições gráficas do moto-perpétuo. (*) Paralysis by analysis ou analysis paralysis significa ficar parado por encucar demais. Paralisia por excesso de análise, para ser mais formal. Soa bem melhor em inglês. Vi esta expressão numa revista gringa de tênis, num artigo sobre a técnica de alguns golpes. Desconheço a origem da expressão. Ela é tão boa e sonora que deve ter surgido em outra área, mais relevante. Deixamos de ser crianças quando a razão nos paralisa, quando nos sentimos diretores do filme em que atuamos, olhos externos racionalizando cada gesto. Já ouvi de algumas pessoas mais otimistas em relação ao ser humano (os que acreditam
  • 13. no mito do bom selvagem) que todos nascemos sabendo desenhar e a maioria desaprende ainda na infância (deixa de ser criança), quando a autocrítica toma a dianteira e corta nosso barato. Talvez haja exagero nisso, mas um fundo de verdade também deve haver. (*) Nada pode ser mais real do que as fantasias das crianças, nem a realidade fantasiosa dos adultos. Ser criança é ter os pés no chão. A cabeça nas nuvens é uma triste necessidade de adultos. Quando piso no saibro de uma quadra de tênis ou no pedal de efeitos da guitarra, volto a ser criança. Graças aos pés no chão. (*) Numa das últimas vezes em que deixei de ser criança, eu já não era nenhuma criança. Talvez eu já tivesse passado mais tempo em salas de embarque de aeroportos do que muitos de vocês têm de vida. Foi “no estrangeiro”. Quase isso: no Paraguai. Era véspera do Dia dos Namorados e dia de folga na tour. Resolvi acompanhar a equipe técnica da banda na selva de compras em Ciudad del Este. Uma das opções de presente que eu cogitava era uma raquete de tênis. Indicaram-me uma loja. Enquanto subia, zonzo, pela escada rolante, como um náufrago no mar de predadores, usualmente chamados de consumidores, uma visão surreal se apresentou: uma parede repleta, de cima a baixo, de capas de raquetes dos anos 70! Capas Wilson azuis e vermelhas, daquelas que só cobriam a cabeça das antigas raquetes de madeira. Inúteis capas Wilson pretas, brancas e amarelas, que nunca encontrariam as raquetes que deveriam proteger. Tristes capas Wilson que sobreviveram ao seu conteúdo. Tive que olhar em volta para me certificar de que eu estava mesmo na sessão de esportes de uma loja e não em uma galeria de arte moderna, frente a uma instalação. Nenhuma aula de economia me ensinaria tanto quanto aquele museu de coisas nunca usadas e já obsoletas, despejadas na periferia do mundo capitalista. Nenhuma sessão de análise ou terapia de vidas passadas teria causado o efeito que causou a visão do que fora o sonho de consumo da minha adolescência (fui adolescente em tempos de reserva de mercado, sem produtos importados; deve vir daí o fascínio por instrumentos musicais, raquetes...).
  • 14. Não comprei nada naquele dia. De presente, dei um poema. (*) Não consegui ler o número do apartamento da minha mãe no porteiro eletrônico. Hora de deixar de ser criança e pegar os óculos, que passavam o dia inteiro tranquilos sobre o livro que eu leria à noite, e levá-los pra rua. (*) Uma simetria preside minhas origens: meu pai e minha mãe vêm de famílias de colonos do interior gaúcho. Ambos vieram muito jovens para Porto Alegre e eram os mais jovens entre dez irmãos. Aqui se desfaz a simetria: meu pai é filho de imigrantes alemães, do vale; minha mãe, de imigrantes italianos, da serra. Pra quem vê de longe, é quase a mesma coisa. Mas quem está na esquina entre estas avenidas tão diferentes sabe como podem ser distantes coisas tão próximas. Na casa da minha infância tínhamos uma enorme horta que, hoje me dou conta, era um portal que dava, ao meu pai e alguns tios, acesso a tempos idos, de pé no chão, na terra. Brincávamos entre árvores frutíferas (nunca mais comi uvas, figos e mamões como aqueles), verduras e legumes. Meu tio Plínio era mestre em armar arapucas para pegar pássaros, até construiu um viveiro para eles. Um dia, enquanto jogávamos bola, o tio chegou com um passo inseguro, falando coisas muito engraçadas e só parcialmente compreensíveis para nossas mentes infantis. Num gesto teatral, abriu a portinha do viveiro e obrigou os pássaros (mesmo os que pareciam preferir a segurança e mordomia do cativeiro) a saírem voando. Os pássaros embriagados de liberdade, meu tio embriagado de vinho, nós embriagados pela luz do sol que impedia que nosso olhar seguisse a revoada... todos vacilantes. Naquela tarde, não sei quem voltou a ser criança e quem deixou de ser. (*) Tenho um primo que, quando eu era criança, era bem mais velho do que eu. Agora, temos a mesma idade. Nas festas de aniversário da família, jogávamos xadrez. Ele era imbatível. Eu realmente achava que estava enfrentando o melhor jogador do mundo. Um
  • 15. dia ele perdeu para outro primo. Deixei de ser criança quando entendi que meu primo não era o melhor enxadrista do mundo. Voltei a ser criança ao descobrir que o melhor jogador de xadrez do mundo era meu outro primo. (*) A gente deixa de ser criança quando percebe coisas maiores e mais fortes do que nossos mimados caprichos. Por vezes, não é legal sentir a mão pesada do destino nos tirando as opções. Mas, às vezes, é legal saber que não temos controle. No amor, por exemplo. Adriane voltou de uma viagem à Espanha com dois presentes: um boné do Barcelona e um boné do Real Madrid. Ela sabe que eu levo a sério futebol e, principalmente, uniformes esportivos. Nunca deixei de ser esta criança. O que será que ela pensou? Que eu torcia para os dois? Duvido. Que eu não torcia para nenhum? Então pra que boné? Ela simplesmente não pensou? É possível. Mas sabe como é o amor, né? Adorei os presentes! (*) Ao longo da longa doença que levou meu pai, deixar de ser criança era algo muito frequente, quase um ritual diário. Mesmo em situações assim, a gente sempre volta a... acreditar. Lembro quando a vida voltou a ter alguma leveza. Foi justamente no velório (flor no lodo, lembra?). Na fila das condolências, um amigo do meu pai, careca de vida inteira, apareceu ostentando uma ondulante franja na testa. O cara estava de peruca! Resolveu estreá-la no velório?! Um quadro surreal. Só podia ser uma piada enviada pelo professor Huberto, diretamente de outro plano (ele era exímio contador de anedotas, dom que não herdei). (*) Pensei que seria um momento transcendente, uma iniciação, a passagem do bastão, uma tradição que seguiria na família. Escolhi ingredientes e utensílios com cuidado. Fiz a melhor gemada da minha vida. Seria a primeira vez que Clara experimentaria o doce mais doce da minha infância e... ela odiou! Ok, nossos filhos não serão iguais a nós. Trilharão seus próprios caminhos. Deixei de ser criança. Deixei de pensar que filhos serão mais dos mesmos nós.
  • 16. (*) É impreciso, mas tentador, pensar na civilização que nos trouxe até aqui como se fosse uma pessoa. Um ser humano que tem infância, amadurece, fica senil. Usando essa liberdade poética, me arrisco a dizer que deixamos de ser crianças quando Darwin disse que somos fruto de evolução, quando Copérnico avisou que a terra não é o centro do universo, quando o materialismo histórico de Marx explicou o movimento das peças no tabuleiro, quando Freud explicou que a consciência é só uma parte (talvez a menor) da nossa vida psíquica. E a lista segue, pois, se para um indivíduo já é difícil listar todos os ritos de passagem, imagine para uma nação, um império, uma civilização. A perda da inocência também é expressa por mitos que dão voz ao inconsciente coletivo: − Prometeu rouba o fogo de Zeus e é amarrado a uma rocha por toda a eternidade, enquanto uma águia come pedaços de seu fígado (que se regenera no dia seguinte para que o flagelo não tenha fim). − Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, recebe um jarro que contém todos os males do mundo. Ao abrir a tal “caixa de Pandora” todo o seu conteúdo se espalha pelo mundo. Com exceção de um item: a esperança. − Dr. Frankenstein se mete a Deus, criando vida, e perde o controle de sua criatura. − Adão e Eva comem o fruto proibido e são expulsos do paraíso. Points of no return, daqui não tem mais volta, pra frente é sem saber. O elástico, esticado demais, se parte. Ainda bem que, na vida real, sempre dá pra voltar a ser criança, né? Sim: às vezes é a única forma de sobreviver. (*) Deixamos de ser crianças quando paramos de ouvir como fãs, para ouvir como músicos. Quando paramos de ouvir como músicos, para ouvir como produtores. Quando paramos de ouvir como produtores, para ouvir como empresários. Quando paramos de ouvir... Como? O que foi isso? Que acorde estranho! Que voz misteriosa! Pronto:
  • 17. renasceu uma criança!
  • 18. (*) Dia desses dei à luz um cálculo renal. Fragmentos de uma pedra, pra ser preciso. Foi detonada a laser. Tentei esperar que saísse naturalmente (elas acabam saindo), mas a dor era muita, e muitos os remédios pra aguentá-la. Fui à luta. Se os americanos dizem que seu moderníssimo arsenal bélico tem precisão cirúrgica, inverto e devolvo a analogia: bombardeamos a pedra no rim num voo teleguiado. Procedimento simples, sem riscos. Eu anestesiado, o médico me vendo por dentro, em uma tela. A pior sequela foi passar alguns dias mijando de olhos fechados (por ser gremista ou por ser medroso, evito o vermelho sempre que possível). Para que o problema não se repita, é bom descobrir que substâncias nosso corpo transforma em pedra. Foi isso que meu médico disse ao me passar um fragmento da pedra e o endereço de um local onde analisariam sua composição química.
  • 19. − Será que aceitam meu convênio médico? − Não. Quem faz a análise é um geólogo. Isso mesmo. Do meu rim, direto para as mãos de um geólogo. Taí a vida real... taí a poesia. (*) Enquanto esperava a pedra sair por livre e espontânea vontade, eu suportava a dor, imaginando o alívio que viria quando eu a mandasse pro raio que a partisse (por ironia, um raio laser a partiu). Só parti para o ataque porque já havia me comprometido a participar de um programa de TV no dia seguinte. Nós, capricornianos, gostamos mesmo é de trabalhar. Cheguei ao estúdio, em São Paulo, branco como uma vela, usando mangas compridas, apesar do calor, para cobrir os hematomas que as agulhas haviam deixado nos braços. Perguntei quais seriam as outras atrações, o produtor respondeu que era um programa especial com a Grande Dama do Samba do qual participariam o Grande Compositor do Samba, a Jovem Promessa do Samba e o maior Vendedor de Discos do Samba. Todos acompanhados por um Super Grupo de Samba. Eu e meu violãozinho não estaríamos em um contexto muito introspectivo. Por um instante, eu me lembrei de estar tocando violão em um enorme estádio, abrindo um show do Nirvana. Déjà vu. Nada fácil, mas uma honra e uma alegria participar. Enquanto rolava o programa, em meio à euforia sonora, pintavam lembranças dos silenciosos corredores do hospital. Em meio às imagens de jovens rostos risonhos, vinha a imagem de rostos apreensivos na sala de espera. Apenas algumas horas atrás e parecia tão distante! Eu pensava: a vida é aqui e a vida é lá, não há isso sem aquilo. Hora dessas vou fazer um samba falando dessas vidas. Vidas tão diferentes e a mesma.
  • 20. (*) Eu já não era moço quando descobri que tinha o que se convencionou chamar “cabelo legal”. Quão velho eu era? Digamos que já havia pendurado três discos de ouro na parede. Como descobri? De tanto ouvir falar. As razões estéticas nunca me convenceram. A praticidade, sim. Até então, eu pensava que todo mundo podia ficar alguns dias sem se pentear. Não imaginava que a parte de fora da cabeça também pudesse dar trabalho. Entre 1986 e 2000, quem cortou meu cabelo foi Adriane. Era um corte fácil: uma linha reta nas costas. A força da gravidade fazia o resto, definindo para que lado iria cada fio. Resultava algo simétrico: cabelo repartido no meio. De vez em quando, passávamos a máquina. Antes de 1986, frequentei alguns barbeiros. Depois de 2000, alguns cabeleireiros (as coisas mudam de nome, mas continuam sendo o que sempre serão). Adri só começou a cortar meu cabelo porque eu tinha preguiça de ir a um profissional. Só parou de cortar porque a tesoura perdeu o fio e fiquei com preguiça de afiar. Nunca pensei que cuidar do visual fizesse parte da minha arte/ofício. Precisa usar dreadlocks pra fazer reggae? Precisa fazer reggae pra usar dreadlocks? Nah... A vontade de mudar o visual vinha do nada, quando menos se esperava. Numa das vezes, estávamos num hotel. Entrei cabeludo e saí militar. O que será que a camareira pensou, no dia seguinte, ao encontrar aquele monte de cabelo no lixo? Deve ter achado que se tratava de uma nova tara, um novo fetichismo. (*) Faço música para satisfazer minhas necessidades espirituais. Graças ao bom Deus, a
  • 21. música que faço também proveu minhas necessidades materiais. Pude escapar das propostas para fazer propaganda de xampu. Mais difícil foi escapar, nas entrevistas, da pergunta: “Qual xampu tu usas?”. Logo percebi que responder “Uso o xampu que minha mulher compra”, ainda que fosse a mais pura verdade, parecia sarcasmo. Ninguém acreditava que eu não tava nem aí, que simplesmente carregava, dentro e fora da cabeça, o que a natureza havia me dado. Um dia, num programa de TV, vi alguém explicando que o correto era alternar o tipo de xampu pra não “viciar” o cabelo. Caramba, que raciocínio elegante! E anticorporativo! As corporações nos querem fiéis. “Fidelização do consumidor” é o jargão utilizado. “Fiéis” para não dizer “escravos”. Mudar o produto com frequência colocava esta estratégia em cheque. Adorei e adotei a resposta. Mas não o comportamento. Até hoje, uso o xampu que Adriane comprar. (*) Pelas minhas contas, estarei completamente grisalho em um par de anos. Acho que vou gostar. Minha barba se adiantou na corrida ao branco. A diferença de cor entre barba e cabelo tem me irritado, pois dá a impressão de que eu pinto o cabelo. Irritação com dias contados: um par de anos. Acho que vou gostar. Ainda pelas minhas contas, a partir do ano que vem serei mais velho do que meu pai jamais foi. Estou vivendo o que, para ele, foi o último ano. Ele tinha raríssimos cabelos brancos quando chegou a hora. O que deu a impressão de que a hora chegou cedo demais. Nah, sempre é cedo, né? Nah = Não + Bah A gente faz as contas, projeta uma vida na outra, tenta se enxergar como se fosse outra pessoa... A gente busca espelhos porque viver é solitário. Busca simetrias porque a vida é torta. A simetria acalma. Talvez acalme porque nós mesmos somos simétricos. Uma linha imaginária, dos pés à cabeça, nos divide em duas partes iguais. Buscamos o que já somos? Esquecemos que essa simetria nunca é perfeita. Para o bom observador, sempre haverá
  • 22. uma perna mais curta, um olho mais caído, uma narina mais aberta... Certo é que nossa mente busca simetria nas pinturas, nas catedrais e nas notas musicais. Entre passado e futuro, entre os óculos do John e o olhar do Paul, entre Beatles e Stones, nas cores da barba e do cabelo, assim no céu como na terra, assim na serra como no litoral. Entre mãe e pai, pai e filho, num par de filhos, a gente idealiza simetrias que não existem. Buscamos fatos que se repitam, uma ordem, um sentido, um padrão, um padrão, um padrão... um padrão que não há. O mundo é ímpar, não dá pra dividi-lo em duas metades iguais. Bah: Num dia desses, minha andança por POA coincidiu com o horário de saída de um colégio. Crianças invadiram a calçada enquanto eu passava. Algumas ficaram me olhando fixamente. Na verdade, olhavam para meus cabelos. E riam. Saquei que elas nunca tinham visto um cara cabeludo! Estranho é que havia, entre as crianças, vários moicanos. Fala um pouco a respeito do nosso tempo o fato deste corte de cabelo complexo, que necessita de aditivos químicos para driblar a gravidade, parecer mais natural às crianças do que cabelos que, simplesmente... naturalmente... crescem.
  • 23. 1987. Voo de Belém para Porto Alegre. Sobe e desce, muitas escalas no caminho. O produtor da banda me acorda pedindo um autógrafo na capa do LP A REVOLTA DOS DÂNDIS. − Qual nome? − Stanley. − Será que é abrasileirado, tipo “Estânlei”? − Não, é com S e Y mesmo. − Pronto. − Valeu. Vou entregar pro Stanley Clarke. Ele embarcou em São Paulo. Quando ouvi o fim da frase, o disco já estava fora do alcance do meu braço. Eu me joguei no corredor para agarrá-lo: − Nããããããooooooo! − Mas ele não é um dos teus baixistas favoritos? − Sim. − Não estão super legais os baixos do Revolta? − Sim. − E não quer que ele ouça? − Não. Meus ídolos são de outro mundo. Prefiro-os lá.
  • 24. 1989. No Galeão, embarca Leonel Brizola. Um jovem empresário na poltrona ao meu lado fica exaltado e começa a falar mal dele. Na primeira pausa que fez para respirar, falo calmamente: “Com licença, vou ali pedir um autógrafo pro Briza”. Era possível adorar ou detestar Brizola. Em cada caso, de um jeito bacana ou de um jeito babaca. Resultam quatro possibilidades. Não sei em qual eu me encaixava. Certamente, não era a mesma do jovem empresário. Ele estava embriagado pela utopia da mão invisível do mercado fazendo cafuné em todo mundo, no mundo inteiro. Neoliberalismo era a onda do momento. Um tsunami arrasador. Quando voltei com o autógrafo, ao menos, o cara ficou quieto. 1989. É impressionante a contribuição que a Espanha deu à história da arte. De modo especial na pintura. Dizem que a luz do sol banha o país de forma singular, seria esta a explicação. Durante o voo para a URSS (com conexão na Dinamarca), olho pela janela e vejo, na paisagem, cores que nunca tinha visto. Tento descobrir o que estamos sobrevoando. Feitos os cálculos: ali embaixo era a Espanha. Na URSS, uma outra luz iluminava tudo que víamos e sentíamos. Era o comunismo real. Recebemos o cachê em rublos, moeda que não era convertível. Deixei minha parte pro cara que nos serviu de intérprete durante a estada. Alexandre Master, nosso técnico de som, jogou as notas para o alto enquanto caminhava lentamente, com um cigarro no canto da boca, pelo aeroporto de Moscou. Por não acreditar no que estava vendo, ou porque o dinheiro valia pouco, pouca gente se abaixava para pegar. Nos tempos anteriores às restrições ao cigarro, as últimas filas de poltronas dos aviões eram destinadas a fumantes. As primeiras eram exclusivas para não fumantes. Pouca diferença fazia. Principalmente pra quem sentasse no limite entre as duas áreas. O ar era o mesmo para todos. É o que acontece com quase todas as leis: há uma área cinza onde elas ficam absurdas. Quase todas. 1990. Em Maceió, esperando para decolar, vem a notícia: o aeroporto seria fechado sem
  • 25. previsão de abertura. Motivo: o recém-empossado presidente Collor chegaria de Brasília para passar o fim de semana em casa. Cinco horas depois foram liberados os pousos e decolagens: o cara tinha desistido do passeio. 1990. A economia do garimpo tem suas peculiaridades. É um fluxo de dinheiro maluco, aleatório. Um trabalho duro num ambiente hostil. Quando pousei em Boa Vista, uma quantidade enorme de monomotores sobrevoava a pista do aeroporto. Parecia um enxame de abelhas. No café da manhã do hotel, vi um vendedor mostrando catálogos de aviões para um garimpeiro descalço e com poucos dentes. Antes que meu café esfriasse, eles fecharam negócio. 1991. Não me perguntem como ele conseguiu: num pouso em Manaus, Alexandre Master convenceu a aeromoça a deixá-lo fazer o anúncio das normas de segurança. “Senhoras e senhores... em instantes estaremos pousando... por favor, afivele o cinto de segurança... poltronas na vertical...”. Ao fim do texto protocolar, ele gritou alucinadamente: “Rain Forest! Rain Forest! Raaaaaaain Forest!”. Para surpresa de todos, susto de muitos e divertimento dos mais chegados. 1993. Enquanto meus camaradas passavam rapidamente pelos Guardas da Fronteira, no aeroporto de Los Angeles, meu passaporte era debulhado com extrema atenção e passava por muitas mãos. Respondi várias vezes às mesmas perguntas. Quando me liberaram, entendi o tratamento especialmente cuidadoso: um sobrenome alemão num passaporte brasileiro que só tinha dois carimbos, um japonês e outro soviético. Era estranho, suspeito. Suspeito de que? De ser suspeito. 1994. Não me lembro a origem do voo, só o destino: Maringá. Avião pequeno, a maior turbulência da minha vida. Paredões de nuvens. O turboélice hesitava, pra lá e pra cá, como um bêbado dançando tango. O barulho vacilante do motor, a porta da cabine batendo, choro e ranger de dentes serviam de trilha sonora para este filme de terror. Quando pousamos, todos correram para os orelhões do aeroporto (ainda não tinhamos
  • 26. celulares). As expressões mais ouvidas eram “desculpa... a gente briga por qualquer bobagem... o importante é estar vivo... nunca mais... graças a Deus... daqui pra frente...”. Não sei quanto tempo duraram as promessas e as reconciliações feitas sob o trauma de um voo tão ruim. Talvez menos do que a tendinite no braço que me acompanhou por duas semanas. Fruto da tensão: eu passara o voo inteiro agarrado à poltrona como se ela fosse salvar minha vida. Também prometi mudar algumas coisas. Se não mudei, continuo prometendo. Já é um primeiro passo. Mesmo que seja o passo de um bêbado dançando tango. 1995. Quando me acidentei a caminho de um show no interior do Espírito Santo, o médico costurou o que precisava ser costurado e me receitou antibióticos, anti-inflamatórios, anti-não-sei-mais-o-quê. Novato no reino da química tomei os remédios em jejum, acompanhados de meia xícara de café preto. Desde então, meu estômago tem desconfiado de todas as decisões que tomo e de tudo que como. No voo de volta pra casa (Vitória/Rio), fiquei no banheiro. Da decolagem ao pouso. 1998. Esqueci meu exemplar de Moby Dick num voo entre Salvador e Porto Alegre. Alguns dias depois, recebi telefonema do pessoal da Varig. Queriam conferir o endereço para entregar o livro, que fora encontrado no bolso da poltrona. Não sei se eles faziam isso com tudo que era esquecido nos aviões (talvez por isso tenham falido). Achei o máximo! E o clássico de Melville, para mim, ganhou mais uma história. 2000. Não me lembro de onde vinha nem para onde ia o voo. Um senhor de idade avançada se apresentou, era maestro. Começamos a falar sobre música. Fiz vários comentários contra a substituição dos músicos por teclados e samplers. Um pouco por pensar assim mesmo, um pouco para agradar meu companheiro de profissão, supondo que a tecnologia estivesse lhe tirando trabalho. Depois de pegar sua bagagem na esteira, ao se despedir, o velho maestro me deu seu cartão: “Fulano de Tal - Maestro - Programador de Sintetizadores”.
  • 27. 2007. Saca o filme Terminal, com Tom Hanks? Tive um dia parecido. Decolei de Porto Alegre às 6 da manhã para tocar em Fortaleza à noite. No meio do caminho, o caos aéreo me pegou. Fiquei 14 horas no aeroporto de Cumbica. Desembarquei em Fortaleza e nem esperei as bagagens, fui direto para o palco. Banda e equipe, que tinham saído do Rio, me esperavam com ansiedade. Só deu tempo de dizer “Oi!” e contar 1, 2, 3, 4. O público cearense, caloroso como sempre, entendeu o atraso e, junto com a gente, fez um baita show! Bah: Por que Lula e Iron Maiden batem papo num mesmo canto do meu cérebro? Não, não é pela relação fonética entre “metalúrgico” e “metaleiro”. Em 2011, pela janela de um avião que pousava, vi o jato da banda inglesa estacionado no aeroporto de Curitiba. Em 2003, dias depois de Lula assumir a presidência, pela janela de um avião que decolava, vi o jato presidencial na pista de Congonhas. Tive a mesma sensação nas duas ocasiões. Um operário e uma banda de heavy metal ocupavam o espaço que geralmente é de outro tipo de gente. Legal! Nas duas vezes, a imagem dos aviões na pista (um com a pintura pop art de um monstro, outro com o solene brasão presidencial) se misturava com o reflexo do meu rosto na janela de um avião que ora pousava, ora decolava. Oito anos entre as duas ocasiões. Um terço da duração do meu voo como músico. Tenho andado por aí... já não me incomoda ignorar para onde, por que e até quando. Há poucos dias, durante um voo que desceria em BH, uma guria pediu para fazer uma foto. Muito querida, ela contou que havia tatuado uma frase minha nas costas. Tinha idade para ser minha filha. Mas ali não havia pai nem filha, nem ídolo nem fã, nem um cara dando em cima de uma menina, nem uma menina a fim de um cara. Eram dois seres humanos em trânsito, mergulhados nas suas vidinhas particulares, mas conectados pela vida maior: da arte e das canções. Deve estar aí a resposta que sempre me escapa. Para onde, por que e até quando.
  • 28. Tenho amigos que gostariam de viver num futuro em que viagens interplanetárias fossem coisa corriqueira. Conheço pessoas que gostariam de ter passado a adolescência na época dos Beatles. Eu, se pudesse me reposicionar na linha do tempo, seria mais modesto: só queria ter sido criança depois da chegada do protetor solar. Eu passava 60 dias do verão em uma praia do litoral gaúcho. O primeiro, jogando bola; os outros 59, tratando das queimaduras do sol. Pimentão, pantera cor de rosa, camarão... a lista de possíveis apelidos é longa. Não se constranja em aumentá-la. Mas não precisa me falar, ok? Na impossibilidade de dormir pendurado pela língua em um cabide, o jeito era se lambuzar com uma pomada amarela que manchava tudo que eu tocava (ah, pobre Midas!). Outra medicação, de cor rosa, era gelada demais para a pele febril e criava uma casquinha irritante. Num verão de triste lembrança, inventaram que a solução seria passar vinagre. Como efeito colateral, ele foi banido das minhas saladas pelo resto da vida. Espero que o leitor não esteja tomando o café da manhã, pois tenho que falar das bolhas que cresciam nos ombros. Duas enormes gemas de ovo frito. Era necessário furá-las com uma agulha e deixar uma linha de costura pendurada por um tempo. Não sei se era uma simpatia ou se aquilo realmente ajudava na drenagem. Livros de vampiro? Frankenstein? Coisa pra iniciante! Havia o lado bom, é claro. A praia era o nosso Discovery Channel: sapos do tamanho de paralelepípedos, cobras traiçoeiras, cavalos selvagens, vagalumes cuja luz podia ser vista por satélites, besouros do tamanho de um fusca. Para um guri de cidade, era selva! Nos fins de semana, rolava o Campeonato Praiano. Bah, que espetáculo! Era uma mistura de futebol e luta livre. O beach soccer que passa na TV hoje parece jogo de amarelinha comparado aos Praianos. Meu verão favorito? Aquele em que um bando de hippies alugou a casa ao lado.
  • 29. Montaram amplificadores e bateria no jardim e inundaram o silêncio atlântico de rock’n roll. Muito tímido, eu ficava o dia inteiro inventando desculpas para passar em frente à casa deles. Ia e voltava, ia e voltava, sem coragem de parar, fascinado pelo som. Se andasse em linha reta, teria chegado a Porto Alegre. Os cabeludos pareciam ser muito distraídos na cozinha: rolava um cheiro constante de coisa queimada. Anos 70. Foi o mesmo verão em que Picasso, goleiro do Grêmio, alugou uma casa na vizinhança. Morram de inveja! Esqueci de falar do mar, né? Foi proposital: até hoje não sei nadar! Mas isso é papo pra outro verão.
  • 30. Quando Cauby Peixoto era o grande cantor do rádio brasileiro, frequentemente tinha as roupas rasgadas pelas fãs. O fato de seu empresário desfazer as costuras dos ternos para que cedessem mais facilmente não deslustra o brilho do astro. A singeleza do truque revela bastante a respeito do marketing da época. Comparado aos dias que correm, parece canhestro. Mas, ao contrário das aparências, pouco mudou na essência. Por mais que os profissionais da área inventem novos termos, por mais que se amplie a escala, segue sendo o mesmo processo. Novos termos, ternos velhos. Uma tesourinha ou um canhão, propaganda segue sendo a arma do negócio. Conheci um cantor que escondia o time para o qual torcia. Queria agradar a todas as torcidas. Na verdade, não queria desagradar a ninguém (o que é bem diferente e bem pior). Depois que o time dele começou a se dar bem, ele assumiu e até virou um porta-voz oficialista do clube. Deve ter calculado que valia a pena. Mesmo chegando atrasado. Esconder o casamento (ou o homossexualismo) também já fez parte da cartilha marqueteira. Hoje, nem tanto. Taí uma coisa que os frenéticos tempos que correm (e correm demais) têm de bom: não dá tempo para mentir. Agora que tudo está exposto, não há tempo perdido, não há tempo a perder. Segundo Abraham Lincoln, pode-se enganar muita gente por pouco tempo ou pouca gente por muito tempo, mas é impossível enganar todo mundo o tempo inteiro. Hoje, muito tempo são quinze minutos. Com a exposição total de tudo-o-tempo-todo, é impossível CRIAR um personagem. O máximo que se pode fazer é SER um personagem. 24h por dia. Qual a diferença entre criar um personagem e transformar o que já somos em personagem? Taí um papo pra outra hora. Com a palavra, os psicanalistas e as revistas de fofoca. Bah 1: A etimologia das palavras geralmente revela histórias bacanas. Dizem que “encrenca” vem do alemão: krank, que significa “doente”. No Brasil do final do século 19, ein kranke era como as prostitutas de origem europeia se referiam a clientes com doenças
  • 31. venéreas. Uma encrenca. Outra história famosa, a que diz que “enfezado” vem de “fezes”. É engraçada, mas parece não ser verdadeira. A raiz latina seria “infenso” (ser hostil a). Já ouvi duas versões explicando a origem da palavra “torcedor”: (1) Torquere, em latim, significa adulterar, desvirtuar. “Torcedor” seria quem deforma, modifica a realidade em favor de sua paixão. (2) No início do futebol, mulheres elegantes iam ao jogo usando luvas. Pelo calor, elas tiravam as luvas. Pela tensão do jogo, elas torciam as luvas nervosamente. Cá pra nós, meio chinfrins essas possíveis origens, né? Para descrever uma paixão, seria melhor que a palavra tivesse um pedigree mais heroico. Por isso resolvi criar um novo passado para ela. Digam-me se ficou legal: “Thor, aquele dos raios e do martelo, é o mais forte entre os deuses da mitologia nórdica. É assim que gostaríamos de ser para ajudar nossos times: Thor ser, torcer!” Que tal? Putz, que merda! Horrível! Peço desculpas. A etimologia inventada ficou tão ruim quanto a real. Vamos ficar com esta, então. Mas, afinal, qual é a real? Bah 2: Em tempos e lugares onde todas as questões parecem ter apenas dois lados (certo/errado, bom/ruim, bem/mal) pode ser um bom sinal desagradar aos dois lados. Dia desses fui a um programa de rádio falar sobre futebol. Estava subentendido que eu defenderia meu time, o Grêmio, coisa que não me custa nenhum esforço. Lá pelas tantas falei que, se tivesse o time do Inter, o Grêmio teria se saído melhor do que o rival no campeonato. A torcida faria a diferença. Exagerei, como é de praxe nestes programas, dizendo que seríamos campeões três rodadas antes se tivéssemos os jogadores que levaram o Inter ao quinto lugar.
  • 32. Passei o resto da semana ouvindo protestos de colorados que acharam que subestimei a torcida vermelha. Normal. Surpreendente foi ouvir, também, protestos de gremistas dizendo que subestimei o time azul. Alguém achou que falei bem da torcida gremista e do time colorado? Não que eu saiba.
  • 33. Tenho tédio à controvérsia. A frase é de um personagem de Machado de Assis. Perfeita. Ele poderia ter usado a palavra “aversão” ou “ojeriza” ou “nojo” ou qualquer termo mais exaltado para ficar simétrico aos nervos à flor da pele que a palavra “controvérsia” sugere. Mas o venerável mestre confrontou a excitação da controvérsia com o cansaço, enfado, desânimo do tédio. Perfeito. Desarmou a bomba. Como nas artes marciais em que a força do adversário é usada contra o próprio. Tenho tédio à polêmica. (Agora eu é que falo. Se o ouvinte não conhece a origem da frase, passarei por inteligente! Nah, seria muita cara de pau! Faço questão de dar a autoria. Reconhecer é tão bonito quanto criar). Não tenho paciência para a briga de recreio colegial, o cuspe no chão com pé passado em cima, a retórica vazia jogada pra torcida como beijos de centroavante que muda de time a cada semana. Quero ser fra(n)co e quero receber a fra(n)queza como um presente. Quero discordar ao pé do ouvido, com um sorriso tímido no rosto. Quero a mão na mão trêmula, sem luvas de box. Quero o olho no olho marejado, sem óculos escuros. Quero o frio dos pés sob o cobertor, sem coturnos. Polêmica é a cocaína das ideias. E cocaína, vocês sabem, é uma máquina de fazer chatos.
  • 34. Quero de volta as horas que perdi tentando conversar com caras travados que não escutavam. Só falavam. Alto demais, rápido demais, besteiras demais. Convictos demais. Tenho tido meu quinhão de polêmicas. Não as procurei nem tentei evitá-las. São efeitos colaterais de algo, para mim, muito mais importante e interessante: as canções, os textos, as ideias... Sou um cara simples, com ideias claras (ainda que pouco comuns). Sei que, no meio em que me movimento, a polêmica é considerada um valor em si. Sinônimo de maior exposição, capa de revista, acessos ao site. Mas esse é só o meio em que me movimento, não sou eu.
  • 35. Perfume, tempero e afeto: ao mesmo tempo em que satisfazem, anestesiam. Quanto mais se têm, mais se quer. Quem usa muito sal ou Chanel acaba se acostumando. Precisa de mais para sentir o mesmo. Gosto do cheiro das coisas, mas não dou a mínima pros perfumes que vêm em vidros, sprays, chicletes e fraldas descartáveis. Desconfio daqueles anunciados por mulheres maravilhosas e homens sem camisa. Sou cego e surdo aos apelos das embalagens e dos nomes. Frascos de perfume me parecem objetos tão tristes quanto um buquê de flores. Tentativas infantis de resumir tudo de bom que a natureza tem. Sem espinhos, sem o trabalho de preparar a terra, regar. Tristes rosas vermelhas morrendo. Sufocadas pelo celofane.
  • 36. Temperos também não fazem minha cabeça. Minha especialidade culinária é miojo. No vacilo, sempre deixo a embalagem do tempero cair na água quente. Pra não dar o braço a torcer, finjo que não foi nada e resgato o náufrago sachê do oceano escaldante com a ponta dos dedos. Um pouco por preguiça de pegar a ferramenta apropriada, um pouco para me punir pelo vacilo recorrente. Depois, como o miojo sem tempero. Por preguiça, pra me punir e porque, pra mim, tanto faz. E o afeto? Ah, o afeto... Deste eu gosto! Apesar de meu cérebro mandar frequentes mensagens sinalizando que está tudo bem, que o número de pessoas que gostam de mim é maior do que mereço, sempre me parece pequena a quantidade de afeto que gerei. Fico olhando os caras que sabem sorrir na hora certa, abraçar do jeito certo, dizer o que todos esperam ouvir e... putz, este coraçãozinho gostaria de fazer miojo sem se queimar. Ao menos uma vez. Falta sabedoria. Afinal, como se mede o afeto? Como sair desta sinuca de bico? Pintei o chão da sala e fiquei preso no canto? Como se mede o afeto, os cheiros e os temperos?
  • 37. (*) “Supervisor das tempestades” era a resposta de H. D. Thoreau a quem perguntasse qual era sua profissão. Resposta bem subjetiva para uma pergunta simples, objetiva. Qual é a minha profissão? Toco num power-duo, escrevo num blog toda terça-feira e faço uma twitcam no dia 11 de cada mês. Se eu quiser ser mais direto vou me perder. Melhor deixar quieto. (*) Se eu reclamasse da vida, Deus deveria lançar uma sequência de raios sobre minha cabeça. Ou me fazer ouvir todos os discos do *****. Mas, como este é o espaço da mais irracional franqueza, cabe o desabafo: aeroporto-asfalto-hotel-asfalto-aeroporto, às vezes, cansa. Por sorte, tenho uma cabeça pouco prática, o que me impede de ser um bom churrasqueiro, mas ajuda na hora de criar jogos mentais que aliviem a monotonia. Um exemplo é o jogo de fotografar sombras (minha sombra na calçada de uma cidade estranha, na parede dos quartos de hotel ou a sombra do avião feito cobra no chão). Uma variante mais sofisticada é fotografar a estrada. Parece simples, mas esse jogo tem suas artimanhas. O sacolejar do ônibus, a precariedade da câmera do celular e o compromisso de rechear as fotos de signos e significados são os obstáculos a superar. As placas, viadutos e carros passam voando. O foco da câmera é lento. A luz não ajuda. Deve ser assim que se sente um caçador de borboletas raras. Outra meta do jogo é escapar dos chatos hiperobjetivos e suas perguntas: Por que não usa
  • 38. uma câmera melhor? Por que não pede pro ônibus parar? Por que não faz no Photoshop? Geralmente quem pergunta isso é alguém capaz de passar horas jogando futebol no videogame sem que eu pergunte: por que não compra uma bola? Hey, caçador: por que não compra a borboleta na internet? Lá, raridade é a coisa mais comum! (*) É fácil ver o absurdo na vida dos outros. Na nossa, tudo sempre parece normal e justificável. Somos bem mais generosos com nossa subjetividade do que com a dos outros. Dã, que novidade! Adriane acha nonsense que eu vá caminhando para meus jogos de tênis. São 50 minutos de subidas e descidas com a mochila nas costas. Ela acha que (1) mesmo indo de carro, eu preservaria mais a natureza se não usasse iluminação artificial e bolas novas com tanta frequência, (2) aproveitaria melhor o jogo se entrasse na quadra descansado. Por outro lado, eu acho nonsense que ela suba pelo elevador quando chega em casa depois de malhar na academia. Quer saber? Nós dois temos razão... A razão não é uma só. Um amigo me disse que não faz sentido usar iPod se posso ouvir música no smartphone. Este mesmo amigo carrega dois celulares, pois dependendo do local, é mais barato falar num ou noutro. Calculo que, em 10.000 anos, ele terá economizado o suficiente para comprar um terceiro telefone com o qual poderá poupar para comprar um quarto, quinto, sexto... Outro amigo é médico, especialista em uma parte do corpo que eu não gostaria de visitar com a frequência que ele visita (ainda mais no corpo de outras pessoas). Cada vez que digo que vou tocar numa cidade pequena, distante e com nome esquisito, ele faz uma careta. Agradeço a preocupação de ambos, mas estou muito feliz na minha estrada e tenho uma relação afetiva com meu tocador de música. Meus amigos não ficarão chateados com essas inconfidências. Amizade é o bar da esquina onde objetividade e subjetividade se encontram para um cafezinho (de corpo e alma). O absurdo que vejo neles, eles podem
  • 39. ver em mim. Hey, taí uma bela profissão: sermos gentis espelhos de nossos absurdos. Na contramão do clichê “a grama do vizinho é sempre mais verde”, Sartre resmungou que o inferno são os outros. Ah, mas sem os outros não há paraíso, né, monsieur? Bah: Numa noite dessas, sonhei que estava numa praia e via um cara pegando onda de forma estranha: imóvel sobre a prancha que seguia numa linha reta rumo à areia. Não desenhava curvas, desvios, nenhuma daquelas manobras bonitas. Olhar aquela trajetória matemática e inabalável sobreposta ao caos orgânico das ondas era logicamente absurdo. Absurdamente lógico. Parecia que Deus tinha colocado um enorme esquadro sobre a borda do oceano Atlântico e traçado uma linha reta num mapa-múndi. Qual a graça de surfar o caminho mais curto entre dois pontos?
  • 40. (*) Entrei no quarto do hotel, joguei a mala na cama e abri a cortina. Pela janela que ia do chão ao teto entraram os azuis do céu e mar. Linda praia do nordeste. Eu me virei, procurando a câmera fotográfica e vi minha sombra projetada na parede. Foi a primeira coisa que fotografei. Se somos senhores da nossa vontade, se não estamos simplesmente seguindo a manada, olhar pra dentro e olhar pra fora não são coisas muito diferentes. São sempre paisagens nas quais objeto e observador se confundem. (*) Há músicos que levam a casa para a estrada. Seguem a rotina sem sobressaltos: pensam com inteligência, sentem com emoção, almoçam comida típica no típico horário do meio-dia, dormem à noite, acordam pro café da manhã, visitam os pontos turísticos de cada cidade (sejam eles um sítio arqueológico ou um shopping high tech - para corações turistas, a diferença é pouca). Há músicos que levam a estrada para casa. Eu, por exemplo. Minha arte/ofício transbordou e tomou conta da minha vida. Agradeço a Deus pelas belas paisagens que Ele tem colocado nas janelas dos hotéis e pelos ótimos restaurantes nas esquinas, mas agradeço muito mais por minha arte/ofício. É ali que busco enxergar. É ali que me alimento. Aprendi, ali, a sentir com inteligência e pensar com emoção. Os sobressaltos, aprendi a chamar de “vida”. Me sinto deslocado nestes tempos de café sem cafeína, cerveja sem álcool, esquerda light e diet indigestão. Eu nunca soube trabalhar com baixos teores. Isso já me criou mais confusão do que eu gostaria de admitir. Mas foi essa intensidade que me trouxe até aqui. Então, não me resta alternativa: aceito e agradeço. O resultado? Algumas palavras com mais sílabas do que deveriam ter, alguns solos com mais notas do que deveriam ter, alguns silêncios maiores do que deveriam ser. Quanto mais sei que há coisas mais importantes do que minha arte/ofício, mais sinto que não há nada mais importante do que minha arte/ofício. Dá pra entender? Não, né? Como tantas
  • 41. outras coisas... (*) Um especialista é alguém que conhece um assunto há menos de 20 minutos (um turista?) ou mais de 20 anos (um nerd?). Essa distinção entre nerd e turista não é qualitativa, fique claro. São duas visões de mundo com boas razões para existir. Também não é muito rígida a fronteira entre elas. Podemos ser um ou outro, dependendo da circunstância. Um tempo atrás, me convidaram para participar da campanha “12x8”. É uma iniciativa legal, para divulgar a importância do controle da pressão arterial. Enquanto eu fazia fotos e gravava depoimento, um cardiologista me deu uma aula sobre os riscos da pressão alta. Fui da gravação, direto para a academia: era hora do meu treino. Chegando lá, comecei a falar sobre o assunto com um senhor que estava na esteira ao lado. Ele ouvia tudo mostrando muito interesse. Enquanto eu passava adiante todo o conhecimento recém-adquirido, alguém saudou o companheiro de esteira que me ouvia: “Bom dia, Dr. Fulano”. Fiquei surpreso, perguntei: “O senhor é médico? Qual especialidade?”. “Cardiologista”, ele respondeu. Putz, que mico! Lá estava eu ensinando o padre a rezar missa... É, fiz papel de turista nessa.
  • 42. (*) Quando digo que não gosto de ir ao cinema, recebo olhares que misturam espanto, reprovação e pena. Eu mesmo devo ter misturado esses três ingredientes quando li que o poeta João Cabral de Melo Neto não gostava de música. Ou quando ouvi Maria Bethânia dizer que não gosta do pôr do sol (segundo ela, é uma hora “nem barro nem tijolo”). Mais do que questões de gosto pessoal, me interessa o caráter provocador dessas declarações. São pequenos desafios ao bom-senso-uníssono-ensurdecedor. Valorizo cada vez mais os pensamentos minoritários, quase idiossincráticos. É preciso preservá-los da patrola e da patrulha. São como as notas dissonantes que embelezam tantos acordes. Não podem silenciar. O mundo virtual, com suas redes sociais, propicia que pensamentos minoritários encontrem um fórum, o que é muito legal. Estranho é que esse encontro sirva para que se reproduzam os mesmos vícios das maiorias. Um monte de gente que pensa igual se encontra, se fecha em grupos muito específicos e perde contato com pensamentos diferentes.
  • 43. Isolados, os iguais se realimentam, radicalizam e acabam atrofiando os músculos da tolerância. Já não são minorias: são maiorias em miniatura. Mas, como todos sabemos, uma lagartixa não é um jacaré pequeno. É mais fácil pregar para os convertidos. Mas, faz sentido? Nah! Temos é que aprender a conviver! Sem represas, sem apartheid. Sem vidas secas, nem olhos úmidos. Ops, se tá confuso o papo, provavelmente a culpa é minha. Só pensei nisso superficialmente, enquanto saía do estádio, depois de um GreNal. Vi dois caras caminhando, lado a lado, pacificamente, cada um com a camisa de um time. Pensei nisso porque esta paz me surpreendeu. Seria melhor se não surpreendesse: esta paz deveria ser normal. VIVA A DIFERENÇA CHAME DE XIMIA A GELEIA GERAL (*) Quando entramos em contato pela primeira vez com uma banda, uma pessoa ou uma canção é natural que nos perguntemos com que outra ela se parece. Pensamos por analogia. Precisamos catalogar a informação, para isso usamos atalhos. Tudo bem, se for só a reação inicial. O perigo é ficarmos para sempre nos resumos e simplificações. Pior ainda se, para sermos mais rapidamente entendidos, cedermos à tentação de abreviar, catalogar e traduzir nossas próprias atitudes. Muito cuidado com a pessoa, a banda ou a canção que quer se parecer com outra! (*) Algumas coisas são difíceis e levam tempo. Algumas dessas coisas (difíceis e que levam tempo) são as melhores da vida. Pensei nisso enquanto comia um pouco de lixo num fast-food.
  • 44. Falando em comida (e mudando de assunto): acho estranho que as refeições sejam unanimemente aceitas como momentos de confraternização. Ok, ok, “partilhar o pão” é uma metáfora insuperável, sem dúvida. Mas não acho o ser humano, enquanto mastiga e engole, uma visão muito agradável. Talheres, copos e guardanapos não ajudam muito a disfarçar a verdadeira finalidade do “churrascão” e da “jantinha”. Pra ser sincero, acho as cenas de leões se alimentando que vejo no Discovery Channel menos agressivas do que a socialização que testemunho em alguns restaurantes e coquetéis. Pena que não entendo nada de antropologia! Gostaria de saber se sempre foi assim, em todas as culturas. Será que alguma civilização fez do momento emblemático da alimentação algo solitário e introspectivo? É a hora em que mais nos aproximamos do pó do qual viemos e ao qual voltaremos. Abocanhar, mastigar e engolir matéria para continuar sendo matéria! Nós, pobres spirits in a material world. Bah, desculpaí, se foi mais um pensamento estranho do tipo “não gostar de música, cinema e pôr do sol”. Bah 1: ...o prêmio de Melhor Nome de Rua vai para: “Padre Cacique”! Bah 2: ...o prêmio de Melhor Nome de Cidade vai para: “Pinheiro Machado”! Bah 3: ... e o prêmio de Melhor Pergunta vai para: João Cabral de Melo Neto! Ele perguntou a Vinícius de Moraes se o querido poetinha não cantava outras vísceras além do coração. Que figura ímpar, diferente! Como todos nós, né?
  • 45. (*) Hegemonia me irrita. Melhor: me dá sono. Melhor ainda: irrita E dá sono. Seja nas relações pessoais, na moda, na tecnologia ou mesmo no futebol. Neste, se trata de ganhar, é claro. Mas acho bobagem as discussões sobre quem tem o maior estádio, a maior torcida. Na indústria cultural, não é de agora o uso de metáforas bélicas: o filme foi um “blockbuster” (arrasa-quarteirão), a música “estourou”, rolou uma “blitz” de divulgação, visando o “público alvo”. Sintomático: guerra, hegemonia. Fico irritado e com sono quando, num piscar de olhos, o país inteiro começa a usar palavras em italiano macarrônico ou termos mal-assimilados da cultura indiana porque assim falam numa novela da rede de TV hegemônica. O “efeito manada” não acontece só nas camadas mais populares. Se seus amigos cultos começaram a falar de belle époque com uma sincronicidade estranha, provavelmente deve ser influência de um novo filme do Woody Allen. (*) Segundo a tese tecnicista, tudo que pode ser quantificado pode ser comparado e aprimorado. O raciocínio pode servir para uma fábrica de parafusos, mas será que faz sentido para qualificar vinhos, restaurantes ou perfumes? Quando as mais importantes revistas especializadas começaram a dar notas numéricas (números com vírgula!) aos vinhos, a excitação do mercado foi evidente. Uma ferramenta para medir objetivamente o que é subjetivo. Quem realmente entende do assunto despreza esses rankings. Mas, para o mercado, funciona. E muito. Parece que as pessoas
  • 46. não estão interessadas nas sutilezas do vinho ou no prazer do jantar. Elas querem dizer que tomaram O MELHOR vinho e jantaram n’O MELHOR restaurante. Querem estar no lado hegemônico. Existe o melhor beijo? Até pode existir, mas só na opinião de, no máximo, duas pessoas. O melhor beijo jamais será hegemônico. (*) Acho que enveredei para este papo sobre hegemonia porque, enquanto escrevia, na sala de embarque do aeroporto, um menino puxou o pai pelo braço e, apontando para o meu laptop, disse: “Eu queria um computador daqueles da maçã. São os melhores do mundo, pai!”. Tive vontade de dizer: não entra nessa, garoto! O melhor computador é o de quem tem as melhores ideias. Não adianta entulhar as fotos de filtros bacaninhas que envelhecem e embelezam “naturalmente” a imagem. Nenhuma maquiagem esconde a falta de conteúdo. Bons fones, se possível. Boa música, sempre!
  • 47. Tenho fãs melhores e em maior número do que mereço. Não entendo como, nem por que, mas agradeço a Deus. Quem começa a trabalhar comigo sempre se surpreende. Acho sintomática essa surpresa e cumprimento todos os “de fé” com um piscar de olhos imaginário: nós conhecemos a força da teia que tecemos. Silenciosamente. Azar teve Eddie Van Halen. Nunca fez minha cabeça o som dele (pelo contrário, foi um dos motivos que me fizeram achar o baixo um instrumento mais interessante do que a guitarra em 87), mas reconheço sua maestria. Um gênio. Foi um cara seminal na revolução que colocou uma guitarra no quarto de cada adolescente americano nos anos 80 (ok, depois as guitarras viraram computadores, mas isso é outro papo, outra década). Aquele rock’n roll pirotécnico ficou espremido entre o nervo exposto do grunge e o atletiscismo musical de caras como Joe Satriani e Steve Vai. Sufocado entre uma postura mais visceral e outra mais cerebral. É assim na vida e na arte: ciclos, movimentos
  • 48. pendulares, ondas que vêm e vão. Injustificável é que os fãs do Eddie tenham se calado. É raríssimo, hoje em dia, alguém dar crédito ao cara pela influência que teve. Cazuza cantou que seus heróis morreram de overdose. Imagino que se referisse a Jimi Hendrix, Jim Morisson, Janis Joplin... Atemporal, a canção fala das meninas Amy Winehouse e Cássia Eller, dos bateristas John Bonham e Keith Moon, dos baixistas Jaco Pastorius e Phil Lynott. Metafórica, ela fala dos carros estraçalhados de James Dean e Albert Camus, dos voos interrompidos de Steve Ray Vaughan e Buddy Holly, dos mistérios de Robert Johnson e Jeff Buckley, dos absurdos disparos-para-o-coração de John Lennon e Kurt Cobain. Prematuras, essas mortes condenam os mitos à vida eterna. Todas têm um pouco de encenação da Paixão de Cristo. Adorados, os posters ficarão para sempre imitando crucifixos na “parede da memória”. Há heróis que continuam por aí, fazendo de conta que o tempo não passa (Jagger/Richards e McCartney, por exemplo). E há aqueles que, de uma forma ou outra, em um momento ou outro, saltaram do bonde (o bonde chamado desejo?). É pensando nesses que escrevo: os caras que me ensinaram a ser jovem e estão me ensinando a envelhecer.
  • 49. Joni Mitchell encheu o saco da forma como as mulheres são vistas na indústria cultural e foi pintar. Bjorn Borg achou que era muita pressão ter que acertar todas as bolas e foi errar um pouco na vida. Leonard Cohen raspou o cabelo e foi ver de perto qualé a do budismo. Roger Waters ergueu, demoliu e cantou (não necessariamente nesta ordem) seu próprio muro. Dylan, por várias vezes, saltou do bonde (a primeira: depois do acidente de moto em 66; a mais recente: o mergulho no trabalho, na Never Ending Tour). O que há de comum nesses exemplos? Eles acharam que o solo estava muito duro, seco demais para receber sementes? Acharam que a esponja não absorveria mais nada por estar molhada demais? Pode não haver nada em comum, eu posso estar forçando a barra, mas realmente acho que esses caras assumiram as rédeas, traçaram os próprios rumos. Parece pouca coisa? Só para quem nunca fez isso.
  • 50. (*) Não acho que minha música seja boa trilha sonora para autoajuda. Não tenho nada a ensinar e não quero que minha melancolia ou minha excitação, minhas crenças ou meu ceticismo, sirvam de exemplo para ninguém. Ouço relatos de pessoas dizendo que uma canção minha as ajudou em momentos difíceis e transbordo de felicidade. Que bom! Mas confesso que não penso nisso quando escrevo. Melhor que seja um efeito colateral algum proveito que alguém faça de meus versos e acordes. Desconfio de hinos, músicas lineares, puramente motivacionais, em que tudo-tudo-tudo-vai- dá-pé-quando-o-sol-brilhar-tudo-de-bom-vai-acontecer-e-quando-a-noite-chegar-vai-rolar- a-festa. Honestamente, não sei até que ponto esta overdose de alto-astral ajuda as pessoas. Não me surpreenderia se o número de suicídios no carnaval fosse maior do que na quaresma. Não acho que uma música melancólica aumente a melancolia. Na verdade, ela faz companhia. (*) Tenho um pé atrás com pessoas que estão sempre de bem com a vida. Já vivi o suficiente para saber quando alguém está querendo enganar a si mesmo enchendo as frases com adjetivos exagerados e excessivos pontos de exclamação. Conheço artistas que perderam o brilho nos olhos depois de anos se obrigando a achar tudo legal, dando
  • 51. tapinhas nas costas de cada colega, paparicando cada fã. São “gente finíssima”, fina camada, verniz superficial sob o qual já não existem. O outro pé também tenho atrás: com pessoas que estão sempre de mal com a vida. Já vivi o suficiente para saber que o fim do mundo não acontece todo dia da semana. Profissionais do mau humor apocalíptico não me convencem. Conheço artistas que perderam o brilho nos olhos depois de anos se obrigando a odiar tudo, dando punhaladas nas costas de cada colega e virando a cara para cada fã. Grosserias, sob grossa camada de gelo, esses caras já não existem. A virtude está no meio-termo. Mas o meio-termo a gente nunca sabe onde é, né? E William Blake disse que “o caminho do excesso leva ao castelo da sabedoria”! Ah, aforismos são o band-aid do pensamento: só servem para cortes superficiais. Ih, acabei de criar outro aforismo, né?
  • 52. (*) Desde o início da minha saga de músico-amador-profissional, acompanhei várias mudanças drásticas (ah, que vontade de usar a palavra “revoluções”) na tecnologia de áudio. Entre elas, a digitalização (que tirou do chão os pedais e empilhou os efeitos num rack) e o MIDI (um protocolo para teclados trocarem informação). Sem falar nos processos de gravação (Ops, estúdio é papo de produtor. E produtor é quem transforma música em produto. E eu sou músico). A revolução (pronto, usei a palavra) mais sintomática foi uma que não aconteceu. Na primeira metade dos anos 90, a revista Keyboard veio com uma capa definitiva: “The Next Big Thing”. Falava de uma nova tecnologia de sintetizadores, a Próxima Grande Onda. {Nos anos 60, os sintetizadores analógicos queriam imitar o som de instrumentos já existentes, mas o resultado ficava tão distante que soava original. E ser original, acreditem, era do caralho! Com a digitalização, nos anos 80, abria-se uma estrada potencialmente infinita para a originalidade. Dando as costas a essa estrada, os sintetizadores começaram a ter, cada vez mais, sons que imitavam instrumentos já existentes: pianos, órgãos, cordas, metais e até Moogs e Oberheims (os teclados analógicos do passado recente). Criou-se um vácuo, um buraco negro. Uma época sem sons próprios.} A tal nova tecnologia, anunciada na capa da Keyboard, permitiria criar instrumentos virtuais. Se bem me lembro, davam como exemplo uma flauta com três metros de comprimento. Uma perspectiva kitsch, cafona, mas, pelo menos, prometia novos sons. Só promessa. A revolução morreu na casca. O que pintou foi mais do mesmo: sons de piano elétrico (vindo dos anos 40), sons de piano acústico (lá do século XVIII), os sons que Keith Emerson tirava dos Moog e que Jon Lord tirava do órgão Hammond (nos anos 60 e 70), o som que Van Halen tirava de um Oberheim na canção Jump! (nos 80). Um salto? Para o passado. (*) Os sons têm significados técnicos (frequências, timbres) e culturais (quem usou, em
  • 53. que canções). Características inatas e adquiridas. Misturando essas duas perspectivas, coisas interessantes e inesperadas acontecem. Astor Piazzolla fez sociologia e piada quando disse que o bandoneon nasceu na igreja, mas cresceu nos bordéis. Um dos sons mais sexys do mundo, a Clavinet Hohner, usada por Stevie Wonder, foi criada para eletrificar o som do cravo (sim, aquele cravo do período barroco). O mesmo caminho foi feito pelo órgão Hammond: originalmente pensado para igrejas e lares recatados, se transformou num som tão maravilhosamente sacana quanto a guitarra. Taí o Deep Purple de Jon Lord e Ritchie Blackmore que não me deixa mentir. Smoke on the water, fire in the sky. Peixe fora d’água, borboletas no aquário. Coisas fora do lugar. Inesperado e interessante. Como o mictório branco que Marcel Duchamp transformou em peça de museu. (*) Pela minha natureza cética e por ter acompanhado a digitalização dos equipamentos de áudio, fui imune à histeria que tomou conta de algumas pessoas quando as mudanças chegaram ao dia a dia do cidadão comum. Eu me interesso pelas novidades, na medida em que elas podem me ajudar, mas não fico babando por bits e bytes. Conheço gente que, literalmente, muda sua visão de mundo de acordo com o software ou hardware que tem à mão. Brinco com elas dizendo que não podem passar nem perto de uma sex shop, pois, se virem um vibrador... A piada poderia ser mais elegante, mas não poderia ser mais pertinente. É legal ser flexível, claro, mas mudar tanto tão rapidamente me parece esquizofrenia. Bah 1: Ao propor, ente outros objetos, um urinol e uma roda de bicicleta como obras de arte, Duchamp se colocou na origem da arte conceitual, no início do século XX. Surgiam os ready made, objetos da vida cotidiana, que não eram artísticos a priori: artístico era o gesto de tirá-los do contexto. Ideia interessante, fundamental na história da arte, mas que já nascia com prazo de validade marcado. Uma segunda roda de bicicleta em museu já não
  • 54. faria sentido, né? Bah 2: Com a digitalização, as transformações no mundo da fotografia foram parecidas com as do mundo do áudio: uma onda de filtros retrô amarelando fotos tiradas há apenas dois segundos. Passado pré-fabricado.
  • 55. Dia desses, quase todos os cronistas do jornal que leio fizeram crônicas saudosistas. Uma lamentava o fim do quebra-galhos do bairro. Outra falava do cheiro tradicional que cada bairro tinha e que já não sentimos. Uma terceira lembrava do som do afiador de facas que não passa mais pelas ruas do bairro. Na seção de esportes, protestavam contra o fim dos campinhos de futebol nos bairros. Coincidência? Os cronistas são todos da mesma faixa etária e o outono em POA favorece a melancolia. Isso pode ter dado uma forcinha para a coincidência (e com ajuda de uma forcinha, já não é coincidência, né?). Afinal, bairros... ainda existem? As crônicas são os únicos textos que leio no jornal de papel. Quando ele chega, as notícias lidas online já estão velhas. Mantenho a assinatura para forrar o banheiro dos meus cachorros, Laika & Bóris. Taí: uma das razões desse saudosismo pode ser o fato de os meios digitais não deixarem pegadas físicas. Pense na diferença entre deletar alguns textos e fazer uma faxina na biblioteca. Ficamos sem referências tácteis, olfativas, visuais.
  • 56. Será que vem daí o fascínio exercido pelo som de LP arranhado na mente da molecada? A simulação desse som está em todos os sintetizadores digitais! Por isso os filtros amarelando fotos feitas a menos de um minuto nos smartphones? O tempo que amarela o papel não amarela o display. Esse, ou funciona ou fica preto. Geralmente é jogado fora antes disso. Não testemunha a passagem do tempo. Por isso fabricam um passado? Lembranças artificialmente envelhecidas em virtuais barris de carvalho. É fofo, mas é kitsch, mas é fofo, mas é kitsch... As lojas de instrumentos de Porto Alegre (ah, Esparta Alegre: pretensa Liverpool jamaicana) estão cheias de guitarras retrô, vintage... Se pudessem, venderiam também o telhado de Abbey Road. You say you wanna a revolution? Well, you know... Bah: Não acredito que a memória seja um lugar esperando nossa visita. Penso que é algo que construímos a cada visita. E nunca construímos da mesma forma. Sempre que nos lembrarmos do primeiro beijo, será um beijo diferente. Será sempre outra pessoa, a pessoa que nos tornamos, a lembrar do mesmo beijo.
  • 57. (*) Dia desses perdemos um GreNal decisivo. Nos pênaltis! Nosso centroavante chutou a bola a perder de vista. Algumas horas mais tarde, Osama Bin Laden foi assassinado. Não me lembro de terem usado a palavra “assassinato”. Eufemismos devem ter limpado a cena do crime. Ok, o cara era um mala, mas, pelo meu dicionário, o termo seria esse mesmo. Por conta do meu fuso horário disfuncional (fruto do meu talento inato para trocar o dia pela noite e da minha rotina-sem-rotina de músico-amador-profissional), eu estava dormindo quando a notícia tomou conta do mundo. Quando acordei, a crer no relato, o corpo de Bin Laden jazia no mar havia algumas horas. A primeira mensagem que li no twitter dizia: “Pô, essa piada é velha: Osama morreu porque foi atingido pela bola do pênalti que Borges errou”. Menos de 24 horas depois, a piada já era velha? Era. Caramba! (*) Dia desses vi, na capa do jornal, o desenho de um iPod andando de bengalas e usando cachecol, óculos e boina. O aparelho (tão inovador há tão pouco tempo) fora transformado num velhinho para ilustrar uma matéria que anunciava o iminente fim de seus dias. Caramba! Tempos velozes para piadas e tecnologia. (*) Se falo sobre passagem do tempo e obsolescência programada, deve haver algum motivo que não seja saudosismo. Tenho saudade, sim: de algumas pessoas, alguns objetos. Mas não tenho saudade de “tempo nenhum”.
  • 58. Voltar à adolescência, à faculdade, às primeiras raquetadas, aos primeiros acordes e letras? Deus me livre! Deixo eles lá, com todo o carinho do mundo. Estou de corpo e alma aqui e agora. Até os ossos neste exato local e momento. Não acho que as coisas só tenham piorado. Pelo contrário. Vejo sinais bacanas e possibilidades no ar. Profetas do apocalipse querendo vender o melhor assento num bonde chamado “Fodeu” não me seduzem. Não acredito que as respostas aos problemas de um mundo novo estejam na volta ao passado. Escolhi ter fé nas ferramentas que o ser humano cria. Escolhi ter esperança de que aprenderemos a usar essas ferramentas. Para o bem e para todos. Não estamos no paraíso, é óbvio. Mas o paraíso não está no passado. Ainda bem: para lá não se pode ir!
  • 59. (*) Bootstraps são alças que as botas têm na parte superior do cano. Servem de apoio para as mãos na hora de calçar. O dito “to pull yourself up by your bootstraps” (algo paradoxal como erguer-se do chão puxando os próprios cabelos) sinalizava tarefas impossíveis. Com o tempo, virou metáfora para conquistas realizadas com esforço próprio, sem ajuda externa. O termo se universalizou como definição de processos autossustentáveis. Agora, fala-se em bootstrapping no mundo da física, do direito, da linguística, dos negócios, da computação (bah, dá um boot aí, véio!) e em outros mundos. Santa Tereza de Ávila teria dito que “uma cruz não deve ser arrastada, mas erguida, pois ao erguê-la nos erguemos com ela”. Taí, bootstrapping no mundo religioso.
  • 60. (*) Quando minha filha era suficientemente pequena para ouvir minhas gracinhas sem jogar o objeto mais próximo da sua mão na minha cabeça, eu vivia repetindo para ela: “Sabia que a gente bota a calça e calça a bota?”, “Sabia que o sabiá sabia assobiar?”. Moto-contínuo, frase sem início nem fim. Pai e filha. Tarde chuvosa, brinquedos pelo chão, nada legal na televisão. Bootstraping na falta do que fazer. (*) Perguntei ao Google de onde vem a utilização do termo bootleg para “gravações piratas”. O amansa-burro virtual me disse que a origem está no livro As Viagens de Gulliver, pois, em certo ponto da história, botas são usadas para esconder contrabando. Alguns artistas, mesmo antes do mundo digital, liberavam e até facilitavam as gravações de seus shows. Grateful Dead é o exemplo clássico. Bob Dylan saiu na frente dos piratas e lançou, ele mesmo, sua Bootleg Series. Pirata oficial, se tal é possível. (*) Enquanto Bruce Dickinson berrava Die With Your Boots On (morra lutando, com as botas nos pés), era o baixo do Steve Harris que eu ouvia quando ouvia Iron Maiden. Vi caixas de som levitarem, ouvi baixos erguerem bandas como se fosse possível tirar os pés do chão puxando o próprio cabelo. Iron Butterfly e Le(a)d Zeppelin deixam explícito nos nomes (borboleta de ferro, dirigível de chumbo) que mesmo o metal pesado pode flutuar. (*) Eu tinha canções na cabeça quando mergulhei de cabeça na escuridão do armário dos calçados. Inverno chegando a POA, hora de ressuscitar minhas botas. Outros tênis vão hibernar. É assim todo ano. E todo ano fico um tempo admirando os ganchos que prendem o cadarço no cano da bota. Ali, o cordão não passa por orifícios, como é comum em sapatos e tênis. Fica a impressão de que aquela coisa não vai se manter amarrada. Mas os ganchinhos funcionam. A tensão se mantém pela tensão se mantém pela tensão se mantém pela tensão se mantém... Moto-perpétuo. Na parceria. Se um deles entortar, desaba o castelo de cartas. Bootstraping é assim: tem que acreditar.
  • 61. Bah 1:. Maestro Saturno rege a Orkestra Kaprikórnika. Deus romano da justiça, força e agricultura, ele equivale ao grego Cronos. Quem sabe o que significa cronômetro ou cronologia sabe que o tempo não para. Cada vez que mergulho na escuridão do armário de calçados, é outro inverno. Sou outro eu. Bah 2: Derek Riggs, o desenhista que, através das capas de disco, criou a identidade visual do Iron Maiden, parou de desenhar por um tempo por estar com Síndrome da Fadiga Crônica. Demorou 10 anos para descobrir a causa: intoxicação por metal pesado. O mercúrio consumido na água e o metal liberado pelas obturações dentárias foram os responsáveis. Irônico: um ícone do design heavy metal hipersensível a metal pesado. Ah, a fadiga dos metais! Bah 3: Quem é o primeiro a dançar num campo minado, uma bailarina usando coturnos ou um soldado de sapatilhas?
  • 62. (*) Em bate-papos esportivos, na falta de assunto mais momentoso, frequentemente pinta a questão “é necessário ter sido jogador para ser técnico?”. Sempre tem alguém que responde: “Pra ser jóquei não precisa ter sido cavalo!”. É um clássico da oratória. Cada caso é um caso (isso vale para todos os casos), mas não me parece coincidência que grandes técnicos tenham sido jogadores medíocres (Felipão no futebol, Brad Gilbert no tênis). Faz sentido: eles tinham que superar suas limitações, otimizando seus recursos (tutano!). Imagine Pelé ou Maradona dando instruções a seus atacantes: “Pega a bola, dribla cinco e mete no canto onde o goleiro não está. E faz isso três vezes, tá?”. Fácil, né? Não poderia dar certo. Na produção musical rolaria algo parecido. Se Jimi Hendrix produzisse um solo, diria: “Cara, faz esta guitarra pegar fogo, toca coisas que ninguém nunca ouviu e que todo mundo precisa ouvir!”. Se Jaco Pastorius produzisse uma base: “Véio, toca como se o baixo fosse um coração bombeando sangue e suingue para o resto da banda!”. Fácil, né? Pra eles. Os pré-requisitos necessários ao bom produtor (ou professor) são quase opostos aos necessários ao bom artista. Ele não precisa ser autoral, pelo contrário, tem que ter um estômago bem flexível. (*) Meu estudo formal de música se resume a alguns meses de aulas de bandolim. O resto aprendi sozinho (isso é só um modo de falar, sozinho não se faz nada e nada se aprende − quis dizer que aprendi sem um professor). Se eu nascesse de novo, buscaria os melhores professores. Mais por divertimento (adoro exercícios, escalas, teoria), pois não creio que melhorasse minha escrita musical.
  • 63. Quem me ensinou a tocar violão, viola caipira, piano, baixo, guitarra, gaitas de boca e de fole foram minhas canções. Eu não sei tocar os instrumentos, sei tocar as canções. Se por um lado corro o risco da autorreferência estéril, por outro, sei que tudo que crio tem meu DNA impresso. E, no fim das contas, quem tenta aprender tudo com todos e agarrar o mundo com as mãos corre o risco de ficar com as mãos esterilmente vazias. Ensinar a si mesmo, aprender com as próprias canções... não recomendo esse bootstrap a ninguém. É perigoso. Olhar para o espelho, recomendo. É necessário. A fina linha que separa o perigo da necessidade é tarefa de cada um desenhar. Nenhum mestre pode fazer isso por nós. (*) Por que essa pressa? O caminho mais curto entre dois pontos pode ser uma bênção ou uma maldição. Cada caso é um caso (e isso continua valendo para todos os casos). Bah 1: Pode ser coincidência e azar, mas aonde quer que eu olhe, vejo gente deitando cátedra e cagando regra. Bastam 15 minutos de TV ou www para que todos os problemas do mundo físico e espiritual estejam solucionados. Em alguns casos, fico pensando “por que não aplicam isso na própria vida?”. Às vezes é difícil acreditar que aquelas palavras saíram daquela boca. Que aqueles dedos teclaram aquelas frases. Esses senhores que sabem tudo poderiam ter dado uma olhadinha no espelho antes de sair de casa, né? Não gosto deste ditado, acho injusto com grandes mestres, mas às vezes dá vontade de dizer: quem sabe faz, quem não sabe, ensina. Bah 2: aprendi num filme do Wim Wenders: falar sozinho, mais que falar, é ouvir.
  • 64. (*) Quando vejo mapas mostrando como o Homo Sapiens se espalhou pelo planeta, saindo da África, sempre penso: taí uma caminhadinha que eu gostaria de fazer! A vontade passa quando me lembro do sol que teria que aguentar. Adoro caminhar, ver o tempo imprimir, na lona dos meus tênis, o desenho dos meus pés. Como uma chapa de raios-X. Olho para baixo e vejo um par de sudários andando por aí. Como um polegar na carteira de identidade, eu carimbo pegadas no chão de Porto Alegre. Onde o solo é mais propício. Quando asfalto, basalto e paralelepípedos dão chance à terra. Assim caminha a humanidade, marcando o chão e sendo marcada por ele. Assim caminho e assobio: “Ascensão e queda são dois lados da mesma moeda”. (*) Decidi não ter mais carro. Não pense que é um ato heroico, de consciência ambiental. Confesso que vivo pedindo emprestado o trator da minha mulher ou o fusquinha da minha filha. Graças a Deus, de segunda a quinta, consigo levar minha vida relativamente independente de horários, dá pra fazer quase tudo a pé. Nos shows dos fins de semana, ando de ônibus e avião, nunca de carro. Ser um pedestre desperta outras sensibilidades. Quando falam sobre automóveis, geralmente as pessoas analisam a potência do motor, o conforto, o quanto de inveja causará no vizinho de garagem (apesar de poucos admitirem isso). O que eu mais prezo em um automóvel são as luzes que piscam avisando se o cara vai dobrar à direita ou à esquerda. O som das buzinas também me interessa. São acessórios para que o carro se comunique. Com civilidade, pois ser dono de um carro não significa ser dono das ruas e estradas.
  • 65. Quando falam de smartphones, as pessoas geralmente analisam a velocidade do processador, a variedade dos aplicativos. Eu reclamo da pouca visibilidade da tela ao sol. E acho incrível que o touchscreen funcione mesmo na chuva. É o ponto de vista de quem caminha ao sol e na chuva. Fora do casulo sobre rodas. (*) Caminhando, a gente saca nuances que passam despercebidas quando estamos motorizados. Em um mesmo trajeto, conforme a hora do dia, a sombra estará neste ou naquele lado da rua. Conforme a estação do ano será melhor andar ao sol ou à sombra. Se queremos uma caminhada mais introspectiva, melhor respeitar as curvas de nível do terreno, evitar subidas e descidas. Se ganhar tempo é a prioridade, melhor enfrentar as lombas. E o suor. Caminhando, esbaforido no verão ou enregelado no inverno, é comum alguém me reconhecer, parar o carro e perguntar admirado: “E aí, caminhando ?!”. Nunca me ocorreu ir para o meio da rua, parar o tráfego e gritar “E aí, andando de carro ?!”. Sensibilidades diferentes. (*) Sou fã das leis do trânsito. É lindo que alguém tenha estudado o fluxo e decidido que esta rua só deve ir, aquela só deve voltar, aqui não dá pra dobrar, lá é obrigatório parar. Parecem limites, mas, na verdade, são os alicerces de uma liberdade maior. Se cada um pudesse ir para o lado que quisesse, fazendo o caminho mais curto entre dois pontos, a cidade pararia num engarrafamento insolúvel. As regras do trânsito são, para mim, a melhor tradução do dito bíblico “disciplina é liberdade”. Ok, ok, talvez eu tenha esta boa vontade porque nós, pedestres, podemos andar para o lado que quisermos. Na verdade, também temos nossos limites: não pense em pular aquele muro para atalhar, há um cão estressado te esperando no outro lado! (*) Moro numa cidade que anda e caga para quem anda. O motorista não respeita a faixa,
  • 66. o condomínio não respeita a calçada, o dono do cachorro não respeita a higiene. À noite, sensores de movimento acendem as luzes dos condomínios quando passo. Deixo para trás um rastro de luz inútil. Ilhas de claridade desabitada. Sou apenas um vulto suspeito para motoristas que, assustados, tentam entrar na garagem antes mesmo de o portão abrir. Calma, meu senhor, estou só caminhando, não me interesso por seu carro, pode esperar os guardas do castelo baixarem a ponte sobre o fosso dos jacarés. Havia terrenos baldios. Espaço de transição entre bairros, cidades, pessoas. Havia jardins, transição entre espaço público e privado. Estão todos cercados. Há muros e grades. O que é meu é meu; o que não é meu não é de ninguém. Não tome minha conversa como melancolia saudosista. Só estou vendo as flores crescerem. Com seus espinhos. Nas minhas andanças, tenho notado outra mudança na cidade: está ficando mais raro ver nas esquinas restos de rituais de religiões afro-brasileiras. Qual será a causa? A especulação imobiliária? O avanço dos tele-evangelistas? Não sei... Questões profundas demais para este simples andarilho. (*) Ops, peraí! Desde o dia em que escrevi estes parágrafos até a revisão de hoje, alguns motoristas pararam na faixa de pedestre para que eu atravessasse! Também vi pessoas levando sacos plásticos junto à coleira dos seus cães! Até reparos em uma calçada eu testemunhei! E agora? Deleto meu comentário anterior ou ignoro os fatos novos? Do ponto de vista estatístico, minha amostragem é irrelevante. Eu teria que passar anos andando pelas ruas para que minhas observações, seja do descaso por calçadas e pedestres, ou da educação de motoristas e donos de cães, formassem um número matematicamente representativo. A vida é assim, não podemos nos basear na matemática das nossas vivências (você acha que conhecerá uma amostragem significativa de pretendentes antes de decidir ficar com alguém? Pode tirar o cavalinho da chuva!). Na hora do salto, quando a ciência nos deixa